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EuPTCVHe0872-81782014000200002

EuPTCVHe0872-81782014000200002

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-8178
Year2014
Issue0002
Article number00002

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O impacto da hepatite C em Portugal

Introdução A infeção pelo vírus da hepatite C (VHC) constitui um grave problema de saúde pública a nível mundial devido à elevada taxa de progressão para a cronicidade e potencial evolutivo para cirrose e carcinoma hepatocelular (CHC), as principais causas de morte por VHC1.

O objetivo da terapêutica antivírica é a cura da infeção, através da eliminação sustentada do vírus, prevenindo assim o desenvolvimento destas complicações.

Dada a evolução lenta da hepatite C, estima-se que, na ausência de tratamento, as complicações decorrentes do VHC venham a aumentar nos próximos anos, que a maior ocorrência de novas infeções deverá ter acontecido em meados da década de 802.

Nos estádios mais avançados de progressão da doença, a hepatite C representa custos muito elevados devido ao consumo de recursos em saúde, nomeadamente hospitalizações, consultas médicas, medicamentos, análises e exames, e nalguns casos, necessidade de transplante hepático. O reconhecimento e caracterização do impacto da doença em Portugal torna-se assim essencial na sustentação das tomadas de decisão relacionadas com a prevenção e tratamento da doença.

O presente estudo teve como objetivo caracterizar o impacto da infeção pelo VHC em Portugal, através da recolha de dados epidemiológicos e história natural da doença, da caracterização da prática clínica atual, do cálculo de custos associados aos diferentes estádios de progressão da doença e da avaliação do impacto do VHC na qualidade de vida dos doentes.

Material e métodos Revisão da literatura Com o objetivo de recolher e analisar a informação científica disponível sobre a infeção pelo VHC em Portugal, efetuou-se uma revisão da literatura médica publicada. Foram considerados estudos publicados entre 1989-2013, nas bases de dados MEDLINE e Cochrane Library, através de uma pesquisa do tipo Free-Text Search, utilizando os seguintes termos: («HCV» ou «Hepatitis C») e «Epidemiology» e («Europe» ou «Portugal»); («HCV» ou «Hepatitis C») e «Global Burden of disease»; («HCV» ou «Hepatitis C») e «Natural history»; («HCV» ou «Hepatitis C») e («Therapy» ou «Triple Therapy»).

A estratégia de pesquisa incluiu também recolha de informação em websitesde organizações nacionais e internacionais (por exemplo, normas orientadoras da prática clínica)3>,4.

Painel de peritos Após revisão da literatura, foi conduzido, em janeiro de 2013, um painel de peritos para recolha de estimativas e validação de dados extraídos da literatura sobre a infeção por VHC em Portugal. Seis peritos com experiência na área do VHC, provenientes de diferentes zonas geográficas do país (Norte, Centro e Sul) estiveram reunidos, tendo o painel decorrido segundo o método de Delbecq na presença de um moderador5,6.

Cálculo dos custos associados à infeção por vírus da hepatite C Para analisar as implicações económicas da infeção por VHC em Portugal, recorremos à estimativa dos custos diretos e indiretos decorrentes desta doença. Os custos foram estimados em euros, segundo a perspetiva da sociedade e calculados para o ano de 2013.

Após a identificação e quantificação dos recursos pelo painel de peritos, procedeu-se à alocação dos respetivos custos unitários, com base em preços/ tarifas obtidos a partir de fontes oficiais e literatura, nomeadamente: Catálogo da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS)7 para custos da medicação reservada a utilização em meio hospitalar; base de dados INFOMED8 para custos da medicação dispensada em ambulatório; Relatório de Contabilidade Analítica dos Hospitais9 para custos das consultas de especialidade; tabelas de GDH10,11para custos de hospitalizações e exames complementares de diagnóstico e terapêutica; estudo de Elbasha et al. para custos da medicação nos doentes transplantados12.

Os custos indiretos mensurados foram os associados à perda de produtividade de trabalhadores vivos (absentismo)13.

Resultados Perfil epidemiológico Incidência Os dados existentes sobre a incidência de hepatite C em Portugal são escassos e resultam do número de notificações efetuadas, estando por isso associados a um baixo nível de evidência científica. Dado o perfil assintomático da infeção aguda, é reconhecido que nem todos os novos casos são notificados e que muitos dos notificados correspondem a novos diagnósticos de infeção crónica.

A partir de uma revisão sistemática da literatura, Muhlberger et al. estimaram para a região europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma taxa média anual de incidência de hepatite C de 6,19 casos por 100.000 habitantes (intervalo de confiança (IC) a 95%: 4,90-7,48), no período de 1997-200414.

Neste período, os dados publicados relativos à incidência da hepatite C em Portugal indicam um valor máximo de 6,9 novos casos/100.000 habitantes em 199815,16.

Os dados bibliográficos disponíveis para Portugal refletem ainda uma tendência decrescente na taxa de incidência entre 1998 (6,9 casos/100.000 habitantes) e 2010 (0,37 casos/100.000 habitantes)15-17. No entanto, a validade desta análise é limitada pelos motivos supramencionados.

O painel de peritos estimou que a taxa anual de incidência da hepatite C em Portugal seja de pelo menos um novo caso por 100.000 habitantes, o que corresponderá a um número mínimo de 100 novos casos por ano.

Prevalência A verdadeira prevalência da hepatite C não é conhecida devido à inexistência de estudos epidemiológicos que envolvam amostras representativas da população.

Atualmente estima-se que 2-3% da população mundial (130-170 milhões de pessoas) esteja infetada pelo VHC18. Considerando apenas a União Europeia, a prevalência estimada decresce para aproximadamente metade (1,1-1,3%), correspondendo a 7,3- 8,8 milhões de infetados18.

Na população portuguesa, Marinho et al. estimaram uma prevalência de aproximadamente 1,5% com base nos dados de seroprevalência em dadores de sangue e utilizadores de drogas por via endovenosa19. De acordo com o painel de peritos, estima-se que a prevalência atual da doença permaneça entre 1-1,5%, ou seja, existirão atualmente em Portugal cerca de 100.000 a 150.000 doentes infetados pelo VHC. Destes, assume-se que apenas 30% se encontrem diagnosticados, correspondendo a aproximadamente 37.500 doentes.

A distribuição dos doentes diagnosticados pelos diferentes estádios de desenvolvimento da doença foi também caracterizada pelo painel de peritos, que estimou que a grande maioria destes doentes se encontrem atualmente com hepatite C crónica (60%), estando os restantes distribuídos pelos estádios de cirrose hepática compensada (30%), descompensada (6%) e CHC (4%).

O painel de peritos caracterizou ainda a prevalência da infeção pelo VHC em subpopulações de risco através da prática clínica e da validação de dados bibliográficos20. Estimaram-se percentagens muito elevadas de VHC nos utilizadores de drogas por via endovenosa (50%), em particular nos utilizadores de longa duração (80%) e nos doentes coinfetados pelo VIH (30%). Outros grupos de risco identificados, ainda que com menor prevalência, foram os doentes em hemodiálise (5%), recetores de transfusões sanguíneas antes de 1992 (2%) e bebés de mulheres infetadas pelo VHC (transmissão vertical: 1,5%).

Genótipo O VHC é um vírus de RNA de cadeia simples que apresenta grande variabilidade genética. Atualmente existem 6 genótipos identificados21.

A determinação do genótipo (G) do VHC é de importância clínica fulcral, pois determina a probabilidade de resposta, o tipo de tratamento e sua duração, bem como a dose de ribavirina (RBV) a utilizar22.

À semelhança do que acontece a nível mundial, o G1 foi o genótipo mais prevalente em 2 estudos epidemiológicos realizados em Portugal (2001 e 2009), estando presente em 50-60% dos doentes20. De acordo com o painel de peritos, a distribuição obtida em 2009 corresponde à atual distribuição dos genótipos em Portugal, sendo o mais frequente o G1 (60%), seguido do G3 (25%), G4 (7%) e G2 (2%)20,23.

Mortalidade Muhlberger et al. estimaram um número de 1.117 mortes/ ano (11,12 mortes/ 100.000 habitantes) devidas ao VHC em Portugal com base nos dados de mortalidade da OMS de 200214. Uma vez que os dados de mortalidade da OMS relativos à hepatite C crónica excluem as mortes por cirrose hepática e CHC24, as principais causas de morte associadas ao VHC, os autores utilizaram as frações de cirrose hepática e CHC atribuíveis ao VHC na Europa (38 e 44%, respetivamente), publicadas por Perz et al.14,25, para calcular o número total de mortes associadas ao VHC.

De acordo com o painel de peritos, atualmente serão atribuíveis ao VHC 20% do número total de mortes devidas a cirrose hepática e 50% do número total de mortes devidas ao CHC em Portugal.

Recorrendo ao método de cálculo de Muhlberger et al. e utilizando os dados de mortalidade da OMS de 2008 e as frações atribuíveis para Portugal supramencionadas, a estimativa para Portugal é de 984 mortes/ano devidas ao VHC, correspondente a uma taxa de mortalidade de 9,21 mortes/100.000 habitantes (tabela_1). Por outro lado, se o cálculo relativo à mortalidade for efetuado com base numa taxa de mortalidade de 4% em doentes cirróticos devido ao VHC e na distribuição atual dos doentes pelos diferentes estádios de progressão da doença em Portugal, ambas obtidas através do painel de peritos, estima-se que ocorram 600 mortes/ano em doentes com cirrose hepática (incluindo descompensação hepática e CHC). O número estimado de mortes devidas ao VHC em Portugal poderá assim oscilar entre as 600-984 mortes/ano.

História natural da infeção pelo vírus da hepatite C Durante a fase aguda da infeção, a maioria dos doentes mantém-se assintomática, pelo que é frequente a ausência de diagnóstico26,27. Em alguns doentes a infeção é autolimitada, com erradicação espontânea do vírus. No entanto, em 54- 86% dos doentes adultos evolução para cronicidade26 (fig._1).

Uma vez estabelecida a hepatite C crónica, a erradicação espontânea do VHC raramente ocorre e a doença poderá progredir, causando lesão celular do fígado e cirrose hepática. Estima-se que 15-51% dos doentes com hepatite C crónica desenvolvam cirrose hepática num determinado momento da sua vida (fig._1). A progressão para este estádio decorre durante várias décadas, sendo influenciada por diversos cofatores, como consumo de álcool, diabetes, idade avançada, coinfeção pelo VIH ou outros vírus hepatotrópicos26.

Numa meta-análise de 111 estudos realizados em doentes com hepatite C crónica, Thein et al. estimaram que a probabilidade cumulativa da progressão para cirrose 20 e 30 anos após a infeção é de 16% (IC 95%: 14-19%) e 41% (IC 95%: 36-45%), respetivamente28.

A cirrose hepática tem uma fase de doença compensada e outra, mais tardia, de descompensação, quando surgem complicações da doença associadas à hipertensão portal e/ou insuficiência hepática (por exemplo, ascite, icterícia, encefalopatia hepática, rotura de varizes esofágicas, peritonite bacteriana espontânea, sépsis)2,26,27. Estima-se que anualmente 3-6% dos doentes com cirrose hepática compensada sofram uma descompensação clínica grave26 (fig._1).

Após a primeira descompensação, a mortalidade aumenta para 18% no ano seguinte26. A taxa de sobrevivência a 5 anos é de 50%2.

O VHC é também um vírus com potencial oncogénico, encontrando-se associado a 25-30% dos casos de CHC em todo o mundo29. Na Europa, esta percentagem varia entre 40-70%25,29. Estes dados são concordantes com os obtidos no painel de peritos, cujas estimativas apontam para que 50% dos casos de morte por CHC em Portugal sejam devidos ao VHC.

A grande maioria dos casos de CHC (80%) ocorre em doentes cirróticos, principalmente naqueles com fibrose avançada30. O risco de desenvolvimento de CHC nestes doentes é de 1-5%/ano e as estimativas do risco global de CHC a 5 anos situam-se entre 7-30%26,31,32. O risco de mortalidade no primeiro ano após o diagnóstico de CHC é de 33%27. As terapêuticas atualmente disponíveis parecem ter impacto modesto na taxa de mortalidade do CHC32, pelo que se torna crucial evitar o desenvolvimento desta complicação.

Prática clínica atual O principal objetivo da terapêutica do VHC é a cura ou erradicação da infeção após cessação do tratamento, avaliada na prática clínica através da resposta virológica mantida (RVM) ao tratamento, isto é, nível indetetável de RNA-VHC (< 50 UI/ml) no sangue 24 semanas após o final do tratamento27. A RVM encontra-se normalmente associada à resolução da doença hepática em doentes sem cirrose27 e a uma diminuição muito significativa do risco de descompensação hepática, CHC e morte por doença hepática em doentes cirróticos, existindo mesmo em alguns casos reversão da cirrose33-37.

A terapêutica dupla com interferão-alfa peguilado (Peg-IFN) e RBV é a terapêutica atualmente aprovada em Portugal para a infeção crónica pelo VHC22,27. Presentemente encontram-se disponíveis no mercado 2 formulações de Peg-IFN (2a e 2b).

A taxa global de RVM nos doentes monoinfetados tratados com terapêutica dupla é de 50-60%, sendo superior nos doentes portadores de G3/G4 (65-82%) e inferior nos doentes portadores de G1 (40-54%). Nos doentes coinfetados (VIH/VHC) estas taxas são inferiores: 50% nos doentes portadores de G3/G4 e 20% nos de G127,30,35.

O facto de 46-60% dos doentes portadores de G1 não atingirem a RVM revela a existência de uma importante lacuna terapêutica, recentemente colmatada pelos inibidores da protease do VHC, boceprevir e telaprevir, especificamente desenvolvidos para o tratamento de doentes com hepatite C crónica portadores de G1, em combinação com o Peg-IFN e RBV22.

Nos doentes portadores de G1 sem tratamento prévio, o ganho de eficácia com a terapêutica tripla com boceprevir ou telaprevir oscilará entre os 20-30%, comparativamente à utilização da terapêutica dupla, verificando-se assim um aumento da taxa de RVM para cerca de 60-70%38,39.

À data de elaboração deste estudo, o boceprevir e o telaprevir não são de livre aquisição pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS) e a sua cedência nos hospitais públicos é apenas possível mediante a concessão de uma autorização de utilização especial pelo INFARMED.

De acordo com o painel de peritos, se a terapêutica tripla fosse de livre aquisição no SNS, atualmente 80% dos doentes portadores de G1 seriam tratados com a mesma. As estimativas do painel indicam ainda que, dos doentes portadores de G1, serão candidatos a terapêutica tripla 70% dos doentes sem tratamento prévio e 95% dos não respondedores à terapêutica dupla.

Prática clínica em Portugal De acordo com o painel de peritos, atualmente estima-se que 35% dos doentes diagnosticados com infeção pelo VHC tenham efetuado tratamento e que 55% destes casos estejam curados da infeção (RVM). Dos doentes tratados e curados, 79,5% não se encontram em seguimento clínico, mas 20% dos doentes permanecem em seguimento. Estes doentes têm cirrose hepática compensada pelo que, apesar de atingida a RVM, têm um prognóstico pós-tratamento diferente, sendo necessário efetuar o rastreio de possíveis complicações hepáticas, como CHC e varizes esofágicas27; 0,5% dos doentes progride para CHC (tabela_2).

A estimativa atual do número de doentes elegíveis para terapêutica antivírica, obtida a partir do painel de peritos, é apresentada na figura_2. O número estimado de doentes sem tratamento prévio elegíveis para tratamento ascende a aproximadamente 11.000. Destes, espera-se que 20% sejam tratados anualmente (cerca de 2.150 doentes/ano).

Transplante hepático O VHC constitui a principal indicação para transplantação hepática associada a infeções víricas30.

Em Portugal, o painel de peritos estimou que 20% dos transplantes hepáticos realizados sejam devidos ao VHC. Considerando uma média de 250 transplantes hepáticos realizados anualmente em Portugal, cerca de 50 destes transplantes serão devidos ao VHC40.

Dado o curso lento da hepatite C crónica, é expectável que a necessidade de transplante hepático aumente nos próximos anos devido ao incremento do número de casos de descompensação hepática e CHC41,42.

Custos da doença em Portugal Custo anual dos novos tratamentos com terapêutica dupla O esquema posológico da terapêutica dupla difere entre portadores de G1/4 e G2/ 3, relativamente à dose de RBV e à duração média do tratamento. Assim, o cálculo do custo anual da terapêutica dupla baseou-se primeiramente na distribuição do número de doentes a tratar/ano por genótipo, utilizando as estimativas do painel de peritos mencionadas anteriormente (G5/6 não incluídos na estimativa, dada a prevalência residual em Portugal).

Para efeitos de cálculo assumiu-se ainda, com base no painel de peritos, que 70% dos doentes serão tratados com Peg-IFN 2a e 30% com Peg-IFN 2b.

Globalmente, estima-se que o custo anual da medicação antivírica (PegIFN + RBV) utilizada no tratamento de novos casos seja de 12,7 milhões de euros (tabela 3). Estima-se ainda que os custos anuais da monitorização destes doentes (consultas e exames complementares de diagnóstico) correspondam a aproximadamente 5 milhões de euros, perfazendo um custo total de 17,7 milhões de euros.

Custo anual dos novos tratamentos considerando a terapêutica tripla Os custos unitários dos novos tratamentos com terapêutica tripla foram calculados com base na duração estimada do tratamento, definida pelo estádio do doente (com ou sem cirrose) e pela obtenção da resposta virológica extensiva, oscilando entre 24.000-45.000 D /doente (tabela_4).

O custo médio da terapêutica tripla/doente foi estimado em 33.838 D . Este cálculo teve em consideração 4 variáveis: os custos unitários supramencionados, a distribuição atual dos doentes elegíveis para tratamento em cirróticos (20%) e não cirróticos (80%), a taxa esperada de resposta virológica extensiva para cada um dos tratamentos disponíveis38,39 e as estimativas de utilização de boceprevir (40%) ou telaprevir (60%), obtidas a partir do painel de peritos.

Globalmente, se a terapêutica tripla fosse de livre aquisição no SNS, estima-se que o custo anual total dos novos tratamentos em doentes sem tratamento prévio (n = 2.155) seria de cerca de 48 milhões de euros (tabela_5).

A análise deste valor deverá ser sempre contextualizada considerando a existência de um incremento de eficácia de 30%, associado à utilização da terapêutica tripla nos doentes sem tratamento prévio portadores de G1 e ao facto desta terapêutica ser realizada uma única vez por doente.

Custo anual por doente por estádio O custo anual médio, por doente e por estádio, foi estimado em 432 D na hepatite C crónica, 522 D na cirrose hepática compensada, 11.103 D na cirrose hepática descompensada e 17.128 D no CHC. Estes valores foram calculados considerando apenas o seguimento clínico do doente (excluindo os custos associados ao diagnóstico da doença e custos de um eventual tratamento antivírico).

Custo anual de doentes transplantados hepáticos devido ao vírus da hepatite C O custo anual médio por doente transplantado foi estimado em 116.154 D no primeiro ano (incluindo transplante) e 6.886 D nos seguintes. O número de doentes em seguimento foi calculado utilizando a estimativa do número de transplantes hepáticos efetuados nos últimos 10 anos devido à hepatite C e as taxas de sobrevivência a 10 anos do European Liver Transplant Registryem doentes transplantados devido a cirrose hepática4.

Deste modo, o custo total anual de novos transplantes hepáticos devidos ao VHC (n = 50) foi estimado em 5,85 milhões de euros e o custo total de seguimento dos doentes transplantados em anos posteriores (n = 320) em 2,2 milhões de euros.

Globalmente, o custo anual de doentes transplantados devido ao VHC totaliza cerca de 8,1 milhões de euros, dos quais 72,8% se devem a novos transplantes.

Custo anual do acompanhamento de doentes infetados pelo vírus da hepatite C Este custo foi estimado em 70,9 milhões de euros/ano (fig._3) e calculado com base na estimativa do número de doentes em cada estádio de progressão da doença e no custo anual médio/doente/estádio. Os custos mais elevados estão inequivocamente associados aos estádios mais avançados da doença hepática: cirrose hepática descompensada (25 milhões de euros) e CHC (26,7 milhões de euros).

Custo anual do acompanhamento de doentes tratados e não tratados Este custo foi obtido considerando o custo anual médio/doente/estádio e o número de doentes tratados e não tratados em cada estádio (tabela_2). Em todos os subgrupos, pode observar-se que a maior proporção dos custos está associada aos estádios mais avançados da doença: cirrose hepática descompensada e CHC (fig._4). Os custos associados aos doentes curados são muito reduzidos (1,4 milhões de euros), que em cerca de 80% dos doentes se observou resolução da doença.

Custos indiretos Com base no consenso obtido em painel de peritos, enumeram-se as seguintes conclusões: (a) não existe absentismo resultante da doença nos doentes com hepatite C e cirrose hepática compensada; (b) menos de 20% dos doentes com cirrose hepática descompensada e CHC encontra-se em situação profissional ativa (e apenas 10% dos doentes se encontra nestes estádios); (c) a idade média nos estádios mais avançados é de 58 e 69 anos, respetivamente. Decorrente destas 3 considerações, considera-se assim que o custo indireto anual associado à perda de produtividade dos doentes com VHC é totalmente desprezável mediante os custos diretos estimados anteriormente.

Qualidade de vida Nos estudos de Global Burden of Disease(2002 e 2004)24 a OMS apresenta estimativas dos anos de vida ajustados por incapacidade (Disability-Adjusted Life Years, DALY) para a hepatite C na região europeia e em Portugal, sem contabilizar, no entanto, os DALY associados à cirrose e ao CHC devidos a VHC, que constituem as principais causas de morte e de perda de qualidade de vida.

No estudo de Mulhberger et al. são apresentadas estimativas de DALY associados à hepatite C em diferentes países europeus, incluindo Portugal, sendo contabilizados nessas estimativas os DALY devidos aos casos de cirrose hepática e CHC resultantes da infeção pelo VHC14. À semelhança do método utilizado para o cálculo da mortalidade, o cálculo dos DALY baseou-se nos dados da OMS de 2002 e nas frações de cirrose hepática e CHC atribuíveis à infeção por VHC, reportadas por Perz et al.14,25. Neste estudo, Portugal figura entre os países europeus com maiores taxas de DALY associados ao VHC (152,2 DALY/100.000 habitantes)14.

O cálculo apresentado na tabela_6 segue o método de Mulhberger et al., mas utiliza os dados da OMS de 2004 e as frações dos casos de cirrose hepática e CHC atribuíveis ao VHC em Portugal (20 e 50%), estimadas a partir dos dados de mortalidade recolhidos no painel de peritos.

Com base neste cálculo, o VHC encontra-se associado a uma taxa de 87 DALY/ 100.000 habitantes, estando 85% destes DALY associados aos estádios mais avançados da doença (tabela_6). Esta estimativa é inferior à de Mulhberger et al. (2009) para Portugal, o que se justifica pelas diferenças na base de dados utilizada e frações de cirrose hepática e CHC atribuíveis ao VHC.

Ainda assim, a taxa de DALY associada ao VHC em Portugal é semelhante à estimada para o cancro da próstata (95) e leucemia (85) e superior à do cancro do pâncreas (74), esófago (54) e colo do útero (42)24.

Limitações do estudo Devido à escassez de estudos e literatura publicada relativamente à epidemiologia e aos custos associados à infeção pelo VHC em Portugal, a maioria dos cálculos efetuados foram baseados em estimativas, obtidas a partir de um painel de peritos realizado segundo o método de Delbecq. De modo a maximizar a validade externa das estimativas obtidas a partir deste método e capturar a população portuguesa de doentes que se encontra em tratamento/acompanhamento em meio hospitalar, foram selecionados peritos de diferentes áreas geográficas e das diferentes especialidades que acompanham estes doentes. De salientar ainda que, no decorrer da reunião, o consenso foi atingido em todas as questões efetuadas, após discussão entre os vários intervenientes, o que constitui um indicador de validade interna das estimativas obtidas.

Os cálculos dos custos da medicação utilizada em meio hospitalar basearam-se nos preços publicados no catálogo da ACSS e correspondem aos preços máximos praticados. Os preços efetivamente praticados entre os detentores dos medicamentos e os hospitais não são do domínio público, pelo que os custos apresentados poderão estar inflacionados relativamente aos custos reais.

Discussão Em Portugal, os gastos anuais relacionados com a hepatite C ascendem a cerca de 71 milhões de euros, sendo aproximadamente 83% deste valor (60 milhões de euros) devido às complicações da doença, nomeadamente cirrose hepática descompensada e CHC, e ao transplante hepático, muitas vezes necessário no tratamento destas complicações.

Atendendo a que a resolução da infeção por VHC obtida após tratamento antivírico está associada a uma diminuição muito significativa do risco de complicações hepáticas, CHC e morte por doença hepática, mesmo nos doentes com cirrose hepática compensada, o tratamento precoce irá reduzir a incidência destas complicações e consequentemente diminuir os custos associados.

Os resultados deste estudo confirmam a infeção por VHC como sendo uma doença com um elevado impacto na perspetiva da sociedade e do doente, assinalando a importância do diagnóstico e tratamento antivírico atempado nos doentes passíveis de beneficiar do mesmo.

Existe expressa necessidade de alocação eficiente de recursos (económicos e humanos) no sentido de melhorar a taxa de diagnóstico e tratar precocemente a doença, evitando desta forma a sua evolução para estádios mais avançados e, tal como demonstrado, mais onerosos. Para tal, poderá justificar-se uma política de rastreio mais agressiva, a ser implementada a nível nacional, que permita a identificação dos 70% de portadores do vírus atualmente não diagnosticados.

Um programa nacional de prevenção e diagnóstico na área da hepatite C é assim premente, entendendo-se que este problema deverá ser reconhecido nas várias vertentes da sociedade portuguesa: população geral, profissionais de saúde e decisores políticos.


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