Ajustamento emocional de doentes com Hemorragia Subaracnóidea (HSA)
aneurismática tratada cirurgicamente
Introdução
A Hemorragia Subaracnóidea (HSA), provocada pela rutura de um aneurisma
cerebral, é uma condição de alta morbilidade e mortalidade, com apenas um terço
dos sobreviventes a apresentarem um bom resultado funcional (Greenberg, 2003).
Os recentes avanços no tratamento da HSA têm possibilitado um aumento
significativo do número de sobreviventes e com um menor número de sequelas. No
entanto, quando ocorrem, por exemplo, parésias, afasias, estas são múltiplas e
graves, reduzindo a qualidade de vida e aumentando o risco de problemas
psiquiátricos como a depressão (Hedlund, Zetterling, Ronne-Engstrom, Ekselius,
& Carlsson, 2010). Apesar de a maioria das investigações com estes doentes
se ter focado em indicadores objetivos de avaliação, como a taxa de
sobrevivência, complicações subsequentes e nível de funcionalidade (King,
Kassam, Yonas, Horowitz, & Roberts, 2005), quer a experiência clínica, quer
alguns estudos previamente realizados (e.g., Berry, Jones, West, & Brown,
1997; Katati et al., 2007) demonstram que os doentes com HSA apresentam
dificuldades ao nível do ajustamento emocional (sintomatologia ansiosa e
depressiva). Conhecer a natureza destas dificuldades é essencial para delinear
estratégias eficazes para promover a adaptação emocional, após a ocorrência de
uma HSA tratada cirurgicamente. Por este motivo, o presente trabalho teve como
objetivos: 1) Caracterizar o ajustamento emocional de doentes com HSA tratada
cirurgicamente, há pelo menos seis meses; e 2) Identificar os fatores de
variabilidade (sociodemográficos, clínicos, qualidade de vida e apoio social)
do ajustamento emocional de doentes com HSA tratada cirurgicamente.
Fundamentação Teórica
Alguns estudos demonstraram que, no primeiro ano após uma HSA tratada
cirurgicamente, os doentes apresentavam níveis significativamente superiores de
sintomatologia ansiosa e depressiva, por comparação a um grupo de controlo
(Berry et al., 1997; Katati et al., 2007). Hedlund et al. (2010) verificaram
que 20% dos doentes com HSA apresentavam perturbações afetivas e 27%
apresentavam perturbações ansiosas, sete meses após a ocorrência da HSA. Cerca
de um ano após a HSA, Kreitschmann-Andermarh et al (2007) verificaram que 27,5%
dos doentes apresentavam níveis médios a moderados de depressão, enquanto 10%
apresentavam níveis de depressão clinicamente significativos. Cerca de dois
anos após a HSA, Fertl et al. (1999) constataram que 28% dos doentes
apresentavam depressão leve a moderada. No que respeita ao impacto a longo
prazo da HSA, Wermer, Kool, Albrecht, Rinkel, e Aneurysm Screening after
Treatment for Ruptured Aneurysms Study Group (2007) verificaram que, cerca de
oito a nove anos após a HSA, os doentes apresentavam níveis significativamente
superiores de sintomatologia depressiva, mas não ansiosa, por comparação à
população geral. Num outro estudo transversal, verificou-se que 30,2% dos
doentes que tiveram HSA nos últimos cinco anos e meio apresentavam níveis de
ansiedade e 23% apresentavam níveis de depressão, indicadores de possível
perturbação emocional, necessitando, pelo menos, de especial atenção clínica
(Solheim, Eloqayli, Muller, & Unsgaard, 2006).
Finalmente, num outro estudo com doentes com diferentes tipos de aneurismas,
verificou-se que a história prévia de HSA não se revela isoladamente como um
preditor de níveis acrescidos de ansiedade ou depressão; no entanto, a
conjugação de história prévia de HSA e a existência de um aneurisma não tratado
está associada a níveis acrescidos de ansiedade (King et al., 2005).
Do nosso conhecimento, a grande maioria dos estudos que se foca no ajustamento
emocional de doentes com HSA tem uma natureza predominantemente descritiva,
isto é, procura comparar os níveis médios de sintomatologia ansiosa e
depressiva dos doentes com HSA e da população geral, e identificar a
prevalência de sintomatologia clinicamente significativa. Deste modo, está por
explorar a influência de fatores sociodemográficos (e.g., género, idade,
habilitações literárias, estado civil, situação profissional) e clínicos (e.g.,
tempo decorrido desde a HSA, complicações pós-HSA) na sintomatologia ansiosa e
depressiva de doentes com HSA. Uma exceção é o estudo de Powell, Kitchen,
Heslin, e Greenwood (2004), que não encontrou relações significativas entre o
género, a idade e a sintomatologia ansiosa e depressiva. Conhecer a influência
destas variáveis é relevante, por permitir identificar antecipadamente os
doentes que terão maior risco de apresentar dificuldades de ajustamento
emocional.
Da mesma forma, é também importante perceber a relação entre a perceção de
qualidade de vida dos doentes após a HSA e a sintomatologia ansiosa e
depressiva. Katati et al. (2007) demonstraram que uma baixa qualidade de vida
interfere com a saúde mental dos doentes com HSA. De forma similar, outros
estudos encontraram associações entre a perceção de satisfação com a vida e a
sintomatologia depressiva (Eriksson, Kottorp, Borg, & Tham, 2009; Fertl et
al., 1999). Para além disso, o papel do apoio social no ajustamento emocional
dos doentes após a HSA deve também ser considerado, na medida em que várias
investigações têm revelado que o apoio social fomenta o bem-estar psicológico e
a saúde dos indivíduos, em diferentes contextos. Apesar de não serem do nosso
conhecimento investigações que examinem a relação entre apoio social e a
sintomatologia ansiosa e depressiva de doentes com HSA, esta relação foi
encontrada em doentes com outras patologias.
Metodologia
Procedimentos e amostra
O presente estudo é um estudo quantitativo de nível descritivo correlacional. A
recolha da amostra decorreu entre janeiro e maio de 2011, no Serviço de
Neurocirurgia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), Entidade
Pública Empresarial (EPE). Os critérios de inclusão para o presente estudo são:
1) ter tido uma HSA aneurismática tratada cirurgicamente, há pelo menos seis
meses; 2) estar, aquando da alta clínica para o domicílio, consciente e
orientado e sem perturbações de linguagem; e 3) ter idade igual ou superior a
18 anos. A população-alvo deste estudo inclui os doentes que tiveram uma HSA
aneurismática tratada cirurgicamente no período de janeiro de 2005 a julho de
2010. A Comissão de Ética para a Saúde e o Conselho de Administração do CHUC,
EPE aprovou o estudo.
Todos os doentes que preenchiam os critérios de inclusão foram contactados no
final de uma consulta externa de Neurocirurgia, sendo-lhes apresentados os
objetivos do estudo. Os doentes que aceitaram participar preencheram o
formulário de consentimento informado e disponibilizaram a sua morada para
envio do protocolo de avaliação. Os protocolos de avaliação foram enviados por
correio aos participantes, bem como um envelope pré-selado para a sua
devolução. Foram contactados 109 doentes, dos quais 60 aceitaram participar e
devolveram os questionários preenchidos (taxa de participação: 55%).
Instrumentos de avaliação
Ficha de dados sociodemográficos e clínicos: A ficha de dados procurava obter
informação sociodemográfica (sexo, idade, estado civil, habilitações
literárias, situação profissional, zona de residência) e clínica (antecedentes
pessoais, terapêutica do domicílio). Foi ainda recolhida informação sobre a
perceção de satisfação com o apoio recebido de diferentes fontes (Companheiro
(a), Familiares próximos, Amigos, Serviços e técnicos de saúde) após a HSA,
numa escala de resposta de 1 (Nada satisfeito) a 5 (Extremamente satisfeito). A
informação sobre a HSA aneurismática, a cirurgia e as complicações pós-HSA foi
retirada do processo clínico dos doentes, após o seu consentimento para
participar na investigação.
Escala de Ansiedade e Depressão Hospitalar ' HADS (Zigmond & Snaith, 1983;
Pais-Ribeiro et al., 2007): avalia a sintomatologia ansiosa e depressiva e é
constituída por 14 itens, com quatro opções de resposta (0-3); subdivide-se em
duas escalas (Ansiedade ' sete itens; Depressão ' sete itens), cujas pontuações
podem oscilar entre 0 e 21 pontos. Para cada uma destas escalas, os autores da
versão original do instrumento consideram que uma pontuação entre 8-10
sugestiva da possibilidade de presença de sintomatologia clínica, e uma
pontuação de 11 ou superior indica a presença dessa sintomatologia; Snaith
(como citado por Pais-Ribeiro et al., 2007). Os estudos da versão portuguesa
deste instrumento confirmam as suas boas propriedades psicométricas (Pais-
Ribeiro et al., 2007). Na amostra deste estudo, os valores de alfa de Cronbach
foram de 0,86 para a escala de Ansiedade e 0,74 para a escala de Depressão.
Medical Outcomes Study 36 ' Item Short Form - SF 36 (Ware & Sherbourne,
1992; Ferreira, 2000a, 2000b): é um instrumento genérico de avaliação da
qualidade de vida, composto por 36 itens, que são agrupados em oito domínios
(Funcionamento Físico, Desempenho Físico, Dor Corporal, Saúde Geral,
Vitalidade, Função Social, Desempenho Emocional e Saúde Mental). Os oito
domínios podem organizar-se ainda em duas componentes: os primeiros quatro
domínios constituem a Componente Física e os últimos quatro constituem a
Componente Mental. É também possível calcular a pontuação total da escala. Para
a interpretação dos oito domínios, das duas componentes e da pontuação total,
as pontuações são estandardizadas, expressando-se de 0 a 100. Pontuações
superiores são indicadoras de perceção de melhor qualidade de vida. Na amostra
deste estudo, o valor de alfa de Cronbach para a pontuação total da escala foi
de 0,94.
Tratamento estatístico
A análise dos dados foi realizada com o software estatístico Statistical
Package for the Social Sciences (SPSS v. 19.0). Para a caracterização da
amostra, foram calculadas estatísticas descritivas (frequências absolutas e
relativas para variáveis categoriais e médias e desvios-padrão para variáveis
contínuas). Para a caracterização do ajustamento emocional, utilizámos o teste
t one-sample, tomando como referência os dados obtidos (para a população geral)
no estudo de adaptação da versão portuguesa da escala (Pais-Ribeiro et al.,
2007). Foram ainda calculadas as frequências absolutas e relativas de
participantes nas diferentes categorias de sintomatologia de Ansiedade e
Depressão, tendo em conta as categorias propostas pelos autores da versão
original da escala.
Para examinar os fatores de variabilidade do ajustamento emocional de doentes
com HSA tratada cirurgicamente, realizámos testes t de student para comparação
dos níveis médios de Ansiedade e Depressão, em função de diferentes variáveis
categoriais (sexo, estado civil, situação profissional, residência, tempo
decorrido desde a HSA, existência de complicações pós-HSA, perceção de
qualidade de vida). No que respeita à qualidade de vida, seguimos o
procedimento proposto por Yamashiro et al. (2007), que classificaram os doentes
em dois grupos: aqueles cujas pontuações de qualidade de vida total era
inferior a 50 foram classificados na categoria Qualidade de vida baixa,
enquanto aqueles com pontuações iguais ou superiores a 50 foram classificados
na categoria Qualidade de vida média-alta. Procedemos ainda ao cálculo de
coeficientes de correlação de Pearson ou de Spearman, para analisar a
associação entre variáveis contínuas (idade) ou ordinais (habilitações
literárias, apoio social) e os níveis de Ansiedade e Depressão.
Por último, foram realizadas duas regressões logísticas tendo como variáveis
dependentes a Ansiedade e a Depressão, com 1 significando níveis de Ansiedade
ou Depressão merecedores de atenção clínica (>8) e 0 significando níveis de
Ansiedade ou Depressão normais. Foram introduzidas nas regressões logísticas
apenas as variáveis estatisticamente significativas na análise relativa aos
fatores de variabilidade. Foi considerado o nível de significância estatística
de p < 0,05, mas os resultados marginalmente significativos (0,05 < p < 0,10)
foram também reportados.
Resultados
Caracterização sociodemográfica e clínica dos participantes
A amostra é constituída por 60 participantes, com uma idade média de 52,77 anos
DP = 14,57, Min-Max: 24-77) e maioritariamente do sexo feminino n = 37; 61,7%).
A maior parte dos participantes encontra-se casada/em união de facto n = 40;
66,7%), tem como habilitações literárias o primeiro ciclo do Ensino Básico n =
23; 41,1%) e está atualmente empregada n = 24; 42,8%), apesar de uma parte
significativa estar reformada n = 21; 37,5%), de baixa médica n = 2; 3,6%), ou
desempregada n = 9; 16,1%). Metade dos participantes que responderam a esta
questão vive em zona urbana n = 26; 50%).
No que respeita às características clínicas, a HSA ocorreu, em média, há 40,78
meses DP = 14,63). Para 61,7% n = 37) da amostra, a HSA ocorreu há mais de três
anos. No que diz respeito aos antecedentes pessoais de saúde/fatores de risco,
46,7% n = 28) apresenta hipertensão arterial, 35% n = 21) tabagismo, 30% n =
18) dislipidémia e 8,3% n = 5) diabetes mellitus. A maior parte dos
participantes não apresentou complicações pós-HSA n = 28; 46,7%). Contudo,
33,3% da amostra n = 20) apresentou vasoespasmo, que é a principal complicação
pós-HSA, e 20% n = 12) da amostra apresentou outras complicações (e.g.,
hidrocefalia, enfarte cerebral).
Caracterização do ajustamento emocional dos doentes com HSA tratada
cirurgicamente
Os doentes com HSA tratada cirurgicamente apresentaram níveis
significativamente superiores de Depressão M = 4,79, DP = 3,59) por comparação
a uma amostra retirada da população geral (estudo de Pais-Ribeiro et al., 2007;
M = 3,22; t55 = 3,26, p = 0,002), mas não se distinguiram nos níveis de
Ansiedade (amostra HSA: M = 7,17, DP = 4,60; amostra retirada da população
geral: M = 7,81; t55 = -1,06, p = 0,296).
Considerando a classificação proposta pelos autores da versão original da
escala (Zigmond & Snaith, 1983), verificou-se que 19% n = 11) dos
participantes da amostra apresentaram níveis clinicamente relevantes de
Ansiedade (>11), enquanto 17,2% n = 10) apresentaram pontuações próximas do
limiar de relevância clínica (8-10). No que respeita à Depressão, 7,1% dos
participantes apresentaram níveis clinicamente relevantes de depressão n = 4),
enquanto 14,3% n = 8) apresentaram pontuações próximas do limiar de relevância
clínica. Níveis baixos de Ansiedade e Depressão foram encontrados,
respetivamente, em 63,8% =n 39) e em 78,6% n= 48) dos participantes.
Fatores de variabilidade do ajustamento emocional de doentes com HSA tratada
cirurgicamente
Fatores sociodemográficos
Não foram encontradas diferenças de género nas pontuações médias de Ansiedade
t56= 1,07, p = 0,289) ou Depressão t54 = -0,48, p = 0,636). Verificou-se uma
associação positiva e estatisticamente significativa entre a idade e os níveis
de Depressão r = 0,303, p = 0,023), indiciando a tendência dos participantes
mais velhos para apresentarem níveis superiores de depressão. A associação
entre a idade e os níveis de Ansiedade r = 0,111, p = 0,405) não se revelou
significativa.
O estado civil (casado/união de facto vs. viúvo/solteiro/divorciado) não se
revelou uma variável com influência significativa nos níveis médios de
Ansiedade t56 = 0,21, p = 0,838) ou Depressão t54 = 1,63, p = 0,109).
No que respeita às habilitações literárias, verificou-se uma associação
negativa e estatisticamente significativa entre as habilitações literárias e os
níveis de Depressão (ρ = -0,376, p = 0,006) e de Ansiedade (ρ = -0,272, p =
0,047). Os participantes com mais habilitações literárias tendem a apresentar
níveis de Depressão e de Ansiedade mais baixos. Relativamente à situação
profissional, não foram encontradas diferenças significativas nos níveis de
Ansiedade (t52 = -0,76, = p = 0,448) e Depressão (t50 = -1,09, p = 0,281), em
função de os participantes terem ou não ocupação no momento atual.
Por último, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas
nos níveis de Ansiedade (t48= 0,85, p = 0,401) e de Depressão (t47 = 0,85, p =
0,400), em função do local de residência.
Fatores clínicos
Não se verificaram diferenças significativas na Ansiedade ou Depressão conforme
o tempo de doença (tempo decorrido desde a HSA): os participantes cuja HSA
ocorreu há mais de três anos apresentaram níveis superiores de Ansiedade (M =
8,19, DP = 4,45; t56 = -2,24, p = 0,029) e marginalmente superiores de
Depressão (M = 5,38, DP = 3,87; t54 = -1,76, p = 0,085) do que os participantes
cuja HSA ocorreu há menos de três anos (Ansiedade: M = 5,50, DP = 4,45;
Depressão: M = 3,63, DP = 2,71).
Adicionalmente, foram encontradas diferenças significativas nos níveis de
Ansiedade (t56 = -2,04, p = 0,047) e Depressão (t54 = -1,88, p = 0,065), em
função da existência de complicações decorrentes da HSA: o grupo de
participantes com complicações pós-HSA (incluindo vasoespasmo e outras
complicações) apresentou níveis mais elevados de Ansiedade (M = 8,29, DP =
4,65) e de Depressão (M = 5,58, DP = 3,55) do que o grupo de participantes sem
complicações pós-HSA (Ansiedade: M = 5,89, DP = 4,31; Depressão: M = 3,80, DP =
3,46).
Apoio social
Como se verifica na Tabela_1, a perceção de satisfação com o apoio recebido de
diferentes fontes após a HSA mostrou-se significativamente associada aos níveis
de Depressão, mas não aos níveis de Ansiedade. Os resultados demonstraram a
associação bidirecional entre maior satisfação percebida com o apoio recebido e
níveis mais baixos de Depressão. De entre as diferentes fontes de apoio,
destacou-se a relação entre a satisfação com o apoio recebido pelos Serviços e
Técnicos de Saúde e os níveis de Depressão.
Qualidade de vida
Foram encontradas diferenças significativas nos níveis de Ansiedade e
Depressão, em função da perceção de qualidade de vida dos participantes. Os
participantes com uma perceção de qualidade de vida baixa apresentaram níveis
significativamente superiores de Ansiedade (M = 11,22, DP = 3,99; t56 = 5,54, p
< 0,001) e de Depressão (M = 7,65, DP = 3,60; t56 = 4,60, p < 0,001) por
comparação aos participantes com uma perceção de qualidade de vida média-alta
(Ansiedade: M = 5,35, DP = 3,66; Depressão: M = 3,54, DP = 2,82).
Preditores dos níveis de Ansiedade e Depressão merecedores de atenção clínica
O modelo de regressão logística para a Ansiedade revelou-se estatisticamente
significativo [χ23 = 19,38, p < 0,001; -2 Log Likelihood = 56,55, Pseudo R2 =
0,28 (Cox e Snell), 0,39 (Nagelkerke)]. Como se verifica no Tabela_2, a
existência de complicações pós-HSA e a perceção de baixa qualidade de vida
atual mostraram-se variáveis com poder preditivo significativo de níveis de
Ansiedade merecedores de atenção clínica. Para além disso, o modelo de
regressão logística para a Depressão foi marginalmente significativo [χ26 =
11,10, p = 0,085; -2 Log Likelihood = 42,56, Pseudo R2 = 0,19 (Cox e Snell),
0,30 (Nagelkerke)]. A baixa perceção de qualidade de vida atual revelou ser a
única variável com poder preditivo significativo da existência de níveis de
Depressão merecedores de atenção clínica.
Discussão
Os resultados mostram que os doentes com HSA apresentam níveis de depressão
mais elevados do que a população geral (x et al., 2007), mas não se distinguem
nos níveis de ansiedade. Estes resultados não vão totalmente ao encontro dos
estudos de Berry et al. (1997) e Katati et al. (2007), que encontraram
diferenças na sintomatologia depressiva, mas também ansiosa. No entanto, estes
estudos foram realizados com doentes cuja HSA tinha ocorrido há apenas um ano,
avaliando o impacto emocional a curto-prazo da sua ocorrência. Por outro lado,
os resultados deste estudo são semelhantes aos descritos por Wermer et al.
(2007), que avaliaram o impacto a longo prazo da ocorrência da HSA, tal como na
amostra deste estudo (tempo médio decorrido desde a HSA superior a três anos).
É possível hipotetizar que as limitações, habitualmente duradouras,
características desta condição de saúde (e.g., cefaleias, cansaço fácil,
dificuldades de concentração e memória, problemas de sono, irritabilidade,
falta de iniciativa e interesse), que são relatadas frequentemente pelos
doentes e que estão, também, associadas a distúrbios emocionais (Fertl et al.,
1999; Schuiling, Rinkel, Walchenbach, & de Weerd, 2005), podem ser
percecionadas como perdas e, consequentemente refletir-se em níveis acrescidos
de sintomatologia depressiva vários anos após a ocorrência da HSA. Apesar de
não termos avaliado a variável sequelas neurológicas neste estudo,
consideramos que esta é uma variável importante a considerar em estudos
futuros.
Verificámos ainda que, na amostra, 36,2% e 21,4% dos participantes
apresentavam, respetivamente, níveis de ansiedade e depressão merecedores de
atenção clínica, sendo estes resultados semelhantes aos resultados do estudo de
Solheim et al. (2006). Estes resultados demonstram que há uma proporção
importante de doentes com HSA que apresentam dificuldades de ajustamento
emocional. Se, por um lado, isto nos indica que a HSA é uma condição de saúde
com impacto no ajustamento emocional das pessoas, por outro lado, demonstra que
estas pessoas devem ser alvo de cuidados específicos pelos Serviços e Técnicos
de Saúde.
No que respeita aos fatores de variabilidade para a depressão, verificámos que
os doentes mais velhos e os doentes com menos habilitações literárias
apresentam níveis mais elevados de depressão. É possível que, quer as pessoas
mais velhas, quer as pessoas com menos habilitações possuam menos recursos e
estratégias para se adaptar à condição de saúde, percecionando, por isso, mais
perdas e limitações que se refletem em sintomatologia depressiva. Além disso, é
possível que as alterações fisiológicas decorrentes do processo de
envelhecimento conduzam a níveis acrescidos de sintomatologia depressiva; a
literatura tem evidenciado que no processo de envelhecimento são atingidos
todos os sistemas importantes do organismo, e a deterioração das estruturas e
das capacidades funcionais do organismo limita progressivamente a atividade da
pessoa, tornando-a cada vez menos apta a suportar o stress.
De igual modo, sabemos que cada vez mais as pessoas com mais de 65 anos tomam
ansiolíticos e antidepressivos. Na amostra deste estudo verificámos que 20% (n
= 17) tomava psicofármacos, nomeadamente ansiolíticos, estando dois doentes a
tomar antidepressivos. Verificámos ainda que níveis superiores de depressão
foram reportados por doentes cuja HSA ocorreu há mais tempo, por doentes que
tiveram complicações pós-HSA e por doentes com perceção de baixa qualidade de
vida. De forma geral, estes resultados sugerem que as limitações inerentes à
condição de saúde e o desgaste provocado por lidar com essas limitações ao
longo do tempo parecem estar associadas a níveis superiores de depressão. Neste
contexto, Jarvis e Talbot (2004) destacam as dificuldades diárias que as
pessoas com HSA tratada enfrentam, entre as quais o retorno ao trabalho, à vida
social e a fadiga excessiva. Por outro lado, verificámos que o apoio social
recebido de diferentes fontes (cônjuge, familiares, amigos e Serviços e
Técnicos de Saúde) se revela como um fator protetor da ocorrência de
sintomatologia depressiva nos doentes com HSA, como aliás se verifica noutras
condições de saúde. Por último, verificámos ainda que a perceção de baixa
qualidade de vida é a única variável que prediz significativamente a ocorrência
de sintomatologia depressiva merecedora de atenção clínica. Estes resultados
sugerem que, mais do que variáveis sociodemográficas ou clínicas, é a perceção
que os sujeitos têm da sua qualidade de vida atual que condiciona o seu
ajustamento emocional.
Relativamente aos fatores de variabilidade para a ansiedade, constatámos que
apenas os fatores clínicos (HSA ocorrida há mais de três anos e complicações
pós-HSA) e a perceção de baixa qualidade de vida influenciaram os níveis de
ansiedade. No que respeita ao tempo decorrido desde a HSA, apesar de não termos
outros estudos que ajudem a justificar esta hipótese, é possível que o facto de
a vigilância, pela especialidade neurocirúrgica, ir progressivamente
diminuindo, se reflita numa perceção de maior insegurança por parte dos
doentes, resultando em níveis acrescidos de ansiedade. No entanto, esta
hipótese necessita de ser melhor investigada em estudos futuros, nomeadamente
através de estudos longitudinais que permitam avaliar a evolução da
sintomatologia ao longo do tempo. De forma congruente, é possível que os
doentes com complicações pós-HSA apresentem mais sequelas, o que interfere
significativamente com os níveis de ansiedade. Estes doentes poderão ter um
receio acrescido de que volte a acontecer algo semelhante, sentindo-se mais
frágeis por percecionarem que o processo curativo não decorreu normalmente; o
medo de recorrência da HSA, ainda que seja injustificado, é, aliás, uma
preocupação frequente dos doentes (Noble et al., 2011).
Uma explicação semelhante pode ser apresentada para a relação entre qualidade
de vida e ansiedade. Como demonstram os resultados, a existência de
complicações pós-HSA e a perceção de baixa qualidade de vida predizem
significativamente a ocorrência de sintomatologia ansiosa merecedora de atenção
clínica. Em suma, consideramos que a perceção de qualidade de vida é uma
variável que não deve ser ignorada pelos Profissionais de Saúde na avaliação
destes doentes, pelo seu impacto na sintomatologia ansiosa e depressiva, tal
como foi, também, verificado noutros estudos (e.g., Fertl et al., 1999). No
entanto, não devemos também ignorar a relação biunívoca entre a qualidade de
vida e o ajustamento emocional, pelo que a intervenção dos Profissionais de
Saúde no ajustamento emocional dos doentes com HSA também terá um impacto
positivo na sua qualidade de vida.
Apesar de considerarmos que este trabalho é um contributo importante para o
conhecimento nesta área, ele tem também algumas limitações. A primeira
limitação é o facto de não termos utilizado um grupo de controlo com
características sociodemográficas semelhantes à amostra deste estudo,
permitindo uma comparação mais fidedigna dos níveis de ansiedade e depressão. A
segunda limitação é o tamanho da amostra que, ao influenciar o poder
estatístico, pode ter impedido a identificação de algumas variáveis com
influência nos níveis de Ansiedade e Depressão.
Conclusão
O primeiro objetivo do estudo pretendia caracterizar o ajustamento emocional de
doentes com HSA tratada cirurgicamente. Neste contexto, verificámos que os
doentes com HSA apresentam níveis superiores de sintomatologia depressiva, por
comparação à população geral, e uma proporção importante dos doentes apresenta
níveis de sintomatologia ansiosa e depressiva merecedora de atenção clínica. No
segundo objetivo, pretendíamos identificar os fatores de variabilidade da
sintomatologia ansiosa e depressiva; os fatores clínicos (tempo decorrido desde
a HSA e as complicações pós-HSA) e a perceção de qualidade de vida revelaram-se
os fatores com mais influência na sintomatologia ansiosa e depressiva. Os
resultados encontrados neste estudo apontam para a importância de melhor
investigar esta temática, replicando este estudo com amostras maiores e
avaliando os doentes longitudinalmente, de forma a compreender a evolução da
sintomatologia ansiosa e depressiva ao longo do tempo.
As conclusões deste trabalho permitem-nos ainda sugerir algumas implicações
para a prática clínica. Em primeiro lugar, a avaliação da sintomatologia
ansiosa e depressiva deveria integrar o processo de monitorização dos doentes
com HSA, ao longo do tempo. Em segundo lugar, os Profissionais de Saúde devem
procurar implementar estratégias de adaptação à condição de morbilidade dos
doentes com HSA (e.g., exercícios de memória e concentração, treino de
equilíbrio e marcha, uso de equipamentos adaptativos), na tentativa de reduzir
o impacto desta condição de saúde nas atividades diárias dos doentes,
melhorando o seu ajustamento emocional. Em terceiro lugar, os Profissionais de
Saúde devem oferecer espaço e oportunidade aos doentes para a expressão das
suas emoções e preocupações, bem como prestar-lhes apoio emocional, na medida
em que o apoio dos Serviços e Técnicos de Saúde se revelou uma variável
importante na diminuição da sintomatologia depressiva. Por último, os doentes
que apresentaram níveis de ansiedade e depressão merecedoras de atenção clínica
devem ser encaminhados para acompanhamento especializado.