Tradução, adaptação cultural e validação para português da Control Attitudes
Scale-Revised(CAS-R) em pessoas com doença cardíaca
Introdução
A influência do Controlo Percebido (CP) na saúde tem por base o controlo e as
capacidades de cada indivíduo para controlar eventos potencialmente negativos.
Mardiyono, Songwathana, e Petpichetchian (2011, p. 236) definem-no como ( )a
crença pessoal de que o indivíduo tem controlo sobre si e capacidade para
controlar eventos que constituem uma ameaça. As perceções de controlo têm
demonstrado ser importantes preditores do comportamento e funcionamento social,
sendo construções centrais em destaque nas teorias motivacionais, como a teoria
do comportamento planeado de Ajzen e a teoria social cognitiva de Bandura. A
definição deste construto tem ainda pouco consenso por ser definido por
diferentes teorias, sendo ainda o seu significado ambíguo. No entanto, este tem
vindo a ser entendido como uma característica da personalidade capaz de
contribuir para o ajustamento psicossocial dos indivíduos quando expostos a
eventos ameaçadores (Jacelon, 2007; Mardiyono et al., 2011) e, capaz de
minimizar as reações negativas aos acontecimentos adversos da vida (Beckjord,
Glinder, Langrock, & Compas, 2009). Importa referir que apesar de ser uma
característica da personalidade esta não é imutável, mas antes é capaz de ser
aumentada, nomeadamente com intervenções do foro educativo (Moser & Dracup,
2000; Moser & Watkins, 2008; Moser et al., 2012).
Existe evidência de que elevados níveis de CP se associam a níveis baixos de
sofrimento psíquico (Moser & Watkins, 2008). A investigação acerca deste
conceito tem demonstrado, que altos níveis de CP estão fortemente associados e,
em alguns casos, são preditivos de uma melhor saúde mental e física (Beckjord
et al., 2009). Sendo a ansiedade e a depressão fatores com influência negativa
na qualidade de vida dos indivíduos e relacionando-se de forma indireta com o
CP, quanto maiores forem os níveis de controlo percebido, melhor será a
qualidade de vida dos indivíduos (Moser & Watkins, 2008). Vários
investigadores se têm vindo a debruçar acerca da importância deste conceito na
área específica da doença cardiovascular (DCV). Moser e Watkins (2008), e Moser
et al. (2009) revelam que a qualidade de vida e a adaptação psicossocial à
cronicidade da doença, bem como o sucesso da recuperação psicossocial de
eventos cardíacos agudos, dependem mais de fatores psicológicos do que físicos,
sendo o maior objetivo preparar, com sucesso, a adaptação dos indivíduos às
suas condições cardiovasculares. O CP modera o impacto negativo da ansiedade
sobre as complicações intra-hospitalares, tais como as complicações pós-enfarte
agudo do miocárdio, incluindo isquemia recorrente, re-enfarte e arritmias
malignas (Moser et al., 2009). Um estudo de McKinley et al. (2012) vem reforçar
esta conclusão referindo-se à relação entre baixos níveis de controlo percebido
com um aumento de complicações pós-síndrome coronário agudo (SCA). Para além de
existir evidência científica do papel positivo do CP em indivíduos com doenças
cardiovasculares como o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e a insuficiência
cardíaca (ICC), Vollman, Lamontagne, e Wallston (2009) referem-se também ao
papel deste constructo em indivíduos com outras doenças crónicas como a
diabetes, o cancro, a doença mental e a artrite reumatóide. Moser e Watkins
(2008) mencionam também o papel positivo das perceções de controlo no aumento
da adesão ao regime terapêutico em indivíduos com diabetes, submetidos a
reabilitação cardíaca, hipertensos, alcoólicos e idosos. É atualmente inegável
a associação entre o CP e o melhor ajustamento psicossocial, a menor ansiedade,
depressão, stress emocional e a melhoria da autoestima tanto na doença aguda
como na crónica (Vollman et al., 2009).
A partir destes pressupostos emergem importantes implicações teóricas e
clínicas para os profissionais de saúde. Algumas dessas implicações na área da
enfermagem reportam-se ao desenvolvimento de intervenções capazes de aumentar
os níveis de CP em indivíduos com doença cardíaca contribuindo para uma redução
das complicações pós-SCA (McKinley et al., 2012). Desse modo, torna-se premente
a sinalização dos indivíduos com maior suscetibilidade para sofrerem de stress
psicossocial após um evento cardíaco. Tal irá permitir aos profissionais de
saúde desenvolverem intervenções com o objetivo de minimizar ao máximo os
efeitos negativos dos seus processos de saúde/doença e melhorarem a sua
adaptação às condições de saúde. Em grupos de indivíduos com doença crónica,
esta intervenção por parte dos enfermeiros é de extrema importância devido ao
elevado grau de exigência na autogestão da doença e do seu regime terapêutico,
permitindo uma melhor gestão da doença e dos sintomas a ela associada (Moser et
al., 2009).
A importância que o CP pode ter nos resultados em saúde, nomeadamente na área
cardiovascular, e a ausência de um instrumento específico capaz de avaliar a
perceção de controlo em doentes cardíacos em Portugal, levou-nos à pretensão de
traduzir, adaptar e validar para a realidade portuguesa, um instrumento capaz
de medir este constructo, tendo por base, um já existente nos Estados Unidos.
O presente artigo resulta de uma dissertação de mestrado realizada no âmbito
das Ciências de Enfermagem no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da
Universidade do Porto.
Foi nosso objetivo com este estudo, traduzir, adaptar linguística e
culturalmente e validar para português a Control Attitudes Scale Revised (CAS-
R) desenvolvida por Moser et al.(2009).
Metodologia
O processo de tradução, adaptação cultural e validação da CAS-R foi
desenvolvido através de um conjunto de procedimentos de modo a garantir a
equivalência linguística, cultural e métrica dos conceitos em estudo. Como
forma de dar corpo ao processo de tradução e adaptação cultural da escala,
optou-se por um estudo de cariz quantitativo e metodológico, tendo em
consideração o que Polit, Beck, e Hungler (2004) e Ribeiro (1999) referem
acerca das características dos mesmos.
A recolha de dados foi efetuada através de um formulário, aplicado pelo
investigador. Foi usada a técnica de entrevista, utilizando os seguintes
instrumentos: questionário de caracterização sociodemográfica e clínica,
construído pelo investigador; a versão portuguesa da escala de ansiedade e
depressão hospitalar (HADS) de Pais-Ribeiro et al. (2007); e, a versão por nós
traduzida e adaptada para o contexto português no presente estudo da Control
Attitudes Scale Revised (CAS-R) de Moser et al. (2009).
Os dados foram tratados com suporte do programa informático Statistical Package
for Social Sciences (SPSS), versão 19, onde foram avaliadas as suas
propriedades psicométricas tendo em conta os critérios descritos por Ribeiro
(1999) e com recurso à estatística paramétrica.
Ao longo do processo de investigação foram respeitados todos os princípios
éticos, que devem orientar qualquer investigação (Fortin, 2009). Destacam-se a
obtenção das autorizações dos autores das escalas utilizadas, e das comissões
de ética dos hospitais onde decorreu a colheita de dados, bem como a obtenção
do consentimento informado de cada um dos participantes no estudo.
Instrumento
A CAS-R foi originalmente desenvolvida por Moser et al. (2009). Tal como na
versão original, a versão traduzida e adaptada para a cultura portuguesa da
CAS-R é constituída por oito afirmações. Pretende-se, por meio destas
afirmações, averiguar o grau de controlo percebido de pessoas com doença
cardíaca, a partir do seu grau de concordância com cada uma delas, obtido
através de uma escala de likert de cinco pontos. O scoreglobal deste
instrumento varia entre 8 a 40, sendo que, quanto mais alto ele for, maior é o
grau de controlo percebido. O score é obtido a partir da soma dos oito itens
sendo que nas afirmações 5 e 8, a sua pontuação é invertida. A sua aplicação
pode ser sob a forma de autopreenchimento ou através de entrevista.
Processo de tradução e adaptação cultural
Depois de concedida a autorização pelos autores da CAS-R, procedemos à sua
tradução e adaptação, utilizando a metodologia descrita por Ribeiro (1999),
nomeadamente: a tradução da escala para o idioma falado e escrito em português,
sendo mantida a estrutura e as características da escala de origem. A tradução
foi efetuada pelo investigador, pela orientadora deste estudo e por uma
investigadora da área da saúde com formação base em Psicologia e Doutoramento
em Saúde Pública. A retroversão para a língua original foi realizada por um
tradutor independente (professor/perito de língua inglesa), o qual não tinha
conhecimento da escala original. No sentido da sua adequação linguística, foi
realizada a comparação entre as duas versões da escala (original e
retroversão), não existindo discrepâncias significativas entre as mesmas. Foi
ainda realizada uma análise e discussão de todos os itens da escala com
especialistas (professor de língua inglesa, psicóloga, investigador e
orientadora), no sentido de analisarmos a conotação cultural de cada um deles e
se o seu significado era sobreponível ao da cultura original. A versão final de
consenso foi ainda aplicada a dez participantes, com a finalidade de efetuar a
reflexão falada sobre os questionários (estudo piloto). Após o preenchimento do
instrumento, estes participantes (não incluídos no estudo principal) foram
questionados acerca da compreensão e pertinência das questões e facilidade de
preenchimento, permitindo aferir se os termos utilizados eram facilmente
compreendidos e aceitáveis pelos respondentes. Todos os inquiridos referiram
boa compreensão e aceitação das questões apresentadas. O tempo de resposta à
escala variou entre dois e três minutos.
Participantes
Como forma de dar continuidade ao processo de validação da versão portuguesa da
CAS-R recorremos a uma amostra do tipo intencional (Polit et al., 2004). A
amostra foi constituída por 160 pessoas internadas em serviços de cardiologia e
Unidades Cuidados Intensivos de Cardiologia (UCIC) de três hospitais da região
norte do país. A constituição da amostra obedeceu aos seguintes critérios: ter
idade igual ou superior a 18 anos; estar orientado no tempo e no espaço (sem
alterações cognitivas); estar estável sob o ponto de vista hemodinâmico;
aceitar participar no estudo; e estar internado há pelo menos 24 horas. A
recolha de dados decorreu no período entre janeiro e abril de 2011.
O tamanho da amostra é um aspeto fundamental para que os resultados deles
obtidos sejam seguros, nomeadamente quando se pretende estudar as
características psicométricas de um instrumento. Dado que não existem
indicadores perfeitos sobre o tamanho adequado de uma amostra, seguimos a regra
de Tinsley e Tinsley (como citado por Ribeiro, 1999) de utilizar, no mínimo,
cinco sujeitos por cada variável a medir.
As características dos participantes no estudo, obtidas através da estatística
descritiva, revelaram uma amostra constituída maioritariamente por homens
(65%), com uma média de idades de 62.17 anos (DP= 11.79), católicos (92,5%) e
residentes no distrito do Porto (62,5%) e de Braga (36,3%). Tendo em
consideração o estado civil, os intervenientes eram maioritariamente casados ou
viviam em união de facto (79,4%); residiam na sua maioria com o cônjuge,
cônjuge e filhos ou com um dos pais (74,4%), sendo o número de pessoas com quem
coabitavam, em média 1.89 (DP= 1.38). Quanto à escolaridade, verificou-se que
esta era muito baixa, possuindo a maioria dos participantes uma escolaridade
média de 5.54 anos (DP= 3.73), com uma moda igual a 4 e uma mediana com o mesmo
valor numérico. Relativamente à atividade profissional, o grupo representado
pelos reformados destacava-se de todos os outros (60%), seguido pelos que
trabalhavam por conta de outrem (26,3%). Os principais diagnósticos de
internamento foram o EAM (58,8%), seguido da ICC (16,9%) e da angina instável
(AI) (13,8%). Quanto ao tratamento, a maioria dos indivíduos tinha sido
submetido a angioplastia (41,6%), seguido de tratamento médico (40,6%) e com um
valor percentual mais baixo (18,1%), a cirurgia cardíaca.
Resultados
Com o objetivo de avaliar as principais características psicométricas da versão
portuguesa da CAS-R na amostra em estudo, foi analisada a validade de
constructo e a fidelidade do instrumento.
Validade de constructo
No sentido de analisarmos a validade de constructo da CAS-R e adequarmos a sua
estrutura às características linguísticas e culturais portuguesas, procedeu-se
à análise de componentes principais, à análise da validade convergente-
discriminante dos itens com as subescalas encontradas e à análise discriminante
com a versão portuguesa da HADS. Nas análises realizadas, tentámos reproduzir
os procedimentos seguidos pelos autores do instrumento.
Foram definidos como critérios para a eliminação de itens, os seguintes: itens
com carga fatorial inferior a 0.40, e itens que diminuíssem a consistência
interna (Alpha de Cronbach) da subescala a que pertenciam (Polit et al., 2004).
De modo a percebermos se o constructo a medir (controlo percebido) se
apresentava, no contexto português, como um constructo uno, ou pelo contrário,
se apresentava com dimensões, foi realizada uma análise de componentes
principais (ACP), exploratória pelo método varimax, do tipo ortogonal com
normalização de Kaiser. Para tal, definiu-se como critério que os eighenvalues
deveriam ser superiores a 1. A partir desta análise, obtiveram-se três fatores
com uma variância explicada de 58,13 % (26,06% para o primeiro fator, 16,11%
para o segundo fator e 15,95% para o terceiro fator), com um Alfa de
Cronbachtotal de 0,65 (0,70 para o primeiro fator, 0.31 para o segundo fator e
0.39 para o terceiro fator) (Tabela_1).
A análise da estrutura fatorial encontrada, não nos pareceu explicativa do
constructo a medir, mesmo tomando por base os referenciais teóricos atuais que
definem o conceito de controlo percebido (Jacelon, 2007; Moser et al., 2009;
Mardiyono et al., 2011).
Nesse sentido, tentámos a realização de uma nova ACP, forçada a dois fatores,
seguindo o procedimento dos autores da escala (Moser et al., 2009). Pela
análise com rotação, forçada a dois fatores (Tabela_2), obteve-se uma variância
explicada de 44. 93% (26,41% para o primeiro fator e 18,51% para o segundo
fator), com um Alpha de Cronbach total de 0.65 (0.70 para o primeiro fator e
0.36 para o segundo fator). No entanto, também esta estrutura em duas
dimensões, não nos pareceu muito consistente, tendo por base o constructo
teórico a medir (Moser & Dracup, 2000; Moser et al., 2009; Mardiyono et
al., 2011).
Validade convergente-discriminante dos itens
No sentido de decidirmos quanto à manutenção (ou não) de dimensões na escala em
estudo, bem como do seu número, realizámos o estudo de validade convergente-
discriminante dos itens. Ribeiro (1999) menciona que esta validade é um bom
indicador de que o item mede o mesmo constructo da subescala a que pertence e
não outro, ou seja uma boa validade deste tipo mostra que a correlação do item
com a subescala a que pertence é substancialmente mais elevada do que a
correlação do item com as subescalas ou fatores a que não pertence (item
discriminativo), formando-se estruturas conceptuais distintas.
Dado que não existem valores padronizados para que um item seja considerado
discriminativo, utilizámos o seguinte critério: a correlação do item com fator
a que pertencia (com base na ACP) deveria, no mínimo, ser superior a 0.10 da
correlação com os outros fatores considerados na ACP. Verificámos que só podiam
ser considerados discriminativos (na solução a três e a dois fatores) os itens,
2, 4, 6 e 7. Tendo em conta que os restantes não o são, concluímos que as
diferentes estruturas fatoriais não eram explicativas do construto em análise,
pois os resultados estatísticos não sugerem que o controlo percebido (CP) seja
constituído por estruturas conceptuais claramente distintas.
Tendo por base que nenhuma das estruturas fatoriais anteriormente realizadas,
respondia, de forma adequada, ao conceito a medir, quando analisado, quer em
termos estatísticos, quer relativamente ao seu confronto com a sua explicação
teórica (Moser et al., 2009), decidimos tentar ainda a ACP forçada apenas a um
fator, tal como a opção dos autores da escala original. Consideramos esta
estrutura conceptual mais congruente com o conceito em análise.
Assim, com base na última estrutura fatorial encontrada, e até que novos
estudos sejam realizados no sentido de validar os resultados aqui apresentados,
decidimos optar pela solução de uma escala unidimensional, tal como a proposta
pelos autores da escala original (CAS-R) Moser et al. (2009). No presente
estudo, esse fator único explica 30,27% da variância total, obtendo-se um Alpha
de Cronbach total de 0.65. Nesta estrutura fatorial, todos os itens
apresentaram cargas fatoriais superiores a 0.40, à exceção do item 3 (Tabela
3). No entanto, optámos pela sua não-eliminação nesta fase, uma vez que esta
não contribuía para uma alteração significativa do Alpha de Cronbachda escala
(Tabela_5).
Tabela_4
Validade discriminante
Um dos métodos para avaliarmos a validade de constructo, referidos por Ribeiro
(1999, p.115), é a validade discriminante, sendo que esta ( ) refere-se à
extensão em que a correlação do instrumento com instrumentos que medem
diferentes constructos é menor, do que a correlação com os que medem o mesmo
constructo.
Como forma de a mensurar, foi seguido o critério dos autores, tendo-se usado
outro instrumento que mede dois construtos opostos ao controlo percebido,
nomeadamente a ansiedade e a depressão. Assim, utilizamos a versão portuguesa
da HADS, validada por Pais-Ribeiro et al. (2007) para a população portuguesa,
composta por duas subescalas com sete itens cada, sendo que uma delas mede a
ansiedade (HADS-A) e outra a depressão (HADS-D).
Ao realizar-se a correlação de Pearson entre versão portuguesa da CAS-R e a
versão portuguesa da HADS, e tendo em consideração Pestana e Gajeiro (2008),
obteve-se uma correlação negativa fraca (r=-0.20; p &0,05) para a HADS-A, e uma
correlação negativa moderada (r=-0.46; p &0.01) para a HADS-D. Assim, quanto
maior o controlo percebido, menor será a ansiedade e a depressão, com uma
diminuição mais significativa para esta última.
Podemos assim concluir que os dois instrumentos medem conceitos diferentes e
opostos, o que está de acordo com a evidência teórica existente na área em
estudo que indica que o controlo percebido é favorecedor da adaptação dos
indivíduos à doença, enquanto a ansiedade e depressão são fatores que
interferem negativamente na vivência com a doença (Moser et al., 2009; McKinley
et al., 2012; Moser et al., 2012).
Estudo de fidelidade da versão portuguesa da CAS-R
Para o estudo de fidelidade da versão portuguesa da CAS-R foi utilizado o
coeficiente Alpha de Cronbach, que fornece uma medida da consistência interna.
De acordo com Ribeiro (1999), as medidas de fidelidade indicam de que forma as
diferenças individuais obtidas numa prova são atribuíveis a reais diferenças
nas características medidas.
O Alpha de Cronbach encontrado aproximou-se dos obtidos pelos autores do
instrumento original (Moser et al., 2009) que realizaram o seu estudo em três
grupos de doentes cardíacos (Enfarte Agudo do miocárdio - EAM, Doença Arterial
Coronária - DAC, Insuficiência Cardíaca Congestiva ' ICC) de modo a comprovarem
a sua aplicação válida e fidedigna em todos os doentes com patologia cardíaca
(Tabela_4).
No que se refere à homogeneidade, como se pode observar na Tabela_5, os itens
da escala apresentam correlações com a escala total, que variam entre r= 0.132
(no item 3) e r= 0.522 (no item 4). Por outro lado, apenas o item 3, tal como
anteriormente já referido, aumentava o valor de Alpha de Cronbach da escala
total, se eliminado (de 0,65 para 0,67).
Como forma de complementar o trabalho desenvolvido, foi realizada a análise
descritiva dos resultados da aplicação da versão portuguesa da CAS-Rà amostra
global. Assim, os resultados indiciam que o grau de controlo percebido dos
doentes cardíacos que participaram na amostra (N=160) foi de 27.66 (DP=3.96),
com um mínimo de 19 e um máximo de 39, no somatório dos oito itens da escala,
representando um controlo percebido razoável.
Discussão
Propusemo-nos traduzir, adaptar e validar a CAS-R para a realidade portuguesa.
Para tal, tentámos reproduzir os procedimentos estatísticos dos autores e as
orientações de outros autores de referência, no sentido da validação da mesma.
A versão portuguesa da CAS-R mostrou-se de aplicação rápida, através de auto
preenchimento ou entrevista (2 a 3 minutos), de fácil compreensão para os
participantes.
A análise da estrutura conceptual da escala permitiu-nos concluir que os
construtos teóricos se encontravam organizados da mesma forma que a escala
desenvolvida pelos autores para doentes cardíacos. Em primeiro lugar, obteve-se
uma estrutura fatorial de três fatores, e mesmo depois de forçada a dois
fatores, aquando da avaliação da validade convergente-discriminante dos itens,
em ambas as soluções fatoriais, só foram considerados discriminativos quatro
dos oito itens.
Os resultados estatísticos sugeriram que o controlo percebido não era composto,
pelo menos de forma clara, por mais do que uma entidade conceptual. Face a
estes resultados, optámos pela solução proposta pelos autores da mesma, Moser
et al. (2009), constituída por apenas um fator, o que nos indica que o
construto em análise é uno e não divisível. Também decidimos pela não-
eliminação de itens nesta fase, uma vez que não iríamos beneficiar
significativamente o Alpha de Cronbachda escala em análise.
Quanto à confiabilidade da escala, os resultados do nosso estudo, embora um
pouco inferiores à versão original de Moser et al. (2009), traduzem uma
aceitável consistência interna (α = 0.65) tendo em conta o número reduzido de
itens do instrumento (Ribeiro, 1999).
A partir do estudo de validade discriminante, verificou-se uma relação negativa
entre o constructo em análise e os construtos ansiedade e depressão (r=-0.20; p
&0.05 e r=-0.46; p &0.01, respetivamente). Estas relações são corroboradas
pelos resultados obtidos no estudo original, desenvolvido por Moser et al.
(2009), o qual relacionou também a CAS-R com outros instrumentos que avaliavam
a ansiedade e depressão, tendo confirmado a hipótese de que o controlo
percebido se relacionava negativamente com esses constructos. Desse modo, o
nosso estudo suporta as conclusões dos autores acima referidos ao demonstrar
que as pessoas com níveis de controlo percebido elevados apresentam baixos
níveis de ansiedade e de depressão.
Podemos assim concluir que o controlo percebido pode ser identificado como uma
influência positiva capaz de resolver problemas e de ter um papel ativo na
diminuição dos níveis de ansiedade, face a uma situação de maior dificuldade
como a doença cardíaca (Moser, 2007; Moser & Watkins, 2008; Moser et al.,
2009; Girard & Murray, 2010; Mardiyono et al., 2011). Os resultados obtidos
pela aplicação da versão portuguesa da CAS-R, observados a partir da média,
amplitude e desvio-padrão, evidenciam níveis de controlo percebido indicativos
de que os participantes neste estudo apresentam alguma capacidade de resolução
dos problemas que os vão acometendo. Esta interpretação dos resultados obtidos
tem em conta o que os seus autores, Moser et al. (2012) definiram nos seus
estudos: scores = 16 sugerem um baixo nível de controlo percebido e scores = 32
indicam um grau de controlo percebido moderadamente elevado. Vários estudos
corroboram os nossos resultados, referindo-se a graus de controlo percebido
positivos mas não moderadamente elevados. Isto indica capacidade por parte dos
indivíduos com doença cardíaca para lidar com situações potencialmente
ameaçadoras ao seu estado de saúde (Moser et al., 2009; McKinley et al., 2009;
Riegel et al., 2011). Parece-nos que quanto maior é o grau de controlo
percebido dos indivíduos, mais positivas serão as suas atitudes no que se
relaciona à sua doença, promovendo a adoção de disposições mais favoráveis para
com a sua patologia e sintomatologia associada. Tal vai ao encontro do estudo
de McKinley et al. (2009), o qual se refere a atitudes mais positivas para com
a saúde quando existam níveis de controlo percebido mais elevados. Este dado
torna premente que os enfermeiros estejam atentos aos diversos fatores
psicológicos capazes de promover um desequilíbrio na perceção do indivíduo
sobre a sua doença e sendo útil ao desenvolvimento de um maior controlo sobre
os processos de saúde do indivíduo.
Os resultados obtidos no presente estudo, apesar de demonstrarem a fiabilidade
e validade da escala em análise no contexto português, indicam a necessidade da
realização de novos estudos, em diferentes contextos de doença e em populações
mais alargadas, no sentido de validarmos os resultados aqui obtidos. A
aplicação da versão portuguesa da CAS-R permite ao enfermeiro o diagnóstico dos
processos de autogestão da doença e dos regimes terapêuticos a ela associados,
no sentido de ajudarem o indivíduo a aumentar o seu senso de controlo em
relação à sua saúde. Contribui-se, assim, para que aquele participe ativamente
no seu processo de saúde/ doença, de forma a tomar decisões mais conscientes e
seguras para si. A partir destes pressupostos emerge como implicação para a
prática, a diminuição dos efeitos adversos da doença e, consequentemente, das
suas agudizações.
Conclusão
A versão portuguesa da CAS-R mostrou ser um instrumento adaptado para avaliar a
perceção de controlo sobre a doença, em pessoas com doença cardíaca. Este
instrumento foi bem aceite pelos participantes, constituindo-se como um
instrumento independente e específico. No entanto, os resultados aqui
apresentados, sugerem a necessidade de serem realizados novos estudos que
permitam assegurar a sua fidelidade e validade na sua aplicação ao contexto
português.
Importa ainda referir algumas limitações do presente estudo. A primeira deve-se
ao facto de os nossos participantes serem, na sua maioria, idosos e com baixa
escolaridade. Também os participantes foram selecionados de instituições
hospitalares exclusivamente da região norte do país, o que impede a
generalização dos resultados aqui obtidos, nomeadamente a outros grupos
populacionais.
Em suma, a versão portuguesa da CAS-R, por ser um instrumento pequeno e de
fácil aplicação, torna-se útil para ser aplicado pelos enfermeiros na sua
prática clínica. Esta, pode ser uma ferramenta de apoio na identificação de
fatores psicossociais, que podem predispor a um mais precário processo de
transição saúde/ doença.