Análise das propriedades psicométricas da versão portuguesa de um instrumento
de avaliação de e-Literacia em Saúde
Introdução
Uma das áreas em que ter uma adequada literacia se mostra fundamental é a
saúde. Ter ou não níveis adequados de literacia, apresentando competências para
processar e compreender a informação de saúde, conseguindo tomar decisões
adequadas com a mesma, pode ditar a diferença, por exemplo, entre tomar doses
terapêuticas ou tóxicas de fármacos, ou seguir ou não as indicações de técnicos
de saúde (Bodie & Dutta, 2008). Apesar da proliferação da informação em
saúde nos sites e ambientes eletrónicos, muita desta informação permanece
inacessível a uma grande percentagem da população, devido aos baixos níveis de
literacia em saúde e competências informáticas (Robinson & Graham, 2010).
A e-literacia em saúde dos indivíduos requer a habilidade para pesquisar,
encontrar, estimar e avaliar, integrar e aplicar os ganhos obtidos a partir do
ambiente eletrónico com vista à resolução de problemas de saúde. Este conjunto
de competências requer que se seja capaz de trabalhar também com novas
tecnologias, pensar criticamente acerca dos assuntos relacionados com os media
e com a ciência, bem como navegar num vasto leque de ferramentas e fontes de
informação, com vista a adquirir a informação necessária para tomar decisões
(Norman & Skinner, 2006a, 2006b).
De acordo com o Modelo de Lírio, utilizado para a conceção da eHealth Literacy
Scale, a e-literacia em saúde engloba seis competências ou literacias que
integram uma rede interativa que funciona sempre que se realiza uma tarefa em
e-saúde (como procurar informação sobre saúde ou monitorizar o estado de
saúde), utilizando para tal ferramentas tecnológicas (Chan, Matthews, &
Kaufman, 2009). Três delas, a literacia funcional, a literacia em informação e
a literacia em media são de tipo analítico, e aplicam-se a um grande número de
fontes de informação, independentemente do tema ou contexto. As restantes, a
literacia em saúde, a literacia científica e a literacia informática são
específicas de contexto, e estão, sobretudo, relacionadas com as circunstâncias
em que a informação é procurada (equipamentos utilizados e condições de
pesquisa), tipo de informação apresentada (científica ou não) e temáticas
procuradas, neste caso, relacionadas com a saúde (Norman & Skinner, 2006a,
2006b).
O objetivo principal deste estudo é o de avaliar as propriedades psicométricas
de um instrumento para a avaliação da e-literacia em saúde nos adolescentes
portugueses, a Escala de e-Literacia em Saúde (eHealth Literacy Scale) de
Norman e Skinner, (2006a), pretendendo-se, conjuntamente, avaliar os níveis de
e-literacia em saúde nos adolescentes, bem como conhecer a relação entre os
níveis de e-literacia em saúde e o sexo, a idade e o ano de escolaridade dos
adolescentes.
Enquadramento
A literacia em saúde é considerada um objetivo de saúde pública a atingir no
século XXI, enfatizando-se a necessidade de olhar para os diferentes contextos,
onde a informação em saúde pode ser adquirida e utilizada, como parte da
estratégia para abordar a literacia em saúde. Presentemente, mais do que nunca,
os contextos de informação em saúde incluem fontes eletrónicas, como a internet
e outras tecnologias, o que potenciou o seu papel no consumo em saúde (Austin,
2012; Norman & Skinner, 2006a; Stellefson et al., 2011), tornando-se as
fontes de informação privilegiadas da população em geral. Também em Portugal,
esta fonte de informação assume-se como um recurso estratégico para quase
metade da população, com especial relevo para adolescentes e jovens adultos
(Ministério da Saúde. Direção Geral de Saúde, 2012). Estas fontes de informação
em saúde têm a potencialidade de robustecer as pessoas, providenciando
ferramentas que as ajudam a tomar decisões informadas, bem como oportunidades
de gestão pessoal do estado de saúde de cada pessoa (Austin, 2012).
Vários autores sugerem a incorporação da internet nos programas de intervenção
escolar que abordam a saúde como forma de proporcionar oportunidades de
desenvolver nos jovens as competências de literacia em saúde, nomeadamente
através do ensino acerca da procura e seleção da informação em fontes
eletrónicas (Ghaddar, Valerio, Garcia, & Hansen, 2012; Gray, Klein, Noyce,
Sesselberg, & Cantrill, 2005). Torna-se imperativo estimular a procura de
informação correta e adequada pelos jovens, a partir de programas escolares, em
parceria com instituições de saúde, que visem a promoção de competências de
literacia em saúde, nomeadamente de procura de informação online sobre saúde
(Gray et al., 2005). Incluir a literacia em saúde como um objetivo nos
programas de saúde escolar é primordial, pois adquirir esta competência, para
além de permitir promover comportamentos saudáveis pelos jovens, permite a
aquisição da capacidade para obter, avaliar e aplicar a informação sobre saúde
com sucesso, tornando este tipo de programas mais eficazes nos seus objetivos
(Loureiro et al., 2012). Também no Plano Nacional de Saúde, a promoção da
literacia assume-se como uma estratégia a adotar com vista à melhoria dos
níveis de saúde na população em geral (Ministério da Saúde. Direção Geral de
Saúde, 2012).
O desenvolvimento deste tipo de competências na adolescência é fundamental,
pois permite ao jovem a tomada de decisões adequadas e pertinentes
relativamente à sua saúde, no futuro (Paek & Hove, 2012). Investir nesta
formação permite, não só robustecer os jovens e dotá-los de competências para
melhorarem as suas decisões sobre saúde no presente, mas também, poderem
tornar-se utilizadores mais conscienciosos e informados dos serviços de saúde.
Permitirá assim que utilizem estes serviços de forma mais proveitosa,
empregando adequadamente a informação sobre saúde no futuro, e aumentando a sua
confiança no processo de seleção e utilização dessa mesma informação (Ghaddar
et al., 2012).
Apesar de serem um segmento bastante familiarizado com estas tecnologias,
colocam-se algumas questões acerca da qualidade dos seus acessos à internet,
apresentando este grupo algumas dificuldades em compreender ou utilizar a
informação sobre saúde disponível online, apesar do seu uso frequente (Gray et
al., 2005; Norman & Skinner, 2006a).
Com o objetivo de conhecer a perceção e experiências dos adolescentes acerca da
utilização da internet para procurar informação sobre saúde, Gray et al. (2005)
realizaram um estudo de caráter qualitativo nos EUA e Reino Unido, com base em
26 focus groups, constituídos por adolescentes dos 11 aos 19 anos, de ambos os
sexos. Concluíram que os jovens muitas vezes não conseguem procurar a
informação adequada sobre saúde, simplesmente porque não conseguem soletrar ou
escrever os termos médicos corretamente. Relativamente a esta dificuldade, os
jovens sugeriram que um dicionário de termos médicos online poderia ajudar a
colmatá-la. Frequentemente, a informação está disponível, mas os adolescentes
não conseguem compreender o seu significado.
Apesar do acesso massificado à internet e a fontes de informação eletrónicas,
os jovens continuam a referir um défice de competências para pesquisar
informação válida e fidedigna sobre saúde, bem como para avaliar essa mesma
informação (Stellefson et al., 2011).
Outro dos obstáculos apontados pelos jovens diz respeito à seleção dos sites
fidedignos que contêm a informação pretendida, perante a grande quantidade de
resultados disponíveis, quando um termo ou tema é procurado num motor de busca.
Páginas com informação fidedigna, bem como as que contêm opiniões e relatos
pessoais, são referidas pelos jovens como importantes, mas deveriam permitir
perceber de que tipo de informação se trata, bem como o acesso sem dificuldades
por adolescentes de várias idades (Gray et al., 2005).
Os jovens referem que a informação que procuram e encontram na internet já lhes
permitiu modificar e melhorar alguns comportamentos, nomeadamente em relação à
alimentação (dietas mais saudáveis e equilibradas) e exercício físico, bem como
diminuir comportamentos de risco, como a utilização de substâncias
potenciadoras de performance física e intelectual. Os adolescentes referem que,
por norma, consultam a internet numa primeira tentativa de recolher informação
sobre determinado tema, sendo que procuram depois um profissional de saúde se
considerarem necessário (Gray et al., 2005).
Diversos estudos foram já realizados, em vários países, com vista a medir os
níveis de e-literacia em saúde de adolescentes, utilizando para o efeito a
eHealth Literacy Scale (eHEALS).
Esta escala, elaborada em 2006 por Norman e Skinner (Norman & Skinner,
2006a), foi desenvolvida com vista à avaliação da e-literacia em saúde para um
largo espectro da população e contextos. Trata-se de um instrumento de
autopreenchimento, que pode ser empregue por um profissional de saúde, e que se
baseia na perceção individual dos sujeitos acerca das suas próprias
competências e conhecimentos, dentro de cada domínio avaliado da e-literacia em
saúde. É constituído por 8 itens, existindo ainda mais dois que, apesar de não
fazerem parte da escala, complementam a informação (itens 1 e 2). A sua
pontuação varia de 1 a 5, sendo que quanto mais elevada, maiores os níveis de
e-literacia em saúde. Este instrumento foi concebido com o objetivo de estimar,
de forma global, as competências em e-saúde da população, podendo esta
informação ser utilizada para a realização de programas de promoção de saúde,
individuais ou coletivos (Norman & Skinner, 2006a).
Um estudo realizado por Norman e Skinner (2006a), autores da escala, permitiu
compreender os níveis de e-literacia em saúde de adolescentes canadianos. Foi
utilizada uma amostra de 664 adolescentes de ambos os sexos, com idades
compreendidas entre os 13 e 21 anos, provenientes de 14 escolas secundárias de
uma cidade canadiana e que frequentavam na altura do estudo entre o 9.º e o
11.º ano de escolaridade. Foram encontrados valores mais elevados de e-
literacia em saúde no sexo masculino (t726=2,236, p=0,026). Para além disso,
não se detetaram alterações significativas nos valores de e-literacia em saúde,
tendo em conta a idade dos participantes, nem em relação à tecnologia de
informação utilizada (internet, televisão, mensagens telefónicas, e-mail,
pager, telemóvel). Na amostra utilizada, a e-literacia em saúde também parece
não estar relacionada com a auto perceção sobre o estado de saúde, não sendo
considerada um fator preditor do nível de saúde percebido ao longo do tempo.
(Norman & Skinner, 2006a).
A e-literacia em saúde de 182 adolescentes que frequentavam o 6.º, 7.º e 8.º
anos de escolaridade no estado do Michigan, nos EUA, foi avaliada num estudo em
que se realizou uma intervenção com vista à sua promoção. A amostra apresentou
um valor médio de e-literacia em saúde de 3,51 (=0,60). Depois de realizado um
programa de promoção de e-literacia em saúde aos participantes, composto por
três sessões, o valor médio subiu para 3,62 (=0,65). Jovens em anos de
escolaridade superior apresentaram valores mais elevados de e-literacia em
saúde (Hove, Paek, & Isaacson, 2011; Paek & Hove, 2012).
Ghaddar et al. (2012) realizaram um estudo num agrupamento escolar do Texas
(South Texas Independent School District), que incluiu cinco escolas, duas das
quais, com formação na área da saúde. Foi utilizada uma amostra de 261
estudantes, com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos de idade, a
frequentar do 9º ao 12º ano de escolaridade, 58% dos indivíduos frequentavam as
escolas com formação em saúde. A amostra compreendia elementos de ambos os
sexos, sendo que a maioria eram hispânicos (86%). Avaliada a e-literacia com
recurso à eHealth Literacy Scale, foram encontrados níveis adequados de e-
literacia em saúde, tendo sido encontrada um valor médio de 3,83. Apesar disto,
37% dos indivíduos apresentaram níveis de e-literacia limitada. Níveis mais
elevados de e-literacia em saúde foram encontrados nos indivíduos a frequentar
as escolas com formação em saúde, e de forma global, a frequentar os anos
letivos mais avançados.
Em termos europeus, um estudo realizado na Holanda, utilizando uma amostra
estratificada de 88 participantes da região de Twente, bem como o instrumento
eHEALS, revelou que os mesmos apresentavam um valor médio de e-literacia em
saúde de 3,45 (=0,74). Os valores de e-literacia em saúde encontrados diminuem
com a idade e aumentam com a escolaridade dos participantes. Apesar disto,
estas diferenças não são estatisticamente significativas. Já com o número de
horas diárias de uso da internet parece existir uma correlação positiva,
estatisticamente significativa, sugerindo uma influência positiva do tempo
gasto em utilização da internet na e-literacia em saúde (Drossaert, Van Der
Vaart, & Van Deursen, 2011).
Como forma de maximizar os benefícios da disponibilidade de informação sobre
saúde na internet, o desenvolvimento de competências de literacia em saúde é
essencial (Gray et al., 2005). Quanto mais desenvolvidas são estas competências
nos jovens, menor é a sua confiança em sites comerciais e de marca, como fontes
de informação em saúde, mesmo que a informação que contenham seja fidedigna
(Hove et al., 2011). Esta confiança diminui, pois uma das competências em e-
literacia em saúde consiste em conseguir distinguir fontes de informação que
pretendem ser persuasivas, das que pretendem ser informativas e educacionais
(Hove et al, 2011).
Questões de investigação
Com este estudo interessou-nos saber quais os níveis de e-literacia em saúde na
amostra de adolescentes selecionada e a sua relação com o sexo, idade e ano de
escolaridades desses adolescentes?
Para responder a esta pergunta, formularam-se várias sub-questões às quais se
procuraram dar resposta: Quais os níveis de e-literacia em saúde dos
adolescentes?; Existem diferenças de género, relativamente aos níveis de e-
literacia em saúde?; Existem diferenças nos níveis de e-literacia em saúde,
considerando a idade dos adolescentes?; Existem diferenças nos níveis de e-
literacia em saúde entre adolescentes a frequentar anos letivos diferentes?
Metodologia
Para responder às questões de investigação e aos objetivos deste estudo, foi
utilizada uma escala composta por 8 itens de resposta tipo Likert com cinco
alternativas que vão de strongly disagree a strongly agree (pontuações de 1
a 5). O instrumento contém ainda dois itens adicionais que permitem compreender
o interesse dos respondentes em utilizar informação eletrónica em saúde. Estes
itens são também de resposta tipo Likert, com cinco alternativas que vão de
Not usefull at all a Very usefull (pontuações de 1 a 5). Pontuações mais
elevadas correspondem a níveis de e-literacia em saúde mais elevados.
Foi utilizada uma metodologia de validação transcultural adaptada da
metodologia apresentada por Sousa e Rojjanasrirat (2010) para tradução e
validação da eHealth Literacy Scale para a população portuguesa. Na Figura_1
encontram-se representadas as etapas realizadas durante este processo.
Após o processo de tradução, e validação cultural, a análise psicométrica foi
englobada num estudo de caráter quantitativo, do tipo descritivo-correlacional,
retrospetivo e transversal.
Sendo a população alvo os adolescentes que frequentam o Ensino Secundário (10º,
11º e 12º anos de escolaridade) no distrito de Leiria, e utilizando um método
de amostragem não probabilístico por conveniência, foi utilizada no estudo uma
amostra de 1215 adolescentes, estudantes de duas escolas do distrito. Como
critérios de inclusão definiram-se: frequentar o ensino secundário numa das
duas escolas do distrito de Leiria que aceitaram participar no estudo. Foram
excluídos os estudantes que não aceitaram participar no estudo ou que não
tinham autorização do encarregado de educação para o fazer.
Os dados foram colhidos com recurso a um questionário de autopreenchimento,
compreendendo questões de caráter sociodemográfico (com vista a avaliar as
variáveis idade, sexo, ano de escolaridade), bem como a Escala de E-literacia
em Saúde (avalia a variável e-literacia em saúde), devidamente traduzida e
adaptada culturalmente para a população portuguesa. Durante todo o processo de
investigação, todos os procedimentos formais e éticos foram respeitados, tendo
sido obtida autorização por parte da Direção Geral da Inovação e
Desenvolvimento Curricular (DGIDC) da Direção-Geral de Educação para a
realização do mesmo. Para a análise psicométrica da escala foram utilizados
procedimentos estatísticos semelhantes aos que foram utilizados por Norman e
Skinner (2006a), nomeadamente a análise da consistência interna através do
Cronbach's Alpha, a correlação entre itens (teste de Pearson), bem como a
análise fatorial confirmatória e exploratória. Em toda a análise estatística e
testes realizados, foi assumida a probabilidade máxima aceitável para a
ocorrência de Erro Tipo I de 0,05.
Resultados
Sendo a amostra constituída por 1215 indivíduos, 643 (52,92%) eram do sexo
masculino e 572 (47,08%) do sexo feminino. A idade dos participantes teve uma
variação dos 14 aos 22 anos, sendo a média de 16,32 anos e a moda 16 (34,32%
dos participantes). Em relação ao ano de escolaridade, 35,14% (427) dos
participantes frequentavam o 10º ano de escolaridade, 38,60% (469) frequentavam
o 11º ano e 26,26% (319) dos participantes frequentavam o 12º ano de
escolaridade.
Para a validação da escala foram realizadas várias análises. Podem observar-se
correlações entre todos os itens da escala, maioritariamente moderadas e
estatisticamente muito significativas (p<0,01), o que significa que as questões
que constituem o instrumento estão relacionadas, não sendo apesar de tudo
redundantes. Tal como se observa na Tabela_1, o valor mais baixo de correlação
encontrado foi r=0,123 entre os itens 2 e 9 e o mais elevado (r=0,682) diz
respeito à correlação entre os itens 4 e 5, o que revela existirem correlações
moderadas.
Quanto à consistência interna da escala, a mesma foi avaliada com recurso ao
valor do Cronbach's Alpha. Quando analisados os 10 itens do instrumento, o
Cronbach's Alpha total é de 0,853, mas se analisados apenas os 8 itens da
escala o Cronbach's Alpha total é de 0,842. Quando um dos 8 itens é retirado da
escala o valor do Cronbach's Alpha da escala mantém-se entre 0,811 e 0,834
(Tabela_2).
Ao realizar o teste de consistência interna da escala através do Coeficiente de
Guttman Split-half, verifica-se que as partes da escala (compostas por 4 itens
cada uma) apresentam Cronbach's Alpha de 0,814 e 0,731 respetivamente, e um
Coeficiente de Guttman Split-half total de 0,738. Quando realizado o teste
Kaiser-Meyer-Olkin (0,853) e o teste de esferacidade de Bartlett ( χ²=3392,203;
df=28; p=0,001) é possível perceber que se reúnem os critérios para a análise
fatorial. Seguindo o caminho dos autores originais da escala que consideram uma
única dimensão, (com >=0.88; explicação da variância de 44,79%) efetuamos com a
nossa amostra uma análise fatorial confirmatória a 1 fator, pelo método das
componentes principais sem rotação, encontrando uma explicação da variância de
47,803% com componentes entre 0,587 e 0,798. No entanto, procedemos ainda a uma
análise fatorial exploratória com rotação Varimax (Tabela_3) da qual resultou a
extração de dois fatores explicando 60,94% do total da variância: um primeiro
fator agregando os itens 3, 4, 5 e 6 com 34,33% de explicação da variância, e
um segundo com os itens 7, 8, 9 e 10, apresentando 26,60% de explicação da
variância.
De referir ainda que na opção de duas dimensões (fatores) os valores do
Cronbach's Alpha de cada um é respetivamente 0,814 e 0,731.
Em relação aos valores médios obtidos em cada item da escala (incluindo os
itens 1 e 2 que não compõem a escala, mas que estão incluídos no instrumento),
tal como se observa na (Tabela_4), estes variaram entre 2,884 no item 10
Sinto-me confiante a usar a informação da internet para tomar decisões sobre
saúde. e 4,010 no item 2 Até que ponto considera importante para si poder ter
acesso a recursos sobre saúde na internet?.
Foram encontradas diferenças estatisticamente muito significativas (p<0,01)
entre os respondentes do sexo feminino e do sexo masculino (Tabela_5),
nomeadamente no item 2 Até que ponto considera importante para si poder ter
acesso a recursos sobre saúde na internet? (superior no sexo feminino), no item
9 Sei distinguir os recursos de elevada qualidade dos de fraca qualidade entre
os recursos sobre saúde da internet. e no item 10 Sinto-me confiante a usar a
informação da internet para tomar decisões sobre saúde. (superiores no sexo
masculino). Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas
(p>0,05) entre sexos no valor de e-literacia em saúde (total da escala).
Para analisar a relação entre os valores de e-literacia em saúde e a idade, os
participantes foram distribuídos em dois grupos etários, tendo como critério a
divisão matemática em dois conjuntos de dimensões o mais semelhantes possível.
O primeiro grupo compreendeu os participantes com idades até 16 anos (725
elementos, 59,67%) e o segundo grupo compreendeu os participantes com idades a
partir de 17 anos (490 elementos, 40,33%). Analisando as diferenças entre eles
(teste t-student), não foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas (p>0,05) em nenhum dos itens do instrumento, nem no valor total
de e-literacia em saúde. Foi também realizada uma análise tendo em conta a
correlação entre a idade e os resultados obtidos em cada item, bem como com o
valor total de e-literacia em saúde (teste de correlação de Pearson), mas mais
uma vez não se encontrou qualquer correlação entre a idade e as respostas
apresentadas em cada item.
Foi ainda possível verificar que existiam diferenças estatisticamente
significativas (p=0,026) entre os participantes dos três anos de escolaridade
nas respostas ao item 4 Sei onde encontrar recursos úteis sobre saúde na
internet. (teste One-Way Anova). Foi percebido que estas diferenças eram
estatisticamente significativas entre o 10º ano e o 12º ano de escolaridade,
sendo os valores médios das respostas ao item mais elevados no 10º ano (Tabela
6).
Discussão
A Escala de e-Literacia em Saúde apresenta bons valores de consistência
interna, com itens válidos que permitem uma adequada avaliação da e-literacia
em saúde na população adolescente portuguesa. Nenhum dos itens é dispensável,
avaliando pela consistência interna da escala, no caso da omissão de itens.
Comparando com os valores de validação da escala original, a consistência
interna manteve valores semelhantes, apresentando contudo correlações entre os
itens mais fortes e estatisticamente muito significativas. O estudo por nós
realizado abre a porta à utilização da escala com um valor total e duas
dimensões, uma mais ligada aos aspetos de procura da informação, assente nos
dados de um primeiro fator com itens 3,4,5, e 6, e uma segunda dimensão ligada
à capacidade de utilização da informação, correspondendo a um segundo fator,
com dados dos itens 7, 8, 9 e 10.
Os valores de e-literacia em saúde na amostra em estudo (x= 3,4563; s=0,582),
não parecem diferir dos valores encontrados noutras amostras semelhantes
estudadas, noutros estudos, em outros países (Drossaert et al., 2011; Ghaddar
et al., 2012; Hove et al., 2011; Norman & Skinner, 2006a; Paek & Hove,
2012), sendo considerado que os níveis de e-literacia neste grupo são bons.
Os rapazes referem sentir-se mais confiantes para utilizar a internet para
tomar decisões sobre saúde, referindo ainda que conseguem distinguir melhor os
recursos de elevada qualidade dos de fraca qualidade, em relação às raparigas.
Já o sexo feminino apresentou valores mais elevados quando questionados acerca
da importância do acesso a fontes de informação eletrónica. Apesar das
diferenças nalguns itens, bem como das diferenças matemáticas entre os níveis,
de e-literacia em saúde entre os sexos, não se encontraram diferenças
estatisticamente significativas entre eles, o que não corrobora os resultados
de Norman e Skinner (2006a), que refere ter encontrado níveis de e-literacia em
saúde mais elevados nos rapazes.
Apesar das diferenças matemáticas, a idade não parece ser um fator determinante
nos níveis de e-literacia em saúde, tal como já tinha sido demonstrado por
Drossaert et al. (2011) e Norman e Skinner (2006a). Apenas um item Sei onde
encontrar recursos úteis sobre saúde na internet apresentou diferenças
estatisticamente significativas em relação ao ano de escolaridade, não se
verificando o mesmo para o valor de e-literacia em saúde. Drossaert et al.
(2011) e Ghaddar et al. (2012) referem que nos estudos que realizaram foram
encontrados níveis mais elevados de e-literacia em saúde nos alunos a
frequentar anos letivos mais elevados. Em relação ao item que apresenta
diferenças estatisticamente significativas em relação ao ano de escolaridade,
verifica-se que o seu valor diminui com o aumento da escolaridade. Tal facto
poderá dever-se ao que Hove et al. (2011) refere como ser falta de confiança em
determinados sites e dificuldade em distinguir a credibilidade da informação.
Desta forma, jovens cujos conhecimentos são maiores, acabam por demonstrar
menos confiança nas suas competências, na procura de informação sobre saúde em
fontes electrónicas. Desta forma apresentam mais dúvidas sobre a sua
capacidade, o que se poderá revelar em valores mais baixos de e-literacia, ou
neste caso, na perceção de conhecimento acerca de onde encontrar informação
útil sobre saúde.
A não possibilidade de generalização dos resultados à população de adolescentes
portugueses constitui a maior limitação desde estudo.
Conclusão
O instrumento eHealth Literacy Scale na versão portuguesa, por nós traduzida e
validada, apresenta bons indicadores psicométricos, indicando a viabilidade da
sua utilização com um valor total e duas dimensões, procura de informação e
utilização da informação. A sua aplicação em amostras, em diferentes contextos,
e que permitam a generalização de resultados, permitirá corroborar a sua
viabilidade e sensibilidade para a avaliação deste conceito na população
adolescente em Portugal.
A amostra selecionada apresenta níveis de e-literacia em saúde bastante
satisfatórios. Diferenças foram encontradas entre os géneros, mantendo-se os
níveis de e-literacia em saúde ao longo da idade. Alunos a frequentar níveis de
escolaridade mais elevados apresentam mais dúvidas sobre onde encontrar
informação útil sobre saúde na internet. Concordamos com os vários autores
referidos na fundamentação teórica, que referem que a intervenção nos jovens
como forma de promover as suas competências em e-literacia em saúde, permitirá
não só dotar os jovens de conhecimentos para a procura, avaliação, seleção e
utilização da informação sobre saúde nas fontes eletrónicas, mas também um
aumento da confiança neste processo. Incluir a e-literacia em saúde nos
programas de educação para a saúde escolar e para adolescentes, pode revelar-se
uma importante estratégia para a promoção de saúde nesta população, bem como na
promoção de competências para o futuro.