Validação cultural do Adolescent Pediatric Pain Tool (APPT) em crianças
portuguesas com cancro
Introdução
A dor é uma experiência subjetiva e multidimensional, o que torna difícil a sua
avaliação, sobretudo em crianças com patologias crónicas como o cancro. A
qualidade dos cuidados passa pelo controlo da dor, para o qual é necessária uma
avaliação correta. A avaliação da intensidade da dor engloba apenas parte da
experiência de dor, ficando por avaliar outras características importantes. O
Adolescent Pediatric Pain Tool (APPT) é um instrumento que avalia não só a
intensidade da dor, como também a sua localização e qualidade. A identificação
da localização e da qualidade possibilita a realização de diagnósticos de
enfermagem mais precisos, pela utilização de termos do eixo localização e
tempo.
A necessidade de inclusão de um instrumento com estas características no estudo
das experiências de dor em crianças e adolescentes com cancro motivou a
realização da sua adaptação para o contexto português.
O objetivo deste trabalho foi validar a tradução e adaptação cultural do APPT,
para uso de crianças e adolescentes portugueses com cancro.
Enquadramento
A dor é um dos sintomas mais prevalentes (Dupuis et al., 2010) e debilitantes
na população pediátrica com cancro (Wright, 2011). As principais causas de dor
estão relacionadas com os procedimentos, o tratamento e o processo de doença
(Ljungman, Gordh, Sörensen, & Kreuger, 1999; Ljungman, Kreuger, Gordh,
& Sörensen, 2006). Estudos recentes indicam que mais de 80% das crianças
com cancro tem dor (Beretta et al., 2010), sendo que 12,2% a 18,2% tem dor
severa (Jacob, Hesselgrave, Sambuco, & Hockenberry, 2007; Jacob, Sambuco,
McCarthy, & Hockenberry, 2008).
Apesar de conhecido o impacto negativo da dor sobre a qualidade de vida das
crianças, esta tem sido subdiagnosticada (Jacob et al., 2007). A Direcção- -
Geral da Saúde (DGS) publicou recentemente uma orientação técnica sobre a
avaliação da dor nas crianças, recomendando a necessidade de colher dados sobre
as características da dor, nomeadamente a localização, intensidade, qualidade,
duração, frequência e os sintomas associados (Ministério da Saúde. Direcção-
Geral da Saúde, 2010).
As escalas em uso visam a avaliação da intensidade da dor, não contemplando a
avaliação de características importantes na caracterização da dor da criança
com cancro, como a localização, a qualidade e a duração da dor. De facto, pais
de crianças com cancro afirmam sentir dificuldades na determinação da extensão
da dor usando apenas escalas de medição da intensidade, como a escala visual
analógica ou uma escala de faces (Ljungman et al., 1999). O conhecimento da
qualidade da dor pode informar sobre a sua etiologia, nomeadamente no caso da
dor neuropática. Por outro lado, a qualidade da dor pode indicar quais as
dimensões da experiência dolorosa mais significativas para o sujeito
(sensorial, emocional, avaliativa ou temporal), orientando a seleção das
intervenções. Finalmente, a redução do número de localizações dolorosas e a
modificação da qualidade da dor podem ser indicadores da eficácia de
intervenções, mesmo na ausência de diminuição significativa da intensidade da
dor.
Contudo, em Portugal não está disponível para crianças e adolescentes um
instrumento de avaliação que permita a identificação conjunta da intensidade,
localização e qualidade da dor, tal como existe para os adultos (Figueiral,
2002).
Um dos instrumentos de avaliação da dor de uso corrente no contexto norte-
americano é o Adolescent Pediatric PainTool (APPT) (Savedra, Tesler, Holzemer,
& Brokaw, 1995; Savedra, Tesler, Holzemer, Wilkie, & Ward, 1989; Tesler
et al., 1991; Wilkie et al., 1990). O instrumento foi criado com base no McGill
Pain Questionnaire (Wilkie et al., 1990) e tem sido aplicado predominantemente
em crianças hospitalizadas com idades entre os 8 e os 17 anos, com doença
oncológica, anemia falciforme e em pós-operatório, para avaliar a localização,
intensidade e qualidade da dor (Jacob, Mack, Savedra, van Cleve, & Wilkie,
2013; Fernandes, De Campos, Batalha, Perdigão, & Jacob, 2014).
O instrumento tem um diagrama corporal anterior e posterior para localização da
dor, uma escala de descritores verbais para avaliação da intensidade de dor com
10cm de comprimento, uma lista de 67 descritores da qualidade da dor e um
espaço aberto para as crianças adicionarem mais palavras. Os descritores estão
agrupados em quatro dimensões: sensorial (37 descritores), afetiva (11
descritores), avaliativa (8 descritores) e temporal (11 descritores). As
propriedades psicométricas destes descritores revelam uma correlação moderada
com a intensidade da dor e o número de locais marcados no diagrama corporal
(Savedra, Holzemer, Tesler, & Wilkie, 1993; Wilkie et al., 1990). Os
descritores da dimensão avaliativa estão mais fortemente relacionados com a
intensidade (r=0,44; p=0,01) comparativamente com os das dimensões afetiva
(r=0,38; p=0,01) e sensorial (r=0,35; p=0,01) (Wilkie et al., 1990).
A inclusão do APPT na prática clínica tem sido defendida por ser um método útil
para as crianças com doenças crónicas descreverem as suas experiências de dor
(Jacob et al., 2013).
Metodologia
O estudo metodológico foi desenvolvido em duas fases, entre novembro de 2010 e
fevereiro de 2012. Na primeira fase, foi realizada a tradução e adaptação
cultural do APPT para português (PT), seguindo a metodologia proposta por
Beaton, Bombardier, Guillemin, e Ferraz (2000) e na segunda fase, feita
validação semântica e cultural por crianças com doença oncológica (Figura_1).
Procurou-se desta forma assegurar a equivalência concetual, semântica,
idiomática e operacional ao instrumento original.
A equivalência concetual diz respeito a assegurar que os conceitos assumem o
mesmo significado que no contexto cultural de origem. A equivalência semântica
é a equivalência entre os significados das palavras e requer, por vezes,
ajustamentos gramaticais. A equivalência idiomática diz respeito às expressões
idiomáticas e coloquialismos utilizados num dado contexto cultural e que não
podem ser traduzidos literalmente por perderem o sentido que lhes é atribuído
nesse contexto, devendo ser substituídos por expressões próprias do contexto
cultural a que se destina o instrumento. Finalmente, a equivalência operacional
diz respeito à possibilidade de manter os mesmos sistemas de mensuração que o
instrumento original (Beaton et al., 2000).
Foi obtida a autorização da autora do instrumento para a tradução e adaptação
cultural do APPT. O estudo foi aprovado pelas Comissões de Ética da Unidade de
Investigação em Ciências da Saúde ' Enfermagem da Escola Superior de Enfermagem
de Coimbra, do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e do Instituto Português de
Oncologia (IPO) do Porto e pelos Conselhos de Administração do CHC e do IPO do
Porto. A participação das crianças foi voluntária após obtenção do seu
assentimento e do consentimento informado dos pais.
Participantes e procedimentos
Fase I: tradução e adaptação cultural
A versão original do APPT foi traduzida simultaneamente em Portugal e no
Brasil, de forma independente, procurando obter uma versão consensual. Não
sendo possível obter consenso total por razões de natureza cultural, foram
geradas duas versões: uma adaptada ao Brasil e uma adaptada a Portugal, tendo
os processos de validação prosseguido separadamente.
A versão de Portugal foi revista por três revisores nativos de Portugal,
fluentes em Inglês e com experiência no contacto com o vocabulário utilizado
por crianças (uma psicóloga do desenvolvimento, uma médica e uma professora de
inglês) obtendo- -se uma primeira versão consensual. Esta versão foi
retrovertida para o Inglês por dois tradutores cuja língua nativa é o inglês,
de forma independente e sem conhecimento da versão original. A partir das duas
retroversões, obteve-se uma nova versão de consenso, que foi submetida à autora
do instrumento original para verificação da consonância com a versão original.
Fase II: validação semântica e cultural
Os 67 descritores portugueses do APPT foram sujeitos ao Q-sort (Wilkie et al.,
1990) por crianças portuguesas com idades entre os 8 e os 17 anos com o
diagnóstico estabelecido de cancro. As crianças foram recrutadas no Hospital de
Dia e no Serviço de Hemato-Oncologia de dois hospitais centrais.
Constituiu-se um grupo de 24 crianças estratificado segundo a idade (8-12 e 13-
17 anos) e o sexo. Os descritores que compõem a lista foram impressos em
cartões coloridos (60x90mm) em tamanho de letra 36. Cada participante foi
abordado individualmente e recebeu um conjunto de cartões todos com a mesma cor
sendo pedido que relembrasse as suas experiências de dor e que colocasse os
descritores em três categorias diferentes: (1) palavras que conheço e utilizo
para descrever a dor; (2) palavras que conheço mas não utilizo para descrever a
dor e (3) palavras que não conheço. Foi também pedido que indicassem outras
palavras que utilizariam para descrever as suas experiências de dor. Durante a
colheita de dados, esteve sempre presente um investigador, de forma a poder
esclarecer dúvidas dos participantes.
Para ser integrado na lista final do APPT, cada descritor teria que cumprir o
requisito de ser conhecido por mais de 75% das crianças (no somatório das
categorias 1 e 2). Em função dos resultados obtidos, houve necessidade de
realizar um segundo Q-sort com um grupo de crianças recrutadas de forma
idêntica ao anterior.
Resultados
Tradução e adaptação cultural (Fase I)
Nas retroversões para inglês, houve coincidência entre os dois tradutores
quanto às instruções do instrumento, à escala de intensidade da dor e a 40 dos
67 descritores. Nos restantes descritores, 23 tinham equivalência semântica e
apenas quatro aparentavam um sentido diferente do original. Elaborada a segunda
versão de consenso, a mesma foi submetida à autora do instrumento que confirmou
estar conservado o significado das palavras originais.
Validação semântica e cultural (Fase II)
No primeiro Q-sort, participaram 14 crianças em tratamento e 10 crianças fora
de tratamento. Os três diagnósticos mais frequentes foram: leucemia
linfoblástica aguda (n=13), osteossarcoma (n=3) e sarcoma de Ewing (n=3); as
restantes crianças tinham outras neoplasias líquidas ou sólidas (n= 5).
Cinquenta e oito descritores eram conhecidos por mais de 75% das crianças e
foram, por isso, retidos para inclusão na lista final de descritores. Sete
descritores não obtiveram esta percentagem, ou seja, foram classificados como
não conheço (moinha, súbita, latejante, pulsa, como uma ferroada, racha e
rígida). Estes foram substituídos por sinónimos e submetidos a segundo Q-sort.
Dado que dois descritores se encontravam no ponto de corte (75%), decidiu-se
resubmeter ao Q-sort esses dois descritores, juntamente com um sinónimo de cada
um deles, com o intuito de identificar a preferência das crianças por uma ou
outra alternativa. A única sugestão feita pelas crianças foi a palavra enjoa, a
qual foi submetida a Q-sort em conjunto com o descritor põe-me doente, da lista
inicial, apesar de este ser conhecido, visto que o descritor original '
sickening ' é sugestivo de ambas as traduções.
Assim, submeteram-se a segundo Q-sort, 13 descritores: sete em substituição dos
da lista inicial, três da lista inicial e três sinónimos destes.
No segundo Q-sort participaram 18 crianças em tratamento e seis crianças que se
encontravam fora de tratamento. Metade das crianças tinha diagnóstico de
osteossarcoma (n=6) ou leucemia linfoblástica aguda (n=6) e as restantes tinham
outros tumores (n=12).
Todas as novas sugestões cumpriram o requisito para serem aprovadas como
descritor de dor (conhecidas por mais de 75% das crianças). Relativamente aos
descritores que já haviam sido submetidos a validação semântica no primeiro Q-
sort (como uma punhalada, eterna e põe-me doente) decidiu-se que seriam
substituídos pelas alternativas equivalentes (como um golpe, dura sempre e
enjoa), porque se verificou uma maior percentagem de crianças que utilizava as
novas sugestões como descritores de dor.
A lista de descritores resultante dos dois Q-sort foi adicionada ao diagrama
corporal e à escala de intensidade, obtendo-se a versão final do Adolescent
Pediatric Pain Tool para crianças e adolescentes portugueses (Figura_2).
Discussão
O uso de escalas de intensidade para a avaliação da dor está mundialmente
disseminado, contudo, tem sido sublinhada a necessidade de investigar o padrão
de localização e qualidade da dor em crianças com cancro (Crandall &
Savedra, 2005). O APPT é um instrumento multidimensional que permite a
avaliação da intensidade, localização e qualidade da dor. Com a finalidade de
ser utilizado na caracterização das experiências de dor de crianças com cancro,
efectuámos a sua tradução, adaptação e validação cultural para português.
A apreciação da equivalência concetual, semântica e idiomática é de extrema
importância, já que alguns termos e expressões podem ter diferentes abordagens,
especificidades e conotações inerentes a cada língua e cultura. Também, cada
língua transporta consigo um universo simbólico cujo significado é de difícil
tradução. A independência das traduções e retroversões, a seleção dos
tradutores em função da sua língua materna e a multidisciplinaridade do painel
de revisores é uma garantia dessa equivalência. Os resultados obtidos nas
análises entre revisores mostram que, apesar da dificuldade de tradução de
alguns descritores, é possível adaptar instrumentos de outras línguas ao
coloquialismo da língua portuguesa e torná-los compreensíveis por crianças dos
8 aos 17 anos.
Este instrumento foi anteriormente adaptado para espanhol, nos Estados Unidos,
numa amostra de 12 crianças hispânicas dos 7 aos 17 anos, utilizando uma
metodologia semelhante quanto ao processo de tradução e validação cultural dos
descritores de dor (van Cleve, Muñoz, Bossert, & Savedra, 2001). Os autores
não relataram dificuldades na obtenção de equivalência entre a versão original
e traduzida. Contudo, um descritor foi eliminado dada a semelhança com outro já
constante da lista.
Os descritores do APPT foram também validados em mandarim, numa amostra de 10
crianças dos 6 aos 18 anos. Os autores referiram a necessidade de eliminar
alguns descritores por não terem significado na cultura chinesa (Franck et al.,
2004).
À semelhança de Wilkie et al. (1990) na construção do instrumento original e
van Cleve et al. (2001) na adaptação cultural dos descritores de dor para a
língua espanhola, utilizámos a metodologia Q-sort, por ser um método atrativo e
simples de executar, permitindo obter a perceção individual dos participantes
sobre a tarefa realizada. Os participantes compreenderam o que foi proposto e
completaram a tarefa em menos de dez minutos. Apenas um pequeno número de
descritores era desconhecido das crianças. Este conjunto de palavras, apesar de
ser comumente usado por adultos na descrição da dor, parece não integrar o
vocabulário corrente das crianças entre os 8 e os 17 anos. A variabilidade no
número de palavras que as crianças não conhecem poderá estar relacionada com o
seu desenvolvimento cognitivo, as suas experiências prévias e a sua vivência da
doença.
O APPT tem sido usado para explorar as experiências de dor de crianças com
diferentes patologias, como cancro e anemia falciforme, permitindo uma melhor
compreensão das dimensões sensorial, afetiva, avaliativa e temporal da dor. Tem
sido defendida a sua inclusão na prática clínica diária, dado que permite obter
informação sobre etiologia, padrões evolutivos e consequências físico-psico-
sociais da dor. O conhecimento da qualidade da dor pode igualmente permitir a
seleção de intervenções terapêuticas que incluam não apenas fármacos
analgésicos mas também intervenções psicossociais individualizadas (Jacob et
al., 2013).
Como limitações, podemos referir o tamanho da amostra que, apesar de pequeno,
foi superior ao de estudos idênticos (van Cleve et al., 2001). Também, uma
grande parte das crianças não estava com dor no momento em que realizou o Q-
sort, o que pode ter influenciado a classificação das palavras.
Conclusão
A avaliação da intensidade da dor tem-se revelado insuficiente para compreender
as experiências de dor das crianças com dor persistente, como é o caso do
cancro. A utilidade clínica de um instrumento como o APPT reside no facto de
permitir uma melhor caracterização das experiências de dor, nomeadamente quanto
à localização e qualidade.
A versão portuguesa do APPT apresentada tem equivalência concetual, semântica,
idiomática e operacional à versão original. O estudo das suas propriedades
psicométricas em crianças com cancro está a decorrer. No futuro, poderá ser
considerada a sua validação em crianças deste grupo etário com outras
patologias que cursem com dor persistente.
A validação da versão portuguesa deste instrumento é um contributo para a
prestação de cuidados culturalmente congruentes, pela possibilidade de noutros
países ser utilizado em crianças cuja língua materna é o português. Além disso,
a validação de um instrumento em diversas línguas favorece a realização de
estudos multicêntricos, possibilitando a análise conjunta e a comparação dos
resultados.