Perceção de pais e enfermeiros sobre cuidados de Enfermagem em neonatologia:
uma revisão integrativa
Introdução
O internamento de um filho Recém-Nascido (RN) impõe-se como uma realidade sem
balizas físicas ou cronológicas exigindo um maior nível de intervenção
especializada, tanto por parte dos enfermeiros como pelos familiares. As
experiências humanas apenas podem ser explicadas na forma como são
percecionadas, ou seja, a essência do fenómeno através dos olhos da pessoa que
o vivencia. Só assim será possível compreender as experiências humanas
conduzindo à exploração do fenómeno (Watson, 2002).
Os equipamentos desenvolvidos durante as últimas décadas tornaram as Unidades
de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN) dos hospitais num ambiente
tecnologicamente avançado. A sua finalidade é dar resposta a RN vulneráveis,
instáveis e em estado crítico, com um elevado risco de vida, em que as
condições clinicas se alteram constantemente. O objetivo de manutenção da vida
obriga a uma assistência intensiva e a uma tecnologia sofisticada, constituindo
um foco de ansiedade que é partilhado por enfermeiros e pais (Hockenberry &
Wilson, 2011).
A admissão de RN numa UCIN, pode ser traumatizante para ambos, RN e pais.
Quando o RN é hospitalizado, este é invadido por procedimentos invasivos, e
permanece num ambiente rodeado por sons desconhecidos (monitores que alarmam
frequentemente, aspiração), luzes constantes, pessoas estranhadas, o que
contribuiu para a despersonalização e para aumentar a ansiedade dos seus pais
em relação ao seu estado clínico. Os pais experienciam significativamente
stresse, ansiedade e desamparo. Assim, hesitantes diante da incerteza do
destino dos seus filhos, desconfortáveis fisicamente e inseguros
emocionalmente, as suas reações variam do silêncio ao choro. Muitos pais
sentem-se vulneráveis e com medo, uma vez que o internamento vem impregnado da
possibilidade constante da ocorrência da morte. Responder às necessidades da
família é portanto primordial quando o seu filho é internado na UCIN
(Hockenberry & Wilson, 2011).
O impacto que a hospitalização de um RN em UCIN tem sobre a família tem sido
amplamente documentado na literatura (Serafim & Duarte, 2005); a adaptação
a uma situação com estas características constitui um processo complexo, com
repercussões cujo sucesso vai depender de vários fatores, exigindo um esforço
de adaptação quase constante, na qual os enfermeiros são o sistema de apoio e
segurança, sendo detentores de um saber crucial que lhes permite ajudar a
ultrapassar momentos difíceis (Ferreira & Caeiro, 2005).
Nesta perspetiva, Watson reitera que o cuidar é a essência da Enfermagem, a
qual apenas se pode demonstrar e praticar de forma interpessoal, o que implica
necessariamente o encontro intencional entre duas pessoas com as suas vivências
e experiências(Watson, 2002). Importa ainda referir, que explicitar a natureza
dos cuidados prestados continua a ser uma condição necessária e imperiosa para
o reconhecimento de uma identidade profissional (Ferreira & Caeiro, 2005).
A valorização progressiva da Enfermagem revela-se no sentido da procura da
qualidade dos cuidados, que tenderá a efetivar-se fruto da constante produção
científica realizada, em que cada vez mais as competências são valorizadas no
sentido da excelência dos cuidados.
Se fixarmos a nossa atenção no conceito de cuidar, encontramos na literatura o
modelo de parceria de Cuidados de Anne Casey, cujo pressuposto da sua teoria é
incluir os pais nos cuidados à criança hospitalizada (Casey, 1993). Comprovando
a importância desta noção, consideramos este modelo como orientador do nosso
estudo, por considerarmos que é muito relevante para o enfermeiro na medida em
que, apesar de os cuidados serem centrados no RN, estes integram também os pais
como intervenientes no processo de cuidados. O estudo dos cuidados centrados na
família tem merecido a atenção de pesquisadores, o que denota a sua importância
a nível da Enfermagem. Os diversos trabalhos neste âmbito conduziram a novos
dados fundamentais para a compreensão deste construto. Tratando-se de um
construto complexo, compreendê-lo e salientar a sua importância implica recuar
no tempo. A narrativa da parceria remonta aos finais dos anos 80, com Anne
Casey (enfermeira neozelandesa). O contributo desta autora foi da maior
relevância, sobretudo porque desenvolveu a partir do modelo de cuidados
centrados na família um modelo de cuidados Partnership-in-care (Modelo da
Parceria de Cuidados de Anne Casey) em que realça a importância fundamental dos
pais nos cuidados à criança hospitalizada (Casey, 1993). A autora destaca no
seu modelo um princípio fundamental: reconhecer que os pais são os melhores
prestadores de cuidados dos seus filhos.
O modelo de parceria de Cuidados de Anne Casey emerge num momento muito
peculiar em que se defende uma mudança na filosofia de cuidados de saúde: da
evolução de cuidados centrados na doença e aspetos biológicos para uma
abordagem holística do ser humano. Evolui-se também no sentido de acreditar que
as pessoas devem ser responsáveis por zelar pela sua saúde e pelos seus
cuidados de saúde (quando isso é possível). A intervenção de Enfermagem às
populações tende assim a modificar-se: deixa de estar centrada na prestação de
cuidados diretos, para formas de cuidados que promovam a sua autonomia. A base
deste modelo é o sentimento de negociação e respeito pelas necessidades e
desejos do RN/família. A negociação da parceria de cuidados é considerada o
nível mais elevado de participação na prática de cuidados: os cuidados são
centrados na pessoa com forte comunicação entre os vários intervenientes no
processo de cuidados.
O Modelo de Parceria de Cuidados de Anne Casey tem como objetivo estabelecer
relações de igualdade entre os profissionais e os pais. É por isso
imprescindível que a enfermeira desempenhe funções de apoio, de ensino, e de
encaminhamento dos familiares do RN doente.
No que respeita às estratégias de apoio, o enfermeiro poderá colocar em ação
estratégias que permitam aos pais, envolverem-se nos cuidados, no sentido de
criarem um ambiente de confiança entre RN/pais/profissionais de saúde. Em
relação ao ensino, os enfermeiros deverão encetar um processo de ensino em que
partilhem conhecimentos e ensinem técnicas apropriadas aos membros da família
de modo a que estes possam satisfazer eficazmente as necessidades da criança.
Por último, no que se refere à função de encaminhamento, os enfermeiros podem
recorrer a outros profissionais de saúde, quando necessário, de forma a
garantir a recuperação da saúde da criança e o apoio aos que lhe prestam
cuidados (Casey, 1993).
O presente estudo surge, assim, com o propósito de refletir sobre a prática de
Enfermagem orientada para a seguinte finalidade: contribuir para uma reflexão
sobre o cuidar em Enfermagem exercido numa UCIN, numa perspetiva de melhoria da
qualidade dos cuidados prestados, a partir da perceção dos enfermeiros e dos
pais dos RN sobre as práticas de cuidado por eles experienciadas na UCIN.
Desenhou-se um protocolo de pesquisa integrativa de estudos tendo uma questão
norteadora como ponto de partida. Como contributo para a resposta à questão de
investigação pretendemos identificar e sintetizar a melhor evidência
científica, sendo nosso propósito, conhecer a evidência científica sobre os
cuidados de Enfermagem experienciados em UCIN, na perceção dos enfermeiros e
dos pais dos RN durante o período de internamento nessas unidades.
Partimos do pressuposto que em neonatologia as consequências nefastas da
hospitalização como, a separação dos pais, a ansiedade, o ambiente
desconhecido, podem ser minimizadas quando o RN é cuidado pelos pais; importa
agora compreender o processo metodológico.
Procedimentos metodológicos de revisão integrativa
Considerando a questão de investigação e os objetivos formulados, perspetivou-
se uma revisão integrativa por ser uma abordagem metodológica ampla que
possibilita a inclusão de estudos experimentais e não--experimentais e ainda de
dados da literatura teórica e empírica. Tendo como propósitos a definição de
conceitos, a revisão de teorias e evidências, bem como a análise de problemas
metodológicos de um tópico particular; possibilitando conclusões gerais a
respeito de uma área particular de estudo (Whittemore & Knafl, 2005). O
estudo seguiu as etapas previstas de uma revisão integrativa: formulação da
questão norteadora e dos objetivos; estabelecimento de critérios para a seleção
dos artigos, categorização dos estudos, avaliação dos estudos incluídos na
revisão, análise dos dados e apresentação dos resultados (Whittemore &
Knafl, 2005).
Como forma de pesquisa recorremos aos idiomas português, inglês e espanhol;
delimitando a pesquisa de artigos publicados no espaço cronológico entre 2004 e
2013, visto compreender um recorte de tempo mais próximo de toda a realidade.
Para o levantamento bibliográfico elegeu-se a plataforma EBSCOhost e
selecionaram-se as bases bibliográficas eletrónicas: CINAHL plus with full
text; MEDLINE with Full Text, Cochrane Central register of controlled trials,
Database of abstracts of reviews of effects, Cochrane Database of Systematic
Reviews, utilizando a língua inglesa como idioma preferencial, sem restrição em
relação ao tipo publicação. Para o levantamento do estudo identificámos cinco
descritores: recém-nascido (newborn, recién-nacido); enfermagem neonatal
(neonatal nurse, enfermera neonatal); terapia intensiva neonatal (neonatal
intensive care, cuidado intensivo neonatal); percepção (perception,
percepción); pais (parents, padres), validados através dos Descritores em
Ciências da Saúde - DeCS (compatível com Medical Subject Headings - MeSH).
Estes foram combinados através das expressões booleanas OR e AND da seguinte
forma (Tabela_1):
A presente revisão teve como questão norteadora: Qual a evidência científica
sobre os cuidados de Enfermagem experienciados em UCIN, na perceção dos
enfermeiros e dos pais durante o período de internamento nessas unidades?
Os critérios de inclusão e exclusão da amostra foram selecionados segundo um
modelo pré-definido que incluiu: participantes, intervenção, comparação,
resultados obtidos e desenho do estudo; método designado de PI[C]OD (Tabela_2).
Foram incluídos artigos publicados no período de dezembro de 2004 a janeiro de
2013. No sentido de ampliar a procura de estudos, foi realizada a análise de
referências dos estudos encontrados nas bases de dados selecionadas, com o
propósito de identificar outros estudos que contemplavam os objetivos da
pesquisa.
A análise do material foi realizada no período de fevereiro a março de 2013.
Num primeiro refinamento de pesquisa, os descritores foram submetidos a
cruzamentos entre si, utilizando como estratégia o formulário de pesquisa
avançada disponível nas bases de dados supracitadas, foram identificados 209
artigos. Por meio da leitura do abstract e aplicando os critérios de exclusão e
inclusão pré-definidos, rejeitaram-se 138 artigos. Através da leitura integral
de cada artigo foram excluídos 62 artigos, selecionando--se nove. No sentido de
aumentar a confiabilidade e transparência do processo de pesquisa, e conforme é
recomendado, integramos no processo de análise e seleção dos estudos a
participação de um pesquisador independente. Desta forma, foram incluídos nove
artigos. Tendo como linha orientadora os critérios de seleção enunciados foi
realizada análise, avaliação e síntese da evidência empírica.
Resultados e Interpretação
Com vista a uma reflexão crítica, norteada pelos objetivos, foram discutidos os
resultados emergentes do fenómeno em estudo. Daremos especial ênfase à
apresentação e análise de um conjunto de dados e informações que permitam
contribuir para conhecer a evidência científica sobre os cuidados de
Enfermagem, na perceção dos pais, e dos enfermeiros que prestam cuidados numa
UCIN, sobre os cuidados de Enfermagem experienciados por eles naquela Unidade.
Após a avaliação crítica dos estudos, quanto à credibilidade e à relevância dos
dados, com recurso a uma grelha previamente elaborada para avaliar o rigor e
qualidade dos resultados, verificou-se que todos se reportam a investigações
realizadas em contexto clínico. Os cuidados de Enfermagem percecionados pelos
pais e enfermeiros foram descritos a partir das experiências vivenciadas pelos
dois tipos de participantes.
Refletindo a questão de investigação, definiram-se como critérios de inclusão
apenas artigos de estudos com paradigma qualitativo, por se considerarem
metodologicamente mais adequados para fornecer evidências, identificação de
atributos ou domínios significativos da subjetividade e intersubjetividade das
atitudes e comportamentos percebidos pelo enfermeiro e pais sobre o fenómeno ou
contexto das experiências de cuidado ao RN.
Dos artigos analisados verifica-se que o número de participantes nos estudos
variou entre 6 e 33. Relativamente à orientação paradigmática e ao tamanho da
amostra, não se verificaram discrepâncias significativas nos resultados
obtidos. Os artigos incluídos foram publicados no espaço cronológico entre 2004
e 2013, e distribuíram-se da seguinte forma em relação ao país de proveniência:
três do Brasil, um de Portugal, um dos EUA, um de Inglaterra, um da Noruega, um
do Canadá, e um da Austrália. Todos os estudos recolhidos (Tabela_3) apresentam
informações relevantes para a resposta à questão de investigação desta
pesquisa, uma vez que os dados obtidos descreviam os cuidados de Enfermagem,
percecionados e experienciados pelos pais cujo RN esteve internado em UCIN, ou
pelos enfermeiros de UCIN. Através da análise, dos distintos estudos,
verificou-se a predominância do recurso à entrevista, sendo uma das suas
principais vantagens permitir um constatar diretamente com a experiência
individual da pessoa (Fortin, 2009). Passamos agora a apresentar uma síntese
das evidências encontradas em cada estudo.
A perceção das experiências vividas permite a compreensão de diferentes formas
de ver o mundo. Um maior conhecimento das vivências da pessoa doente pode
ajudar a Enfermagem a obter uma compreensão mais profunda da sua saúde e dos
processos de doença, e assim fornecer uma base mais sólida para os cuidados de
saúde ou mesmo levar à introdução de novas intervenções de Enfermagem. Os
enfermeiros podem melhorar a qualidade dos cuidados, ouvindo o outro. Por este
motivo, é importante para os enfermeiros e restante equipa de saúde saber o que
os pais dos RN realmente vivenciam e experienciam durante o internamento na
UCIN.
O processo de síntese baseou-se na análise temática: leitura exploratória de
cada artigo para desenvolver uma compreensão do conteúdo e contexto das
evidências; análise de conteúdo com identificação dos temas recorrentes ou
proeminentes nos diferentes estudos; análise comparativa dos temas recorrentes
com integração interpretativa dos resultados em novas categorizações temáticas
que englobam e transpõem os significados dos estudos constituintes da amostra
(Whittemore & Knafl, 2005). Os estudos analisaram o cuidar em Enfermagem
exercido numa UCIN, a partir dos significados das perceções atribuídos pelos
enfermeiros e pais dos RN. Seguiu-se a comparação das evidências encontradas
nos artigos procurando temas comuns, frases e conceitos.
Dos estudos analisados, que revelaram a presença e importância do enfermeiro
enquanto cuidador de um RN internado em UCIN, o seu papel evidenciou-se nos
domínios da relação e da informação/ensino, tendo ora um caráter positivo, ora
negativo. Neste sentido constatamos que em quatro estudos esta competência é
identificada, estabelecendo-se uma verdadeira relação operacionalizada através
das categorias analíticas: apoio à família durante a hospitalização do RN,
proximidade estabelecida entre pais/enfermeiros na UCIN, reconhecer o
enfermeiro como o elo na proximidade entre crianças e pais, envolvimento dos
pais no dia-a-dia durante a prestação de cuidados, apoiar na transição. Três
estudos centram-se no aspeto profissional, incluindo comportamentos e atitudes
que contribuem para um cuidado personalizado, tais como o apoio à significação
atribuída aos cuidados de Enfermagem; enquanto os outros dois focalizam aspetos
inerentes ao internamento do RN, enquanto situação de sofrimento, que se impõe
aos pais como um processo complexo de adaptação.
Conforme o exposto, da nossa análise surgiu um primeiro modelo teórico de
interpretação, revelador de que o foco de atenção principal dos pais era o RN,
sendo que, o papel do enfermeiro tocava todos esses aspetos. Após nova análise,
conduziu a uma reformulação das categorias encontradas, gerando três categorias
mais abstratas, descritoras dos fatores inferidos nos estudos sobre a perceção
dos pais e enfermeiros acerca dos cuidados de Enfermagem em UCIN, baseada na
transversalidade que os temas e conceitos apresentam ao longo de todos os
estudos. Finalizou-se com a transformação das similaridades em construções
sintéticas, representativas de todo o corpo de evidências, para produzir uma
síntese integrada num quadro teórico compreensível de todos os estudos. Neste
sentido, as evidências comuns foram reunidas em três temas: relação
terapêutica; humanização dos cuidados e sofrimento.
Tema 1 - Relação terapêutica
Ao exercer o seu papel, o enfermeiro focaliza a sua intervenção na relação
pessoa/ambiente, no entendimento de que o meio envolvente engloba distintos
elementos (humanos, físicos). Cientes da relação que constroem com o cliente e
a família, a sua formação e experiência na prática clínica facilita a
compreensão e respeito pelos outros. Neste sentido, a relação terapêutica
promovida no âmbito do exercício profissional de Enfermagem, caracteriza-se
pela parceria estabelecida com o cliente, no respeito pelas suas capacidades e
na valorização do seu papel. Esta relação desenvolve-se e fortalece-se ao longo
de um processo dinâmico que tem por objetivo ajudar o cliente a ser proativo na
consecução do seu projeto de saúde. Na prática, no âmbito da Enfermagem em
saúde infantil, a parceria deve ser estabelecida envolvendo as pessoas
significativas, conforme nos sugere o Modelo de Parceria de Cuidados de Anne
Casey, ou seja, os pais/família. Neste sentido, quando a entidade familiar e o
cliente são observados na perspetiva de unidade e como alvo dos cuidados de
Enfermagem, livres de juízo de valores, estes são otimizados pela modificação
de comportamentos que se tornam compatíveis com a promoção da saúde. A
colaboração com a família requer uma relação envolvida em ideias, recursos,
valores e formas de resolução de problemas, exercida em conjunto pelo
enfermeiro e pais. Neste contexto, esta atitude converge para um modelo de
interação familiar onde os enfermeiros são capazes de colaborar com as famílias
nos processos de promoção da saúde, prevenção e tratamento de doenças.
Assim, no que concerne à temática relação terapêutica, o papel do enfermeiro
junto da família do RN internado, foi identificado ao nível da relação e do
ensino/informação.
De algum modo este papel de relação entre enfermeiros e pais foi evidenciado,
tanto pelo seu caráter positivo como negativo (Silva, Barroso, Abreu, &
Oliveira, 2009; Fegran & Helseth, 2009; Merighi, Jesus, Santin, &
Oliveira, 2011; Trajkovski, Schmied, Vickers, & Jackson, 2012). Nos achados
de alguns autores é perceptível a relação direta e intensa entre os pais e os
enfermeiros, durante os períodos de internamento (Silva et al., 2009; Fegran
& Helseth, 2009; Merighi et al., 2011; Trajkovski et al., 2012).
Nos seus estudos sobre a relação e experiência dos pais com filhos, RN
hospitalizados na UCIN, um dos temas que emergiu das entrevistas é o
relacionamento positivo que se estabeleceu entre enfermeiros, pais e RN (Silva
et al., 2009; Fegran & Helseth, 2009; Reis, Rempel, Scott, Brady-Fryer,
& Van Aerde, 2010). Contudo nem sempre o relacionamento dos profissionais
de saúde foi assinalado como positivo ou gratificante; houve pais que
verbalizaram uma deficiente relação, pese embora esta seja mais referida no
período inicial de hospitalização (Gale, Franck, Kools, & Lynch, 2004;
Silva et al., 2009; Fegran & Helseth, 2009).
Nas investigações referentes à experiência de pais com RN internados na UCIN,
um dos temas que emergiu das entrevistas e que reflete a essência da
experiência é a perceção do comportamento no cuidar da equipa de Enfermagem. Os
pais referem que se sentiram bem cuidados, que a empatia dos profissionais os
ajudou a comunicar, sentimentos de segurança, confiança e tranquilidade
transmitida pelos profissionais, assim como profissionalismo da equipa no
domínio das suas competências (Silva et al., 2009; Fegran & Helseth, 2009;
Reis et al., 2010). Estes resultados são corroborados com os encontrados em
outro estudo, em que os relatos dos participantes indicavam que os cuidados
recebidos na UCIN foram satisfatórios e havia o reconhecimento pelos
participantes da preocupação da equipa de Enfermagem em comunicar com eles,
valorizando o olhar, a presença e o toque (Fegran & Helseth, 2009).
Dos participantes que revelaram a presença e importância dos enfermeiros,
evidenciaram-se relações de algum modo superficiais e de pouco envolvimento
essencialmente nos períodos de admissão, tendo evoluído significativamente ao
longo do internamento hospitalar em que, contactando mais proximamente com a
família e RN, o enfermeiro providenciava apoio emocional, facilitava informação
e orientava alguns procedimentos.
Na prática, a Enfermagem de família em saúde infantil deve ser exercida em
colaboração e cooperação com as famílias. A colaboração com a família de um RN,
requer uma relação envolvida em valores e formas de resolução de problemas,
exercida em conjunto pelo enfermeiro e família.
Não se poderá afirmar que dos relatos dos pais dos RN internados se tenham
retirado muitas expressões relativamente ao ensino. Efetivamente, observa-se o
seu papel na veiculação de informação, o que se pode constatar nas evidências
de outro estudo (Reis et al., 2010). O papel de facilitador e de orientação foi
também manifestado pelos participantes, o que pode remeter para um processo de
ensino em que sejam fornecidos elementos aos pais, no sentido de melhor cuidar
o seu filho internado (Reis et al., 2010).
Foram ainda expressas preocupações sobre as fontes de apoio e a sua eficácia e
por outro a sua resposta insuficiente ou ineficaz, evidenciando por vezes o
estado de solidão em que se encontravam (Silva et al., 2009). Assim, o apoio
mais relevante surge no interior da família nuclear, nomeadamente na pessoa do
cônjuge; o cuidador principal, geralmente a mãe, encontra a ajuda e o alento no
cônjuge ' o pai. As evidências apontam também os avós, como os parentes da
família alargada a quem os pais mais recorrem e com quem assumem poder contar.
Do exposto podemos referir que, com o emergir do conceito de relação
terapêutica, a Enfermagem encontra nesta forma relacional, que abriu uma
perspetiva de relações humanas, uma orientação para os cuidados. É neste
sentido que esta perspetiva constitui uma referência fundamental no
desenvolvimento deste trabalho.
Tema 2 - Humanização dos cuidados
O constructo humanização tem sido cada vez mais utilizado no âmbito da saúde;
humanizar, como o próprio termo indica, significa tornar humano o atendimento e
o relacionamento. Neste sentido, podemos referir que a humanização, carece de
uma reflexão acerca dos valores e princípios que norteiam a prática
profissional, pressupondo, além de um tratamento e cuidado digno, solidário e
acolhedor por parte dos enfermeiros ao seu principal sujeito de trabalho, o RN
e os seus pais, seres fragilizados, uma nova postura ética que permeie todas as
atividades profissionais e processos de trabalho institucionais. Nessa
perspetiva, os enfermeiros, demonstram estar cada vez mais à procura de
respostas que lhes assegurem a dimensão humana das relações profissionais,
principalmente as associadas à autonomia, à justiça e à necessidade de respeito
pela dignidade da pessoa.
Os enfermeiros devem atender à globalidade do ser humano, integrando a dimensão
relacional no seu exercício como uma via inequívoca de humanização, cuidando
assim o RN com dignidade, com valor em si mesmo, um ser único e irrepetível e
de igual modo, possibilitando-lhe possíveis ganhos em saúde. Se os enfermeiros
têm como objetivo prestar cuidados de Enfermagem de excelência, há ainda que
salientar, que ao atender a este domínio, assume-se, como uma profunda forma de
humanizar os cuidados, atuando assim de acordo com o disposto no artigo 89
alínea a) do Código Deontológico dos Enfermeiros Portugueses (OE, 2005): o
enfermeiro, sendo responsável pela humanização dos cuidados de enfermagem,
assume o dever de: dar, quando presta cuidados, atenção à pessoa como uma
totalidade única, inserida numa família e numa comunidade.
As evidências apontam para a importância atribuída aos aspetos de falta de
pessoal e a mobilidade significativa resultante desta, sendo que estes aspetos
podem ter num período de tempo extenso, consequências por sobrecarga de
trabalho e falhas a nível de integração que significam inexperiência e erros
não só nas componentes técnico-práticas mas igualmente na parceria com o
cliente e família, na humanização, continuidade e qualidade dos cuidados(Rolim
& Cardoso, 2006).
O ambiente dos cuidados intensivos foi também mencionado por alguns
participantes dos estudos. Nas vivências destes, encontramos dois temas
distintos: o ambiente tecnológico e o comportamento no cuidar em Enfermagem.
Embora o ambiente tecnológico da UCIN gere benefícios em termos de equilíbrio
biológico, ele é física e psicologicamente agressivo para ambos, pais e recém-
nascidos. Os RN têm um grande risco de desenvolver distúrbios comportamentais,
físicos e emocionais relacionados com o stresse, e o ambiente da UCIN pode
contribuir significativamente para essas alterações (Harbaugh, Tomlinson, &
Kirschbaum, 2004; Rolim & Cardoso, 2006; Trajkovski et al., 2012). Uma
dessas interações nocivas reporta-se ao nível de ruído, luz e do movimento. As
UCIN são descritas como uma sinfonia tecnológica, devido especialmente ao alto
nível de atividade, sons de equipamentos e alarmes, telefones e vozes dos
profissionais. O ambiente tecnológico é descrito como desagradável (Harbaugh et
al., 2004; Rolim & Cardoso, 2006; Trajkovski et al., 2012).
Tema 3 - Sofrimento
Frequentemente, os procedimentos de Enfermagem ao RN hospitalizado provocam dor
ou desconforto e, consequentemente, motivo de sofrimento e de ansiedade para os
pais. Esta ansiedade poderá dever-se a um conjunto de fatores stressantes
inerentes ao próprio ambiente da UCIN, mas leva-nos também a refletir sobre o
sofrimento, muitas vezes manifestado pelos pais durante o internamento.
Os resultados dos artigos analisados permitiram emergir diferentes formas de os
pais vivenciarem o internamento do seu filho RN na UCIN.
As emoções desempenham um papel importante no processo de doença e de cura. A
vivência psicológica e emocional é bastante focalizada em vários artigos, sendo
referenciada pelos participantes como experiências negativas estando
normalmente associada à morte. Embora a morte seja um acontecimento frequente
em Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais, acrescida da morte do outro, a
ameaça e o confronto com esta são uma presença constante nas experiências da
pessoa doente em UCIN (Gale et al., 2004; Rolim & Cardoso, 2006; Silva et
al., 2009; Fontoura, Fontenele, Cardoso, & Sherlock, 2011; Merighi et al.,
2011; Trajkovski et al., 2012). Nesta linha de pensamento, os participantes
utilizaram metáforas que faziam alusão à realidade da morte: já não sabia se
ele ia sobreviver, será que vai melhorar, escapar?, tenho muito medo dele não
sair, o que revelou a vivência da morte como uma experiência assustadora
(Fontoura et al., 2011).
As situações de terror, ansiedade e pânico são também referenciadas pelos
participantes dos estudos (Gale, et al., 2004; Rolim & Cardoso, 2006; Silva
et al., 2009; Fontoura et al., 2011; Merighi et al., 2011; Trajkovski et al.,
2012). As queixas como ataques de pânico e ansiedade eram fortemente ligadas a
estas situações de terror e experienciadas como assustadoras, que implicaram
emoções fortes, verbalizadas através de expressões como tenho vontade de
morrer (Rolim & Cardoso, 2006). Os sentimentos de incerteza, a impotência,
o medo, a insegurança (Rolim & Cardoso, 2006; Silva et al., 2009; Fontoura
et al., 2011; Merighi et al., 2011) e o sofrimento psicológico, e o sentimento
de incapacidade para lidar com a situação (Fontoura et al., 2011; Trajkovski et
al., 2012), foram, também, referidos pelos pais dos RN internados na UCIN.
A presença de dor acarreta um aumento substancial do desconforto. O sofrimento
físico e a dor foram também manifestados pelos participantes (Gale et al.,
2004; Rolim & Cardoso, 2006; Silva et al., 2009; Fontoura et al., 2011;
Merighi et al., 2011; Trajkovski et al., 2012). Num outro estudo para além da
dor, sensações físicas como a presença e remoção do tubo endotraqueal, a
presença dos drenos torácicos, as linhas invasoras de monitorização foram
também descritos como vivências dolorosas (Fontoura et al., 2011). Nestes
estudos, foram ainda verbalizadas as experiências dos pais do RN submetido a
ventilação mecânica, como comoventes e assustadoras. É comum, os pais das
crianças hospitalizadas manifestarem sentimentos de medo, ansiedade e
frustração. As evidências de outro estudo revelaram que estas manifestações,
são minimizadas quando os pais são considerados pela equipa elementos
essenciais ao cuidar do filho, quando os pais estão na posse de informações
sobre o que podem esperar, quando sabem o que é esperado deles e como podem
participar nos cuidados (Fontoura et al., 2011).
Conclusão
A evidência apontou os temas: relação terapêutica; humanização dos cuidados e
sofrimento, como relevantes no cuidado ao RN na UCIN e importantes para a base
científica dos conhecimentos da Enfermagem. Na prática, os enfermeiros devem
ser detentores deste conhecimento. Através desta Revisão Integrativa da
Literatura, pretendemos aprofundar conhecimentos que respondessem à questão de
investigação que norteou a nossa pesquisa, assegurar a pertinência do estudo,
clarificar e enquadrar o tema e orientar o desenho da investigação. Este estudo
trouxe-nos evidência relevante sobre o cuidar em Enfermagem exercido numa UCIN,
a partir das perceções dos enfermeiros e dos pais do RN durante o período de
internamento nessas unidades, no entanto, ainda não estão esgotadas as
expetativas pelo que pensamos ser pertinente manter a atualização desta
pesquisa.
Com intuito de concretizar estes propósitos analisamos nove estudos
científicos, que se norteiam por um paradigma qualitativo. Da revisão
bibliográfica que efetuámos, é nítida a divergência de esforços que têm vindo a
ser realizados no sentido de atualizar e humanizar os cuidados de Enfermagem.
Os resultados destes estudos mostram que embora a experiência global dos pais
do RN internado numa UCIN tenha sido de cariz negativo, a sua perceção em
relação à prática dos cuidados de Enfermagem foi positiva. A primeira está
relacionada com a morte, o receio de alterações cognitivas ou físicas que
possam vir a desencadear-se futuramente, desconforto devido à presença de
dispositivos invasivos no seu filho, dificuldade em dormir, dor, ansiedade e
medo. As evidências expressas pelos profissionais apontam para aspetos de falta
de pessoal e a mobilidade significativa resultante desta, sendo que estes
aspetos podem ter impacto negativo nas componentes técnico-práticas e na
parceria com o cliente e família, na humanização, continuidade e qualidade dos
cuidados. A positiva está associada com a segurança fornecida pela presença
constante dos enfermeiros, sendo que, o papel do enfermeiro junto da família do
RN foi identificado ao nível da relação e do ensino/formação; os enfermeiros
identificam a relação terapêutica pela parceria estabelecida com o cliente, no
respeito pelas suas capacidades e na valorização do seu papel.
O estudo realizado proporcionou-nos conhecer a evidência científica sobre o
cuidar de Enfermagem em UCIN, o que nos possibilitou a recomendação de ações no
sentido de dirigir a nossa intervenção para o RN, por meio da integração dos
pais, assumindo o RN como um ser relacional, rumo à construção de um modelo de
intervenção que visa a humanização do cuidar neonatal.