Editorial
EDITORIAL
Editorial
Zoe Jordan*
*Professora Associada Universidade of Adelaide, Australia
A comunicação e o problema complexo da translação da evidência
A comunicação e a mudança são aspetos inerentes à nossa existência quotidiana.
Tanto nas nossas vidas pessoais como profissionais, temos de interagir com
outras pessoas, dar conselhos, recomendações e opiniões; comprometemo-nos,
cooperamos, gerimos relações complexas; talvez façamos role play de acordo com
a nossa situação e as pessoas, os sistemas e as burocracias que nos rodeiam.
Nestes contextos, a mudança também pode ser complexa, desafiadora e polémica,
principalmente ao nível dos cuidados de saúde. A existência de várias agendas
de diferentes setores significam, frequentemente, que devem ser identificadas
soluções e estratégias criativas para alterar substancialmente a forma como os
cuidados de saúde são prestados.
Atualmente, muitos países em várias regiões estão focados na translação da
melhor evidência disponível para as políticas e a prática clínica. Até à data,
a ênfase tem sido dada ao contexto clínico. Assim, a questão que se coloca
muitas vezes é a razão pela qual existem fortes evidências sobre uma
determinada intervenção ou tratamento e, no entanto, esta não é utilizada na
prática. Iria sugerir que está a tornar- se cada vez mais importante questionar
os outros setores envolvidos na resolução deste problema complexo (wicked
problem). Porque é que as universidades e os institutos e centros de
investigação não estão a realizar estudos mais direcionados para as
necessidades das pessoas na prática clínica? Porque é que os governos estão a
estabelecer prioridades ao nível da investigação que é realizada? Porque é que
o setor do ensino não se centra mais nas abordagens multidisciplinares à
translação da investigação, começando ao nível da licenciatura? Porque é que
não há uma melhor e mais eficaz comunicação entre os setores da investigação,
do ensino, da prática clínica e do governo? Esta abordagem setorial em
silosmina a nossa capacidade coletiva de superar os impasses translacionais,
uma vez que nenhum dos setores está a trabalhar em conjunto.
Além disso, um desafio que muitos enfrentam é o de dizer a verdade a quem detém
o poder, o que acontece em qualquer estrutura organizacional, principalmente
quando se trata de resolver problemas. Em 2008, John Camillus escreveu na
Harvard Business Reviewque the wicked problems“ocorrem num contexto social;
quanto maior a divergência entre as partes interessadas, mais complexo é o
problema. É a complexidade social dos wicked problemstanto quanto as suas
dificuldades técnicas que os tornam difíceis de gerir”. Muitas vezes, a solução
passa pelo modo como as pessoas interagem entre si para criar entendimentos
comuns sobre as questões em causa e cocriar soluções para esses problemas.
A translação bem-sucedida do conhecimento para as políticas e a prática clínica
exige uma evolução social entre as redes de indivíduos que trabalham atualmente
em silos (ao nível da investigação, ensino, governo e prática clínica). É
necessária uma próxima geração de inovação para desembaraçaros vários núcleos
deste wicked problem. Não são necessários mais modelos ou referenciais. O que
se exige é engajamento humano. Planeamento Social. Comunicação.
A translação é intricadamente desorganizada, mas se conseguirmos compreender
melhor o papel de cada um no processo, bem como o nosso próprio papel, acredito
que seja um problema que seremos capazes de ultrapassar coletivamente. A
orquestração do engajamento cocriativo (do setor empresarial) envolve todas as
partes interessadas no processo de aquisição de conhecimentos e identificação
de soluções em conjunto. Este tipo de plataformas de engajamento baseadas na
experiência podem ter algo a oferecer à ciência da translação. Ela aproveita a
inteligência coletiva de uma forma reflexiva, recíproca e interativa. Afinal, a
translação é, em última análise, um esforço humano. Não há nenhuma tecnologia,
programa ou recurso que consiga fazer isso por nós. É intrinsecamente
imperfeita porque os seres humanos são imperfeitos e isso nunca vai mudar.
Somos [muitas vezes] resistentes à mudança, somos emocionais, experienciamos
por vezes conflitos de personalidade que têm impacto na nossa capacidade de
trabalhar em conjunto de forma eficaz. A sociedade, o conhecimento, o discurso
e o poder, todos desempenham aqui um papel.
Em última instância, poderemos nunca resolver o wicked problem da translação do
conhecimento. Talvez seja um processo demasiadamente dinâmico para poder ser
definido e sobrecarregado com regras rígidas ou diretrizes. É sim um processo
fluido e imprevisível. A evidência altera-se e evolui ao longo do tempo e, por
conseguinte, a translação é um ciclo contínuo no qual muitos, mas muitos atores
desempenham um papel importante. Em vez de estar constantemente a tentar
reconstituir, redefinir ou reenquadrar de forma discursiva a translação do
conhecimento, semanticamente ou de outra forma, talvez tenha chegado o momento
de assumir uma perspetiva foucaultiana em relação à translação, reconhecendo-
a como discurso e, como tal, algo que deve ser abordado a diferentes níveis,
com métodos diferentes. Assim, a pluralidade das instituições, setores e modos
de translação não pode ser apreendida através de uma única teoria ou método.