Perceções dos enfermeiros e doentes com AVC sobre a Educação para a Saúde
Introdução
No contexto europeu e internacional dos países mais desenvolvidos e com
políticas públicas de apoio social e de saúde, emerge a necessidade prioritária
de encontrar soluções para as pessoas dependentes (Unidade de Missão para
Cuidados Continuados Integrados, 2010). O aumento das carências existentes
resulta do aumento demográfico de idosos, da incidência de doentes crónicos e
da diminuição do apoio informal a estes grupos. Deste modo, deram-se mudanças
ao nível das políticas da saúde e emergiu um nível intermédio de cuidados,
intitulado a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados. Esta tem como
objetivo dar resposta às pessoas idosas ou dependentes que necessitam de
cuidados de saúde. Assim, a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados é
um lugar de excelência para implementar as práticas de Educação para a Saúde,
principalmente com doentes em fase de reabilitação. Pelo que o objetivo do
estudo foi conhecer as perceções de doentes com AVC e enfermeiros sobre as
práticas de Educação para a Saúde na Rede Nacional de Cuidados Continuados
Integrados.
Enquadramento
A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados constitui um dos projetos
mais inovadores ocorrido em Portugal no âmbito das políticas sociais e
desenvolvimento intersectorial. Emerge da parceria entre os Ministérios da
Saúde e do Trabalho e da Solidariedade Social, em que o cofinanciamento e
parceria são recomendações da Organização Mundial de Saúde. Foi criada para dar
resposta ao envelhecimento demográfico progressivo, à prevalência de doenças
crónicas incapacitantes, a uma escassa cobertura de serviços de cuidados
continuados a nível nacional, a um sistema de saúde assente em paradigmas de
doença aguda ou de prevenção e a uma redução substancial da rede de apoio
informal.
A Rede segundo o Decreto-Lei nº101/06, de 6 de junho, 2006 é constituída por
unidades e equipas de cuidados continuados de saúde e apoio social, onde se
incluem também os cuidados paliativos. Tem origem nos serviços comunitários de
proximidade, abrangendo os hospitais, os centros de saúde, os serviços
distritais e locais da segurança social e as autarquias locais. A prestação de
cuidados continuados integrados é assegurada por unidades de internamento,
unidades de ambulatório, equipas hospitalares e equipas domiciliárias. As
unidades de internamento englobam as unidades de convalescença, unidades de
média duração e reabilitação; unidades de longa duração e manutenção e unidades
de cuidados paliativos. A unidade de ambulatório envolve a unidade de dia e de
promoção da autonomia, as equipas hospitalares são constituídas pelas equipas
de gestão de altas e as equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados
paliativos. Por último são as equipas domiciliárias as equipas de cuidados
continuados integrados e as equipas comunitárias de suporte em cuidados
paliativos.
Para que o doente aceda à Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados,
cabe aos enfermeiros prestadores de cuidados diferenciados ou de Cuidados de
Saúde Primários a referenciação dos doentes para as unidades que considerem
mais pertinentes, mediante o prognóstico. Posteriormente à referenciação pela
Equipa de Gestão de Altas e com a aprovação da Equipa Coordenadora Local, o
doente aguarda vaga para a unidade assinalada. Uma vez admitido na unidade de
cuidados de convalescença ou de reabilitação, o doente e a equipa
multidisciplinar dão início a um processo de reabilitação.
Segundo Tones e Tilford (1994, p.11),
a Educação para a saúde é toda a atividade intencional conducente a
aprendizagens relacionadas com saúde e doença ..., produzindo
mudanças no conhecimento e compreensão e nas formas de pensar. Pode
influenciar ou clarificar valores, pode proporcionar mudanças de
convicções e atitudes; pode facilitar a aquisição de competências;
pode ainda conduzir a mudanças de comportamentos e de estilos de
vida.
Os doentes com AVC foram o nosso foco de atenção, atendendo que o AVC
caracteriza-se pelo impedimento no fornecimento de sangue a uma parte do
cérebro. O sangue leva nutrientes essenciais e oxigénio para o cérebro, pelo
que a ausência de fornecimento compromete a função das células cerebrais. Assim
como a opção pela participação dos Enfermeiros deveu-se à parceria que é
estabelecida entre Enfermeiro e doente e que é fundamental para o
desenvolvimento das práticas de Educação para a Saúde. Nesse sentido, todo
este potencial inspira uma investigação de fundo, no âmbito da Educação para a
Saúde. Como tal, o objetivo do estudo foi conhecer as perceções sobre as
práticas de Educação para a Saúde dos doentes com AVC e enfermeiros no seio
Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.
Questão de investigação
Quais as perceções dos doentes com AVC e enfermeiros sobre as práticas de
Educação para a Saúde na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados
Metodologia
Inicialmente foi pedida autorização aos responsáveis das instituições para a
realização da colheita de dados. Foram convidadas a participar as unidades de
cuidados continuados de curta e média duração da região Minho do país. Contudo,
das cinco unidades convidadas apenas três aceitaram participar. Participaram no
total oito doentes, três doentes de duas unidades e dois de uma unidade. Assim
como no total 17 enfermeiros, seis enfermeiros de uma unidade, seis de uma
unidade e ainda cinco de outra. Posteriormente foi explicado aos participantes
(enfermeiros e doentes), atendendo ao nível de compreensão dos mesmos, o
objetivo do estudo e garantido o anonimato das informações disponibilizadas.
Para formalizarmos este compromisso com os participantes na investigação,
concebemos uma declaração de consentimento informado cujo preenchimento em
duplicado permitiu a efetivação deste contrato.
Este estudo é do âmbito exploratório-descritivo e a amostra é de conveniência.
Utilizámos a entrevista semiestruturada como instrumento de colheita de dados.
Foram elaboradas duas entrevistas, uma dirigida aos doentes e outra aos
Enfermeiros. Os instrumentos de colheita de dados finais são resultado de
diversas alterações nas sucessivas fases de desenvolvimento da investigação.
Foi elaborado um pré-teste, de modo a aferir às questões que seriam pertinentes
no âmbito da Educação para a Saúde naquele contexto e com aquela população-
alvo. O pré-teste foi aplicado a dois Enfermeiros e a dois doentes internados
numa unidade de cuidados continuados de média duração na região Norte do país.
A seleção dos oito doentes que integraram a pesquisa resultou de um diálogo
regular com a equipa de Enfermagem de cada uma das unidades contempladas, no
sentido de reunirmos doentes que se encontravam na mesma fase de reabilitação.
Assim, os casos escolhidos foram doentes com diagnóstico de acidente vascular
cerebral que se encontravam na mesma fase do processo de reabilitação, ou seja,
que apresentavam semelhantes condições físicas e cognitivas para cooperar na
entrevista e que aceitarem participar. Por outro lado, os 17 enfermeiros
entrevistados dentro da população determinada tinham igual probabilidade de
serem escolhidos, tendo apenas como condição sine qua non serem prestadores de
cuidados nas unidades envolvidas na investigação e aceitarem participar na
investigação. As entrevistas foram realizadas entre fevereiro e maio de 2009 e
foram aproveitadas o maior número possível de oportunidades que surgiram.
Para a categorização dos dados que resultaram das entrevistas, partimos de
categorias definidas previamente, resultado das cinco principais vertentes que
segundo Neves e Galvão (2003) a Educação para a Saúde deve contemplar. A
primeira refere-se à proteção da saúde ou prevenção da doença através da
eliminação de comportamentos de risco; a segunda, à necessidade de mecanismos
de disponibilização de recursos financeiros em caso de doença, a terceira, à
preparação individual (psicológica) para a consciencialização sobre a
fragilidade humana, a quarta caracteriza-se pelo envolvimento verdadeiro e
ativo no processo terapêutico, simétrico na relação com o profissional, por
último a importância da perceção de finitude da vida humana. Contudo, os dados
obtidos, não se enquadravam em duas das categorias previamente definidas, mas
possibilitaram a construção de outras categorias: obstáculos às práticas de
Educação para a Saúde; oportunidades de melhoria quanto às práticas de Educação
para a Saúde; indicadores de qualidade das práticas de Educação para a Saúde.
Cada categoria é enquadrada por múltiplas unidades de registo, sendo estas por
sua vez, consubstanciadas pelas respetivas unidades de contexto. As unidades de
contexto constituem-se enquanto extratos do texto configurado como resultado da
transcrição das entrevistas aos enfermeiros e doentes.
Resultados
As práticas de Educação para a Saúde na perspetiva dos doentes inseridos na
Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados contemplam as categorias
Prevenção da doença através dos cuidados com a alimentação, deslocação aos
serviços de saúde, prática de exercício físico, cuidados de higiene e ausência
de hábitos aditivos; Preparação Individual encarando a doença como alteradora
dos papéis na família, enquanto processo de aprendizagem e foco de baixa
autoestima; Participação Ativa com uma participação problematizadora, ou seja,
a doença foi encarada como processo educativo que permitiu a libertação da
consciência e emancipação da pessoa. Pelo contrário, encontramos relatos do
tipo bancário e ainda de ausência de participação no processo de reabilitação
(Freire, 2005). Por fim, os doentes acreditam que os hábitos alimentares
constituem um indicador de qualidade para as práticas de Educação para a Saúde
como se pode ver na Tabela_1.
Na perspetiva dos Enfermeiros prestadores de cuidados na Rede Nacional de
Cuidados Continuados Integrados as práticas de Educação para a Saúde visam a
Prevenção da doença através da prevenção da depressão, promoção do autocuidado
e gestão do regime terapêutico; Obstáculos às práticas de Educação para a Saúde
reúnem a falta de recursos humanos, falta de tempo, de metodologia, de espaço,
de envolvimento da família, pela passividade do doente e pela falta de recursos
na comunidade; Oportunidades de melhoria agrupam a relação empática, a
monitorização das práticas de Educação para a Saúde, o espírito crítico e o
envolvimento da família; Participação Ativa implica o incentivo aos doentes e a
responsabilização dos mesmos. Para terminar, os Enfermeiros apontam a taxa de
reinternamento dos doentes, a redução do grau de dependência para os
autocuidados e a mudança de comportamento dos doentes como possíveis
indicadores de qualidade das práticas de Educação para a Saúde na Rede Nacional
de Cuidados Continuados Integrados como se pode ver na Tabela_2.
Discussão
O modelo higienista ou sanitário tornou-se a base conceptual para a Educação
para a Saúde no século XX, pelo que as práticas de Educação para a Saúde
abordaram fundamentalmente as questões da salubridade básica e a vacinação.
Deste modo, achavam que através da vacinação, informação sobre estilos de vida
saudáveis e hábitos de higiene, seria o suficiente para controlar e prevenir a
doença ou os efeitos da mesma. Com efeito, os doentes internados na Rede
Nacional de Cuidados Continuados Integrados revelam os efeitos do paradigma
patogénico (a grande maioria encontra-se na faixa etária dos 60 aos 70 anos).
De grosso modo, os doentes apontaram os cuidados com a higiene, com a
alimentação, a ausência de adições e a prática de exercício físico como sendo
os cuidados necessários para a prevenção da doença e promoção da saúde. O que
vai ao encontro de Santos (2000) ao considerar que a primeira geração de
modelos de Educação para a Saúde são fundamentalmente informativos. Estes
partem da premissa que a falta de informação é a responsável pelos
comportamentos e atitudes não saudáveis. Para além de que se inspiram no modelo
biomédico, que por sua vez assenta na prevenção e tratamento da doença, sob a
forma de prescrições e recomendações. Assim, identificamos que os doentes da
nossa amostra reduziram a conceção de saúde à mera ausência de doença.
Na perspetiva dos enfermeiros, um dos cuidados que concorreu para a prevenção
da doença ou proteção da saúde foi a prevenção da depressão, “Nos doentes, que
têm uma propensão a ficarem deprimidos, temos que trabalhar neste sentido, de
modo a motivá-los no seu trabalho, para que o resultado final seja melhor para
ele” [A2] (fevereiro 2009). Os enfermeiros afirmaram que o doente que sofreu
acidente vascular cerebral, encontra-se mais vulnerável, mais propenso a
desenvolver uma depressão principalmente durante o período de reabilitação. O
desencadeamento de um processo de depressão pode estar associado a vários
fatores, mas segundo Cassell (2004) a noção de serem um fardo na vida daqueles
que mais amam é profundamente auto-destruidora das suas identidades e
desencadeadora de sofrimento. Do ponto de vista de MacIntyre (1999), o ser
humano é uma espécie racional, assim sendo é uma das espécies mais vulneráveis,
sobretudo devido à capacidade afetiva. Deste modo, os enfermeiros vão ao
encontro do conceito de saúde de Tones e Tilford (2001) que compreende o
equilíbrio entre as dimensões biológica, psicológica, sociológica e também
espiritual e que estas se articulam com as influências genéticas, os serviços
de saúde e os estilos de vida.
Neste sentido, os enfermeiros acrescentaram que a promoção dos autocuidados é
dos cuidados mais explorados. Todavia, a conceção meramente prática da
aquisição de competências remonta ao modelo biomédico, puramente instrutor e
autoritário. Contudo, Dias (2009) realça que segundo a Declaração de Nairobi da
UNESCO (1976) os fenómenos educativos consistem em criar condições para que
cada ser humano possa desenvolver integral e harmoniosamente todas as suas
dimensões. Assim, a autonomia física e mental do doente, principalmente a
mental, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso da pessoa em todas as
dimensões da sua vida. Pelo que os enfermeiros da amostra ao conjugarem a
necessidade de prevenção da depressão ao incentivo dos doentes na execução dos
autocuidados congregam o modelo biomédico ao holístico “Os cuidados a ter com a
higiene, tentar perceber um bocadinho os hábitos dessas pessoas, as condições
habitacionais, se tem casa de banho, se tem banheira, se tem duche, tentar
perceber essa parte” [A1] (fevereiro, 2009).
Na linha do processo educação/reabilitação, os enfermeiros assinalaram a
importância de uma gestão do regime terapêutico eficaz por parte dos doentes. O
que converge com Moreno, García, e Campos (2000), ao privilegiarem os modelos
de Educação para a Saúde de segunda geração, os focados no comportamento, em
que o objetivo é obter comportamentos saudáveis e a informação é, apenas, um
elo do processo. Pelo que a saúde é considerada resultante do comportamento do
indivíduo, determinado por estímulos do meio onde está inserido. Contudo, os
mesmos autores acrescentaram a necessidade de desenvolver os modelos de
Educação para a Saúde designados de terceira geração, os críticos, atendendo a
ineficácia das abordagens anteriores. Estes propõem mudanças sociais,
relacionam a morbilidade e mortalidade às políticas económicas, e tenta reduzir
as desigualdades e potenciar a participação comunitária. A partir desta
terceira geração de modelos de Educação para a Saúde emerge a necessidade dos
enfermeiros estimularem o desenvolvimento do empowerment psicológico, ou seja a
habilidade para a pessoa conseguir tomar decisões na sua própria vida, a partir
de si próprio e não dos outros. Este é fundamental para uma eficaz gestão do
regime terapêutico. Do ponto de vista de alguns enfermeiros, muitos doentes não
desenvolveram eficazmente esta capacidade, o que prejudicou a incrementação do
stock de saúde do doente. Por fim, os enfermeiros reportaram ausência de
feedback sobre a gestão do regime terapêutico dos doentes no domicílio.
Acrescentaram que a recuperação pode ser posta em causa quando os doentes não
mantêm no domicílio o plano traçado durante o internamento na unidade.
Outra das categorias definidas a priori, foi a preparação individual humana, a
partir da reflexão sobre a doença. Esta categoria ganhou visibilidade junto dos
doentes pela descrição das diferentes experiências. Para alguns, a doença
revelou-se complexificadora da estrutura familiar instituída e despoletou a
readaptação de papéis nos restantes elementos da família,
Às vezes até digo ao meu marido: isto que eu tive foi um sinal para
vós, não foi para mim, foi para vos ensinar a trabalhar e dar valor à
mulher, porque vós não sabíeis dar. Estavas habituado à velhinha para
tudo, não sabia quando é que tinha de pagar a luz, água, o telefone,
ainda hoje sou que pago a renda, tem que fazer umas contas, sou eu
que as faço, fica à minha espera para fazer isso. Eu digo estás à
minha espera para fazer isso, ele diz, ó Maria tu consegues bem fazer
isso. [A1] (Abril de 2009)
Posto isto, a restante família necessitou de reformular as funções de cada um
na estrutura e dinâmica familiar, uma vez que o responsável por vários papéis
encontrou-se ausente, o que implicou que outros familiares ficarão encarregues
de o substituir.
A partir da nossa amostra, a experiência de doença demonstrou a capacidade de
aprendizagem e de adaptação, do doente e dos familiares envolvidos. Contudo,
devido à multiplicidade de alterações criadas na vida do doente e família, a
doença pode apresentar um carácter autodestrutivo, e propiciador a baixa
autoestima, nomeadamente na dimensão da sexualidade. Mais especificamente,
alguns doentes puseram em causa a solidez do casamento por se sentirem
diminuídos nesta dimensão. Por outro lado, as circunstâncias propiciaram o
surgimento ou a aproximação de pessoas relevantes, junto do doente, tornando-os
elementos facilitadores durante o processo. Contudo, apesar da grande maioria
dos doentes da nossa amostra sentir-se apoiada por amigos e familiares numa
fase inicial, com o passar do tempo, as alterações na vida do doente crónico
tornaram-se normais para a família, portanto deixaram de ser alvo de tantos
cuidados e preocupações. Pelo que consideramos que o doente deve estar
preparado para esse fenómeno.
Na última década, Neves e Galvão (2003) defenderam que o conceito de doente
sofreu uma revolução, no sentido que a passagem do doente passivo para um papel
ativo se transformou num exercício da cidadania. Este movimento de
consciencialização e responsabilização evoluiu do nível individual para o
comunitário, através da criação de grupos de ajuda e associações de doentes com
a mesma patologia. Posto isto, esperávamos consubstanciar a categoria da
participação ativa com imensos exemplos disso mesmo. Todavia, a maioria dos
doentes participaram de modo bancário, ou seja responderam às instruções que
lhes eram dadas. Outros demitiram-se de participar, pois não tinham qualquer
conhecimento sobre o seu regime terapêutico, nem demonstraram descontentamento
por esse facto, o que foi revelador do analfabetismo funcional (analfabetização
funcional corresponde à falta de iniciação aos múltiplos códigos de comunicação
existentes nas diferentes dimensões em que cada pessoa se insere). Em minoria
observámos uma doente que se envolveu ativamente no processo de reabilitação,
assumiu a responsabilidade pela sua saúde e problematizou-a nas diferentes
dimensões. A maioria dos enfermeiros entrevistados referiu incentivar os
doentes, mas apenas uma minoria utilizou a expressão responsabilização para
conotar a ação que era dirigida ao doente durante o processo terapêutico.
Verificámos uma dicotomia entre o modelo biomédico (culpabilização do doente
inerente à sua performance) e o modelo do empowerment (o doente não consegue
resultados positivos se não estiver motivado e capacitado da importância do seu
papel no processo terapêutico).
Quanto aos obstáculos para as práticas de Educação para a Saúde, os enfermeiros
atribuíram à família do doente a responsabilidade pela ineficiência do processo
de Educação para a Saúde. Durante a descrição das causas, levantaram-se
acusações quanto à falta de comparência nas sessões de ensinos programadas,
analfabetismo funcional quanto à filosofia das unidades, a vontade de prolongar
o internamento nas unidades e a desmotivação e desinteresse no processo de
aprendizagem (que está relacionado com o processo terapêutico do doente). Esta
perspetiva revela-se especialmente importante se pensarmos que a família ou o
cuidador (familiar ou não) será co-responsável pelo processo terapêutico do
doente, até que este seja autónomo. Deste modo, o enfermeiro revelou-se um
profissional que facilita a compreensão da família quanto à situação clínica do
doente e potencia o seu envolvimento ativo na construção de novos sentidos para
os seus contextos existenciais. Centrando-nos na formação académica dos
enfermeiros, tendo como base o paradigma holístico, privilegiador do papel da
família no conceito de saúde, Rodrigues, Pereira, e Barroso (2005) defendem que
é possível estabelecer uma aliança com a família na intenção de incrementar os
mecanismos de equilíbrio homeostático.
Outras causas foram apontadas pelos enfermeiros, nomeadamente a passividade do
doente, a falta de motivação, o nível de compreensão comprometido em
consequência do acidente vascular cerebral e os problemas emocionais que
condicionam a aceitação da doença. Os enfermeiros defenderam que é fundamental
os doentes aceitarem a perturbação (a doença) e atribuírem um significado, no
sentido de facilitar a passagem para níveis de aprendizagem diferentes. Outro
dos obstáculos apontado foi a falta de recursos humanos, o que por sua vez
desencadeia a falta de tempo para a prestação de cuidados de excelência.
Segundo Tavares e Silva (2010) a melhoria da efetividade dos cuidados
continuados requer que enfermeiros chefes, administradores da Unidades de
Cuidados Continuados e os gestores da Rede considerem e repensem a dotação de
recursos humanos capacitados e de recursos materiais necessários nas unidades,
promovam a capacitação profissional e a criação de condições que possibilitem a
parceria com a família. Também a carência de recursos na comunidade foi
levantado, o que converge com o relatório da European Comission (2007), que
demonstra que mais de 80% dos inquiridos em Portugal preferem receber cuidados
na própria casa (ainda assim um resultado inferior em relação aos inquiridos em
outros países da União Europeia). Todavia, como foi evidenciado pelos
enfermeiros neste estudo, até ao momento ainda não reunimos as estruturas e
meios adequados para dar resposta aos doentes no domicílio. Este facto é
consubstanciado pela Comissão Europeia, no Joint Report on Social Protection
and Social Inclusion (2008) ao defender a prestação de cuidados no domicílio à
prestação de cuidados em instituições. Por outro lado, Nogueira (2009) assume
que existe um longo caminho a percorrer, uma vez que é necessário atrair
profissionais e treiná-los para estes cuidados. O que mais uma vez vai ao
encontro do que os enfermeiros da amostra assumiram necessitar, da
implementação de uma metodologia para a realização de práticas de Educação para
a Saúde na Rede.
A categoria anterior, os obstáculos às práticas de Educação para a Saúde,
possibilitou a investigação de oportunidades de melhoria às práticas de
Educação para a Saúde. Deste modo, foi possível averiguar as sugestões dos
enfermeiros, nomeadamente quanto à própria performance profissional. Os
enfermeiros realçaram a importância da relação empática para que ocorra o
fenómeno educativo no processo de reabilitação. Alguns também apontaram a
necessidade de desenvolver o espírito crítico, o que vai ao encontro na
linguagem de Freire (1981) à conceção de que o educador também é um educando.
Por isso e de acordo com Oliveira (1999) encontramo-nos continuamente a
aprender uns com os outros.
Atendendo, às possibilidades de melhoria quanto às práticas de Educação para a
Saúde, tornou-se pertinente encontrarmos indicadores de qualidade das mesmas.
Na perspetiva dos enfermeiros, a taxa de reinternamento na Rede, a redução do
grau de dependência e a mudança de comportamento dos doentes são possíveis
indicadores de qualidade das práticas de Educação para a Saúde. Respetivamente
a taxa de reinternamento carateriza o internamento do doente que teve alta da
Rede recentemente, o grau de dependência resulta da aplicação de uma escala no
momento da admissão e novamente no momento da alta e a mudança de comportamento
contempla uma gestão do regime terapêutico eficaz. Contudo, apesar das
sugestões enunciadas pela maioria dos enfermeiros quanto à construção de
indicadores de qualidade das práticas de Educação para a Saúde, os enfermeiros
entrevistados demonstraram falta de conhecimento sobre os resultados alcançados
publicados nos relatórios de monitorização do desenvolvimento e atividade da
Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados. Por outro lado, os doentes
sugeriram que os seus resultados podem ser monitorizados através dos hábitos
alimentares no domicílio, o que implicaria um follow-up dos doentes no
domicílio. Consequentemente os doentes atribuíram às mudanças nos hábitos
alimentares a responsabilidade pelo sucesso da recuperação do estado de saúde.
Quanto à categoria que aborda a precaução em relação a uma previsível situação
de doença através da disponibilização de recursos financeiros e a categoria que
foca a assunção da mortalidade, categorias definidas a priori, não encontramos
evidência para as mantermos como categorias da Educação para a Saúde.
Emerge do estudo para a comunidade científica que apenas três das categorias
(Prevenção da doença, Preparação individual e Participação ativa) definidas a
priori por Neves e Galvão (2003) são visadas nas práticas de Educação para a
Saúde na RNCCI, por outro lado outras categorias que ainda não haviam sido
descritas emergiram do estudo (Obstáculos, oportunidades de melhoria e
indicadores de qualidade das práticas de Educação para a Saúde).
Conclusão
Perante uma situação tão complexa como o processo de reabilitação e no contexto
da Rede foi identificado o predomínio do paradigma patogénico no seio dos
doentes. Estes incidiram na prevenção da doença, no tratamento e atribuíram aos
profissionais de saúde a maior parte da responsabilidade pelo processo de
reabilitação. Consideramos a postura passiva e submissa da maioria dos doentes
resultado do modelo biomédico impregnado em algumas instituições,
profissionais, cidadãos e comunidade em geral. Por outro lado, os enfermeiros
realçaram o modelo biopsicossocial como orientador das suas práticas,
atribuíram aos aspetos psicológicos e sociais as causas, a evolução de doenças
e associam os aspetos psicológicos do doente à adesão ao regime terapêutico.
A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados carateriza-se como um modelo
dinâmico, integrado, contínuo e que dispõe de diferentes tipologias de cuidados
para a concretização dos objetivos. Contudo, a partir do estudo ainda não foram
criadas condições para incrementar os pressupostos do empowerment psicológico.
A maioria dos doentes não se encontrava de modo participativo no processo de
reabilitação, uma vez que não apresentavam conhecimentos sobre a sua situação
de saúde, não construíram expectativas quanto ao futuro e poucos foram os
doentes que focaram os recursos gerais de resistência (as capacidades que cada
pessoa tem para enfrentar as perturbações). Na perspetiva dos enfermeiros as
famílias precisam de desenvolver o alfabetismo funcional, uma vez que a maioria
tem dificuldade em dominar as várias funcionalidades do ambiente em que se
encontra. Principalmente, porque as famílias não conseguem operacionalizar o
que lhes é ensinado quanto aos cuidados ao doente e não conseguem mobilizar os
recursos na comunidade.
As limitações do estudo resultam do tamanho da amostra e do número de unidades
envolvidas, uma vez que consideramos que um maior número de unidades e um maior
número de enfermeiros e de doentes com AVC concorreria para uma colheita de
dados mais completa e abrangente. Também o timing em que o estudo foi realizado
pode ser considerado como uma limitação, atendendo que as unidades apenas
existiam há três anos e encontravam-se ainda numa fase pioneira da
implementação do projeto. Emergiu do estudo a constatação de que existem
obstáculos às práticas de Educação para a Saúde, oportunidades de melhoria e
possíveis indicadores de qualidade para as práticas de Educação para a Saúde na
Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados. Atendendo a estes achados
podem ser desenvolvidos projetos para contornar os obstáculos, assim como
estratégias para melhorar e medidas para monitorizar os possíveis indicadores
de qualidade sugeridos pelo estudo. Deste modo, podemos desenvolver a cultura
de mensurar a prestação de cuidados de Enfermagem e validar os cuidados de
Enfermagem. Portanto, com base nestes resultados e achados sugerimos
investigações acerca da conceção de Educação para a Saúde na Rede Nacional de
Cuidados Continuados Integrados, nomeadamente com doentes com outras
patologias, com a família e ainda com outros profissionais que compõem a equipa
multidisciplinar.