Avaliação do conhecimento dos professores de educação física para reagirem a
situações de emergência
INTRODUÇÃO
Os benefícios da atividade física e desportiva estão bem documentados (por
exemplo Bouchard, Blair, & Haskell, 2012) e quer as aulas de Educação
Física como o Desporto Escolar são considerados elementos chave para a promoção
de uma vida ativa nas crianças e jovens (Strong et al., 2005; World Health
Organization, 2010). No entanto, as atividades físicas e desportivas são a
maior causa de lesões e acidentes nos adolescentes e jovens (idades 11-18 anos)
quer na Europa quer na América do Norte (Abernethy, MacAuley, McNally, &
McCann, 2003; Başer, Coban, Taşci, Sungur, & Bayat, 2007; Orchard &
Finch, 2002; K.-M. Wang, Lin, & Huang, 2012). Prédine et al. (2002)
realizaram um estudo epidemiológico baseado em questionários aplicados a 2.396
adolescentes que sofreram acidentes escolares, e que recorreram à enfermaria da
escola, constatando que 52,8% dos acidentes ocorriam durante as atividades
desportivas, enquanto apenas 12,7% ocorriam nas atividades de recreação.
Linakis, Amanullah e Mello (2006) referem que em cada ano escolar 3,7 milhões
de crianças norte-americanas (5-19 anos) sofrem ferimentos graves na escola, o
que representa 16,5% de todas as visitas anuais às urgências hospitalares. A
literatura refere que cerca de um quarto destes acidentes resultam em situações
graves, como fraturas ou deslocamentos ósseos, rutura de ligamentos, lesões da
coluna ou cerebrais, enquanto os restantes acidentes provocam danos menores,
como entorses, distensões, contusões, escoriações, e lacerações (Abernethy et
al., 2003; Abraldes & Ortín, 2010; Emery & Tyreman, 2009). Num estudo
realizado em Portugal, Reis (2005) concluiu que dos 2625 acidentes escolares
analisados, 56.0% foram quedas, 24.5% choques, 2.6% manipulações de objetos, e
15.7% outros acidentes.
Apesar dos acidentes fatais serem muito raros Miller e Spicer (1998), num
relatório sobre acidentes relacionados com o desporto na escola, identificaram
30 mortes na faixa etária de 15-19 anos, num período de 6 anos.
Os benefícios da prática desportiva tanto na saúde mental como física de
adolescentes e jovens é inquestionável (Strong et al., 2005), mas apesar da sua
importância, a ausência de conhecimento adequado e da capacidade para lidar com
situações de emergência provenientes de acidentes pode diminuir
significativamente as vantagens dessa prática, podendo por em risco a saúde dos
estudantes (K.-M. Wang et al., 2012). As aulas de Educação Física e o Desporto
Escolar têm de ser o mais seguras possível, se se pretendem implementar
estratégias que levem os alunos a gostarem da atividade física a adotarem um
estilo de vida ativo.
O professor de Educação Física é aquele que tem maior probabilidade de assistir
a um acidente escolar, logo é frequentemente o primeiro agente responsável por
prestar cuidados após um acidente. Vários estudos (Abernethy et al., 2003;
Abraldes & Ortín, 2010; Junkins et al., 1999) indicam que a percentagem de
lesões que ocorrem nas aulas de Educação Física varia entre 17,5% e 23% em
relação ao total de acidentes escolares. Assim, o professor de Educação Física
tem um papel fundamental na prestação de cuidados aos alunos (Fioruc, Molina,
Junior, & Lima, 2008; Liberal, Aires, Aires, & Osório, 2005), devendo
estar preparado para agir de maneira eficiente, segura e adequada (Abraldes
& Ortín, 2010; Patsaki et al., 2012), uma vez que a sua ação tem
consequências na recuperação dos alunos (Başer et al., 2007; Flegel, 2002;
Olympia, Wan, & Avner, 2005). Na literatura encontram-se várias
investigações (Başer et al., 2007; Liberal et al., 2005; Olympia et al., 2005;
K.-M. Wang et al., 2012) com resultados consensuais sobre a necessidade do
professor de Educação Física estar preparado para reagir em situações de
emergência.
Sendo assim, o professor de Educação Física tem de ter competências específicas
que lhe permitam lidar convenientemente com os acidentes. Para isso podem
necessitar de uma formação específica ao nível de 1os socorros, o que nem
sempre acontece. Flegel (2002) refere que nos Estados Unidos apenas metade dos
docentes de Educação Física têm curso de primeiros socorros.
Então a questão que se coloca é se de fato os docentes estão preparados para
reagir aos acidentes que potencialmente possam acontecer.
Alguma literatura refere que os professores estão mal preparados para lidar com
os possíveis acidentes, pois o seu conhecimento é insuficiente ou não possuem o
discernimento e a capacidade para atuarem caso seja necessário (Emery &
Tyreman, 2009; Ransone & Dunn-Bennett, 1999; K.-M. Wang et al., 2012).
Vários autores apontam para o insuficiente conhecimento que os professores têm
sobre 1os socorros como a principal causa da incapacidade de lidar com
situações de emergência (Abernethy et al., 2003; Başer et al., 2007; Fioruc et
al., 2008; K.-M. Wang et al., 2012).
Por outro lado, os estudos de Patsaki et al. (2012) e Abraldes e Ortín (2010)
concluem que os professores têm um bom conhecimento de 1os socorros e boa
capacidade de lidar com situações de emergência.
Uma vez que: 1) não existe consenso na literatura sobre se os professores têm
ou não competência para agir nestas situações, 2) o conhecimento de 1os
socorros é visto como uma condição essencial para se ter uma boa prestação
perante acidentes/situações de emergência e 3) o estudo do conhecimento sobre
1os socorros dos professores de EF portugueses são escassos, o presente
trabalho tem como objetivo geral avaliar se os professores de Educação Física
portugueses têm conhecimento adequado para atuar em situações de emergência.
Além deste objetivo principal, pretendemos identificar se fatores como idade,
género, habilitações literárias/formação académica, perceção do conhecimento ou
fontes de informação sobre conhecimento de 1os socorros, influenciam esse
conhecimento.
MÉTODO
Este estudo pertence a uma investigação de tipo transversal analítico em que a
variável dependente é o conhecimento dos professores de educação física para
agirem em situações de emergência e as variáveis independentes são a idade, o
género, as habilitações literárias, a perceção do conhecimento e as fontes de
informação sobre 1os socorros.
Amostra
A amostra foi constituída por professores de Educação Física de Portugal que
estão no ensino há pelo menos 3 anos (critério de seleção). Foi utilizado o
método de seleção não aleatória tendo-se obtido uma amostra de 279 professores,
que representa 4.4% total dos professores de Educação Física de Portugal,
distribuídos pelo território nacional (continente e ilhas).
A amostra foi constituída por 57.7% homens e 41.9% mulheres, com uma média de
idades de 37.6± 7.1 anos. Relativamente às habilitações literárias 67.9% são
licenciados, 28.8% mestres e apenas 1.7% têm doutoramento. Quanto ao nível de
ensino, 13.4% lecionam no 1º ciclo, 30.9% no 2º ciclo, 24.3% no 3º ciclo e
29.6% no ensino secundário. Relativamente aos anos de docência de cada elemento
questionado, 44% encontram-se entre os 9 a 14 anos de docência, seguidos por
27.1% com 3 a 8 anos de atividade docente.
Instrumentos
Foi aplicado um questionário aos professores de Educação Física com mais de 3
anos de docência com objetivo de avaliar o conhecimento para reagirem a
situações de emergência durante as aulas. O questionário foi construído para
avaliar: (1) o conhecimento teórico (KT) dos professores sobre como agir face a
situações de emergência – grupos de questões O1; (2) o conhecimento operacional
(KO) perante essas situações de emergência- grupo de questões O2; (3) a
perceção que os professores têm do seu próprio conhecimento – grupo de questões
O3; e (4) as principais fontes de informação sobre 1ºs socorros usadas pelos
professores – grupo de questões O4. O questionário teve uma validação de
conteúdos feita por especialistas.
O grupo de questões O1 para avaliar o conhecimento teórico (KT) dos docentes
foi constituído por perguntas de carácter mais teórico, como conceitos,
identificações de diferentes tipos de lesões e tratamentos indicados para
determinadas situações. O grupo de questões O2 para avaliar conhecimento
operacional (KO) dos docentes foi constituído por perguntas mais operativas,
nomeadamente ao nível da tomada de decisão. As questões dos grupos O1 e O2
foram extraídas de vários estudos científicos (Abernethy et al., 2003; Abraldes
& Ortín, 2010; Ransone & Dunn-Bennett, 1999; C. K. J. Wang & Koh,
2006) e estavam estruturadas sob a forma de escolha múltipla.
Para uma melhor compreensão da pontuação obtida nos grupos O1 e O2 do
questionário, criámos uma variável qualitativa, segundo a percentagem de
respostas certas obtidas. Assim, para ambos os grupos foi dada uma
classificação (Mau, Médio e Bom), consoante a % de acerto a cada uma das
questões: Mau se o professor respondeu corretamente a menos ou a 50% das
questões, Médio se respondeu corretamente a 50-80% das questões e Bom se
respondeu a mais de 80% das questões. A escolha das diferentes percentagens
correspondentes às classificações foi realizada de modo semelhante à
metodologia apresentada por Abraldes e Ortin (2010), que consideram mau ou
muito mau percentagens de resposta abaixo dos 50%.
O grupo de questões O3 foi estabelecido, especificamente para esta investigação
para avaliar a perceção que os professores têm do seu próprio conhecimento.
Neste grupo as respostas foram dadas numa escala de Likert de concordância (1=
Discordo completamente; 5= Totalmente de acordo).
Do conjunto de questões O3 consideramos que a perceção geral do conhecimento
sobre 1os socorros é avaliada fundamentalmente pelas questões O3.2 Estou bem
informado sobre o que fazer em caso de acidente e O3.3 Tenho bastantes
dúvidas sobre como aplicar primeiros socorros, dado que as restantes questões
avaliam aspetos particulares de emergência, pelo que foram estas questões
analisada.
O grupo de questões O4 foi adaptado de Pinheiro, Esteves e Brás relativamente
às principais fontes de informação usadas em Exercício e Saúde, tendo também
sido usado uma escala de Likert de concordância (1= Discordo completamente; 5=
Totalmente de acordo).
Procedimentos
A recolha de dados da presente investigação ocorreu entre Janeiro e Abril de
2013 e fez-se simultaneamente por via eletrónica (nível nacional e ilhas) e em
formato de papel (nível regional – os professores que responderam em formato
papel eram alertados para não responderem ao mesmo questionário por via
eletrónica), de modo a poder abranger o máximo de dispersão geográfica. Como
meio de divulgação o estudo teve a colaboração dos sindicatos nacionais e dos
serviços administrativos de diferentes associações de professores.
Análise Estatística
Os dados foram tratados no programa Excel Office 2007 e IBM SPSS Statistics 19.
Fez-se uma análise estatística descritiva básica (médias, desvios padrão,
percentagens, valores máximos e mínimos). A análise inferencial das variáveis
fez-se após de verificar a normalidade (teste de Kolmogorov-Smirnov) e a
homogeneidade das mesmas (teste de Levene).
Para as questões O3, foram determinados os valores de Cronbach Alpha para
avaliar a sua validade e a fiabilidade
De modo a comparar estatisticamente os diferentes níveis de conhecimento
(Mau, Médio, Bom) relativamente a KT e KO e relacioná-los com os
diferentes parâmetros em análise, fez-se uma análise da variância (Anova),
aplicando o post hoc Tukey B ou, em caso das variáveis apresentarem valores
discretos, um teste de Qui-quadrado. Em todas as análises, a significância
estatística foi aceite para um valor de 95% (p <0.05).
RESULTADOS
Os resultados obtidos na presente investigação mostram que a grande maioria dos
professores entrevistados têm um nível médio de conhecimentos sobre o que fazer
em situações de emergência, visto que a classificação de Mau não abrange uma
porção considerável dos docentes (Tabela_1).
Os resultados obtidos mostram que a percentagem de KO é bastante superior ao
KT, no entanto há que realçar que mais de metade dos professores entrevistados
não tem um nível Bom de conhecimento operacional.
Fatores que podem influenciar o nível de conhecimento teórico e operacional
Interessa agora avaliar quais os fatores que afetam o nível de conhecimento
teórico (KT) e o nível de conhecimento operacional (KO), mais especificamente,
consideramos o efeito da a) idade, b) habilitações literárias, c) perceção do
próprio conhecimento e d) fontes de informação no nível de KT e KO.
Idade
Quanto à idade, consideramos 4 grupos etários (Grupo 1: < 30 anos; Grupo 2: 30-
40 anos; Grupo 3: 41-50 anos; Grupo 4: > 50 anos), e fez-se uma análise
descritiva (Tabela_2) sobre a % de classificações de Bom/Médio/Mau de KT e
KO, para os diferentes grupos investigados.
De seguida, fez-se um teste de comparação entre os grupos (ANOVA), e um
testePost Hoc (Tukey B). Os resultados, descritos na Tabela_3, mostram que
existem diferenças significativas entre os grupos etários investigados (para p
< 0.05), quer para o KT quer para o KO. Verificamos que os professores mais
jovens ( < 30 anos) apresentam estatisticamente um melhor KT relativamente ao
mais velhos ( > 50 anos), enquanto que estes apresentam um KO
significativamente mais baixo que os docentes mais novos.
Género
Como já referimos, a amostra dos professores entrevistados é constituída por
57.7% homens e 41.9% mulheres. A distribuição das classificações Bom/Médio/
Mau de KT e KO, segundo o género, estão descritas na Tabela_4.
Pela análise descritiva, nota-se que não há grandes diferenças na distribuição
das classificações, entre géneros. De modo a verificar se o género, enquanto
variável biológica, influencia o KT e o KO, procedemos ao teste do Qui-quadrado
(X2). Os resultados mostram que o género não influencia nem o KT (p=0.251) nem
o KO (p=0.517), para uma significância estatística de 95%.
Habilitações literárias
Relativamente às habilitações literárias a amostra avaliada é constituída por
67,9% licenciados, 28,8% mestres e 1,7% doutorados. A distribuição dos níveis
de conhecimento em estudo (KO e KT) está descrita na Tabela_5, para as
diferentes habilitações literárias.
Na Tabela_5 observamos que a % de Mau é bastante superior nos licenciados,
face aos mestres. De modo a compreender se a influência das habilitações
literárias em cada um dos conhecimentos investigados é estatisticamente
significativa, procedeu-se ao teste do Qui-quadrado (X2). Os resultados
estatísticos provenientes deste teste não contemplam os doutorados, dado este
ser um número residual na amostra, sendo excluídos (contagem esperada <5).
Para o KT verifica-se que existem diferenças significativas (p = 0.013) entre
os 2 grupos em análise (licenciados e mestrados). O nível de habilitações
literárias influencia o KT, sendo que os mestres têm um maior nível de KT que
os licenciados. Para KO, não existem diferenças estatísticas entre os dois
grupos em análise, para um nível de significância de 95% (p =0.084).
Os resultados mostram que as habilitações literárias influenciam o KT sobre os
1os socorros, uma vez que os professores com mestrado apresentam melhores
níveis deste conhecimento, mas não têm uma grande influência no KO, no modo
como o professor atua, face a situações de emergência. Isto significa que o
mestrado não melhora as competências que o professor tem, para lidar com
acidentes/emergências.
Perceção do próprio conhecimento
A matriz de correlações (apresentada na Tabela_6) indica que as diversas
questões O3 estão correlacionadas, pelo que estas podem fazer parte do mesmo
grupo de questões. O Alpha de Cronbach para o conjunto de questões O3 tem um
valor de 0.812, o que indicou um elevado nível de fiabilidade.
Ao nível da relação da perceção individual de conhecimento com o nível do
conhecimento, da análise descritiva dos resultados obtivemos que 46,6% dos
professores de educação física consideram estar bem informados sobre como atuar
em caso de emergência (questão 03.2) e apenas 23,2% dizem não sentir grandes
dúvidas sobre como aplicar os 1os socorros (questão 03.3).
Relativamente à questão 03.2 Estou bem informado sobre o que fazer em caso de
acidente,os docentes que apresentam nível Mau de KT são estatisticamente
diferentes dos docentes que apresentam nível Médio (p=0.013) (Tabela_7),
tendo uma perceção de não estarem tão bem informados sobre o que fazer em caso
de acidente. No entanto não encontrámos diferenças significativas entre os
docentes que apresentam nível Mau e nível Bom. No que diz respeito ao KO
não existem diferenças significativas entre os diferentes níveis de
conhecimento.
Quanto à questão 03.3 Tenho bastantes dúvidas sobre como aplicar primeiros
socorros (Tabela_9), os resultados mostram que existem apenas diferenças
significativas entre os docentes com nível Mau e Bom de conhecimento, quer
para KT (p=0.017) quer para KO (p=0.016), apresentado os docentes com nível
Mau mais dúvidas sobre como aplicar os 1os socorros.
Fontes de informação
Outro fator considerado na presente investigação, como podendo influenciar o
nível de conhecimentos dos professores sobre como atuar em caso de emergência,
foi a proveniência da informação sobre 1os socorros, isto é, qual a origem das
informações que os professores de educação física têm sobre esta matéria
(Tabela_8).
Analisando a Tabela_8, observámos que as principais fontes de informação
referidas pelos professores de educação física são: médicos/enfermeiros
(41.4%), formação profissional (36.2) e a licenciatura (34.4). As fontes menos
utilizadas são: redes sociais (3.3%) e amigos/família (9.7%).
De seguida, fez-se um teste de comparação entre os grupos (ANOVA), e um teste
Post Hoc (Tukey B). Os resultados estão descritos nas Tabelas 9 e 10.
No que diz respeito à comparação dos níveis KT (Tabela_9) com as diferentes
fontes de informação utilizadas de um modo geral não observámos diferenças
significativas entre os diferentes níveis de conhecimento. No entanto tem-se
que os docentes com um nível Bom de KT recorrem significativamente mais a
Revistas/jornais/TV do que os docentes com nível Médio (p=0.000) e do que
os docentes com nível Mau (p=0.001). Além disso os docentes com um nível
Médio de KT recorrem significativamente menos a Colegas Profissionais de
Desporto do que os docentes com nível Bom (p=0.041) e do que os docentes
com nível Mau (p=0.028).
Relativamente à influência das fontes de informação sobre o KO (Tabela_10),
também de um modo geral não observámos diferenças significativas entre os três
níveis de conhecimento. Porém os resultados mostram que os docentes com nível
Bom de KO recorrem significativamente mais a Médicos/Enfermeiros do que os
docentes com nível Mau (p=0.003). Por outro lado os docentes com nível Mau
de KO procuram significativamente menos a Formação profissional do que os
docentes com nível Bom (p=0.017) e do que os docentes com nível Médio
(p=0.018) para obtenção de informação. Verificamos também que apesar das Redes
sociais na internet serem pouco consultadas, os docentes com nível Bom de KO
procuram significativamente menos do que os docentes com nível Médio
(p=0.001) e do que os docentes com nível Mau (p=0.049).
DISCUSSÃO
A investigação feita centrou-se na avaliação do conhecimento dos professores de
Educação Física portugueses para atuar em situações de emergência e na possível
influência que fatores como idade, género, habilitações literárias/formação
académica, perceção do conhecimento ou fontes de informação têm sobre esse
conhecimento.
O professor de Educação Física é frequentemente o primeiro agente a socorrer
uma vítima de acidente escolar, quer no contexto de aula quer nas atividades de
desporto escolar, e a sua avaliação e capacidade de atuar têm importantes
consequências na recuperação dos alunos acidentados (Flegel, 2002; Olympia et
al., 2005; Patsaki et al., 2012). Um nível baixo de conhecimento sobre como
atuar em situações de emergência pode condicionar a recuperação da vítima, por
não lhes terem sido prestados os cuidados de 1os socorros mais adequados (Başer
et al., 2007; Wang et al., 2012).
Os resultados obtidos indicam que apenas 19.0% dos professores entrevistados
tem um bom nível de KT relativamente aos modos de atuação em situações de
emergência, sendo que 58.1% apresentam um nível médio e 22.9% um nível mau de
conhecimento. Ao nível do KO, 49.5% dos professores analisados tem um bom nível
de conhecimento operacional comparativamente aos modos atuação em situações de
emergência, sendo que 41.6% apresentam um nível médio e apenas 9.0% um nível
mau de conhecimento operacional. Embora o KO apresente melhores resultados que
o KT, ainda há metade dos professores com nível médio ou mau, revelando um
deficit de conhecimento sobre como atuar em situações de emergência. Os
resultados obtidos são parcialmente concordantes com os apresentados por
Olympia et al. (2005), Emery e Tyreman (2009), Wang et al. (2012), que referem
um mau conhecimento dos professores de Educação Física sobre como lidar com
situações de emergência, particularmente ao nível do KT. No entanto, ao nível
do KO, cerca de metade dos professores apresenta um bom nível de conhecimento,
o que vai de encontro ao referido por Patsaki et al. (2012) e Abraldes e Ortín
(2010). Como síntese dos resultados obtidos da avaliação do conhecimento dos
professores para atuar em situações de emergência pode considerar-se que o
conhecimento sobre como atuar face a um acidente (KO) é médio, apesar dos
conhecimentos teóricos sobre 1os socorros serem consideravelmente piores.
Considerando os resultados obtidos, é fundamental que o docente desenvolva
conhecimento de como agir (KO), para o bem-estar do jovem acidentado. Quanto
mais conhecimento o Professor possuir maior será a capacidade de atuar
(Abernethy et al., 2003; Başer et al., 2007; Fioruc et al., 2008; Wang et al.,
2012).
Quanto aos fatores que influenciam quer o KT quer o KO, tem-se que a idade
condiciona quer o KT quer o KO: os professores mais novos têm um melhor
conhecimento para lidar com situações de emergência e os professores com idades
superiores a 50 anos um pior conhecimento para reagir face à emergência.
Os resultados obtidos reportam que o género não é um fator com influência no KT
e no KO. Estes resultados corroboram os apresentados por Ortín e Abraldes
(2007), em que os autores consideram não haver diferença no conhecimento para
agir face a uma emergência entre professoras e professores.
Quanto às habilitações literárias (considerando apenas licenciados e mestres,
por o número de doutorados não ser estatisticamente significativo) têm-se que
os mestres apresentam um melhor nível de KT, mas um igual nível de KO, isto é,
as habilitações literárias não alteram o conhecimento prático que os
professores têm sobre como lidar com situações de emergência. Este resultado
difere parcialmente das conclusões de Abraldes, Córcoles, Muñoz, e Moreno , num
estudo para avaliar o nível de conhecimentos de 1os socorros de estudantes
universitários de Atividade Física e Desporto da Universidade do Porto, em que
os autores consideram que o nível de conhecimento dos estudantes finalistas é
baixo por estes conteúdos se abordarem principalmente no 2º ciclo de estudos
(Mestrado). Para os autores, os mestres teriam um melhor nível de conhecimentos
sobre 1os socorros, resultado que a presente investigação apenas corrobora
relativamente ao KT.
No que respeita à perceção que os professores têm do próprio conhecimento, tem-
se que os professores com nível Mau de KT consideram que não estão tão bem
informados sobre como reagir a uma situação de emergência. Os docentes com
nível Mau de KT e de KO percecionam ter significativamente mais dúvidas sobre
o que fazer em caso de emergência relativamente aos outros docentes com níveis
Bom e Médio. Estes resultados sugerem que os professores inquiridos têm uma
boa perceção do seu próprio conhecimento e das suas limitações para lidarem com
situações de emergência. Esta observação vai de encontro ao referido por
Abraldes e Ortín (2010), i.e., os professores têm a consciência da necessidade
de encontrar novos conhecimentos para lidar com situações de emergência.
Finalmente o último fator investigado foram as fontes de informação usadas
pelos professores para obterem conhecimento sobre como lidar com situações de
emergência. As principais fontes reportadas pelos professores são médicos/
enfermeiros, formação profissional e a licenciatura. Apesar de serem escassos
os estudos que mostrem quais as fontes de informação sobre 1os socorros usadas
pelos professores, Levenson, Morrow, Morgan, e Pfefferbaum (1986) apresentam
resultados semelhantes, indicando que o conhecimento dos professores sobre
conceitos de saúde provém maioritariamente de profissionais de saúde e formação
universitária e profissional.
Pelos resultados obtidos na nossa investigação, os docentes com nível Bom de
KT recorrem significativamente mais à consulta de media como Jornais/Revistas/
TV do que os docentes com nível Médio (p =0.000) e Mau (p=0.001). Este
facto pode estar relacionado com a melhoria de KT, uma vez que segundo
Eysenbach (2008) quanto maior o conhecimento do utilizador melhor a sua
capacidade de filtrar a informação pertinente dos media. Para este resultado
pode ainda contribuir o facto das informações disseminadas por esses media
serem alvo de revisão editorial (Lai & Wong, 2002).
Os resultados obtidos permitem concluir ainda que os docentes com nível Mau
de KO utilizam significativamente menos a Formação profissional do que os
outros docentes. Estes resultados são parcialmente suportados pela investigação
de Abraldes e Ortin (2010), em que os autores notam uma tendência para melhor
conhecimento sobre 1os socorros em professores que tiveram ações de formação
específica, apesar de não terem diferenças significativas entre os grupos.
Importa também referir que as redes sociais e amigos/família são de forma geral
pouco consultados pelos docentes para saber o que fazer em caso de emergência.
Porém observamos que os docentes com nível Bom de KO procuram
significativamente menos do que os docentes com nível Médio (p=0.001) e Mau
(p=0.049). A qualidade de informação existente nas redes sociais, onde há
muitos mitos e não-verdades sobre como lidar com acidentes (Oh, Lauckner,
Boehmer, Fewins-Bliss, & Li, 2013) pode ser uma das razões para que este
meio não seja privilegiado, especialmente pelo grupo com nível de conhecimento
Bom.
Esta investigação apresenta, como principais limitações, a relativa baixa taxa
de resposta dos professores de EF (a amostra corresponde a apenas 4.4% dos
professores de EF em Portugal) e a falta de conhecimento do vínculo laboral dos
professores entrevistados, o que pode condicionar o tipo de resposta dada pelos
docentes. Outra limitação é o facto do conhecimento operacional ter sido
avaliado por questionário e não por análise concreta da resposta dos
professores à situação de emergência, por exemplo, com situações práticas
simuladas. Neste estudo também não foi feita uma análise do tipo de formação
superior dos professores (curso/universidade) nem dos conteúdos programáticos
dos cursos frequentados, o que limitou as conclusões relativamente à influência
das habilitações literárias dos docentes no nível de conhecimento.
CONCLUSÕES
Nesta investigação procurámos avaliar o conhecimento teórico (KT) e o
conhecimento operacional (KO) dos professores de Educação Físicas portugueses.
Ao contrário do que acontece com outros países, em Portugal são escassos os
dados sobre a caracterização desta população quanto à capacidade de atuar em
acidente escolar. A presente investigação reveste-se, por isso, de um carácter
inovador pela caracterização realizada e ainda pela avaliação da influência de
alguns fatores (idade, género, habilitações literárias/formação académica,
perceção do conhecimento e fontes de informação sobre conhecimento de 1os
socorro) nessa atuação.
Concluímos que os professores apresentam um nível de KT inferior ao de KO, o
que significa que os professores têm mais conhecimentos operacionais que
teóricos. Por outro lado, mais de metade dos professores têm um nível Mau ou
Médio de KO, pelo que ainda há bastante trabalho a fazer de modo a melhorar a
resposta que o professor dá, como 1º agente e responsável pela prestação de 1os
socorros. Este conhecimento dos professores de EF difere com a idade, sendo
significativamente melhor nos professores mais jovens. Não é alterado pelo
género, mas os resultados mostram que os docentes mestres apresentam um melhor
nível de KT, apesar de não haver diferenças significativas no KO. Os
professores mostram uma boa perceção do seu nível de conhecimento para lidar
com situações de emergência em contexto escolar. A informação que os
professores têm sobre como reagir face a uma emergência provém principalmente
de médicos/enfermeiros, formação profissional e licenciatura, sendo pouco
procurada nas redes sociais e nos amigos/família. Concluímos porem que os
docentes com nível Bom de KT utilizam significativamente mais os jornais/
revistas/TV como fonte de informação, relativamente aos outros docentes. Por
sua vez os docentes com nível Mau de KO procuram significativamente menos a
formação profissional como fonte informação, quando comparados com os outros
docentes.
Assim é fundamental promover a formação contínua dos professores de Educação
Física na área dos 1os socorros. Este conhecimento pode ser adquirido com a
inclusão de módulos de 1os socorros na formação académica (licenciatura ou mais
especificamente no mestrado via ensino), ou com a utilização de novas
tecnologias através da construção de plataformas e-learning ou os MOOC (Massive
Open Online Courses), cada vez mais utilizadas pelas pessoas com o objetivo de
aprender e adquirir novas experiências e pelas instituições como meio de
disseminação de conhecimento. Não esquecer que na definição e construção dos
conteúdos, o uso de formadores que sejam médicos/enfermeiros, no contexto da
formação profissional, poderá ser uma mais-valia para a formação dos
professores neste âmbito.