Comportamento sedentário: conceito, implicações fisiológicas e os procedimentos
de avaliação
ARTIGO DE REVISÃO
Comportamento sedentário: conceito, implicações fisiológicas e os procedimentos
de avaliação
Sedentary behavior: concept, physiological implications and the assessment
procedures
Joilson Meneguci
1*
, Douglas Assis Teles Santos2, Rodrigo Barboza Silva1, Rafaela Gomes Santos1,
Jeffer Eidi Sasaki1, Sheilla Tribess1, Renata Damião1, Jair Sindra Virtuoso
Júnior1
1Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Brasil
2Universidade do Estado da Bahia, campus Teixeira de Freitas, Brasil
INTRODUÇÃO
A falta da prática regular de atividade física está associada à doença
cardiovascular, à diabetes mellitus tipo 2, à obesidade, a alguns tipos de
cancro e também à mortalidade por todas as causas (Hallal et al., 2012)>. Neste
sentido, as evidências da relação inversa da atividade física com as doenças e
agravos não transmissíveis colaboraram para a proposição de níveis mínimos de
atividade física com o intuito de trazer benefícios para a saúde (R. Pate et
al., 1995).
Até meados da década de 90 o modelo de promoção para a saúde visava a
necessidade da mudança nos níveis de aptidão física para o alcance de
benefícios; após esse período a incorporação do estilo de vida ativo tornou-se
suficiente para obter benefícios para a saúde, independentemente da alteração
no nível de aptidão física (Farias Júnior, 2011). Entretanto, com o avanço
tecnológico, a realização de tarefas, tanto as diárias como as laborais, passou
a ser mais simples, o que reduziu o tempo e a intensidade da atividade física e
aumentou o tempo exposto a comportamentos sedentários (Hamilton, Hamilton,
& Zderic, 2007; Owen, Healy, Matthews, & Dunstan, 2010).
O estudo do comportamento sedentário tem sido nos últimos 10 anos reconhecido
como uma questão de saúde pública (Hallal et al., 2012) e investigações colocam
em evidência que este comportamento está relacionado com efeitos deletérios
para saúde, sendo necessário transmitir esta mensagem à população (Hamilton,
Healy, Dunstan, Zderic, & Owen, 2008).
A comunidade científica tem destacado que novas investigações a respeito do
comportamento sedentário em diferentes regiões, culturas e os respetivos
fatores correlatos, tendo como referência amostras de base populacional,
fortalecem o entendimento das implicações para a saúde, além de possibilitarem
a elaboração de diretrizes (Bauman et al., 2011; Hamilton et al., 2008; World
Health Organization, 2010).
Recentes estudos epidemiológicos têm demonstrado que demasiado tempo despendido
em comportamento sedentário, além de estar associado a doenças
cardiovasculares, obesidade, síndrome metabólica, diabetes mellitus (Hamilton
et al., 2007), trombose venosa (Howard et al., 2013), pode ser considerado um
fator de risco para todas as causas de mortalidade, independentemente do nível
de atividade física (Katzmarzyk, Church, Craig, & Bouchard, 2009; van der
Ploeg, Chey, Korda, Banks, & Bauman, 2012).
Apesar do aumento da relevância do estudo do comportamento sedentário,
principalmente pela sua relação com a saúde, os métodos de avaliação e as
discussões ainda são incipientes e marcadas muitas das vezes por incoerências
na utilização da terminologia (Owen et al., 2010).
Neste sentido, o presente estudo teve como objetivos: a) rever os termos
operacionais utilizados para definir o comportamento sedentário; b) descrever
as implicações fisiológicas relacionadas com o comportamento sedentário; e, c)
os principais métodos de avaliação do comportamento sedentário.
MÉTODO
O presente estudo é uma revisão realizada a partir do levantamento de artigos
publicados em periódicos indexados que tiveram o objetivo de discutir a
temática do comportamento sedentário em relação à sua definição, implicações
fisiológicas e métodos avaliativos.
Para o levantamento dos artigos na literatura realizou-se uma busca avançada
nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), National Library of
Medicine (PubMed) e Web of Science. Utilizou-se a combinação do termo
sedentary behavior com definition, physiological mechanisms e assessment
methods, conforme apresentado na Figura_1.
Através do procedimento de busca adotado, selecionaram-se os artigos que
apresentaram o conceito de comportamento sedentário, as implicações
fisiológicas advindas deste comportamento e os métodos de avaliação. Também foi
realizada uma busca manual a partir da leitura das referências dos artigos
selecionados nas bases de dados pesquisadas, sendo que aqueles considerados
relevantes para a discussão e o entendimento dos constructos analisados foram
incluídos neste artigo.
Relativamente à definição operacional, selecionaram-se, a partir da busca
realizada, os trabalhos de Owen et al. (2010) e Pate, O'Neill, e Lobelo (2008).
Adicionalmente foram incluídos trabalhos que discutiram a respeito do compêndio
de atividade física (Ainsworth et al., 2000), acerca da topografia corporal
(Hamilton et al., 2007, 2008) e do sono (Must & Parisi, 2009; Patel &
Hu, 2008; Taheri, Lin, Austin, Young, & Mignot, 2004). A diferenciação da
nomenclatura comportamento sedentário de atividade física teve como base
recomendações de intensidade, frequência e duração da prática de atividade
física (R. Pate et al., 1995; World Health Organization, 2010).
Para discussão das implicações fisiológicas foram utilizados estudos que
relacionaram o comportamento sedentário à mortalidade (Katzmarzyk et al., 2009;
van der Ploeg et al., 2012) e à redução da expectativa de vida (Katzmarzyk
& Lee, 2012). De acordo com a busca realizada, o trabalho de Charansonney
(2011) foi selecionado como referência para descrever os mecanismos
fisiológicos do comportamento sedentário.
Em relação aos métodos de avaliação do comportamento sedentário, foram
selecionados os artigos que discutiram tanto dispositivos tecnológicos (Grant,
Ryan, Tigbe, & Granat, 2006; Kerr et al., 2013; Ryde, Gilson, Suppini,
& Brown, 2012) como de autorrelato (Clark et al., 2011; A. L. Marshall,
Miller, Burton, & Brown, 2010; Rosenberg, Bull, Marshall, Sallis, &
Bauman, 2008). Como forma de demonstrar os métodos de avaliação do
comportamento sedentário, adotou-se a estratégia de incluir os métodos de
avaliação da atividade física (Florindo, Latorre, Jaime, Tanaka, & Zerbini,
2004; Grant et al., 2006; Kriska & Caspersen, 1997; Oliveira & Maia,
2001; Rodrigo Siqueira Reis, Petroski, & Lopes, 2000).
Com o intuito de atender o objetivo do estudo foi construído um modelo teórico
para definir o comportamento sedentário, apresentar as implicações fisiológicas
advindas deste comportamento e os métodos de avaliação.
Comportamento sedentário: definição operacional
Com o objetivo de transmitir uma mensagem à população mostrando que para
alcançar benefícios para a saúde não é necessário participar em programas
vigorosos de atividade física, as orientações para a prática com intensidade
moderada passam a ser recomendadas na prevenção de doenças (R. Pate et al.,
1995; World Health Organization, 2010).
Nos últimos anos tem sido observado um maior cuidado com o uso de denominações
apropriadas na estratificação dos níveis de atividade física e comportamentos
sedentários. A inatividade física vem sendo entendida como a condição de não
atingir as diretrizes de saúde pública para os níveis recomendados de atividade
física de intensidade moderada a vigorosa (AFMV) (Hallal et al., 2012). O
comportamento sedentário tem sido definido para se referir à exposição a
atividades com baixo dispêndio energético, atividades <= 1.5 equivalentes
metabólicos (METs) (Owen et al., 2010; R. R. Pate et al., 2008).
Apesar da evolução da área de atividade física e saúde no uso adequado de
terminologias, ainda é possível encontrar na literatura o termo sedentário como
sendo utilizado para descrever de forma inapropriada o baixo dispêndio
energético em AFMV (Mullen et al., 2011). Esta falta de consenso na utilização
das terminologias para evidenciar o nível indesejado de atividade física pode
ocasionar uma interpretação ambígua na generalização dos resultados de estudos
(Farias Júnior, 2011).
Frente à exposição dos diferentes termos utilizados, os constructos distintos
dos comportamentos sedentário e atividade física são apresentados em
organograma no intuito de exemplificar e padronizar a utilização das referidas
terminologias (Figura_2).
Comportamento sedentário é o termo direcionado para as atividades que são
realizadas na posição deitada ou sentada e que não aumentam o dispêndio
energético acima dos níveis de repouso (Ainsworth et al., 2000; R. R. Pate et
al., 2008). São exemplos de atividades sedentárias as que estão relacionadas
com uma exigência energética baixa, como ver televisão, o uso do computador,
assistir às aulas, trabalhar ou estudar numa mesa e a prática de jogos
eletrónicos na posição sentada (Amorim & Faria, 2012; Owen et al., 2010).
A simples posição em pé, mesmo sem a realização de alguma atividade, não é
considerada como comportamento sedentário, podendo ser diferenciada das
atividades sentadas, já que exige contração isométrica da musculatura para se
opor à gravidade (Hamilton et al., 2007, 2008).
Na classificação do comportamento sedentário tanto a topografia corporal como o
equivalente metabólico podem conduzir a dúvidas na interpretação no momento de
estratificação do risco para a saúde, a exemplo das atividades de escrever ou
digitar na posição sentada que correspondem a 1.8 METs, sendo este score
metabólico similar à atividade de leitura na posição ortostática (Ainsworth et
al., 2000).
Tendo como base a definição de comportamento sedentário, o sono é considerado
uma atividade sedentária, pois o seu gasto energético é de .9 METs (Ainsworth
et al., 2000). O tempo de sono recomendado para adultos é de 7 a 9 horas
(National Sleep Foundation) a cada 24 horas, devido à necessidade orgânica de
recuperação, portanto este período não deve ser quantificado como comportamento
sedentário para estratificação de risco para a saúde (Owen et al., 2010).
Períodos de sono inferiores ou superiores aos recomendados para a saúde devem
ser analisados na quantificação dos comportamentos sedentários de risco. A
princípio podia-se esperar que a duração do sono curto, ou o débito do sono,
estaria associada a maiores gastos diários de energia e, portanto, menor peso
(Must & Parisi, 2009). Entretanto, evidências clínicas e populacionais
revelaram que a duração do sono curto está associada com o excesso de peso em
adultos (Patel & Hu, 2008).
A regulação do sono contribui para a manutenção do peso corporal e do
metabolismo orgânico saudável (Must & Parisi, 2009; Patel & Hu, 2008;
Taheri et al., 2004). Num estudo de base populacional denominada de Wisconsin
Sleep Cohort Study foram analisados distúrbios do sono de 1.024 voluntários,
sendo identificado que os participantes com deficit de sono apresentavam
alterações nos hormônios reguladores do apetite com a redução da grelina e a
elevação da leptina, e consequente aumento do índice de massa corporal (Taheri
et al., 2004).
A relação do deficit de sono e o aumento do peso corporal envolvem efeitos
metabólicos diretos, bem como de vias comportamentais indiretas, incluindo a
presença de televisores e de meios de comunicação eletrónicos (Must &
Parisi, 2009). Nas sociedades ocidentais, onde a restrição crónica do sono é
comum e os alimentos altamente calóricos estão amplamente disponíveis, as
alterações nas concentrações dos hormônios reguladores do apetite com a redução
do sono pode contribuir para a obesidade (Taheri et al., 2004).
Comportamento sedentário: implicações fisiológicas
Há consenso entre estudos para a condição elevada do tempo exposto a
comportamentos sedentários estar associada a um maior risco de mortalidade
(Katzmarzyk et al., 2009; van der Ploeg et al., 2012). Ou seja, por mais que o
indivíduo seja ativo fisicamente, tal comportamento pode não compensar os
efeitos adversos do tempo prolongado na posição sentada.
Com o objetivo de determinar a relação entre tempo sentado, doenças
cardiovasculares, cancro e mortalidade por todas as causas, Katzmarzyk, Church,
Craig, e Bouchard (2009) avaliaram o tempo sentado referido por 17.013
canadenses durante o período de 13 anos. Foi encontrado que o tempo sentado por
um período prolongado estava associado positivamente com as doenças
cardiovasculares e com a elevação das taxas de mortalidade por todas as causas.
Nesta mesma linha, analisando o tempo sentado de 222.497 australianos com 45
anos de idade, van der Ploeg, Chey, Korda, e Bauman (2012) observaram que os
indivíduos com maior tempo sentado apresentaram um risco relativo de
mortalidade de 1.11 (95%, IC: 1.08 – 1.15).
Em um recente estudo de meta análise desenvolvido com o objetivo de verificar
os efeitos do comportamento sedentário na expectativa de vida da população dos
Estados Unidos, foi identificado um aumento de dois anos na expectativa de vida
com a redução do tempo diário despendido na posição sentada para menor que três
horas e um aumento de 1.38 anos a partir da redução para menor de duas horas/
dia de visualização de TV (Katzmarzyk & Lee, 2012).
Os mecanismos pelos quais o comportamento sedentário aumenta o risco de
mortalidade e doenças crónicas e suas consequências constituem a síndrome do
comportamento sedentário. Os mecanismos explicativos para esta síndrome partem
da premissa de que a imobilização proporciona o disparo de respostas
estressoras responsáveis por efeitos deletérios para a saúde (Charansonney,
2011; Charansonney & Després, 2010).
A acumulação de efeitos nocivos resultantes do longo tempo exposto a
comportamentos sedentários ao longo do curso da vida poderá favorecer o
desencadeamento ou a exacerbação de doenças crónicas na velhice e a mortalidade
precoce (Charansonney, 2011).
O modelo exposto na Figura_3 explica como o comportamento sedentário pode
aumentar o risco para doenças crónicas e eventos agudos, e como as pausas entre
as atividades sedentárias podem diminuir estas consequências. Este modelo foi
adaptado de Charansonney (2011) e complementado com os resultados de estudos
descritos na sequência deste tópico.
A imobilização é considerada um mecanismo estressor, o qual diminui a
utilização de glicose pelos músculos, aumentando a resistência à insulina e
ocasionando a atrofia muscular e a diminuição da utilização de energia pelos
músculos inativos (Charansonney, 2011; Charansonney & Després, 2010; Zhang,
Chen, & Fan, 2007). A energia é realocada para o fígado, o qual aumenta a
produção de lipídios, que preferencialmente são armazenados no tecido adiposo
da região central do corpo (Charansonney, 2011). Estes adipócitos tornam-se
metabolicamente ativos quando carregados de gordura, e ambos produzem moléculas
inflamatórias concomitantes à redução da secreção de adiponectinas anti-
inflamatórias (Elks & Francis, 2010).
Além disso, ocorre o aumento do número de macrófagos ativos que produzem
citocinas pró-inflamatórias, que por sua vez desempenham um papel importante na
patogénese das dislipidemias, hipertensão arterial e doenças cardíacas (Heber,
2010; Rasouli & Kern, 2008). O estado inflamatório crónico pode representar
um fator desencadeador da síndrome metabólica e ser responsável por disfunções
endoteliais como a aterosclerose (Heber, 2010).
O aumento da ingestão calórica é outro fator que está associado a prejuízos
para a saúde, proporcionando o aumento do acúmulo de gordura no fígado e nos
adipócitos, desencadeando os efeitos deletérios para a saúde (Charansonney,
2011; Charansonney & Després, 2010).
Por sua vez, o acúmulo de gordura corporal proporciona ao indivíduo dificuldade
para realizar atividades aeróbias (Hunter, Weinsier, Zuckerman, & Darnell,
2004) e consequentemente a redução do consumo máximo de oxigénio e o aumento do
risco de morte por todas as causas (Kodama et al., 2009). O decréscimo da
capacidade cardiorrespiratória pode ser o resultado do aumento do tempo exposto
a comportamentos sedentários (Charansonney, 2011).
Estudos têm demonstrado que não basta medir o tempo total exposto a
comportamentos sedentários, mas também o padrão deste comportamento, por
exemplo, a existência de interrupções e o tempo de intervalo dessas pausas
(Cooper et al., 2012; Healy, Matthews, Dunstan, Winkler, & Owen, 2011).
Entretanto, pouco se sabe sobre o intervalo de tempo em que o comportamento
sedentário deve ser interrompido (Rutten, Savelberg, Biddle, & Kremers,
2013).
O elevado tempo despendido em atividades sedentárias está associado a uma maior
circunferência da cintura (Cooper et al., 2012). Por outro lado, valores
menores de circunferência da cintura foram diagnosticados para indivíduos com
maior frequência em pausas no comportamento sedentário (Cooper et al., 2012;
Healy et al., 2011). As interrupções no tempo sedentário também estão
relacionadas com os benefícios nas concentrações de proteína c-reativa e de
glicose plasmática de jejum (Healy et al., 2008).
Outra consequência advinda do comportamento sedentário é o aumento do risco de
desenvolver trombose. Um estudo recente demonstrou que a interrupção do
comportamento sedentário está relacionada com um menor aumento de fibrinogénio
no plasma e com a redução de parâmetros de volume de sangue que influenciam a
viscosidade do sangue, reduzindo o risco de trombose venosa (Howard et al.,
2013).
Pausas no tempo prolongado de comportamento sedentário devem ser incentivadas
às pessoas, pois há indicativos de que interrupções de pelo menos de um minuto
(Healy et al., 2008) em prolongadas atividades sedentárias contribuem para a
redução dos efeitos nocivos deste comportamento para o corpo.
A interrupção do tempo sentado com sessões curtas de caminhada de intensidade
leve ou moderada, numa proporção de dois minutos por 20 minutos em atividades
sedentárias, reduz a glicose pós-prandial e os níveis de insulina em adultos
com sobrepeso ou obesidade, podendo melhorar o metabolismo da glicose e os seus
efeitos deletérios sobre a saúde, como os processos inflamatórios e a função
endotelial prejudicada que são responsáveis por reduzir a espessura da camada
íntima-média, que por sua vez aumentam o risco de complicações cardiovasculares
(Dunstan et al., 2012).
Estudos com modelos animais procuraram investigar os mecanismos fisiológicos
que desencadeiam os efeitos maléficos decorrentes do tempo demasiado exposto ao
comportamento sedentário (Bey & Hamilton, 2003). Tais estudos indicam que o
musculosquelético é o principal local para a alocação dos triglicéridos e da
glicose plasmática, sendo que a falta de contração muscular faz desencadear o
aumento dos triglicéridos, da glicose plasmática e a redução da atividade da
lipoproteína lípase (LPL).
A LPL é uma enzima que regula a absorção de triglicerídeos e a produção de
proteínas de alta densidade no músculo-esquelético (HDL). Sendo assim, quando
se reduz a atividade enzimática da LPL reduz-se também a concentração de HDL no
sangue, fator prejudicial à saúde, sendo evidenciado que a redução parcial da
função da LPL, devido a um polimorfismo específico, foi associada ao aumento de
5 vezes na razão de probabilidades de morte e de doenças cardíacas coronárias
(Wittrup, Tybjærg-Hansen, & Nordestgaard, 1999).
A maior parte da atividade da LPL é controlada pela contração muscular, pelo
que desta forma, aqueles que passam longos períodos expostos a comportamentos
sedentários não estimulam adequadamente a atividade dessa enzima (Hamilton et
al., 2008). O ato de sair da posição sentada para a posição em pé já seria
capaz de ativar o funcionamento da enzima LPL, e consequentemente evitar
efeitos prejudiciais ao metabolismo dos lipídeos na produção de HDL (Bey &
Hamilton, 2003; Hamilton et al., 2007, 2008).
Os efeitos benéficos da pausa no tempo de comportamento sedentário também podem
estar associados ao dispêndio energético. Aqueles indivíduos que realizam maior
quantidade de pausas em atividades sedentárias apresentam maior gasto
energético total em comparação com aqueles que não realizam pausas,
contribuindo para um menor ganho de gordura corporal e um maior número de
contrações musculares, que por sua vez estarão associadas ao menor risco de
desenvolver alterações prejudiciais em marcadores metabólicos (Healy et al.,
2008; Levine, 2004).
Comportamento sedentário: procedimentos de avaliação
O comportamento sedentário e a inatividade física não são sinónimos, pois ambos
apresentam respostas fisiológicas diferentes em relação à saúde, portanto não
podem ser mensurados e interpretados de maneira igual (R. R. Pate et al.,
2008).
Métodos de avaliação da atividade física apresentam-se referenciados na
literatura (Kriska & Caspersen, 1997; Reis et al., 2000) e, entretanto, é
necessária a sistematização de métodos de avaliação do comportamento
sedentário.
Os instrumentos de medidas podem ser classificados sob dois parâmetros: aqueles
que utilizam informações fornecidas pelos sujeitos (questionários, entrevistas
e diários) e os que utilizam marcadores fisiológicos ou sensores de movimento
para a avaliação direta de atividades em determinados períodos de tempo (Reis
et al., 2000).
Outra classificação acerca dos métodos de avaliação da atividade física propõe
a divisão em métodos laboratoriais (fisiológicos – água duplamente marcada,
calorimetria direta e indireta; biomecânicos – plataforma de força) e métodos
de terreno (diário; classificação profissional; questionários e entrevistas;
observações comportamentais; monitorização mecânica e eletrónica – pedómetro,
acelerómetro e monitor de frequência cardíaca) (Oliveira & Maia, 2001).
Os métodos que utilizam informações fornecidas pelos sujeitos, conhecidos como
de levantamento ou survey, são os métodos mais utilizados em pesquisas
epidemiológicas; contudo, as medidas baseadas em informações fornecidas pelos
sujeitos apresentam precisão limitada (Reis et al., 2000)>.
O uso de métodos que utilizam sensores de movimento, como pedómetros,
acelerómetros, monitores tridimensionais de atividade e LSI's (Large-scale
Integrators), são cada vez mais utilizados em estudos epidemiológicos (Oliveira
& Maia, 2001).
O avanço das tecnologias tem permitido o desenvolvimento de instrumentos
pequenos e leves que permitem o armazenamento de dados por um determinado
tempo. Tais instrumentos (sensores) são fixados no punho ou na região do
quadril e medem o registo das acelerações do corpo ao longo do tempo, e a
partir de equações de estimativa permitem o cálculo do dispêndio energético
(Schoeller & Racette, 1990). Por outro lado, os sensores de movimento
apresentam algumas limitações quanto ao tipo de atividade e intensidade do
movimento (Reis, 2003).
Em contrapartida, os métodos de avaliação do comportamento sedentário ainda
estão em fase incipiente de desenvolvimento. A busca por métodos mais precisos
para avaliar o comportamento sedentário parece estar entre as questões
estratégicas das pesquisas na área de atividade física e saúde nos próximos
anos (Marshall & Merchant, 2013).
Na avaliação do tempo exposto a comportamentos sedentários devem-se distinguir
as atividades realizadas no fim de semana das atividades dos dias úteis de
semana, assim como deve ser considerado o tempo despendido em comportamento
sedentário em diferentes domínios (por exemplo: trabalho, lazer, doméstico ou
transporte) e ainda as interrupções ocorridas durante esse comportamento (Clark
et al., 2011; Marshall et al., 2010).
O tempo sentado tem sido um dos marcadores específicos de comportamento
sedentário utilizado como estratégia de avaliação. De acordo com o estudo de
Rosenberg et al. (2008) o Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ)
apresenta boa confiabilidade (.82) para o tempo sentado total (tempo sentado
dia semana mais tempo sentado final de semana) e validade aceitável (.33) em
relação ao acelerómetro.
O constructo comportamento sedentário abrange os conceitos da topografia
comportamental e da taxa metabólica. A topografia comportamental refere-se à
forma do comportamento físico ou a relação entre as partes do corpo com o
espaço (Marshall & Merchant, 2013). Na pesquisa de comportamento
sedentário, topografia é tipicamente operacionalizada como alocação de postura:
deitado, reclinado, sentado e em pé (Marshall & Merchant, 2013).
Mesmo comportamentos topográficos posturais iguais podem apresentar
classificações de dispêndio energético diferentes, a exemplo do tempo sentado
vendo TV versus o tempo sentado no trabalho (Ainsworth et al., 2000).
Quando o comportamento sedentário é definido pelo dispêndio de energia (por
exemplo, o tempo despendido abaixo de 100 contagens por minuto de um
acelerómetro), a postura é muitas vezes assumida como estando sentado ou
deitado, fato que faz exacerbar os erros de medição nas estimativas do tempo de
exposição aos comportamentos sedentários (Marshall & Merchant, 2013).
As confusões dos termos operacionais acerca do comportamento sedentário
diminuem o poder da validade externa dos estudos. É comum encontrar estudos que
consideram os participantes sedentários porque não são fisicamente ativos,
enquanto outros classificam os participantes sedentários por estarem envolvidos
em atividades de baixo dispêndio de energia. A falta de padronização de
instrumentos para avaliação do comportamento sedentário dificulta a comparação
de dados tanto em regiões próximas como entre países (Bauman et al., 2011).
Dentre os instrumentos de avaliação do comportamento sedentário, os
dispositivos de acelerometria triaxiais têm demonstrado bons índices
psicométricos, podendo estes serem um recurso para futuras pesquisas
epidemiológicas (Grant et al., 2006). Entretanto, os dispositivos via
acelerometria não distinguem a posição do corpo na posição sentada da posição
ortostática (Tremblay, Colley, Saunders, Healy, & Owen, 2010). Porém,
enquanto não se define um instrumento que atenda a todas as características
desejadas, a combinação de instrumentos parece ser uma alternativa viável para
fornecer dados mais precisos e confiáveis (Marshall & Merchant, 2013).
O instrumento desenvolvido pela Microsoft denominado de SenseCam é um exemplo
de instrumento com potencial para ser utilizado juntamente com outras
estratégias para a avaliação do comportamento sedentário, a exemplo da
acelerometria. O dispositivo de informação contextual, por meio de registo de
imagens, o SenseCam passa a ser ativado por meio de sensor de acordo com a
alteração de movimento, luz, temperatura ou presença de pessoas (Kerr et al.,
2013).
Outro instrumento que foi desenvolvido para a avaliação do tempo sentado é o
sitting pad (Ryde et al., 2012). O sitting pad é uma almofada que é instalada
no assento de uma cadeira e contém um dispositivo para o registo do tempo em
que a pessoa fica sentada. Esse dispositivo pode ser também programado para
soar um alarme, alertando para o indivíduo interromper o seu tempo sentado.
A utilização de questionários em função da viabilidade em estudos populacionais
tem sido uma estratégia bem pronunciada na avaliação do comportamento
sedentário. Estudos têm utilizado questionários para a avaliação do tempo gasto
sentado (Bauman et al., 2011) e de indicadores do comportamento sedentário, a
exemplo do tempo de TV (Legnani et al., 2012).
O modelo da Figura_4 exemplifica os instrumentos de avaliação da atividade
física e do comportamento sedentário, baseados em estudos que abordam as
medidas de tais comportamentos (Florindo et al., 2004; Grant et al., 2006;
Oliveira & Maia, 2001; Reis et al., 2000).
A utilização de instrumentos de auto relato tem sido uma estratégia adotada em
estudos epidemiológicos no campo da atividade física e saúde, por serem de
baixo custo e de fácil acesso (Florindo et al., 2004). Porém, algumas questões
metodológicas devem ser consideradas, por exemplo, as características da
população, o tempo do estudo realizado, o instrumento e as atividades
desenvolvidas, já que estas peculiaridades podem limitar a precisão das
estimativas obtidas (Kriska & Caspersen, 1997).
CONCLUSÕES
Em resposta aos objetivos traçados inicialmente e com base na discussão
apresentada, consideramos que o termo sedentário não deve ser utilizado para
caracterizar aqueles indivíduos que não cumprem recomendações de prática de
atividade física e saúde, esperando assim que pesquisas nesta área utilizem o
termo insuficientemente ativo para caracterizar aquelas pessoas que não
cumprirem tais recomendações. Tanto a elevada exposição ao comportamento
sedentário como à inatividade física estão relacionados com efeitos deletérios
para a saúde. Estas duas variáveis comportamentais representam constructos
independentes, devendo, portanto, serem avaliadas separadamente, tendo como
pressuposto instrumentos com adequados índices psicométricos e que atendam o
objetivo proposto ao estudo que se pretende desenvolver.
Nas últimas décadas tem sido crescente o tempo exposto a comportamentos
sedentários independentemente da faixa etária. São necessárias estratégias mais
adequadas para a monitorização deste comportamento, da mesma forma que são
urgentes intervenções apropriadas que estimulem a adoção de estilos de vida
ativos. Dentre as estratégias de fácil adoção e com potencial para minimizar os
prejuízos para a saúde do tempo exposto a comportamentos sedentários
preconizam-se as interrupções de curta duração entre períodos prolongados de
tempo sentado.
Salientamos que a área do conhecimento denominada de epidemiologia da
inatividade física ou do comportamento sedentário é relativamente recente,
tendo em vista que o maior número de estudos concentra-se nas últimas três
décadas. Há que considerar o fato da área ter surgido há relativamente pouco
tempo, a necessidade da ampliação de estudos na tentativa de sanar lacunas e de
avançar com o conhecimento a respeito do comportamento sedentário e da
inatividade física.