O papel de mediação das necessidades psicológicas na associação entre o suporte
de autonomia e o bem-estar psicológico em praticantes de fitness
INTRODUÇÃO
A teoria da autodeterminação (SDT) (Deci & Ryan, 1985, 2008) é uma macro
teoria motivacional que nos últimos anos tem conhecido um crescente interesse
de aplicação ao contexto do exercício físico (Teixeira, Carraça, Markland,
Silva, & Ryan, 2012). De acordo com a SDT toda a atividade humana ocorre
integrada num contexto social, seja ele real, por estarem fisicamente presentes
outras pessoas, ou imaginado, por inconscientemente agirmos de forma como
achamos que outras pessoas gostariam que nos comportássemos (Deci & Ryan,
1985), sendo a qualidade desse contexto social que irá afetar o comportamento
e o bem-estar dos indivíduos (Deci & Ryan, 2008).
A SDT (Deci & Ryan, 1985, 2008) explicita assim o mecanismo através do qual
o efeito do ambiente social se faz sentir sobre o comportamento e o bem-estar
psicológico dos indivíduos, o qual se concretiza por intermédio da satisfação
das necessidades psicológicas básicas (NPB) de autonomia, competência e
relação. A necessidade de autonomia representa a vontade de se ser a origem do
próprio comportamento, distinguindo-se do conceito de independência ou de
liberdade total, refletindo antes uma aceitação e envolvimento num
comportamento escolhido. A necessidade de competência reflete o desejo de
interagir eficazmente com o meio envolvente, e é satisfeita quando se é bem-
sucedido na realização de tarefas e atividades desafiantes. A necessidade de
relação espelha a aspiração de afiliação a outras pessoas ou a um determinado
contexto social, e que traduz a necessidade de se desenvolver sentimentos de
pertença. Estas necessidades são tidas como inatas e universais, quer isto
dizer que não são aprendidas e são relevantes para o comportamento humano
independentemente do género, etnia ou repertório cultural, mesmo considerando
que os meios para a sua satisfação possam diferir (Deci & Ryan, 2008).
Desta forma, um ambiente social que suporte a autonomia dos indivíduos (e.g.
fornecendo opções de escolha; dando um racional teórico; considerando a
perspetiva dos outros; minimização da pressão) (Deci, Eghrari, Patrick, &
Leone, 1994), irá promover a perceção de satisfação das necessidades
psicológicas básicas resultando em sentimentos de vitalidade e bem-estar. Um
exemplo disso, é um instrutor de fitness que tem em consideração a perspetiva
dos praticantes e incentiva-os a tomarem as suas próprias decisões, ao invés de
impor o seu ponto de vista fazendo com que sejam os praticantes de exercício a
terem de se adaptar às suas ideias (Edmunds, Duda, & Ntoumanis, 2008).
Alguns estudos têm demonstrado o efeito positivo da satisfação das NPB sobre o
bem-estar (Edmunds et al., 2007), a autoestima global (Hein & Hagger, 2007;
Wilson & Rodgers, 2002) e a vitalidade subjetiva (Vlachopoulos &
Karavani, 2009). O suporte de autonomia dado pelos instrutores de fitnesstem
também sido relacionado com a melhoria, no pós-exercício, da perceção de
vitalidade e de estados de tranquilidade (Vlachopoulos & Triantafyllidou,
2008). Importa também referir que esta resposta afetiva pós-exercício tem
também um efeito retroativo sobre o comportamento, influenciando a decisão de
voltar a praticar exercício, conforme têm comprovado alguns estudos
recentemente realizados (Kiviniemi, Voss-Humke, & Seifert, 2007; Williams
et al., 2008). No caso específico do estudo realizado por Williams et al.
(2008), verificou-se que a resposta afetiva ao exercício foi preditor da
prática de exercício nos 6 e 12 meses seguintes. A promoção do bem-estar dos
praticantes pode assim ser considerada como um fim ou também como um meio de
promoção da própria prática de exercício, o que reforça ainda mais a
importância da sua consideração neste contexto.
Os estudos analisados reforçam também o papel de relevo que os instrutores de
fitness podem assumir na promoção do bem-estar e da adesão ao exercício, uma
vez que são estes que orientam as sessões de exercício e que poderão em
primeira instância suportar ou não a satisfação das NPB, demonstrando
interesse, dedicando recursos, dando apoio e feedback constante, através do
estabelecimento de numa relação de confiança e afetividade com os praticantes.
Estes pressupostos têm sido testados também em Portugal para explicar as
diferenças individuais de prática de exercício e de bem-estar (Silva et al.,
2011; Silva et al., 2010; Teixeira et al., 2010; Vieira et al., 2011; Vieira et
al., 2013). Todavia, os estudos referidos foram realizados no âmbito de
programas institucionais de perda de peso, de livre acesso, e com recurso a
alguns instrumentos de medida que não foram desenvolvidos especificamente para
a avaliação das variáveis da SDT no contexto do exercício físico. Note-se que
ao nível dos instrumentos de medida, Ryan (1995) refere que a investigação
relacionada com a SDT deve ser realizada no âmbito de um contexto específico,
apelando para o desenvolvimento e uso de questionários que tenham sido
desenvolvidos especificamente para um determinado contexto de aplicação.
Um outro aspeto a ter em consideração nos estudos realizados em Portugal
prende-se com o facto a maioria se centrar sobre o paradigma de relação
bivariada de causa-efeito, não consideração dos efeitos de mediação, uma vez
que como referem Baron e Kenny (1986), uma associação significativa entre uma
variável independente e outra dependente é muitas vezes mediado por uma
terceira variável que altera a magnitude e direção desta associação. Por essa
razão, Teixeira et al. (2012), na mais recente revisão sobre a aplicação da SDT
ao contexto da atividade física, reforça a importância de se conduzirem estudos
futuros com análises estatísticas mais sofisticadas (e.g. análise de equações
estruturais), para clarificar o papel mediador da satisfação das necessidades
psicológicas básicas no âmbito da SDT.
Tomando em consideração os aspetos anteriormente mencionados, o presente estudo
tem como objetivo analisar o papel mediador da perceção de satisfação das
necessidades psicológicas básicas na relação entre a perceção de suporte de
autonomia dado pelo instrutor de fitness e indicadores de bem-estar psicológico
(i.e., satisfação com a vida, vitalidade subjetiva e autoestima global), com
recurso a técnicas de estatística de análise de equações estruturais e à
utilização de instrumentos de medida desenvolvidos especificamente para o
contexto do exercício.
MÉTODO
Amostra
Participaram neste estudo 984 praticantes de fitness em ginásios, dos Distritos
de Santarém e Leiria - Portugal, de ambos os géneros (531 femininos; 453
masculinos) e com idades compreendidas entre os 16 e os 70 anos (M= 31.7; SD=
11.2). Os sujeitos auto relataram uma experiência de prática entre 1 a 480
meses (M= 45.5; SD= 57.4.1), uma frequência de prática entre 1 a 7 sessões por
semana (M= 3.2; SD= 1.2), uma duração de prática semanal entre 1 a 15 horas (M=
5.0; SD= 2.5) e um envolvimento em atividades de musculação (272), aulas de
grupo (390) e cardiofitness ' combinação de atividades aeróbias e musculação
(322). Como informação adicional podemos acrescentar ainda que 353 praticantes
(36%) frequentavam o ginásio, onde praticavam atualmente exercício, há menos de
6 meses, 271 praticantes (28%) entre 6 e 18 meses, 229 praticantes (23%) há
mais de 18 e menos de 60 meses e 131 praticantes (13%) há mais de 60 meses.
Instrumentos
Perceived Autonomy Support Exercise Climate Questionnaire - versão Portuguesa
(PASECQp): consiste num instrumento de autorrelato adaptado ao contexto do
exercício físico por Edmunds et al. (2006) a partir da versão original do
Perceived Autonomy Support: Health Care Climate Questionnaire (Williams, Grow,
Freedman, Ryan, & Deci, 1996) tendo sido posteriormente traduzido e
validado para a língua Portuguesa (Moutão, Cid, Leitão, & Alves, 2012).
Este questionário é constituído por 6 itens, que concorrem para um único fator
que avalia a perceção do suporte de autonomia dado pelo instrutor de fitness
(e.g. demostra confiança na minha capacidade de realizar os exercício). A
resposta é dada numa escala ordinal de 1-7, correspondendo a opção Discordo
Totalmente ao valor 1 e o Concordo Totalmente ao valor 7. No presente estudo
este fator apresentou níveis elevados de consistência interna (alfa de
Cronbach= 0.88).
Basic Psychological Needs in Exercise Scale - versão Portuguesa (BPNESp):
consiste num instrumento de autorrelato desenvolvido especificamente para o
contexto de exercício físico por Vlachopoulos e Michailidou (2006) e
posteriormente traduzida e validada para a língua Portuguesa (Moutão, Cid,
Leitão, Alves, & Vlachopoulos, 2012) com o intuito de avaliar a perceção
que os praticantes têm da satisfação das suas NPB. Este questionário é
constituído por 12 itens, distribuídos pelos fatores de autonomia (e.g. faço
exercício de acordo com aquilo que pretendo fazer), competência (e.g. sinto que
o exercício é uma actividade que faço muito bem) e relação (e.g. tenho uma
relação próxima com as pessoas com quem faço exercício). As respostas são dadas
numa escala ordinal de 1-5, correspondendo a opção Discordo Totalmente ao
valor 1 e o Concordo Totalmente ao valor 5. No presente estudo utilizámos um
índice global de satisfação, constituído pelas três necessidades psicológicas,
que foi validado num modelo de medida como fator de 2ª ordem (Moutão et al.,
2012). A utilização de um índice desta natureza não é inédita e encontra
suporte empírico noutros estudos (Vlachopoulos, 2007). Este índice apresentou
um valor de consistência interna razoável no presente estudo (alfa de Cronbach=
0.74).
Satisfaction with Life Scale - versão Portuguesa (SWLSp): consiste num
instrumento de autorrelato desenvolvido por Diener, Emmons, Larsen e Griffin,
(1985), o qual foi traduzido e validado para a língua Portuguesa por Neto
(1993). Este questionário é constituído é constituído por 5 itens, que
concorrem para um único fator que avalia a perceção de satisfação com a vida
como medida de bem-estar subjetivo (e.g. as minhas condições de vida são
excelentes; até ao momento tenho alcançado as coisas importantes que quero para
a minha vida). A resposta é dada numa escala ordinal de 1-7, correspondendo a
opção Discordo Totalmente ao valor 1 e o Concordo Totalmente ao valor 7. No
presente estudo este fator apresentou níveis elevados de consistência interna
(alfa de Cronbach= 0.88).
Rosenberg Self-Esteem Scale - versão Portuguesa (RSESp): consiste num
instrumento de autorrelato desenvolvido por Rosenberg (1965) o qual foi
traduzido e validado para a língua Portuguesa por Faria e Silva (2000). Este
questionário é constituído por 10 itens, metade estão enunciados positivamente
e a outra metade negativamente. A estrutura fatorial da RSES constitui um
tópico que se tem revestido de alguma controvérsia (Marsh, 1996), na medida em
que alguns estudos sugerem uma estrutura unidimensional enquanto outros apontam
para uma organização bidimensional, com os itens enunciados positivamente
separados dos enunciados negativamente em duas escalas distintas com 5 itens
cada. Numa investigação constituída por três estudos Santos e Maia (2003)
analisaram a estrutura fatorial da RSESp, recorrendo à análise fatorial
confirmatória e concluíram que a RSESp avalia um constructo unidimensional,
como sugerido originalmente por Rosenberg (1965), embora os índices de
ajustamento tenham sido influenciados pelo tipo de itens que a escala utiliza
(itens de orientação negativa e itens de orientação positiva). Por essa razão
no presente estudo recorremos à avaliação da autoestima com recurso apenas à
escala positiva da RSESp (e.g. sinto que tenho um certo número de boas
qualidades; adoto uma atitude positiva para comigo). As respostas são dadas
numa escala ordinal de 1-5, correspondendo a opção Discordo Totalmente ao
valor 1 e o Concordo Totalmente ao valor 5. No presente estudo este fator,
constituído pelos itens positivos, apresentou níveis de consistência interna
bastante razoáveis (alfa de Cronbach= 0.80).
Subjective Vitality Scale - versão Portuguesa (SVSp): consiste num instrumento
de autorrelato desenvolvido por Ryan e Frederick (1997) e posteriormente
traduzida e validada para a língua Portuguesa (Moutão, Alves, & Cid, 2013).
Este questionário é constituído é constituído por 6 itens, que concorrem para
um único fator que avalia a vitalidade subjetiva como medida de bem-estar (e.g.
sinto-me vivo e vitalizado), As respostas são dadas numa escala ordinal de 1-7,
correspondendo a opção Discordo Totalmente ao valor 1 e o Concordo
Totalmente ao valor 7. No presente estudo este fator apresentou níveis
elevados de consistência interna (alfa de Cronbach= 0.90).
Procedimentos
Em primeiro lugar, contataram-se os responsáveis administrativos dos ginásio de
modo a informar sobre os propósitos do estudo e para obter a permissão para
recolha da informação junto dos praticantes. Os praticantes foram abordados de
forma aleatória pelos investigadores e assistentes de investigação junto da
área de receção, antes da sessão de exercício e durante os dias da semana, em
diversos períodos do dia (com especial incidência ao final do dia, uma vez que
é neste horário que se concentram nos ginásios a maior parte dos praticantes).
Após uma breve explicação sobre os objetivos do estudo, os instrumentos de
avaliação foram aplicados de forma individual. Todos os participantes que
concordaram fazer parte do estudo fizeram-no de forma voluntária e o
consentimento informado foi obtido. Para além disso, foi garantida a
confidencialidade dos dados recolhidos e assegurado que os mesmos não seriam,
em momento algum, transmitidos a terceiros de forma individual. O tempo de
aplicação dos questionários variou entre 15 a 20 minutos.
Análise estatística
Utilizou-se os modelos de equações estruturais (SEM), com o recurso ao software
de análise de equações estruturais EQS 6.1 (Bentler, 2002), que é uma técnica
multivariada que nos permite examinar simultaneamente as relações entre os
constructos latentes e as variáveis de medida, bem como entre os diversos
constructos do modelo (Hair, Black, Babin, & Anderson, 2009). O método de
estimação utilizado foi o da máxima verosimilhança (ML), através do teste
estatístico robusto do qui-quadrado (ver Satorra & Bentler, 1994), que
corrige os valores para a não normalidade dos dados. De acordo com Byrne
(2006), se o coeficiente Mardia (ver Mardia, 1970) normalizado for superior a
5.0 é indicativo que os dados não têm uma distribuição normal multivariada, o
que acontece no caso do presente estudo (kurtosis multivariada: Mardia =
71.227; Mardia normalizado = 60.946).
Assim, a análise de dados foi realizada em função das orientações/recomendações
de diversos autores (e.g. Byrne, 2006; Hair et al,. 2009; Kline, 2011), que são
operacionalizadas por Cid, Rosado, Alves e Leitão (2012). Para além do teste S-
B χ², e respetivos graus de liberdade (df) e nível de significância (p),
recomenda-se também a utilização de outros índices de ajustamento,
considerando-se como fundamentais os seguintes indicadores de avaliação dos
modelos: Standardized Root Mean Square Residual (SRMR), Comparative Fit Index
(CFI), Non-Normed Fit Index (NNFI), Root Mean Square Error of Approximation
(RMSEA) e o respetivo intervalo de confiança (RMSEA 90% CI). No presente
estudo, para os índices referidos, foram adotados os valores de corte sugeridos
por Hu e Bentler (1999): SRMR ≤ 0.080, CFI e NNFI ≥ 0.950 e RMSEA≤ 0.060,
embora no caso dos índices incrementais (CFI e NNFI), possamos aceitar valores
iguais ou superiores a 0.90 (Marsh, Hau, & Wen, 2004).
RESULTADOS
Ajustamento dos modelos de medida
Os modelos de medida foram examinados através de análises fatoriais
confirmatórias (AFC) que avaliaram o ajustamento da estrutura uni-fatorial dos
questionários PASECQp, SVSp, RSESp e SWLSp, bem como da estrutura tri-fatorial
da BPNESp (Tabela_1). Considerando que no presente estudo foi utilizado um
índice global de satisfação, constituído pelas três NPB, bem como, um índice
global de bem-estar psicológico (BEP), constituído por três indicadores (i.e.
satisfação com a vida, vitalidade e autoestima), apresentamos também na mesma
tabela os resultados de ajustamento destes modelos de medida testados com
recurso à definição de modelos hierárquicos de fatores de 2ª ordem.
Como se pode observar na tabela_1, os resultados da AFC demonstram que todos os
modelos de medida utilizados possuem índices de ajustamento aceitáveis.
Análise descritiva, correlacional e de fiabilidade interna
É possível verificar na Tabela_2 que para todas as variáveis latentes o
coeficiente de fiabilidade interna foi acima do valor de corte 0.70, definido
por Nunnally (1978). Em geral, os praticantes de fitness revelaram valores
relativamente elevados de perceção de suporte de autonomia, satisfação das NPB,
e de bem-estar psicológico. A matriz de correlação demonstra que todas as
variáveis se correlacionam positivamente de forma significativa (p< 0.01), em
especial, entre a perceção de suporte de autonomia e a satisfação das
necessidades psicológicas básicas (r= 0.55) e entre estas e o bem-estar
psicológico (r= 0.41).
Análise do efeito mediador das NPB
Foram testados dois modelos de equações estruturais para testar o efeito
mediador das NPB na relação entre o suporte de autonomia e os indicadores de
bem-estar psicológico utilizados. No Modelo 1 o suporte de autonomia está
definido como tendo um impacto direto sobre os indicadores de bem-estar
psicológico utilizados (Figura_1). No Modelo 2 o suporte de autonomia está
definido como tendo um impacto direto sobre as NPB e os indicadores de bem-
estar psicológico, e as NPB definidas como tendo um impacto direto sobre os
indicadores de bem-estar psicológico. Ou seja as NPB são introduzidas como
mediadoras da relação suporte de autonomia => indicadores de bem-estar
psicológico.
Os resultados revelaram qua ambos os modelos apresentam um bom ajustamento aos
dados da amostra: Modelo 1 (S-Bχ²= 89.806; p< 0.000; NNFI= .978;CFI= 0.984;
SRMS= 0.024; RMSEA= 0.050; RMSEA 90% CI= 0.039 - 0.061); Modelo 2 (S-Bχ²=
199.803; p< 0.000; NNFI= 0.963;CFI= .971; SRMS = 0.032; RMSEA= 0.054; RMSEA 90%
CI= 0.047 - 0.063). Da observação dos parâmetros individuais verifica-se que o
efeito do suporte de autonomia sobre os indicadores de bem-estar psicológico
foram substancialmente reduzidos no Modelo 2 quando as NPB foram introduzidas
como mediadoras desta relação.
Figura_2
DISCUSSÃO
O presente estudo objetivou analisar o papel mediador da perceção de satisfação
das necessidades psicológicas básicas na relação entre a perceção de suporte de
autonomia dado pelo instrutor de fitness e indicadores de bem-estar
psicológico, com recurso a análise de equações estruturais. Os resultados
confirmaram o papel de mediação das NPB entre o efeito do ambiente social (i.e.
suporte da autonomia dado pelos instrutores de fitness) e o bem-estar
psicológico dos praticantes de fitness. Para que o efeito mediador esteja
presente é necessário que se cumpram alguns critérios (ver Baron & Kenny,
1986), conforme sintetizados por Hagger e Chatzisarantis (2008) e Hein e Hagger
(2007), e que no caso do presente estudo se podem resumir da seguinte forma: 1)
a variável independente (i.e. suporte de autonomia) deve estar relacionada de
forma significativa com a variável dependente (i.e. bem-estar psicológico) (β=
0.32), assim como, a variável mediadora (i.e. necessidades psicológicas
básicas) com a variável independente (i.e. suporte de autonomia) (β= 0.67); 2)
a variável mediadora (i.e., necessidades psicológicas básicas) deve ter também
um efeito direto significativo sobre a variável dependente (i.e. bem-estar
psicológico) (β= 0.61); 3) e mais importante, a inclusão da variável mediadora
(i.e. necessidades psicológicas básicas) como preditora da variável dependente
(i.e. bem-estar psicológico) deve reduzir ou atenuar o efeito da variável
independente (i.e., suporte de autonomia) sobre a dependente (i.e., bem-estar
psicológico) (o efeito direto passou de β= 0.32 para β = -0.09 ' valor este não
significativo). Para além disso, segundo Hair et al. (2009), também podemos
confirmar se o efeito da mediação está presente analisando os efeitos indiretos
entre os parâmetros. Se o efeito indireto entre a variável independente (i.e.
suporte de autonomia) e a dependente (i.e. bem-estar psicológico) é
significativo (β= 0.41) através da variável mediadora (i.e. necessidades
psicológicas básicas), enquanto que o efeito direto não é significativo (β= -
0.09), então estamos perante um efeito de mediação, que segundo Baron e Kenny
(1986) se refere à transferência do efeito de uma variável (independente/
preditora: suporte de autonomia) sobre outra (dependente/resultado: bem-estar
psicológico) para uma terceira variável mediadora (i.e. necessidades
psicológicas básicas).
Estes resultados suportam empiricamente o mecanismo de mediação através do qual
o efeito do suporte de autonomia se faz sentir sobre o bem-estar psicológico,
ou seja, através da satisfação das NPB, conforme sugerido pela SDT (Deci &
Ryan, 1985, 2008) e pelo modelo hierárquico de motivação intrínseca-extrínseca
proposto por Vallerand (1997). Os resultados vão também ao encontro do estudo
realizado por Vlachopoulos e Karavani (2009), cujos resultados evidenciam
igualmente este efeito mediador das NPB entre o suporte de autonomia e a
vitalidade subjetiva.
Este mecanismo pode assim explicar os resultados obtidos nalguns estudos
realizados com o propósito de testar os efeitos de alguns fatores do ambiente
social sobre a resposta afetiva ao exercício físico, designadamente do estudo
realizado por Turner, Rejeski, e Brawley (1997) onde se verificou que, após uma
série intensa de exercícios, os praticantes que receberam mais feedback
positivo e experienciaram uma atmosfera social mais rica reportaram um aumento
de revitalização comparativamente aos praticantes que foram orientados por um
instrutor com um comportamento neutro.
De forma similar, no estudo realizado por Fox, Rejeski, e Gauvin (2000)
verificou-se que os praticantes envolvidos numa classe de exercício num
ambiente socialmente mais rico proporcionado pelo instrutor e pelos colegas,
reportaram valores mais elevados de divertimento e prazer após a realização do
exercício comparativamente aos praticantes que realizaram os mesmos exercícios
num ambiente socialmente neutro.
Gostaríamos ainda de referir, que existem algumas limitações no presente estudo
que importa indicar. O efeito de mediação das NPB foi analisado através de
equações estruturais, com recurso a uma amostra transversal de dados, seguindo
os mesmos procedimentos adotados noutros estudos (e.g. Gunnell, Mack, Wilson,
& Adachi, 2011; López-Walle, Balaguer, Castillo, & Tristán, 2012),
considerando a existência prévia de um conjunto consistente de estudos que
comprovam a existência de uma relação de causa efeito e de a teoria subjacente
sugerir direções inferenciais que são inerentemente causais. Apesar de os
estudos de mediação com recurso a amostras transversais tenderem a ser os mais
comummente reportados em estudos empíricos de mediação (Rose, Holmbeck, Coakley
& Franks, 2004), alguns autores sugerem que para que o padrão temporal
inerente possa ser captado devem também ser realizados ensaios clínicos
controlados randomizados (Kraemer, Wilson, Fairburn, & Agras, 2002; Selig
& Preacher, 2009). Investigação futura com desenhos experimentais deverá
ser desenvolvida para examinar de que forma a mudança ao longo do tempo do
clima motivacional de suporte á autonomia proporcionado pelo instrutor vai
afetando o efeito de mediação das NPB sobre o bem-estar de praticantes de
exercício.
Por outro lado, na presente investigação foi também objetivada a análise do
efeito direto da satisfação das NPB sobre o bem-estar, conforme vem
recentemente a ser demonstrada (Gunnell, Crocker, Wilson, Mack, & Zumbo,
2013; Gunnell et al., 2011; Ng, Ntoumanis, Thøgersen-Ntoumani, Stott, &
Hindle, 2013; Sylvester, Mack, Busseri, Wilson, & Beauchamp, 2012).
Contudo, será também importante de futuro considerar a inclusão de outras
variáveis que não foram incluídas no modelo, como o caso das regulações
comportamentais, as quais poderão ter um papel importante também na mediação do
efeito da satisfação das NPB sobre o bem-estar (Teixeira, Patrick, & Mata,
2011).
Por último, tendo em conta que os participantes deste estudo posicionaram-se em
função do suporte de autonomia que percecionam por parte do instrutor com quem
estão mais tempo, será também importante nestes estudos futuros analisar os
efeitos à exposição de instrutores com diferentes estilos de suporte de
autonomia, incluindo também o efeito da exposição a outros significativos (e.g.
colegas de treino, staff), como habitualmente acontece durante a prática de
exercício em ginásios.
CONCLUSÕES
Dada a importância patenteada nesta investigação sobre o papel mediador da
satisfação das NPB na promoção do bem-estar psicológico, será importante que os
técnicos de exercício físico, bem como, todos os agentes que interagem neste
contexto, olhem para o exercício físico como algo mais do que mero movimento
potenciador de gasto calórico. Na nossa opinião, é fundamental que olhem para
exercício e os seus praticantes numa perspetiva mais holística, tomando em
consideração as contribuições de diferentes áreas disciplinares na construção
dos programas de exercício. A promoção da prática de exercício com vista à
melhoria da saúde, não se pode centrar apenas na mensagem de desenvolvimento da
aptidão/condição física, no gasto calórico e nos aspetos relacionados com a
saúde física, mas também na valorização das dimensões de bem-estar e qualidade
de vida (Varo et al., 2003). A intervenção dos técnicos de exercício deve ir ao
encontro daquilo que as pessoas esperam alcançar quando fazem exercício: feel-
good factor (Biddle & Ekkekakis, 2005, p. 141), o que realça uma
perspetiva mais humanista da prática. Este novo paradigma apela a que os
ginásios e health clubs se reinventem e reflitam em novos modelos de
intervenção, onde a satisfação das NPB seja uma preocupação central, com vista
à melhoria do bem-estar dos praticantes de fitness. Esta questão passa pelo
desenvolvimento de programas de exercício inovadores, não monótonos, que: a)
promovam a autonomia dos praticantes, envolvendo-os no processo de decisão; b)
aumentem a sua perceção de competência, proporcionando situações de sucesso; c)
e, ao mesmo tempo, promovam o estabelecimento e fortalecimento de relações
interpessoais positivas.