Velocidade crítica em natação: uma revisão da literatura
INTRODUÇÃO
Assistimos nas comunidades técnica e científica à emergência de um forte
interesse em desenvolver critérios, testes e métodos de avaliação com
diferentes vocações e incidências, diferentes níveis de complexidade e
potencial de retroacção. Nesse sentido, ao longo dos anos, o volume máximo de
oxigénio (VO2max) tem sido considerado o parâmetro ex-libris para a avaliação
da potência aeróbia em indivíduos ativos, sedentários e atletas, com base na
sua importante relação com o desempenho, particularmente em esforços físicos
intensos e de duração inferior a 10 minutos (Jones & Poole, 2005).
Na natação, particularmente nos eventos mais longos, a literatura parece
declinar a existência de uma relação robusta entre o VO2max e o desempenho de
nado (Fernandes & Vilas-Boas, 2012; Reis, Marinho, Policarpo, Carneiro, et
al., 2010; Reis, Marinho, Policarpo, Reis, et al., 2010). Assim, e adicionando
as limitações impostas pela estimação e utilização do VO2max em treino, a
resposta do lactato sanguíneo ao exercício tem sido amplamente empregue, a
partir da determinação do limiar anaeróbio com base na curva de lactatemia vs.
velocidade de nado (Billat, Sirvent, Py, Koralsztein, & Mercier, 2003;
Fernandes & Vilas-Boas, 2012; Mader & Heck, 1986). Este indicador é
considerado um referencial para a prescrição da intensidade de treino, controlo
dos seus efeitos e predição do desempenho aeróbio.
Para a determinação do limiar anaeróbio existem diferentes metodologias que se
baseiam em protocolos que medem de forma direta a concentração de lactato
sanguíneo, utilizando concentrações fixas (Heck et al., 1985) ou
individualizadas (Stegmann, Kindermann, & Schnabel, 1981). Realça-se,
entretanto, a metodologia de Tegtbur, Busse, e Braumann (1993) que converteu
para a natação a metodologia de lactato mínimo, permitindo a identificação do
máximo estado estável de lactato de maneira individualizada, com aplicação em
inúmeros estudos em natação (Fernandes, Sousa, Machado, & Vilas-Boas, 2011;
Ribeiro, Balikian, Malachias, & Baldissera, 2003).
Apesar das novas facilidades tecnológicas que permitirem resultados em poucos
segundos, os testes de lactatémia assentam em técnicas invasivas com custos
significativos em materiais descartáveis. Por isso temos assistido à tentativa
de desenvolver outros métodos e critérios alternativos. Como o conceito
potência crítica foi aplicado com bastante eficácia ao esforço físico cíclico
(ciclo ergómetro) (Moritani, Nagata, deVries, & Muro, 1981), o seu
transfere e adaptação à natação proposto por Ettema (1966) veio a tornar-se uma
mais-valia na avaliação e inclusive prescrição do treino, dando origem aquilo
que é hoje conhecido como velocidade critica (VC) (Wakayoshi, Ikuta, et al.,
1992; Wakayoshi, Yoshida, et al., 1992). A maioria dos estudos na natação
determina a VC com base na regressão linear entre distancias fixas e os
respectivos tempos, correspondendo ao coeficiente angular da recta obtida.
Contudo, a variabilidade das coordenadas e distâncias utilizadas é grande e
algumas das pesquisas incluem eventos com duração inferior a 2 minutos,
procedimento não recomendado dado que o esforço não possibilita que o VO2max
seja atingido (Dekerle, Brickley, Sidney, & Pelayo, 2006). O recurso a
distâncias mais longas parece subestimar a VC enquanto que a inclusão de
distâncias mais curtas parece conduzir a uma sobreestimação. Esta varibilidade
metodológica parece ter induzido alguma divergência conceptual acerca deste
indicador, dado que diferentes valores de VC são obtidos sobre tempos de
exaustão variados (Zacca et al., 2010), para além da influência nem sempre
balizada de vários aspectos relativos às caracteristicas dos nadadores, em
particular a idade e a experiência desportiva (Franken, Zacca, & Castro,
2010).
Adicionalmente, o modelo com 2 parâmetros (i.e a partir da relação hiperbólica
entre a potência e o tempo para a exaustão) tem sido questionado por vários
autores dado que parece sobrestimar a potência crítica e subestimar a
capacidade de trabalho anaeróbia (a interceção na origem desta reta) (eg. di
Prampero, 1999; Morton, 1996, 2006; Vandewalle, Kapitaniak, Grün, Raveneau,
& Monod, 1989; Zacca et al., 2010). Assim, novos modelos bioenergéticos de
3 e 4 parâmetros têm procurado atenuar estas limitações com importantes
implicações para o significado fisiológico da VC.
A maioria dos eventos desportivos em natação são iguais ou inferiores a 200m,
pelo que o rendimento desportivo está muito dependente do metabolismo anaeróbio
do atleta (Housh et al., 1991; Smith & Hill, 1993). Desse modo, a VC em
regime de nado anaeróbio (VCan) será de especial interesse na avaliação da
aptidão anaeróbia dos nadadores (di Prampero, Dekerle, Capelli, & Zamparo,
2008; Marinho, Barbosa, Silva, & Neiva, 2012; Neiva, Fernandes, &
Vilas-Boas, 2011). Nos últimos anos alguns estudos têm sido publicados sobre a
relevância deste indicador enquanto parâmetro de avaliação e controlo do treino
anaeróbio do nadador e sua relação com o desempenho desportivo em eventos
competitivos de curta duração.
Assim, foi nosso objectivo efetuar uma revisão da literatura do tipo narrativa
acerca do significado do parâmetro VC e sua aplicação à natação. O parâmetro
emergente de VCan foi igualmente alvo de discussão. O âmbito deste trabalho
conduziu-nos a uma pesquisa de carácter qualitivo compreensivo-interpretativo,
recorrendo a palavras-chave na língua Portuguesa e Inglesa (natação, nadadores,
velocidade critica, velocidade critica anaeróbia) nas bases de dados Index
Medicus, MEDLINE, Science. Adicionalmente estendeu-se a pesquisa aos nossos
ficheiros de departamento, incluindo livros de encontros científicos (p.e.
Biomechanics and Medicine in Swimming, European College of Sports Science,
International Symposium on Biomechanics in Sports) para um maior alcance da
revisão efetuada. Deste modo foram seleccionados 66 trabalhos entre 1965 (ano
no qual o conceito de potência crítica foi introduzido por Monod e Scherer) e
Maio de 2014.
Origem e definição do conceito
O conceito de VC sugerido por Ettema (1966) e aplicado pela primeira vez por
Wakayoshi et al. (1992), deriva do conceito de potência critica (PCrit)
originalmente introduzido por Monod e Scherer (1965), procurando entender a
capacidade de trabalho local de um músculo ou de grupos musculares sinérgicos.
Estes autores sugeriram que o trabalho total local realizado antes da exaustão
durante um exercício supra-maximal de intensidades crescentes poderia ser
descrito como a soma das quantidades de trabalho produzido com base no
metabolismo anaeróbio e aeróbio (di Prampero, 1999). Assim, para exercícios
dinâmicos, a PCritdefine-se como a intensidade de exercício que pode ser
mantida sem exaustão (teoricamente), sendo determinada pelo declive da recta de
regressão entre o trabalho total e o tempo correspondente até à exaustão (Hill,
Steward Jar, & Lane, 1995).
Mais tarde, por Moritani et al. (1981), o conceito de PCrit veio a ser aplicado
ao trabalho corporal total realizado em cicloergómetro. Estes autores
observaram que a PCrit representava um índice de desempenho aeróbio,
relacionada significativamente com o VO2max (ml.kg.min-1) (r = 0.919) e com o
limiar anaeróbio ventilatório (r = 0.927). Teoricamente a PCrit representa a
maior potência que se pode manter por tempo indefinido em estado de equilíbrio
fisiológico aeróbio (Hill, 1993; Hill et al., 1995), demarcando a transição
entre o domínio da intensidade de esforço elevada e a severa (Brickley, Doust,
& Williams, 2002; Poole, Ward, Gardner, & Whipp, 1988).
Este conceito, baseado na relação linear trabalho-tempo ou potência-tempo ou
ainda, alternativamente, na relação hiperbólica potência-tempo, engloba a
contribuição aeróbia e anaeróbia para a totalidade da potencia produzida por
unidade de tempo. Assim, para gestos cíclicos onde a distância e a velocidade
são geridas de acordo com o tempo de esforço, a expressão velocidade crítica
é utilizada de forma mais comum alternativamente à potência crítica
(Berthoin, Baquet, Dupont, & Van Praagh, 2006), a qual é dada pela
inclinação da linha de regressão entre distância percorrida (dlim) e o tempo
até a exaustão (tlim), representando a interceção em y a capacidade anaeróbia
do atleta (Ettema, 1966):
dlim = (VC · tlim) + CCA
Figura_1
A proposta de reconversão do modelo de PCrit para a especificidade da natação
foi inicialmente sugerida por Ettema (1966), tendo sido Wakayoshi et al. (1993;
1992a,b) os primeiros a efectivamente aplicarem o conceito. Nesse primeiro
estudo Wakayoshi et al. (1992a) recorreram a seis velocidades de nado para o
cálculo do coeficiente angular entre dlime tlim(r2> 0,998), aplicando o
conceito de VC de nado, significativamente correlacionada com o VO2
correspondente ao limiar anaeróbio (r = 0.818, p<0.01), com a velocidade de
nado no início da acumulação de concentração de ácido lactico (r = 0.949,
p<0.01) e com a velocidade de nado média nos 400m livres (r = 0,865, p<0.01).
Assim, na perspectiva dos autores, a VC (neste caso particular obtida com
recurso a seis coordenadas) corresponderia à velocidade de nado que
teoricamente pode ser mantida por um período mais prolongado de tempo sem
exaustão. Foi, portanto, considerada em vários estudos como um índice de grande
potencial, cujo rigor e natureza não invasiva permite uma avaliação
simplificada, embora criteriosa, do desempenho aeróbio e de predição do limiar
anaeróbio de nadadores adultos (Rodriguez, Moreno, & Keskinen, 2003;
Wakayoshi, et al., 1993; 1992a,b). Recentemente, outros autores confirmaram a
aplicabilidade do conceito em nadadores jovens (Hill et al., 1995), de ambos os
géneros (Costa et al., 2009; Greco & Denadai, 2005) e independentemente do
seu nível desportivo (Denadai, Greco, & Teixeira, 2000). Tal como refere
Vilas-Boas, Lamares, Fernandes e Duarte (1997), parece tratar-se de um
parâmetro facilmente associável à ideia de intensidade máxima aeróbia,
imediatamente inferior à que provocaria um desequilíbrio entre a produção e a
remoção ou a utilização de lactato sanguíneo, ou seja, esperadamente
correlacionado com a velocidade em torno do limiar anaeróbio (Greco, Denadai,
Pellegrinotti, Freitas, & Gomide, 2003; Wakayoshi et al., 1992b; Wright
& Smith, 1994) e com o steady state máximo de lactato (Wakayoshi et al.,
1993). Não obstante o aspecto prático deste indicador, o seu significado
fisiológico é ainda inconclusivo pois está dependente sobretudo do modelo de
cálculo e das diferentes combinações de distâncias e coordenadas utilizadas.
Modelos, combinações de distâncias e coordenadas mais comuns para o cálculo da
VC em natação
A VC tem sido determinada de várias formas (tabela_1), destacando-se o recurso
ao modelo de 2 parâmetros, quer utilizando diretamente a regressão distância/
tempo, quer utilizando uma equação de regressão previamente calculada entre a
velocidade num teste de determinada distância e a VC (Wakayoshi et al., 1993;
1992a,b; Wright & Smith, 1994).
De facto, ao longo dos anos foram vários os autores que se suportaram nesta
metodologia recorrendo aos melhores tempos dos nadadores em condições
experimentais (simuladas) e de prova. Wakayoshi et al. (1993) e Dekerle,
Sidney, Hespel, e Pelayo (2002) definiram as distâncias de 200 e 400 m para a
sua determinação, independentemente do contexto de realização.
Wright e Smith (1994) propuseram uma equação para a predição da VC através de
um teste de 1200m, tendo por base uma equação de regressão entre o tempo dos
1200m (V1200) e a VC (VC = 1,017 x V1200 ' 0,039). Mais tarde, Fernandes e
Vilas-Boas (1999) apontaram a possibilidade do uso das distâncias de 200 e 800
m como alternativa para a estimativa da VC. Mais recentemente Costa et al.
(2009) sugeriram a utilização dos melhores tempos do nadador em situação real
de prova nas distâncias de 100m, 200m e 400m, estimando uma intensidade de
nado em VC similar (p < 0.05) à velocidade de nado em torno do limiar
anaeróbio.
Os métodos propostos tornaram-se populares pela sua facilidade operacional,
cultivando-se como uma ferramenta útil para treinadores no processo de
planeamento. Aparte da simplicidade operacional, há que ter em conta que os
valores da regressão estão dependentes dos tempos de exaustão usados para o
cálculo da relação, e que de certa forma influenciam o custo energético de nado
(di Prampero, 1999). Com efeito, alguma controvérsia começou a surgir perante
estas abordagens. Alguns autores salientam que os esforços máximos contínuos de
duração inferior a 2 minutos não possibilitam que o VO2max seja atingido
(Dekerle et al., 2006). Assim, é recomendado para o cálculo da VC incluir
distâncias no modelo de regressão que permitam a obtenção e estabilização do
VO2max (entre 2 a 15 min) (Dekerle et al., 2006). No caso da natação, as
distâncias entre 200 e 1500 m parecem ser as mais fiáveis embora não pareça ser
importante recorrer a distâncias superiores a 400m em jovens nadadores (Zacca
& Castro, 2009). Mais ainda, dado que a VC geralmente é estimada com base
num modelo de distância-tempo, recorrendo ao melhor tempo do nadador em
distâncias crescentes, o indicador é sensível à orientação desportiva dos
nadadores. Assim, será expectável que os nadadores fundistas obtenham valores
mais elevados de VC sobretudo quanto maiores forem as distâncias de nado
incluídas no modelo. Esta é uma preocupação a reter no desenho de estudos
experimentais no futuro, dado que pode atribuir heterogeneidade à amostra
selecionada.
Outros autores consideraram que o uso de apenas duas distâncias de nado como
referência poderia acarretar alguma subjetividade no cálculo da VC (Dekerle et
al., 2006). Esta preocupação assentou na variabilidade de tempos de exaustão
tendo em vista a determinação da relação distância-tempo o que poderia, de
certa forma, impossibilitar a comparação de resultados científicos e desvirtuar
o planeamento do treino. Mesmo assim, parece sustentado que o cálculo da VC
seria fiável mesmo com o uso de tempos de exaustão variados (Hinckson &
Hopkins, 2005). No entanto, do ponto de vista teórico, quanto maior for o
número de distâncias nadadas incluídas na determinação da VC, maior será o
potencial da linha de regressão e os possíveis erros serão minimizados. De
acordo com Altimari, Altimari, Gulak, e Chacon-Mikahil (2007) o número de
eventos para a estimativa da VC (e por inerência, o número de sessões de teste)
pode ser reduzido em nadadores jovens, desde que utilizadas distâncias que
permitem um tempo de esforço até à ocorrência de exaustão.
A literatura tem ainda procurado modificar o modelo de dois parâmetros com
vista a melhorar a sua validade dado que este é assente em alguns pressupostos
que não parecem ser fisiologicamente realistas. Um desses pressupostos está
relacionado com a improbabilidade de existir uma VC instantânea no início do
exercício (tempo zero), o que parece conduzir à sua sobrestimação (Gaesser,
Carnevale, Garfinkel, Walter, & Womack, 1995; Morton, 1996, 2006).
Procurando corrigir essa falha matemática, Morton (1996) propôs um modelo com
um parâmetro adicional representando a velocidade no tempo zero, designada por
velocidade máxima instantânea. Isso permitiu estimar uma VC mais baixa e por
consequência uma maior sustentabilidade dessa intensidade do esforço (Gaesser
et al., 1995). Outro pressuposto fisiologicamente improvável do modelo de dois
parâmetros assenta na não predição da inércia aeróbia, ignorando o
ajustamento cardiorrespiratório necessário para a estabilidade do consumo de
oxigénio (Vandewalle et al., 1989; Wilkie, 1980). Essa carência foi corrigida
por Wilkie (1980) pela introdução de uma correção para a cinética do consumo de
oxigénio, através de um fator exponencial com constante temporal (inércia
aeróbia) que representa o aumento da participação aeróbia. Com vista atenuar as
insuficiências dos modelos de 2 e 3 parâmetros,
Num estudo recente no contexto da natação desportiva, Zacca et al. (2010)
identificaram diferenças nos valores da VC quando utilizados diferentes modelos
(2, 3 e 4 parâmetros), obtidos a partir de seis distâncias e tempos diferentes.
Contudo a introdução de um quarto parâmetro (inércio aeróbia) não parece ter
trazido uma melhoria qualitativa no ajustamento da VC em comperação com o
modelo de três parâmetros. Para além disso, refere o autor, que a estimação da
VC por via destes modelos matemáticos mais elaborados (3 e 4 parâmetros)
pressupõem o recurso a cinco ou seis esforços máximos, o que lhe retira
praticidade.
Evidências científicas da aplicação do conceito de Velocidade Crítica à natação
Tal como atrás referimos, o conceito original de VC aplicado à natação
(Wakayoshi et al., 1993; 1992a,b) é definido como a velocidade máxima de nado
teórica que pode ser mantida sem atingir a fadiga por um longo período de
tempo. No entanto, a aplicação deste conceito não está livre de controvérsia
(Dekerle et al., 2005; Denadai et al., 2000; Martin & Whyte, 2000). Por
isso a delimitacão concreta da intensidade da zona metabólica à qual a VC
melhor se associa é uma preocupação fulcral.
Sabemos que as variáveis relacionadas com a cinética do VO2 reflectem a
velocidade com que o sistema aeróbio responde, permitindo estimar a
contribuicão dos sistemas aeróbio e anaeróbio durante o exercício (Hill, 2001;
Reis, Marinho, Policarpo, Carneiro, et al., 2010; Reis, Marinho, Policarpo,
Reis, et al., 2010; Spencer & Gastin, 2001). Segundo Whipp e Wasserman
(1972), durante o exercício sub máximo, os sujeitos com a melhor aptidão
aeróbia respondem mais rapidamente e apresentam menor défice de oxigénio;
enquanto aos indivíduos com menor aptidão aeróbia acontecerá o oposto (Whipp
& Wasserman, 1972).
A VC aplicada à natação, derivada do modelo de potência crítica de Monod e
Scherrer (1965), enquanto parâmetro associado a uma intensidade de esforço em
torno do máximo estado estável de VO2 (Hill & Ferguson, 1999). Aliás, a
validade da igualdade entre estes dois indicadores, potência crítica e máximo
estado estável de VO2, teria já sido demonstrada por Poole et al. (1988; 1990).
Nestes estudos, em exercício prolongado à intensidade da potência crítica,
houve estabilização do VO2 em cerca de 80% do seu valor máximo. Foi ainda
verificado que um incremento de apenas 5% de carga provocaria um aumento do
VO2até atingir o seu pico máximo, precipitando a exaustão em poucos minutos.
Esta sustentação fisiológica veio a ser igualmente proposta por Hill e Smith
(1999), com outra técnica de estimação da intensidade associada ao máximo
estado estável de VO2, adoptando alguns dos pressupostos do modelo de Monod e
Scherrer (1965).
Porém, na natação a relação distância-tempo não parece ser estritamente linear
(Dekerle et al., 2002; Wright & Smith, 1994), dado que custo energético não
aumenta exponencialmente quando a velocidade de nado aumenta (Capelli,
Pendergast, & Termin, 1998). Para além disso, parâmetros tais como a força
propulsiva e arrasto ativo podem interferir na eficiência propulsiva e por
inerência no dispêndio energético (di Prampero et al., 2008; Ettema, 1966;
Zamparo, Capelli, & Pendergast, 2011).
De facto, diversos autores (Brickley et al., 2002; Dekerle et al., 2006)
parecem concordar que a VC poderá não corresponder à sustentação de uma
intensidade de nado ao longo de um período prolongado, precipitando-se a
exaustão com apenas ligeiros incrementos de velocidade. Num estudo
relativamente recente de Dekerle, Brickley, Sidney, e Pelayo (2006), os
nadadores somente foram capazes de manter a VC durante 30 a 40 minutos. Por sua
vez, outros estudos indicam-na como próxima da velocidade de nado num teste
máximo de 30 minutos (Dekerle et al., 2002) e ligeiramente superior ao máximo
estado estável de lactato e da velocidade de nado média estimada para
concentrações de lactato de 4 m.mol-1 (Dekerle et al., 2005; Denadai, Greco,
& Teixeira, 2000; Rodriguez, Moreno, & Keskinen, 2003; Wakayoshi et
al., 1993; 1992a,b). Adicionalmente, sabemos que a velocidade correspondente a
esse estado metabólico está correlacionada negativamente com o tempo limite
para a exaustão em velocidade de VO2max (Fernandes et al., 2003). Conhece-se
ainda, no que se refere a este último indicador, uma associação igualmente
negativa com custo energético de nado à velocidade ao VO2max e com a velocidade
de nado efectiva ao VO2max (Fernandes et al., 2006), embora não influencie
significativamente no VO2max (Cardoso, Fernandes, & Vilas-Boas, 2003; Faina
et al., 1997; Fernandes et al., 2003). Assim, segundo Whipp e Wasserman (1972),
quanto maior o tempo necessário para atingir um estado estável de VO2, maior
será a participação anaeróbia para síntese de ATP e prematura a interrupção do
esforço devido a fadiga.
Posto isto, o nado à intensidade de VC poderá, também, ter uma considerável
participação do metabolismo anaeróbio, embora sempre abaixo de uma intensidade
metabólica severa ou sub-máxima. Corresponderá, portanto, a um domínio de
exercício que terá como limite inferior a carga de trabalho na qual o balanço
entre produção e remoção de lactato pende transitoriamente para o primeiro e
terá, como limite superior, a carga referente à máxima concentração estável de
lactato. Segundo Gaesser e Poole (1996), essa intensidade demarca a transição
entre o domínio intenso e o severo de esforço, patamar este que coincide com a
potência crítica. Deste modo, a VC parece ser um conceito claramente diferente
de uma dada velocidade de nado mantida em regime aeróbio de longa duração por
nadadores experientes no âmbito da sua percepção interna de intensidade de
esforço (Toubekis, Tsami, Smilios, Douda, & Tokmakidis, 2011).
Recorrendo-se à VC como indicador de aptidão aeróbia podemos avaliar os efeitos
da intensidade do exercício no nadador dado que a VC fornece um índice de
sustentabilidade máxima da intensidade de nado e que a amplitude da braçada
diminui abaixo do limiar anaeróbio (Dekerle et al., 2005; Keskinen & Komi,
1993). Assim, de acordo com Dekerle et al. (2005), será muito diferente nadar a
velocidades superiores à VC do que a velocidades mais baixas. De acordo com a
autora, o conceito VC, está associado ao momento em que se dão mudanças
substanciais na frequência gestual e na ocorrência da amplitude do ciclo
gestual. Para além disso, a relação linear entre a frequência gestual e a
velocidade poderá ser usada para predizer a VC, e que esta predição pode ser
facilmente obtida a partir da observação da frequência em ritmo normal o ciclo
de membros superiores (Barden & Kell, 2009). Assim, quer a VC quer a
frequência gestual crítica (obtida com base na relação linear entre o número de
ciclos de membros superiores e o tempo obtido em cada distância) serão
indicadores relevantes de avaliação fisiológica e técnica do nadador,
permitindo ainda um controlo simultâneo da intensidade e da qualidade de nado
na definição das cargas de treino (Pelayo, Dekerle, Delaporte, Gosse, &
Sidney, 2000).
Velocidade crítica anaeróbia ' um conceito emergente
Os problemas metodológicos relacionados com o cálculo da VC, associados à
necessidade crescente de especialização do treino desportivo, desencadearam o
desenvolvimento de novas abordagens e perspectivas de avaliação científica.
Apesar da variedade de abordagens existentes, Fernandes, Aleixo, Soares, e
Vilas-Boas (2008) chegaram a considerar que o cálculo da VC com recurso a
distâncias mais curtas poderia ter forte relação com o uso dos sistemas
bioenergéticos mais potentes. Com base nesta ideia, muito recentemente surgiu
um conceito que tem despontado no seio da comunidade técnica e científica da
natação que é o de velocidade crítica anaeróbia (VCan). A determinação da VCan
rege-se pelo mesmo princípio em que se suporta o cálculo da VC, ou seja, pela
obtenção do declive da recta de regressão, no entanto com base em distâncias
mais curtas (Abe et al., 2006; Fernandes et al., 2008; Marinho et al., 2012;
Neiva et al., 2011).
Na literatura são escassos os estudos que até ao momento se dedicaram a esta
temática, objetivando para tal o cálculo da VC e tentando estabelecer a sua
relação com o desempenho anaeróbio (tabela_2). Abe et al. (2006) recorreram às
distancias de 75, 100 e 150 m para o cálculo da VCan na técnica de bruços. Os
autores observaram uma forte correlação (r = 0.85) da VCan com o desempenho nos
50 m bruços. Uma abordagem semelhante foi efetuada por Fernandes et al. (2008)
em nadadores jovens, contudo suportada na técnica de crol. Fortes relações
foram observadas entre a VCan e as velocidades do primeiro (r = 0.73) e do
segundo (r = 0.60) parciais da prova de 100 m crol. Muito recentemente, Neiva,
Fernandes, e Vilas-Boas (2011) tentaram descriminar o conceito de VCan
baseando-se nas distâncias de 15, 25, 37.5 e 50 nas quatro técnicas de nado.
Como seria expectável os valores de VCan foram superiores a crol, mariposa,
costas e bruços, respetivamente. Adicionalmente, foram observados fortes
relações entre o desempenho nos 100 m e a VCan de cada uma das técnicas de nado
(mariposa r = 0.60; costas r = 0.81; bruços r = 0.83; crol r = 0.78), com maior
ênfase no primeiro parcial da prova. Marinho, Barbosa, Silva, e Neiva (2012)
verificaram uma forte correlação entre a VCan (utilizando as distâncias de 10,
15, 20 e 25 m) e o desempenho nos 50, 100 e 200 m crol em jovens nadadores de
ambos os sexos. Para além disso, não foram encontradas diferenças entre a
velocidade dos 200 m e a VCan, sugerindo que a velocidade crítica anaeróbia
pode ser um parâmetro importante para a monitorização dos efeitos do treino,
especialmente para a prova de 200 m livres. Contudo não parece existir uma
relação consistente entre VCane distância máxima de nado neste regime o que
significa que nem sempre um elevado desempenho anaeróbio, traduzida em
velocidade de nado, conduzirá a desempenhos desportivos elevados (Louro et al.,
2013), sobretudo em distâncias de nado entre os 100 e 200m. Assim poderá ser
importante considerar no futuro a distância máxima de nado a esta velocidade,
como indicador de aptidão anaeróbia total do nadador.
Em suma, até a este momento, e não existindo evidência científica em contrário,
a VCan parece ser um indicador apropriado para controlar a intensidade de nado
durante as séries de treino anaeróbio, especialmente se considerarmos neste
âmbito as tarefas mais relacionadas com a capacidade anaeróbia. Embora o
conceito de VCan ainda seja um conceito vago, o uso de séries fracionadas em
repetições até uma distância de 50m parece ser uma boa ferramenta para o
desenvolvimento das características anaeróbias do nadador. Assim, a velocidade
a ser adotada em cada parcial deverá ser previamente obtida pela relação
distância-tempo usando as distâncias parcelares mais curtas como sejam os 10,
15, 20 e 25m. Neste sentido, a monitorização regular da VCan poderá permitir um
controlo mais efetivo do processo de treino, especialmente por este ser
considerado um método não invasivo. Contudo, este é um conceito relativamente
recente e não totalmente esclarecido, o que necessita de mais investigação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A VC é sugerida como um parâmetro não invasivo de avaliação do desempenho
aeróbio e de predição do limiar anaeróbio de nadadores, independentemente do
nível desportivo. As principais vantagens deste indicador resultam da
facilidade de aplicação e análise num elevado número de nadadores, sem a
necessidade da utilização de equipamentos dispendiosos ou de qualquer recolha
de sangue. Aponta-se como uma ferramenta útil no mecanismo de prescrição e
controlo de cargas de treino por meio de resultados em condições experimentais
ou recorrendo a tempos obtidos durante as competições. As diferentes
combinações de distâncias e coordenadas propostas pela literatura afectaram a
reprodutibilidade dos estudos e por consequência o significado fisiológico
deste indicador, em particular na natação. Por isso, salienta-se a necessidade
de aumentar a fiabilidade dos registos em intervenções futuras, tanto pelo uso
das mesmas distâncias no cálculo da VC, como pela correção dos registos caso
estes sejam obtidos em condições de nado distintas (piscina longa/curta;
partida com/sem salto). A maioria dos estudos são suportados em metodologias
estatísticas simples (por vezes não paramétricas), recorrendo a amostras de
pequena dimensão, maioritariamente no género masculino e geralmente não
descriminantes da especialidade desportiva. Assim, tal como apontam alguns
estudos recentes, futuras abordagens deverão considerar abordagens estatísticas
mais robustas e a descriminação dos valores de velocidade crítica entre
nadadores com diferentes perfis metabólicos (velocistas versus fundistas). A
opção pelo uso de modelos com 3 ou 4 parâmetros, recorrendo a mais distâncias
de nado parece ser a mais ajustada para a prescrição dos ritmos de treino,
embora isso pressuponha menor praticidade. De qualquer modo, os treinadores
poderão sempre que possível recorrer aos tempos de prova para colmatar a
necessidade de cálculo. Por último, urge aprofundar a aplicabilidade do
conceito em regime de esforço anaeróbio, especialmente porque os estudos
parecem apontar que a VCan anaeróbia pode ser utilizada na prescrição e
controlo da intensidade de nado em tarefas relacionadas com o desenvolvimento
da capacidade anaeróbia.