Para uma sociologia dos intelectuais
O leitor precisa ler de certa forma para ler bem: o autor
não deve se ofender com isso, mas, ao contrário, conceder
a maior liberdade ao leitor dizendo-lhe: "Veja você mesmo
se enxerga melhor com esta lente aqui, com aquela ou com
aqueloutra"
(Marcel Proust, Le Temps Retrouvé, 1927)
O artigo discute a contribuição da obra de Sergio Miceli para a consolidação
nas últimas três décadas de uma área de pesquisa voltada, no âmbito da
Sociologia da Cultura, especificamente para a análise dos intelectuais no
Brasil. Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil (1920-45), de 1979, impõe-
se de modo central nesse programa. Combatendo à pretensão dos intelectuais de
serem portadores de uma missão civilizatóriacapaz de colocá-los acima dos
conflitos na sociedade ' representação que, segundo Miceli, perpassa todo o
espectro ideológico brasileiro, do conservadorismo ao liberalismo, passando
pelo socialismo ', o livro contribuiu decisivamente para definir os contornos
do tratamento sociológico daquela problemática. Para o que sem dúvida têm
concorrido ainda tanto os notáveis desdobramentos analíticos dados a ele pelo
autor em pesquisas posteriores, quanto à polêmica que tem acompanhado sua
recepção, da qual permanece emblemático o célebre e já indissociável prefácio
que Antonio Candido (2001) escreveu para o livro.
Abordando as relações dos intelectuais com as classes dirigentes como
estratégicas para a explicação das posições por eles assumidas no "mercado de
postos" em expansão na sociedade brasileira entre 1920 e 1945 tanto no setor
privado quanto no público, em especial nas estruturas de poder do Estado,
Miceli expõe a matriz dos interesses subjacente ao ethosda desvinculação social
historicamente cultivado por essas minorias ativas a respeito de si próprias.
Ao lado deste, por assim dizer, golpe desferido à sua própria "comunidade", as
considerações minuciosas e sem cerimônias feitas por Miceli sobre certos
detalhes inusitados da vida privada de alguns ícones da intelectualidade pátria
realimenta a polêmica que o livro tem suscitado1.
Especificar a contribuição metodológica de Intelectuais e Classes Dirigentes no
Brasil (1920-45) para uma sociologia dos intelectuais não constitui tarefa
simples. Discutir metodologia traz como exigência que se mostre de que modo a
operacionalização de uma análise implica sempre em certas escolhas não apenas
relativamente a materiais de pesquisa, mas também a perspectivas teóricas
específicas que informam a construção do objeto. Na Sociologia a dinâmica
analítica de construção de um objeto realiza-se de modo cumulativo, isto é,
direta ou indiretamente associada às contribuições anteriores, concorrente a
outras perspectivas teórico-metodológicas contemporâneas e variável quanto à
própria articulação entre teoria e método. Por isso torna-se inevitável
mobilizar elementos que não se encerram ordeiramente simplesmente no âmbito
manifesto de qualquer proposta, embora se deva sempre partir dele. Nossa
hipótese, nesse sentido, é de que, a despeito do privilégio dado à investigação
dos elementos internos das estratégias de inserção dos intelectuais, a análise
de Miceli deixa em tensão a suposição da autonomia de um "campo intelectual" e
suas relações com o processo social mais amplo. Pelos motivos expostos não
estamos reivindicando o uso da categoria "campo intelectual" em todos os
trabalhos e com o mesmo peso empírico e analítico no conjunto da obra de
Miceli, embora a problemática a ela referida seja crucial nas escolhas
metodológicas e narrativas do autor. Vale mencionar, ainda, que o autor também
emprega a categoria "campo de produção cultural" (Miceli, 2001a:83, por
exemplo).
Procurando especificar a contribuição metodológica de Intelectuais e Classes
Dirigentes no Brasil (1920-45)para uma sociologia dos intelectuais, para o que
recorremos também a diferentes textos de Sergio Miceli, começamos pela
discussão da nossa hipótese geral acima apresentada. Passamos, em segundo
lugar, à discussão do enquadramento teórico dado por Miceli ao fenômeno social
das relações entre intelectuais e classes dirigentes. Consideramos que o autor
equaciona analiticamente esse tema mais vasto como uma relação entre "posição
social" e "estruturas de poder" num contexto de transição de formas de
sociedade tradicional à moderna, no qual se entrelaçam de modo dinâmico formas
de sociabilidade e de condutas referidas a ordens sociais distintas. Nessa
seção, tendo em vista o caráter cumulativo da produção sociológica, destacamos
a relevância do tema e do próprio enquadramento teórico a ele dado por Miceli,
lembrando algumas proposições de Gilberto Freyre e de Florestan Fernandes. Em
terceiro lugar, discutimos a metodologia de que Miceli lança mão para
operacionalizar em termos próprios a análise daquela relação entre "posição
social" e "estruturas de poder" num contexto de mudança social que
identificamos na tradição sociológica brasileira. A esse respeito, consideramos
que a contribuição metodológica de Miceli consiste na reconstrução do perfil da
elite intelectual através especificamente da trajetória e biografia exemplares
de alguns de seus membros, que o autor identifica aos "métodos prosopográficos"
utilizados no estudo do mesmo tema em diferentes formações sociais. Por fim, na
conclusão, recuperamos a discussão de Miceli sobre outras perspectivas teórico-
metodológicas contemporâneas e concorrentes à sua, lembrando do balanço que fez
da produção analítica sobre intelectuais brasileiros (Miceli, 1999). Nele, a
constatação do expressivo crescimento da literatura especializada entre 1970 e
1995 leva Miceli a falar, com toda razão, numa "nova frente de estudos e
pesquisas" na sociologia brasileira sobre os intelectuais. Perguntando, no
entanto, pelo produto do trabalho dos intelectuais, aspecto não contemplado no
programa de Miceli, argumentamos a favor de uma nova compreensão das ideias
como forças sociais reflexivas na agenda da Sociologia contemporânea.
MACRO E MICROTEORIZAÇÃO
Para que se possa compreender Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil
(1920-45)é fundamental levar em conta o "contexto intelectual" de sua
formulação. Reconhecendo o contexto sociológico como fortemente marcado pelas
perspectivas macro de análise de processos sociais de longa duração, como a
formação do capitalismo dependente no Brasil, por exemplo, faz sentido
considerar que as inegáveis originalidade e riqueza analítica do livro de
Sergio Miceli estão em parte associadas justamente à valorização de certos
aspectos microssociológicos até então pouco explorados. O livro abriu de fato
novas fronteiras de pesquisa voltadas para a análise da dinâmica sociológica
das regras e das estratégias cotidianas de inserção e de viabilização das
carreiras dos intelectuais dentro dos marcos institucionais dominantes da
primeira metade do século XX. Nesse sentido, Miceli procura filiar seu
trabalho, como diz na primeira e muito significativa nota de pé de página do
livro, "à tradição de uma história social das classes encaradas do ângulo de
sua dinâmica interna, vale dizer, dos processos que dão conta tanto dos padrões
de identidade e do estilo de vida como das mudanças e cli-vagens que presidem
sua diferenciação em grupos e frações especializados" (id., 2001a:247).
A estratégia metodológica de Miceli pôde se impor de modo crescente como uma
alternativa às macrointerpretações histórico-sociológicas da formação da
sociedade brasileira. Talvez porque a tese da desvinculação social dos
intelectuais, que ele tratava de combater, aparecesse em vários momentos
associada às análises que procuravam dar conta justamente da articulação entre
cultura e política no âmbito dos processos de modernização e construção do
Estado-nação. Ou ainda, das análises que situavam aquela articulação entre
cultura e política no quadro da particular configuração histórica da revolução
burguesa no Brasil, que tem como um dos principais efeitos o inevitável
entrelaçamento dessas duas dimensões da vida social. Para isso concorrera
sobremaneira, sem dúvida, a orientação normativa, mas nem sempre explicitada,
das categorias analíticas de "campo" e de "habitus" tomadas a Pierre Bourdieu
(1974; 1989; 2002, por exemplo), o orientador da pesquisa que originou o livro
em questão.
Assim, é possível dizer que Intelectuais e classes dirigentes no Brasil (1920-
45) parte da separação analítica das dimensões cultural e política proposta por
Bourdieu, daí decorrendo o privilégio dado, por Miceli, à investigação dos
elementos, da organização e do funcionamento internos das estratégias de
inserção social dos intelectuais como fatores explicativos de uma dinâmica
social. Todavia, como enunciamos anteriormente, o método empregado no livro
parece-nos realizar-se deixando em tensão, no plano analítico, a suposição da
autonomia daqueles fatores internos, de um lado, e suas relações inclusivas com
os processos sociais e históricos mais amplos, de outro. Por isso o livro não
pode ser satisfatoriamente apreciado, a nosso ver, se o entendermos apenas como
uma exemplificação da dinâmica de relações internas ao "campo" e entre os
diferentes grupos de agentes que detêm posições e objetivos próprios nele.
Embora essa seja uma dimensão metodológica central do livro, não nos parece que
Miceli esteja sugerindo com a análise realizada que aquelas relações internas
ao "campo" seriam suficientes, no caso brasileiro da primeira metade do século
XX, para a definição das suas fronteiras, bem como das zonas de influência
resultante das interações entre seus agentes especializados.
Na conclusão do livro, de fato, fazendo o balanço do relativo sucesso das
estratégias de que lançaram mão os diferentes grupos de intelectuais analisados
para sua incorporação às estruturas de poder em meio ao processo mais amplo de
reconversão das elites em declínio no período, o autor observa que, pelo fato
de "haver lidado com um campo de produção cultural que dispunha de um grau
restrito de autonomia em relação às demandas da classe dirigente, quase todos
os grupos de escritores focalizados, com exceção dos romancistas, derivam sua
identidade e o perfil de seus investimentos intelectuais das obrigações que
essa filiação política lhes impõe" (Miceli, 2001a:245). Voltaremos a este
ponto, mas queremos observar desde já que também a exceção que Miceli faz em
relação aos romancistas, acima transcrita, diz respeito mais às possibilidades
efetivas que concorreram para alterar os antigos padrões exclusivistas de
dependência dos intelectuais com relação às elites dirigentes e ao Estado, do
que propriamente à conquista de autonomia por parte desse segmento intelectual.
Essas possibilidades teriam sido favorecidas por certas transformações cruciais
então em curso no mercado de trabalho cultural como parte de um processo mais
amplo de transição social, ilustrado pela expansão do setor editorial e a
concomitante constituição de um mercado do livro por "substituição de
importações" beneficiada pelo significativo êxito comercial da literatura de
ficção no país.
Nesse contexto, se mesmo as preferências do novo público leitor pelo gênero
romance puderam concorrer, como mostra Miceli, para retirar a literatura da
tutela exclusiva dos "mecenas" privados ou públicos e colocá-la sob as chamadas
"leis do mercado", as possibilidades que alguns escritores encontraram para
dedicar-se à literatura de ficção como principal atividade profissional não se
generalizaram sequer entre os romancistas do período. O exercício da vocação
artística na maioria dos casos não se fez senão como prática subsidiária, já
que, como no caso de Orígenes Lessa, Graciliano Ramos, Ciro dos Anjos, Rachel
de Queiroz, José Geraldo Vieira entre outros, "parcela substantiva de seus
rendimentos provém de atividades profissionais externas ao campo intelectual e
artístico" (id., 2001a:187).
Assim, se alguma "autonomia" de um "campo intelectual" pode ser divisada nesse
processo, "autonomia" aqui não parece significar senão que a vida intelectual
ganhava densidade e complexidade suficientes a ponto dos intelectuais poderem
passar a almejar regerem sua vida como coletividade social por uma lógica
distinta daquela vigente quando da sua dependência direta das oligarquias
tradicionais e do Estado na Primeira República. Pois nos anos 1930-1940, ainda
que em si mesmo já não seja fator suficiente para definir o destino dos
intelectuais, permanece sua dependência em relação ao "favor" das classes
dirigentes e do Estado. Noutras palavras, isoladamente, os intelectuais não
conseguiram assumir um papel decisivo no processo social capaz de influenciá-lo
na base dos seus interesses materiais e imateriais específicos. A dinâmica dos
interesses dos intelectuais em formação parece assim mais reativa às
transformações pelas quais a sociedade passava, do que propriamente
constituinte de um "campo" autônomo a partir do qual tornar-se-ia possível
garantirem sua independência face não apenas das demandas como dos imperativos
de autoridade das elites dirigentes e do Estado.
Se assim não fosse por que desmascarar a pretensão manifesta dos intelectuais
em se constituírem como os "portadores da síntese" dos interesses em conflito
na sociedade? Pretensão que se realiza através da difusão e rotinização de
valores para além, obviamente, das fronteiras do próprio campo especializado
considerado. Por que entender a aproximação dos intelectuais ao Estado Novo em
termos de "cooptação", se não estivessem em jogo também, e em medida
significativa, as possibilidades históricas oferecidas para interação e
interdependência do "campo" e a sociedade como um todo? E, se o
"habitus"émesmoexplicativo do estabelecimento das disposições subjetivas de
orientação das condutas de atores sociais como "intelectuais", por que recorrer
às suas origens sociais para equacionar suas relações com a sociedade e com o
Estado?
Afinal, dentre os maiores méritos da sociologia dos intelectuais de Sergio
Miceli está sem dúvida o de ter demonstrado um aspecto central da Sociologia
brasileira, mas nem sempre levado em conta nas explicações sobre a "difícil"
distinção entre público e privado no Brasil. Qual seja, o de que essa
"dificuldade" não decorre apenas de uma circunscrição preponderante das formas
associativas aos círculos familiares, mas implica também o fato de que, quando
afinal esses círculos são ultrapassados pela constituição de uma esfera de
"vida pública", essa passagem não se faz acompanhar necessariamente por formas
de orientação da conduta distintas daquelas próprias à esfera de "vida
privada". Não é outro, aliás, o sentido da filiação que Miceli procura fazer do
seu trabalho a Raízes do Brasil(1936), de Sérgio Buarque de Holanda, a Os Donos
do Poder (1958), de Raymundo Faoro, e a São Paulo e o Estado Nacional(1975), de
Simon Schwartzman, pelo diagnóstico presente neles sobre "a persistência de
mecanismos de cooptação, impregnando os padrões de concorrência estimulados
pelos processos de urbanização e industrialização" como "o cerne da história
das transformações políticas no Brasil contemporâneo" (Miceli, 2001:244).
Assim, ao contrário do modelo francês analisado por Bourdieu (2002, por
exemplo), Sergio Miceli está tratando de uma situação em que, na melhor das
hipóteses, um "campo intelectual" estaria em vias de formação e ainda não
inteiramente consolidado do ponto de vista sociológico. O que implica, ainda,
deslocamentos e adaptações significativas das categorias analíticas do
sociólogo francês quando aplicadas ao caso brasileiro2. Nesse sentido seria um
contrassenso em termos teóricos circunscrever a contribuição de Intelectuais e
Classes Dirigentes no Brasil (1920-45)como devedora exclusivamente da
sociologia de Bourdieu. Se não faltam entre nós aplicações mecânicas da
proposta metodológica do sociólogo francês, não se pode perder de vista,
contudo, que as análises de Sergio Miceli surpreendem a expectativa da sempre
difícil, mas às vezes fecunda, aclimatação das chamadas ideias "importadas" ao
contexto brasileiro. Vale como exemplo da síntese operada na análise sua
discussão sobre a formação de um mercado de bens culturais por "substituição de
importações" para dar conta da crescente produção do gênero romance a partir da
década de 1930.
Ressaltamos que a hipótese que estamos apresentando para debate não é de modo
algum "externa" ou "periférica" aIntelectuais e classes dirigentes. Afinal,
tratar-se-ia nele de identificar a lógica específica e as particularidades da
vida intelectual no Brasil. Por isso, voltando à primeira nota de pé de página
do livro, seu trabalho deveria muito mais, como sustenta Miceli, "à leitura de
estudos a respeito da vida intelectual em outras formações sociais do que ao
projeto de por à prova um determinado modelo teórico" (Miceli, 2001a:247). A
afirmação dá uma pista estimulante sobre o método adotado por Miceli, e que a
nosso ver é decisiva para entender a originalidade do seu enfoque. Afirmando-se
devedor da "leitura de estudos a respeito da vida intelectual em outras
formações sociais" ' como os de Antonio Gramsci sobre a Itália, de Pierre
Bourdieu sobre a França, de Raymond Willians sobre a Inglaterra e de Fritz K.
Ringer sobre a Alemanha ' para "detectar as peculiaridades da condição
intelectual na sociedade brasileira" (ibid.), Miceli indica claramente que
incorpora a perspectiva histórico-comparada no plano da concepção e da
construção teórica do objeto. Ainda que não o faça no plano do método, uma vez
que não procede a análise cotejando ou confrontando explicitamente o caso
brasileiro aos de outras formações sociais. Tampouco parece se perguntar sobre
as possíveis razões sociológicas explicativas da recorrência de certos traços
característicos do protagonismo social dos intelectuais em certas sociedades e
não em outras, a começar pelo próprio cultivo da ideia de missão que, ao fim e
ao cabo, busca combater.
A força catalisadora de Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil (1920-
45)deve ser buscada no contexto intelectual em que se anunciava o movimento de
negação das sínteses e de descrença nas generalizações nas Ciências Sociais. O
que se coloca em questão, ainda, é em que medida, em primeiro lugar, a tensão
analítica entre as dimensões micro e macrossociológicas de análise identificada
no livro é teoricamente elaborada, e qual seu rendimento analítico específico.
Em segundo lugar, em que medida a experiência dos intelectuais por ele tratada
está condicionada a uma interpretação da própria particularidade ou
singularidade da formação da sociedade brasileira, ainda que esta dimensão
macro não seja, para Miceli, explicativa das relações entre intelectuais e
classes dirigentes.
INTELECTUAIS E MUDANÇA SOCIAL
As relações entre "posição social" e "estruturas de poder" no Brasil exploradas
emIntelectuais e Classes Dirigentes no Brasil(1920-45)foram identificadas
anteriormente, em diferentes perspectivas analíticas, na Sociologia brasileira.
Como esquecer, nesse sentido, das considerações de Gilberto Freyre em Sobrados
e Mucambos(1936) sobre a ascensão do bacharel no contexto de urbanização/
ocidentalização da sociedade brasileira marcado pelo declínio dos setores
agrários tradicionais? Filhos legítimos, ilegítimos ou meramente agregados das
famílias patriarcais, ou ainda provenientes da nova burguesia das cidades, os
bacharéis seriam os ícones por excelência de uma nova aristocracia urbana em
expansão desde o começo do Império:
Nos jornais, notícias e avisos sobre "Bacharéis formados", "Doutores"
e até "Senhores estudantes" principiaram desde os primeiros anos do
século XIX a anunciar o novo poder aristocrático que se levantava,
envolvido em suas sobrecasacas ou nas suas becas de seda preta, que
nos bacharéis-ministros ou nos bacharéis-desembargadores, tornavam-se
becas "ricamente bordadas" e importadas do oriente. Vestes quase de
mandarins. Trajos quase de casta. E esses trajos capazes de
aristocratizarem homens de cor, mulatos, "morenos". (Freyre, 1951:
966)
Trata-se de um processo de mobilidade social que se realiza mediante a
dependência dos bacharéis e de suas conexões com as famílias senhoriais, cuja
decadência não significava, porém, exatamente o desaparecimento do seu poder,
como bem ilustra, por sua vez, a capacidade demonstrada por esses setores
sociais tradicionais de instalar seus dependentes, os bacharéis, nas modernas
estruturas de poder do Estado que os havia antagonizado3. Por isso a ascensão
dos bacharéis sintetiza, para Freyre, como, em meio aos dilemas trazidos pela
urbanização, a estrutura do mundo agrário permanece na nova organização
modificando o caráter da cidade, ainda que esse desenvolvimento aprofunde a
decadência do patriarcado. Na Introdução à segunda edição de Sobrados e
Mucambos, referindo-se a texto a ser posteriormente escrito, diz:
Não é sem razão que a gente antiga do Recife chamava ao beco que ia
do centro da cidade ao Cemitério de Santo Amaro de "Quebra Roço".
"Roço" é brasileirismo que quer dizer [...] "presunção, vaidade,
orgulho". E é como o tempo ' e através do tempo, a dissolução das
instituições, e não apenas a dos indivíduos ' age sobre as casas e os
túmulos [...]: quebrando-lhes o roço. O roço do que o patriarcado no
Brasil teve de mais ostensivo, isto é, a sua arquitetura
característica [...] com que as famílias patriarcais ou tutelares
pretenderam firmar seu domínio não só no espaço como no tempo ' vem
sendo quebrado à vista de toda a gente. (Freyre, 1981:LXII)4
Mas a decadência não significou a desaparição desse poder, pois a organização
da sociedade em novas bases não prescindiu de sobrevivências patriarcais. Para
Freyre essa acomodação significa a continuidade da ordem que caracteriza a
sociedade brasileira, "[...] isto é, da ordem já burguesa mas ainda patriarcal,
que constituía a segurança da sociedade brasileira" (id., 1981:LXX). No
entanto, o que paulatinamente vai desaparecendo é a variedade de tipos e formas
sociais que marcava a sociedade colonial, resultado do processo de civilização
homogeneizador operado pelo Estado imperial preocupado com a manutenção da
ordem assentada em bases novas: uma ordem impessoal. Rompe-se, assim, a aliança
Estado/patriarcado, precipitando a decadência da experiência patriarcal fundada
nas relações pessoais. Interrompe-se, com isso, o equilíbrio de antagonismos
que era a marca da sociedade colonial e abre-se espaço para conflitos que se
explicitam tanto no espaço privado quanto no público.
Do ponto de vista teórico, a discussão de Freyre sobre a ascensão dos bacharéis
é ilustrativa da sugestão de que, no Brasil, a mudança social não ocorreu por
rupturas bruscas com relação ao passado, mas através de processos de
acomodação. Não resta dúvida de que Freyre analisa os conflitos e suas soluções
via processos sociais. Embora presentes em todas as sociedades, é a forma como
uns assumem preponderância sobre os outros que conferiria as características de
cada formação social. Aponta, nesse sentido, como equívoco considerar
"competição" e "conflito" como dois processos diferenciados, quando o analista
também separa a ordem social, à qual pertence o primeiro, da ordem política,
com a qual se identifica o segundo. Indica a raiz do equívoco no fato de os
sociólogos considerarem cooperação, competição, assimilação, acomodação,
imitação, diferenciação, dominação, exploração, subordinação como mecanismos
especiais separados do processo básico ' o contato ' e do geral ' a interação.
Assim, para ele, o centro da reflexão sociológica deverá ser o estudo do
contato e da interação, e isto só se torna possível a partir da análise das
relações face a face.
O grupo tratado em Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil(1920-45)está
mais próximo dos intelectuais abordados em "Desenvolvimento Histórico-Social da
Sociologia no Brasil" de Florestan Fernandes, redigido em 1956 e publicado na
íntegra em 1957 no volume VII, nos 75 e 76, de Anhembi. Nele o autor destaca o
modo pragmático como os intelectuais da Primeira República estabeleceram sua
relação com a política e como esse pragmatismo constituía uma forma de reação à
crise social por que passava a sociedade. Formados em meio à desagregação da
ordem social monárquica e escravocrata e à emergência, do seio desta, de um
novo regime de trabalho e de organização política e social, com a República,
não foi possível àquela geração de "pioneiros" da Sociologia uma adesão
política unívoca e progressista face aos desafios do tempo. Ela não teve,em
suma, como fugira uma coexistência ambígua entre formas pretéritas e certas
antecipações ainda não inteiramente objetivadas do futuro que caracterizariam
as épocas de transição, e de cuja equação, aliás, parece sempre depender a
visão do momento presente. Confrontados pela percepção de que a Abolição não
havia promovido a integração dos escravos e dependentes à sociedade de classes
e de que a República fora em muitos aspectos apenas uma reforma de Estado, os
dilemas e impasses dos intelectuais do período parecem constituir um tipo de
dialética sem síntese entre ruptura e continuidadeque, aparentemente, enreda a
todos eles, independente, num certo nível, de suas próprias orientações
ideológicas ou veleidades sociais.
No âmbito da Primeira República, afinal, como havia mostrado Florestan
Fernandes em A Integração do Negro na Sociedade de Classes(1965), as inovações
institucionais e a liberalização jurídica-política acabaram por ficar
circunscritas apenas à adaptação da grande empresa agrária ao regime de
trabalho livre e às relações de troca no mercado que ela, ao menos em tese,
pressupunha. No mais, como sugere, "continuaram a imperar os modelos de
comportamento, os ideais de vida e os hábitos de dominação patrimonialista,
vigentes anteriormente na sociedade estamental e de castas. Para que a ordem
social competitiva pudesse expurgar-se desses influxos constritivos e
perturbadores, consolidando-se numa direção especificamente "burguesa",
"liberal-democrática" e "urbana", impunha-se que surgisse nas cidades um
sistema de produção que as equiparasse ao campo ou as tornasse independentes
dele" (Fernandes, 1965:25). E como tal condição ter-se-ia delineado lentamente
"e só demonstra certo vigor, malgrado as debilidades e as incertezas da
industrialização, meio século depois da Abolição e da Proclamação da
República", nada poderia impedir que "a ordem social competitiva se ajustasse
às estruturas persistentes daquele regime" (id., 1965:26).
É nesse contexto em que as condições sociais de constituição de maior autonomia
para os intelectuais face às elites dirigentes pareciam extremamente
prejudicadas, portanto, que a relação pragmática estabelecida por esses atores
sociais com a política nas primeiras décadas republicanas adquire sentido. Para
os círculos intelectuais do período, observa Florestan, o pragmatismo
representava uma das "consequências intelectuais da desagregação do regime
escravocrata e senhorial", no âmbito da qual, "surgiu a disposição de reagir
aos efeitos da crise por que passava a sociedade brasileira, mediante a
intervenção prática na organização seletiva dos fatores de progresso econômico
e social" (id., 1980:35). Por isso, prossegue, "o interesse pela análise
histórico-sociológica do presente assumiu, nesses círculos, um caráter
pragmático. Entre todos, predominava a ideia de que o conhecimento objetivo da
situação brasileira constituía uma condição para a formulação de uma política
realista mas patriótica" (ibid.).
Todavia, esclarece Florestan em passagem decisiva para nossos propósitos: "No
fundo, esta orientação resultava do receio e do ressentimento que as
perspectivas de prejuízos na posição dominante dentro da estrutura de poder
instavam no ânimo dos descendentes das antigas famílias senhoriais" (ibid.). A
evidência do enraizamento social dessa orientação Florestan encontra no "valor
atribuído à organização política como meio para restringir seletivamente os
influxos do desenvolvimento econômico, social e político-administrativo do país
e como instrumento para manter a liderança na mão das elites constituídas"
(ibid.). Nesse quadro, as obras de Alberto Torres "conseguiram estabelecer
tipicamente a ligação entre a análise histórica e as intenções pragmáticas",
desempenhando mesmo "o papel pioneiro na formulação pragmática do pensamento
sociológico do Brasil" (ibid.).
Do confronto dessas proposições sobre relações entre "posição social" e
"estruturas de poder" para o entendimento do tema dos intelectuais no Brasil
pode-se inferir, em primeiro lugar, que, embora com sentidos distintos, tanto
Gilberto Freyre quanto Florestan Fernandes apontam para a hipótese de que uma
estrutura social fortemente hierarquizada não favorece, senão precariamente, a
inclusão social dos intelectuais, como de resto dos grupos sociais em geral,
dissociada das relações de parentesco, de afinidade, de amizade típicas das
formas tradicionais de paternalismo e proteção de um grande proprietário. Em
segundo lugar, resguardadas novamente as diferenças de sentido que guardam
entre si, essas considerações sobre os limites da mobilidade social numa ordem
rigidamente estratificada inscrevem-se, do ponto de vista sociológico, na
discussão mais ampla sobre mudança social no Brasil. Isto é, são indicativas da
sugestão de que as relações entre "posição social" dos intelectuais e
"estruturas de poder" devem ser analisadas tendo em vista o contexto de
transição de formas de sociedade tradicional para a moderna em que se inserem.
O desafio de explicar a manutenção de certas formas tradicionais nas relações
sociais, como as da sociedade oligárquica, num quadro mais amplo de
modernização acabou por constituir um dilema que de um modo ou de outro os
sociólogos brasileiros tiveram que enfrentar. Mas não se trata de pensar a
mudança social num sentido linear, já que, no movimento da sociedade,
"tradicional" e "moderno" vão invadindo as premissas uns dos outros como
modalidades de relações sociais, e redefinindo-se mutuamente e aos contornos da
própria sociedade. Abrem-se, então, novas possibilidades para a atuação dos
intelectuais e para a influência que eles próprios procuram com maior ou menor
sucesso exercer na modelagem da passagem de uma época social para outra. Isso
ocorre sem que, no entanto, nesse processo de mudança social, eles percam
completamente os vínculos, valores e vícios da ordem patriarcal ou estamental.
Embora o tema dos intelectuais seja tratado tangencialmente, as proposições de
Gilberto Freyre e Florestan Fernandes a seu respeito circunscrevem, em grande
medida, o campo problemático em que se move, na tradição sociológica
brasileira, mas em termos próprios, Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil
(1920-45).
As relações entre os intelectuais e a classes dirigentes no Brasil na primeira
metade do século XX são formuladas analiticamente por Sergio Miceli também nos
termos de uma relação entre "posição social" e "estruturas de poder". Além
disso, também inscreve essas relações no contexto de transição de formas de
sociedade tradicional para a moderna, do qual advém a dinâmica dos interesses
dos intelectuais, condicionada, por sua vez, ao caráter particular dos
processos de mudança social no Brasil. Assim, pode-se entender tanto a escolha
dos três setores em expansão no mercado de trabalho por cujos postos os
intelectuais teriam concorrido, quanto as alterações relativas ao recrutamento
dos intelectuais e à própria dinâmica da vida cultural.
No primeiro caso, Miceli destaca e analisa (1) a consolidação e ampliação de um
mercado de postos públicos associadas, de um lado, às posições já
tradicionalmente ocupadas pelos intelectuais nas estruturas de poder no âmbito
do Estado, de outro, aos processos de racionalização e de burocratização pelos
quais essas estruturas de poder passavam, e ainda, ao sentido estratégico que o
trabalho cultural assumiu na legitimação da centralização da autoridade pública
operada pelo Estado Novo; 2) o surgimento de um mercado do livro resultante da
constituicão de um novo público leitor composto de burocratas do Estado,
profissionais liberais, profissionais da educação, empregados do setor privado
e demais categorias próprias ao mundo urbano e industrial então em expansão; e
3) a criação de postos nas frentes de mobilização política e ideológica, seja
(i) no âmbito das disputas internas entre as organizações partidárias de São
Paulo, como o Partido Republicano Paulista (PRP), ao qual Oswald de Andrade
esteve ligado, e o Partido Democrático (PD), do qual Mário de Andrade teria
sido o "líder intelectual"; seja (ii) nas instituições culturais dependentes
das elites locais que lograram ' baseadas, num primeiro momento, no trabalho
dos intelectuais e artistas modernistas, e, num segundo momento, na
Universidade de São Paulo ' estabelecê-las como um eixo hegemônico para a vida
cultural de todo o país; seja ainda (iii) no âmbito do movimento integralista
ou das entidades ligadas à Igreja Católica que, a exemplo do Centro Dom Vital,
encarnando o projeto de uma "reação espiritualista" particularmente voltado
para a intelectualidade, procurou não apenas responder aos desafios postos à
Igreja num contexto de conflitos sociais próprios da sociedade moderna
emergente nos anos 1920, como ainda influenciar as políticas do Estado para a
área da educação e cultura, como mostra a atuação paradigmática de Alceu
Amoroso Lima.
No segundo caso, Sergio Miceli qualifica detidamente as alterações relativas ao
recrutamento dos intelectuais: se até a Primeira República os intelectuais
dependiam fundamentalmente das redes de relações familiares e pessoais que
podiam mobilizar como suportes político-sociais graças às suas origens sociais,
na década de 1930 inicia-se a exigência de que possuam também outros
distintivos, como os diplomas escolares e universitários, para se alçarem
àquelas posições criadas no mercado de postos. Distintivos que acentuam não
apenas a concorrência no "campo intelectual" em formação, como também a
diferenciação e a hierarquização das posições internas em relação às próprias
origens sociais dos recrutados. Em suma, com a decadência das antigas elites
tradicionais, de um lado, e a entrada em cena de novos atores sociais em
condições de fazerem representar os seus interesses, de outro, alterara-se a
coalizão de forças políticas em disputa no contexto de expansão tanto da
dinâmica capitalista quanto da dinâmica institucional do Estado-nação.
Nesse sentido, o argumento desenvolvido por Sergio Miceli é ambíguo. De um
lado, sugere que as mudanças sociais em curso no mercado de postos entre 1920 e
1945 alteram efetivamente a dinâmica da vida cultural, como ilustram a
diversificação e a diferenciação dos atores sociais envolvidos, das atividades
a serem desempenhadas, das oportunidades profissionais criadas, da competição
instaurada, dos interesses em jogo e dos capitais sociais a serem mobilizados.
De outro lado, essas mesmas mudanças não parecem suficientemente fortes,
contudo, para romper com as bases sociais tradicionais em que a vida cultural
vinha se formando e continuava em medida significativa assentada naquele
contexto de crise e transição social.
Voltando à tradição sociológica brasileira, da qual, como se está sugerindo,
parte substantiva provém da discussão de Intelectuais e classes dirigentes no
Brasil (1920-45),deve-se observar, todavia, que, se como Florestan Fernandes,
também Miceli equaciona, nos termos do primeiro, a orientação dos intelectuais
da Primeira República descendentes das antigas famílias senhoriais ao "receio"
e "ressentimento" desse segmento social com relação às "perspectivas de
prejuízos" nas posições dominantes dentro das estruturas de poder, ao contrário
do sociólogo paulista, o autor não tem em vista a obra desses intelectuais como
foco analítico. Para Florestan, como vimos, aquela equação manifesta-se
justamente na ênfase que os intelectuais deram ao tema da organização nacional
em suas interpretações do Brasil, do que a obra de Alberto Torres permanece
como paradigma. Embora não se refira a Florestan Fernandes, ao demarcar sua
posição metodológica em torno da biografia dos intelectuais, e não das suas
produções, como fator explicativo das suas relações com as elites dirigentes,
Miceli afasta a possibilidade da perspectiva por ele proposta, argumentando que
"a única maneira de diferenciar os membros dessa elite intelectual e
burocrática é privilegiando o perfil de seus investimentos na atividade
intelectual em detrimento do conteúdo de suas obras, tal como aparece reificado
na história das ideias" (id., 2001a:210).
Por outro lado, a ênfase na biografia pode, à primeira vista, sugerir uma maior
aproximação de Miceli à perspectiva de Gilberto Freyre, tanto no que diz
respeito à valorização do cotidiano vivido como dimensão sociológica, quanto à
valorização de base documental pouco convencional, como diários íntimos,
biografias, correspondências, depoimentos pessoais orais e escritos entre
outros.Todavia, do mesmo modo, não se pode negligenciar que, se o sociólogo
pernambucano enfatiza recorrentemente no conjunto de sua obra, como a seu tempo
e a seu modo também o fará Miceli, a importância dessas fontes para o estudo da
sociabilidade e das relações familiares na reconstrução de uma "história
íntima" do brasileiro, a biografia, em Freyre, não é explicativa das relações
entre intelectuais e elites dirigentes, mas se inscreve no movimento mais amplo
de mudança social por acomodação que particularizaria a sociedade brasileira.
No que, aliás, Florestan Fernandes se aproxima de Gilberto Freyre, ainda que
sem especificar a biografia como fonte ou ainda menos como fator explicativo
como o fará décadas depois Miceli.
Por isso, argumenta Sergio Miceli, também "não parece convincente explicar
essas obras [refere-se especificamente aos romances das décadas de 1930-40]
invocando a tomada de consciência da situação 'nacional' por parte dos
escritores cujas obras de estreia eram,sem rebuço, uma transposição literária
de sua experiência pessoal" (id., 2001a:161). E, com relação às condições
sociais decisivas que favoreceram as "estratégias de reconversão" a que os
romancistas recorreram, "e que lhes permitiram se apropriar em chave simbólica
do mundo social em que se viram colocados à margem da classe dirigente"
(ibid.), assegura que "o elemento decisivo foi a diversidade de experiências de
'degradação' social que o declínio familiar veio propiciar, dando-lhes a
oportunidade de vasculhar as diferentes posições de que se constitui o espaço
da classe dirigente" (id., 2001a:163). Não por acaso, para "ilustrar as
condições que permitiram a alguns escritores se tornarem romancistas
profissionais", afirma novamente Miceli, "basta apresentar a biografia de Érico
Veríssimo" (ibid.:190).
SOCIOLOGIA E PORTRAITDE CLASSE
O recurso à biografia como estratégia analítica para especificar as relações
entre "posição social" e "estruturas de poder" é justificada por Sergio Miceli
nos seguintes termos: a reconstrução biográfica dos intelectuais permite, num
"retrato de corpo inteiro", flagrá-los nos "espaços de sociabilidade em que de
fato se moviam e de onde extraíam a matéria-prima de suas obras e tomadas de
posição" (Miceli, 2001a:411). Para qualificar a especificidade da contribuição
metodológica de Miceli para uma sociologia dos intelectuais recorremos, neste
ponto, além de Intelectuais e classes dirigentes, pontualmente também ao seu
memorial apresentado para o concurso de professor titular do Departamento de
Sociologia da Universidade de São Paulo em 1992, intitulado "A construção do
trabalho intelectual"; ao artigo "Biografia e cooptação (o estado atual das
fontes para a história social e política das elites no Brasil)", de 1980; e ao
livro A Elite Eclesiástica Brasileira, de 1988. Assim, no plano propriamente
metodológico, a recusa às perspectivas macro ganha, como contrapartida, a
ênfase na pesquisa empírica, ou o que Miceli chama de "análise circunstanciada
do objeto", em detrimento de "uma tradição arraigada de pensamento que prefere
a amplitude das generalizações" (id., 2001a:348). Daí a minuciosa reconstrução
biográfica com que, baseado em sistemática pesquisa empírica de fontes
primárias, o autor oferece ao leitor um retrato particularmente vivo dos
intelectuais.
A primeira observação que deve ser feita com relação a este método diz respeito
ao estatuto analítico da biografia, já que a reconstrução biográfica dos
intelectuais aparece recorrentemente tanto como "fonte" quanto como "método".
Embora algumas vezes reserve o termo "trajetória" para referir-se à
reconstrução biográfica operada para a análise das biografias como "fontes", em
geral Miceli mostra-se pouco preocupado em distinguir biografia como "fonte" de
biografia como "método". A ênfase na pesquisa empírica talvez explique
parcialmente por que, em várias passagens decisivas dos seus textos, Miceli
enfatize mais os materiais de análise do que o método efetivamente mobilizado
para interpretá-los. Mesmo quando se trata de discutir os chamados "métodos
prosopográficos" por ele empregados em suas pesquisas, afirma estar "menos
preocupado aqui em discutir a validade 'teórica' ou mesmo os limites
heurísticos desse tipo de abordagem; preferiria discutir alguns dos
determinantes sociais que regem a produção das fontes biográficas em que se
apoiam os estudos de cunho prosopográfico no país"(ibid.). E reforça aquela
impressão, argumentando que, no caso brasileiro, seria inevitável reconhecer
que a "mera existência desse imenso acervo documental se prende às
peculiaridades do processo de formação do poder no interior da classe
dirigente, quer dizer, ao fato de que os laços familiares e corporativos
desempenham um papel crucial nas estratégias de acumulação social dos diversos
grupos dirigentes" (ibid.).
É significativo, também, o fato de Miceli insistir na diferenciação, por outro
lado, entre "memória" e "biografia" como gêneros narrativos, e na tentativa de
relacioná-los às diferentes posições ocupadas por seus autores no "campo
intelectual". Embora já tivessem sido testados em Poder, sexo e letras na
República Velha, publicado em 1977, é em Intelectuais e Classes Dirigentes no
Brasil (1920-45)que o autor se utiliza de modo mais sistemático dos métodos
prosopográficos e das distinções entre memórias e biografias. Em ambos os
trabalhos, contudo, permanece a ênfase nesses materiais como "fontes" para a
pesquisa empírica. Assim, no primeiro deles, lê-se:
A seleção dos autores para este estudo foi determinada na prática
pela existência de memóriaspublicadas e, em medida menor, pelo
recurso à biografia. Os riscos em que tal procedimento poderia
incorrer ficam bastante minimizados quando se levam em conta as
propriedades sociais dos memorialistas e dos autores cujo processo de
consagração inclui a reverência biográfica. Na verdade esses tipos de
material fornecem dados e informações a respeito de categorias que
ocupam momentaneamente posições diferentes no campo. Enquanto as
biografias são dedicadas, via de regra, aos autores que os embates
posteriores acabaram convertendo em objetos de uma consagração
póstuma, o gênero memórias constitui uma estratégia a que recorrem no
mais das vezes intelectuais dominados. (id., 2001:17)
Igualmente no segundo trabalho, mantêm-se a diferenciação de gêneros e sua
correlação às posições no "campo de produção cultural", bem como a ênfase no
material como "fontes" empíricas da pesquisa e certa assimilação da metodologia
a elas:
No intuito de vincular o espaço das oportunidades que então se abriam
no âmbito das instituições culturais, no serviço público, no mercado
editorial etc. ao círculo das famílias da classe dirigente que, por
dispor de um mínimo de capital social, escolar e cultural, estavam em
condições de reivindicar tais oportunidades em favor de seus filhos,
utilizei, como fontes privilegiadas, as memórias, os diários íntimos,
os volumes de correspondência, as biografias etc., dos diferentes
tipos de intelectuais. Tais gêneros possibilitam apreender tanto as
relações objetivas enter as posições ocupadas pelas diversas
categorias de intelectuais no interior do campo de produção cultural,
e as determinações sociais, escolares e culturais a que estão
expostas, como as representações que os intelectuais mantêm com seu
trabalho e, por essa via, com as demandas que lhes fazem seus mecenas
e seu público. (id., 2001a:82-83)
Na sequência do trecho acima transcrito, advertindo mais uma vez sobre os
riscos da "construção de um modelo coletivo com base na análise das variações
de trajetórias individuais", Miceli remete tais riscos, a rigor de ordem
metodológica, justamente aos "limites impostos pelo material disponível" (id.,
2001a:83). O mesmo tratamento retorna nos demais textos selecionados. No artigo
"Biografia e cooptação", observando que o interesse de outros pesquisadores
pelas possibilidades de uso dessas fontes documentais quase sempre se faz
acompanhar pelo ceticismo quanto ao "rendimento explicativo desses materiais",
atribuiu essa reserva "à ausência de um cuidado metodológico trivial, que
consiste em tentar explicitar as condições de produção das fontes com que
lidamos, no intuito de indagar em que medida as características do material
coligido remetem a propriedades sociais pertinentes dos grupos sob exame" (id.,
2001a:349). E salienta que essa postura cautelosa com relação às fontes não
constituiria "apenas uma questão fria de método" (ibid.).
Já no memorial "A construção do trabalho intelectual", Miceli observa que, na
tentativa, durante a sua tese de doutoramento, de se "livrar dos esquemas
implícitos nas diversas correntes da história e da crítica literárias", como
uma "atitude de recusa à adoção das versões eruditas e 'humanistas' disponíveis
acerca da vida intelectual brasileira", teria acabado enveredando "por caminhos
de prospeção que não havia de início identificado", passando, então, a
"acreditar que a exploração de veios inéditos de material traria subsídios
instigantes a respeito dos intelectuais" (id., 2001c:406). Segundo observou
ainda, tratava-se "de uma expectativa um tanto no atacado, sem que eu tivesse
maior precisão quanto a como monitorar as pepitas e os pepinos porventura
dispersos no material a ser investigado" (ibid.).
Do ponto de vista de Sergio Miceli, portanto, mais importante do que a
distinção entre "método" e "objeto", é a discriminação das condições sociais a
partir e através das quais as "fontes" são construídas para expressar um tipo
de auto narrativa das elites dirigentes ' preocupação, aliás, também manifesta
em certo sentido por Bourdieu (2003). Em "Biografia e Cooptação" Miceli deixa a
questão clara, ao considerar que as fontes impressas e manuscritas "retêm a
marca dos interesses, dos valores e das estratégias dos grupos sociais a que se
referem", já que são o produto de uma "atividade de simbolização mediante a
qual esses grupos manifestam sua existência material, política e intelectual"
(Miceli, 2001b:349). Afinal, para o autor, antes de serem "processados e
transformados pelo pesquisador em provas do argumento explicativo, os materiais
aí contidos são parte integral do repertório de imagens com que o grupo veicula
e gere sua identidade" (id., 2001b:349-350). Em suma, retomando algumas dessas
questões na conclusão de A Elite Eclesiástica Brasileira (1988), Miceli se
afirma parte daqueles cientistas sociais "que ajuízam o mérito, o acerto ou a
relevância dos resultados alcançados em parte como decorrência do domínio que o
autor demonstra ao lidar com as fontes e materiais de que se serviu", e afirma
que tal procedimento "se revela indispensável àqueles estudiosos para os quais
as definições correntes sobre quaisquer objetos são parte do objeto que se
pretende desvendar, ou melhor, que não existe a rigor separação ou
descontinuidade entre objetos e os materiais que falam dele, que o expressam ou
que de alguma maneira lhe dão alguma forma de existência" (id., 1988:154).
A prioridade metodológica dada à biografia como fator explicativo sobre os
processos sociais está, assim, relacionada à recusa das perspectivas macro.
Recusa que, por sua vez, deve ser entendida também em função da contraposição
que Miceli procura fazer à abordagem materialista então dominante. Como
esclarece na segunda nota de pé de página de Intelectuais e Classes Dirigentes
no Brasil (1920-45): "Embora fosse viável aprontar uma definição prévia do
objeto segundo os cânones teóricos da análise materialista, estou convencido de
que proezas desse gênero acabam descolando os instrumentos de análise dos
materiais sobre os quais deverá investir" (id., 2001a:247). Afinal, argumenta,
"a própria definição do que seja o fazer intelectual numa determinada
conjuntura constitui, por si só, um dos móveis centrais que impulsionam a
concorrência entre os diversos tipos de produtores em luta pela monopolização
da autoridade de legislar em matéria cultural" (ibid.). Além disso, a
possibilidade de "solucionar de antemão esse problema" segundo os cânones da
análise materialista implicaria, segundo o autor, "lidar apenas com as
representações que os intelectuais dominantes oferecem de si mesmos, logrando o
tento de reduzir as relações que mantêm com seus patrocinadores e com seu
público aos modelos de perfeição ética, estética e política, de que se valem no
trabalho de administrar sua imagem oficial" (id., 2001a:247).
Note-se, no entanto, que a tentativa de contraposição à abordagem materialista
adquire sentido justamente na medida em que se reconhece que Sergio Miceli está
propondo a sua sociologia dos intelectuais como uma "sociologia classista dos
intelectuais", ainda que a categoria de "classe social" não seja tomada em
versão materialista e que seja dada prioridade metodológica à biografia sobre o
processo social. É do confronto entre os "componentes classistas e situação
prevalecente no âmbito dos mercados que regulam a distribuição dos contingentes
de classe relegados à atividade intelectual", argumenta Miceli, "que se
configura o argumento central da tese" (id., 2001a:242). É nesse sentido,
portanto, que a ideia de "autointeresse" dos intelectuais como padrão
motivacional do seu comportamento social se inscreve no horizonte classista.
Segundo aquilata Miceli sobre os resultados de Intelectuais e Classes
Dirigentes, a "análise dos intelectuais permitiu revelar a imbricação entre
determinações de classe que impelem à carreira intelectual e as demandas
político-ideológicas que possibilitam a absorção dos efetivos ameaçados de
serem despejados da classe dirigente" (id., 2001a:243). Da mesma maneira, é
apenas num horizonte teórico classista que faz sentido equacionar as relações
dos intelectuais com o Estado em termos de "cooptação", relação que teria
impregnado até "os padrões de concorrência estimulados pelos processos de
urbanização e industrialização" (id., 2001a:244).
É justamente tendo em vista esse caráter classista da sociologia dos
intelectuais de Sergio Miceli, que Daniel Pécaut considerou ambígua a sua noção
de "interesse" como explicativa das estratégias dos intelectuais dos anos de
1920-1940 em suas recorrentes relações com o Estado (Pécaut, 1990). Afinal
Pécaut vê nessas relações não a promoção dos interesses próprios dos
intelectuais, mas a expressão da sua "conversão" à ação política (Pécaut, 1990:
21), deixando clara inclusive sua identificação com o modo pelo qual esses
atores sociais interpretaram suas próprias vicissitudes nos termos da "missão"
de que se sentiam investidos. Respondendo à crítica, Miceli afirma que Pécaut
procurou minimizar o "componente classista" na determinação do perfil dos
intelectuais em favor do "privilegiamento das motivações políticas de sua
presença na sociedade" (Miceli, 1999:114-115). E identifica como postulado
central da análise do sociólogo francês o mecanismo de libertação dos
intelectuais de
quaisquer constrições sociais não conversíveis de pronto em pedágio
político. A despeito dos seus laços com as elites, os intelectuais
brasileiros se enquadrariam, como que por encanto, nos requisitos da
definição de Mannheim de uma "camada social sem vínculos": livres da
canga oligárquica do passado, de seu enraizamento clientelístico e
dependente na estrutura social e, por esses motivos, aptos a formular
e a assumir um 'projeto' de comando do Estado (id., 1999:115-116).
Sem necessariamente corroborar o argumento de Pécaut, vale observar que o
sentido da sugestão de Mannheim sobre o papel dos intelectuais ganha
inteligibilidade na medida em que levamos em conta o caráter inacabado da
revolução burguesa em certas sociedades. E, consequentemente, a fragilidade das
classes sociais nestas circunstâncias. Como parece ser o caso do Brasil, como
demonstrou Florestan Fernandes (1975).
É na construção de um campo problemático sobre o espaço de posições
diferenciadas no interior das classes dirigentes brasileiras, e das próprias
experiências cotidianas de classe abertas à análise por meio do rastreamento e
exame das biografias, como forma de problematizar a compreensão das próprias
relações de classe e poder na sociedade, que as diferentes pesquisas de Sergio
Miceli parecem se encontrar e ganhar unidade. Campo problemático sem dúvida
devedor das proposições de Bourdieu (1984), e desenvolvido por Miceli a partir
e através de pesquisas sistemáticas na forma de estudos de casos empíricos
sobre diferentes frações da elite brasileira ' os intelectuais, os políticos, o
episcopado, os artistas plásticos ' que lhe permite demonstrar de modo
integrado a concorrência, as alianças e dissensões entre as forças sociais que
se organizam no interior das classes dirigentes. Noutros termos, retomando
novamente sugestões feitas em A Elite Eclesiástica Brasileira, estudos de caso
que lhe permitem demonstrar a "margem de manobra relativamente ampla" de que as
diferentes frações de classe investigadas dispõem "para cobrar e fazer valer o
quinhão que entendem ser o seu em termos institucionais e materiais e que
muitas vezes acaba se revelando um óbice de proporções consideráveis a
quaisquer políticas redistributivas que coloquem em risco seu interesse e
privilégios" (id., 1988:158).
Em conclusão, a prioridade metodológica dada à biografia no quadro de uma
sociologia classista dos intelectuais permitiria identificar e qualificar a
heterogeneidade viva e contraditória sob a aparente homogeneidade de categorias
macro como "classe social". "Enquanto prevalecer a tendência de enxergar as
relações de classe como o confronto entre entidades coletivas movidas por um
destino inescapável, cuida-se pouco" ' argumenta Miceli ' "da heterogeneidade
produzida por padrões de diferenciação sutilmente inculcados pelo sistema
escolar, pela indústria cultural e pelas demais instituições que se incubem do
trabalho cotidiano de veicular as linguagens que expressam as diferenças
sociais sob a capa de diferenças biológicas, escolares, culturais etc." (id.,
2001a:245). E se insiste nesse ponto, diz Miceli, é "por acreditar que o
trabalho de investigação em Ciências Sociais só tem sentido quando se dispõe a
estourar os princípios de expropriação material e simbólica que permeiam as
relações entre dominantes e dominados e cujos artifícios são fabricados pelas
instituições que dependem dos produtos do trabalho de nós mesmos, intelectuais"
(ibid.). Mas se as instituições dependem dos produtos do trabalho dos
intelectuais, como a citação anterior acaba de afirmar, a não incorporação da
dimensão das ideias expressas na vida social à análise sociológica ou a sua
redução à biografia constitui, exatamente, o principal limite heurístico da
proposta de Sergio Miceli.
E O PRODUTO DO TRABALHO INTELECTUAL?
Fazendo o balanço dos estudos sobre intelectuais brasileiros dos últimos vinte
anos, Sergio Miceli sugere que o confronto entre os trabalhos "que mais
contribuíram para moldar o espaço de debates e explicações" permitiria
constatar duas tendências metodológicas principais: ora uma ênfase na
"morfologia" e "composição interna do campo intelectual, suas instituições e
organizações, o peso relativo da categoria dos intelectuais no interior dos
grupos dirigentes", ora a ênfase nas "modalidades de sua contribuição para o
trabalho cultural e político" (Miceli, 1999:109). Nesse universo, seria
possível distinguir, segundo o autor, três "modelos" orientadores das
pesquisas: "o argumento sociológico com tinturas culturalistas, de minha
autoria", "o argumento doutrinário-politicista, formulado pelo sociólogo
francês e latino americanista Daniel Pécaut" e "o argumento organizacional e
institucionalista, concebido pelo sociólogo brasileiro Simon Schwartzman" (id.,
1999:110)5.
O balanço privilegia, contudo, as abordagens de história social dos
intelectuais que, em geral, não conferem papel relevante ao produto do trabalho
simbólico desses atores sociais, as ideias, e, em alguns casos, ao sentido das
ideias com relação aos processos sociais e políticos mais amplos. Afinal, como
Miceli comenta em relação ao sentido dos seus próprios trabalhos, e do "modelo"
criado a partir deles, tratar-se-ia de tentar contrapor-se, de um lado, à
abordagem da "sociologia das ideias ou do pensamento, nos termos da tradição
inaugurada por Mannheim", e, de outro, à perspectiva que busca "definir as
modalidades de contribuição dos intelectuais ao trabalho político numa
sociedade a braços com um tumultuado e descompassado processo de transformação"
(id., 1999:111). O autor não deixa de apontar motivos para descartar as
perspectivas analíticas que contemplam a investigação sociológica das ideias. O
principal deles refere-se ao fato de considerar que as obras dos intelectuais
e, num sentido mais amplo, as ideias, são resultado de uma trajetória ou
itinerário biográfico singular, e não de tradições intelectuais ou de
estruturas sociais. Assim, afirma que as obras dos intelectuais selecionados
para a análise em Intelectuais eclassesdirigentes, mesmo aquelas de ficção,
seriam "sem rebuço, uma transposição literária de sua experiência pessoal"
(id., 2001a:161)6.
Por isso, para diferenciar os membros da elite intelectual e burocrática seria
necessário definir o "perfil de seus investimentos na atividade intelectual" em
detrimento do "conteúdo de suas obras, tal como aparece reificado na história
das ideias" (id., 2001a:210). Mesmo que alguns tenham sujeitado diretamente
seus escritos "às exigências postas pelos encargos da convocação política que
os trouxe ao convívio com os núcleos executivos" e outros tenham procurado
resguardar ao menos uma parte da sua produção intelectual das "injunções
partidárias e das demandas que lhes faziam certas facções com que colaboravam",
todos eles, segundo Miceli, "acabaram se tornando modelos de excelência social
da classe dirigente da época à medida que suas obras se converteram em
paradigmas do pensamento político do país" (ibid.). Nesse sentido, deixa de
reconhecer a dimensão de conflito inscrita na formulação das ideias, como se
todas defendessem interesses gerais da sociedade.
Pode-se fazer a esse respeito, três ponderações de ordem teórico-metodológica.
A primeira, como já observamos, é que parecendo não distinguir "método" e
"objeto", Miceli tende a confundir, na tentativa de firmar a especificidade da
sua proposição metodológica, o interesse por textos, ideias e seus efeitos
sociais e políticos com a aceitação das veleidades dos intelectuais a respeito
do seu papel na sociedade. O problema, naturalmente, não é idiossincrático, mas
de método. Pois, se os estereótipos da representação social dos intelectuais
podem levar a simplificações da complexidade interna das suas obras, não é
preciso concordar com a premissa da autonomia do texto para reconhecer que as
ideias possuem um fundamento que ultrapassa a experiência ou mesmo o domínio
conceitual de indivíduo.
A segunda ponderação é a de que recusar a ideia de autonomia da obra não
implica necessariamente aceitar a tese do condicionamento da sociedade sobre as
ideias como algo já dado de antemão, não importando aqui se os condicionantes
são entendidos em termos econômicos, políticos, institucionais ou biográficos.
Por isso também a visão disjuntiva entre as abordagens chamadastextualistas e
contextualistas que se apresentam, em grande medida, como concorrentes no
debate contemporâneo (Pontes, 1997), talvez possa ser relativizada. Tomadas de
modo disjuntivo, ambas as posturas podem acarretar ordenações que, ao lado de
inegáveis méritos, não deixam também de apresentar certos limites simplistas.
Assim, mesmo reconhecendo as diferenças entre aquelas perspectivas, é possível
sugerir que, no lugar da escolha exclusiva entretexto e contexto, a sociologia
dos intelectuais também exige que se reconheça e se qualifique a tensão
existente entre estes termos, na medida em que ela é constitutiva da própria
matéria que cumpre à análise ordenar.
A terceira ponderação diz respeito ao fato de que se a ideia de "cooptação",
que como discutimos anteriormente adquire sentido no horizonte de uma
sociologia classista, pode ser explicativa do intercâmbio enter as forças
sociais que se organizam nas estruturas de poder e os intelectuais, quando
estes são tomados pelos seus laços familiares, pessoais ou sociais, o mesmo não
se verifica quando se tem em vista os seus escritos. Não porque estes sejam
autônomos, mas porque, como argumentamos anteriormente, eles ultrapassam a
estrita circunscrição social. O problema foi assinalado por Antonio Candido que
insistiu tanto no equívoco de considerar o trabalho simbólico dos intelectuais
como resultado direto ou transposição de suas experiências pessoais, quanto na
necessidade de se distinguir analiticamente a situação de dependência do
intelectual que "serviu" daquele que "se vendeu" ao poder (Candido, 2001:74).
Nosso ponto, em todo caso, é que as ideias não operam apenas no sentido
cognitivo, mas também no normativo, e são passíveis de tradução em ações pelos
indivíduos e grupos na luta política, independente mesmo da sua consistência
lógica interna, das intenções manifestas ou latentes dos intelectuais, mesmo
para além do seu contexto original.
A recusa da sociologia dos intelectuais de Sergio Miceli em operar com as
ideias e com os possíveis sentidos que estas assumem no processo social, dadas
as suas interações e correlações com outras forças sociais, parece repousar, de
fato, em duas premissas gerais. De um lado, que o "contexto" fornece '
diretamente e apenas nesse sentido ' o substrato do "texto"; de outro, que são
as próprias intenções ' ou como prefere "interesses" ' do autor subjacentes ao
"texto" que revelam as convenções sociais de que lança mão em meio ao trabalho
de dominação simbólica. É claro que se trata de problema controverso, não
apenas porque todo discurso ou narrativa sobre intelectuais é, num certo plano,
normativo, como também porque as várias maneiras de se conceber a importância
ou não dos textos ' clássicos ou não ' nas Ciências Sociais correspondem, em
geral, a perspectivas determinadas sobre o próprio caráter da vida social. E a
negação da relevância da "interpretação textual para as Ciências Sociais", como
naquelas convenções acima referidas, parece mesmo repousar num tipo também
geral de "confiança empírica na transparência do mundo social" (Alexander,
1999:77).
Como qualquer pesquisa sobre intelectuais tanto assume alguma imagem geral da
sociedade, quanto seus próprios resultados lhes acrescentam ou subtraem
plausibilidade, pode-se dizer que a crença, em parte generalizada na Sociologia
contemporânea, de que ideias são pouco relevantes nos processos de mudança
social, a despeito de uma dimensão potencialmente crítica, já que voltada
contra a pretensão das ideias de governar soberanamente o mundo, acaba por
obscurecer seu papel como forças sociais reflexivas. Da nossa perspectiva, a
sociedade não se realiza desacompanhada das interpretações de que é objeto e,
mais do que isso, as interpretações proporcionam significado à vida social,
pesadas inclusive suas veleidades, possibilidades e limites efetivos. Por isso
faz-se necessário voltar, principalmente no caso brasileiro, às (não por acaso
assim chamadas) "interpretações do Brasil", uma vez que elas também operam na
orientação das condutas dos atores sociais, na organização da vida social, nos
processos de mudança e nas relações de poder que isso sempre implica.
Daí que o desafio analítico central para uma sociologia dos intelectuais seja,
a nosso ver, nada menos do que completar o movimento característico da
Sociologia do Conhecimento7. Esta definiu a tarefa do analista das ideias,
valores, formas, representações, enfim, do intangível, como sendo a de
esclarecer os processos de sua constituição social e as relações mais ou menos
condicionadas que mantêm com os grupos sociais e as sociedades que as
engendram. Mas as tentativas de desmistificação através da exposição da matriz
dos seus interesses não se mostraram capazes de estancar as veleidades de que
os intelectuais são capazes de nutrirem sobre si próprios, dada a tenacidade
com que a própria sociedade brasileira, tão profundamente marcada que está por
um processo de formação autocrático, tem instigado a participação dessas suas
minorias ' o que, aliás, pode ser indicativo da continuidade das polêmicas em
torno do próprio Intelectuais e classes dirigentes no Brasil8.
Por isso, agora, com base em algumas das conquistas da própria Sociologia do
Conhecimento, é preciso desfazer-nos de princípios formais prévia e fixamente
estabelecidos, como "idealismo" ou "materialismo", "representações" ou
"práticas", "texto" ou "contexto". Em seu lugar, é preciso buscar tipos
especiais de correspondência que abram ao pesquisador a possibilidade de
investigar e de qualificar as múltiplas conexões de sentido que as ideias podem
manifestar na sociedade, dependendo das circunstâncias históricas e da força
social que assumem em relação a diferentes fatores, materiais e imateriais. Não
se trata de assimilar, ou reduzir, relações sociais às suas formas expressivas,
mas antes de perseguir a comunicação reflexiva existente entre elas a partir
também da produção dos intelectuais. Esta, como o trabalho simbólico de outros
grupos sociais, esconde e revela nada mais e nada menos do que aspectos
cruciais das suas sociedades, e são sempre passíveis de serem sociologicamente
qualificados e compreendidos. Tarefa tão mais urgente na medida em que
representa condição para, parafraseando Sergio Miceli (2001a:79), "esclarecer
os dilemas que hoje enfrentamos como herdeiros de uma tradição que pesa tanto
mais enquanto não nos dispusermos a encará-la de frente e a refrear a dosagem
de clichês na apreciação de seu legado".
NOTAS
1. Segundo sugere o próprio Miceli: "fui me convencendo de que talvez a maior
resistência ao argumento que elaborara a respeito dos intelectuais brasileiros
tinha a ver com seu retrato de corpo inteiro, dissecados nas repercussões
sociais e simbólicas de sua sexualidade, revirados em suas mazelas e
expedientes, flagrados nos espaços de sociabilidade em que de fato se moviam e
de onde extraíam a matéria-prima de suas obras e tomadas de posição" (2001c:
411).
2. Para uma discussão sobre as condições sociais da circulação internacional
das ideias e as possibilidades e limites da "importação e exportação
intelectual", ver o próprio Bourdieu (2002a).
3. Retomamos de Bastos (2006) as formulações sobre Gilberto Freyre.
4. O livro anunciado é Jazigos e Covas Rasas, queseconstituiria no 4º volume de
Introduçãoao Estudo da Sociedade Patriarcal no Brasil. O texto não chegou a ser
terminado, conhecendo-se somente fragmentos do mesmo.
5. Miceli comenta ainda outros livros: Guardiães da Razão: Modernistas Mineiros
(1994), de Helena Bomeny; História e Historiadores: A Política Cultural do
Estado Novo(1996), de Angela de Castro Gomes; Projeto e Missão: O Movimento
Folclórico Brasileiro(1997), de Luís Rodolfo Vilhena; e Destinos Mistos: Os
Críticos do Grupo Clima em São Paulo(1998), de Heloísa Pontes.
6. Como sugere, por exemplo, com relação aos romances e romancistas da década
de 1930: "Pertencendo quase sempre a famílias de proprietários rurais que se
arruinaram, os romancistas e seus heróis não têm outra possibilidade senão a de
sobreviver à custa de empregos no serviço público, na imprensa e nos demais
ofícios que se 'prestam às divagações do espírito'. Dessa posição em falso
entre dois mundos, os heróis desses romances extraem a matéria-prima de que se
nutrem tanto suas veleidades literárias, quase sempre exteriorizadas seja sob a
forma de diários mantidos em segredo, seja sob a modalidade de escritos
encomendados por jornais e políticos venais" (id., 2001a:160).
7. Para um aprofundamento da questão, ver Botelho (2005).
8. São exemplos recentes dessa continuidade as numerosas matérias de que foi
objeto na mídia impressa o volume Intelectuais à brasileira(2001) sendo o livro
em questão reeditado junto a outros trabalhos de Miceli sobre o tema, recepção
pouco comum para um livro acadêmico, mas talvez favorecida também pelo fato de
que naquele momento a Presidência da República era ocupada justamente por um
intelectual. E no caso de Fernando Henrique Cardoso, como observou Afrânio
Garcia Jr., "a condição de sociólogo foi apresentada durante toda a campanha
eleitoral como prova de sua capacidade de afrontar o desafio da mundialização
dos mercados e ao mesmo tempo combater a miséria crescente de parte
considerável da população do país" (Garcia Jr., 2004:285). E, mais ainda, a
qualidade de sociólogo "foi relembrada cada vez que quis pôr em relevo sua
condição de intelectual, buscando se diferenciar de outros profissionais e
especialistas da política cuja única preocupação seria a preservação de seus
mandatos eletivos" (id., 2004:285-286). Tudo teria se passado, em suma, "como
se, para ser reconhecido como homem de Estado, fosse necessário mobilizar a
crença na ficção de ser um perito em todos os debates sobre o futuro da nação e
seu peso na cena internacional. Um livro com uma entrevista sua, publicado no
exercício do mandato, não se intitula O Presidente Segundo o Sociólogo(1998),
traindo claramente a pretensão de acumular os benefícios da legitimidade
intelectual e os da legitimidade política?" (id., 2004:286).