Desigualdade de oportunidades e resultados educacionais no Brasil
INTRODUÇÃO
O efeito dos recursos dos pais nas chances de sucesso e progressão educacional
dos filhos - a desigualdade de oportunidades educacionais (DOE) - desempenha um
papel fundamental na reprodução intergeracional das desigualdades nas
sociedades modernas. A educação é um dos principais meios de acesso a posições
ocupacionais e de renda hierarquicamente superiores, logo a diminuição das
desigualdades de acesso à educação seria uma das principais maneiras de
combater a transmissão de desigualdades ao longo das gerações. Além dos
recursos familiares, as próprias características dos sistemas educacionais
podem influenciar as chances de progressão dos alunos, independentemente de
suas origens sociais. Quanto maior for a capacidade das escolas de oferecer
ensino de qualidade capaz de superar as desvantagens de origem social dos
alunos, maiores serão as chances do sistema diminuir as desigualdades de
oportunidades educacionais e, consequentemente, promover a mobilidade social
intergeracional. Infelizmente, muitos sistemas educacionais são altamente
estratificados e acabam por contribuir para aumentar, ao invés de diminuir, as
desigualdades de oportunidades. O primeiro objetivo deste artigo é analisar os
papeis que a estrutura do sistema educacional brasileiro e os recursos
familiares desempenham na reprodução e superação das desigualdades de
oportunidades e resultados educacionais.
O segundo objetivo do artigo é verificar qual é a relação entre desigualdade de
oportunidades educacionais (DOE) e desigualdade de resultados educacionais
(DRE). O primeiro tipo (DOE) é mensurado a partir da análise das chances de
acesso a cada nível do sistema educacional, ou seja, mensura as chances
desiguais de sucesso em cada transição educacional. Por exemplo, desigualdades
nas chances de completar o ensino fundamental, depois o médio e, depois, entrar
na universidade. O sistema educacional é composto por uma série de transições
sucessivas e a desigualdade, para completar cada uma destas transições, é a
forma que utilizamos para medir a DOE. Mas, além de estudar a DOE, também é
importante analisar, por um lado, a desigualdade nos resultados educacionais
(DRE), que são os anos de educação completos por cada indivíduo depois que
fazem ou não as diversas transições educacionais, e, por outro lado, qual o
efeito de cada transição educacional nos resultados educacionais. Nem todas as
transições influenciam igualmente os anos de educação completos, algumas são
mais cruciais do que outras e a importância de cada uma também pode variar ao
longo do tempo.
Estudos anteriores sobre desigualdade de oportunidades educacionais no Brasil
focalizaram os efeitos dos recursos familiares e características dos indivíduos
nas chances de progressão no sistema educacional. A maioria dos estudos mostrou
que há fortes desigualdades de classe de origem, de raça e de região de
nascimento nas chances de progredir no sistema educacional. Além disso,
mostraram que as desigualdades não mudam ao longo do tempo para a maioria das
características (Fernandes, 2001; Hasenbalg e Silva, 1999; Osório e Soares,
2005; Silva e Souza, 1986). Todos os estudos enfatizam que a desigualdade
racial existe, mesmo quando a desigualdade de classe é levada em conta
(Fernandes, 2001; Hasenbalg e Silva, 1999; Osório e Soares, 2005; Silva, 2003;
Silva e Souza, 1986; Ribeiro, C., 2009a, 2006). Embora estes resultados sejam
robustos, não há como negar que outras características não mensuradas poderiam
estar influenciando as principais conclusões. Por exemplo, se houvesse uma
correlação muito forte entre tipo de escola frequentada antes de cada transição
e raça (com a maioria dos brancos frequentando escolas privadas e os não
brancos, escolas públicas) e não incluíssemos a variável para tipo de escola no
modelo, então encontraríamos um efeito de raça que, na realidade, deveria ser
atribuído ao tipo de escola. De fato, pode haver uma série de outras
características, tais como motivação para o estudo e habilidade cognitiva, que
não foram mensuradas e que, em tese, poderiam modificar completamente os
resultados encontrados. Outra limitação é que nenhum estudo sobre o Brasil
indica quais são as transições educacionais mais relevantes para descrever a
desigualdade nos resultados educacionais. Em outras palavras, os estudos
existentes focalizam a desigualdade nas chances de completar as transições
educacionais, mas não mostram quais são as transições que mais influenciam o
resultado final do processo educacional (os anos completos de educação).
Lançando mão de um banco de dados novo, com uma série de variáveis importantes,
este artigo avança em relação aos estudos anteriores. Para tanto, adoto uma
dupla estratégia para tratar do problema das variáveis não incluídas nas
análises e procuro integrar o estudo das desigualdades de oportunidades e
resultados educacionais. A primeira estratégia é aumentar o número de variáveis
independentes para estudar as desigualdades de oportunidades e resultados
educacionais. Além das variáveis usualmente estudadas (classe de origem ou
status ocupacional dos pais, educação dos pais, estrutura familiar, região,
raça e gênero), incluo outras, mensurando a riqueza da família (em oposição à
renda ou status ocupacional) e o tipo de escola que os alunos frequentaram
antes de cada transição educacional. A segunda estratégia é fazer uma análise
de sensibilidade, ou simulação, para verificar de que maneira os resultados
encontrados se modificariam caso realmente houvesse uma variável não mensurada
com efeitos relevantes.
A inclusão de mais variáveis para explicar as desigualdades de oportunidades e
resultados educacionais, bem como as simulações para efeitos não observados,
não são exercício puramente empíricos. Na verdade, estas estratégias estão
diretamente ligadas a preocupações teóricas. Incluo dois tipos de variáveis que
não foram anteriormente estudadas no Brasil: riqueza dos pais e tipo de escola.
Por riqueza me refiro a ativos financeiros e bens que são um recurso econômico
que vai além da renda ou do status ocupacional, e que pode ser usada para
financiar direta ou indiretamente o investimento dos pais na educação dos
filhos. Pais que possuem algum estoque de riqueza, mesmo que pequeno, têm
chances significativamente maiores de investir na educação de seus filhos. A
teoria do "capital humano" enfatiza bastante o estudo do investimento em
educação como uma estratégia familiar importante para garantir o bem estar
futuro dos filhos (Becker, 1981; Flug, Spilimbergo e Wachtenheim, 1998). Além
disso, uma série de estudos sociológicos recentes vem mostrando a enorme
relevância da riqueza para a mobilidade social e as chances de vida dos
indivíduos (Spilerman 2000). Em países como o Brasil, onde há pouco crédito e
política social pouco desenvolvida em termos de salário desemprego etc.
(Draibe, 1995; Arretche 2002), o efeito da riqueza, mesmo que em poucas
quantidades, tende a ser altamente relevante (Flug, Spilimbergo e Wachtenheim,
1998).
A outra variável que incluo nas análises é o tipo de escola: pública, federal
ou privada. Vários estudos sobre desempenho acadêmico nas escolas brasileiras
indicam que escolas públicas de ensinos fundamental e médio têm alunos com
desempenho médio significativamente menor do que escolas privadas ou públicas
federais (Albanez, Ferreira e Franco, 2002; Alves, 2007; Barbosa, 2009; Soares,
2004). Estas diferenças indicam que o sistema educacional brasileiro, apesar de
seguir um currículo unificado, é bastante estratificado. Segundo a teoria da
"desigualdade efetivamente mantida" (Lucas, 2001), a estratificação dentro dos
sistemas educacionais é um dos principais meios por intermédio dos quais a
desigualdade educacional e de classe é reproduzida. No Brasil a situação parece
particularmente grave na medida em que as melhores universidades são públicas e
não cobram mensalidades, mas as escolas fundamentais e de ensino médias
privadas são de melhor qualidade. Este sistema favorece a desigualdade pelo seu
próprio desenho. Portanto, torna-se fundamental estudar a desigualdade de
oportunidades entre indivíduos que estudaram em escolas públicas, federais e
privadas.
De fato, os resultados das análises que apresento a seguir revelam que a
riqueza dos pais e o tipo de escola frequentada antes de cada transição são
características que contribuem significativamente para explicar as
desigualdades de oportunidades e resultados educacionais, ou seja, são
características que se somam às anteriormente estudadas para explicar as
desigualdades. Apesar de estes e outros efeitos terem se mostrado muito
importantes, também implemento análises de sensibilidade para verificar se os
resultados encontrados se modificariam caso houvesse variáveis relevantes não
mensuradas. É perfeitamente plausível que variáveis não mensuradas, tais como
motivação para os estudos, ambições educacionais e/ou habilidades cognitivas,
estejam influenciando as chances de progressão no sistema educacional. Análises
de sensibilidade ou simulações incluindo efeitos plausíveis de variáveis não
observadas são, portanto, procedimentos altamente relevantes para verificarmos
o quão robustos são os resultados encontrados sobre as desigualdades de
oportunidades e resultados.
O artigo esta dividido em sete partes, incluindo esta introdução. Na parte a
seguir apresento o desenvolvimento e as características do sistema educacional
brasileiro, bem como as principais reformas educacionais (em 1961, 1971 e 1982)
que podem ter influenciado as tendências de acesso ao sistema escolar ao longo
das coortes de idade estudadas. Na parte três apresento, em detalhe, os dados
utilizados e as variáveis, e, mais brevemente, os métodos de análise. Na quarta
parte descrevo os principais resultados encontrados sobre as desigualdades de
oportunidades educacionais, e, na parte seguinte, as análises de sensibilidade
para verificar se os resultados são robustos à quebra de alguns pressupostos
estatísticos dos modelos utilizados. É só na sexta parte do artigo que mostro
como as transições educacionais estão relacionadas às desigualdades de
resultados educacionais. No final faço, como de costume, um resumo dos
resultados para concluir.
O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO
Neste artigo analiso as chances de progressão no sistema educacional de pessoas
que nasceram entre 1944 e 1983. Considerando que tipicamente as pessoas começam
sua escolarização com 6 ou 7 anos de idade, e podem chegar ao fim, se
frequentarem a universidade, em torno de 18 a 22 anos, irei analisar a carreira
educacional de pessoas que podem ter frequentado o sistema entre 1950 e 2005.
Neste longo período, três grandes reformas educacionais ocorreram no sistema e
também houve algumas mudanças importantes de oferta e demanda de vagas. As
principais reformas na educação fundamental foram as de 1961, 1971, e a partir
de 1982. As principais mudanças na estrutura de oferta e demanda de vagas foram
uma enorme expansão do ensino fundamental público, e uma grande expansão no
número de vagas no ensino médio público (Ribeiro, C., 2009a, Birdsal e Sabot,
1996, Ribeiro, 1983). Além disso, o crescimento do ensino médio não foi
acompanhado de expansão do ensino superior a partir do início da década de 80,
o que criou uma espécie de gargalo no ingresso à universidade.
Embora as reformas tenham modificado os nomes dos ciclos do sistema e a
obrigatoriedade de escolarização, certa estrutura básica permaneceu inalterada
(Klein, 2006; Mainardes, 2001). Ao longo de todo o período o sistema pode ser
dividido em quatro séries iniciais de ensino fundamental, quatro séries finais
de ensino fundamental, três séries de ensino médio (ou quatro, no caso do
ensino técnico), e quatro ou cinco anos de ensino universitário. As três
principais reformas (1961, 1971 e 1982) foram políticas de expansão do ensino
fundamental, e também do médio. Em 1961 houve expansão do número de vagas nos
primeiro e segundo ciclos do ensino fundamental. Havia, também, uma série
intermediária, opcional, entre os dois ciclos do ensino fundamental que se
chamava "admissão", ou seja, era uma série preparatória para entrar no segundo
ciclo do fundamental. A principal divisão era, portanto, entre o primeiro ciclo
do ensino fundamental, que era compulsório por lei, e o resto da educação
fundamental e média. Já havia, no entanto, uma política de expansão do ensino
médio visando preparar a população para o mercado de trabalho. A partir de
1971, as oito séries do fundamental passaram a ser compulsórias por lei, embora
o acesso ao sistema ainda fosse bastante reduzido. Em 1982, os diversos
governadores de oposição ao governo militar que foram eleitos nas primeiras
eleições gerais para cargos executivos desde o início da ditadura, em 1964,
começaram a investir na construção de escolas de ensino fundamental, o que
contribuiu ainda mais para a expansão do acesso à escola básica (Franco, 2007).
Depois do ensino fundamental há o ensino médio, que, antes de 1971, era
especializado, dividindo os alunos em duas formações paralelas, uma concentrada
em matérias científicas e outra em matérias humanísticas. Depois de 1971 o
ensino médio passou a se chamar segundo grau, e não fez mais a divisão entre
áreas de conhecimento. Independentemente das mudanças, o ensino médio sempre
foi composto por três séries. Os poucos cursos técnicos de nível médio são
obrigados a dar formação geral, além da técnica, o que permite que os alunos
concorram para entrar na universidade. A grande expansão do ensino médio foi
promovida, principalmente, pelo governo que a partir de 1961 criou muitas
escolas públicas, enquanto o número de escolas privadas permaneceu praticamente
o mesmo ao longo de todo o período relevante para este artigo.
Embora haja um currículo único para as escolas de ensinos fundamental e médio,
o sistema permite a coexistência de escolas privadas e públicas (municipais,
estaduais, ou federais), o que significa, na realidade, uma estratificação na
qualidade do ensino. De um modo geral, as escolas privadas de ensino
fundamental e médio são de melhor qualidade do que as públicas, com exceção das
públicas federais, que são de qualidade comparável às privadas. Em
contrapartida, as universidades públicas são consideradas de melhor qualidade e
inteiramente gratuitas para aqueles que conseguem entrar. Como a entrada na
universidade é feita a partir de exames de conhecimento, os assim chamados
vestibulares, os alunos que passaram pelas melhores escolas de ensinos
fundamental e médio, geralmente instituições privadas, têm mais chances de
entrar nas melhores universidades, geralmente públicas. Este sistema com melhor
qualidade no ensino privado de níveis fundamental e médio, e no ensino
universitário público, promove, pelo seu próprio desenho, a desigualdade no
acesso à universidade. Ou seja, famílias que tenham recursos para investir em
educação preuniversitária privada podem facilitar a entrada de seus filhos em
universidades de melhor qualidade públicas e inteiramente gratuitas.
Apesar de todas as reformas descritas e da divisão entre os setores público e
privado, é possível formular um modelo simplificado do sistema educacional
brasileiro em que há cinco transições fundamentais: completar as quatro séries
iniciais do ensino fundamental (T1); completar as oito séries do fundamental,
tendo completado as quatro iniciais (T2); completar o ensino médio tendo
completado os oito anos do fundamental (T3); entrar na universidade tendo
completado o ensino médio (T4); e completar a universidade (T5). Repare que
estas são transições educacionais condicionais, ou seja, cada transição mais
elevada é condicional ao sucesso nas transições anteriores. Por exemplo, só
pode completar o ensino fundamental quem completou as quatro séries iniciais, e
assim por diante. Para dar conta da divisão entre setores, incluiremos nos
modelos estimados uma variável independente para o setor (público, público
federal ou privado) em que o aluno estudou antes de fazer cada transição.
Ao longo dos anos estas transições consecutivas foram incluindo cada vez mais
pessoas, ou seja, houve uma enorme expansão do sistema educacional, assim como
ocorreu em diversos outros países ao longo do século XX (Shavit e Blosfeld,
1993). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE revelam
que a população com 25 anos ou mais, com menos de quatro anos de ensino
fundamental, diminuiu de 75%, em 1960, para 42%, em 1991, e 28%, em 2005,
enquanto aqueles com ensino médio completo passaram de 1,1%, em 1960, para
7,5%, em 1991, e 12,3%, em 2005. Esta expansão também pode ser observada nos
dados da pesquisa que utilizo neste artigo. O Gráfico_1 apresenta o percentual
de pessoas em cada coorte de nascimento com cada um dos níveis educacionais
completo.

Os dados do Gráfico_1 revelam que há um crescimento constante ao longo do tempo
(das coortes de nascimento) do percentual de pessoas com os quatro anos do
ensino fundamental completos, os oito anos completos e o ensino médio completo.
Em contraste, não há aumento do percentual de pessoas que entraram e
completaram a universidade. Estas tendências criaram uma distância cada vez
maior entre os que completaram o ensino médio e os que entraram na
universidade. Uma maneira diferente de olhar para estes dados é examinar as
transições condicionais, ou seja, os percentuais fazendo cada transição
educacional tendo como base apenas a população que fez a transição anterior. O
Gráfico_2 apresenta as transições condicionais, que são a variável dependente
dos modelos que serão apresentados mais adiante, e revela que há um aumento no
percentual fazendo as duas primeiras transições, uma continuidade no percentual
fazendo a terceira transição, e um declínio no percentual fazendo as duas
últimas transições. Isto significa que, entre as pessoas que entraram na
escola, um número cada vez maior completou as quatro séries iniciais (T1); das
que completaram as quatro séries iniciais, um percentual cada vez maior
completou o ensino fundamental (T2); das que completaram o fundamental, um
percentual semelhante em todas as coortes completou o ensino médio (T3); das
que completaram o ensino médio, um percentual cada vez menor entrou na
universidade (T4); e das que entraram na universidade, um percentual cada vez
menor completou este grau de ensino (T5)1.
[/img/revistas/dados/v54n1/02g02.jpg]
A enorme expansão do ensino fundamental e o aumento das duas primeiras taxas de
transição foram promovidos pelas reformas educacionais de 1961, 1971 e de 1982.
O aumento do percentual com ensino médio completo (Gráfico_1) é uma
consequência da grande expansão do ensino médio público que ocorreu ao longo do
período estudado e foi bastante estimulado pela reforma de 1961. A expansão do
ensino fundamental, no entanto, não levou a um aumento da proporção de pessoas
com este grau completo que foi capaz de completar o ensino médio (Gráfico_2: T3
não aumentou), ou seja, embora o percentual total completando o ensino médio
tenha aumentado (Gráfico_1) a taxa de transição do ensino fundamental completo
para o médio completo não aumentou (Gráfico_2). Finalmente, uma comparação dos
Gráficos_1 e 2 revela que não aumentou o percentual total que entrou e
completou a universidade (Gráfico_1), ao mesmo tempo em que diminuíram as duas
últimas taxas de transição (Gráfico_2), ou seja, de todos que completaram o
ensino médio um percentual cada vez menor entrou na universidade e dos que
entraram no terceiro grau um percentual cada vez menor completou este grau de
ensino.
Estas tendências são uma consequência direta das reformas educacionais e das
mudanças na estrutura de oferta e demanda de candidatos e vagas no sistema
educacional, mas apesar de importantes afetam apenas marginalmente as
tendências na desigualdade de oportunidades educacionais tal como estimadas
pelo modelo apresentado na quarta seção deste artigo.
DADOS, VARIÁVEIS E MÉTODOS
Dados
Neste artigo uso dados da "Pesquisa Dimensões Sociais das Desigualdades" (PDSD
daqui em diante). A PDSD é uma amostra representativa da população brasileira,
urbana e rural, com exceção da área rural da região Norte, que inclui apenas
3,3% da população do país. Coletada entre outubro e novembro de 2008, a PDSD é
composta por uma amostra de 8.048 domicílios. A amostra é inteiramente
probabilística e estratificada em múltiplos estágios, o que permite inferências
acuradas dos parâmetros populacionais. A amostragem segue um procedimento
probabilístico em três etapas. Na primeira foram selecionados os municípios, na
segunda os setores censitários dentro dos municípios, e na terceira, os
domicílios dentro dos setores. Informações básicas sobre escolaridade e emprego
foram coletadas para todos os indivíduos com 10 anos ou mais. Um grande
conjunto de questões, incluindo características dos pais e condições em que os
respondentes cresceram, foi perguntado para chefe e cônjuge em cada domicílio.
Para este artigo selecionei uma subamostra incluindo todos os chefes e cônjuges
entre 25 e 64 anos de idade. Essa amostra inclui 8.359 indivíduos e é usada
para estimar as desigualdades de oportunidades e resultados educacionais ao
longo de cinco transições educacionais e das quatro coortes de idade. Como é
comum em amostras transversais com dados retrospectivos sobre características
dos pais dos respondentes, há uma proporção considerável de casos sem
informação para algumas das características dos pais. Em particular,
informações para educação e ocupação do pai ou da mãe dos respondentes não
estão disponíveis em cerca de 11% a 29% dos casos. Usar o procedimento de
eliminar os casos para os quais não há informação (listwise deletion) levaria a
uma redução de aproximadamente 40% dos casos válidos. Com o objetivo de reter
estes casos nas análises, usei um algoritmo de imputação múltipla para
recuperar casos sem informação (King et al., 2001). Esse procedimento pressupõe
que os dados estão sem informação de forma aleatória (MAR), ou seja, depois de
controlar por covariantes não há seletividade no padrão de dados sem
informação. Esse procedimento, implementado pelo programa Amelia, cria cinco
bancos de dados a partir dos quais parâmetros estimados e erros padrão são
combinados. A principal consequência deste procedimento, quando comparado com a
imputação via regressão simples, é que ele diminui os intervalos de confiança
tornando os testes estatísticos mais rigorosos.
Variáveis
A desigualdade de oportunidades educacionais é mensurada pelo efeito de uma
série de variáveis independentes, com características dos indivíduos e das
instituições de ensino, em cinco transições educacionais condicionais e
consecutivas (apresentadas no Gráfico_2) que são a variável dependente no
modelo estimado. As variáveis independentes usadas para medir as diferentes
dimensões de desigualdade podem ser classificadas em quatro grupos: (1)
condições econômicas da família (status ocupacional do pai e da mãe, e riqueza
da família); (2) características demográficas dos indivíduos (raça ou cor, e
sexo); (3) "capital cultural" da família (educação da mãe e do pai); (4)
contexto regional em que cresceu (região de nascimento e área de moradia até os
15 anos); (5) estrutura familiar (tipo de família, número de irmãos e trabalho
da mãe); (6) qualidade do ensino ou tipo de escola que frequentou (privada,
pública federal ou outras públicas); e (7) coorte de nascimento representando
mudanças temporais nas transições. Estatísticas descritivas para todas as
variáveis independentes são apresentadas na Tabela_1.
[/img/revistas/dados/v54n1/02t01.jpg]
Para analisar a desigualdade socioeconômica utilizei o "International
Socioeconomic Index - ISEI" (Ganzeboom, Treiman e De Graaf, 1992) que mede o
status ocupacional do pai e da mãe do respondente ("Status ocup. pai" e "Status
ocup. mãe"). O ISEI ordena as ocupações usando uma única escala hierárquica
baseada na média de educação e renda de cada ocupação e pode ser visto como uma
boa proxi para a renda permanente, ou seja, a renda não influenciada por
flutuações de curto prazo. Este índice é largamente utilizado em pesquisas na
área de estratificação social. Ao usar as informações ocupacionais de ambos os
pais do respondente temos mais controle sobre as condições socioeconômicas em
que os indivíduos cresceram. Efeitos positivos destas variáveis nas transições
educacionais expressam, portanto, desigualdades socioeconômicas nas chances de
sucesso em cada transição. Embora haja correlação entre estas e outras
variáveis independentes usadas nos modelos estimados, nenhuma correlação
compromete o modelo, ou seja, não há problema de colinearidade.
Enquanto a renda do trabalho ou o status socioeconômico são obtidos diretamente
no mercado de trabalho, a "riqueza" é uma dimensão da estratificação que não
está necessariamente ligada ao trabalho. Enquanto a renda é um fluxo, a riqueza
é um estoque de "capital econômico". Por "riqueza" me refiro aos ativos e bens
que as famílias possuem, tais como segunda casa e ativos financeiros, que podem
gerar renda que vai além daquela obtida no mercado de trabalho. A riqueza não
apenas pode ser transferida diretamente de pais para filhos, seja como herança,
seja como doação, como também pode ser utilizada para financiar o que for
necessário independentemente da condição de trabalho dos pais. Neste artigo
mensuro a "riqueza" dos pais do respondente mediante um índice latente que
combina informações sobre a propriedade de uma série de ativos (Filmer e
Pritchett, 1999, Sahn e Sifel, 2003). Elaborei este índice usando análise de
componentes principais, uma técnica de redução dos dados que diminui a
dimensionalidade do banco de dados capturando a variação que é comum a todas as
variáveis originais (McKenzie, 2005). Na prática, esta técnica corresponde a
encontrar uma combinação linear de pesos que dê conta da maior parte da
variação na matriz de variância e covariância. O índice de riqueza é baseado na
combinação de variáveis medindo se os pais eram proprietários ou não dos
seguintes itens: empresa ou negócio, alguma propriedade que alugavam, uma
segunda casa (casa de veraneio ou campo), ações (aplicações financeiras),
caderneta de poupança, conta em banco, e carro. Com exceção de "conta em
banco", todos os ativos são indicadores de riqueza acumulada. Tendo em vista a
pouca penetração do sistema financeiro na geração dos pais dos respondentes,
possuir uma conta no banco já era um sinal ou indicador de possibilidade de
acumulação de riqueza. De fato, a análise de componentes principais confirma
esta interpretação, na medida em que o resultado revela apenas uma dimensão
para a qual todos os indicadores convergem. Apesar de a análise de componentes
principais ter propiciado a construção de uma escala linear única, uma grande
proporção dos pais não possuía riqueza, o que torna esse indicador linear
truncado. Além disso, estou interessado em capturar não linearidades no efeito
da riqueza dos pais. Por estas razões, baseado no índice de riqueza gerado
criei uma variável ordinal que faz a distinção entre "nenhuma riqueza dos pais"
(55% dos pais da amostra, categoria de referência), "riqueza dos pais baixa"
(26% dos pais) e "riqueza dos pais alta" (19% dos pais). É importante destacar
que mesmo a categoria de "riqueza alta" não corresponde a pessoas normalmente
consideradas muito ricas. Na realidade, minhas análises mostram que mesmo
níveis modestos de riqueza têm um forte impacto nas chances de sucesso em
transições educacionais.
Além de estudar as desigualdades econômicas (status socioeconômico e riqueza),
minhas análises permitem observar diversos outros tipos de desigualdade. As
variáveis para educação do pai e da mãe são, geralmente, utilizadas para
mensurar o efeito do "capital cultural". Tendo em vista que são usadas em
conjunto com outras variáveis mensurando características socioeconômicas, o uso
de educação do pai e da mãe como indicadores de "capital cultural" é bastante
confiável. O "capital cultural" é o nível de conhecimento e acesso a bens
culturais que os pais do respondente tinham. Este tipo de capital é
extremamente importante nos sistema educacional, uma vez que pais que tenham
passado pelo sistema podem transmitir a seus filhos o conhecimento e a forma de
comportamentos adequados para se obter sucesso no processo de escolarização.
Duas variáveis são utilizadas para mensurar as características da estrutura
familiar que também pode contribuir para o sucesso dos indivíduos no sistema
educacional. A primeira é o tipo de família ou estrutura familiar: mono
parental (0) ou com os dois pais (1). No Brasil, há uma enorme quantidade de
domicílios em que o pai não está presente - 26% dos domicílios em nossa amostra
são mono parentais. Nestes casos, há menos recursos em termos de adultos
presentes para gerar renda ou cuidar das crianças, o que pode constituir uma
desvantagem. A segunda característica é o "número de irmãos". Famílias muito
grandes encontram mais dificuldades para dividir os recursos entre os filhos, o
que também pode se constituir em uma desvantagem. Uma outra variável
indiretamente relacionada à estrutura familiar é a presença da mãe no domicílio
ou trabalhando fora de casa ("Mãe trabalhava"). Mães que não trabalham fora de
casa podem dar mais atenção a seus filhos em termos de tarefas escolares para
serem feitas em casa (deveres de casa), entre outros tipos de atenção. Em
outras palavras, a presença da mãe no domicílio pode ser uma vantagem em termos
de atenção dispensada aos filhos enquanto estes estão na fase de escolarização.
Outras duas variáveis importantes são sexo e cor ou raça. Sexo é usado para
medir desigualdade entre homens e mulheres. No caso deste artigo, não
encontramos desigualdade deste tipo, mas a variável foi mantida nos modelos. A
desigualdade racial foi o principal tema, junto com a desigualdade
socioeconômica, de todos os estudos anteriores sobre desigualdade de
oportunidades educacionais no Brasil (Fernandes, 2001; Hasenbalg e Silva, 1999;
Osório e Soares, 2005; Silva e Souza, 1986; Ribeiro, C., 2009b). Neste artigo,
faço a distinção usual entre brancos, pardos e pretos.
O local em que as pessoas nasceram e cresceram também pode ter um efeito sobre
as chances de escolarização. Em áreas rurais há menos escolas do que em áreas
urbanas ("região urbana aos 15 anos"). Consequentemente, pessoas que cresceram
em cidades estão em posição de vantagem em relação aos que cresceram no campo.
Tendo em vista que as regiões do sul (Sudeste e Sul) historicamente têm mais
escolas do que as regiões no norte (Nordeste, Norte e Centro Oeste), incluí uma
variável para "região de nascimento". Estas desigualdades regionais e de área
são provavelmente mais marcantes nas primeiras transições educacionais.
Finalmente, incluí no modelo uma variável para capturar aspectos institucionais
do sistema educacional (escola privada, escola federal e escola pública). No
Brasil, as escolas de ensinos fundamental e médio privadas e públicas federais
são, em geral, de melhor qualidade do que as públicas municipais e estaduais e,
portanto, estudar em escolas de diferentes tipos em um nível educacional pode
facilitar a transição para o nível seguinte. Embora os ensinos fundamental e
médio, no Brasil, seja composto por um currículo único, a existência de escolas
em diferentes setores com diferentes qualidades implica estratificação do
próprio sistema educacional. Esta estratificação afeta as chances de progressão
no sistema.
Para capturar as mudanças ao longo do tempo incluí quatro coortes de idade como
variáveis independentes no modelo (a coorte mais velha é a categoria de
referência). Como expliquei na seção anterior, estas coortes foram definidas de
forma a capturar efeitos das reformas educacionais e fluxos de oferta e demanda
de vagas nas desigualdades de oportunidades educacionais. Praticamente não há
mudanças das coortes de idade ao longo do tempo.
Métodos
Neste artigo estimo um modelo logit sequencial, também conhecido como modelo de
transições educacionais. Este modelo estima o efeito de variáveis independentes
nas chances de fazer transições educacionais consecutivas e condicionais, ou
seja, só está sujeito a uma transição superior quem foi bem-sucedido nas
anteriores. Cada transição é modelada como uma variável binária em um modelo
logit ou regressão logística. Além de usar este modelo faço uma análise de
sensibilidade, apresento um modelo de regressão linear, e utilizo uma
metodologia de ponderação para verificar a relação entre a "desigualdade de
oportunidades educacionais" (DOE medida pelas chances relativas de fazer cada
transição) e a "desigualdade de resultados educacionais" (DRE medida pelos anos
de educação completos). Explico estas metodologias nas próximas seções.
Para chegar a um modelo logit sequencial final (apresentado na Tabela_2) parti
de um modelo reduzido incluindo apenas as coortes como variável independente, e
incluí incrementalmente cada uma das variáveis independentes em diversos
modelos cada vez mais ampliados, até chegar ao modelo final. A cada variável
incluída em modelos cada vez mais ampliados eu verificava qual o impacto
causado pela nova variável nos coeficientes para as variáveis que já estavam no
modelo anterior. Primeiro, estimei um modelo apenas com as coortes de idade,
depois, incluí as variáveis demográficas (raça e sexo), depois, as de região
(região em que nasceu e área de residência até os 15 anos de idade), depois, as
socioeconômicas (ocupação do pai e da mãe, e riqueza), depois, as da estrutura
familiar (mãe trabalhava, estrutura familiar e número de irmãos), e,
finalmente, as para tipo de escola (privada, federal e pública). Os efeitos de
todas as variáveis se somam e melhoram o ajuste do modelo anterior. A única que
modifica significativamente o resultado dos modelos anteriores é a variável
para tipo de escola. Explico a consequência da inclusão desta variável para os
outros efeitos na próxima seção. O modelo sem esta última variável também é
apresentado na Tabela_1_do_Anexo.
DESIGUALDADE DE OPORTUNIDADES EDUCACIONAIS
Nesta seção, apresento os principais resultados obtidos pelo modelo de
transições educacionais condicionais para os indivíduos entre 25 e 64 anos de
idade em 2008. Estes indivíduos tiveram a possibilidade de fazer todas as cinco
transições, desde completar as quatro primeiras séries do ensino fundamental
(T1) até completar os estudos universitários (T5). Os dados permitem avaliar
tanto as tendências históricas destas desigualdades em termos das
características de origem social dos indivíduos e dos tipos de escola que
frequentaram antes de cada transição, quanto as tendências de desigualdades ao
longo do fluxo de progressão dentro do sistema educacional, ou seja, ao longo
das transições educacionais.
A primeira coluna de números da Tabela_2 (com título sd(0)) apresenta os
efeitos em cada transição (de T1 a T5) das variáveis independentes: sexo,
residência em região urbana até os 15 anos de idade, região de nascimento,
status ocupacional do pai, status ocupacional da mãe, trabalho da mãe fora de
casa (trabalhava ou não), educação do pai, educação da mãe, riqueza dos pais
(classificada em três categorias: alta, baixa e nula), cor (branco, pardo e
preto), estrutura familiar (residia com pai e mãe ou apenas com um dos dois),
número de irmãos, tipo de escola que frequentou no nível educacional anterior
(privada, pública federal e outras públicas), e coorte de nascimento (C1: 1944
a 1954 - categoria omitida, C2: 1955 a 1964, C3: 1965 a 1975, e C4: 1976 a
1983). A constante captura o efeito combinado das mudanças institucionais e do
tamanho das coortes.
A primeira coisa que deve ser destacada na Tabela_2 é que os efeitos não mudam
ao longo das coortes de idade, ou seja, ao longo do tempo. Este resultado
confirma o padrão de "desigualdades persistentes" observado em diversos países
industrializados (Shavit e Blossfeld, 1993), em desenvolvimento (Park 2001;
Torche, 2005; Gerber e Hout, 1995; Gerber, 2000, 2003), e em estudos anteriores
sobre o Brasil (Fernandes, 2001; Silva e Souza, 1986; Silva, 2003; Ribeiro, C.,
2009b)2. Além disso, ao longo das transições educacionais, não só o número de
variáveis de origem social e característica institucional com efeitos
estatisticamente significativos diminuem, como também a força dos efeitos
relevantes diminui ou não apresenta tendências claras. Abaixo apresento os
principais efeitos observados, que descrevem as desigualdades de oportunidades
educacionais ao longo do tempo e das transições escolares. Nas descrições uso
as "chances relativas", que são o exponencial dos coeficientes estimados pelo
modelo.
Para a variável "região urbana até os 15 anos" na primeira transição (T1) o
coeficiente de 0,789 está em escala logarítmica (assim como todos os outros
coeficientes na Tabela_2) e deve, portanto, ser revertido para outra métrica de
forma a ser interpretado. Para tanto, utiliza-se o exponencial (e0,789 = 2,2),
que é o valor da "chance relativa" indicando que pessoas que viveram em região
urbana até os 15 anos tinham 2,2 vezes mais chances de completar os primeiros
quatro anos de educação primária (T1) do que indivíduos que cresceram em áreas
rurais. Todos os coeficientes da Tabela_2 são interpretados usando este tipo de
cálculo; quando não há efeito, o exponencial do coeficiente é 1, ou o teste de
significância indica que não é diferente de 1. No caso da variável "região
urbana até os 15 anos", verifica-se que a vantagem decresce para 1,9 (e0,661)
vezes mais chances de completar a educação primária de oito anos (T2) entre
aqueles que completaram a primeira transição, para 1,3 vezes entre aqueles que
completaram o ensino médio (T3) uma vez tendo completado o primário (oito
anos), e não é significativa para entrar na universidade entre os que
completaram o ensino médio (T4), nem para completar a universidade entre os que
entraram (T5). Este tipo de desigualdade era esperado tendo em vista que a
oferta de escolas nas regiões rurais sempre foi menor do que nas regiões
urbanas do Brasil (Bacha e Klein, 1989; Castro, 1986, 1994). A região de
nascimento, que também é uma variável contextual importante, tem um efeito
estatisticamente significativo para completar as 4 primeiras séries da educação
fundamental (T1) e para entrar na universidade entre os que terminaram o
segundo grau (T4). Indivíduos que nasceram na região Sul (Sudeste e Sul) têm
1,4 vezes mais chances de completar os 4 primeiros anos de educação fundamental
e 1,6 vezes mais chances de entrar na universidade (T4) do que aqueles que
nasceram na região Norte (Norte, Nordeste e Centro-Oeste). Enquanto esta
desigualdade para completar os quatro anos de educação primária (T1) está
provavelmente relacionada ao fato de que há menos oferta de escolas básicas no
Norte do que no Sul, o diferencial de região de nascimento (Sul/Norte) para
acesso à universidade pode estar relacionado tanto ao fato de haver menos
oferta de universidade no Norte do que no Sul, quanto a outros fatores
relacionados a menos oportunidades educacionais dos migrantes do Norte no Sul
(Januzzi, 2000). Tendo em vista que muitas pessoas que nascem no Norte/
Nordeste/Centro-Oeste migram para o Sul/Sudeste justamente na idade em que
deveriam entrar na universidade, a desigualdade de região de nascimento não
pode ser inteiramente atribuída à diferença na oferta de vagas universitárias
entre o Norte e o Sul. Há, provavelmente, alguma diferença entre migrantes e
não migrantes que se expressa na desigualdade de acesso à universidade entre
pessoas nascidas no Norte e no Sul do país.
O efeito da ocupação do pai, uma variável indicando o nível de renda permanente
do pai, diminui monotonicamente entre a primeira transição (T1), a segunda
(T2), e a terceira (T3). Depois aumenta para entrar na universidade (T4), e
ainda mais para concluí-la (T5). O aumento do efeito do status socioeconômico
do pai para entrar e completar a universidade deve estar relacionado ao fato de
haver um gargalo no acesso à universidade, como indica o Gráfico_2. Como há
muita competição para entrar na universidade, aqueles com mais recursos acabam
tendo vantagens. O efeito da ocupação da mãe está presente somente para
completar a universidade (T5) e apresenta um sinal negativo, ou seja, pessoas
cujas mães tinham status ocupacional mais alto tinham menos chances de
completar esse nível educacional. Esse efeito está certamente relacionado à
grande seletividade que ocorre ao longo do sistema. Pessoas cujas mães tinham
baixo status ocupacional são filtradas antes de chegar à universidade, mas
aquelas que chegam devem ser altamente motivadas.
Outro efeito interessante é o da condição de trabalho da mãe dos indivíduos.
Filhos cujas mães não trabalhavam fora de casa tinham 1,2 vezes mais chances de
completar as quatro séries iniciais do fundamental (T1) do que indivíduos cujas
mães trabalhavam fora de casa. Estes efeitos ou desigualdades estão
provavelmente relacionados ao fato de que a presença da mãe em casa nos anos
iniciais de escolaridade dos filhos contribui para mais controle ou ajuda no
cumprimento das tarefas escolares e da rotina domiciliar.
No entanto, a principal característica materna que afeta a progressão dos
filhos no sistema educacional é o nível educacional ou escolaridade da mãe.
Geralmente, esta variável é pensada como um indicador do "capital cultural",
que é extremamente importante para o desempenho educacional dos filhos, de
acordo com a teoria da "reprodução" (Bourdieu e Passeron, 1977). A desigualdade
(ou efeito) em termos da escolaridade da mãe diminui entre a primeira
(completar quatro séries do fundamental: T1) e a terceira transição (completar
o secundário, uma vez tendo terminado o primário: T3), e diminui ainda mais
significativamente para entrar na universidade (T4) e para completar a
universidade (T5). O fato de a escolaridade da mãe ser relevante até mesmo para
completar a universidade é uma evidência clara de que o "capital cultural" é
provavelmente valorizado na universidade, como previsto pela teoria (ibidem).
No entanto, o efeito é claramente mais forte nas três primeiras transições,
quando o indivíduo ainda está próximo do círculo familiar.
Além da região de nascimento, do "capital cultural", e do status ocupacional
dos pais, há outra característica, que ainda não havia sido estudada no Brasil,
mas que tem um forte efeito sobre as chances educacionais dos indivíduos: a
riqueza dos pais. Esta riqueza não é propriamente representada pela renda ou
pelo status ocupacional, mas, sim, pelos bens e ativos que os pais possuíam, ou
seja, é uma dimensão distinta das desigualdades socioeconômicas. Segundo a
teoria do "capital humano", por exemplo, pais com mais riqueza têm mais
recursos para investir na educação e, portanto, no "capital humano" de seus
filhos (Becker 1981). Mesmo pequenas quantidades de riqueza podem servir como
recursos importantes para manter os filhos na escola quando os pais enfrentam
dificuldades financeiras como, por exemplo, desemprego, doença ou outro tipo de
crise familiar. O efeito da riqueza tende a ser ainda mais forte em países como
o Brasil, onde o crédito é limitado e o sistema de proteção social pouco
desenvolvido. Nestas condições, o estoque de riqueza, mesmo que pequeno, se
torna um recurso ainda mais relevante. De fato, o efeito da riqueza dos pais
está presente em todas as transições educacionais e não apresenta nenhuma
tendência de diminuição, seja ao longo do tempo (das coortes) ou das transições
educacionais. Indivíduos que cresceram em famílias com "riqueza alta" tinham,
pelo menos, 1,3 vezes mais chances de completar qualquer uma das cinco
transições do que indivíduos cujas famílias "não tinham riqueza", enquanto
aqueles que vinham de famílias com "riqueza baixa" tinham, pelo menos, 1,2
vezes mais chances. É impressionante que mesmo para completar a universidade
entre os que nela entraram (T5) também haja um forte efeito da "riqueza dos
pais", ou seja, a desigualdade de oportunidades em termos de riqueza permanece
presente até a última transição do sistema educacional, momento em que a grande
maioria dos outros tipos de desigualdade não existe mais.
Em contraste com a "riqueza", que nunca havia sido estudada em trabalhos sobre
desigualdades educacionais no Brasil, a raça, ou cor, tem sido um tema
constante nos estudos sobre desigualdades educacionais (Fernandes, 2001;
Hasenbalg e Silva, 1999; Osório e Soares, 2005; Silva, 2003; Silva e Souza,
1986; Henriques, 2001). Minhas análises para este artigo indicam que as
transições que mais contribuem para as diferenças raciais em termos de chances
educacionais são a primeira (T1: completar as quatro primeiras séries do ensino
fundamental) e a terceira (T3: completar o ensino secundário, dado que
completou as oito séries do primário). Na quarta (T4: entrar na universidade
tendo completado o segundo grau) também há desigualdade racial. Sendo assim, os
resultados indicam que brancos têm 1,5 ou 1,6 vezes mais chances de completar
as quatro séries iniciais do fundamental (T1) e de completar o secundário tendo
completado o primário (T3) do que pretos; pardos têm 1,5 vezes mais chances de
completar o secundário (T3) do que pretos; e brancos têm entre 1,4 e 1,5 vezes
mais chances de completar a 4ª série do ensino fundamental (T1), entrar na
universidade tendo completado o segundo grau (T4) e completar a universidade
(T5) do que pardos. De fato, estas análises indicam que as categorias para
preto e pardo poderiam ser combinadas em uma única categoria para não brancos
em todas as transições, menos na terceira (completar o ensino fundamental). Em
T3, brancos e pardos estão mais próximos (poderiam ser combinados), enquanto
pretos ficam em uma situação de desvantagem3. Estas desigualdades raciais nas
chances de progressão no sistema educacional não mudam ao longo do tempo; no
entanto, é interessante observar que pardos têm chances significativamente
maiores do que pretos de completar o ensino médio tendo completado o
fundamental (T3). Este último resultado sugere que a prática usual de combinar
pretos e pardos em uma única categoria de não brancos, ou negros, pode ser
limitadora da informação sobre desigualdades raciais4.
Outros efeitos importantes são aqueles relacionados à estrutura familiar.
Indivíduos que cresceram em famílias com presença do pai e da mãe têm pelo
menos 1,3 vezes mais chances de completar as quatro primeiras transições (T1,
T2, T3, e T4) do que indivíduos que cresceram em famílias com outros tipos de
composição (a maioria sendo de famílias monoparentais). Além disso, quanto
maior o número de irmãos, menores as chances de completar as três primeiras
transições (T1: quatro séries primárias, T2: oito séries primárias, e T3:
secundário). Este último efeito está relacionado ao fato de que famílias
grandes, principalmente quando mais pobres, encontram dificuldade em dividir os
recursos para investir na educação dos filhos. Outros estudos encontraram este
tipo de efeito no Brasil e em outras sociedades (Psacharopolous e Arriagada,
1989; Lu e Treiman, 2008). Embora seja compreensível que as desigualdades
relacionadas à estrutura familiar estejam presentes nas primeiras transições
educacionais, quando os indivíduos ainda são crianças e dependem de seus pais,
é realmente surpreendente que permaneçam relevantes em transições avançadas,
como completar o ensino médio (T3) e entrar na universidade (T4).
Além de todos estes tipos de desigualdade de oportunidades educacionais,
relacionados à família e ao contexto em que os indivíduos cresceram, há também
efeitos institucionais que podem se somar aos anteriores. Vários estudos
revelam que escolas privadas e públicas federais são, em geral, de melhor
qualidade no ensino fundamental e no ensino médio do que as públicas municipais
ou estaduais (Albanez, Ferreira e Franco, 2002; Alves, 2007). Portanto, podemos
imaginar que haja desigualdade de oportunidades relacionada a estes tipos de
escola. De fato, os efeitos do tipo de escola nas chances de fazer cada
transição são os maiores entre todos os investigados neste artigo. Pessoas que
estudaram em escola privada nos primeiros anos de escolaridade têm três vezes
mais chances de completar as quatro primeiras séries do fundamental (T1) do que
pessoas que estudaram em escolas públicas. Os que estudaram em escola privada
têm sete vezes mais chances, e os que estudaram em escola pública federal 2,5
vezes mais chances de completar o fundamental (T2) do que os que estudaram em
escola pública.
Para completar o ensino médio (T3) as vantagens são de quatro vezes mais
chances para quem estudou em escola privada do que em pública, e 2,3 vezes para
quem estudou em escola pública federal do que em pública. Indivíduos que
estudam em escolas públicas federais têm dezenove vezes mais chances de entrar
na universidade (T4) do que indivíduos que estudaram em escola pública, e
indivíduos que estudaram em escolas privadas têm quinze vezes mais chances de
entrar do que aqueles que estudaram em escolas públicas.
Em suma, as escolas privadas e federias de ensino médio são, em geral, melhores
do que as públicas, o que indica que características institucionais do sistema
educacional brasileiro também funcionam como promotoras de desigualdade de
oportunidades que vão além daquelas determinadas pelas condições
socioeconômicas e contextuais das famílias de origem. Em momentos de escassez
de vagas na universidade este tipo de vantagem se torna ainda mais relevante,
como nossos resultados indicam e como preveem as teorias da "desigualdade
maximamente mantida" (Raftery e Hout, 1993), e da "desigualdade efetivamente
mantida" (Lucas, 2001).
No entanto, uma dúvida paira sobre esses resultados: em que medida o efeito do
tipo de escola é apenas um reflexo das características socioeconômicas de
origem? Será que pais em posições socioeconômicas mais elevadas tendem a
colocar seus filhos em escolas privadas ou públicas federais? Para responder a
estas perguntas estimei um modelo igual ao apresentado nesta seção, sem incluir
as variáveis para tipo de escola (ver Tabela_1_do_Anexo). De fato, quando
excluímos o tipo de escola observamos que o efeito das variáveis medindo a
condição socioeconômica da família, principalmente status ocupacional do pai e
riqueza, passam a ter um efeito mais forte, ou a ser estatisticamente
significativas. Isso ocorre principalmente para completar o segundo grau (T3) e
entrar na universidade (T4). Esses resultados podem ser interpretados como um
indício de que a escolha do "tipo de escola" (privada, federal ou pública) é a
estratégia utilizada pelos pais para aumentar as chances de seus filhos
completarem o ensino médio e entrarem na universidade. Famílias com mais
recursos procuram investir na qualidade da educação de ensino fundamental e de
ensino médio com o objetivo de promover o desempenho de seus filhos, seja no
ensino médio (T3), seja na entrada da universidade (T4). Em outras palavras, o
"tipo de escola" é uma característica intermediária e explica parte da
associação entre características socioeconômicas de origem e chances de sucesso
nas transições educacionais.
Em suma, os resultados mostram claramente que, por um lado, há mais
desigualdade de oportunidades nas transições educacionais iniciais do que nas
transições mais elevadas do sistema, e, por outro lado, que as desigualdades
são, em sua maioria, "persistentes ao longo do tempo". Com algumas importantes
exceções, minhas análises comprovam resultados encontrados em trabalhos
anteriores (Fernandes, 2001; Hasenbalg e Silva, 1999; Osório e Soares, 2005;
Silva, 2003; Silva e Souza, 1986; Ribeiro, C., 2009 a ou b?). As duas
diferenças que devem ser destacadas são: primeiro, o tipo de escola é um
mediador entre condições socioeconômicas e chances de fazer transições
educacionais mais elevadas, como completar o ensino médio (T3) e entrar na
universidade (T4); e, segundo, a "riqueza dos pais" - em termos de ativos e
bens em oposição à renda, ocupação ou educação - é um efeito para explicar as
chances de fazer com sucesso as transições educacionais.
ANÁLISE DE SENSIBILIDADE
Na seção anterior apresentei os resultados do modelo de transições em termos de
"desigualdade de oportunidades educacionais". Nesta seção apresento análises de
sensibilidade para investigar as consequências que variáveis não observadas
poderiam ter nos resultados apresentados acima. Este tipo de problema ocorre
frequentemente em modelos que visam a estimar efeitos causais (Morgan e
Winship, 2007; Holand, 1986). Em estudos experimentais, o fato de sabermos que
os indivíduos foram selecionados aleatoriamente para o grupo de tratamento e o
de controle possibilita o controle por variáveis não observadas, tendo em vista
que estas também se distribuem aleatoriamente. Para estudos usando dados
observacionais, como é o caso neste artigo e na maioria dos estudos em ciências
sociais, uma série de metodologias e técnicas vêm sendo propostas para
controlar por variáveis não observadas (ibidem; Gelman e Hill, 2007). Por
exemplo, se o pesquisador souber que uma variável x influencia a principal
variável explicativa, mas não a variável dependente, pode, neste caso, usar
essa variável x como uma variável instrumental (Holm 2008). Em outros casos, se
o pesquisador souber que todas as variáveis influenciando a principal variável
explicativa estão presentes no banco de dados, pode usar algo como um
"propensity score matching" (DiPrete e Gangl, 2004).
Neste artigo, não estou tentando mostrar o efeito causal de uma única variável,
mas, sim, verificar um conjunto plausível de diversas variáveis que levam a
"desigualdades de oportunidades educacionais". No entanto, não é difícil
imaginar que haja variáveis não mensuradas, tais como "habilidade" e "esforço",
entre outras, que possam estar influenciando os resultados apresentados acima.
Se isto for verdade, não temos como garantir que as características das
desigualdades observadas sejam plausíveis. Uma alternativa, que vem sendo cada
vez mais utilizada em estudos observacionais, é apresentar análises de
sensibilidade para verificar quais seriam as consequências, ou qual deveria ser
a força do efeito de variáveis não observadas para que os resultados obtidos
pelos modelos pudessem ser colocados em questão (Rosenbaum e Rubin, 1983;
Rosenbaum, 1984, 1987, 2002; DiPetri e Gangl, 2004).
Este problema do provável efeito de variáveis não observadas no caso dos
modelos de transição educacional tem especificidades que devem ser levadas em
conta. Nestes modelos há dois mecanismos por meio dos quais a heterogeneidade
não observada pode enviesar os resultados dos estimadores ao nível individual.
O primeiro mecanismo é o de estimativa dos efeitos médios (averaging
mechanism). Quando todas as variáveis relevantes são incluídas em um modelo
logit estamos estimando a probabilidade de um indivíduo fazer uma dada
transição. Mas quando uma variável z não observada e correlacionada com alguma
variável x no modelo é omitida estimamos a probabilidade média de fazer uma
transição (Cameron e Heckman, 1998; (Neuhaus 1993). Como os modelos são não
lineares, as probabilidades individuais levam a resultados distintos das
probabilidades médias (Neuhaus 1993; Allison 1999; Buis 2009). O segundo
mecanismo é o de seletividade, que pode gerar uma subestimativa do efeito de
alguma variável nas transições superiores. Uma das características do modelo de
transições educacionais é que mesmo que uma variável não observada não cause
problemas na primeira transição, ela pode se tornar uma variável criando viés
nas transições seguintes (Mare, 1980; Cameron e Heckman, 1998). Por exemplo,
uma variável não observada z que não esteja correlacionada com alguma outra x
incluída para explicar a primeira transição pode se tornar correlacionada com
esta variável x nas transições seguintes. Este tipo de correlação criaria
vieses de estimativa. Enquanto o primeiro mecanismo pode ocorrer em qualquer
modelo logit, o segundo é específico a modelos logit sequenciais ou de
transições educacionais.
A cada transição educacional há uma seleção da população que pode fazer a
próxima transição. Por exemplo, somente aqueles que completaram o ensino médio
podem fazer ou não a transição para universidade. Ora, a população que
completou o ensino médio já foi selecionada em relação às outras pessoas que
não completaram. Se este tipo de seletividade for influenciado por variáveis
não observadas os efeitos observados podem estar sujeitos a vieses cada vez
mais fortes quanto mais seletivas forem as transições. Repare que esta
seletividade também ocorre ao longo das coortes, uma vez que as coortes mais
jovens tendem a incluir uma maior proporção fazendo cada vez mais as transições
mais avançadas (ver Gráfico_1). Sendo assim, nas coortes mais velhas e nas
transições mais elevadas a seletividade tende a ser muito mais alta, e
consequentemente o problema do efeito de variáveis não observadas tende a ser
mais grave. Nesta seção, utilizo uma metodologia que permite verificar a
sensibilidade dos resultados encontrados aos mecanismos de efeitos médios e de
seletividade causados por diferentes graus de heterogeneidade não observada.
Esta metodologia consiste em verificar quais os possíveis efeitos que uma
variável não observada teria nos parâmetros estimados pelo modelo de
transições. Para tanto, é incluída no modelo uma variável que representa uma
soma ponderada de possíveis variáveis não observadas que se distribui
normalmente. Esta variável é pensada como uma variável aleatória não
padronizada, ou termo de erro, cujo desvio padrão representa o efeito desta
variável (para detalhes, ver Buis, 2009). Assim, o modelo é estimado diversas
vezes de forma que obtemos diferentes cenários a partir da definição do desvio-
padrão com diferentes valores: 0 (neste caso é como se não houvesse efeito), ½
(ou 0,5), 1 e 2.
Os resultados dos diferentes cenários ou simulações de um possível efeito de
variáveis não observadas são apresentados nas colunas com título sd(0.5), sd(1)
e sd(2) da Tabela_2. Como mencionei, estes valores correspondem às variáveis
não observadas normalizadas com efeitos de 1/2, 1 e 2 desvios-padrão. Os
resultados destas simulações indicam que, caso houvesse uma variável não
observada, o tamanho dos efeitos observados (ou seja, o grau de "DOE") seria
bastante maior para todas as variáveis independentes incluídas no modelo quanto
maior fosse a heterogeneidade não observada. Além disso, as quedas dos efeitos
ao longo das transições educacionais diminuem com o aumento desta
heterogeneidade.
De um modo geral, estas simulações indicam que os resultados do modelo de
transições educacionais apresentado na seção anterior são bastante robustos, ou
seja, mesmo nas simulações para efeitos bastante fortes (sd=2) de uma variável
não observada, a grande maioria das "desigualdades de oportunidades
educacionais" observadas permanece existindo, e para que a significância
estatística de alguns estimadores mude seria necessário que houvesse variáveis
não observadas com efeitos extremamente fortes. Embora não possamos ter certeza
de que os graus de desigualdade de oportunidades descritos na seção anterior
sejam perfeitamente acurados, temos fortes evidências de que estas
desigualdades realmente estão presentes no sistema educacional brasileiro. De
fato, nossas simulações levam a duas principais conclusões: (1) o grau de
desigualdade deve ser maior do que aquele observado no modelo de transições
educacionais apresentado na seção anterior, e (2) a tendência de diminuição ao
longo das transições deve ser menos acentuada do que aquela inicialmente
observada.
DESIGUALDADE DE RESULTADOS EDUCACIONAIS
O modelo de transições educacionais apresentado acima divide o processo de
escolarização em uma série de transições condicionais, ou seja, cada transição
só pode ser feita pelas pessoas que fizeram a transição anterior. Isso
significa que só pode fazer T2 quem fez T1, T3 quem fez T2, T4 quem fez T3, e
T5 quem fez T4. São diferentes populações que estão expostas a cada uma das
transições educacionais, populações que passaram por um processo cada vez mais
seletivo. De fato, o objetivo do modelo de transições educacionais não é o de
descrever a desigualdade, em termos das variáveis explicativas, no resultado
final do processo educacional (nos anos de educação completos), mas, sim, o de
analisar a desigualdade ao longo do processo (composto por transições
educacionais) que leva a este resultado final. Em outras palavras, o objetivo
do modelo de transições educacionais é descrever a "desigualdade de
oportunidades educacionais" (DOE) nas chances de pessoas com características
distintas fazerem cada transição escolar, mas não o de estudar a "desigualdade
de resultados educacionais" (DRE). Enquanto o primeiro tipo de desigualdade
(DOE) é mais bem representado por um modelo de transições tal como o
apresentado na seção anterior, o segundo tipo de desigualdade (DRE) é mais bem
representado por um modelo de regressão linear tendo como variável dependente
os anos de estudo completos dos indivíduos.
É óbvio, no entanto, que o resultado final depende do processo descrito pelos
modelos de transições educacionais. Ou seja, a "desigualdade de resultados
educacionais" (DRE) depende diretamente da "desigualdade de oportunidades
educacionais" (DOE). Nesta seção apresento análises e gráficos que permitem
decompor o efeito de cada variável independente em cada transição educacional
no resultado final do processo. No entanto, antes de apresentar estas
decomposições, mostro brevemente os resultados encontrados por um modelo de
regressão linear usado para analisar as desigualdades em termos de anos de
estudos completos (ou DRE). A Tabela_3 apresenta este modelo, que utiliza
exatamente as mesmas variáveis independentes do modelo da seção anterior, tendo
como variável dependente os anos de escolaridade completos.
[/img/revistas/dados/v54n1/02t03.jpg]
A inspeção da Tabela_3 revela que os anos de estudo completos (variável
dependente) aumentam em função: da residência em região urbana até os 15 anos
de idade, da região de nascimento (sul ao invés da norte), do status
ocupacional do pai, do fato de a mãe não trabalhar fora, da educação do pai e
da mãe, da riqueza dos pais, do fato de serem brancos (ao invés de pretos), do
fato de ter residido com pai e mãe (ao invés de em uma família monoparental),
da menor quantidade de irmãos, do tipo de escola que frequentaram (escola
privada ou pública federal versus pública) e das coortes de idade (quanto mais
jovens, mais anos de estudo completos). Em suma, há "desigualdades de
resultados educacionais" em termos destas variáveis independentes e indícios de
diminuição da desigualdade ao longo do tempo.
Este tipo de modelo, no entanto, foi recorrentemente criticado porque não leva
em conta a proporção da população que está exposta a cada transição em cada
coorte de idade. Os efeitos descritos pelos coeficientes de uma regressão
linear, como a da Tabela_3, estariam "misturados", por assim dizer, com o
efeito do tamanho das populações, fazendo cada transição em cada coorte de
idade (Mare, 1980, 1981). Como os anos de educação completos tendem a aumentar
para cada coorte de idade por causa da expansão educacional, o modelo de
regressão linear leva, erroneamente, à ideia de que a desigualdade está
diminuindo ao longo do tempo, quando, na realidade, há um efeito de cada
transição educacional que não é observado. Foi justamente para solucionar este
problema que os modelos de transições educacionais foram inicialmente sugeridos
por Mare (ibidem), mas mesmo este autor reconhece que o modelo de regressão
linear seria relevante para descrever a DRE (veja, também, Shavit e Blossfeld,
1993). O problema que se coloca, portanto, é o de integrar o efeito do tamanho
das coortes em cada transição educacional para descrever a desigualdade nos
resultados educacionais. Em outras palavras, é necessário verificar qual o
efeito de cada transição no resultado do processo educacional. O modelo de
transições educacionais faz tal tipo de controle, mas não descreve diretamente
a "desigualdade de resultados educacionais".
Em um trabalho recente, Buis (2007:107-111) propõe uma metodologia para derivar
o efeito de cada transição educacional nos anos de estudo completos dos
indivíduos, ou seja, uma metodologia para derivar a DRE a partir do modelo de
transições educacionais normalmente usado para estudar a DOE. Esta metodologia
consiste em atribuir um "peso" a cada transição educacional no resultado final
do processo educacional, que são os anos de estudo completos. O efeito de cada
variável independente e de cada transição no resultado do processo educacional
(os anos de estudo completos) pode ser resumido pela seguinte equação:
[/img/revistas/dados/v54n1/02s01.jpg]
Nestas equações, i representa cada indivíduo, e k cada transição. A
"desigualdade nos resultados educacionais" ou DRE (anos de estudo completos)
para cada indivíduo é determinada pela soma de todas as transições definidas
por um pesoki para cada indivíduo em cada transição mais a "desigualdade de
oportunidades educacionais" em cada transição (DOE). Sendo que pesoki é a soma
de um conjunto de fatores: da proporção de pessoas com chances de fazer cada
uma das transições educacionais (para a primeira transição, essa proporção é de
100%, mas para as transições subsequentes as proporções são iguais àquelas
apresentadas no Gráfico_1), da variância da variável independente indicando
quem passa ou não por uma transição (essa variância é uma função da
probabilidade predita de passar uma determinada transição, e diminui em função
de quanto mais pessoas passam por essa transição), e da diferença entre o nível
educacional (em anos de estudo) esperado dos que passam uma transição e o nível
esperado dos que não passam. Em outras palavras, a "desigualdade de resultados
educacionais" (em termos de anos de estudos completos) é uma soma "ponderada"
das chances de fazer cada uma das transições educacionais. Cada respondente
terá um valor específico de anos de estudo completos preditos com base nas
probabilidades de fazer cada transição educacional, sendo que estas
probabilidades vão variar entre as pessoas, dependendo do valor de cada
variável independente para cada pessoa. Esta decomposição é outra maneira de
apresentar os resultados do modelo de transições educacionais que permite
observar qual a contribuição de cada transição para os anos de estudo completos
ao final do processo educacional.
Para facilitar a visualização do efeito conjunto de cada transição e do peso
(tal como definido acima) nos anos completos de educação, Buis (2007) propõe o
uso de gráficos em que o eixo vertical representa o efeito da transição (ou
seja, a "DOE") e o eixo horizontal, o peso. Sendo assim, a área representada
nos gráficos corresponde à fórmula apresentada acima, ou seja, a área é igual
ao produto de "DOE" e "peso", representando, portanto, a "DRE". Abaixo
apresento uma série de gráficos para o efeito de cada variável independente em
cada coorte e transição tendo como base o primeiro modelo (sd(0)) apresentado
na Tabela_2.
Em cada gráfico para cada variável independente o eixo vertical representa a
"desigualdade de oportunidades educacionais" ou "DOE" (log das razões de
chances) e o eixo horizontal os "pesos", enquanto as colunas representam as
coortes de idade (da mais velha, à esquerda, para a mais nova, à direita) e as
linhas representam as transições educacionais (de baixo para cima: T1, T2, T3,
T4 e T5).
Há algumas conclusões importantes que podem ser tiradas da inspeção dos
gráficos. As duas últimas transições (T4: entrar na universidade para os que
completaram o segundo grau; e T5: completar a universidade para os que
entraram) influenciam muito pouco (peso representado pela largura dos
retângulos) a "desigualdade de resultados educacionais" (DRE), embora para
entrar na universidade (T4) a "desigualdade de oportunidades educacionais"
(representada pela altura dos retângulos nos gráficos correspondentes) seja
bastante acentuada para tipo de escola (vantagem para escola privada), ocupação
do pai, raça, e riqueza dos pais. Em outras palavras, há "desigualdades de
oportunidade" marcantes em termos destas variáveis para entrar na universidade
(veja seção anterior), embora a transição para universidade (T4) tenha um
efeito muito pequeno na DRE (nos anos de estudo completos). Tendo em vista que
a maioria da população não chega a estas transições elevadas do sistema
educacional (ver Gráfico_1, na seção 2) não surpreende o fato de elas não terem
peso grande para a DRE ou anos de estudo completo. De qualquer forma, a
metodologia e os gráficos da Figura_1 são relevantes exatamente porque mostram
o quanto cada transição contribui para a DRE.
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Neste sentido, os gráficos da Figura_1 revelam que a transição que mais
influencia a "DRE" é a segunda (T2: completar o ensino fundamental, oito anos
de educação). Ou seja, grande parte da "desigualdade de resultados" se deve ao
fato de completar ou não o ensino fundamental (T2). Finalmente, os gráficos
também indicam que a terceira transição (T3: completar o segundo grau) não só
tende a ter peso maior do que a primeira (T1: completar os quatro primeiros
anos do ensino fundamental), mas parece estar se tornando cada vez mais
relevante ao longo das coortes de idade, tendo em vista que em todas as
variáveis estatisticamente significativas o volume dos retângulos para T3
aumenta. De fato, as duas transições que mais influenciam no resultado do
processo educacional são completar o ensino fundamental (T2) e o médio (T3),
sendo que T2 tende a diminuir sua importância e T3 a aumentar.
Em suma, a "DRE" depende não só das diversas variáveis independentes, tal como
descrito pelo modelo de regressão linear apresentado na Tabela_3, como também
da "DOE", principalmente em T2 (completar o ensino fundamental) e T3 (completar
o ensino médio). Isto significa que as transições educacionais que ainda são as
mais cruciais para definir as desigualdades educacionais no Brasil são
completar o ensino fundamental e o ensino médio (para importância do ensino
fundamental ver Ribeiro e Klein, 1991).
CONCLUSÕES
As análises apresentadas neste artigo tratam de um tema central para
entendermos o processo de reprodução das desigualdades no Brasil: a
estratificação educacional. Em particular, mostrei que tanto recursos e
características dos pais dos indivíduos quanto características institucionais
determinam fortemente as desigualdades de oportunidades e resultados
educacionais. Também descrevi o peso que cada transição educacional tem no
resultado final do processo de escolarização. As evidências avaliadas podem ser
consideradas bastantes robustas, mesmo no caso de não termos incluído variáveis
importantes no modelo estimado, tendo em vista que realizei análises de
sensibilidade, ou simulações, para testar os possíveis efeitos da
heterogeneidade não observada. Confirmei algumas tendências descritas em
pesquisas anteriores, mas também cheguei a conclusões importantes jamais
observadas sobre as desigualdades de oportunidades e resultados educacionais no
Brasil durante as últimas décadas.
As principais desigualdades de oportunidades, que já haviam sido observadas em
estudos anteriores, e que foram confirmadas pelas análises deste artigo, são:
(1) presença de desigualdade de oportunidades em termos de área de residência
(urbana versus rural) em T1, T2, e T3, e em termos de região de nascimento (Sul
versus Norte) em T1 e T4; (2) presença de desigualdade de oportunidades em
termos de status ocupacional da mãe ou do pai em T1, T2, e T4; (3) desvantagens
para filhos de mães que trabalhavam fora do domicílio em T1 e T2; (4)
desigualdade em termos de educação da mãe ou do pai em T1, T2, T3 e T5; e (5)
desvantagens para indivíduos que cresceram em famílias monoparentais ou com
muitos irmãos em T1, T2, T3 e T4. Além disso, também observei a persistência
das desigualdades ao longo do tempo, das coortes de nascimento, como já havia
sido determinado pela literatura anterior.
Além de confirmar as conclusões de trabalhos anteriores, minhas análises
trouxeram duas conclusões novas. Primeiro, observei que a riqueza dos pais, em
termos de ativos econômicos em oposição à renda ou status ocupacional, é um
importante fator para determinar as desigualdades de oportunidades
educacionais. A desigualdade em termos de riqueza dos pais não apenas é a única
que está presente em todas as transições educacionais, como também é muito
alta. Estes resultados são altamente relevantes e jamais haviam sido observados
no Brasil. Segundo, as análises revelaram que a estratificação do sistema
educacional brasileiro entre tipos de escola com qualidades distintas também é
um importante fator que determina as desigualdades de oportunidades. De fato, o
sistema educacional brasileiro parece promover a desigualdade na medida em que
indivíduos que frequentaram escolas privadas e federais de ensino fundamental e
médio têm chances extremamente maiores de progredir no sistema do que aqueles
que frequentaram escolas públicas. As análises também indicam que os pais com
mais recursos econômicos adotam a estratégia de matricular seus filhos em
escolas particulares para garantir que progridam e entrem na universidade, em
geral pública. Este desenho institucional é perverso, na medida em que
contribui para promover filhos das classes sociais mais altas. De fato, como
muitos comentadores têm afirmado, o investimento na qualidade do ensino público
de nível fundamental e médio é de extrema importância para diminuir as
desigualdades de oportunidades e resultados educacionais.
As análises sobre a relação entre desigualdades de oportunidades (DOE) e de
resultados educacionais (DRE) também levaram a conclusões importantes. O
término do ensino fundamental permanece sendo a transição que mais contribui
para a desigualdade de resultados educacionais no Brasil, embora haja um leve
aumento da importância da conclusão do ensino médio. Mais uma vez, estes
resultados indicam que um enorme esforço de política educacional ainda precisa
ser feito para ampliar a conclusão dos ensinos fundamental e médio (mais do que
para promover a entrada nestes graus de ensino), por um lado, e para melhorar a
qualidade das escolas públicas de ensinos fundamental e médio, por outro lado.
Nada disso adiantará, no entanto, se não houver uma diminuição das
desigualdades socioeconômicas. As análises mostram que, mesmo quando levamos em
conta o tipo de escola, as desigualdades socioeconômicas de oportunidades
permanecem. Para melhorar o acesso e progressão no sistema educacional
brasileiro precisamos não apenas melhorar a qualidade das escolas, mas também
as condições de vida das famílias brasileiras.
NOTAS
1. Neste artigo analiso apenas os dados para as pessoas que entraram na escola,
ou seja, excluo da análise as pessoas que nunca frequentaram escola. Esta
decisão foi tomada porque estou interessado em analisar o efeito do tipo de
escola frequentado antes de cada transição nas chances de fazer estas
transições. Portanto, pessoas que nunca frequentaram escola não são incluídas
nas análises. Também fiz análises, que não apresento, incluindo uma transição
zero (entrar ou não na escola) e os resultados são praticamente os mesmos dos
apresentados neste artigo (obviamente, estas análises excluem a variável para
tipo de escola).
2. Para um trabalho mostrando declínio da desigualdade de oportunidades
educacionais veja Breen et alii (2009).
3. Agradeço ao parecerista que mostrou a necessidade de fazer a comparação
entre brancos e pardos na quarta transição. Estimei o mesmo modelo usando
pardos como categoria de referência e obtive este resultado. Os números de
pessoas de cada grupo de cor fazendo cada transição são os seguintes: em T1,
são 3.879 brancos, 3.498 pardos e 982 pretos; em T2, são 3.462 brancos, 2.919
pardos e 807 pretos; em T3, são 2.202 brancos, 1.710 pardos e 492 pretos; em
T4, são 1.567 brancos, 1.069 pardos e 284 pretos; e, em T5, são 627 brancos,
245 pardos e 57 pretos. O fato de a diferença entre brancos e pretos não ser
estatisticamente significativa em T4 pode ser uma consequência do fato de haver
poucos pretos com sucesso nesta transição.
4. Tendo em vista que a inclusão de diversos controles para variáveis
mensurando as condições socioeconômicas poderia estar diminuindo o efeito de
cor da pele ou raça, estimei um modelo incluindo apenas cor e coortes para
estimar as chances de fazer cada transição educacional. Os resultados foram
muito semelhantes em termos de significância estatística, mas os parâmetros
estimados para raça são entre 30% e 44% maiores no modelo sem controles do que
no modelo apresentado (com todos os controles).