A Concentração eleitoral nas eleições paulistas: medidas e aplicações
INTRODUÇÃO
A discussão contemporânea acerca da influência do sistema eleitoral sobre o
comportamento dos políticos no Brasil é credora de trabalhos de política
comparada publicados por dois pesquisadores americanos. O primeiro é Scott
Mainwaring, cujo trabalho, publicado em 1991, salienta a fraqueza dos partidos
políticos no sistema político brasileiro quando comparado a outros sistemas
políticos, motivada pela acentuada autonomia usufruída pelos políticos frente a
seus partidos.
Mainwaring utiliza-se de uma literatura originariamente voltada para a análise
do sistema político norte-americano. Embora este último seja regido por regras
eleitorais distintas, a importância do papel individual desempenhado pelos
políticos nas eleições seria similar1. Segundo Mainwaring, o sistema eleitoral
brasileiro - proporcional de lista aberta - associado a distritos de grande
magnitude estimularia a disputa intrapartidária e incentivaria a ação
individual dos candidatos a deputado. Assim, temas vinculados à "conexão
eleitoral" (Mayhew, 1974), tais como as estratégias para desenvolver o "voto
pessoal" (Cain, Ferejohn e Fiorina, 1987), a existência de vantagens para os
deputados que tentam se reeleger frente aos outros candidatos, ou as condições
em que é possível reclamar crédito por benefícios aos eleitores, tornam-se
temas comuns no debate brasileiro.
Essa análise é aperfeiçoada pelos trabalhos de Barry Ames (1995a, 1995b), que
traz para o debate a importância da distribuição espacial dos votos dos
parlamentares. A análise da distribuição dos votos de um deputado em seu estado
permitiria traçar o seu perfil eleitoral e prever sua atuação parlamentar,
estabelecendo de forma mais precisa a conexão eleitoral brasileira. Segundo
Ames, os perfis eleitorais seriam basicamente de dois tipos: o primeiro seria
representado por deputados eleitos com votos dispersos por todo o estado; o
segundo seria representado por deputados com distribuição concentrada de votos.
Ao contrário dos sistemas distritais simples - nos quais os candidatos
perseguem a maioria dos eleitores -, em sistemas proporcionais a reeleição
seria possível se o deputado fosse capaz de assegurar fatias pequenas, mas
fiéis, do eleitorado. Assim, de acordo com Ames, a principal estratégia para um
deputado buscar sua reeleição seria constituir "distritos informais" (os
conhecidos "redutos eleitorais"), e agir de acordo com seus congêneres
americanos. É no trabalho individual de trazer benefícios para estas
localidades que um deputado assegura um conjunto fiel de eleitores e afugenta
potenciais competidores2.
A despeito da importância da contribuição de Ames ao salientar a dimensão
espacial das eleições brasileiras os indicadores propostos para mensurar a
concentração de votos não foram objeto de muita discussão. Em geral, as medidas
propostas não são discutidas em relação a um contrafactual básico: uma boa
medida de concentração deveria ser nula para o caso de desconcentração
perfeita.
Este trabalho propõe a utilização de um índice de concentração bastante
difundido na literatura de economia regional. O índice denominado G (e esta
será a denominação neste artigo) tem sido utilizado em trabalhos de economia
regional desde Florence (1948) 3. Argumentaremos que este índice possibilita
avaliar com mais clareza a distribuição de votos dos candidatos no interior de
um distrito eleitoral e, consequentemente, aprofundar acompreensão sobre a
dinâmica política local.
Além desta introdução, este trabalho está dividido em mais cinco seções. A
próxima apresentará os índices de concentração anteriormente propostos na
literatura. Na terceira seção será apresentado o índice de concentração aqui
proposto. Na seção seguinte, os novos índices são comparados aos anteriores de
duas maneiras: primeiro, a partir de simulações que permitem o uso de casos
extremos, o que torna a comparação entre os índices mais clara; em segundo,
utilizando resultados eleitorais efetivos dos candidatos a deputado federal
pelo Estado de São Paulo. A quinta seção avalia o grau de concentração nas
eleições paulistas para a Câmara Federal, de 1994 a 2010. Os resultados mostram
que a estratégia de concentração regional é mais utilizada que a municipal;
porém, esse tipo de estratégia ocorre no início da carreira política dos
candidatos que então tendem a se desconcentrar. A última seção conclui o
artigo.
ÍNDICES DE CONCENTRAÇÃO ELEITORAL NO BRASIL
Ainda que a possível existência de estratégias de concentração de voto tenha
ocupado espaço considerável na literatura nacional, o índice utilizado para
medir o grau de concentração foi pouco discutido. Uma revisão da literatura
indica essencialmente que foram propostos três índices, os quais são descritos
a seguir4. Como deve ficar claro nas próximas linhas, Ames (1995b) é o pioneiro
nesse tipo de análise e os outros índices foram derivados desse trabalho
seminal. No entanto, nem Ames, nem seus seguidores atentaram para aspectos
desejáveis de qualquer índice de concentração. Assim, na próxima seção
apresentaremos uma nova proposta de índice.
A formalização dos índices empregará sempre a mesma notação5, o que deve
facilitar a comparação dos mesmos e a leitura do artigo. Desta forma:
votos do deputado dno município m
[/img/revistas/dados/v54n2/a04eq02.jpg] total de votos do deputado d (somatório
dos votos no deputado dem cada um dos municípios do estado)
[/img/revistas/dados/v54n2/a04eq01.jpg] total de votos dos deputados no
município m (somatório dos votos de cada um dos deputados no município m)
[/img/revistas/dados/v54n2/a04eq03.jpg] total de votos de todos os deputados no
estado (somatório dos votos de cada um dos deputados em cada um dos municípios
do estado)
A exposição a seguir utiliza essa notação na exposição dos índices utilizados
na literatura e na proposta de uma nova medida de concentração que, como
tentaremos mostrar, reflete melhor o grau de concentração eleitoral dos
candidatos.
Ames
Ames (1995a, 1995b) foi, provavelmente, o primeiro autor a lidar com o tema e
propor um indicador da dispersão de votos para os candidatos eleitos. O índice
proposto (doravante denominado índice de Ames) busca determinar o grau de
dominância-compartilhamento dos votos e é definido como a proporção de votos
obtidos por um deputado em um município, ponderada pela porcentagem dos votos
daquele municípionos votos do mesmo deputado. Em termos mais formais, o índice
pode ser definido como:
[/img/revistas/dados/v54n2/a04for01.jpg]
Em palavras, Dd, a medida proposta por Ames (1995a), resume o grau de
dominância de um deputado d, e é representada pela média da participação do
deputado dnos votos do município m, multiplicada pela média da participação do
município mna votação total do deputado d. Como afirmado, o objetivo do autor é
estabelecer a concentração de votos do deputado dno município m, ponderada pela
votação obtida no município mpara a votação total do deputado d. A
justificativa é que essa medida reflete se a distribuição dos votos dos
candidatos tem alta proporção de votos distribuída em poucos municípios
("dominante", nos termos do autor), ou se é "compartilhada", ou seja, com
pequena votação proporcional distribuída por muitos municípios6.
Ainda que essa medida tenha atributos discutíveis, como veremos a seguir, a
proposta de Ames é pioneira e influencia as propostas posteriores, inclusive,
em certa medida, a proposta deste artigo. A principal limitação é que o índice
deveria ser uma medida de concentração (ou de desconcentração). Como é
conhecido, medidas de concentração são medidas de dispersão, por isto devem ser
medidas por desvios, e não por uma média. Esta questão deverá ficar mais clara
quando apresentarmos a nossa proposta de medida. Além do mais, esse índice
nunca será igual a zero e, portanto, não carrega um limite inferior com
conteúdo; tampouco se define um valor superior com sentido. Em geral, espera-se
que um índice desse tipo tenha como valor mínimo (máximo) a menor dispersão
(maior). Por outro lado, as duas variáveis que compõem o índice de Ames
representam, certamente, duas medidas cruciais para a distribuição de votos do
candidato.
Samuels
Samuels (2002) utiliza como indicador de dominância o percentual dos votos do
candidato no município em que ele obteve a maior parcela de votos. Em termos
formais, utilizando a notação apresentada no início da seção, o índice proposto
(doravante denominado índice de Samuels) pode ser representado por:
[/img/revistas/dados/v54n2/a04for02.jpg]
Sendo valor percentual, este indicador varia entre zero e um 1 em teoria.
Porém, o único caso em que o mínimo dessa série seria igual a zero ocorreria no
caso em que todos os valores fossem iguais a zero, ou seja, apenas para
candidatos sem nenhum voto, o que não tem sentido prático. O índice será igual
a um 1 apenas no caso em que um deputado concentre todos os votos de um
município. De fato, esta é uma boa propriedade desse índice: um candidato com
todos os votos concentrados em apenas um município é certamente o mais
concentrado possível nessa desagregação geográfica.
Ao ignorar o fator de ponderação, em princípio este índice, tal como o de Ames,
não leva em conta a heterogeneidade da distribuição dos eleitores entre os
municípios, o que implica a impossibilidade de estabelecer um contrafactual
claro.
Pereira e Rennó
Pereira e Rennó (2001) utilizam como medida de dominância o máximo do fator de
ponderação de Ames (1995a). Em suas palavras, utilizam como medida "a soma de
votos obtidos no município onde o candidato obteve mais votos, dividida pelo
total de votos que ele obteve em todo o estado". Este índice pode ser expresso
da seguinte forma:
[/img/revistas/dados/v54n2/a04for03.jpg]
Ainda que o elemento básico tenha partido do índice de Ames, não há nada que
mostre semelhança entre esses dois índices. O mérito desse índice é que o
elemento principal de uma medida de concentração geográfica é o elemento
central da medida. Um município é relevante para um deputado se ele concentra
uma grande parte de seus votos. É claro que, da maneira como foi definido, o
índice tende, em geral, à votação obtida pelo deputado na maior cidade do
estado.
UMA PROPOSTA DE MEDIDA DE CONCENTRAÇÃO REGIONAL DA ATIVIDADE ECONÔMICA APLICADA
À POLÍTICA ELEITORAL: O ÍNDICE G
Este trabalho propõe a adaptação de um índice amplamente utilizado na
literatura de economia regional para identificar o grau de concentração
geográfica dos setores. Este índice, geralmente denominado por G (que será a
denominação adotada neste artigo), foi utilizado pela primeira vez na
literatura de ciências regionais por Florence (1947). Nesse trabalho seminal o
autor faz um longo argumento acerca da superioridade desse índice em relação a
uma adaptação do índice de Gini para a distribuição dos setores nas regiões. De
fato, a discussão sobre a concentração da atividade se inicia nesse período e
representa uma parcela relevante das pesquisas em ciências regionais. A
adaptação proposta neste artigo pode ser definida em termos da notação
apresentada na seção anterior como:
[/img/revistas/dados/v54n2/a04for04.jpg]
De forma simples, e de fácil operacionalização, o índice deduz dos votos
observados para um dado deputado a votação que seria esperada para esse mesmo
deputado caso os votos fossem distribuídos de forma aleatória entre os
municípios. Uma maneira intuitiva de entender este índice é observando que se
um deputado tivesse os seus votos distribuídos exatamente de acordo com a
distribuição dos eleitores no estado seu índice seria zero. Por exemplo, é
esperado que um candidato qualquer obtenha quase 30% de votos no município de
São Paulo, pois quase 30% do eleitorado do Estado de São Paulo se concentra
nesse município. Ou seja, se um candidato dividisse todos os seus recursos
(entendidos de maneira ampla) de forma proporcional ao eleitorado em cada
região, seus votos, em média, estariam distribuídos de maneira proporcional ao
eleitorado. Se, por outro lado, o candidato opta por concentrar seus recursos
em apenas alguns municípios, teria uma participação mais do que proporcional
nesses municípios, aumentando o valor do índice.
Em outras palavras, o contrafactual implícito do G é o caso em que o deputado
apresenta exatamente a mesma distribuição espacial que o eleitorado. De fato,
não é possível afirmar que um deputado acumulando 30% de seus votos em São
Paulo tenha uma distribuição concentrada de votos, o que poderia potencialmente
ocorrer com o índice de Pereira e Rennó, por exemplo. O fator quadrático
permite que desvios abaixo ou acima da proporção do eleitorado sejam
contabilizados da mesma forma7.
Assim, o índice G tem atributos desejáveis do ponto de vista estatístico e um
contrafactual claro e consistente. Em outras palavras, o índice proposto é mais
fundamentado que os esforços anteriores em avaliar a distribuição de votos dos
parlamentares. A próxima seção compara justamente o índice G com seus
antecessores.
COMPARANDO ÍNDICES DE CONCENTRAÇÃO
Nessa seção os índices apresentados anteriormente são comparados de duas
maneiras. Na primeira comparação, recorre-se a uma eleição legislativa com
cidades e candidatos fictícios. A vantagem da simulação é poder definir
diferentes graus de concentração apriorie observar como os índices se
comportam. Na segunda comparação, são utilizados os índices com os dados das
eleições para deputado federal por município do Estado de São Paulo. Por um
lado, a comparação a partir da simulação permite verificar em que situações os
índices diferem. Por outro, a comparação com dados reais permite verificar até
que ponto as diferenças potenciais são irrelevantes na prática.
Simulação
A Tabela_1 apresenta a base da simulação; para isto, é construído um distrito
eleitoral com doze municípios, sendo que o maior deles, o município A, tem 10
milhões de eleitores, enquanto os demais municípios seguem uma distribuição
exponencial com fator de redução de 40%. São definidos dez candidatos com
distribuição dos votos particulares. O primeiro candidato tem todos os seus
votos concentrados no município A, o maior de todos. O candidato seguinte tem
sua votação distribuída entre três municípios relativamente grandes (os
municípios B, C e D). O candidato 3 também está totalmente concentrado, porém
em uma região menor (o município I). O candidato 4 tem seus votos distribuídos
entre os três municípios menores (J, KeL). O candidato 5 tem uma distribuição
totalmente uniforme em função do eleitorado do estado, ou seja, seus 80 mil
votos estão distribuídos de maneira proporcional ao eleitorado dos doze
municípios definidos nessa simulação. Na realidade, os candidatos 2 e 4, que
têm seus votos distribuídos entre três municípios, também respeitam o colégio
eleitoral de cada região.
Os candidatos 1 a 5 diferem em termos de sua distribuição, mas todos têm, no
total, 80 mil votos. Os candidatos 6 a 10 têm uma distribuição correspondente
aos candidatos 1 a 5, porém com uma votação bem menor (8 mil votos). Ou seja, o
candidato 6 está concentrado apenas no maior município; o candidato 7 está
concentrado em três municípios grandes (B, C e D); o candidato 8 está
concentrado em apenas um município pequeno (o mesmo município I); o candidato 9
tem sua votação distribuída em três municípios pequenos (J, K e L); e o
candidato 10 está perfeitamente distribuído nos doze municípios do estado.
A Tabela_2 apresenta os quatro índices discutidos anteriormente para os dez
candidatos hipotéticos apresentados na Tabela_1. Seria esperado queosíndices de
concentração dos candidatos 1 a 5 tivessem exatamente o mesmo valor que o dos
seus correspondentes 6 a 10. Os únicos índices que conformam essa expectativa
são o índice G e o de Pereira e Rennó (identificado na tabela como P&R). De
fato, os índices de Samuels e Ames são dez vezes menores para os candidatos 6 a
10 do que os correspondentes para os candidatos de 1 a 5. Este resultado mostra
que estes dois índices são sensíveis à votação do candidato, o que não é
desejável em um índice de concentração; para esses casos, os índices de Ames e
de Samuels são absolutamente idênticos. De fato, esses dois índices tenderão à
igualdade à medida que se aproximam dos extremos. Por exemplo, no caso de um
candidato cuja votação foi extremamente concentrada, o índice de Ames será o
resultado da soma do índice de Samuels - representando o desempenho do
candidato no município mais concentrado - a uma série de pequenas frações,
representando o desempenho do candidato nos outros municípios. Da mesma forma,
no caso de um candidato cuja votação foi extremamente desconcentrada, os dois
indicadores tenderão ao desempenho médio do candidato.
[/img/revistas/dados/v54n2/a04tab02.jpg]
Dada a distribuição definida a priori, seria esperado que os candidatos 3 e 8
fossemos mais concentrados do grupo, pois estão totalmente concentrados em um
município relativamente pequeno. De fato, os índices de Ames e Samuels
apresentam o maior valor entre os cinco primeiros candidatos para o candidato
3, e o maior valor entre os candidatos 6 a 10 para o candidato 8. Assim, se
ignorarmos o problema de escala que esses índices apresentam (candidatos
menores têm índices menores), eles refletem - para uma mesma escala - que
candidatos com o mesmo número de votos em termos absolutos em um determinado
município estarão mais concentrados se isso ocorre em um município menor do que
se ocorresse em um município maior. O índice de Pereira e Rennó não consegue
diferenciar a concentração do candidato 1 da concentração do candidato 3, nem o
6 do 8; assim como não distingue entre os candidatos 2 e 4 ou 7 e 9. De fato, o
índice P&R apresenta valores extremos com facilidade. Em outras palavras, o
índice não consegue diferenciar com precisão os casos intermediários.
Um atributo relevante do índice G discutido anteriormente aparece também na
simulação. Os candidatos 5 e 10 estão completamente desconcentrados (por
construção) e, portanto, seria de se esperar que um índice de concentração
estivesse no seu valor mínimo para esses candidatos. Este é o único índice com
este atributo. No caso dos índices de Ames e Samuels, o candidato 5 não é o
menos concentrado da amostra. No caso do índice de Pereira e Rennó, os
candidatos 5 e 10 são os menos concentrados da amostra, mas seria fácil montar
um exemplo de um candidato com este índice mais baixo, mas com concentração
positiva8. Este resultado reforça o contrafactual implícito no índice G. Os
únicos que o índice G tem dificuldade de distinguir são os candidatos 1 e 4 e
seus correspondentes "menores", 6 e 9. Mas esta dificuldade é legítima. Seria
mais concentrado um candidato com todos os votos em um grande município, ou um
candidato com votos divididos em três pequenos municípios? Não há como afirmar,
apriori, qual seria o resultado esperado.
É bom destacar que nenhum desses índices (incluindo o G) é insensível à a
gregação geográfica adotada. Para perceber essa característica basta observar
que se os municípios I a L formassem um único município, os índices para os
candidatos 3 e 4 seriam idênticos (bem como seus correspondentes, 8 e 9) nesta
outra escala de análise.
Comparação com dados reais
Após apresentar as vantagens teóricas do índice proposto é importante verificar
se esses atributos se revelam significativos na prática. Para esta comparação
serão utilizados os resultados das eleições para deputado federal no Estado de
São Paulo entre 1994 e 2010. Para realizar tal comparação, é necessário, antes
de tudo, utilizar os índices como maneira de ranquear os candidatos. Em outras
palavras, o valor numérico do índice não tem grande sentido (exceto quando
existe um contrafactual, como no caso do G). O principal objetivo é classificar
os candidatos em termos de sua concentração. Há, evidentemente, uma questão de
escala-a partir de que ponto um candidato pode ser considerado como concentrado
-, que será abordada na próxima seção. No entanto, para fins de comparação
entre os índices, a questão é saber se eles ranqueiam os candidatos de maneira
semelhante ou não.
Para realizar esta análise, os quatro índices são estimados para as cinco
eleições ocorridas entre 1994 e 2010, usando o município como unidade
geográfica. A seguir, para cada índice, os candidatos foram ranqueados
associando o valor 1 para o candidato mais concentrado, o valor 2 para o
seguinte, e assim por diante. Em seguida, os quatro índices foram
correlacionados para todos os anos empilhados, ou seja, para um total de 3. 888
observações.
[/img/revistas/dados/v54n2/a04tab03.jpg]
Em primeiro lugar, os índices de Ames e Samuels são extremamente
correlacionados (96%). Por outro lado, o índice P&R apresenta correlação
negativa com esses dois índices. Pereira e Rennó (2001) podem ter se inspirado
de alguma maneira no índice de Ames, como sugerem em seu artigo, mas não se
pode afirmar que o índice proposto pelos autores seja compatível com o de Ames.
Na realidade, os resultados mostram que esses índices são, inclusive,
contraditórios. Ou seja, faz diferença para o resultado qual foi o índice
utilizado como variável independente.
Por outro lado, o índice de Pereira e Rennó é bem correlacionado com o G (73%).
Este resultado deve-se ao fato de que a concentração no maior município (São
Paulo, neste caso) acaba influenciando sobremaneira o índice G. Da maneira como
foi definido aquele índice, em muitos casos ele será a proporção dos votos do
candidato obtidos no município de São Paulo, dado o tamanho do eleitorado deste
município frente aos demais9. O índice G, por outro lado, também sofre com esse
problema relacionado ao tamanho relativo do eleitorado municipal. Por exemplo,
considerando que o município de São Paulo representa quase 30% do eleitorado do
estado, um candidato com concentração 3% maior do que a esperada nesse
município estaria a cerca de 10% de distância do esperado. No entanto, no
segundo município do estado-Guarulhos, com quase 3% dos eleitores paulistas -,
para obter a mesma diferença de 3% no G (observado menos o esperado), o
candidato precisaria obter o dobro dos votos esperados. Assim, o diferencial da
proporção de votos no município de São Paulo terá sempre um peso elevado no G.
Ainda assim, o índice G mantém correlação positiva com os outros índices,
sendo, inclusive, relativamente alta em relação ao índice de Ames. Nesse
sentido, o G é também não contraditório com os demais índices da literatura. É
verdade que a correlação é relativamente baixa para o índice de Samuels,
aumentando a desconfiança sobre essa medida; mas, ao menos, o sinal é coerente.
A CONCENTRAÇÃO ELEITORAL NAS ELEIÇÕES PAULISTAS PARA O CONGRESSO
Como é conhecido, o Estado de São Paulo é o maior distrito eleitoral da
federação, com quase um quarto do total de eleitores do país. Em princípio, os
custos elevados de se realizarem campanhas eleitorais por todo o estado
induziriam os candidatos a buscar algum tipo de concentração eleitoral como
forma de reduzir aqueles custos. Além disto, a alta magnitude do distrito, com
setenta vagas para deputado federal, tornaria possível garantir o sucesso nas
urnas com uma fatia inferior a 1, 5% do eleitorado10. Assim, seria de se
esperar que ao menos partedos candidatos adotasse como estratégia concentrar-se
em algumas regiões do estado. Nessa seção aplicamos o índice proposto neste
artigo para as eleições de deputado federal no Estado de São Paulo de 1994 a
2010, utilizando, primeiro, os municípios como unidade de análise e, em
seguida, discutindo a consequência de possíveis mudanças no grau de agregação
geográfica.
Concentração e Desconcentração
Os candidatos a deputado federal no Estado de São Paulo aumentaram seu grau de
concentração eleitoral de 1994 a 2002, chegando a um pico na primeira eleição
do milênio para o Congresso. O grau de concentração medido pelo G cresceu 5%
entre 1994 e 1998, e outros 11% entre 1998 e 2002, chegando ao seu nível mais
alto em 2002, alcançando 0, 273. Entre 2002 e 2006 o índice caiu 11%, voltando
ao nível de 1998, mas retomando o crescimento em 2010 com um aumento de 7%,
chegando ao segundo nível mais alto entre as cinco eleições analisadas. Como o
número de candidatos apenas aumentou ao longo de todo o período analisado, a
variação observada não parece ser influenciada pelo aumento de concorrência.
Quando observamos os candidatos por situação, notamos que o mesmo não acontece
para todos os grupos. Os candidatos eleitos por voto, ou pela média do partido,
têm essencialmente diminuído o seu grau de concentração ao longo dos anos. Na
Tabela_4 separamos essas duas categorias de eleitos, pois potencialmente as
duas poderiam ser distintas. Ainda que se observe alguma discrepância entre os
dois índices ao longo dos anos, essa pequena diferença pode ser provavelmente
atribuída ao pequeno número de deputados eleitos pela média, sobretudo a partir
de 1998. Aliás, é curioso que dezessete deputados tenham sido eleitos pela
média partidária em 1994, mais do que o dobro do que se verificou nos demais
anos. De todo modo, as médias totais para essas duas categorias são bastante
próximas. Esse comportamento é bem diferente do observado para os demais
candidatos, seja os que conseguiram uma suplência, seja para os que nem
chegaram a essa condição. Este grupo segue um comportamento bem semelhante à
média, como seria de se esperar, considerando a sua escala. O grupo de
suplentes e de não eleitos, com exceção de 1994, quando tivemos apenas
dezessete não eleitos, se comporta de maneira muito parecida.
[/img/revistas/dados/v54n2/a04tab04.jpg]
Na Tabela_5, empilhamos eleitos por votos com eleitos pela média; e suplentes
com não eleitos, dada a similaridade entre os grupos, observada na tabela
anterior. Com este novo agrupamento, a redução consistentedo grau de
concentração ao longo dos anos para os eleitos torna-se evidente. Depois de uma
certa estagnação, entre 2002 e 2006, o índice volta a cair em 2010, alcançando
seu nível mais baixo do período. Entre 1994 e 2010, o grau de concentração
eleitoral dos candidatos a deputado federal eleitos no Estado de São Paulo caiu
quase 40%. Também fica claro que o movimento observado para os não eleitos
ditou a dinâmica do total de candidatos. Em outras palavras, enquanto os
candidatos eleitos reduziram claramente o grau de concentração, os não eleitos
aumentaram, mas em um ritmo menor e menos consistente. Avariação do grau de
concentração dos não eleitos foi de 15% no período todo, sendo que o pico
ocorreu em 2002, não em 2010.
[/img/revistas/dados/v54n2/a04tab05.jpg]
A observação da média evidentemente não revela os detalhes da distribuição do
indicador. O Gráfico_1 apresenta as funções densidade de probabilidade da
distribuição do G para cada um dos anos analisados. Para mantermos uma ideia de
escala, os dados são apresentados em unidades de desvio-padrão. A área abaixo
da curva acima de dois desvios-padrão representaria o total de deputados com
concentração significativa a 95%. Como está claro no gráfico, a distribuição é
concentrada em valores mais baixos. A maior frequência de valores de G está em
torno de meio desvio-padrão, indicando que, ainda que os candidatos tenham um
grau de concentração considerável na média, há relativamente poucos candidatos
realmente concentrados no estado.
[/img/revistas/dados/v54n2/a04gf01.jpg]
As distribuições se dividem em dois grupos mais ou menos claros: as eleições de
1994, 1998 e 2006; e as eleições de 2002 e 2010. É curioso que a distribuição
de 2006 se aproxime do padrão dos anos 1990, sobretudo da distribuição de 1998.
Há uma semelhança nas eleições federais, pois nos dois pleitos (1998 e 2002) os
presidentes foram reeleitos, enquanto nos pleitos de 2002 e 2010 os presidentes
foram eleitos pela primeira vez. Entender melhor a correlação entre eleições
majoritárias e proporcionais, no entanto, foge do escopo desse artigo.
A diferença entre a distribuição de 2002 e a de 2010 ocorre essencialmente nos
candidatos com concentração mediana, entre um e dois desvios-padrão. Note que a
distribuição de 2010 é mais densa nessa parte do gráfico (está acima da
distribuição de 2002), o inverso ocorrendo a partir de dois desvios-padrão. A
função densidade de probabilidade de 2002 encontra com a de 2010
aproximadamente no valor 2 no eixo horizontal, ultrapassando-a mais adiante.
Assim, a diferença entre as médias de 2002 e 2010 deve-se, sobretudo, aos
valores extremos de 2002 acima dos de 2010. Já a diferença entre as
distribuições de 2002 e 2010 em relação às demais eleições ocorre no grupo
desconcentrado (abaixo de um desvio-padrão). Em 2002 e 2010, a densidade
continua colapsada nessa faixa, porém menos do que nos outros anos.
A distribuição se altera ao longo de tempo de maneira distinta para eleitos e
não eleitos, como seria de se esperar, dadas as diferenças nas médias. A Tabela
6 reforça a interpretação do Gráfico_1. A proporção de candidatos com G abaixo
de um desvio-padrão é muito parecida comparando-se 2002 com 2010, ou
comparando-se 1998 com 2006. Em 2010, uma proporção maior de candidatos estava
concentrada entre um e dois desvios-padrão do que em 2002, o oposto ocorrendo
para os candidatos acima de dois desvios-padrão.
[/img/revistas/dados/v54n2/a04tab06.jpg]
O panorama é distinto para os eleitos. Inicialmente, a proporção de candidatos
altamente concentrados entre os eleitos é bem próxima da proporção observada
para todos os candidatos. Este valor se afasta da média geral em 1998, e
novamente em 2002, estabilizando-se em torno de apenas 5% dos eleitos.
Considerando que o colégio eleitoral do Estado de São Paulo elege 70 deputados,
isto significa que apenas três ou quatro dos candidatos eleitos nas últimas
três eleições estavam significativamente concentrados na escala municipal.
Estas informações sugerem que a maioria dos candidatos eleitos tinha seus votos
relativamente desconcentrados espacialmente. Estes resultados contrariam a
interpretação tradicional sobre o sistema político brasileiro (pelo menos em
relação aos deputados federais eleitos por São Paulo), que salienta a relação
entre a concentração de votos nos municípios e a atividade parlamentar. Os
dados sugerem que os candidatos que adotam uma estratégia de concentração
municipal representam a menor parcela dos eleitos. Este fato era menos presente
em 1994, quando 17% dos eleitos ainda apresentava padrão relativamente
concentrado, ou mesmo em 1998, quando ainda havia 11% de candidatos
relativamente concentrados. Nas eleições da primeira década do milênio, a
proporção de candidatos relativamente concentrados cai para quase 5%.
Escala de Concentração
Toda a análise da dinâmica da concentração do voto da seção anterior utilizou
como unidade de análise o município. Pode ser que o grau de concentração não se
verifique nessa escala. Os candidatos podem optar por uma concentração
regional, ou seja, concentram-se em um agrupamento de municípios. Como vimos no
exercício de simulação, a unidade de análise importa, um princípio conhecido em
ciências regionais. No exemplo apresentado, os candidatos 2 e 7 estariam muito
mais concentrados se a região incluísse dois ou mais municípios do conjunto
formado pelos municípios B, C e D. O mesmo se verifica para os candidatos 4 e 9
em relação aos municípios J, K e L.
Uma maneira de analisar a unidade é fazendo variar sua definição. No caso do
Estado de São Paulo, há duas agregações oficiais. Uma é a classificação do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em micro e meso regiões
geográficas. Estas classificações dividem os 645 municípios do estado em 63 e
15 regiões, respectivamente. Há também a classificação do governo do estado,
que divide o estado de São Paulo em Regiões de Governo (RGs) e Regiões
Administrativas (RAs), fatiando o estado em 43 e 15 regiões, respectivamente. A
classificação do IBGE tem o apelo que poderia ser generalizável para o país.
Por outro lado, a classificação do governo do estado é utilizada para algumas
divisões da gestão pública estadual e, portanto, poderia estar mais ligada aos
arranjos políticos regionais.
A Tabela_7 apresenta, em ordem crescente, essas agregações, e uma adicional
formada pelas Regiões de Governo, exceto a Região Metropolitana de São Paulo, a
qual denominamos de RG ajustada. Esta última região é dividida em sete,
utilizando-se as seis microrregiões geográficas da metrópole, exceto a
microrregião que inclui o município de São Paulo, que é dividida em duas,
separando-se o município de São Paulo dos municípios que compõem a região do
ABC11. Terminamos, então, com 49, em vez das 43, unidades geográficas. Essa
desagregação não oficial foi criada a partir de conversas com políticos do
legislativo que indicavam uma divisão próxima desta, ainda que de maneira
imprecisa.
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O primeiro fato que chama a atenção é que a concentração utilizando unidades
mais agregadas aumenta muito pouco. Os índices para as agregações superiores
são cerca de 25% mais altos do que os índices utilizando o município como
unidade, identificados na primeira linha da tabela. Considerando que as
agregações superiores têm mais de dez municípios em média, este fator é
bastante baixo, sugerindo que a concentração ocorre essencialmente na escala
municipal.
A comparação entre as microrregiões e as RGs indica que o grau de concentração
é semelhante nessas duas agregações, sendo variável ao longo dos anos qual
índice domina qual. No entanto, as RGs ajustadas apresentam concentração
ligeiramente maior do que as outras agregações nessa escala em todos os anos,
confirmando a intuição dos políticos com quem conversamos. As RAs também são
mais concentradas do que as mesorregiões em qualquer ano e, além disso, são
mais consistentes com as RGs. Assim, optamos por nos aprofundar um pouco nas
RGs ajustadas como um primeiro nível de agregação, seguido pelas RAs como uma
aproximação para o segundo nível.
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O mais relevante nesses resultados é a pequena diferença entre os índices nas
diversas agregações. Os índices para as RGs ajustadas é, no máximo, 55% acima
do índice para municípios, e cada RG tem bem mais de 1, 5 municípios. Uma vez
mais, não sabemos o quanto este resultado é enviesado pela presença do
município de São Paulo, mas, de todo modo, não há indicação de efeitos
significativos de concentração na escala regional. Esse resultado é ainda mais
enfático quando se analisa as quinze RAs que, em alguns casos, apresentam
índices menores do que os observados para a RG ajustada. Se há margem para
estratégias de concentração em regiões um pouco maiores do que o município, ela
praticamente se esgota na escala de cinquenta grupos que caracteriza as duas
RGs e a microrregião.
Outro resultado bastante estável é que a diferença entre a concentração
regional vis-à-visa municipal é bem maior no caso dos eleitos do que dos não
eleitos. Enquanto os índices calculados a partir das RGs ajustadas estão em
torno de 50% acima do índice com base municipal para os eleitos, encontram-se
em torno de 22% acima no caso dos não eleitos. Assim, a diferença de
concentração entre eleitos e não eleitos converge quando diminuímos a escala de
análise. Este resultado sugere que mais eleitos utilizam uma estratégia de
concentração regional, embora este número ainda seja reduzido quando comparado
ao grupo dos candidatos em geral, ou dos eleitos em particular.
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De fato, se comparamos a distribuição de probabilidade da concentração de votos
utilizando como unidade as RGs ajustadas com a distribuição partindo dos
municípios, o que notamos é que as duas curvas têm um comportamento
essencialmente parecido até cruzar com o ponto equivalente a dois desvios-
padrão. Apartir desse ponto, no caso da base municipal (vide Gráfico_1), a
densidade de probabilidade cai de maneira monótona, enquanto para a divisão por
RG ajustada se mantém mais ou menos constante até o ponto equivalente a três
desvios-padrão, quando passa a cair sistematicamente.
Alguns Casos da Concentração de Votos Paulista
O número de eleitos significativamente concentrados nos cinco pleitos
considerados aumenta de trinta, no índice municipal, para 63 quando
aunidadeéaRG ajustada. Note-se que este número permanece restrito se
considerarmos que partimos de um universo de 350 eleitos (setenta por pleito).
De todo modo, indica que 18% dos eleitos adotaram estratégias de concentração
regional (comparada com 9% com estratégia de concentração municipal). Estes
resultados combinados estão indicando que a estratégia de concentração
municipal é raramente utilizada entre os eleitos; e que a estratégia de
concentração regional, ainda que não seja a mais usual para se eleger, é bem
mais utilizada.
Para entender um pouco melhor a estratégia de concentração, devemos lembrar que
os 350 eleitos ao longo dos cinco pleitos representam muito menos do que 350
políticos, pois não há restrições à reeleição na Câmara dos Deputados. A
diferença entre o número de deputados federais significativamente concentrados
quando alteramos a unidade geográfica de análise ocorre por dois motivos:
primeiro, porque alguns deputados concentrados na unidade de RG ajustada não
podem ser considerados concentrados na unidade municipal; este é o caso de 23
eleitos da amostra. O segundo motivo é que alguns deputados podem variar o seu
perfil eleitoral ao aparecerem concentrados municipalmente em uma eleição, mas
concentrados apenas regionalmente em outras eleições. Na amostra existem oito
candidatos que inicialmente se elegeram concentrados municipalmente, mas
passaram à concentração regional nas eleições seguintes.
Por outro lado, em alguns casos de deputados que permanecem na disputa por
muitos pleitos nota-se que eles passam a não ser concentrados nem
regionalmente. Estes resultados sugerem que a concentração municipal poderia
ser uma estratégia de entrada em uma carreira eleitoral de progressiva
desconcentração12. O candidato inicia sua carreira concentrado municipalmente;
em seguida, passa a se concentrar regionalmente e, finalmente, torna-se
desconcentrado. Uma boa justificativa para este tipo de comportamento seria
pensar em uma liderança local que se elege localmente e, em seguida, expande
sua participação para o resto da região. Num último estágio, conforme sua
atuação parlamentar, ele se torna amplamente conhecido, tornando-se
desconcentrado.
No entanto, ao final, esta eventual estratégia de desconcentração parece não
ser bem-sucedida para as oito observações deste tipo de estratégia. Antonio
Carlos Pannunzio, concentrado municipal e regionalmente em 1994 (com G regional
de 0, 94), passa a ser concentrado apenas regionalmente em 1998 e 2002 (G
regional de 0, 69 e 0, 60, respectivamente). Finalmente, passa a não ser
concentrado significativamente nem em 2006, nem em 2010 (G regional de 0, 23 e
0, 43, respectivamente). No entanto, após ser eleito por seus votos nos três
primeiros pleitos, é eleito pela média em 2006 e fica apenas com a suplência em
2010. Seus votos, que vinham subindo sistematicamente desde 1994, come-çam a
cair em 2006 (de 126 mil para 109 mil), e novamente de 2006 para 2010 (para 97
mil).
Este mesmo tipo de comportamento pode ser observado para Angela Moraes
Guadagnin, que não foi eleita em 2006 quando apresentou um G de 0, 33 após duas
eleições bem-sucedidas, com índices de concentração significativos. Índice G em
queda associado a não eleição após dois pleitos bem-sucedidos é também o que se
observa para Francisco Marcelo Ortiz Filho, que não se elegeu em 2010, mas
havia se elegido em 2002 e 2006; Iara Bernardi, eleita em 1998 e 2002, mas não
em 2006; e Marcelo Fortes Barbieri, eleito em 1994 e 1998, mas não em 2002.
Telma Sandra Augusto de Souza, após três eleições bem-sucedidas (1994, 1998 e
2002), não é reeleita em 2006, quando seu grau de concentração regional cai
apenas ligeiramente, de 0, 88 para 0, 77, mantendo-se concentrada em todas as
eleições de que participou.
Na realidade, o comportamento de Telma de Souza é bastante particular em
relação aos demais. Telma participou da fundação do Partido dos Trabalhadores
(PT) em 1979, e já em 1982 foi eleita vereadora no município de Santos. Foi
eleita deputada estadual em 1986, e prefeita de Santos em 1988, fazendo seu
sucessor (David Capistrano). Inicia a sua participação legislativa em 1994
concentrada significativamente apenas regionalmente (mas com uma das
concentrações mais baixas entre os concentrados). Em 1998 sua concentração
regional aumenta de 0, 58 para 0, 85 e ela passa a ser concentrada
municipalmente (padrão que se observa apenas para esta candidata entre os
eleitos significativamente concentrados). Seu grau de concentração regional
continua aumentando em 2002, caindo apenas em 2006, quando seus 90 mil votos
não são suficientes para garantir sua reeleição. Volta à Câmara de Vereadores
de Santos em 2008 como a candidata mais votada.
É interessante contrastar este perfil com o de Paulo Roberto Gomes Mansur,
outro político de destaque na baixada santista, em geral de oposição a Telma.
Paulo Mansur é eleito vereador durante a gestão de Telma na prefeitura de
Santos. É eleito deputado federal em 1990, reeleito em 1994. Em 1996, é eleito
prefeito de Santos, cargo a que é reconduzido em 2000. Em 2006, volta ao
Congresso e consegue a reeleição em 2010, em uma eleição conturbada por conta
da sua inclusão na "lista suja"13. O interessante é que Beto Mansur (seu nome
de urna), nascido em São Vicente, na baixada santista, nunca teve votação
concentrada municipalmente, mas sempre teve votação concentrada regionalmente
(e por isso não faz parte do grupo dos oito candidatos analisados
anteriormente). Apesar de a concentração regional ter caído sistematicamente
desde a sua primeira candidatura, esta sempre se manteve bastante elevada: o
menor G registrado, em 2010, foi de 0, 73.
Em resumo, os resultados sugerem que a estratégia de concentração municipal
seguida de uma concentração regional (sobrepondo-se à municipal) parece bem-
sucedida, enquanto a tentativa de desconcentração já parece bem mais arriscada.
Ainda que estes resultados sejam apenas para oito candidatos que começaram
concentrados municipalmente e depois passaram a se concentrar regionalmente, o
fato de os mesmos participarem de dezenove legislaturas e trinta eleições os
torna relevantes para a análise. Na realidade, a grande maioria dos candidatos
concentrados que participaram de mais de um pleito diminuem o grau de
concentração nas eleições subsequentes. No entanto, há que se notar que é
possível que se esteja confundindo a estratégia de concentração/desconcentração
com um possível "ciclo da vida política do candidato". Pode ser que os
candidatos bem-sucedidos tenham, em geral, uma primeira fase de crescimento,
seguida por uma de decadência. Outras pesquisas podem apontar como esse
possível ciclo se relaciona com a dinâmica da estratégia de concentração dos
candidatos em suas distintas escalas.
CONCLUSÃO
Uma questão relevante na ciência política brasileira é a possível existência de
"distritos informais" e suas consequências sobre a atuação parlamentar do
eleito e a qualidade das políticas públicas. Portanto, é surpreendente a
pequena quantidade de trabalhos procurando medir tal processo. Este artigo
reviu as medidas de concentração encontradas na literatura e propôs uma nova
medida mais consistente para medir concentração espacial - questão fundamental
para compreender a política nos estados e municípios brasileiros.
A concentração de votos não é obrigatoriamente ruim; ela representa apenas um
tipo de "estratégia eleitoral"14. Uma medida de concentração dos votos nos
fornece informações sobre a relevância dessa estratégia sobre o resultado
eleitoral; como essa relação tem mudado ao longo dos anos; e quais deputados
estão adotando esse tipo de estratégia.
Ames (1995b) é certamente pioneiro na tentativa de medir concentração. Seu
índice é uma média ponderada e, portanto, de simples uso estatístico. O autor
mede o grau de concentração a partir da média da proporção do candidato em cada
município, ponderada pelo peso desse município na sua votação. No entanto, o
índice de Ames - assim com os outros índices dele derivados - apresenta dois
problemas básicos. Em primeiro lugar, um índice de concentração deve ser também
um índice de dispersão, que é a sua contraparte; logo, um bom indicador não
deve se ater apenas à média, mas sintetizar a variação como um todo. O segundo
problema do índice de Ames é que ele não apresenta um contrafactual claro, o
que torna impossível analisar a diferença entre a distribuição observada e a
esperada dos votos.
Note-se que, neste ponto, o argumento de Ames se afasta do sistema político
norte-americano, pois o interesse de se criar tal tipo de medida faz sentido
apenas em sistemas eleitorais compostos por distritos de larga magnitude, onde
uma fração do voto pode garantir a eleição. Como lidar com múltiplos agentes
interagindo simultaneamente é um problema para qualquer pesquisa empírica
voltada para sistemas políticos como o brasileiro. A intuição que guiou o
presente artigo foi observar que este tipo de concorrência se assemelha ao
problema de localização industrial estudados há décadas pela economia regional.
O índice proposto resolve os dois lapsos do índice de Ames e os de seus
seguidores. O índice G, amplamente utilizado em trabalhos de economia regional,
possui um contrafactual claro: o valor será zero quando a dispersão for total.
O critério de dispersão total também é bastante claro: se a proporção de votos
de um candidato em uma determinada região é idêntica à proporção dessa região
no colégio eleitoral, o candidato não pode ser considerado concentrado nessa
região. Para o caso da análise eleitoral, G será zero se a distribuição dos
votos de um candidato for igual à distribuição dos eleitores no estado. Essas
vantagens teóricas do índice foram demonstradas utilizando um exemplo numérico
com microssimulações.
Na análise do caso paulista, verificou-se que os deputados federais eleitos têm
índices de concentração mais baixos do que os não eleitos, e o grau de
concentração médio vem caindo sistematicamente ao longo dos anos analisados
para esse grupo de candidatos. Talvez a observação mais interessante seja que o
pequeno número de eleitos concentrados municipalmente (trinta) contrasta com o
total de eleitos concentrados regionalmente (63); aparentemente, portanto, a
estratégia de concentração regional é mais frequente entre os eleitos.
Os poucos casos que permitem uma análise transversal apontam para uma
estratégia que consiste em iniciar a vida política concentrado municipalmente,
ampliar o raio de atuação para a escala regional e, finalmente, se
desconcentrar. Dentre os casos analisados, um candidato eleito ao menos uma vez
e disputando mais de uma eleição geralmente reduz o seu grau de concentração.
Também nesta pequena amostra, o mais usual é que o candidato perca a eleição no
seu ponto mais baixo de concentração.
Esses casos desenham uma possível estratégia dos candidatos paulistas. Eles
entram na política aproveitando-se de alguma liderança local e, se eleitos,
aproveitam a oportunidade para expandir sua base eleitoral para a região no
entorno desse município. A nova eleição proporciona uma oportunidade de
expandir ainda mais sua base eleitoral, com entrada na maioria das regiões do
estado. Essa última estratégia, entretanto, aparentemente não funciona bem no
caso paulista.
Considerando a superioridade deste índice, os trabalhos futuros deveriam
utilizar o índice G em pelo menos algumas especificações. De qualquer forma, o
importante é demonstrar que é possível criar índices robustos para a
concentração eleitoral dos candidatos a cargos legislativos. Um índice deste
tipo é fundamental para diversas análises eleitorais e, em certa medida, vem
sendo negligenciado pela literatura, com as honrosas exceções citadas
anteriormente.
Nunca é demais lembrar que a distribuição espacial dos eleitores é questão
crítica para as análises políticas; afinal, a maioria das políticas públicas se
realiza em algum espaço geográfico que define os eleitores beneficiados.
Conhecer o índice serve não apenas para gerar uma variável independente com
maior qualidade, mas também para análises de casos, tal como procuramos
ilustrar.
NOTAS
1. Como afirmado posteriormente pelo mesmo autor (Mainwaring, 1999): "Dentre os
partidos-ônibus que ainda dominam a disputa eleitoral, os políticos respondem
principalmente aos interesses estaduais e locais, de forma similar a que ocorre
nos Estados Unidos" (Mayhew, 1974; tradução nossa).
2. "Uma vez que a distribuição de benefícios locais - pork- é mais importante
do que as políticas públicas de alcance nacional, nem os chefes políticos
locais, nem os eleitores querem substituir um parlamentar que é eficaz na
distribuição daquele tipo de benefícios. Disputas entre candidatos locais,
portanto, são muito difíceis de ocorrer" (Ames, 1995a: 416; tradução nossa).
3. Para aplicações do índice G na literatura sobre economia regional, ver,
entre outros: Fuchs (1962); Enright (1990); Ellison e Glaeser (1997); Dumai,
Ellison e Glaeser (2002); Ellison, Glaeser e Kerr (2010).
4. Embora também discuta a concentração eleitoral, o trabalho de Carvalho
(2003) enfoca o grau de competitividade dos municípios - utilizando o índice de
fracionalização de Rae (1967) invertido para contabilizar o número efetivo de
candidatos. Na mesma obra, o autor também usa um índice muito similar ao de
Ames (1995a e 1995b), discutido abaixo, para analisar o grau de dominância
eleitoral dos deputados.
5. Seguindo a literatura sobre o tema, preocupada fundamentalmente em explorar
as consequências do perfil eleitoral sobre a atuação parlamentar, será mantida
a referência aos deputados federais; entretanto, os indicadores podem ser
naturalmente generalizados para todos os candidatos em uma determinada eleição,
e não apenas os eleitos.
6. Ames ressalta uma outra dimensão, não tratada neste artigo, da dispersão de
votos, qual seja: o grau de proximidade entre os municípios no qual o deputado
foi votado. Ele chama esta dimensão de concentração-dispersão dos votos e
utiliza o índice de Moran I aplicado ao percentual de votos de cada candidato
como medida de correlação espacial dos votos. Nesse sentido, o indicador acima
é uma medida do que o autor denomina de "dominância regional" de cada político.
Infelizmente, tal como no caso da dimensão dominância-compartilhamento, o autor
não apresenta nenhuma estatística descritiva.
7. A alternativa seria trabalhar com o desvio absoluto, mas isto dificultaria a
estimativa da variância.
8. Por exemplo, imagine um candidato com 20% dos seus votos no município A e os
outros 80% divididos igualmente entre oito municípios (ou seja, 10% dos votos
em cada município). Nesse caso, o índice P&R seria de 20% abaixo dos 33,
24% estimados para os candidatos 5 e 10.
9. De acordo com as informações do TSE, no início de 2011 os eleitores do
município de São Paulo somavam cerca de 8, 5 milhões, que representavam quase
28% dos eleitores do estado. Da mesma forma, os eleitores de Guarulhos, segundo
colégio eleitoral do estado, somavam 792 mil eleitores e representavam cerca de
2, 6% do total do estado.
10. Esses custos poderiam ser altos também em estados com grande área
territorial, baixa densidade populacional e uma estrutura viária precária, como
no caso dos estados do Norte; entretanto, em teoria, o número pequeno de vagas
para deputado federal atribuída a estes estados - próximo a oito - reduziria os
incentivos à concentração eleitoral.
11. Além dos municípios que "nomeiam" a região - Santo André, São Bernardo e
São Caetano -, a região é formada por Diadema, Mauá, Riacho Grande e Ribeirão
Pires.
12. Provavelmente o fato de o candidato ser mais conhecido na região onde mora
responde por esta concentração inicial. Para mais detalhes sobre os atalhos
utilizados pelos eleitores para decidir seu voto e as condições de reclamação
de crédito por parte dos candidatos, ver Avelino e Biderman (2009), Bowler,
Donovan e Snipp (1993), Rennó (2009), Shugart, Valdini e Suominen (2005).
13. Apesar de ter sido eleito em 2006, Beto Mansur sempre teve menos votos que
Telma. Elegeu-se nesse ano com 67 mil votos (e novamente em 2010, com 60 mil
votos) por conta da competição interna no seu partido (Partido Popular) menos
acirrada que a existente no PT.
14. É possível, por exemplo, adotar uma estratégia de representar grupos sem
contiguidade geográfica como, por exemplo, os aposentados. Assim, um índice de
concentração regional ilumina apenas parte das possíveis estratégias
eleitorais.