Validade e confiabilidade das medidas de confiança interpessoal: o barômetro
das Américas
INTRODUÇÃO
Confiança interpessoal é um conceito central nas ciências sociais, sendo muito
aplicado à discussão sobre cultura política (Almond e Verba, 1965; Inglehart,
1988), capital social (Coleman, 1998; Putnam, 1994) e redes sociais
(Granovetter, 1973; Burt, 2000). A confiança, portanto, está na essência de
relações causais complexas que vinculam as crenças e ações de indivíduos ao
funcionamento de organizações e instituições, levando a resultados positivos
coletivos e individuais.
Por exemplo, em nível individual, Coleman indica que confiança interpessoal e
capital social podem contribuir para a formação de capital humano (1998).
Indivíduos que estão envolvidos em redes sociais, com altos níveis de
confiança, obtêm dividendos de sua colaboração com outros, aumentando o acesso
a diferentes recursos.
No estudo de organizações, as características de redes como a força de vínculos
entre indivíduos, o que inclui a confiança interpessoal, podem aumentar o
potencial de difusão de informação e inovação (Burt, 2000). A confiança também
está relacionada à participação em organizações voluntárias, pois aumenta a
probabilidade de os indivíduos interagirem com outros (Putnam, 1994). Em ambos
os casos, a confiança é catalisadora da ação coletiva, da colaboração e
coordenação entre indivíduos, melhorando o funcionamento de redes e
organizações.
Além disso, a confiança interpessoal também tem um papel em nível macro,
relacionada a resultados referentes à sociedade. Uma sociedade rica em
confiança interpessoal, redes sociais e organizações voluntárias tem mais
probabilidade de sustentar instituições políticas eficientes, assim como obter
melhores resultados econômicos. Uma sociedade civil ativa impõe controle social
sobre as instituições políticas e econômicas, aumentando a responsabilização
política(accountability)e a eficiência econômica (Putnam, 1994). Outra
abordagem vincula a confiança interpessoal com uma síndrome atitudinal
específica que é favorável ao desenvolvimento de instituições democráticas
(Almond e Verba, 1965; Inglehart, 1988). A confiança também está relacionada ao
comportamento em conformidade à lei, tolerância e reciprocidade; todos
conducentes ao apoio difuso à democracia. Em última instância, dentro desta
perspectiva, regimes democráticos estáveis são constituídos por indivíduos com
altos níveis de confiança interpessoal.
Dessa forma, fica claro que a literatura especializada sobre o tema aponta para
efeitos da confiança interpessoal em diversos níveis de análise. Apesar de seu
papel central em tantas abordagens teóricas, a discussão sobre a mensuração da
confiança interpessoal é rara e superficial, especialmente na ciência política1
. Outras disciplinas, como a psicologia e a economia têm feito avanços mais
substanciais (Glaeseret alii, 2000; Miller e Mitamura, 2003). Nossa proposta é
de contribuir para esse debate em andamento. O propósito deste artigo é avaliar
as estratégias de mensuração utilizadas na operacionalização da confiança
interpessoal em estudos comparados de opinião pública. O principal objetivo é
contrastar diferentes formas de mensuração da confiança interpessoal utilizando
o Barómetro das Américas.
Este artigo utilizará variações na formulação de perguntas sobre confiança
interpessoal inseridas principalmente na rodada do Barómetro das Américas de
2008, e parcialmente replicadas em 2010 no Brasil. Houveram diferenças
dramáticas nos resultados em nível agregado, dependendo do enunciado e
alternativas de resposta dos itens testados.
A Figura_1 apresenta os resultados comparando os vários países incluídos no
Barómetro das Américas contrastando a média da confiança interpessoal em cada
um. O Brasil aparece quatro vezes para cada medida diferente de confiança
interpessoal utilizada nos dois anos de realização da pesquisa - 2008 e 20102 .
A barra BR08 e BRIO indica o ano de coleta do dado para a medida tradicional de
confiança interpessoal no Brasil, medida de forma idêntica aos demais países
incluídos no Barómetro das Américas. BR08IT e BR10IT, por sua vez, foram
testadas exclusivamente no Brasil, com uma ligeira diferença no enunciado da
pergunta e nas alternativas de resposta, que serão descritas em detalhe
adiante.
A diferença na posição do Brasil na Figura_1 na classificação das respostas
agregadas varia dramaticamente dependendo da formulação do item de confiança
interpessoal. Com a formulação tradicional, o Brasil ocupa as últimas posições
na distribuição de países, à frente apenas de Peru e Haiti, que
consistentemente ocupam a rabeira do ordenamento tanto em 2008 quanto em 2010.
Já com a formulação levemente alterada, a posição do Brasil noranking muda
significativamente, indo para o topo da distribuição, ficando próximo de
Canadá, Estados Unidos e Costa Rica, países com o mais longo histórico
democrático na região. Esse achado levanta importantes questões sobre a
sensibilidade do conceito às suas medidas, e trás à tona dúvidas sobre a
validade e confiabilidade das medidas de confiança interpessoal, especialmente
em nível agregado (Seligson, 2002).
No mais, é interessante reparar que a há pouca variação no posicionamento dos
países nas coletas em 2008 e 2010. Ou seja, há certa estabilidade no tempo no
posicionamento dos países quando os comparamos no tempo usando a mesma medida.
Isso indica certa confiabilidade da mensuração - a mesma medida aplicada em
amostras distintas apresenta resultados semelhantes. Mas, isso não quer dizer
que essa medida seja uma boa mensuração do conceito de confiança interpessoal.
Ela pode ser confiável, no sentido de estável no tempo, mas inválida, no
sentido de não medir aquilo que de fato queremos mensurar. Portanto, é possível
especular que a mensuração do conceito de confiança interpessoal sofra mais
claramente de patologias relacionadas à sua validade do que sua confiabilidade.
As diferenças drásticas nos resultados apresentados acima, principalmente
quando contrastamos o uso de formas distintas de mensurar a questão da
confiança interpessoal no Brasil, indicam um potencial problema de falta de
validade dessa medida. Se as duas formas de mensurar o conceito se referem à
mesma ideia, então diferenças na formulação não deveriam levar a variações
substantivas tão grandes. Ao cabo, esse achado levanta a possibilidade de que
há erros sistemáticos de mensuração do conceito de confiança interpessoal na
forma em como ele é costumeiramente mensurado.
Testamos esta conjectura utilizando dados das rodadas do Barómetro das Américas
no Brasil e América Latina em 2008 e 2010. Assim, podemos testar como
diferentes medidas de confiança se comportam quando coletadas simultaneamente
em distintos contextos. Portanto, conduziremos vários testes de confiabilidade
e validade das diferentes medidas de confiança interpessoal. Baseamos nossa
discussão numa combinação de técnicas, conforme sugestão de Carmines e Zeller
(1979).
Antes de prosseguir, cabe definir esses dois conceitos-chave para a análise:
confiabilidade e validade. Confiabilidade se refere a quão consistentes são as
medidas de um mesmo conceito. Assim, os testes de confiabilidade avaliam as
comunalidades, covariação entre itens que medem um mesmo conceito ou suas
diferentes dimensões e são baseados em estimativas de correlação entre itens.
Técnicas estatísticas de estimação, como o coeficiente Alpha de Cronbach e
análises fatoriais ajudam a entender a dimensionalidade latente de um conceito,
quando mensurado por múltiplos itens. A confiabilidade também é mensurada pela
consistência dos resultados obtidos com a mesma medida quando aplicada em
diferentes momentos no tempo, com amostras similares. Assim, confiabilidade
refere-se principalmente às propriedades de mensuração de uma medida. Uma
analogia é com a ideia de calibragem de uma balança: uma medida confiável é
aquela que sempre que aplicada, apresenta resultados fiéis ao estado verdadeiro
da variável que se quer medir. Ou seja, mantendo-se constantes as condições de
pressão e temperatura, um instrumento confiável de mensuração apresentará
sempre resultados idênticos para o mesmo objeto mensurado.
Validade, por outro lado, é um conceito mais complexo. De acordo com Adcock e
Collier (2001) e Fowler (1995), validade refere-se a quão bem uma medida capta
a ideia que embasa um conceito teórico. Assim, validade é aferida em relação à
teoria que aponta as causas e consequências que determinado conceito tem sobre
outros conceitos. Uma forma de avaliar a validade de uma medida se dá por meio
da análise sobre como essa medida se relaciona com medidas de outros conceitos,
onde a teoria prevê uma relação (Adcock e Collier, 2001). Os testes de validade
são, em grande parte, baseados em análise de correlação e regressão, já que
busca avaliar o que causa a variação em certa variável e os possíveis efeitos
dessa variável sobre outras. Cabe também destacar que, segundo Adcock e
Collier, avaliações da validade de um conceito são específicas ao contexto
espacial e temporal em que o conceito é mensurado, pois uma mesma medida de um
conceito pode ter efeitos e causas distintas em diferentes contextos e não
serem adequadas para todos os casos (Adcock e Collier, 2001:534). Em pesquisas
de opinião pública entre países este problema é particularmente preocupante,
pois o significado das palavras e expressões pode variar quando traduzida para
diferentes idiomas ou até mesmo regiões dentro de um país. A tradução de
conceitos para diferentes línguas, mantendo significados idênticos nas
diferentes línguas, é tarefa central para redes de pesquisa comparadas, como o
Barómetro das Américas, Latinobarômetro, World Values Survey, entre outras.
Portanto, a operacionalização de conceitos mediante questionários em pesquisas
desse tipo são especialmente sensíveis à formulação e tradução dos itens. Nesse
caso, testes de validade devem ser feitos com vistas a contemplar a variação
contextual. Assim, é importante avaliar se a validade de uma medida é mantida
quando testada em diferentes países. Também implementamos esta ideia no nosso
estudo ao testar a validade da medida de confiança interpessoal tradicional em
diferentes países incluídos no Barómetro das Américas.
Em suma, nosso objetivo é submeter as diferentes medidas de confiança
interpessoal a uma bateria de testes para avaliar sua saúde metodológica,
oferecendo, ao cabo, um diagnóstico da qualidade da medida em relação à sua
confiabilidade e validade. O artigo primeiramente discute as definições de
confiança interpessoal e como preocupações conceituais se relacionam com as
avaliações de confiabilidade e validade. Em seguida, são descritas as
diferentes medidas de confiança interpessoal utilizadas na rodada brasileira do
Barómetro das Américas. Finalmente, os testes de confiabilidade e validade são
realizados e apresentamos as conclusões do estudo.
DEFINIÇÕES SOBRE CONFIANÇA INTERPESSOAL
A operacionalização de conceitos teóricos é sempre uma tarefa desafiadora nas
ciências sociais. Podemos, inclusive, afirmar que nossos conceitos são tão
úteis quanto mais precisa e correta for sua forma de mensurarão. Sendo assim,
teorizar e mensurar são tarefas inseparáveis e indistinguíveis nas ciências
sociais: são duas faces da mesma moeda. Nesse sentido, apresentamos aqui
evidências de que o conceito de confiança interpessoal enfrenta longo caminho
adiante, tanto em termos teóricos quanto empíricos.
A confiabilidade e a validade das medidas de confiança interpessoal não foram
suficientemente verificadas, especialmente em pesquisas comparativas entre
países. Em geral, usa-se a medida tradicional de confiança interpessoal,
conforme disponível na série World Values Survey, na qual a pergunta pede ao
entrevistado que se posicione frente à uma pergunta com duas alternativas de
resposta: Você acredita que se pode confiar na maioria das pessoas ou é melhor
tomar cuidado ao lidar com as pessoas? Esse único item é amplamente utilizado
em pesquisas ao redor do mundo e no Brasil. Estudos importantes sobre confiança
nas pessoas e nas instituições, como a coletânea organizada por José Alvaro
Moisés, baseiam-se em medidas únicas de confiança interpessoal (2010). Ponte
(2010), estudando o caso mexicano, e Moisés e Carneiro (2010) e Moisés (2010),
que enfocam o caso brasileiro, incluem a confiança interpessoal, mensurada da
forma descrita acima, em modelos sobre distintas formas de apoio ao regime
democrático. Essa vertente de pesquisa segue a dinâmica proposta por Ronald
Inglehart, em seus diversos estudos.
A confiabilidade dessa medida baseada em um único item, no entanto, somente
pode ser avaliada ao longo do tempo em uma mesma amostra ou em diferentes
amostras coletadas em momentos aproximados no tempo. Ou seja, avaliar a
confiabilidade de uma única medida é tarefa árdua. Não obstante, tais análises
de confiabilidade podem ainda sofrer problemas de comparabilidade devido a
efeitos de contexto, nesse caso entendidos como questões relacionadas à posição
do item nos questionários, que varia de uma pesquisa para a outra (Fowler,
1995). Assim, não podemos saber ao certo quanto a operacionalização do conceito
de confiança por meio de uma única medida sofre de erros sistemáticos causados
pelo desenho da pergunta.
Uma medida melhor de confiança interpessoal, do ponto de vista da verificação
de confiabilidade, seria uma escala composta por mais de dois itens, permitindo
testes de confiabilidade interitens utilizando o coeficiente Alpha de Cronbach,
que resume a covariação entre diversos itens, e outras técnicas, como a análise
fatorial. Com as opções de mensuração propostas na rodada de 2008 do Barómetro
das Américas no Brasil, que inclui vários itens distintos de confiança
interpessoal, a confiabilidade pode ser verificada de forma mais específica.
Portanto, a primeira lição importante é que itens de confiança interpessoal em
pesquisas de opinião pública comparadas deveriam permitir testes de
confiabilidade antes de avançar para testes mais sofisticados de hipóteses.
Se levarmos em consideração que diversos estudos apontam para a
multidimensionalidade do conceito de confiança interpessoal, o uso de escalas
passa a ser ainda mais recomendado para captar essas distintas dimensões
(Seligson e Rennó, 2000; Putnam, 1994; Stolle, 1998; Fowler, 1995). Seligson e
Rennó diferenciam dimensões internasversusexternas da confiança. A dimensão
interna diz respeito a quanto a pessoa entrevistada confia nas demais. A
dimensão externa se refere à perspectiva de quão confiáveis os outros são e
quanto as pessoas em geral são dignas de confiança. Neste caso a pergunta aos
entrevistados é sobre sua percepção acerca de como as pessoas em geral confiam
umas nas outras. Por outro lado, uma segunda dimensão é a diferenciação entre
formas particularizadas e generalizadas de confiança, em que a primeira se
refere à confiança em pessoas próximas aos entrevistados e a segunda ao público
mais geral, mais distante do entrevistado (Putnam, 1994; Stolle, 1998). Essa
última forma é a tradicionalmente avaliada em pesquisas de opinião. A confiança
generalizada está relacionada à ideia de Granovetter sobre vínculos fracos
entre indivíduos, facilitando a disseminação de informação (1973). Assim, a
confiança generalizada passa a ser essencial para a governança democrática,
pois facilita a coordenação entre o indivíduo e grupos sociais (Warren, 1999).
Portanto, se há mais do que uma dimensão da confiança interpessoal, é possível
formular novas hipóteses sobre como distintos aspectos da confiança
interpessoal relacionam-se com outras variáveis. Ou seja, essa discussão
estimula um esforço de repensar os vínculos teóricos entre o conceito de
confiança interpessoal e outras variáveis com as quais diferentes teorias
apontam alguma relação, como engajamento cívico, valores democráticos, entre
outros. Como já foi dito, testes sobre a dimensionalidade de confiança são
raros.3 A maioria dos estudos enfoca um único item de confiança e o usa para
testar teorias que relacionam o comportamento de confiança ao engajamento
cívico, bem-estar e apoio à democracia (Inglehart, 1988,1999).
A discussão sobre a dimensionalidade de confiança interpessoal se refere a como
o conceito é definido e entendido. Portanto, está vinculada ao entendimento
teórico de confiança e sua estrutura conceituai. A clareza conceituai também é
muito importante para avaliações de confiabilidade e validade. Se confiança é
definida de uma forma que indica dimensões múltiplas, então as medidas de
confiança devem refletir tal multidimensionalidade. Se o conceito é definido de
forma imprecisa ou não há consenso sobre o significado do conceito, sua
mensuração torna-se ainda mais complexa. Esse parece ser o caso do conceito de
confiança interpessoal.
De certa forma, dado que estamos discutindo o significado de nossas medidas e
sua relação com conceitos, é importante associar a discussão sobre validade com
a de alargamento conceituai ou imprecisão teórica (conceptual stretching)
(Sartori, 1970; Collier e Mahon, 1993). Estes últimos chegam a afirmar que
questões sobre estiramento conceituai e sua capacidade de ser aplicado a
diferentes contextos se traduzem na discussão sobre mensuração pela
investigação sobre a validade das medidas. Em outras palavras, validade está
baseada em uma reflexão sobre como definimos nossos conceitos e estipulamos
teoricamente sua influência sobre outros conceitos. Portanto, a definição do
conceito, feita pela teoria, deve ser levada em consideração em testes sobre
confiabilidade e validade. Em suma, para poder discutir questões de validade,
bem como confiabilidade, é fundamental revisar a definição e a teoria por trás
do conceito de confiança.
Confiança interpessoal é um desses conceitos que todos parecem entender, mas
que não tem uma definição clara e consensual (Hardin, 1999). Existem muitas
definições concorrentes e, às vezes, obscuras de confiança interpessoal. Uma
amplamente citada é a de confiança interpessoal como "interesse encapsulado",
em que uma pessoa confia em outra quando a segunda tem interesses investidos em
atingir os propósitos da primeira (Hardin, 1999). Nesta perspectiva, a
confiança é baseada no conhecimento de uma pessoa sobre as preferências de
outro indivíduo e, baseado nestes interesses e preferências, forma expectativas
sobre o comportamento do outro indivíduo. Assim, confiar é um ato calculado
baseado no conhecimento dos interesses do outro. Só se confia quando se sabe
que os interesses não são conflitantes com aqueles da pessoa em quem se confia.
Isto levanta uma situação curiosa: como se inicia uma relação de confiança? Em
outras palavras, a definição de Hardin de confiança parece inexoravelmente
conectada à ideia de confiança personalizada, em que os indivíduos têm laços
fortes e intensos entre si ou, ao menos, algum acesso à informação sobre o
outro cidadão que pode ser intermediada por amigos ou baseada em reputações. De
qualquer forma, na perspectiva de Hardin, não faz sentido confiar em estranhos.
Offe apresenta uma definição similar de confiança, baseada no conhecimento
sobre o comportamento dos outros e em avaliações de risco de se envolver em
relações baseadas na confiança interpessoal. "Confiança é a crença com relação
à ação esperada de outros" (Offe, 1999:47). Crença, neste caso, é a estimativa
de probabilidade que outros não agirão de forma a prejudicar a pessoa que
confia ou outro envolvido na relação. Como é uma probabilidade, não há certeza
de que a confiança não levará a comportamentos que coloquem em perigo o que
confia. Portanto, sempre há risco envolvido nas relações de confiança.
Obviamente, o risco é diminuído pela quantidade de informação que um tem sobre
o outro, que pode ser baseada em experiências anteriores com aquela pessoa,
reputações e a intermediação de terceiros. Contudo, e este é o ponto principal
de Offe, não há forma de saber exatamente quanta informação e monitoramento são
necessários para que haja confiança. De fato, confiança não é necessária quando
se tem informação completa. Assim, informação demais excede os benefícios da
confiança. Nesta perspectiva, a confiança é um atalho para a plena informação.
Se eu confio em você, não preciso investir muito em monitoramento e na coleta
de informações. Portanto, confiança, na perspectiva de Offe, não depende
necessariamente de relações fortes entre indivíduos e pode extrapolar a rede
pessoal.
Por outro lado, a discussão de Mansbridge (1999) sobre confiança altruísta
ajuda a entender como relações de confiança se iniciam entre estranhos. De
acordo com este autor, há uma base moral para a confiança, dado que cidadãos
podem ter perspectivas gerais sobre quão confiáveis os outros são. A ideia aqui
é que a noção de ser confiável é independente da quantidade de informação que
se tem sobre os interesses e preferências de outros. Neste caso, considerar as
demais pessoas confiáveis é uma atitude baseada em perspectivas mais amplas
sobre natureza humana e expectativas sobre como todos, em geral, devem ser
tratados. Em vez de calcular o risco envolvido em confiar nos outros, na
essência da definição de Hardin e também Offe, Mansbridge argumenta que a
pessoa "A" confia em outros porque "A" se beneficia da confiança recebida de
outros: a ideia de tratar os outros como gostaria de ser tratado está na
essência dessa definição. A perspectiva de Mansbridge se aproxima mais à
dimensão de confiança generalizada, que vai além dos ciclos restritos das redes
pessoais do indivíduo.
Todos estes autores, no entanto, não tentam operacionalizar o conceito de
confiança de forma empírica. De fato, algumas das propostas acima não são
claramente operacionalizáveis. Hardin, Offe e Mansbridge não estão preocupados
em oferecer comentários sobre como medir as diferentes ideias representadas
pelo conceito de confiança. Mas, suas colaborações indicam claramente o grande
desafio de se mensurar apropriadamente - sem erros sistemáticos - um conceito
tão complexo.
Para tal tarefa, normalmente usa-se uma definição mais simples. Confiança é
considerada, na maioria das vezes, como sinônimo de reciprocidade (Putnam,
1994, Inglehart, 1988, 1999; Uslaner, 1999). Nessa perspectiva, uma pessoa age
de certa forma esperando que outros reagirão de forma semelhante no futuro e
essa predisposição leva os indivíduos a "darem um voto de confiança" aos
demais. Há aqui certa semelhança com o conceito de confiança proposto por
Mansbridge, que mais claramente assume esse traço atitudinal, incondicional, ao
contrário das outras definições que trazem embutidas ideias de
condicionalidade, ou de um caráter situacional da confiança interpessoal. No
caso desses autores, a confiança interpessoal é melhor entendida pelos efeitos
que apresenta, como estímulo ao engajamento cívico. Assim, a confiança é mais
claramente definida pelo seu impacto sobre outras variáveis do que pelo seu
significado preciso.
Parece, portanto, que há pouca clareza sobre o significado de confiança
interpessoal, certamente dificultando nossa habilidade de medi-la. Assim,
confiança interpessoal sofre, primeiramente, de estiramento conceituai, com
consequências diretas para sua mensuração. Claramente, a confiança não é um
fenômeno simples de se apreender e é multidimensional. Portanto, é mais
apropriado ser medido por um conjunto de indicadores que melhor captam as
diferentes facetas do conceito, em vez de uma única medida, baseada em apenas
um item de um questionário. Contudo, e ainda mais desalentador, a maioria das
operacionalizações de confiança está baseada em um único item com uma
formulação ou alguma variação desta: você acredita que se pode confiar na
maioria das pessoas ou é melhor tomar cuidado ao lidar com as pessoas?
A estratégia dominante da maioria dos estudos empíricos de confiança
interpessoal é evitar sua definição precisa e, no lugar disto, enfocar na
indicação de quais são os vínculos teóricos entre confiança e outros conceitos,
tais como participação cívica e valores democráticos (Dahl, 1971; Almond e
Verba, 1965). Os argumentos iniciais eram muito simples. A confiança
interpessoal faz parte de uma síndrome cultural associada a instituições
democráticas fortes (Inglehart, 1988). Contudo, Muller e Seligson (1998)
questionaram a clareza deste mecanismo causal, indicando que a confiança é, na
verdade, um resultado da existência continuada da democracia, e não uma causa
da mesma.
Uma consequência dessa crítica é que pesquisas posteriores moderaram suas
afirmações sobre a causalidade entre confiança interpessoal e democracia4 . A
democracia não é necessariamente condicionada por confiança, mas a confiança
pode influenciar fatores conducentes ao funcionamento de democracias, tais como
participação cívica, redes sociais, responsabilização de políticos e tolerância
(Seligson, 1999; Booth e Richard, 2001; Uslaner, 1999; Rennó, 2003). A cadeia
causal ainda vincula a confiança interpessoal à democratização e apoio à
democracia, apesar de indiretamente (Seligson e Rennó, 2000). A confiança cria
incentivos para que indivíduos participem de ação coletiva e desenvolvam
valores caros à democracia, como tolerância e sentimentos de empoderamento e de
pertencimento. Uma sociedade civil mais ativa, por outro lado, engendra mais
controle sobre o Estado, levando a maior transparência e responsabilização. A
democracia se beneficia disto. De acordo com Mark Warren (1999), a democracia é
dependente destas externalidades positivas de relações de confiança.
As afirmações de cadeias causais entre confiança e outros tipos de
comportamento político facilitam testes de validade. Tais testes, como será
discutido adiante, requerem o modelamento da relação entre confiança e outros
constructos, que deve ser orientada pelo conhecimento teórico e empírico
acumulado. Apesar de a discussão sobre a definição de confiança ainda ser
inconclusiva, a identificação do efeito de confiança sobre outras variáveis
está mais desenvolvida, ajudando a iluminar os testes de validade que se
seguem.
Do ponto de vista de validade, os testes devem enfocar se medidas diferentes de
confiança são estatisticamente relacionadas aos conceitos com os quais
teoricamente espera-se que se relacionam. Do ponto de vista da confiabilidade,
a questão é: quantas dimensões têm o conceito de confiança e como a
multidimensionalidade potencial está refletida nas medidas existentes.
Começamos por esse aspecto e em seguida abordamos a questão da validade5 .
EXPERIÊNCIAS COM DIFERENTES MEDIDAS DE CONFIANÇA INTERPESSOAL EM PESQUISAS
COMPARADAS
A rodada de 2008 e 2010 do Barómetro das Américas no Brasil incluiu vários
itens de confiança interpessoal para permitir grande quantidade de testes de
confiabilidade e validade. O item tradicional de confiança incluído em todos os
países é:
Em inglês:
IT1. Now, speaking of the people from here, would you say that people in this
community are generally very trustworthy, somewhat trustworthy, not very
trustworthy or untrustworthy...? [Read options]
(1) Very trustworthy (2) Somewhat trustworthy (3) not very trustworthy (4)
untrustworthy (8) DK
Em espanhol:
IT1. Ahora, hablando de la gente de aqui, idiría que la gente de su comunidad
es ...? [Ler alternativas]
(1)Muy confiable (2) Algo confiable (3) Poco confíable (4) Nada confiable (8)
NS/NR
Em português:
IT1. Agora, falando das pessoas daqui, o sr./sra. diria que as pessoas daqui
são...?: [Ler as alternativas]
(1) Muito confiáveis (2) Algo confiáveis (3) Pouco confiáveis (4) Nada
confiáveis (8) NS/NR
Esse item é o mais similar no Barómetro das Américas à sua versão usada no
World Values Survey (WVS), Latinobarômetro e Eurobarômetro, já descrita
anteriormente. Contudo, em vez de oferecer alternativas de resposta
balanceadas, com duas opções mutuamente excludentes de escolha, como a que é
usada no WVS, o item acima oferece quatro escolhas de resposta em uma escala
unipolar (mede a intensidade). Perguntas balanceadas, em teoria, são melhores,
mas não medem intensidade, ao menos não no formato da questão de confiança no
WVS. Para medir intensidade, elas exigiriam outro item, que perguntaria
exatamente sobre se a percepção declarada para a pergunta anterior é forte ou
fraca. A opção do Barómetro das Américas, assim, inova ao medir a intensidade
da confiança. De qualquer forma, esse item é o que mais se aproxima da versão
popularizada no WVS.
Fica claro que um primeiro fator de complicação em pesquisas comparativas entre
países é a tradução dos itens para os diferentes idiomas. O enunciado da
pergunta e as alternativas de resposta das três formulações são muito
semelhantes, mas criam uma oportunidade a mais de confusão, como veremos logo
adiante. Na Figura_1, discutida na introdução deste artigo, esta é a medida de
confiança com baixa pontuação para o Brasil (BR08 e BR1O).
Contudo, na rodada de 2008 e 2010, outra medida de confiança foi incluída na
pesquisa brasileira, sendo uma variação direta do item tradicional acima.
BRAIT1. Agora, falando das pessoas daqui, o sr./sra. diria que as pessoas de
sua comunidade são dignas de confiança...? [Ler as alternativas]
(1) Muito dignas de confiança (2) Mais ou menos dignas de confiança (3) Pouco
dignas de confiança (4) Nada dignas de confiança (8) NS/NR
Essa versão contém duas diferenças em relação ao item de confiança interpessoal
tradicional. No enunciado da pergunta a frase "dignas de confiança" substitui
"confiáveis". De certa forma, essa opção aproxima a tradução do português à
versão em inglês, que menciona "trustworty", ou seja, que pode ser confiado, em
vez de simplesmente "trust", confiança. Mas afasta a tradução em português da
versão em espanhol, que pergunta quão confiáveis(confiables) são as pessoas da
comunidade e não quão merecedoras de confiança estas são. Ou seja, as
dificuldades na tradução ficam evidentes.
Estas variações nas traduções remetem ao debate entre as perspectivas de Hardin
e Mansbridge sobre confiança. A questão central aqui é o uso da palavra
"trustworthy", que foi traduzida de duas formas diferentes no Brasil no
experimento realizado no Barómetro das Américas. No formato tradicional,IT1, a
pergunta é quantas pessoas do local são confiáveis. Na nova versão,BRAIT1, a
tradução de "trustworthy" é mais literal, dignas de confiança.
Fundamentalmente, as duas medidas podem também estar se referindo a dois
entendimentos diferentes de confiança, com resultados potencialmente variados.
De fato, a diferença nos resultados apresentados na Figura_1 pode advir dessa
variação no entendimento dos dois itens. Utilizando outras técnicas, como
entrevistas em profundidade, é possível testar como realmente são entendidas as
diferenças entre as perguntas, mas isto é certamente uma pergunta de pesquisa
que deve ser explorada em estudos futuros.
Contudo, a variação nos resultados também pode ser devida a uma segunda
diferença na formulação entre os itens IT1 e BRAIT1 referente às alternativas
de resposta. A versão em inglês "somewhat" e em português "algo" no IT1 é
traduzida na versão BRAIT1 em português como "mais ou menos". Na verdade, essa
alternativa gera alguma inconsistência na análise, pois é uma categoria mais
comumente utilizada pela população do que "algo", e pode estar atraindo um
número desmedido de respostas, já que é uma alternativa mediana pouco precisa.
Infelizmente, não poderemos diferenciar os impactos que são causados pela
variação na alternativa de resposta ou no enunciado da pergunta. De toda sorte,
as variações na formulação desse item tiveram impacto relevante nos padrões de
resposta dos entrevistados, o que ficou evidente na Figura_1.
Por sua vez, a Tabela_1 abaixo indica a variação entre os dois itens de
confiança. A tradução das alternativas de resposta varia nos dois formatos da
questão. Fica claro que a alternativa "mais ou menos", oferecida no item
BRAIT1, tem um impacto sobre os resultados. A categoria intermediaria positiva
aumenta quando traduzida como "mais ou menos". Se levarmos em consideração que
a categoria intermediaria negativa é traduzida em ambos os casos como "pouco",
não podemos presumir que "mais ou menos" é entendido como menos positivo do que
"algo". Provavelmente é entendido mais amplamente devido ao seu uso mais comum
quando comparado a "algo". Adicionalmente, a proporção de respostas nas
alternativas mais extremas, "Muito Confiável" e "Nada Confiável", permanece
quase idêntica em ambos os formatos. Assim, a variação na formulação afeta
exclusivamente as categorias intermediárias do item de confiança e não aquelas
que têm uma posição forte com relação à confiança. E interessante notar como os
resultados se mantêm bastante estáveis em 2008 e 2010, com um suave aumento nas
duas questões de pessoas que respondem "Muito Confiável".

Além desses itens, o questionário do Barómetro das Américas aplicado no caso
brasileiro em 2008 também incluiu várias outras medidas de confiança com a
intenção de abordar as diferentes dimensões do conceito, especialmente as
dimensões particularizadas e generalizadas de confiança.
No Barómetro das Américas em sua rodada brasileira, o questionário inclui os
seguintes itens de confiança interpessoal:Gostaria de perguntar em que medida o
(a) Sr.(a) confia nos seguintes grupos. O(A) Sr.(a) poderia me dizer se confia
totalmente, em parte, pouco ou não confia nas pessoas dos grupos abaixo,(leia e
assinale uma resposta para cada item)
[/img/revistas/dados/v54n3/a05qua01.jpg]
Essa bateria de itens se propõe a mensurar as dimensões generalizadas e
particularizadas da confiança interpessoal, pedindo que o entrevistado avalie
desde pessoas próximas, como família e aqueles que conhece pessoalmente, até
desconhecidos, como pessoas que está vendo pela primeira vez, pessoas de outras
religiões e países. Notem que as respostas também são compostas por uma
formulação ligeiramente diferente dos itens anteriores. Desta vez, a categoria
intermediaria superior não está formulada como "algo" ou "mais ou menos", e sim
"em parte".
O questionário de 2008 também inclui dois outros itens que foram perguntados em
todos os países. Abaixo apresentamos a versão em português. O item IT1B é o
costumeiramente usado no World Value Survey e no Latinobarômetro.
IT1A. O quanto o sr./sra. confia em pessoas que conhece pela primeira vez? O
sr./sra. diria que:[Ler as alternativas]
(1) Confia plenamente (2) Confia Algo (3) Confia pouco (4) Não confia (8) NS/NR
IT1B. Falando de forma geral, o sr./sra. diria que se pode confiar na maioria
das pessoas ou que é melhor tomar cuidado com a maioria das pessoas?
(1) Pode confiar na maioria das pessoas (2) E melhor tomar cuidado com a
maioria das pessoas (8) NS/NR
No primeiro formato, IT1A, apenas 2% dos entrevistados respondem que confiam
plenamente. Doze por cento dizem que têm alguma confiança, 39% confiam pouco e
44% dizem que não confiam. Como esse item assemelha-se ao BRAIT2E da série
anterior, cabe uma comparação de suas distribuições de frequência. Os
resultados, de fato, são bastante parecidos. Neste último item, a distribuição
é 2% confiam totalmente, 14% confiam em parte, 32% confiam um pouco e 49% não
confiam. Os resultados para as opções "confia algo" e "confia em parte" são
praticamente idênticos nas duas questões, mostrando que não há muita diferença
no uso desses adjetivos para a qualificação da resposta. O que muda um pouco
são as respostas mais extremas de ausência de confiança, realçadas no item
BRAIT2E.
Já no item IT1B, 93% dos entrevistados afirmam que é melhor ter cuidado com as
outras pessoas. Nesse caso, quando comparamos essa resposta com a alternativa
mais utilizada no Barómetro das Américas, IT1, apresentada na Tabela_1, fica
claro que a existência de quatro opções oferece mais variações de resposta, que
se distribuem de forma mais equânime pela população. Aparentemente, o formato
da pergunta que é usado no WVS e Latinobarômetro exagera a predominância da
desconfiança. Ao menos, isso fica claro no caso brasileiro. Teria sido melhor
oferecer ao entrevistado, após a opção balanceada, uma alternativa que medisse
a intensidade da opinião, perguntando em um formato debranching se o
entrevistado pensa assim fortemente ou fracamente (Fowler, 1995). Na ausência
dessa pergunta posterior, o item IT1B deixa de captar variação significativa
nas respostas dos entrevistados. Lembre-se, esse é o item utilizado pela maior
parte das pesquisas correntes embasadas no Latinobarômetro, WVS e similares no
Brasil. Dessa forma, temos mais evidências de que essa modalidade de mensurar a
confiança interpessoal tende a subestimar o nível dessa atitude.
Não obstante, as diferentes medidas podem indicar distintas dimensões do
conceito de confiança, raramente analisadas em pesquisas comparadas, permitindo
testes diversificados de confiabilidade e validade. A essa tarefa nos dedicamos
no restante do texto.
TESTES DE CONFIABILIDADE E VALIDADE
Ao analisar temas de mensuração, um primeiro passo é verificar a consistência
interna de medidas diferentes do mesmo conceito. Isso, é claro, depende da
inclusão de vários itens que abordem o mesmo conceito. Só assim é possível
testar as propriedades de uma escala que congregue esses itens. Na maioria das
pesquisas comparadas entre países é impossível acrescentar vários itens sobre
um mesmo tema ou conceito, dado que há limitações de espaço nos questionários.
Portanto, a habilidade de testar a confiabilidade de indicadores de confiança
interpessoal é reduzida. Este não é o caso com a rodada brasileira do Barómetro
das Américas de 2008, que, como vimos, incluiu vários itens de confiança
interpessoal.
A Tabela_2, abaixo, apresenta os resultados de testes de correlações entre-item
e o coeficiente Alpha de Cronbach de confiabilidade de escala. Como o item IT1B
somente tem duas categorias, todas as outras variáveis com escalas de quatro
pontos foram recodificadas como variáveis dicotômicas. Os valores ausentes
(missing values) para cada variável, que somados chegam a aproximadamente 2%
das respostas em cada item, foram codificados como zero. Assim, as variáveis
dicotômicas fazem a diferenciação entre aqueles que apresentam algum nível de
confiança, distinguindo os que confiam muito e algo de todos os demais. A
diferença em como os itens são formulados afeta a análise, explicando
parcialmente por que IT1B parece ser a medida com menor correlação com as
outras. Isso ocorre porque as demais medidas foram originalmente formuladas com
quatro alternativas de resposta. Para indicar a recodificação das variáveis,
acrescentamos a seus nomes o prefixo "r" e o sufixo "dum".
[/img/revistas/dados/v54n3/a05tab02.jpg]
Os resultados indicam que as diferentes correlações entre os itens de confiança
interpessoal podem ser convertidas em um único indicador, com o valor total de
0,74 para a escala. Contudo, este resultado pode ser uma consequência do total
de itens incluídos na análise (quanto mais, melhor), bem como por um efeito
inflacionado pela relação entre alguns poucos itens. A matriz acima indica, de
fato, que a série BRAIT2, que varia de BRAIT2A a BRAIT2G, tem a correlação mais
forte com o teste e com os itens remanescentes. As medidas tradicionais -IT1,
IT1A, IT1B - parecem ter as mais baixas correlações com o resto dos itens. IT1A
e IT1B também têm as mais baixas correlações com a pontuação geral do teste. De
fato, ao aplicar testes Alpha somente para a série BRAIT, os valores permanecem
altos, em .73. Quando aplicamos o mesmo teste somente para os itens
tradicionais de confiança - IT1, IT1 A, IT1B - o Alpha cai para .44. Apesar de
esses resultados serem afetados pela quantidade de itens em cada escala, a
diferença mesmo assim é grande entre as duas escalas. Ou seja, as medidas
tradicionais de confiança interpessoal apresentam baixos índices de
confiabilidade. Pequenas variações em sua formulação, sempre tentando captar o
mesmo conceito, geram diferenças nos resultados.
Os testes acima não dizem muito sobre a dimensionalidade dos itens de
confiança. Eles apontam para o fato de que utilizar a bateria de itens BRAIT
como uma escala seria possível. No entanto, é importante verificar se estes
itens se encaixam em diferentes dimensões analíticas.
Para testar a multidimensionalidade da confiança interpessoal, primeiro
conduzimos uma análise fatorial para verificar em quantos fatores os itens
"carregam". Se estiverem abordando uma única dimensão de confiança, então
deveriam todos carregar num único fator. A Tabela_3 indica que este não é o
caso. Seis fatores são gerados pela análise fatorial baseada em máxima
verossimilhança e rotação ortogonal varimax6. A escolha dessa forma de
estimação deve-se ao caráter dicotômico das variáveis incluídas. Como fizemos
na Tabela_2, todas as variáveis foram recodificadas de sua métrica original
para duas categorias a fim de homogeneizá-las e evitar resultados artificiais
na análise fatorial gerada pela variação na forma de mensuração. Dado que onze
variáveis foram incluídas na análise, os resultados claramente indicam que os
itens não medem fortemente uma dimensão singular de confiança.
[/img/revistas/dados/v54n3/a05tab03.jpg]
As cargas nos fatores também fornecem pistas de quais itens estão mais
fortemente associados a cada fator. Assim, fica claro que os itens BRAIT2F e
BRAIT2G, sobre quanto se confia em pessoas de outras religiões e países, têm
uma associação mais forte. BRAIT2E, que mede a confiança nas pessoas que se
conhecem pela primeira vez, também carrega nesta categoria. Isto potencialmente
constitui uma dimensão extrema de confiança, na qual os indivíduos tendem a
confiar até mesmo naqueles que podem ser considerados muito diferentes. Também
é uma indicação das categorias onde os índices gerais de confiança são mais
baixos. Ou seja, são poucas as pessoas que demonstram essa propensão a confiar
até mesmo em que não se conhece. São poucos os que demonstram alguma propensão
ao estilo de confiança, como traço atitudinal, no sentido atribuído ao conceito
por Mansbridge.
Uma segunda dimensão inclui mais claramente os itens BRAIT2C e BRAIT2D, que
verificam o nível de confiança com relação aos vizinhos e pessoas conhecidas,
respectivamente. Este é um nível mais moderado de confiança, no qual os
indivíduos parecem ter alguma relação. Contudo, BRAIT2C também carregou
fortemente em outras dimensões, indicando que não fica claro como os indivíduos
avaliam seus vizinhos. Por exemplo, o próximo fator parece incluir esse item,
assim como outros que abordam a confiança nas pessoas de forma geral,
expressada pelo item de confiança tradicional IT1 e sua variação BRAIT1 e
também BRAIT2A.
Uma quarta dimensão inclui dois itens tradicionais, IT1A e IT1B, com um enfoque
sobre a confiança em pessoas desconhecidas e o risco de confiar nos outros e
BRAIT2E, confiar nas pessoas que se está conhecendo pela primeira vez. Como
havíamos dito acima, esses itens indicam baixos níveis de confiança declarada.
O último item, além de carregar nos fatores 1 e 4, também é o que mais
fortemente carregou no fator 5. Finalmente, a última dimensão inclui família e
vizinhos, indicando um nível ainda mais próximo de confiança. Obviamente, essa
classificação dos itens é guiada pela forma como se distribuem na população,
com opções que demonstram níveis mais altos de confiança se correlacionando com
variáveis que apresentam o mesmo padrão. De qualquer forma, podemos afirmar com
base nos dados acima que os entrevistados tendem a pensar de forma similar
sobre os mesmos aspectos da confiança interpessoal, indicando que há dimensões
diferentes na ideia de confiança.
Em suma, as medidas diferentes de confiança não discriminam claramente entre
dimensões ortogonais, baseadas nas diferenças entre os itens, com alguns itens
carregando em vários fatores. Ainda assim, há alguma possibilidade que a
proximidade de atores determine os níveis de confiança, passando de uma
confiança mais personalizada, baseada em relações mais próximas, para relações
mais distantes e sentimentos generalizados de confiança. As duas dimensões
clássicas dos estudos de confiança interpessoal, personalizada e generalizada,
apresentam uma gradação mais detalhada quando incluímos atores diferentes e
distintas formulações da questão nos enunciados das questões.
No entanto, é importante salientar que as duas formulações alternativas do item
tradicional de confiança parecem se referir a uma dimensão semelhante de
confiança, indicando que ambas poderiam ser usadas em avaliações de como as
medidas de confiança se relacionam às medidas de outros conceitos. De fato,
esse é o próximo ponto de análise.
A tarefa final para avaliar os diferentes itens de confiança é medir sua
validade externa ou de constructo, como denominam Adcock e Colher (2001).
Validade externa se refere a como constructos empíricos de conceitos, que
deveriam estar associados segundo expectativas teóricas, de fato se
correlacionam em análises empíricas. Se as relações teoricamente esperadas não
estão presentes nos testes empíricos, então uma explicação para a ausência da
relação pode estar associada a como os conceitos estão sendo mensurados. Cabe
destacar aqui que a ausência de relação encontrada pode ser uma consequência de
uma teoria mal formulada. Mas, no caso da confiança interpessoal, conceito tão
caro a várias teorias sobre democratização e modernização, cabe antes
desconfiar de sua mensuração do que de sua pertinência teórica.
Para testar a validade externa de itens de confiança, desenvolvemos um modelo -
baseado na discussão sobre capital social, voltada para os determinantes da
participação em associações civis (Rennó, 2003). A variável dependente é um
índice aditivo de participação em reuniões de organizações religiosas,
Associações de Pais e Mestres, associações de vizinhança, sindicatos
trabalhistas, partidos políticos e grupos de mulheres. Trata-se de uma simples
contagem do número de reuniões das diferentes associações em que o entrevistado
participou no último ano. Como é um indicador de evento objetivo, vivido pelo
entrevistado, não cabe aqui toda uma discussão sobre sua validade ou
confiabilidade, já que podemos assumir que há validade de face desse índice.
Ele é uma mera soma de participação em eventos concretos.
Nossa variável explicativa central é a confiança interpessoal. A hipótese de
que confiança está na essência de ação coletiva e participação cívica é central
para muitos estudos sobre os correlatos do capital social (Putnam 1994; Stolle,
1998; Seligson, 1999; Brehm e Rahn, 1997; Rennó, 2001,2003). O argumento é que
cidadãos com níveis mais altos de confiança interpessoal têm mais probabilidade
de participar de ação coletiva, na forma de grupos sociais e associações,
porque têm mais probabilidade de ver os demais cidadãos de forma positiva e se
sentem mais propensos a se arriscar em interações com desconhecidos. Em sua
construção teórica clássica, a confiança interpessoal está baseada em
expectativas de que os indivíduos não tirarão vantagem de outros e que,
portanto, a confiança é um catalisador para interações sociais.
Discussões anteriores sobre por que cidadãos participam de grupos também
incluem outros fatores, além da confiança interpessoal. Outras variáveis
explicativas são:
1) Atenção à mídia medida por um índice agregado de frequência em que os
entrevistados prestam atenção a notícias políticas em programas de televisão e
rádio, jornais e a Internet. A hipótese é que cidadãos que prestam atenção aos
temas políticos terão mais probabilidade se serem ativos em organizações
sociais. Em 2008 foram utilizadas quatro perguntas para mensurar atenção aos
meios de comunicação.
2) A posição ideológica de esquerda está baseada no autoposicionamento de
cidadãos num contínuo esquerda-direita de dez pontos, em que o valor um (1) é
esquerda e o valor dez (10) é direita. Esta variável foi recodifiçada para um
(1) para aqueles que se posicionaram em valores entre um (1) e três (3) e zero
(0) para todos os demais, inclusive aqueles que não sabiam como responder este
item. A expectativa no Brasil é que cidadãos que entendem o espectro ideológico
direita/esquerda e estão mais à esquerda terão mais probabilidade de participar
de associações.
3) Vítima de crime é uma variável binária que indica se o entrevistado foi
vítima de um crime nos últimos doze meses. Indivíduos que são vítimas de crime
terão menos probabilidade de participar de associações. O trauma causado pelo
crime deve reduzir a propensão do indivíduo a participar em formas de ação
coletiva, pois pode gerar pontos de vista negativos sobre estranhos e
fortalecer a sensação de que há riscos na esfera pública (Brehm e Rahn, 1997;
Rennó, 2003).
4) Votou nas últimas eleições também é uma variável binária indicando se o
entrevistado votou ou não nas eleições presidenciais brasileiras de 2006. A
variável é umaproxy da participação política e a expectativa é que cidadãos que
participam politicamente terão mais probabilidade de se engajar em associações
sociais. O voto é obrigatório no Brasil. No entanto, a punição por não votar é
pequena. Assim, 15% dos entrevistados não votaram em 2006.
5) A Tabela_4 abaixo também inclui controles de gênero, idade, escolaridade e
renda. A expectativa é que mulheres têm menos probabilidade de participar de
associações, indivíduos com mais escolarização têm mais probabilidade de
participação, idade deve ter um impacto não-linear, pois à medida que aumenta a
idade, a participação também deve aumentar, mas deve se estabilizar ou reduzir
após certo patamar. Por isso, incluímos um termo ao quadrado para idade.
Finalmente, a expectativa sobre renda não é clara. Quanto à renda, a
expectativa é que cidadãos mais pobres, por conta de terem necessidades
individuais e coletivas mais imediatas do que cidadãos mais abastados, tendam a
se engajar mais em associações para suprir suas necessidades.Dado que a
variável dependente é uma contagem simples do número de reuniões de associações
das quais o entrevistado participou no ano anterior, os dados se aproximam a
uma distribuição Poisson. Assim, estimamos a equação utilizando uma Regressão
de Poisson com erros-padrão robustos.
[/img/revistas/dados/v54n3/a05tab04.jpg]
Os resultados abaixo confirmam algumas destas hipóteses. Atenção à mídia e
participação política por meio do voto nas eleições anteriores têm um efeito
positivo sobre a participação cívica. As variáveis de controle também são
determinantes importantes da participação em associações. Homens de meia-idade,
mais pobres, são os mais prováveis de participar em associações cívicas.
As variáveis mais importantes, para nossos propósitos imediatos, são os
indicadores de confiança interpessoal. Os três modelos apresentados indicam o
impacto das duas medidas diferentes de confiança separadamente e depois
simultaneamente. Fica claro que confiança interpessoal afeta a participação em
associações, como previsto teoricamente, mesmo quando se controla pelo efeito
de várias outras causas possíveis. Isto ocorre nos modelos 1 e 2, mesmo quando
a confiança é medida de forma diferente. Portanto, a confiança interpessoal
parece, sim, ter um impacto robusto sobre a participação em associações. Este
impacto é independente de variações nas estratégias de mensuração. Contudo,
quando confiança interpessoal é medida como BRAIT1, o efeito substantivo dessa
variável é maior.
Dado que as duas medidas não têm forte correlação e carregam na mesma dimensão
de forma fraca quando comparadas a outros itens de confiança, como vimos na
análise sobre confiabilidade dos conceitos de confiança interpessoal, incluímos
ambas simultaneamente na equação no modelo 3. Os resultados, neste caso,
indicam que BRAIT1, o item com uma tradução ligeiramente diferente da forma
tradicional, aparenta ter uma relação mais forte com a participação em
associações. Seu impacto é estatisticamente significativo, enquanto a medida
tradicionalmente usada não é, e a magnitude de seu impacto é quase três vezes
aquela da medida tradicional7. Neste sentido, a nova medida parece se aproximar
mais às expectativas teóricas da teoria de capital social8.
Os nossos últimos testes se referem à lógica da especificidade contextual de
conceitos e a mensuração de validade (Adcock e Collier, 1991). Os impactos de
certas medidas podem apresentar resultados distintos quando analisadas em casos
diferentes, levantando dúvidas sobre a possibilidade de generalização
indiscriminada e universalidade do efeito de uma variável. Para verificar esse
aspecto da mensuração do conceito de confiança interpessoal, contrastamos
abaixo o impacto da confiança sobre comportamento associativo, utilizando o
modelo acima, em países incluídos no Barómetro das Américas que falam
diferentes idiomas. Testamos o modelo acima em países que falam espanhol,
francês e inglês para verificar se os resultados obtidos no Brasil podem ser
replicados na Costa Rica, Uruguai, Haiti e Jamaica, onde variáveis semelhantes
foram coletadas utilizando os mesmos questionários, mas em línguas distintas.
Estes países oferecem variação suficiente de instituições políticas, herança
cultural, experiência com democracia e desenvolvimento econômico, apesar de
serem de tamanhos comparáveis. Esses atributos permitem verificar como o
contexto, em países bastante diferentes, pode influenciar a validade de uma
questão. Sem falar, obviamente, da variação de idiomas do questionário. Assim,
propomos um teste bastante árduo para a validade contextual da medida
tradicional de confiança interpessoal. Dessa forma, testamos o Modelo 1 da
Tabela_4 com o item IT1, em todos esses países.
A Tabela_5 indica claramente que a medida tradicional de confiança não resiste
a testes de especificidade contextual. Dos quatro países acima, os níveis de
confiança interpessoal afetam a participação em associações cívicas somente no
Haiti. Nos outros três, a confiança não tem impacto estatisticamente
significativo e em dois casos o sinal é invertido. Claramente, confiança, em
nível individual, parece ser sensível ao ambiente. Em países como Haiti e
Brasil, que apresentam níveis agregados de confiança interpessoal mais baixos
do que Uruguai, Costa Rica e Jamaica, ter alguma confiança em outras pessoas
faz bastante diferença em influenciar o engajamento cívico. Já nos demais
países, a despeito das variações idiomáticas e das traduções dos questionários,
o efeito da confiança interpessoal não parece ser tão relevante. Assim, as
evidências são de uma heterogeneidade causal da medida de confiança
interpessoal.
[/img/revistas/dados/v54n3/a05tab05.jpg]
Por último, a Tabela_6 replica os testes de validade de constructo feitos
acima, para os dados de 2010. Há uma única diferença no modelo abaixo. A
variável "Atenção à Mídia" em 2010 é operacionalizada com apenas um item, em
vez de quatro, como foi o caso de 2008. Mas ambas captam a atenção dos
entrevistados a notícias sobre política no rádio, televisão, jornais e
Internet. Essa mudança pode ter alterado o efeito da variável, já que em 2010
ela não repete o mesmo resultado de 2008, sendo significativa apenas em dois
países, no lugar de em todos. Combinar atenção a notícias políticas em
diferentes meios de comunicação em uma única pergunta pode ter inserido
imprecisão na análise, já que é sabido que uma boa questão de pergunta trata
apenas de um tema ou um comportamento por vez (Fowler, 1995)9.
[/img/revistas/dados/v54n3/a05tab06.jpg]
As demais variáveis são idênticas às de 2008. Em 2010, o impacto da confiança
interpessoal muda, sendo significativa apenas no Haiti e Jamaica. Ou seja, na
Jamaica essa variável passa a ser significativa em 2010, quando não o era em
2008. No Brasil, o impacto da confiança interpessoal, presente em 2008,
desaparece em 2010, apesar de o tamanho da amostra ter crescido no Brasil em
2010. Portanto, não só confirmamos a especificidade espacial dessa variável,
como também a instabilidade de seu impacto no tempo, o que nos leva a crer que
o efeito dessa variável não é tão robusto quanto à literatura sobre o tema nos
leva a pensar. Confiança interpessoal, portanto, parece ser espacial e
temporalmente limitada(bounded) e definida.
As explicações mais consistentes de participação em organizações sociais, tanto
em 2008 quanto 2010, são participação eleitoral e características demográficas,
como gênero e idade. Um resultado inesperado é que vitimização por crime
aumenta a propensão a se engajar em associações da sociedade civil, ao
contrário da expectativa teórica. E possível, então, repensar a teoria no
sentido de se propor futuramente uma hipótese alternativa na qual o indivíduo
vitimizado vê em sua exposição ao crime um estímulo a se engajar em movimentos
coletivos que tentem prevenir ou atenuar a probabilidade de ocorrência desses
eventos no futuro. Mas, esse tipo de argumentação merece testes específicos e
ficam como uma hipótese a ser perseguida em pesquisas futuras.
CONCLUSÃO
A variedade de alternativas de mensuração de confiança interpessoal incluída na
rodada brasileira do Barómetro das Américas em 2008 permite testes singulares
de confiabilidade e validade. Nossa avaliação dos itens de confiança é de que a
variação no enunciado da pergunta e nas alternativas de resposta têm um impacto
profundo sobre os resultados da análise quando avaliamos os dados em nível
agregado. A comparação entre as duas versões do item de confiança coloca o
Brasil em posições diametralmente distintas no contínuo que classifica os
países, conforme indicado na Figura_1. Claramente, há implicações sérias desse
achado para a elaboração de testes teóricos em nível agregado, como é a
tradição dos estudos inaugurada por Ronald Inglehart usando o WVS e o
Eurobarômetro.
Também, quando examinamos a confiabilidade e validade das duas diferentes
medidas de confiabilidade em nível individual, utilizando várias técnicas
diferentes, os resultados são mistos. Os testes de confiabilidade claramente
indicam que escalas desenvolvidas com itens múltiplos são possíveis e podem
melhorar o nível de detalhamento e especificidade na mensuração das diferentes
dimensões teóricas do conceito de confiança interpessoal. A diferença
conceitualmente definida entre confiança particularizada e generalizada e as
definições baseadas em confiança moral/altruístaversus situacional/calculada
são perceptíveis quando analisamos as diferenciações internas nos padrões de
respostas dos entrevistados a itens múltiplos sobre confiança interpessoal.
Testes de validade que seguem ao exame da confiabilidade indicam que em nível
individual o impacto da variável central - confiança interpessoal - em uma
variável que a teoria aponta como sendo claramente afetada por ela apresenta
resultados inconstantes e efêmeros. A medida tradicional de confiança
interpessoal, quando contrastada com o modelo de mensuração alternativo na
rodada de 2008 do Barómetro das Américas no Brasil, se mostra como uma variável
menos eficaz em prever engajamento cívico. Não obstante, esse resultado para
2008 merece ser avaliado com cuidado, já que o item para mensurar confiança
interpessoal traz uma alternativa de resposta que é problemática, a resposta
"mais ou menos". No caso, não fica claro se é a modificação no enunciado da
questão que gera os resultados diferentes ou nas alternativas de resposta.
Estudos futuros deverão experimentar variações nos enunciados e nas
alternativas de resposta sucessivamente, para isolar o impacto de cada uma das
mudanças.
Apesar desse aspecto ainda inconclusivo sobre qual a melhor formulação da
pergunta e das opções de resposta, não restam dúvidas de que a medida de
confiança interpessoal é sensível ao contexto em que é mensurada e às
características do caso estudado. Quando testamos um modelo idêntico, que
salienta o impacto da confiança sobre a participação em associações nos
diferentes países, vemos que os resultados variam de um país para outro.
Confiança não afeta a variável dependente de forma igual em todos os locais e
seu impacto varia também no tempo, quando contrastamos as análises dos dados em
2008 e 2010. Claramente, isto não somente levanta questões sobre a capacidade
de fazer generalizações das teorias de capital social e a validade universal de
suas medidas, mas também indica problemas adicionais para análises em nível
agregado que presumem tal universalidade. Portanto, o uso de medidas agregadas
de confiança interpessoal, presumindo efeitos idênticos dessa variável em
outras em nível individual, não se sustenta em testes empíricos.
Questões para futuros estudos podem explorar também como as diferentes formas
de confiança afetam diferentemente o envolvimento em ação coletiva. Ou seja,
precisaríamos mensurar as diferentes dimensões da confiança interpessoal e
sistematicamente avaliar seu impacto em diferentes formas de engajamento
cívico, por exemplo. Uma hipótese possível é que formas personalizadas de
confiança levam à participação em algumas formas de ação coletiva, como grupos
locais, e confiança generalizada leva à participação em outras formas de ação
coletiva, como organizações em nível nacional10. Ou seja, ainda há muito que se
avaliar sobre as implicações empíricas dos argumentos teóricos acerca do papel
da confiança interpessoal nos sistemas políticos contemporâneos. Descartá-la
como um conceito teoricamente inútil parece-nos prematuro. O caminho a trilhar
e explorar mais detalhadamente suas formas de mensuração, de tal maneira a
polir essas medidas cada vez mais para que melhor reflitam as nuanças teóricas
que a transformam um dos conceitos mais debatidos na literatura sobre
comportamento político.
NOTAS
1. Para uma exceção, veja Seligson e Rennó (2000) e Lundasen (2002).
2. Todos os países aparecem com abreviações comumente usadas de seus nomes e
indicam o ano da coleta de dados (08 ou 10 para 2008 e 2010). Assim, Canadá em
2008 aparece na tabela como CA08, CR08 indica a Costa Rica em 2008, e assim
sucessivamente.
3. Ver Uslaner (1999) para uma exceção.
4. Para uma exceção, ver a obra de Ronald Inglehart e também achados recentes
de Moisés e colaboradores no caso brasileiro (2010).
5. Essa revisão da literatura não se pretende exaustiva, apenas aponta alguma
das contribuições teóricas mais relevantes sobre o tema. Para mais algumas
abordagens, veja Newton (1999) e Hardin (2000).
6. Constatou-se uma situação de caso Heywood, o que exige cuidado na avaliação
dos resultados, apesar de não invalidá-los. Como se trata de uma estimação de
máxima verossimilhança, não há uma estimativa da quantidade de variação
explicada, apenas o teste de qui-quadrado, que é comprometido pela situação de
Heywood. Não obstante, a definição de quantidade de fatores não é influenciada
pela situação acima e esse aspecto da análise é o que mais nos interessa aqui.
7. A comparação da magnitude do impacto é possível, mesmo que os coeficientes
sejam difíceis de se interpretar, pois a métrica de ambas variáveis de
confiança é idêntica.
8. Não testamos aqui todas as outras alternativas possíveis de mensuração de
confiança interpessoal que poderiam ser desenvolvidas baseadas nos testes de
confiabilidade. Nosso objetivo neste trabalho é contrastar as duas versões
semelhantes dos itens de confiança e não todas as alternativas possíveis. Essa
segunda tarefa é uma boa sugestão para trabalhos futuros.
9. Esse é um exemplo típico dos problemas em se construir um questionário
comparado, criado por um amplo grupo de pesquisadores. Questões que não são
centrais ao estudo acabam recebendo menos importância no estudo e menos espaço
no questionário: esse parece ser o caso da atenção à mídia que foi condensada a
uma pergunta em 2010, mesmo incluindo na pergunta formas distintas de atenção
aos meios de comunicação, algo que deve ser evitado na boa prática de desenho
de questionários (Fowler, 1995).
10. Uslaner (1999) segue este caminho em seu estudo de confiança generalizada e
particularizada.