Dominação e indiferença na teoria crítica de Gabriel Cohn
INTRODUÇÃO
O Brasil é um país cujos cientistas sociais tendem a olhar como se fosse
exclusivo, como se houvesse uma demanda de conhecimento de sua realidade que se
pusesse acima de tudo e mesmo excluísse, na prática, que o pensamento social se
ocupasse de outras dimensões e de outras paragens. O estudo social da realidade
entre nós tem padecido bastante deste viés "nacionalista metodológico". Não se
trata de tara nossa apenas, mas, sim, de problema que acomete os países
periféricos de modo bastante geral: sua situação não-central parece levar sua
intelectualidade a ocupar-se de sua especificidade (contrastada de algum modo
com o Ocidente) e a uma recusa a enfrentar temas mais gerais ou universais -
caso em que é farta a América Latina, para ficar somente em nosso subcontinente
(cf. Zea, 1976). Aliado ao tamanho do país, esse viés particularista faz com
que, afinal de contas, o que parece interessar realmente seja a nossa
"civilização brasileira". As teorias são assim, de modo geral, importadas como
se compra pacotes de inovação tecnológica que nos mantêm na dependência das
grandes empresas internacionais. Afinal, por que gastar tempo e intelecto com
coisas que fogem à nossa esfera de possibilidades efetivas? Para que organizar
um debate que tenha como foco essas questões e desenvolvê-las de maneira
relativamente independente entre nós?
Gabriel Cohn desafia essa convencional prática nacional. Formado na tradição
sociológica da Universidade de São Paulo (USP), onde Florestan Fernandes (
[1958] 1977), ainda que com intenções meramente pragmáticas, reiterava essa
perspectiva ao reservar aos centros estrangeiros a tarefa de desenvolver a
teoria sociológica, Cohn ousou criticamente - como assinala livro recentemente
relançado em sua homenagem (Waizbort, [1998] 2008) - pensar a teoria entre nós.
Até há pouco em razoável solidão. Não que o Brasil não lhe interessasse ou não
interesse. Ao contrário, no Centro de Sociologia da Indústria e do Trabalho
(CESIT), dirigido por Fernandes, iniciou uma trajetória de preocupação com
temas nacionais relevantes, como atesta sua tese de mestrado sobre a Petrobras
(Cohn, 1968b) e estudos vários posteriores. Mas não foi aí que concentrou seus
esforços e seu pensamento, mas, sim, na teoria social e sociológica de corte
crítico, com fortes laços com a Escola de Frankfurt.
Em que então consiste teoria para ele? A pergunta não é de simples resposta,
pois Cohn não possui uma obra realmente sistemática, nem é seu estilo
necessariamente direto e afirmativo, preferindo muitas vezes lançar questões
aos leitores mediante o estudo de certos autores, com as respostas, com
frequência, mantendo-se implícitas. Ele nos brindou com textos sobre temas
metodológicos, dos quais mesmo os mais antigos se mantêm atuais. Este é o caso
de sua participação em debate acerca da relação entre teoria e empiria (Cohn,
1968a), em que, de resto, rompia de maneira indireta, mas decerto nem por isso
menos consciente, com o privilégio que Fernandes atribuía à pesquisa empírica
no Brasil e, inclusive, com o que mais tarde veio a definir como o "ecletismo
bem-temperado" do mestre (Cohn, 1986), ao reivindicar o rigor da teoria como
organizadora de uma totalidade conceituai, sem prejuízo da pesquisa empírica.
Em outras ocasiões abordou os tipos ideais (Cohn, 1978, 2000a) ou trouxe à cena
a categoria adorniana da mediação para dar conta da questão da totalidade no
que tange ao estudo da política contemporânea (Cohn, 1987). E enfrentou as
teorias de autores diversos, desde Weber, Simmel, Durkheim e Tocqueville, a
Habermas e Luhmann, passando, é claro, por seus preferidos, Adorno e Horkheimer
(Cohn, 1978, 1986, 1987, 1990, 1993, 1997, 1998c, 1999, 2000a, 2000b).
Curiosamente, Marx, que ele reputa o maior de todos (Cohn, 2006b:122), pouco
recebeu atenção direta em seus escritos, embora em particular, mas não apenas,
pela mediação de Adorno (ver especialmente Cohn, 1973:126-128) ele esteja
presente em muitos momentos. Ademais, vários autores vêm se tornando melhor
conhecidos no Brasil por sua influência e pela edição de seus escritos, casos
notadamente de Weber e Adorno, até o presente momento inclusive.
Minha hipótese é que existe um tema-chave nos textos de Cohn que, às vezes mais
explícito, às vezes de forma mais implícita, organiza boa parte de sua
reflexão. Trata-se da questão dadominação. Poder-se-ia supor que Weber lhe
proporcionara esta ideia básica, mas creio que isso não é verdadeiro. Na
realidade, ao contrário, foi esta chave que lhe permitiu fazer uma leitura
inovadora - e, a meu ver, sem par em termos de clareza, precisão e
originalidade - da metodologia weberiana, com uma apropriação da obra do
sociólogo alemão pelo viés da crítica à modernidade, no sentido forte do termo.
E isto que se trata de demonstrar nas próximas páginas. Vale notar ainda que a
ideia de "pluralismo" segue lateralmente à de dominação nos escritos de Cohn,
vindo a assumir, mais recentemente, destaque em suas reflexões, relida pelo
prisma da diferença.
A CENTRALIDADE DAS RELAÇÕES DE DOMINAÇÃO
A entrada forte de Cohn no debate intelectual brasileiro foi, ao mesmo tempo,
sua estreia em grande estilo na área da teoria sociológica, pela via da
discussão da teoria da comunicação e da indústria cultural. Trata-se de uma
versão revisada de sua tese de doutorado,Sociologia da comunicação. Teoria e
ideologia, publicada em 1973. E o compromisso com a crítica, em particular de
uma divisão e nomenclatura que estavam bastante na moda - o que não quer dizer
em absoluto que tenham desaparecido -, se põe de maneira central nos
fundamentos de seu argumento conceituai. "Massa" e "elite" eram então dois
termos-chave na discussão sobre a cultura. Cohn deixa claro que a ideia de
"massa" (e seu correlato, "multidão") tinha origem na reação conservadora do
século XIX à Revolução Francesa. Em Le Bon ela era fundamental; Tocqueville,
Mili e Hegel reafirmaram o viés negativo dessa perspectiva e sua expressão como
"opinião pública" massificada, isto é, sem espaço para a individualidade
racional; e a filosofia e as ciências sociais posteriormente absorveram,
conscientes ou não de suas origens, tal noção em seu aparato discursivo, como
se vê em Durkheim e Arendt (Weber mantendo-se aí curiosamente ausente). Isso
teve grande impacto na teoria da comunicação, inclusive nas ideias defendidas
por autores como Blumer. Airracionalidade das massas era o ponto crucial do
diagnóstico altamente negativo que essa linha de pensamento tão influente
apresentava (Cohn, 1973:17ss, 45-51,63ss). A ela se contrapunha o conceito de
"elite", que seria compartilhado, variações não obstante, por autores como
Mosca e Mannheim, e inclusive por Wright Mills (que se perderia ao acabar tendo
que supor a existência de uma "massa" para tentar denunciar o poder de supostas
"elites"). Mas Cohn é ácido quanto a tal construção:
[...] o problema não é o da simples presença de minorias dominantes,
mas dalegitimação de seu domínio enquanto "elites". Resta saber se
uma noção tão obviamente construída pelos interessados, para
justificar sua posição de mando na sociedade, pode ser considerada
apta a converter-se em conceito científico. Na realidade, a noção
deelite representa a quase exata contrapartida daquela demassa.
Trata-se de construção de caráter ideológico, no sentido mais
imediato do termo. E a contrapartida "quase exata" porque o estatuto
histórico dessas noções não é equivalente. Ambas são produzidas na
mesma área da sociedade: justamente aquela ocupada pelas "elites".
(ibidem:30, ênfases do original)
Assim, se em um primeiro momento a ideia de público e opinião serviu à
burguesia ascendente para desafiar o Absolutismo e conquistar espaços sociais e
políticos, à medida que os setores populares se faziam mais presentes uma
distinção que buscava garantir a legitimidade do domínio de tais "elites"
emergiu - como uma "ficção política negativa": a "massa" - para defender a nova
forma de dominação, o poder "já conquistado", em um sentido "restritivo". A
própria ideia de opinião pública se transmuda, desde Hume, na verdade, e mais
claramente a partir do utilitarismo de Bentham: ela se referirá doravante a uma
forma de "controle social" por parte dos detentores do poder, antes que à
expressão de uma racionalidade livremente expressa na esfera pública. Em Mills,
ademais, o "público" já se dissocia e se opõe à "massa", ao passo que os
intelectuais alemães reivindicariam uma liderança da elite para a formação do
juízo estético das classes médias, excluídas da possibilidade de fruição dos
bens culturais as camadas inferiores. E, de Tocqueville a Arendt, a atomização
dos indivíduos perante um Estado todo-poderoso vai ganhando pouco a pouco
preeminência(ibidem-Al-A2, 58-62).
Assinale-se, desde logo, que a narrativa e conceitualização de Cohn, a despeito
de seu formato mais limitado, apresenta uma diferença significativa em relação
à hoje famosa teoria de Habermas ([1962] 1984) a respeito da emergência da
"esfera pública". Este autor via seu apogeu no século XIX, sem de fato
tematizar seu caráter burguês excludente e supostamente racional-consensual, o
que lhe valeu inúmeras críticas (ver Eder, 1985 e 2006), e sem pôr em tela a
questão da dominação, que surgiria de forma específica, isto é, sistêmica,
somente no século XX. Em contrapartida, Cohn é bastante mais crítico ao
assinalar que as ideias de comunicação, público e opinião vêm, em seus
primórdios mesmo, contaminadas pelo sistema burguês de dominação e pelo ranço
conservador que visava a excluir as "massas" do direito legítimo de participar
das instituições modernas em construção. E que em Habermas as ideias de
dominação e conflito estão fundamentalmente ausentes, assim como classes e
agência coletiva em sentido forte, ao contrário do que ocorre com Cohn, embora,
ao menos formalmente, mais adiante Habermas (1992) recusasse uma concepção
elitista da democracia. O que não poderia deixar mesmo de ser o caso, pois,
como Cohn (1973:70) observa em relação a Kornhauser, um dos principais teóricos
da sociedade de massas (e do chamado "totalitarismo"), é preciso dar-se conta
de que "[...] uma teoria que toma como noções centrais as de 'elite' e 'massa'
simplesmente não pode ser democrática, visto que suas categorias centrais de
análise são inteiramente conservadoras e 'aristocráticas', seja como for o modo
em que se articulam no discurso". Obviamente, Cohn não quer dizer com isso que
qualquer autor que utilize essa conceituação - e hoje são muitos os que o
fazem, ao menos no que concerne às "elites" - seja antidemocrático, conservador
ou algo semelhante. Antes, nos convida a examinar, criticamente, o significado
profundo de noções que podem, à primeira vista, parecer inocentes, encontrando
abrigo até mesmo em autores inconformistas, como no caso de Wright Mills.
Vale notar ainda que Cohn exime Freud e a Escola de Frankfurt, isto é, Adorno,
Horkheimer e Marcuse, de responsabilidade no uso dessas categorias. Em Freud,
contrariamente à usual assimilação de sua obra à vertente representada por
LeBon, não obstante elementos conservadores expressivos em sua concepção de
modo geral, Cohn vai descobrir na ideia de "massa" uma maneira quase
sociológica, ainda que obviamente estruturada pelas teses da psicanálise, de
tratar noções como "grupo" e "instituição", com ênfase no papel que cumpre o
"Ego ideal" como argamassa, por vezes problemática sem dúvida, da solidariedade
social. Destaca aí, mais uma vez, a questão da dominação na relação entre
"líder" e "massa"(ibidem:2A-26). No que se refere a Adorno e Horkheimer,
rejeita qualquer identificação de suas ideias com a corrente predominante da
teoria da sociedade de massas1 . Se empiricamente, admite, a referência à
"massa" pode ser encontrada de passagem na obra daqueles autores como "agregado
de indivíduos atomizados" - noção que, deve-se frisar, de resto não compartilha
-, teoricamente para eles se trataria de destacar, de novo, o tema da
dominação, pois veriam a "massa" como "produto social do aproveitamento
racional dos elementos irracionais disponíveis"(íbidem:27). Mais ainda, ao
recuperar as últimas obras de Adorno, em que a teoria da "racionalização" de
Weber - que resultaria, em larga medida, na ideia de "sociedade administrada" -
cede à embocadura anticapitalista da teoria de Marx sobre "fetichismo da
mercadoria", Cohn(ibidem:l2i-128,129-132ss) reitera a questão da dominação. Ele
aponta o papel das ideologias, da "falsa consciência" e, em particular, das
classes sociais, destacando a esfera da produção em relação à do consumo no que
tange àquilo que Adorno trataria como a "indústria cultural". Isso o levaria,
de forma um tanto obscura, pois se resume a uma promessa a ser posteriormente
desenvolvida, à tese de que o conceito demensagem forneceria o núcleo teórico e
metodológico de uma sociologia da comunicação {ibidem:\59, 161-162)2 .
Em que medida isso se manteria nos trabalhos posteriores de Cohn? Não
provocaria a introdução da obra de Weber uma inflexão em seu pensamento,
afastando-o de uma construção crítica tão cortante como a manifestada nesta sua
primeira grande obra? De modo algum. Pois o que emerge de sua leitura emCrítica
e resignação. Fundamentos da Sociologia de Max Weber reitera aqueles temas.
Bastante marcada pela concepção de Fleischmann ([1964] 1977; Cohn, 1979:esp.
cap. 3), que ele mesmo fez publicar anteriormente em português, ela traz para a
linha de frente precisamente o conceito de dominação, que emerge em Weber em
grande medida sob a influência, embora não exclusiva e muito menos absoluta, de
Nietzsche. Cohn tratará o vocábuloHerrschaftcomo dominação mesmo, sem meias-
palavras, confirmando a sua dura carga realista, vendo opoder não como mera
autorização legítima e, sim, como a capacidade de fazer com que outrem se
comporte de acordo com a vontade e o comando(Behfel) daquele que se encontra em
posição hierárquica superior, ainda que com uma roupagem hermenêutica que de
alguma forma justifique essa capacidade diferencial, do que derivam importantes
consequências metodológicas e éticas. A própria racionalização, ainda que Weber
jamais o explicite, é entendida como, pelo menos em parte, um resultado da
dominação, porquanto a probabilidade (ou "chance") de uma ação ter curso se
alicerça na permanência das condições sociais; esta, por seu turno, operaria
como "um índice da presença e da eficácia do processo de dominação/legitimação,
na medida em que é nesse processo que encontramos a forte conversão de linhas
de ação em condutas cotidianas [...]", para além da mera rotina. E mais, a
dominação permite medir inclusive o "grau" de racionalização das ações, pois é
ela que faz com que aquela torne estas "plenamente" previsíveis (Cohn, 1979:
90), sem que interessassem a Weber, argumenta Cohn(ibidem:82), as "vivências"
do sujeito em relação a sua personalidade, mas, sim, sua "experiência" na
relação com outros agentes, em princípio livres e capazes de impacto causal,
mas submetidos a relações de poder que estruturam a realidade e a própria
leitura que dela podemos fazer.Sujeito edominação são, assim, "categorias
fundamentais" no esquema (analítico) weberiano e ganham destaque na
interpretação que vamos reconstruindo(ibidem:138).
Contra Bendix, Cohn explicitamente recusa a identificação feita com o estatismo
pastoral que aquele autor atribuiria a Weber, vinculando-o a preocupações de
Hegel - quando na verdade, se relação há, é muito mais aquela que surge das
páginas daFenomenologia do espírito, acerca das relações entre o senhor e o
escravo, sem, contudo, uma consciência que transcenda a luta imediata e a
dominação entre os sujeitos. Esta diria respeito, em Weber, à "orientação
básica", recíproca, na vida cotidiana, ao passo que a multiplicidade dos
valores termina reduzida precisamente pelo poder de mando dos dominantes, que,
destarte, obrigam, ao construir esquemas de legitimação, os dominados a abrir
mão da busca de "valores alternativos". Além disso, o quadro administrativo
surge, aqui, com muito menos autonomia que nas leituras usuais de Weber,
cumprindo, sobretudo, uma relação de mediação (não dialética, deve-se
assinalar, logo externa aos que vincula) entre dominantes e dominados{ibidem:
\\9-\23). E verdade que Cohn tende a restringir sua análise à modernidade e à
"dominação racional-legal", e talvez à "carismática" de modo implícito,
deixando um tanto a descoberto a "dominação tradicional" (ver Weber, [1921-22]
1994-99). É verdade também que muito do que Cohn traz à baila não pode ser
encontrado, como ele mesmo chega a observar, textualmente nos intricados e
sutis escritos de Weber. Mas sua argumentação é mais do que legítima: ela
permite a compreensão do significado de certos aspectos do pensamento weberiano
que com frequência permanecem obscurecidos por questões metodológicas menores,
ao passo que estas são aqui integradas em um plano superior, e, portanto, mais
esclarecedor3, remetendo-nos, enfim, ao plano ético. Pois é aqui precisamente
que a visão "realista" e "desencantada" de Weber se encontra, e de certa forma
se opõe aos valores mais caros ao próprio sociólogo alemão - autonomia e
liberdade, como expressão de um liberalismo humanista deslocado em um mundo de
crescente dominação racionalizada. Crítica e resignação derivariam dessa
desafortunada conjunção, pois se Weber recusa axiologicamente os contornos
essenciais de seu mundo, não crê ser possível efetivamente transformá-lo.
Assim, o que almejava era conhecê-lo ao máximo para saber o quanto podia
"suportar" (Cohn, 1979:138ss).
Como vimos, então, aflora nessa discussão a temática do pluralismo que seria
crucial na modernidade e dificilmente se esclarece bem diretamente nos textos
de Weber em sua trágica conjunção com a homogeneizante dominação racional-legal
-, resolvida precisamente por esse processo em que poder e racionalização se
conjugam e eliminam, ao menos em grande medida, a promessa moderna de
liberdade. Anteriormente, porém, esse tema já havia intrigado Cohn, no curso de
sua análise das teorias da comunicação. Mas àquela altura não vê efetivamente
muito avanço na concepção pluralista que encontra na sociologia norte-
americana, pois a considera meramente descritiva, sem capacidade explicativa, e
até mesmo compatível com argumentos relativos à sociedade de massas. Os
princípios organizadores da vida social permanecem na penumbra, com ao todo
social sendo imputado fraco potencial democrático (Cohn, 1973:78, 83,94-
97,109ss). Mas, nem teórica, nem normativamente, a questão avança muito a esta
altura. Seria preciso esperar a virada do milênio e uma nova configuração da
modernidade para que isso acontecesse.
Enfim, vale notar que Cohn a esta altura muito claramente articula sua teoria a
partir de uma forte noção de subjetividade. Se não a elabora no plano coletivo,
isto é, para além do plano individual, ainda que o integrando, ela está
presente com toda força exatamente na centralidade que atribui ao conceito
dedominação, sem prejuízo de outras dimensões, tradicionalmente ditas
sistêmicas ou estruturais. Segundo ele mesmo, isso lhe valeu uma, a meu ver,
estranha acusação de weberianismo da parte de Florestan Fernandes por ocasião
da defesa de sua tese de mestrado (Cohn, 2006:116-117). Mas Cohn, cuja leitura
de Adorno é tão forte, e na qual se distancia da ideia mais antiga deste autor
sobre uma suposta "sociedade administrada" (Cohn, 1973:126), para, em vez
disso, emprestar ênfase aos conceitos de classe e dominação, poderia ter
perfeitamente rebatido aquele comentário um tanto torto. Inspirando-se em
Adorno, seria com certeza capaz de demonstrar que a teoria crítica pode ser
entendida de modo estruturalista, ou mesmo funcionalista, sem que essa seja a
única leitura possível, não sendo, a rigor, sequer a mais adequada (ver, por
exemplo, Anderson, 1984). De resto, assim como era o caso para a esfera pública
e a comunicação, onde subjetividade, dominação e conflito se destacavam, com
referência à obra de Weber é o conjunto da vida social que aparece atravessado
pelo conflito e estruturado pela dominação, ambos assentando-se sobre uma
subjetividade que Cohn não chega bem a definir. Se isso é verdadeiro para a
fase dos escritos que acabamos de analisar, manter-se-ia nas décadas seguintes,
com amiúde mais economia de expressão e alusões, porém por vezes com mais
precisão na forma de desenharem-se as questões.
O CENÁRIO DESOLADO DA MODERNIDADE CONTEMPORÂNEA
Uma das preocupações mais caras a Adorno, e que se expressa inúmeras vezes em
seus textos, inclusive nas discussões acerca do "logocentrismo" da modernidade
e de sua expressão direta no antissemitismo, naDialética do Esclarecimento
(Adorno e Horkheimer, [1944] 1985), referia-se ao "particular"(das Besondere)
em sua multiplicidade e absoluta dignidade humana - e inclusive no que tange à
natureza. Tratava-se de denunciar uma razão que se convertera em mito e
dominação, e cuja mimese fixava-se em um ponto que, ao homogeneizar o mundo,
obscurecia antes que iluminava. Isso era feito em nome de uma razão mais plena,
capaz de "[...] achegar-se reflexivamente ao diferente" (Cohn, 1997:11). Isso
culminaria em Adorno, na completa e delicada articulação filosófica de sua
"dialética negativa", em que recusava a síntese de modo a escapar à tirania de
uma razão que recusava tudo que lhe fosse diferente e teimasse em permanecer
irredutível, subsumindo-o pela transformação ou o negando e destruindo, como
fez com os judeus. Mas obviamente essa negatividade da dialética adorniana
apresentava-se em defesa da liberdade, da solidariedade e de um universo mais
amplo e aberto à diversidade, ainda que o filósofo se recusasse, por seu turno,
a dar conteúdo específico a essa utopia, que se apresenta então como uma razão
que não pode pronunciar seu nome (Adorno, [1966] 1980:213-214, 261-262). Essa
temática, embora presente, não se manifestava, como já observado, com
centralidade nos textos de Cohn dos anos 1970 e seguintes. A partir do novo
século ela se torna fundamental, conquanto a referência explícita e central aí,
pinceladas à parte, não seja tanto Adorno. Sem dúvida, Cohn (1990, 1998a)
sugere que os temas relativos ao conceito de indústria cultural, tais como
dominação e homogeneização, retêm validade indubitável, não obstante a
necessidade de pesquisa empírica reiterada para sustentar o ponto, no mundo
pós-fordista, pós-produção em massa, customizado, ou no qual a "reflexividade"
dos sujeitos se exerceria com menores peias (segundo autores como Beck e
Giddens, por exemplo). O conceito de Adorno teria muito a nos dizer, a despeito
da aparente pluralidade dos produtos e do consumo culturais, assim como de uma
suposta liberdade dos indivíduos nos dias de hoje. O peso do argumento é,
porém, posto alhures.
Em um artigo sobre Simmel e Luhmann - novos personagens em sua discografia,
cada qual com sua "linguagemfin-de-siècle" na teoria social -, Cohn (1998c)
iria dar atenção ao que chamou de "diferenças finas" segundo o enfoque de
ambos, que evidentemente trilham caminhos bastante distintos. O texto é quase
enigmático e, lido isoladamente, se mostra uma pérola de análise ela também
fina, sem que, contudo, fique efetivamente claro o significado da discussão,
para além daquilo que é sugerido de modo sutil em suas páginas. Na verdade,
inserido em uma discussão mais ampla, que Cohn avança alhures de uma forma,
aliás, pouco usual em seu estilo, isto é, altamente incisiva, o texto assume
outra dimensão. A chave aí é muito mais Luhmann que Simmel, embora o tema seja
comum a ambos. No caso do primeiro, as "aproximações" e "afastamentos" no
"fluxo das experiências humanas", da "vida", vão no sentido de gerar
"reciprocidades de ações" e criar "laços" de diversas naturezas em sociedades
altamente complexas; não há nele, contudo, solução normativa à maneira de
Parsons que resolva definitivamente esse problema, nem racionalidade de
escolhas em sentido utilitário para dar conta da questão, mantendo-se ela, até
certo ponto ao menos, no terreno da espontaneidade e da fugacidade da ação. O
dinheiro lança pontes formais entre as pessoas e as formas introduzem padrões
que talvez se imponham aos atores e engendrem tensão em relação àquela
espontaneidade, mas Cohn sugere essas questões mais como interrogação que como
resposta para os pontos que vai levantando.
No caso de Luhmann, o tema é mais agudo. Trata-se de autor ao qual Cohn (2006:
123) empresta, hoje, especial importância, não porque tenha de fato empatia com
sua obra, afirma, e muito menos porque adote realmente seus conceitos e
soluções, mas por colocar problemas e surgir, lanço a ideia como hipótese,
quase que como um sintoma de nossa época, cínica e sedutora, verdadeiro terreno
debarbárie (ao passo que Habermas representa uma possibilidade de futuro). Cohn
(1998) recapitula então os principais elementos do sistema teórico luhmanniano
e daí segue para tecer considerações que fornecem, em outro contexto,
sustentação a uma incisiva visão crítica do mundo contemporâneo. Sistema e
ambiente, complexidade, contingência e diferença, os sistemas como "entidades
operacionais" autorreferidas e "autopoiéticas", são os eixos daquela construção
teórica, que no texto em tela nos levam a uma questão específica, que ademais
permite uma ponte imediata com Simmel: trata-se dasfronteiras sociais. Estas se
criam a partir do que Parsons definira como a "dupla contingência" da ação,
resolvida por ele mediante a abóbada normativa que impediria que a vida social
degenerasse em mal-entendido permanente ou, pior, em guerra contínua. É na
solução dessa questão que, para Luhmann, argumenta Cohn, surgem os sistemas,
não por meio daquela saída normativa, mas ao criar fronteiras, ao organizar
suasdiferenças com o meio através de suas próprias formas, suas operações de
autocriação, que são ao mesmo tempo operações deseleção, que devem ser
reiteradamente realizadas, em condições de contingência permanente. Com isso se
definem para o sistema aqueles elementos que lhe são relevantes, o que permite
a comunicação dentro dele próprio, ainda que toda a questão do "acoplamento
estrutural" (a meu ver, um dos pontos de maior fragilidade na construção de
Luhmann) de um sistema com outro (por exemplo, os sociais e os psíquicos) seja
tema adicional que aflora ao longo da discussão, sem que a experiência dos
sujeitos interesse, por outro lado, a Luhmann.
Curiosamente, fechamos, no plano teórico geral, provisoriamente, uma
trajetória: comunicação e diferença, tema explícito do início da carreira de
Cohn, por um lado, questão subjacente em sua leitura dos frankfurtianos, por
outro, se encontram a esta altura. Mas, mais importante que isto, é o resultado
prático que ele desdobra dessas leituras que nada têm de casuais ou
desinteressadas, com certa torção operando-se em sua perspectiva. Vejamos:
[...] até uma fase avançada do século XX a referência paradigmática
consistia na associação entreorganização eexpansão. Vale dizer,
estavam em jogo processos expansivos de diferenciação interna das
sociedades, tanto pela ótica dos elementos de sistemas quanto do
prisma da constituição de atores. Na virada do século, contudo,
rompe-se essa associação entre organização e expansão, pela perda de
substância do segundo termo - desgaste este que envolve uma separação
mais funda, entreexpansão eacumulação, que antes andavam juntas.
Areferência à organização segue sendo central, mas tende a girar no
vazio quando não se encontra o termo que possa substituir o de
expansão (ou seu associado direto, acumulação). Tanto quanto consigo
ver, esse termo já se mostra com nitidez: trata-se deseleção. A
ideia, aqui, é de que nas condições que se vão desenhando
contemporaneamente, o princípio da seleção cumpre papel
correspondente ao da acumulação na fase que se vai fechando. E esse
princípio que promete dar conta de uma condição histórica em que
sistemas altamente complexos e, portanto, muito avançados em termos
de organização vão constituindo uma dinâmica em que a expansão,
desvinculada da acumulação, se dá pelaeliminação de partes pela borda
a fora mais do que pelaincorporação de elementos e processos (embora
esta também ocorra). (Cohn, 2003:134; ênfases no original)
Ou seja, trata-se, agora, de fazer face à "aceleração dos processos de
exclusão, e não mais de inclusão" - em outras palavras, de criação de
fronteiras - nos quadros do que se poderia chamar de um novo "umbral
civilizatório"(ibidem:133,135). Num ataque implícito, mas forte a Elias, ele
segue em frente e observa que não se pode separar "civilização" e "cultura".
Isto enfraquece a crítica, pois demandaria a cultura (particular) para corrigir
a civilização (universal), ao passo que ele quer pensar a civilização (e assim
a cultura) como uma "formação", que inclui vida civil, liberdade, repouso e
paz, ou seja, aquilo que movia os mestres das ciências sociais. A barbárie tem
inclusive, dialeticamente, seu momento de verdade como limite concreto da
civilização cuja vocação é universal - ao sublinhar as diferenças entre as
pessoas e coletividades (aí sim, em uma leitura mais próxima dos
frankfurtianos). Mas, em grande medida, quem anima o argumento e a ele subjaz
é, obviamente, Luhmann, ao permitir pensar que sistemas complexos, em
particular as organizações, selecionam seus próprios elementos e se lixam para
o restante do mundo. E claro que a apropriação de Luhmann é, aqui, apenas
parcial: o intuito de Cohn é "francamente normativo" e crítico,
antirreificador, o oposto do quietismo quase cínico de Luhmann, e, neste
sentido, mais próximo inclusive de Simmel, ao apostar na contrapartida de uma
subjetividade densa. A postura aqui em tela implica a recusa das peculiaridades
absolutas e soltas, quando impera, na verdade, a barbárie, cujo signo é um
respeito frouxo que desliza prontamente rumo àindiferença, aquela mesma que
Luhmann identificara, por meio da criação da diferença por parte dos sistemas
em relação a seu meio, como fundamental para o fechamento operacional dos
sistemas autorregulados, as grandes organizações a que se refere Cohn nessas
passagens4 . Isto seria uma forma específica e típica do funcionamento do
capitalismo contemporâneo, em que um número restrito de agentes econômicos,
atuando em um mundo "hipercomplexo", toma decisões e impõe-se aguda mobilidade,
gerando enormes impactos que usualmente eles mesmos podem tomar como
"irrelevantes para seus objetivos circunstanciais". Estaríamos assim muito
longe da ideia de mercado concorrencial em sentido clássico, em que à ação do
indivíduo correspondia uma responsabilidade forte, sem o que a própria ideia de
organização perderia sentido. Grupos sociais enormes podem ser assim excluídos,
não porque sejamincovenientes (como, pode-se supor, eram os judeus na discussão
de Adorno e Horkheimer), mas por seremirrelevantes. A indiferença estrutural é
a expressão concentrada dessa situação e a democracia mínima sua contrapartida
política, como forma de evitarem-se ruídos para aqueles processos de seleção
(ibidem:l37-U5; 2006a).
Em outras palavras, operou-se uma transmudação violenta e de largo alcance.
Podemos sugerir que se Marx enfrentou o mundo da modernidade liberal em
expansão e sobre os frankfurtianos desabou uma formação em que grandes
organizações - como o Estado e as corporações econômicas de tipo fordista -
buscavam controlar e homogeneizar o mundo, hoje deparamo-nos com outra fase da
modernidade, a terceira, em que os processos de dominação, exclusão e seleção
têm lugar em um mundo cuja heterogeneidade não importa mais superar, e no qual
redes sociais podem desempenhar papéis virtuosos, bem como mostrarem-se, por
seu exclusivismo, extremamente perversas. Trata-se, sim, para as organizações,
de instrumentalizar essa heterogeneidade no sentido do lucro e do poder, não
obstante pias declarações de responsabilidade corporativa ou algo do gênero
(cf. Domingues, 2002). Não que a América Latina não conhecesse processos deste
tipo desde há muito, uma vez que o mercado capitalista e o Estado jamais
lograram uma incorporação homogeneizadora das populações do subcontinente, como
a polêmica, por exemplo, sobre a "marginalidade", não obstante suas debilidades
teóricas, claramente evidenciava (ver Nun, 2001). Ao menos, contudo, o
horizonte normativo da modernidade, aqui como no resto do mundo, tomava essa
situação como provisória e formalmente projetava a sua superação, por meio de
uma inclusão universal, processos de dominação e homogeneização não obstante. A
nova configuração da modernidade já não se importa com isso e é a ela que a
crítica de Cohn fortemente se dirige.
Se o tom que se segue à crítica é normativo, como assinalado acima, cabe pensar
nos antídotos contra essa situação. É curioso que Cohn em certos momentos
assimile como sua uma perspectiva resignada, a qual, tal qual Weber,
reconheceria a nossa incapacidade de transformar um mundo em que impera a
barbárie, sendo este reconhecimento a base mesma para uma atitude de onde
decolaria a crítica (Cohn, 2006:121,132). Mas aqui não é disto que se trata,
não resulta daquele diagnóstico do presente uma aceitação, resignada, como a do
velho Tocqueville, que se retirou da cena política ao reconhecer que sua
posição já não tinha lugar na história(idem, 2000b). Nosso sociólogo é enfático
ao demandar tanto um aprofundamento da democracia que se contraponha à
seletividade e à exclusão, quanto uma ênfase na responsabilidade e na
reivindicação da reflexividade como "exigência normativa [...] ligada ao
cuidado com a dimensão civilizada da vida social"(idem, 2003:136,144). Isto
deveria, ademais, se calcar em uma concepção cívica da cidadania, capaz de
combinar universalismo e contexto(idem, 2006a). Não se aceitam deste modo nem
as diferenças por si - a mediação entre o universal e o particular continuando
a ser tão importante como antes -, nem o mercado, ademais estruturado em
classes sob o capitalismo, como senhor da civilidade e dos laços sociais
(idem,1995). Não por acaso ele voltou a Durkheim e acentuou a importância,
implicitamente contra o economicismo neoliberal, de seuindividualismo moral,
bem como da necessidade de auto-organização da sociedade que aquele autor
apontara em sua teoria das corporações, malgrado as deficiências graves que sua
proposta continha(idem, 1999).
Ou seja, nem tudo está perdido, embora, como reconhece em outras ocasiões, as
coisas não estejam nada fáceis e já não possamos mais confiar numa razão que os
dias alegres da juventude de Marx e Lukács podiam ainda imaginar como nos
oferecendo notas promissórias que em algum futuro, a curto ou longo prazos,
seriam forçosamente descontadas(idem, 1995, 1998). A isso aduz a demanda de uma
nova teoria da "experiência social" (tema antigo, conquanto igualmente
implícito, em seus textos) para dar conta do mundo contemporâneo(idem,2003:
135). A dominação, que perdura em suas várias formas, e a indiferença,
estrutural, nos apresentam uma paisagem tão desolada quanto a que se pôs a
Adorno, Horkheimer e Marcuse. Não nos condenam, todavia, à inação e a uma
resignação sem lugar para uma crítica que reivindique a responsabilidade civil
pelo estado do mundo. Há, sim, espaço para um pensamento sociológico ágil e
inconformista, comprometido com nosso tempo e a transformação da sociedade.
PALAVRAS FINAIS
Fazer teoria na periferia não é fácil, fazer teoria crítica de maneira frouxa
talvez seja até mais fácil nela, em função das calamidades permanentes que a
acometem, mas não se o rigor teórico é aquilo que se persegue. Fazer teoria sem
ter de evocar sempre seu país, o Brasil, a Argentina ou a Venezuela, para
ficarmos em nossas vizinhanças subcontinentais, é ainda mais difícil fora do
centro. Trata-se, evidentemente, de uma introjeção coletiva de uma concepção
que nos reserva lugar secundário na divisão internacional do trabalho
intelectual, para além dos problemas que, em termos de identidade, essa posição
periférica já nos coloca (o que não quer dizer que não haja o risco de
reificação de categorias forjadas em outras paragens, via uma falsa
universalização, o que nosso autor evita, aliás, galhardamente). A atual
geração de cientistas sociais brasileiros que se ocupa de teoria social e de
teoria crítica deve, neste sentido, imensamente a Gabriel Cohn, que desbravou
entre nós um terreno que apenas hoje começa a se fazer de fato mais legítimo.
Como isto não bastasse, como este texto procurou demonstrar, um pequeno tesouro
se encontra em seus trabalhos, sempre eruditos, sutis e profundamente
originais, cuja expressão em edições antigas ou dispersão em livros e
periódicos amiúde de raro acesso - com a exceção de seu livro sobre Weber -
dificultam uma visão integrada de suas ideias. Procurei aqui articulá-las por
meio de dois eixos, um mais antigo, vinculado à noção de dominação, que,
todavia, perdura até hoje, outro mais recente e que responde, de maneira
sofisticada no plano teórico, aos duros desenvolvimentos da realidade empírica,
remetendo à temática da "indiferença estrutural". Certamente os alunos de Cohn
na USP têm uma possibilidade maior de acesso às suas ideias, as quais são, reza
a lenda, neste caso sem dúvida fidedigna, laboriosamente articuladas em seus
cursos e seminários, cuja expressão escrita e mais pública vai se fazendo nas
últimas décadas nos ensaios sugestivos que de maneira parcimoniosa entrega para
publicação.
Apenas uma vez, afora seminários, sobretudo organizados pelo Grupo de Trabalho
de Teoria Social da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências
Sociais (Anpocs), do qual Cohn sempre foi participante ativo e inspiração
fundamental, tive a oportunidade de ver como essa atividade docente se realiza.
Foi, em meados dos anos 1990, quando, estreando no cenário nacional como
teórico social, fui convidado a compartilhar um curso com ele em atividades da
Sociedade Brasileira de Sociologia, em São Paulo. Cohn ministrou a primeira
aula, sobre Habermas e Luhmann, se não me trai a memória. Ao final de uma
brilhantíssima exposição, em que conhecimento e raciocínio articulado a céu
aberto se somavam, numa rara combinação de didática e exploração intelectual ao
vivo, foi ovacionado pelos estudantes. Ao se despedir de mim sussurrou: "quero
ver você amanhã". Obviamente, passei a noite em claro, preparando minha aula,
sobre as correntes sociológicas contemporâneas que versavam sobre a evolução e
a história. Como me saí, apesar do elogio que me ofereceu posteriormente, não
sei ao certo. Mas levei comigo daquele dia uma indelével imagem de Gabriel
Cohn, marcada por rigor e criatividade, compromisso e generosidade intelectual.
NOTAS
1. Para me restringir ao trabalho conjunto daqueles autores, observo somente
que Cohn curiosamente escolhe passar por cima das duras passagens sobre a
"cultura de massa" que se encontram naDialética do Esclarecimento (Adorno e
Horkheimer, [1944] 1985). Não se tratava, é evidente, de desconhecimento. Seria
uma questão de estratégia discursiva?
2. Uma seleção básica dos textos de Adorno, que toca em aspectos importantes
dessa discussão, foi realizada em seguida por Cohn (1986).
3. Trata-se, a meu ver, de longe, da melhor análise da metodologia weberiana e
de sua estratégia de tipos ideais. Para uma recente, mas mais tradicional
abordagem, ver Kalberg (1994). Utilizei-me da leitura do caráter "genético" dos
tipos ideais por Cohn (1979, em especial cap. 5) para estudar a concepção de
cidade em Weber e tematizar sua concepção de liberdade em Domingues ([2000]
2003).
4. Em sua obra conclusiva, Luhmann (1998, vol. 2: esp. 829-830,837-838,846-847)
observa que como "forma sistêmica" a pertença à organização delimita aquilo que
a ela "primariamente interessa", buscando-se coerência e integração
internamente. E, embora organizações consistam no único tipo de sistema que
pode se comunicar com seu meio, tendo como garantia de sua autorreferência e
autopoiesis sua hierarquia interna, aquele meio é observável, evidentemente, de
acordo com as regras do próprio sistema, de maneira altamente "seletiva",
portanto. Contra expectativas aristotélicas e romantizadas de um centramento
(cívico-político) da sociedade, ele afirma que nenhuma organização representa,
em sua totalidade, o sistema - evolutivamente diferenciado de maneira extrema -
e que só por si é cada uma delas "responsável", ainda que "efeitos de
agregação" sobre o meio possam ter impactos de retorno sobre elas. Ademais
"inclusão" depende de "exclusão"; não são equacionáveis mediante o discurso dos
direitos (Luhmann, 1998, vol. 2: 618ss). A circularidade do raciocínio se
mostra, como de hábito, insuperável. Os limites para enfrentar os temas postos
por Cohn, se Luhmann chegasse a considerá-los problemáticos, seriam
evidentemente enormes.