Atores não estatais e trade policy - making no Brasil: análise dos interesses e
das estratégias da CEB e da REBRIP
INTRODUÇÃO: O CONTEXTO, OS CONCEITOS E A LITERATURA SOBRE O TEMA
Dois movimentos-chave transformam a agenda doméstica e a inserção internacional
do Brasil entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990: a liberalização
política e a abertura econômica. Na análise de Maria Regina Soares de Lima
(2000), a confluência entre esses vetores de mudança enseja nova fase da
política externa brasileira (PEB), por ela denominada de "integração
competitiva". Nessa fase, interesses setoriais de distintos atores não
estatais, em função dos efeitos distributivos produzidos pelas decisões de
política externa na economia doméstica, passam a ser articulados e contemplados
nas agendas da política comercial externa, perturbando o tradicional isolamento
do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e redefinindo o seu papel no
processo de formulação e na condução dessa política (Moura, 2007). Confirma-se,
assim, a transitoriedade do interesse nacional, cada vez mais dependente das
preferências das forças sociais e dos interesses da coalizão política
vencedora, que não apenas podem mudar, como também estão sujeitos a inúmeros
conflitos internos (Helen Milner apud Lima, 2000).
Muito embora a noção de autoridade política legítima (authoritative-ness) da
ação externa do Estado se mantenha fundamental, a existência de uma pluralidade
de atores na redefinição do interesse nacional tende a se constituir, desde os
anos 1990, em elemento importante no jogo político da formulação das agendas da
PEB. De outros ministérios "domésticos" (Fazenda, Cultura, Educação etc.),
agências burocráticas, administrações estaduais e municipais a federações
empresariais, movimentos sociais e organizações não governamentais, inúmeros
são os atores que logram intervir nas atuais agendas da política externa
(Pinheiro e Milani, 2012). Como relatam Sanches Badin e França (2010), há que
se considerar, ademais, o adensamento da presença de diversos órgãos da
burocracia federal em temas internacionais, que buscam capacitar-se a fim de
executarem suas agendas por meio de assessorias internacionais cada vez mais
especializadas e robustas. A cena política na qual se desenrola o conflito de
interesses e os jogos de poder é, portanto, "povoada de atores sociais de toda
espécie" (Badie, 2010:49).
Tem-se, assim, uma paulatina, embora não consolidada, mudança na configuração
do campo da PEB, agora compreendida como política pública, que tem o Estado
como moderador e legitimador dos interesses mais diversos em um contexto
político que amplia a interface entre a agenda doméstica e a internacional.
Como afirmou Celso Lafer, em artigo publicado no Estado de S. Paulo, "a
política externa é uma política pública. Interessa a todos, pois trata da
gestão dos interesses coletivos de uma nação no mundo" (Lafer, 2007:1). Quanto
ao caso particular da política comercial externa, considerando seus efeitos
distributivos e impactos domésticos, pode-se caracterizá-la ainda mais
claramente enquanto política pública e, portanto, sujeita à avaliação, demanda
de transparência e escrutínio público. Estudar a política externa enquanto
política pública implica buscar teórica e metodologicamente "entender como e
por que os governos optam por determinadas ações" (Souza, 2006:22), dando-lhe a
prerrogativa de mudança e transitoriedade de acordo com a lógica resultante das
disputas de interesses no jogo político1.
Porém, lembrando Pinheiro (2009), a crescente participação de atores não
estatais na arena de formulação da política externa no Brasil não os coloca
como definidores em última instância das ações de política externa a serem
implementadas. Os atores não estatais, sejam as organizações empresariais,
sejam os movimentos e redes de ativismo político, não podem ser considerados
tomadores de decisão em política externa, muito embora tenham capacidade de
articulação de interesses e de influência, ou seja, são dotados de forte poder
de agência. A atuação desses atores amplia a contribuição propriamente política
dos atores da sociedade para a estruturação da política externa do país. Lima e
Santos (2001), ao analisarem a relação entre o Legislativo e o Executivo no
Brasil contemporâneo em torno de temas de política externa e comércio exterior,
apontam para a consagração do Executivo enquanto agente definidor de última
instância, atuação que estaria vinculada a uma política iniciada com o golpe
militar de 1964, que concentrou poder em torno do presidente, e que tenderia a
resistir à agenda de democratização da política externa.
Esse paradoxo que se constrói em torno da política externa, concomitantemente
política de Estado (no sentido de sua continuidade) e política pública
(seguindo as orientações do governo), seria, no entanto, apenas aparente.
Haveria sempre algo de permanente na política externa (por exemplo, o respeito
ao princípio de não intervenção, a solução pacífica das controvérsias entre os
Estados, a defesa do direito internacional público, entre outros fundamentos
constitucionais das relações internacionais do Brasil)2, porém também ocorrem
variações em suas agendas, de acordo com as interpretações e preferências da
coalizão no governo e as contingências (domésticas e externas) do exercício do
poder (Amorim Neto, 2011; Lopes, 2011; Pinheiro e Milani, 2012). A PEB não é
imutável e pode sofrer mudanças em suas agendas e em seus atores por motivos
sistêmicos e de acordo com as agendas dos governos. Como argumenta Amorim Neto
(2011), a presidencialização da diplomacia brasileira tende a despartidarizar o
cargo de Ministro das Relações Exteriores, mas ao mesmo tempo a politiza, no
sentido de colocá-la no jogo político doméstico dos interesses e das
preferências. Ou seja, o diplomata e o soldado de Raymond Aron têm de se
acostumar com a companhia, embora por vezes tímida e nem sempre assídua, de
burocratas do setor da saúde (ou da cultura, da educação, do desenvolvimento
agrário etc.), de deputados e senadores (e seus assessores legislativos),
prefeitos e governadores, operadores econômicos, líderes de ONGs, movimentos
sociais, organismos da mídia e personalidades da academia (Milani, 2012).
No seio do Itamaraty, observaram-se algumas aberturas em direção à sociedade ao
longo das últimas décadas. Nos anos 1990, foram estabelecidos o Comitê
Empresarial Permanente do MRE, o Fórum Consultivo Econômico e Social do
Mercosul, a Seção Nacional de Consulta sobre a União Europeia e o Grupo
Interministerial de Trabalho sobre Comércio Internacional de Mercadorias e de
Serviços (Lopes, 2011). No documento de orientação estratégica do Ministério
das Relações Exteriores no Plano Plurianual 2008-2011, o diálogo com a
sociedade em geral sobre a agenda de política externa é apresentado
positivamente:
A agenda diplomática tem-se tornado a cada dia mais complexa. Temas
como as negociações comerciais multilaterais, os direitos humanos, o
meio ambiente, o desenvolvimento sustentável, o combate à fome e à
pobreza, entre outros, afetam cada vez mais a vida do cidadão. É
fundamental, portanto, que a política externa esteja sintonizada com
os anseios da sociedade. O diálogo com os movimentos sociais, a
imprensa, o Congresso Nacional e as unidades da Federação contribui
para tornar a ação do Ministério das Relações Exteriores mais
representativa das aspirações nacionais (Brasil, 2007:26, ênfase
nossa).
O próprio ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, passou a reiterar
publicamente a visão da política externa como política pública, embora com viés
reducionista quanto a suas características e a sua avaliação, vinculando-
a apenas ao escrutínio público eleitoral. "(...) a política externa é uma
política pública como as demais. Está sujeita à expressão das urnas e da
opinião pública. Os princípios são os mesmos, mas as prioridades e agendas
podem mudar" (Amorim, 2010:13).
Não obstante a permanência da centralidade do Poder Executivo, particularmente
do Itamaraty, na formulação da agenda de política externa brasileira, há que se
lembrar que a pluralidade de atores sensíveis às negociações internacionais,
como ressaltam Oliveira, Onuki e Veiga (2006). No que diz respeito à arena
comercial mais particularmente, Veiga (2002) chamou a atenção para o processo
de expansão do leque de novos atores não estatais, fortemente capazes de
influenciar a política brasileira: segundo o autor, atores tradicionais (a
exemplo das associações empresariais setoriais) continuam a ser importantes
interlocutores do governo no campo comercial, mas emergem novas entidades da
sociedade civil organizada que tendem a assumir papéis cada vez mais
significativos, especialmente nos mecanismos de consultas para negociações
comerciais. A marca da atuação desses atores não estatais estaria, para Veiga
(2002), em seu perfil de interesses orientados a múltiplos setores e em sua
relativa independência frente às posições governamentais.
Nesse campo da política comercial, considerado de relevo no seio da política
externa graças às características socioeconômicas e à inserção econômica do
Brasil no cenário internacional, a abertura das instituições ao diálogo com
atores não estatais foi realizada a partir de meados da década de 1990, tendo
nas negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca)
seu momento catalisador. De acordo com Veiga (2007a), no plano das negociações
comerciais, a Alca é o fator que está na origem de uma ampla reorganização do
processo de negociação e de consultas domésticas. O Fórum Empresarial das
Américas, instituído em 1995 para ser o espaço de avaliação e debate por partes
dos empresários sobre as negociações levadas a cabo pelos governos para a
realização a Alca, foi uma das primeiras iniciativas de abertura
institucionalmente organizada da agenda de negociações ao setor empresarial.
Contudo, como relatam Santana (2001) e Carvalho (2003), a composição da
participação no Fórum dependia do convite feito pelo MRE (participação por
convite), que muitas vezes desconsiderava a representatividade (ou a sua falta)
do empresariado convidado.
Em 1996, foi estruturada no Brasil a Seção Nacional de Coordenação dos Assuntos
Relacionados à Área de Livre Comércio das Américas (Senalca), sob a coordenação
do Itamaraty. A Senalca tinha o objetivo de servir como foro de debate de temas
na agenda de negociações comerciais hemisféricas que auxiliaria na definição da
posição do Brasil na Alca. Além de integrar representantes de diversos
ministérios, inclusive da Câmara do Comércio Exterior (Camex) e do Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a Senalca tinha
autorização para convidar à participação em suas discussões as entidades
representativas do empresariado, de sindicatos e da sociedade civil organizada.
Como destaca Veiga (2007a), os atores não estatais participavam das reuniões na
condição de observadores convidados pelo governo. Assim, as discussões eram
pautadas e limitadas pelo Itamaraty por meio dos coordenadores do foro, não
restando margem importante de debate além daquela definida pelos atores
institucionais. De toda forma, a Senalca representou passo importante na
institucionalização do processo direcionado de consultas à sociedade sobre
temas da agenda de política comercial externa no Brasil.
Durante as negociações da Alca, também foram criados Grupos de Trabalho
Interministeriais, responsáveis pelo acompanhamento das negociações de cada
grupo de negociação do acordo para a formação da Alca. Nesses Grupos
Interministeriais, atores não estatais eram eventualmente consultados e
convidados à participação de suas reuniões, ainda que informalmente (Santana,
2001; Veiga, 2007a). Configurou-se, assim, um modelo de consultas baseado em
dois eixos: a Senalca, mais institucional, e os Grupos Interministeriais, com
consultas informais.
Esse modelo de aproximação da agenda de negociação comercial do Brasil de
atores não estatais serviu de base para a criação da Seção Nacional de
Coordenação dos Assuntos Relacionados à Associação Inter-Regional Mercosul-
União Europeia (Seneuropa) em 2001. De fato, a lentidão no estabelecimento da
Seneuropa parece ter vínculos com a relutância europeia na aproximação do
empresariado com a agenda de negociações. No seio da Seneuropa, passou-se a
envolver representantes da Comissão Parlamentar Conjunta e do Fórum Consultivo
Econômico e Social do Mercosul, criado pelo Protocolo de Ouro Preto, em 1994,
como órgão de representação dos setores econômicos e sociais. Cabe sublinhar
que a dinâmica encontrada nas negociações da Alca, pautada no convite feito
pelo Executivo ao setor privado para participar de reuniões oficiais na sala ao
lado, como apresentado por Santana (2001), não foi replicada com êxito nas
negociações entre o Mercosul e a UE.
Quando se iniciaram tratativas no âmbito da Organização Mundial do Comércio
(OMC) para o lançamento de uma nova rodada multilateral de negociações
comerciais em 1998, o governo brasileiro, por meio do MRE, passou a se
preocupar com a sua capacidade de articulação de interesses e mesmo de uma
definição clara das preferências na formulação das posições negociadoras do
Brasil. Além de reformulações burocráticas no Itamaraty, particularmente no
Departamento Econômico, buscou-se ampliar o leque de contatos e elos entre o
setor privado e o governo, e inclusive entre as burocracias estatais a fim de
se montar uma estrutura de diálogo que permitisse ao país ter posições
definidas no caso do lançamento da Rodada do Milênio. Foi no bojo desse
processo que se criou, em 1999, o Grupo de Trabalho sobre Comércio
Internacional de Mercadorias e de Serviços (GICI).
O GICI foi apresentado como o núcleo de coordenação e formulação de posições
brasileiras sobre temas e agendas de negociações conduzidas no âmbito da OMC. O
grupo ficou responsável pela discussão interna dos temas relevantes para o
desenvolvimento nacional, em sua interface com o comércio internacional,
particularmente no que diz respeito ao regime multilateral. Como analisa
Carvalho (2003), a relação do GICI com a sociedade civil não foi definida a
priori, cabendo ao grupo promover o diálogo sempre que considerado oportuno. A
participação de atores não estatais tanto empresariais e sindicais quanto da
sociedade civil organizada dependeria, portanto, de convite oficial, seguindo o
modelo aplicado na Senalca. O GICI cumpriria também a função de dar maior
transparência e ampliar o acesso à informação sobre as negociações comerciais
na OMC. Contudo, de acordo com a análise de Carvalho (2003) sobre a
participação do setor privado no GICI, a centralização da agenda em mãos do MRE
e a participação relativamente sob controle limitaram sua importância enquanto
foro de consultas, dando ao grupo uma função essencialmente simbólica, de
legitimação de uma posição oficial pré-definida. De toda forma, o GICI deve ser
visto como um mecanismo criado no bojo de mudanças no processo de formulação da
política comercial externa do Brasil e que apresenta potencial de estímulo ao
diálogo entre setores do Estado e da sociedade na construção de posicionamentos
negociadores do país no âmbito multilateral.
Como se pode observar, atores empresariais e da sociedade civil organizada
puderam atuar em defesa de seus interesses com vistas a influenciar a
formulação das estratégias de negociação comercial do Brasil, utilizando-se dos
mecanismos de consultas criados ao longo da década de 1990, ainda que limitados
e direcionados. Para se compreender a dinâmica da interação entre atores
estatais e não estatais na definição de prioridades na estratégia de negociação
comercial posta em prática pelo Brasil nas últimas décadas, cabe analisar os
interesses que estruturam as preferências dos atores não estatais em questão e
seus efeitos sobre sua atuação.
No caso brasileiro, dois atores não estatais são particularmente importantes
pela sua capacidade de ação e pela articulação desenvolvida nos foros de
consultas e negociações criados pelo Itamaraty, quais sejam: a Coalizão
Empresarial Brasileira (CEB), que congrega setores empresariais múltiplos e com
interesses diversificados; e a Rede Brasileira pela Integração dos Povos
(Rebrip), coordenadora de interesses e ações comuns de sindicatos, movimentos
sociais e de organizações da sociedade civil organizada no campo das
negociações comerciais internacionais.
Na literatura nacional e internacional não são muito frequentes os estudos
sobre políticas comerciais que envolvam a análise de interesses e da
participação de atores não estatais em sua formulação. O estudo coordenado por
Capling e Low (2010) apresenta a primeira sistematização sobre a participação
de atores não estatais na formulação de políticas comerciais no que concerne à
escolha do fórum de negociação (multilateral ou regional/preferencial) para um
grupo de países selecionados, entre os quais não se encontra o Brasil. De toda
forma, da leitura atenta do estudo, conclui-se que a ampliação da participação
de múltiplos atores na agenda da política comercial é um fenômeno que
transcende fronteiras, destacando-se tanto em países mais desenvolvidos quanto
nos menos desenvolvidos, com características distintas que refletem momentos
históricos e políticos nos diversos países analisados.
Como sumarizado em Capling e Low (2010), ao analisarem os fatores
intervenientes na escolha do fórum, a preferência por estratégias negociadoras
com foco em acordos regionais de comércio pode estar vinculada a objetivos de
política comercial que visam a: a) proteger da competição externa com ampliação
da base geográfica de um processo de substituição de importações; b) realizar
acordos menores em escopo e profundidade como um laboratório para a adaptação e
reforma das economias envolvidas, com transbordamento do aprendizado para
negociações multilaterais; c) consolidar objetivos estratégicos e políticos em
âmbito regional, desvinculados de uma agenda puramente comercial e com vínculos
multilaterais; e d) aumentar o poder de barganha dos países signatários de um
acordo regional, consolidando a cooperação entre eles e ampliação de suas
capacidades de negociação em âmbito multilateral.
As negociações multilaterais de comércio também podem ser vistas como menos
eficientes quando se buscam negociações com velocidade aumentada e num grupo
menos heterogêneo e amplo de países. Para Capling e Low (2010), outros fatores
importantes na escolha do fórum seriam os seguintes: a ausência de uma temática
específica na agenda multilateral; a redução da incerteza, observada como maior
e mais clara nos acordos regionais principalmente pelas grandes potências
comerciais; o medo da exclusão; a perda de margens de preferência que um país
pode ter com outro devido à assinatura de um acordo entre o último e um
terceiro país.
O trabalho organizado por Capling e Low (2010) destaca, como síntese dos
estudos de caso apresentados, que parece haver uma convicção de que a OMC é
muito remota e muito grande para que os atores não estatais consigam atingir
seus objetivos quanto à formulação de política comercial externa. Ademais, o
efeito da liberação comercial ocorrida por meio de acordos regionais de
comércio é mais rápido e em muitos casos mais profundo daqueles observados como
resultados de negociações multilaterais de comércio. O estudo dá pouca atenção,
contudo, a atores não estatais de contestação e negação da lógica que envolve
os acordos comerciais, como a Rede Brasileira pela Integração dos Povos
(Rebrip) no Brasil, dando foco naqueles que coadunam interesses privados
empresariais e sindicais.
Nas últimas décadas, vários países começaram a estabelecer mecanismos
desenhados para facilitar maior acesso à informação sobre política comercial e
promover diálogo e interação entre atores estatais e não estatais. Dentre os
estudos que descrevem os mecanismos de consultas à sociedade civil organizada e
a grupos empresariais criados por diversos países no campo da política
comercial externa, cabe destacar Intal (2002), Hocking (2004), Gallagner, Low e
Stoler (2006), Veiga (2007b) e Capling e Low (2010). A análise dos resultados
dos estudos citados indica que a maioria dos mecanismos de consultas à
sociedade, tanto formais quanto informais, surgiu ao longo de processo de
negociação de acordos regionais e não de negociações multilaterais e privilegia
atores empresariais, mais organizados e com melhores recursos e capacidade de
participação, em detrimento de atores da sociedade civil organizada.
Identifica-se também que os países em desenvolvimento são menos transparentes
quanto a informações sobre política comercial do que os países desenvolvidos, o
que inibe a participação e o engajamento de atores não estatais.
Em diversos estudos, como em Intal (2002), em Wolfe e Helmer (2007) e em
Capling e Low (2010), encontra-se uma avaliação positiva acerca da necessidade
de se ampliarem a transparência e a participação na formulação de políticas
comerciais, a fim de aumentar a legitimidade dessa política e incrementar a
coesão social e apoio ampliado à liberalização. Eles não consideram, contudo,
que, a depender da economia política e da lógica de poder domésticas que
envolvem a política comercial externa de um país, pode-se estar reduzindo o
impulso liberalizante a fim de garantir a coesão social e dar maior
legitimidade à política. Pode-ser observar, pois, que a transferência e
ampliação da participação são elementos positivos, mas não determinam a
política comercial numa única direção, a da liberalização. Os caminhos
resultantes da interação entre atores estatais e não estatais na formulação da
política comercial externa são múltiplos, e muitas vezes duais, e resultam da
coordenação de vetores de interesse e poder num dado período político e
histórico de um país.
Nos estudos realizados por Lima (1990; 2000; 2005) e Lima e Santos (2001),
encontram-se análises sobre a democratização das agendas de política externa no
Brasil, tendo a agenda comercial um papel destacado nos estudos. Lima (1990)
apresenta estudo pioneiro na análise da economia política da política externa,
colocando a política comercial como um de seus três elementos de análise. A
relação entre o Legislativo e o Executivo na formulação da política de comércio
exterior é o foco do trabalho de Lima e Santos (2001), que questionam a
centralidade e concentração de poder no segundo em detrimento do primeiro para
elucidar o debate sobre a democratização da agenda de política externa no
Brasil.
Santana (2001) analisa a participação de grupos de interesse nas negociações
para a formação da Alca, considerando a relação entre o setor empresarial e o
sindical com os "operadores diplomáticos", no processo de formação da posição
brasileira nas negociações. O autor tem foco na construção dos canais de
diálogo e aproximação entre atores domésticos na formação de posicionamento dos
negociadores no acordo regional específico.
Veiga (2007a) analisa a política comercial brasileira e apresenta os principais
atores não estatais envolvidos na sua formulação, ou na tentativa de
influenciá-la, a CEB e a Rebrip. Mas sua análise tem foco na descrição de suas
ações nos comitês e fóruns de consulta criados pelo Estado nos últimos anos.
Não há uma análise de como seus interesses e estratégias de atuação se refletem
em preferências na definição do fórum negociador por parte da política
comercial externa brasileira.
A diversidade da agenda comercial brasileira com a atuação de novos atores em
seu processo de formulação é destacada por Veiga (2007b). O autor identifica
ainda que coalizões protecionistas em âmbito doméstico, que costumavam dominar
o processo no Brasil, passaram a ter concorrência importante e foram
substituídas por organizações empresariais com interesses exportadores e mais
liberais. Veiga (2007b) relata também a defesa de um protecionismo com causas
sociais por atores não estatais da sociedade civil organizada e a ampliação de
atores estatais que participam de ações no campo da formulação de política
comercial. Contudo, o autor não considera a relação entre interesses e sua
vinculação à lógica negociadora nos distintos fóruns às oportunidades de
negócios e de comércio que os acordos regionais trazem do que àquelas
relacionados à abertura pela via multilateral.
Carvalho (2003) analisa a formação da posição brasileira para as negociações de
lançamento da Rodada do Milênio em Seattle em 1999, tomando por base a formação
de grupos de interesses. Em sua análise, a autora destaca a agenda empresarial
e dos trabalhadores organizados, além de identificar as preferências do governo
nos mecanismos criados para a interação com a sociedade civil organizada. O
estudo tem, assim, foco na agenda que seria apresentada na reunião ministerial
da OMC em Seattle, não considerando as preferências e interação entre atores
não estatais quanto a acordos regionais, nem aprofundando a análise dos
condicionantes das preferências do governo.
Ao analisar a formação do G20 agrícola na OMC, Carvalho (2010) busca definir
elementos da agenda multilateral e da realidade econômica e política doméstica
que teriam influência na conformação de uma posição do Brasil frente às
negociações agrícolas na OMC. Aqui também foram destacados os mecanismos de
participação criados pelo governo, como o grupo de técnico informal sobre
agricultura, que inclui representantes de ministérios e de organizações
empresariais e da sociedade civil organizada na área de agricultura. O vetor
resultante da coordenação doméstica de interesse defensivos, fundamentalmente
da agricultura familiar que insiste na manutenção de programas de auxílio ao
produtor, e ofensivos, do grande empresariado do agronegócio, foi determinante
para a definição de uma posição do Brasil no quadro do G20.
Os estudos existentes no campo da análise da política comercial em geral não
envolvem o exame da interação entre seus múltiplos determinantes domésticos,
tomando como foco as preferências e formas de atuação de atores não estatais
com os estatais. Ademais, trabalhos com foco na pluralidade de atores e
interesses que atuam para influenciar a nova agenda de comércio dos países são
raros, particularmente sobre a experiência brasileira (Abreu, 2007; Oliveira,
Onuki e Veiga, 2006; Veiga, 2007a). Assim, com o presente trabalho busca-se
preencher uma lacuna na literatura nacional e internacional sobre a análise da
política comercial externa do Brasil quando se considera de forma integrada o
conjunto dos elementos domésticos, em particular ações e posições estratégicas
dos principais atores não estatais envolvidos na economia política da política
externa comercial brasileira.
Assim, o presente artigo procurará analisar como os atores empresariais,
articulados em torno da CEB, e atores da sociedade civil organizada, por meio
da Rebrip, atuaram em defesa de seus interesses, visando a influenciar a
formulação das estratégias de negociação comercial do Brasil. Além disso, o
artigo visa a compreender em que medida essa atuação foi importante para a
definição de prioridades negociadoras. Para tanto, toma-se como premissa que a
política comercial externa do Brasil fez uso de uma estratégia de negociação em
três trilhos nos últimos quinze anos, com a prioridade às negociações no âmbito
do regime multilateral de comércio (primeiro trilho), combinada com um
regionalismo em dois tempos, um de ampliação e aprofundamento da integração
regional na América do Sul (segundo trilho) e outro de negociação de acordos
regionais fora da região (terceiro trilho). Tendo como ponto de partida tal
premissa, e com base em metodologia qualitativa (análise de conteúdo de
documentos oficiais e artigos publicados em jornais de circulação nacional,
entrevistas semiestruturadas com representantes de ambos os setores e do
Ministério das Relações Exteriores), analisam-se nas seções seguintes as
preferências e a atuação da CEB e da Rebrip enquanto atores não estatais
relevantes para a análise e compreensão da política comercial externa
brasileira contemporânea.
PREFERÊNCIAS E ATUAÇÃO DA COALIZÃO EMPRESARIAL BRASILEIRA
A CEB foi criada em 1996 e reúne associações dos setores agrícola, industrial e
de serviços no Brasil. A criação da CEB se deu de forma fundamentalmente
reativa e tendo as negociações da Alca como fator impulsionador. Segundo relato
de representante do setor privado que coordenou a área de negociações
comerciais da CEB, somente após a II Reunião Ministerial sobre Comércio para a
formação da Alca, em Cartagena em 1996, o setor privado brasileiro se deu conta
do que estava acontecendo no âmbito das negociações comerciais hemisféricas. A
criação da secretaria executiva da Alca deu ao processo negociador maior
rapidez, o que gerou pressão sobre os setores empresariais brasileiros para se
organizarem mais celeremente. A secretaria levou ao avanço nas negociações
técnicas, que seguiram rapidamente à frente dos acordos políticos. Como se pode
analisar, as negociações da Alca foram uma escola única para o setor privado
brasileiro, representando um divisor de águas em termos de preparação e de
profissionalização do setor empresarial para as negociações internacionais, e a
formatação da CEB representa o início desse processo.
Observa-se que não havia amplo acesso a informações nem participação coordenada
e efetiva do setor empresarial brasileiro nas negociações internacionais
realizadas pelo Brasil até então. Pouco se sabia o que se estava negociando e
os impactos potenciais ou reais sobre os setores econômicos na pauta de
negociação. A criação da CEB simbolizou um novo momento para o setor privado no
que concerne à atuação em defesa de seus interesses no campo da formulação de
estratégias negociadoras da política comercial brasileira. Assim, a CEB
representou o despertar reativo e essencialmente defensivo dos setores
empresariais brasileiros para o mundo das negociações comerciais, estruturando
atividades e posições do setor privado que eram encaminhadas no âmbito dos
novos mecanismos de consulta e participação de atores não estatais para os
tomadores de decisão de última instância da política externa brasileira, isto
é, o Itamaraty e a Presidência da República.
Ao analisar a novidade que a CEB encerra, Veiga (2007a) destaca o rompimento da
tradição setorialista de representação do empresariado no Brasil. Segundo o
autor:
A CEB é uma novidade institucional, não somente porque agrupa em
bases voluntárias diferentes setores e age como foro de negociações
diretas e formação de consenso entre esses setores - rompendo a
tradição setorial na representação e no processo de fortalecimento de
interesses que constitui um traço marcante do setor empresarial no
Brasil -, mas também porque se trata de uma organização empresarial
dedicada a um só tema: negociações comerciais (Veiga, 2007a:132).
Uma posição gradualista com redução do ritmo negociador para a formação da
Alca, em consonância com os interesses do governo, foi articulada nas diversas
entidades que compõem a CEB e apresentada na III Reunião Ministerial, em Belo
Horizonte, em 1997. Para Santana (2001), o apoio da CEB à posição gradualista
nas negociações da Alca, como defendida pelo MRE, tem bases instrumentais
relacionadas às pressões domésticas do setor privado pela conclusão das
reformas estruturais que reduziriam o "custo Brasil". A CEB alinhava-se ao
Itamaraty no plano externo a fim de barganhar posições que atendessem aos seus
interesses no plano doméstico.
Desde a sua criação em 1996, a CEB acompanhou de perto as negociações da Alca e
participou como entidade convidada da Senalca, expondo e defendendo as
preferências e os interesses do setor privado brasileiro frente às negociações.
Essa participação colocou o empresariado em diálogo direto com os principais
atores da política comercial externa brasileira durante processo negociador da
Alca, ampliando a legitimidade da própria política, que passou a refletir de
forma mais explícita e embasada os condicionantes advindos da economia política
doméstica em profunda transformação. Um elemento de destaque durante tais
negociações diz respeito à aproximação da agenda patronal com a dos sindicatos.
A manutenção da proteção e dos lucros dos empresários significava a existência
do emprego, particularmente o industrial, defendido pelos sindicatos.
Na Reunião Ministerial de Miami, em novembro de 2003, definiu-se uma nova visão
para as negociações do acordo da Alca, que passavam a ser estruturadas em três
conceitos: equilíbrio, abrangência e flexibilidade. Após a redefinição dos
pilares negociadores, a CEB apresentou de forma mais contundente o objetivo do
empresariado em relação à Alca, baseado fundamentalmente em ganhos com a
ampliação de exportações para novos mercados. Como salienta um documento de
posicionamento da Coalizão sobre as negociações da Alca:
(...) o principal objetivo do empresariado brasileiro nas
negociações, qual seja, a obtenção de ganhos concretos em termos de
acesso a mercados para a exportação de seus produtos e serviços. Na
visão dos empresários brasileiros, é possível perseguir de forma
persistente este objetivo prioritário sem comprometer a capacidade do
país para implementar políticas industriais (CEB, 2004:01-02, ênfase
nossa).
A dinâmica de participação de atores não estatais seguida na Alca foi levada às
negociações entre o Mercosul e a União Europeia para a formação de uma área de
livre comércio. Na Seneuropa, o setor privado continuou a encontrar caminhos de
interação em defesa de seus interesses e visões sobre a participação do Brasil
em acordos comerciais internacionais. Com os ganhos potenciais mais
concentrados no setor agrícola brasileiro nesse acordo Mercosul-UE, a CEB
manteve posição flexível que sinalizava para a barganha entre setores, mas que
consideraria aspectos atinentes à assimetria econômica, particularmente no
setor industrial, entre os dois blocos. A preocupação com as assimetrias
econômicas e a importância de se levar uma agenda de tratamento diferenciado
aos países em desenvolvimento pode ser vista no seguinte excerto da Declaração
de Madri do Fórum Empresarial Merco-sul-União Europeia (MEBF) de 2002, assinada
pela CEB:
(...) Com o objetivo de reduzir a distância em termos de
desenvolvimento econômico entre os países membros da União Europeia e
do Mercosul, a MEBF recomenda que as negociações entre os dois blocos
promovam mecanismos de tratamento especial e diferencial. Esses
mecanismos devem incluir listas mais amplas de produtos sensíveis com
períodos de liberalização mais longos, uma via mais lenta para a
eliminação de tarifas e períodos de carência mais longos, entre
outras provisões que poderiam diminuir os custos de ajuste para os
países membros do Mercosul (CEB, 2002:9, ênfase nossa; tradução do
editor).
Segundo representante da CEB, a agenda de negociações da Alca, em geral,
interessava mais aos setores organizados na Coalizão do que a que norteava as
negociações entre o Mercosul e a UE. O potencial ganho em termos de acesso a
mercados em alguns setores industriais nos Estados Unidos com a Alca e as
expectativas de ganho concentrado no setor agrícola com o acordo Mercosul-UE
embasavam o interesse mais ampliado no primeiro relativamente ao segundo. Como
se observa, os interesses do setor privado nem sempre seguiam caminhos
convergentes para a consolidação de uma posição consensual. Por vezes,
posicionamentos defensivos e ofensivos eram debatidos no âmbito da CEB, que
apresentava ao governo, nos comitês de consulta, os pontos consensuais e os
dissensos da agenda de negociação, cabendo ao MRE arbitrar sobre que posição
tomar diante de interesses setoriais irreconciliáveis. Na análise de Veiga
(2007a): "(...) a ALCA era o primeiro processo de negociação que
simultaneamente atraía a atenção dos dois tipos de setor: o que concorria com
as importações, por razões defensivas, e o dos exportadores, por razões de
natureza ofensiva" (Veiga, 2007a:134).
Vale lembrar que muitos setores industriais presentes na CEB têm interesses
especiais na integração da América do Sul, importante trilho da estratégia
comercial brasileira. Alguns dos setores mais fechados da economia brasileira,
a exemplo do setor automobilístico, vêm ganhando com o processo de integração
econômico-comercial na região. Como em geral a indústria brasileira é a mais
competitiva da América do Sul, a concorrência não é temida. A CEB destaca em
seu posicionamento positivo quanto à integração regional a importância de
aprofundar acordos comerciais a fim de que o Brasil não perca margem de
preferência tarifária com os acordos celebrados entre os países da região e
outros de fora dela, particularmente a China. De acordo com relato de
representantes da Coalizão, o medo de triangulação é enorme nos acordos
comerciais existentes com países da América do Sul. O efeito China sobre os
acordos regionais existentes com os países da região reforçaria a necessidade
de melhorar os acordos sobre regras de origem e de facilitação de comércio,
aumentando o poder da aduana no Brasil a fim de impedir que regras dos acordos
existentes fossem desconsideradas em detrimento de interesses de setores
econômicos brasileiros.
Em outros acordos regionais de comércio, particularmente aqueles assinados com
países em desenvolvimento de fora da América do Sul desde 2003, não houve a
formalização da participação de atores não estatais. O escopo reduzido desses
acordos pode justificar a falta desses mecanismos, mas a falta de informações
sobre o que estava sendo negociado e a personalização das relações entre o
Estado e o setor privado foi alvo de críticas de representantes desse setor. A
CEB critica o reduzido conteúdo econômico-comercial dos acordos firmados com
países em desenvolvimento durante o governo Lula, que teria vinculado a
estratégia de negociações de acordos regionais à lógica meramente política,
deixando de lado os objetivos econômicos dos acordos regionais de comércio.
Para Veiga (2007a e 2007b), a posição defendida pela CEB nos processos de
negociação de acordos regionais fundamentou-se em duas bases: a) na defesa do
reconhecimento da reciprocidade assimétrica nos esquemas de liberalização de
comércio de bens, particularmente na Alca e nas negociações entre o Mercosul e
a UE, a fim de contemplar as diferenças entre níveis de desenvolvimento dos
respectivos países; e b) na reprodução dos compromissos assumidos nos acordos
comerciais ao final da Rodada Uruguai para temas que envolvam serviços,
investimentos, propriedade intelectual, compras governamentais, entre outros.
Observa-se, pois, que a posição do setor privado brasileiro se estruturou em
dois pilares que sinalizam para a ideia de que o preço da abertura, pago na
Rodada Uruguai por alguns setores empresariais brasileiros, representaria o
teto aceitável para muitos temas da agenda comercial e que a condição de país
em desenvolvimento deveria dar ao Brasil, à semelhança das regras existentes no
regime multilateral de comércio, um tratamento especial e diferenciado quanto
aos prazos de liberalização tarifária, especialmente em setores sensíveis, mais
vulneráveis à concorrência com importações. Como reitera Veiga (2007a): "A
participação do setor empresarial nas negociações de comércio focalizou
principalmente os temas relativos à proteção do mercado interno e conferiu
prioridade à necessidade de moderar quaisquer novas iniciativas de
liberalização do comércio - seja regional, seja multilateral" (Veiga, 2007a:
132).
No âmbito multilateral, a CEB acompanha as negociações na OMC e, no plano
doméstico, participa do GICI. Em seus documentos de posicionamento político-
negociador encontra-se referência à importância do regime multilateral de
comércio para um país em desenvolvimento como o Brasil. Quando da tentativa de
lançamento da Rodada do Milênio em Seattle (em 1999), a Coalizão Empresarial
Brasileira manifestou posição defensiva quanto a se negociar redução tarifária
para bens industriais, considerando que o atual padrão de proteção industrial
estaria adequado. Segundo a CEB (1999):
A maioria dos setores industriais brasileiros manifestou posição
contrária à negociação de tarifas industriais na OMC. As tarifas
praticadas atualmente pelos países desenvolvidos não constituem
obstáculo relevante para a expansão das exportações brasileiras de
produtos industriais. O impacto sobre o setor industrial brasileiro
das reduções tarifárias, que seriam naturalmente exigidas como
contrapartida no processo de negociação, superaria largamente
qualquer expectativa de ganho nessa área (CEB, 1999:4).
A preocupação protecionista manifestada em Seattle foi também levantada nas
negociações comerciais entre o Mercosul e a UE e no início das negociações
comerciais na Rodada Doha (em 2001). A visão de que os custos do ajuste aos
acordos da Rodada Uruguai teriam sido altos para importantes setores da
indústria brasileira pautou a posição da CEB, relativamente à agenda a ser
negociada em Doha. No excerto do documento de posicionamento da CEB, que segue,
sobre a Rodada Doha, a Coalizão retoma a retórica política de sinalizar para as
assimetrias econômicas, que teriam sido ampliadas ao final da rodada anterior.
Como relata a CEB (2001):
Ao mesmo tempo que reconhece que o Brasil tem grande interesse em uma
nova Rodada de negociações multilaterais, entende a Coalizão
Empresarial Brasileiraque esta deve levar em consideração as lições
da implementação da Rodada Uruguai, especialmente para os países em
desenvolvimento. Há hoje consenso de que a implementação desigual dos
resultados da Rodada gerou novas assimetrias entre países
desenvolvidos e em desenvolvimento. ACoalizão Empresarial
Brasileiraconsidera, portanto, ser importante reconhecer a
necessidade de revisão de acordos que possam estar contribuindo para
gerar novas assimetrias entre países com distintos graus de
desenvolvimento (CEB, 2001:2, ênfase nossa).
A busca por manter a proteção consolidada e minimizar danos aos interesses
empresariais brasileiros advindos de novos acordos comerciais multilaterais
leva a CEB a reforçar, em 2005, a importância de mecanismos de tratamento
especial e diferenciado a países em desenvolvimento, que deveriam estar
presentes nos acordos em negociação na Rodada Doha da OMC. Na negociação
multilateral, tanto setores exportadores com posições ofensivas quanto setores
competidores de importações com posições defensivas encontram elementos que
estruturam suas posições e acomodam interesses em confluência com o próprio
marco mais geral da política comercial externa do período.
A Coalizão Empresarial Brasileira (CEB) entende que fortalecer a OMC
(Organização Mundial do Comércio) é crucial para a defesa dos
interesses do Brasil no que diz respeito ao comércio exterior. O
sucesso da Rodada de Doha é essencial para evitar o enfraquecimento
do sistema de comércio multilateral e limitar as distorções
comerciais geradas por iniciativas regionais. A CEB também acredita
que as negociações da Rodada Doha devem ser capazes de produzir
resultados significativos em áreas onde os países em desenvolvimento
concentram seus interesses em termos de exigências. Ao fazer isso, a
Rodada terá dado uma contribuição real aos esforços empreendidos por
esses países na direção do desenvolvimento. O mandato de Doha
determina a inclusão dos princípios de tratamento especial e
diferencial para países em desenvolvimento e reciprocidade parcial
nas concessões a serem negociadas no tocante ao acesso ao mercado
para produtos industriais.A combinação desses dois princípios deveria
refletir-se em compromissos menores em termos de redução de tarifas,
com períodos mais longos para implantação e a possibilidade de
manutenção da porcentagem de linhas tarifárias com cortes menores do
que previstos nas fórmulas, ou até mesmo isentas de liberalização
(CEB, 2005:1, ênfases nossas; tradução do editor).
Como se observa, segundo interesses consolidados na articulação política da
CEB, as negociações para a criação de novas regras para o comércio
internacional em suas múltiplas agendas (bens, serviços, investimentos,
propriedade intelectual, compras governamentais etc.) deveriam ter como
prioridade o fórum multilateral encontrado na OMC. A relevância do sistema de
solução de controvérsias da OMC também é ressaltada em documentos da CEB, que o
avaliam como essencial para o aumento da credibilidade e da estabilidade da
regulação do comércio em âmbito global. Assim, o trilho multilateral da
estratégia de negociação comercial executada pelo Brasil entre 1995 e 2010 foi
vetor preferencial de negociação segundo interesses do setor privado articulado
na CEB, coadunando-se à visão oficial referenciada no Itamaraty que conferiu
prioridade à participação do país no regime comercial multilateral. Desde julho
de 2008, quando a última importante tentativa visando à conclusão da Rodada
Doha fracassou, a CEB não tem acompanhado as negociações na OMC.
Na análise documental, identificou-se que os interesses de setores empresariais
brasileiros, particularmente daqueles mais protegidos, em escolher o
multilateralismo comercial como prioritário no quadro de suas preferências
negociadoras encontram-se relacionados à própria dinâmica do processo de
negociação e de adaptação dos acordos realizados nesse fórum. Nas negociações
multilaterais, o processo negociador é mais complexo e demorado por envolver
uma agenda mais extensa de temas comerciais e um maior número de países,
integrando também barganhas cruzadas e formação de coalizões. Ademais, os
efeitos da liberalização comercial ou ajustamento a novas regras acordadas no
âmbito do regime multilateral de comércio são mais lentos, com dilatação
temporal especialmente para países em desenvolvimento. Com isso, os setores que
demandam proteção, fundamentalmente concorrentes com importações, preservam-na
por um período de transição prolongado, o que lhes permite, no limite, realizar
mudanças estruturais que possam ampliar sua produtividade e competitividade
internacional antes da adaptação a novas regras ou da liberalização comercial.
Na avaliação de representantes do setor privado consultados em nossa pesquisa,
a participação nos comitês da Senalca e da Seneuropa funcionou bem, com
transparência e integração do setor nas negociações, ainda que segundo a agenda
da coordenação do Itamaraty. Em alguns casos, especialmente nas negociações da
Alca e na OMC, os coordenadores da CEB tiveram acesso à sala de negociações
como parte da delegação brasileira. Em outras, foram convidadas para estar no
"quarto ao lado", de onde acompanhavam e discutiam com diplomatas aquilo que
fora colocado na mesa na sala de negociação minutos antes. Assim, não obstante
os problemas relativos ao condicionamento da interação segundo pautas definidas
pelo governo, o setor empresarial fez bom
uso das possibilidades de diálogo e de interação no intuito de defender seus
interesses e preferências nas negociações comerciais em que o Brasil encontrou-
se envolvido, particularmente Alca, Mercosul-UE e Rodada Doha. O Itamaraty, por
outro lado, deu a suas ações maior legitimidade e referência às bases
socioeconômicas e políticas do país.
O Quadro_1, a seguir, sintetiza os posicionamentos da CEB em cada um dos três
trilhos da estratégia de negociação comercial do Brasil entre 1995 e 2010.

PREFERÊNCIAS E ATUAÇÃO DA REDE BRASILEIRA PELA INTEGRAÇÃO DOS POVOS
Congregando organizações sindicais e ONGs, além de movimentos sociais, que
tenham interesses relacionados ao processo de integração econômica e
negociações comerciais, foi criada, em 1998, a Rebrip. A Rebrip trabalha pela
construção de "uma sociedade democrática pautada em um desenvolvimento
econômico, social, cultural, ético e ambientalmente sustentável" (Rebrip, 2001:
1). A Rede define sua atuação na busca de alternativas à lógica da
liberalização comercial e financeira que predomina nos acordos econômicos e
comerciais nos dias de hoje. A contestação política se dá pela constituição de
um grupo articulador de consensos e posições comuns aos seus membros, visando a
apresentar alternativas e defender princípios e interesses sociais no campo das
negociações comerciais. Assim, a atuação da Rebrip está vinculada à contestação
da privatização de políticas e espaços públicos, como considerado por seus
membros. Para Veiga (2007a):
A criação da REBRIP constitui uma inovação institucional, tal como
constituiu, do lado empresarial, a criação da CEB. A REBRIP é uma
rede de entidades de diferentes origens e objetivos que se dedica
essencialmente a negociações comerciais - que não constitui o negócio
principal de qualquer das entidades a ela filiadas - e cuja natureza
multissetorial reflete a estrutura das agendas de negociações
comerciais hoje.De acordo com um membro da
REBRIP, isso assegura um acompanhamento mais adequado dos processos
de negociação, possibilitando uma visão completa dos interesses em
jogo e evitando a concentração num tema somente, que colocaria em
risco o entendimento dos processos como um todo, as compensações
envolvidas etc. (Veiga, 2007a:139, ênfase nossa).
Na avaliação da coordenadora da Rebrip, Fátima Mello: "A política externa
brasileira sempre foi vista pelo grande empresariado industrial e do
agronegócio como propriedade desses setores" (Mello, 2010:1). Daí, em sua
visão, a importância da construção de uma rede de organizações sociais que
ajude a pensar a política externa, e particularmente a política comercial
externa, por novas perspectivas e auxilie no processo de democratização dessa
política. Pois, como reitera Mello: "Ao longo dos últimos anos novas agendas e
novos atores passaram a disputar os rumos da política externa, visando a
democratizá-la e torná-la uma política pública que reflita os interesses
múltiplos e conflitantes que existem na sociedade brasileira" (ibidem:1).
Entre os temas centrais ao interesse da Rebrip encontram-se a agricultura, com
enfoque de defesa do pequeno agricultor, os serviços, particularmente o que
chamam de serviços sociais, o acesso a mercados para produtos não agrícolas,
defendendo uma agenda de produção da indústria e do emprego no Brasil, o
investimento e os direitos de propriedade intelectual, com foco na agenda de
licenças compulsórias e quebra de patentes, e o meio ambiente, tema central na
proposta do novo modelo de desenvolvimento sustentável defendido pela Rede. No
que concerne à participação da Rebrip nos mecanismos oficiais de consultas e
diálogo entre atores estatais e não estatais criados a partir das negociações
da Alca, cabe salientar que a Rede teve atuação mais ativa na Senalca do que na
Seneuropa ou mesmo no GICI, que tratava das negociações no âmbito da OMC. Ainda
que igualmente condicionado pelos limites definidos pelo Itamaraty nos
mecanismos de consulta, o posicionamento da Rebrip frente às negociações
comerciais passou paulatinamente a incorporar elementos técnicos para a
formatação de propostas concretas que pudessem ser levadas aos comitês.
Quando das negociações da Alca, a Rebrip foi convidada a levantar uma lista de
produtos de interesse à agricultura de pequena escala que comporia as exceções
à liberalização comercial negociada no acordo (Veiga, 2007b). O grau de
abertura aos atores não estatais da sociedade civil organizada observada ao
longo das negociações da Alca não foi encontrado nas negociações entre o
Mercosul e a UE, muito mais fechado e pouco convidativo à participação ativa
desses atores na Seneuropa. Com os fluxos de informações ampliados e a
participação nos fóruns de consulta, a Rede inicia um processo de conhecimento
da agenda de negociações comerciais internacionais que auxiliou na redefinição
de suas estratégias de contestação política tanto dentro quanto fora dos
mecanismos de participação e consultas à sociedade.
Em geral, a Rede mantém posicionamento crítico às negociações pelo Brasil de
acordos comerciais regionais, particularmente com países do Norte. Para os
movimentos e as organizações que compõem a Rebrip, a lógica liberal que impera
na dinâmica de integração econômica que estrutura os mais diversos acordos
comerciais estaria em desacordo com os interesses da sociedade em geral, pois
traria custos elevados de adaptação à economia do país com prejuízos advindos
da redução dos níveis de empregos e renda. A articulação da Rede contesta essa
lógica, levando em conta a necessidade de se repensar o desenvolvimento
nacional e regional em bases sociais e sustentáveis.
Com base nesses princípios de contestação à ordem liberal vigente no quadro dos
acordos comerciais, a Rebrip manteve posição defensiva e negativa quanto às
negociações comerciais para a formação da Alca e do acordo entre o Mercosul e a
União Europeia. Esse padrão de posicionamento negociador, que contesta as
próprias premissas do modelo em vigor, também serviu para moldar as estratégias
da Rede relacionadas aos demais acordos comerciais assinados com países em
desenvolvimento nos últimos anos. Pode-se destacar essa posição em declaração
da Rebrip (2007b) sobre as negociações entre o Mercosul e Israel para a
formação de uma área de livre comércio. Como se afirma no documento:
Os movimentos sociais, organizações, redes e demais entidades vêm,
por meio desta, se pronunciar ativamente contra a assinatura de um
Tratado de Livre Comércio entre o MERCOSUL e o Estado de Israel.
Pelas mesmas razões que nos opusemos à ALCA e aos tratados de livre
comércio entre Europa e MERCOSUL, denunciamos hoje este acordo que
estabelece "a criação de uma Área de Livre Comércio" entre os cinco
países mencionados, assim como o compromisso "com os princípios da
Organização Mundial de Comércio (OMC)" (Rebrip, 2007b:1).
Em documento intitulado "Propostas para a Política Externa do Brasil", a Rebrip
afirma a necessidade de se construir uma agenda que leve a outro modelo de
desenvolvimento. Para alcançar essa meta, a PEB deveria trabalhar para
democratizar o sistema internacional, com vista à ampliação de agenda e à
democratização de organismos multilaterais, econômicos e políticos, além da
redução de assimetrias econômicas e de poder. De acordo com a Rebrip (2010), a
construção de um novo multilateralismo, democrático e inclusivo, que vai além
do ator estatal em seus processos de participação, deveria ser prioridade na
agenda de política externa do Brasil:
O Brasil deve apostar na transição para um novo multilateralismo, que
expresse uma nova agenda e uma nova correlação de forças. Ao invés de
ser ordenada de acordo com os interesses militares, financeiros e
comerciais das grandes potências e corporações, um novo
multilateralismo democrático deveria priorizar o enfrentamento da
transição a um novo modelo de desenvolvimento, das imensas
desigualdades entre Norte e Sul, mas também no interior dos países,
da garantia dos direitos, da construção de soluções reais para as
mudanças climáticas e outros conflitos socioambientais. Neste novo
multilateralismo as finanças e o comércio estariam submetidos ao
atendimento dos direitos e da transição a um novo modelo de
desenvolvimento (Rebrip, 2010:1, ênfases nossas).
A agenda de reformas propostas para o multilateralismo pela Rebrip dá o tom da
crítica da instituição acerca dos princípios que estruturam os acordos
comerciais existentes e administrados sob os auspícios da OMC. Segundo a visão
preponderante na Rede, as negociações no âmbito do regime multilateral de
comércio ganharam força e tiveram sua agenda ampliada e aprofundada desde a
Rodada Uruguai em consonância com os interesses de importantes empresas
transnacionais, grandes vencedoras no modelo liberal de acordos, segundo a
Rede. Para a Rebrip (2008):
Desde a sua criação em 1995, o objetivo da OMC é a crescente
liberalização do comércio agrícola, de serviços, de investimentos,
beneficiando assim as grandes corporações que visam expandir seus
lucros no mundo, e para isso precisam de um ambiente livre de
regulações, de leis nacionais e de políticas públicas. As grandes
corporações sempre foram as maiores beneficiadas pelas regras da OMC,
que removem os mecanismos que consideram discriminatórios adotados
por alguns países para defenderem sua indústria e sua agricultura
(Rebrip, 2008c:2, ênfase nossa).
Quando do lançamento do Pacote de Julho de 2008, a principal tentativa de
conclusão da Rodada Doha, na qual a diplomacia brasileira envidou esforços
importantes, a Rebrip apresentou documento público no qual contesta os termos
do Pacote e demanda ao governo brasileiro a paralisação das negociações
multilaterais. Na visão da Rebrip, se concluída, Doha poderá significar a
ampliação do desgaste do meio ambiente no Brasil com prejuízos sociais
importantes vinculados à suposta desindustrialização pela qual a economia do
país poderia passar. Assim, articulando elementos ambientais, sociais e
econômicos em seu discurso contra a conclusão da Rodada Doha, a Rede:
(...) demanda que o Governo Brasileiro pare de negociar nestes
termos. Não haverá um mercado socialmente justo se a Rodada de Doha
for concluída em pré-juízo dos setores produtivos mais vulneráveis.
Os desequilíbrios e assimetrias resultantes deste acordo levariam o
Brasil e muitos outros países do Sul à desindustrialização, a uma
ainda maior falta de segurança e soberania alimentar, ao avanço dos
monocultivos voltados à exportação, a um aprofundamento da
privatização de serviços, à perda de empregos e limitações para o
atendimento na prestação de serviços à população. (...) Esta dinâmica
das negociações estimula o aprofundamento de um modelo baseado na
exportação de produtos agrícolas primários, de baixo valor agregado,
que exigem o uso intensivo de energia, de água e de insumos químicos
na sua produção e de vastas extensões de terras para a pecuária e os
mono-cultivos, que aumentam a concentração fundiária e os
desmatamentos, e empobrecem a biodiversidade e a agro biodiversidade
(Rebrip, 2008b:1-3, ênfases nossas).
Na contestação das negociações comerciais multilaterais, a REBRIP levantou
argumentos relacionados à própria política de aproximação do governo Lula com
países em desenvolvimento na formação de coalizões e arranjos negociadores.
Para a Rede, países parceiros como Argentina e Índia estariam buscando resistir
ao processo liberalizador que embasa as negociações na OMC. Nesse sentido, a
Rebrip (2008) afirmou que:
(...) não podemos aceitar que a Rodada de Doha seja concluída nas
bases propostas, pois isto significaria um retrocesso em relação às
conquistas obtidas em nossas lutas de resistência. Significaria um
distanciamento do Brasil da construção de alianças estratégicas com
países como Argentina e Índia que têm tentado resistir no processo
negociador da OMC. Também significaria um bloqueio ao processo de
integração regional em curso, pois este requer preferências e
prioridades para o desenvolvimento para dentro de nossa região, ao
invés de destinarmos nossas estruturas produtivas à exportação para
os países do Norte. Por estes motivos, dizemos Não a Rodada de Doha
da OMC e conclamamos a sociedade brasileira a debater e resistir
(Rebrip, 2008a:4, ênfase nossa).
Diferentemente de sua participação na Senalca, a atuação da Rebrip no GICI
sobre as negociações comerciais multilaterais foi marginal, quase inexistente.
Na maioria das vezes, a Rede não foi convidada a participar das reuniões de
consultas, que se limitaram fundamentalmente ao setor privado articulado na
CEB. Com isso, a Rebrip tomava ciência das negociações em curso na Rodada Doha
por meio do acompanhamento da agenda disponibilizada pela própria OMC. Desde
então, a Rede reforçou seu posicionamento crítico sobre a importância da
transparência da participação brasileira nas negociações internacionais e a
necessidade de consultas sistemáticas tanto aos setores empresariais quanto aos
sindicais e sociais sobre essas negociações. Em carta ao Ministro das Relações
Exteriores, Celso Amorim, em 2007, a Rebrip critica a falta de transparência e
a alegada precipitação do Brasil quanto às negociações multilaterais na Rodada
Doha: "Vimos por meio desta mais uma vez manifestar nossa extrema preocupação
com a falta de transparência, o conteúdo e a precipitação e com a qual se tenta
chegar a uma conclusão da Rodada Dohade negociações na OMC" (Rebrip, 2007a:1,
ênfase nossa).
Essa falta de transparência não seria encontrada no âmbito da integração
regional, tendo o Mercosul como base. Dentre as propostas da Rebrip (2010) para
repensar a política externa do Brasil, a Rede destaca a importância de
fortalecer a cooperação e a integração regional na América do Sul. Assim, dos
três trilhos da estratégia de negociação comercial do Brasil estruturada entre
1995 e 2010 apenas o da ampliação da rede de acordos regionais na América do
Sul encontra apoio, ainda que condicionado e relativo, nos posicionamentos
políticos da Rebrip no campo das negociações comerciais internacionais. O apoio
é condicionado e relativo porque, embora reconheça a importância da agenda da
integração regional, a Rebrip considera a necessidade de se seguir no processo
por meio da ampliação da agenda social e ambiental dos acordos existentes.
A Rede identifica na integração produtiva elementos capitais que permitem aos
países da América do Sul lidar com as assimetrias econômicas e projetar uma
agenda positiva no campo do emprego e da renda no âmbito regional. Os acordos
comerciais com os países da região são tolerados quando vistos no quadro do
processo de integração mais amplo. Algumas das ações realizadas ao longo do
governo Lula no campo da integração regional, como a criação do Focem e do
Parlasul e a inserção de uma agenda social no processo, coadunam-se com
interesses e preferências observadas nos posicionamentos da Rede sobre a
ampliação da integração regional na América do Sul. Como afirma a Rebrip
(2010):
O Brasil deve seguir tomando iniciativas que indiquem um investimento
político no fortalecimento da coordenação e concerto regional na
América Latina, fortalecendo o processo de integração regional -
consolidando o MERCOSUL e construindo a UNASUL - e priorizando uma
agenda que tenha como objetivos centrais o desenvolvimento
sustentável. No processo de consolidação do MERCOSUL, o governo
brasileiro deve contribuir para superar as disparidades e assimetrias
entre nossa economia e a dos demais países parceiros, através de um
forte programa de integração produtiva, com foco na articulação de
suas cadeias produtivas, processo que deve ter como objetivo central
a distribuição dos ganhos em toda a cadeia produtiva, a geração de
empregos decentes e a garantia que a especialização produtiva em cada
país não se consolide à custa da redução dos direitos trabalhistas e
efeitos predatórios sobre o meio ambiente, incentivando o
desenvolvimento tecnológico, social e sustentável de forma
igualitária entre os países membros do MERCOSUL(Rebrip, 2010:1,
ênfases nossas).
Tomando por base o quadro de preferências que pautou a atuação da Rebrip desde
a sua criação em 1998, é importante frisar que, como toda organização social, a
Rede abrange um leque multivariado de interesses e posições entre seus membros.
A dinâmica política da disputa interna leva à construção de pontos de consenso
que são defendidos pela Rede, estruturados fundamentalmente no princípio que
norteia a própria lógica de atuação de cada uma das organizações e movimentos
que a compõem, qual seja: a contestação da ótica liberal nas negociações
comerciais internacionais e a denúncia do modelo capitalista vigente. Sobre as
distintas posições existentes entre os membros da Rebrip, Veiga (2007a) afirma:
Há, na realidade, uma grande variedade de posições e pontos de vista
políticos na Rede. De acordo com um funcionário responsável pela área
de relações internacionais de uma importante ONG brasileira, uma
cisão coloca "soberanistas" - que defendem que o país deva preservar
espaços para políticas públicas - em oposição àqueles que aceitam
algum desgaste da soberania em benefício de projetos de integração,
especialmente na América do Sul. Outra cisão coloca
"institucionalistas" - favoráveis ao multilateralismo e ao
aperfeiçoamento da OMC - contra "movimentistas", contrários à
globalização e à OMC (Veiga, 2007a:141-142).
A lógica antiliberal que fundamentou a atuação da Rede dentro e fora dos
mecanismos de consulta e participação da sociedade instituídos pelo Itamaraty
ressalta a importância de se colocarem os "interesses sociais" à frente dos
"interesses comerciais" quando das negociações de acordos econômicos pelo
Brasil. Nesse sentido, a manutenção de espaços para política pública em todas
as áreas de atuação do Estado é apresentada como elemento essencial a ser
preservado em qualquer acordo. Assim, a vontade política socialmente construída
no ambiente doméstico não deve ser sobreposta por interesses e regras
internacionais. Essa visão é bem sintetizada no seguinte excerto de documento
publicado pela Rede:
No âmbito da política de comércio exterior, é fundamental garantir
que, em todos os processos em que o Brasil esteja envolvido, OS
INTERESSES SOCIAIS PREVALEÇAM SOBRE OS INTERESSES MERAMENTE
COMERCIAIS, resguardando mecanismos de proteção tarifária para a
produção e o desenvolvimento nacional, a possibilidade de que o
avanço científico e tecnológico seja usado em prol do conjunto da
humanidade, particularmente os grupos mais fragilizados, e não com o
fim precípuo do lucro, que acordos internacionais não devem se
sobrepor a regulamentações nacionais, que os direitos do consumidor
sejam garantidos e que o acesso a serviços de boa qualidade sejam
universais (Rebrip, 2010:2, ênfases nossas).
O Quadro_2, a seguir, resume os posicionamentos da Rebrip em cada um dos três
trilhos da estratégia de negociação comercial do Brasil entre 1995 e 2010.
[/img/revistas/dados/v55n2/a04qua2.jpg]
CONSIDERAÇÕES FINAIS: ENTRE CONVERGÊNCIA E CONTESTAÇÃO
Este artigo buscou analisar como os atores empresariais, articulados em torno
da CEB, e organizações e redes da sociedade civil, por meio da Rebrip, atuaram
na defesa de seus interesses com vistas a influenciar, entre meados dos anos
1990 e o final do governo Lula, a formulação das estratégias de negociação
comercial do Brasil. Também procurou compreender em que medida essa atuação foi
importante para a definição de prioridades negociadoras, ou seja, a recepção
pelas instituições políticas dessa expressão de interesses.
Considerando-se a projeção dos interesses coordenados pela CEB na agenda de
formulação da política comercial externa do Brasil, pode-se afirmar que houve
convergência com os interesses dos atores estatais envolvidos no que concerne à
escolha dos fóruns de negociação comercial. Destacou-se, contudo, o perfil
eminentemente protecionista dos interesses coordenados pela CEB nas principais
negociações de acordos regionais e multilaterais em que o Brasil esteve
envolvido no período em análise. Embora posições ofensivas relacionadas à
lógica de abertura comercial internacional tenham surgido em determinados
setores econômicos participantes da CEB, especialmente no campo agrícola, ainda
são importantes (e, em geral, protagonistas) as posições defensivas da Coalizão
nas negociações comerciais, que favorecem particularmente alguns setores
industriais e de serviços no Brasil.
A prioridade conferida na estratégia de política comercial externa do Brasil
entre 1995 e 2010 às negociações multilaterais de comércio e à ampliação da
integração regional na América do Sul por meio de acordos comerciais coadunou-
se com as preferências negociadoras da CEB, que tem múltiplos interesses
setoriais atendidos com as negociações multilaterais na Rodada Doha e vê o
espaço de integração ampliada no continente sul-americano como relevante para o
incremento de exportações e ganhos de competitividade internacional. Nas
principais negociações de acordos regionais com países de fora da América do
Sul, observou-se um perfil eminentemente protecionista dos interesses
coordenados pela CEB.
Ao se considerarem as preferências e a atuação da Rebrip nos três trilhos de
negociação comercial seguidos pela política comercial externa do Brasil nas
últimas décadas, pode-se afirmar que o papel da Rede estruturou-se
essencialmente no campo da contestação dos princípios da própria estratégia
negociadora, sendo marginal seu aporte direto na formatação da agenda de
negociação dos acordos comerciais tanto em nível regional quanto multilateral.
Como se analisou, a Rebrip apresentou posição defensiva e negativa quanto aos
acordos regionais negociados pelo Brasil com países de fora da América do Sul e
também em relação às negociações de acordos multilaterais na Rodada Doha,
considerados prejudiciais à economia, ao desenvolvimento social e à proteção
dos interesses do meio ambiente nos planos nacional e regional. Apenas no que
concerne à integração regional encontram-se aspectos de avaliação positiva da
Rede, mas ainda assim com ressalvas, em relação às estratégias de política
comercial adotadas pelo Brasil, particularmente no período entre 2003 e 2010.
De toda forma, a participação da Rebrip enquanto coordenador de interesses da
sociedade civil organizada no debate sobre a inserção internacional brasileira
é importante como elemento da democratização da agenda de política externa em
geral, e de política comercial externa em particular. O interesse da sociedade
em assuntos internacionais é ainda muito recente no Brasil e a consolidação da
Rede como ator nas discussões sobre comércio e negociações internacionais
auxilia na reflexão necessária sobre os impactos da ação internacional do
Brasil sobre a sociedade brasileira e a economia doméstica. Demonstra, ademais,
que o foco dos interesses das redes e dos movimentos sociais pode ir além dos
temas tradicionais, tais como direitos humanos, cooperação para o
desenvolvimento, bens culturais e educação, e voltar-se a temas da agenda
prioritária de negociação da PEB (integração regional, acordos comerciais,
segurança, entre outros). É evidente que o desafio também se coloca para redes
e movimentos da sociedade civil brasileira no sentido de se formarem em temas
bastante especializados de política internacional e política externa, mas
igualmente de despertarem o interesse da opinião pública por assuntos dessa
natureza, processo que poderia, prospectivamente, contribuir para a ampliação
quantitativa e qualitativa das constituencies3 dessa política pública sui
generis que é a política externa brasileira.
NOTAS
1. Como lembra Souza (2006:24), "não existe uma única, nem melhor, definição
sobre o que seja política pública". Aqui adotamos a definição de política
pública como o conjunto das atividades do governo que, agindo direta ou
indiretamente (por exemplo, por delegação ou pela ação de agentes não
governamentais), acaba por influenciar o cotidiano dos cidadãos. Tais ações do
governo se inspiram em um modelo institucional e em uma tradição histórica de
Estado.
2. Segundo o artigo 4o do Título I da Constituição, os princípios são os
seguintes: I) independência nacional; II) prevalência dos direitos humanos;
III) autodeterminação dos povos; IV) não intervenção; V) igualdade entre os
Estados; VI) defesa da paz; VII) solução pacífica dos conflitos; VIII) repúdio
ao terrorismo e ao racismo; IX) cooperação entre os povos para o progresso da
humanidade; X) concessão de asilo político. Parágrafo único: a República
Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e
cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade
latino-americana de nações.
3. No mundo anglo-saxão, o termo constituency remete a qualquer grupo coeso de
indivíduos ligados por identidades compartilhadas, laços culturais, valores,
interesses e lealdades comuns. O termo pode ser usado para descrever um
conjunto de eleitores, apoiadores de uma fundação, clientes ou acionistas de
uma empresa, bem como por extensão os atores envolvidos e interessados por
determinados temas e agendas de políticas públicas (Bogdanor, 1985).