Assentamentos rurais em São Paulo: estratégias e mediações para o
desenvolvimento
INTRODUÇÃO: EXPLICITANDO A PERSPECTIVA ANALÍTICA
Este trabalho busca avaliar as ações e políticas pró-desenvolvimento dos
assentamentos rurais em duas regiões bastante diferenciadas do Estado de São
Paulo: Pontal do Paranapanema e Araraquara. Objetiva-se estudar os agentes e as
agências que se defrontam no campo de disputa dessas políticas, campo de forças
gerador de tensões, conflitos, resistências e acomodações, dando especial foco
aos mediadores oficiais e políticos da reforma agrária (órgãos públicos de
terras e organizações de trabalhadores). Pode-se considerar que a trajetória e
os destinos das experiências de assentamentos e dos trabalhadores assentados se
moldam a partir da dinâmica, de impasses e bloqueios gerados, muitas vezes, no
interior dessas agências.
Esse exercício sintético faz parte de um esforço de pesquisa e análise de mais
de duas décadas1, no qual se buscam elucidar os impasses nas trajetórias dos
assentados, sustentados pela reavaliação e reapropriação das medidas
institucionais, pelas tentativas de mudança de rumos nas suas vidas, mesmo nos
casos mais extremos, como o arrendamento de suas terras (Martins, 2003) e pelo
redirecionamento de algumas ações dos mediadores que, com frequência, se pautam
por modelos acabados e simplistas (Martins, 2000), contrariando a diferenciação
e a multidimensionalidade dos processos de assentamentos rurais (Ferrante,
1992).
Discute-se que o confronto desses atores ' os próprios trabalhadores, suas
organizações representativas e os responsáveis oficiais pela política de
assentamentos ' nos espaços sociais de disputa e constituição das políticas
públicas é gerador de uma trama de tensões, opondo interesses e racionalidades
diversas, mediante distintos projetos, compromissos e estratégias. O
desenvolvimento das experiências de assentamentos se dá, então, na sua
trajetória, frente aos constrangimentos estruturais que a sociedade impõe,
sobretudo através do mercado e do Estado, como também frente à necessária
reelaboração da própria trajetória pessoal e familiar desses novos sujeitos, os
assentados (Barone e Ferrante, 2011).
Não existem, da parte de todos os agentes que se movimentam neste campo
específico, projetos claramente definidos e opostos. O próprio Estado e seus
representantes claudicam no encaminhamento das políticas para os assentamentos,
muitas delas criadas no empuxo das mobilizações dos trabalhadores rurais. Isto
não significa que embates concretos não aconteçam, animando o campo político
criado a partir da implantação dos assentamentos e dos dilemas de sua gestão.
Tais embates seriam a resultante mais conflituosa de um conjunto de tensões
sociais geradas pelas relações entre os distintos agentes que se põem e dispõem
nesse campo.
Neste artigo, procede-se a uma síntese de informações, colhidas no âmbito do
Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural (Nupedor) desde os anos 1980, numa
tentativa de compreender os condicionantes da reforma agrária em São Paulo, sob
uma perspectiva qualitativa que ressalta os contextos e os processos políticos
a ela subjacentes. Os dados apresentados, quando não referenciados em trabalhos
já publicados, foram levantados durante anos de monitoramento e diálogo, junto
às agências de mediação analisadas.
Diante da limitação de espaço para inúmeros esclarecimentos, recorre-se a notas
de rodapé, sempre que necessário. Longe de ter um caráter normativo, o texto
procura oferecer uma leitura crítica da realidade, de modo a revelar as tramas
de tensões (Baronee Ferrante, 2011) produzidas pela dinâmica dos agentes em
questão, uma opção metodológica julgada capaz de dar conta da riqueza do objeto
estudado.
Em meio a todos esses agentes, os trabalhadores beneficiários nos projetos de
reforma agrária se apresentam, muitas vezes, em posição de subalternidade,
porém com um relativo poder de barganha e de controle frente aos mediadores.
Diante das forças do mercado local/regional ou das imposições mais genéricas do
Estado, esses trabalhadores buscam desenvolver estratégias ou iniciativas que
permitam sua manutenção na terra, embora esse objetivo maior comporte práticas
contraditórias que, em última instância, podem levar a uma direção exatamente
oposta. Este é o caso da alternativa de trabalhar fora do assentamento,
situação que pode prenunciar o abandono do local, a médio e longo prazo.
A possível integração2 do assentado, enquanto produtor, nos circuitos
econômicos que dinamizam o mercado local/regional apresenta-se problemática.Os
territórios dos assentamentos apenas parcialmente atendem às exigências desses
circuitos, quando não se apresentam muito distantes do padrão dominante de
acumulação econômica dos respectivos contextos regionais. Falamos de bloqueios
dessa integração quando os assentamentos não reúnem condições para a alocação
adequada dos fatores produtivos ' como é o caso dos financiamentos e
assistência técnica ' ou quando os mercados locais/regionais não oferecem
agentes econômicos dispostos a distribuir a sua produção. O assentado se vê, em
muitas das situações, reduzido a um produtor de excedentes numa economia
altamente mercantilizada e (dependendo do contexto regional) também bastante
capitalizada. Em outras vezes, o assentado passa a ser protagonista de medidas
institucionais recentes, relativas à obrigatória inserção da produção local
regional na merenda escolar, por força da legislação federal, não
necessariamente cumprida3.
Dados os patamares de desenvolvimento econômico das diferentes regiões em
estudo ' Araraquara e Pontal do Paranapanema ', sobressai, em primeiro plano, a
inserção dos assentamentos no circuito de fornecedores de cana-de-açúcar para
as agroindústrias. Essa modalidade de produção passou a ser normatizada pela
Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), qualificada como
"parceria negocial" entre assentados e agroindústrias, a partir de 2002, com
significativa adesão dos assentados da região de Araraquara. Porém, a produção
de cana para fornecimento às agroindústrias manteve-se proibida nos
assentamentos sob jurisdição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra), gerando uma ambiguidade no tratamento da questão pelos órgãos
oficiais, além de uma viva polêmica sobre a adequação desse cultivo nos
assentamentos.
O que poderia ser a solução para os bloqueios do desenvolvimento econômico dos
assentamentos tem-se revelado cheio de impasses, nos quais uma insegura melhora
na renda monetária oculta a possibilidade de perda de autonomia na gestão do
lote e, na medida em que essa modalidade de "parceria" acaba por caracterizar-
se como arrendamento ' como é o caso dos assentamentos federais ', até mesmo a
perda do lote, via exclusão oficial (Barone, Ferrante e Bergamasco, 2008).
Por outro lado, o nível inferior de capitalização em geral, na região do
Pontal, aproxima o assentado, geralmente um produtor de leite, de muitos outros
produtores que são pequenos proprietários. Esta equivalência, no entanto, não
resolve o dilema de baixa remuneração na atividade, aliás, comum nos dois
grupos. A melhora advinda de algumas ações oficiais de apoio à produção
leiteira, não cria uma situação segura de rentabilidade para os assentados. As
alternativas de melhoria da renda e agregação de valor, através de organizações
de produtores assentados não demonstram lograr sucesso em ambas as regiões, o
que demanda uma reflexão acerca de estratégias de formação de associações e
cooperativas, no mais das vezes estimuladas por políticas e agências oficiais,
como também pelas organizações de trabalhadores (MST, sindicatos e outros).
Nesse aspecto, também é evidenciada a diferenciação entre grupos de assentados
e suas estratégias de geração de renda, organização de trabalho e representação
política. A partir de um conhecimento empírico acumulado que já se tem, como o
dos produtos destinados ao consumo familiar, organizam-se formas de geração de
trabalho e renda, ainda timidamente apoiadas por agências oficiais, o que
resulta numa diversificação, também, de tais estratégias, diferentes daquela de
integração às agroindústrias.
Num primeiro nível de mediação, consideramos as próprias organizações dos
assentados, notadamente as associações (Barone etalii, 2008), sempre presentes
nos assentamentos. As organizações cooperativas, um segundo nível de mediação,
são estruturalmente mais complexas e, no geral, estão sob controle direto das
organizações políticas que têm os trabalhadores assentados como base. É assim
nos contextos regionais estudados, casos da Cooperativa de Comercialização e
Prestação de Serviços dos Assentados da Reforma Agrária no Pontal (Cocamp) e
Cooperativa de Produção de Biodiesel do Oeste Paulista (Cooperbioeste) (Pontal)
e Cooperativa Unificada dos Trabalhadores do Campo (Unicampo) (Araraquara)4,
que ora se apresentam com algum grau de proximidade do cotidiano dos
assentados, ora propõem ações e se movimentam com um alto grau de externalidade
aos assentados, revelando a complexidade e o estranhamento dessas organizações.
As descontinuidades e perspectivas das associações e cooperativas contam
efetivamente na análise dos rumos dos assentamentos rurais (Barone etalii,
2008).
O terceiro nível é o dos mediadores oficiais, entendidos como os agentes
públicos, sejam os de perfil técnico (como agrônomos) ou político
(representantes dos poderes públicos locais e regionais). Estes mediadores têm
a formulação de políticas de desenvolvimento dos assentamentos ao seu encargo,
mas, muitas vezes, atuam como impedimentos às alternativas mais autônomas dos
trabalhadores. Neste artigo, dá-se especial destaque para as agências públicas
de mediação ' em São Paulo, os órgãos de terras: Itesp e Incra ', bem como para
a trajetória recente (no governo Lula) dos principais mediadores da luta pela
terra nas duas regiões paulistas: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra
(MST) e a Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de SãoPaulo
(Feraesp), sobretudo em sua relação com os governos.
Este esforço de síntese busca estabelecer relações possíveis entre uma dada
realidade empírica, que é mais que uma política pública, porque é também obra
da luta de milhares de famílias camponesas e um conjunto de preocupações
teóricas daqueles que estudam ou interferem, via Estado, nessa realidade. A
gestão que os assentados imprimem ao território dos assentamentos, nos aspectos
da sua organização social, sua mobilização e instituições políticas e sua
participação econômica, pode redundar em mais ou menos liberdade para essas
famílias (Sen, 2000). O desenvolvimento, dessa forma, se dá na trajetória
dessas experiências de reelaboração da própria trajetória pessoal e familiar
desses novos produtores familiares e sua participação (tensionada/tensionadora)
nos campos da política e da produção.
OS ASSENTAMENTOS EM DISTINTOS CONTEXTOS: DIVERSIDADES REGIONAIS E CONJUNTURA
POLÍTICA
Como um estudo que se propõe a avaliar a implantação e a gestão das políticas
de desenvolvimento para os assentamentos rurais, a partir da mobilização dos
agentes que compõem esse campo específico, pesquisaram-se duas regiões do
Estado de São Paulo: 1) a região central do estado, com destaque para os
assentamentos da microrregião de Araraquara; 2) o Pontal do Paranapanema,
região localizada no extremo-oeste paulista. Nelas, a ação pública para o
assentamento de famílias de trabalhadores rurais tem intensidades diferentes,
tornando difícil uma comparação stricto sensu.
As características socioeconômicas das distintas regiões em estudo revelam uma
grande disparidade em termos de desenvolvimento regional. Enquanto a região
central do estado apresenta índices de dinamismo econômico notáveis, a região
do Pontal do Paranapanema tem um diagnóstico de "esvaziamento econômico", em
favor das regiões fronteiriças de Mato Grosso do Sul e Paraná (Barone e
Ferrante, 2010).
O caráter comparativo deste estudo visa, então, ressaltar os possíveis destinos
das experiências de assentamentos, em função das tramas sociais constituídas
pelos distintos conjuntos de agentes/atores políticos que animam o cenário
regional em cada caso, bem como através das tensões que se expressam no campo
das alternativas políticas e econômicas. Assim, pecuaristas ligados à União
Democrática Ruralista (UDR) no Pontal e empresários agroindustriais ligados ao
setor canavieiro na região de Araraquara são agentes que apresentam posições
simétricas no campo de forças em estudo, mas que não têm, necessariamente, a
mesma estratégia, frente às tensões geradas a partir do desenvolvimento dos
assentamentos.
A microrregião de Araraquara, na área central do Estado de São Paulo, conta com
três projetos de assentamentos rurais (PAs), produtos de diferentes políticas
públicas gestadas ao longo dos últimos 25 anos. Dois deles são de
responsabilidade do Instituto de Terras do Estado/Itesp (Monte Alegre e Horto
Bueno de Andrade), e um do Incra (Bela Vista do Chibarro). Os primeiros núcleos
de assentamentos (Monte Alegre I, II, III e IV) foram instalados pelo Itesp nos
anos de 1985 e 1986, em áreas da extinta Ferrovia do Estado de São Paulo
(Fepasa), ainda na gestão do governador Franco Montoro (1983-1986), tendo sua
instalação se completado quase dez anos depois. Hoje, o Projeto de Assentamento
Monte Alegre conta com seis núcleos, perfazendo um total de 416 lotes
agrícolas. São 418 famílias que ali residem, segundo dados da Fundação Itesp5.
Além desses núcleos do Itesp, existe um PA promovido pelo governo federal
(Incra) no município de Araraquara: o PA Bela Vista do Chibarro, com 176 lotes
agrícolas e cerca de 210 famílias. Este assentamento se encontra em terras
anteriormente pertencentes a uma usina de açúcar (Usina Tamoio), cuja
desapropriação data de 1989.
O Pontal do Paranapanema e sua série de irregularidades em relação aos títulos
de propriedade das terras, somada à grande ociosidade na utilização das áreas
desmatadas, têm assistido, desde há muito, a conflitos e lutas pela posse da
terra. À supracitada insegurança fundiária e à ação que os governos do período
da transição democrática desenvolveram, através de uma tímida política de
assentamento, os diferentes agentes sociais dessa região responderam com
mobilizações, de ampla divulgação na década de 1990.
Já no primeiro ano do governo Collor (1990), o MST iniciou o seu mais
importante processo de luta pela terra no estado (Fernandes, 1996). A partir de
então, o conflito entre os sem-terra' tendo o MST como a sua organização mais
ativa e representativa ' e os fazendeiros pecuaristas, liderados pela UDR, tem
pontuado a história da região. Centenas de ocupações, milhares de trabalhadores
mobilizados e acampados, dezenas de ações judiciais discriminatórias promovidas
pelo estado no sentido de identificar e arrecadar as terras devolutas
irregularmente ocupadas: esse é o contexto sociopolítico do Pontal6. Nesse
cenário, o incremento da política de assentamentos na região aconteceu,
sobretudo, na primeira gestão do governador Mário Covas (1995-1998), como
resultado de intensas negociações para arrecadação de áreas e o assentamento de
milhares de famílias. O Pontal do Paranapanema é, hoje, a região paulista com o
maior número de assentamentos e de famílias assentadas.
Em que pesem as conjunturas e as configurações políticas dos órgãos públicos
responsáveis pelos assentamentos, a própria política de assentamentos obedeceu
a estratégias governamentais distintas. Enquanto em Araraquara essa ação
reformista teve início como uma resposta às mobilizações dos assalariados
rurais, após as greves de Guariba, nos anos 1984-1985 (Barone, 1996) e
objetivou, no mais das vezes, áreas públicas do patrimônio da extinta Fepasa,
no Pontal, região marcada pela ocupação fundiária irregular, o estado realizou
ações pontuais voltadas para o assentamento de posseiros (e reassentamento de
ribeirinhos), até o período mais recente, quando a pressão dos movimentos de
trabalhadores rurais teve, como contrapartida, a instalação de dezenas de
projetos de assentamentos em áreas consideradas devolutas.
Claro que a conjuntura política e as forças sociais que conseguiram, mesmo que
episodicamente, fazer valer seus interesses na esfera governamental, muitas
vezes são as mesmas que incidiram sobre a política de assentamentos nessas duas
regiões. Assim é, que a abertura política dos anos 1980, com o fervilhar das
demandas sociais e políticas reprimidas, está diretamente relacionada com a
instalação dos primeiros núcleos de assentamentos nas terras do horto de
Silvânia (PA Monte Alegre) e com a implantação do maior assentamento do Pontal
(a Gleba XV de Novembro, entre os municípios de Rosana e Euclides da Cunha).
Nesse período, durante o governo André Franco Montoro (1983-1986), todo um
arranjo institucional foi montado, com vistas a instrumentalizar uma ação
reformista por parte do governo do Estado de São Paulo (Barone, 1996).
Da mesma forma, uma ação mais intensa por parte do governo estadual voltou a
ocorrer em meados da década de 1990 (governo Mário Covas). Paralelamente a um
programa de arrecadação de terras para assentamentos no Pontal, região mais
conflitada do período, o Itesp buscou reorganizar sua atuação e garantir apoio
para setores até então desprezados, como os remanescentes de quilombos. Na
região de Araraquara, durante o governo Covas, a totalidade das terras da Monte
Alegre passou a abrigar assentamentos e hoje, são seis núcleos ali instalados.
Neste início do século XXI, a atuação do órgão de terras estadual não logrou
manter o ritmo de assentamentos no Pontal. Além disso, a publicação, em finais
de 2002, da portaria do Itesp que autoriza o que denomina de "parcerias
negociais" dos assentados com agroindústrias ' na prática, uma aceitação da
polêmica implantação do cultivo de cana-de-açúcar para fornecimento às usinas '
revela, claramente, uma inflexão na orientação política do órgão estadual, até
então resistente às seguidas propostas de consórcio e/ou parceria com usinas de
açúcar e álcool que foram discutidas ao longo dos anos 1990 (Ferrante e Santos,
2003).
O contexto político nacional também rebate de forma mais ou menos uniforme nas
regiões em estudo. O governo Lula, iniciado em 2003, precisou responder às
demandas e expectativas dos setores reformistas que o apoiaram. Em São Paulo, o
Incra, frequentemente tido como ausente pelos assentados em projetos federais,
descentralizou, nesse período, sua atuação e ampliou ' sobretudo via
terceirização ' seu quadro técnico. Destaca-se, também, nesse movimento de
fortalecimento do Incra, a instalação de alguns assentamentos federais no
Pontal do Paranapanema, região na qual a ação institucional do Itesp sempre foi
mais marcante.
OS MEDIADORES OFICIAIS: OS ÓRGÃOS DE TERRAS EM DISTINTAS CONJUNTURAS
A constatada ineficiência na mediação das políticas públicas para os assentados
é notória e já discutida (Barone, 2000; Martins, 2003; Ferrante e Barone,
2004). Essa mediação, que tem nos agentes técnicos do estado ou contratados, e
nas organizações de trabalhadores sua principal realidade social, sofre com
diferentes formas de carências. A primeira delas, notadamente no campo da
assistência técnica e extensão rural, é a insuficiência de estrutura e recursos
(humanos e financeiros) para o atendimento das reais demandas dos assentados.
Destaca-se, neste aspecto, a alternância de períodos com maior ou menor
investimento político e, portanto, financeiro, nas agências de assistência
técnica e extensão rural (ATER ou ATES).
Considerando a existência de dois órgãos públicos de terras, às vezes rivais,
atuantes no estado, constata-se a alternância de iniciativas, de acordo com o
governo de turno. Assim é que Incra7 e Itesp poucas vezes tiveram uma forte
sincronia e cooperação. Tal discrepância já existia, embora um tanto velada,
nos períodos em que União e estado tinham governos do mesmo partido ' período
José Sarney/Franco Montoro-Orestes Quércia, de 1985 a 1989; e Fernando Henrique
Cardoso/Mário Covas-Geraldo Alckmin, de 1995 a 2002. A partir da ascensão do
Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo federal, e considerando a manutenção
dos governos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em São Paulo ' a
partir de 2003 ' as desavenças passam a ter flagrante visibilidade, ganhando
nitidamente a dinâmica de disputa partidária entre oposição e situação nos dois
níveis de governo.
No entanto, além da circunscrição das ações dos órgãos de terras às políticas
de governos com orientações partidárias distintas, foram especialmente notáveis
as mudanças havidas na condução do Itesp. A cada período de governo estadual,
mesmo que se considere a sucessão das alianças situacionistas, tanto nos anos
1980/1990 (Montoro, Quércia e Luiz Antônio Fleury, do PMDB), quanto nos
períodos Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff
(governos Covas, Alckmin, José Serra e, novamente, Alckmin, todos do PSDB)8,
foram nomeados vários diretores executivos do Itesp.
A explicação para mudanças, por vezes drásticas, na orientação política do
Itesp, apesar de inalteradas as alianças que sustentam os governos estaduais em
pelo menos dois longos períodos, tem na conjuntura econômica do país (e nas
finanças dos governos estaduais) uma causa relevante. Mesmo assim, São Paulo
experimentou momentos de maior ou menor ação reformista de seus governos,
através de seu órgão de terras, apesar do longo período de crise econômica e
limitações orçamentárias do ente público estadual durante todos os anos 1980 e
boa parte dos anos 1990.
Por outro lado, o período de maior inação do Itesp corresponde justamente ao de
maior incremento econômico do país nas últimas décadas (entre o final do
primeiro e durante o segundo governo Lula, durante as gestões Alckmin e
Serra9). Sem dúvida, o alegado esvaziamento da pressão popular por reforma
agrária, em função do crescimento da oferta de emprego e das demais políticas
compensatórias no período, tem um peso a ser ponderado, não eximindo, no
entanto, os últimos governos estaduais de terem adotado uma postura de fraca
atuação na política de assentamentos. Isso se torna particularmente flagrante
no governo Serra, no qual o Itesp sofre um denunciado esvaziamento político. A
existência de ações no período se deu quase que por inércia, já que "fechar o
órgão" implicaria ônus políticos e orçamentários de grande monta10.
Retrospectivamente, um claro somatório de motivação política e conjuntura
econômica extremamente favorável, fez com que o governo Mário Covas,
notadamente em seu primeiro período (1995-1998), levasse a cabo uma política de
assentamentos que atendeu a milhares de famílias sem-terra, com forte atuação
(embora não restrita) na região do Pontal do Paranapanema. Ali, o contexto
econômico de paridade cambial e abertura comercial, que ampliou as importações
de alimentos como carnes e leite, levou a uma severa crise financeira no setor
agropecuário. A chamada "âncora verde do real"11 prejudicou o setor pecuarista
da região do Pontal (o de maior absorção de terras), cujos produtores ainda
enfrentavam a forte mobilização de sem-terra liderada pelo MST.
A chegada de Covas ao governo estadual naquela conjuntura foi uma oportunidade
ímpar para que o estado lograsse arrecadar, mediante pagamento em dinheiro,
milhares de hectares na região, já então reconhecida como ocupada através de
sucessivas grilagens12. Os pecuaristas, muitos deles inadimplentes, assistiam
às reiteradas ações de ocupação e acampamento nas fazendas. Mesmo a reação da
UDR, fortemente implantada na região, não conseguia fazer frente ao MST. A
possibilidade de negociar com o governo estadual o pagamento à vista das
benfeitorias por eles implantadas, num momento em que crescia uma opinião
pública favorável à reforma agrária nas "terras devolutas do Pontal", foi
irresistível para muitos fazendeiros endividados.
Paralelamente a essa ação de arrecadação de terras, o governo Covas
reestruturou seu órgão de terras. Ressalta-se, aí, um empenho de requalificação
do corpo técnico, com seminários, minicursos e até mesmo a organização de uma
revista do Itesp (os Cadernos do ITESP), sem dúvida um avanço de reflexão e
organização de fontes e arquivos. É desse período, também, como fruto desses
seminários realizados com acadêmicos, a organização de diretrizes para a
assistência técnica rural executada pelo órgão, evidenciando a consciência de
se ter um marco orientador para a ação dos técnicos (Barone, 2000).
Tais iniciativas, se não superaram limitações do órgão, como o crônico déficit
de recursos humanos para a ATER, dotaram o Itesp de um grande poder de
interlocução com os movimentos e organizações de trabalhadores rurais. A
implantação de uma diretoria de mediação de conflitos e formação de equipes
para atuar junto à população remanescente de quilombos fortaleceram,
sobremaneira, o Itesp, um claro sinal da orientação do governo Mário Covas, um
quadro político comprometido com a bandeira da reforma agrária13.
O afastamento de Mário Covas em 2000, motivado pela doença que o levaria à
morte (2001) durante a vigência de seu segundo mandato (1999-2002), levou ao
comando do governo seu vice, Geraldo Alckmin. À saída de cena de um político
comprometido com a reforma agrária, acrescenta-
seamudançadaconjunturaeconômica.A quebra da paridade real-dólar (ocorrida desde
1999) e a retomada de um ciclo de prosperidade na agropecuária nacional alteram
as condições econômicas, outrora ótimas para negociações com os ruralistas. Sem
a liderança de Covas e com um cenário de valorização de ativos fundiários, o
ritmo de implantação de assentamentos, principalmente no Pontal, região de
maior impacto da ação reformista do governo paulista, caiu vertiginosamente.
Muda o governador, muda o Itesp. Não só houve alteração na sua diretoria
executiva, posto mais importante do órgão, como também muitos técnicos, que
ocupavam cargos de confiança na Instituição, foram exonerados. Além disso, o
processo de constituição de uma Fundação própria, como personalidade jurídica
do órgão de terras, planejado na gestão Covas e concluído na primeira gestão
Alckmin (2000-2002), teve percalços que repercutem até os dias de hoje14.
Quase como um projeto interrompido, a política de assentamentos implementada
por Covas sofreu reveses e inflexões visíveis. No campo das ações para o
desenvolvimento dos projetos de assentamentos, a mais visível dessas inflexões
certamente foi a elaboração e publicação das portarias (em 2002 e 2003) que
autorizam as "parcerias" dos assentados com empresas agroindustriais, o que
abriu o ciclo de cultivo de cana-de-açúcar para fornecimento às usinas nos
assentamentos15.
De uma "perda de fôlego" durante a gestão Alckmin (2001-2006), a situação do
órgão de terras estadual teria chegado, durante a gestão Serra (2007-2010), a
uma completa exaustão, uma quase letargia16. Afora ações pontuais, a grande
questão levantada pelos dois últimos governos estaduais teria sido a defesa das
portarias que regulamentaram a integração problemática com a agroindústria
sucroalcooleira (Barone, Ferrante e Bergamasco, 2008), talvez o grande
"projeto" do Itesp para o desenvolvimento dos assentamentos. No mesmo período,
tiveram início os processos de licenciamento ambiental dos PAs, sem dúvida uma
necessidade, cobrada pelo Judiciário, a partir da intervenção do Ministério
Público e, ao mesmo tempo, um obstáculo, haja vista a demora na obtenção das
licenças e os consequentes prejuízos no encaminhamento de projetos produtivos
nos assentamentos.
O resultante esvaziamento teria como componente especificamente político uma
orientação governamental, na qual assentar não seria uma solução. Além de
opiniões colhidas junto aos técnicos, corroboram para essa tese a
desvalorização profissional do quadro técnico17 e a indicação, para diretor
executivo do Itesp, de um jovem egresso da carreira jurídica, com atuação
partidária na capital paulista e sem um passado ligado à temática da reforma
agrária.
Destaca-se, neste último período (novo governo Alckmin, 2011-2014), a
perspectiva de retomada de alguma iniciativa do Itesp, como a divulgada
proposta de direcionar, nos moldes do PAA, a produção dos assentamentos para as
cozinhas das unidades prisionais, bastante numerosas no Pontal do
Paranapanema18. A perspectiva de reversão da desvalorização do órgão e de seu
quadro técnico, com o retorno de um governador que, em alguma medida, deu
continuidade à política de Mario Covas, ainda é uma incógnita.
A expectativa, no entanto, existe. Isso fica transparente em depoimentos
colhidos junto aos funcionários, que em seus depoimentos citam,
recorrentemente, o novo diretor executivo do Instituto. Desde a
desincompatibilização de Serra para concorrer à presidência, no segundo
semestre de 2010, assumiu a gestão do Itesp um funcionário da estrutura do
órgão, morador da região de Andradina, no noroeste do estado, com perfil muito
próximo à média dos técnicos do Itesp. Esse "jeitão de técnico" tem funcionado
como um recurso para esse agente que, de interino (em 2010), foi confirmado
como diretor executivo pelo governador Alckmin, em 2011. A duração do capital
político desse novo diretor do Itesp é uma questão que depende da retomada
efetiva de um protagonismo perdido em todo o estado nos últimos anos.
O PAPEL DO INCRA: DE COADJUVANTE A PROTAGONISTA?
Se na trajetória do Itesp, ao período de grandes realizações do governo Covas
se seguiu um esvaziamento político do órgão de terras estadual nos governos
Alckmin e Serra, seu correspondente federal, o Incra, ganhou, notadamente a
partir da posse de Lula (2003), um protagonismo que nunca teve no contexto
paulista. Talvez até porque a política da gestão Covas, de arrecadação
negociada das terras do Pontal, tivesse atendido bastante bem às demandas por
assentamentos durante os anos Fernando Henrique, o órgão de terras federal teve
um papel discreto, como mero repassador de recursos, e coadjuvante no cenário
da reforma agrária em São Paulo nesse período.
No entanto, na medida em que o Incra também assentou muitas famílias entre os
anos 1980 e 1990, o órgão se portou sempre como uma agência ausente do
cotidiano e das necessidades dos assentados. Até porque a ATER, durante esses
anos, era sempre prestada pelo serviço estadual, seja ele o Departamento de
Assentamento Fundiário (órgão ligado à Secretaria Estadual da Agricultura,
antecessor do Itesp) ou Itesp (a partir dos anos 1990). Nesses assentamentos
federais, por mais que os técnicos de campo do Itesp tivessem sensibilidade e
comprometimento, todo o encaminhamento administrativo para benfeitorias nas
áreas comunitárias, assentamento de famílias em lotes vagos ou notificação de
ocupação irregular, cabia ao Incra, cujos técnicos eram lotados em São Paulo. A
distância geográfica e a postura meramente burocrática, sempre foram criticadas
como geradoras de evidentes prejuízos para a celeridade dos processos relativos
aos PAs, mesmo os mais urgentes.
No período mais recente, correspondente aos dois governos Lula (2003-2010), o
Incra, desde há muito criticado como uma autarquia problemática na estrutura do
governo federal, passou a ter mais dinamismo, sobretudo no contexto paulista. A
nomeação de um militante do PT para a superintendência de São Paulo levou a que
um grupo defensor da reforma agrária assumisse a condução do órgão, dando-lhe
mais consistência política19. A tentativa de diálogo e busca de apoio junto a
diferentes segmentos que gravitam em torno da problemática da reforma agrária
em São Paulo foi a tônica dessa gestão, que tentou imprimir uma face mais
parceira nas negociações com os movimentos sociais e sindicais rurais, ONGs e
as universidades.
Duas estratégias complementares foram desenvolvidas pelo Incra, nesse período.
Buscando superar o distanciamento crônico das populações diretamente
beneficiárias de suas ações, o Incra passa a gerir uma política de
descentralização, com a abertura de escritórios técnicos em várias regiões do
estado. Dessa forma, se não pudessem atender plenamente demandas como as da
ATER, os agentes lotados nas regiões poderiam estreitar o diálogo com os grupos
mais organizados dos assentados e seus representantes/mediadores.
Foi assim que, claramente, o Incra pôde "tomar pé" de situações problemáticas
nas duas regiões analisadas. No caso do Pontal, a instalação de um escritório
no município de Teodoro Sampaio (um dos primeiros da "descentralização")
possibilitou mais interlocução com o MST. Nessa região, o Incra atuou, num
primeiro momento, na busca por reativar o projeto da COCAMP, iniciativa de
cooperativismo idealizado pelo MST para os assentados do Pontal, cuja planta
agroindustrial não chegou a ser concluída devido a uma série de irregularidades
na sua gestão20.
Já em Araraquara, a bastante polêmica implantação de canaviais no território do
assentamento Bela Vista do Chibarro, iniciativa de assentados e usinas, por
fora de qualquer regulamentação (posto não terem vigência, para PAs do governo
federal, as normativas editadas pelo Itesp nas Portarias de 2002), torna-se a
preocupação primeira dos agentes do Incra, que passam a dialogar com diferentes
mediadores, representados pelos grupos de assentados, Federação dos Empregados
Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp), e grupos acadêmicos, na
busca de um plano de ação frente ao chamado "arrendamento para a cana"21.
A outra estratégia mostrou-se bem mais complexa e problemática. Para
reestruturar o órgão do ponto de vista dos seus recursos humanos, além da
realização de concursos públicos para contratação de funcionários, o Incra
lançou mão de editais de contratação de entidades sociais formadas por
coletivos de técnicos. Essas"organizações sociais" ' sobretudo cooperativas de
técnicos ' passaram, então, a fornecer uma importante parcela de agentes ao
Incra, numa modalidade de terceirização que, como face mais polêmica, acabava
por contemplar grupos militantes, articulados em organizações que passaram a
gerir, por exemplo, toda a política de ATER/ATES do Incra.
Num movimento de mão-dupla, o Incra teria incorporado, não somente as pautas de
diferentes organizações, mas os próprios militantes, tornados funcionários
terceirizados do governo federal. Por outro lado, a possibilidade de distribuir
postos de trabalho, mais a disponibilidade de recursos e equipamentos de apoio
como escritórios, veículos e telefonia móvel, anunciava um virtual
aparelhamento indireto do órgão, através das equipes terceirizadas. Esse
arranjo foi politicamente buscado, de forma a atender o conjunto de forças
sociais de trabalhadores rurais do Estado.
Além desse virtual "aparelhamento", o patrocínio de programas de formação
técnica e incentivo à produção também foi um instrumento largamente utilizado
para a construção de compromissos das organizações de trabalhadores e demais
grupos de pressão que gravitam em torno desse campo com o governo Lula e suas
políticas (em primeiro lugar), mas também com o grupo gestor do Incra. O caso
mais emblemático dessa prática, bem como de seus limites, estampou as páginas
dos jornais em meados de junho de 2011, já no governo Dilma, quando José Rainha
Júnior ' o conhecido líder dos sem-terra de São Paulo ' foi preso numa operação
da Polícia Federal, acusado de desvio de recursos federais liberados para o
desenvolvimento de um grande projeto de produção de oleaginosas para a
fabricação de biodiesel. No mesmo dia da prisão de Rainha, o superintendente do
Incra/SP teve que depor numa Delegacia da Polícia Federal, atendendo a um
procedimento judicialmente sancionado.
Esse imbrógliopolítico, tornado caso de polícia, não só marcou o fim da gestão
desse superintendente, como revelou os limites dessa ação política, não só do
ponto de vista de sua legalidade22, como também da sua legitimidade. Isso
porque, mesmo tendo certa prodigalidade na distribuição de recursos para
diferentes organizações e movimentos sociais, a atuação do Incra, entendida
como as decisões e metodologias políticas de seu núcleo dirigente no estado,
não logrou um consenso duradouro.
Diferentes determinantes podem ter concorrido para esse consenso frágil, junto
aos movimentos de trabalhadores rurais. Excluindo eventuais idiossincrasias dos
dirigentes do órgão, em seus embates com lideranças de trabalhadores, o
contexto de disputa muito virulenta por espaço, tanto no partido (PT) quanto
nas instâncias de maior poder do governo federal sempre colocou grupos
ideologicamente muito próximos, em tensão permanente, quando não em uma guerra
política pública e aberta23. Essa disputa por influência acabou por gerar certo
isolamento da superintendência de São Paulo na estrutura da autarquia federal
do Incra.
Outro determinante, mais evidente, foi a transferência da arena de atuação dos
movimentos sociais e organizações de trabalhadores rurais, da rua para os
gabinetes. O amplo recrutamento desses setores populares pelo governo federal '
celebrado, num primeiro momento do governo Lula, como "nosso governo" ' levou
as tensões, contestações e resistências dessas frentes de mobilização para
dentro das instâncias governamentais. "Queimar o companheiro", que assumiu
posto em alguma instância governamental, passou a ser parte recorrente e
fundamental da estratégia de pressão ' mais do que as mobilizações públicas24.
Essa internalização dos conflitos foi marca da gestão Lula, verdadeira
contraface de certa "domesticação" do poder contestador dos movimentos sociais.
No caso do Incra, a tentativa de cooptação das organizações de trabalhadores
cumpriu parte da estratégia de internalizar os conflitos no governo Lula, mas
não blindou especialmente o grupo que operava essa política.
É de difícil avaliação a relação entre as organizações dos sem-terra e o
governo Lula ' extensivamente para o governo Dilma. No caso do MST,
particularmente, há um desafio de caminhar "no fio da navalha" no tocante ao
apoio político ao PT e à crítica sobre as decisões práticas do governo que tem
o PT como principal partido (Barone, 2011). O risco de cooptação do movimento
como força de apoio ao partido e ao governo é constante, notadamente junto às
direções estaduais, como no caso de São Paulo.
Diante desse desafio sensibilíssimo, outro determinante fundamental na
instabilidade na gestão do Incra, sem dúvida, foi o ônus de gerir uma política
de assentamentos que acumulou frustrações em seus números, ao menos para a
parcela mais mobilizada dos trabalhadores sem-terra (Oliveira, 2006). Mesmo
reconhecendo um descenso das lutas e da pressão pela distribuição de terras,
sobretudo em função da conjuntura econômica mais afluente dos últimos anos, é
fato que mobilizações aconteceram ao longo do período Lula que, praticamente,
coincide com o período de gestão dessa superintendência.
Essa demanda, diminuída a montante, recebeu atendimento por parte do governo
federal e do Incra, seu representante, mas não da forma mais abrangente, o que
manteve vivos, durante esses oito anos, pressões e discursos contrários à
atuação do órgão. O Incra continuou avaliado como moroso/burocrático e pouco
interessado no atendimento aos sem-terra, quando não (na opinião dos setores
mais radicalizados, que romperam com Lula), mero implementador de uma política
contrarreformista advinda de Brasília (Oliveira, 2006).
Nesse quesito, no entanto, é importante destacar as alternativas e os
resultados das ações do órgão federal no assentamento de famílias no Estado de
São Paulo, até porque, no mesmo período, a atuação do Itesp foi mais tímida
ainda. No contexto do Pontal do Paranapanema, por exemplo, a equipe do Incra
buscou fórmulas para que a autarquia federal pudesse implantar alguns
assentamentos naquela área, cuja situação de irregularidade fundiária sempre
elevou o Itesp à condição de protagonista maior25. Assim, no Pontal, o Incra
assentou centenas de famílias, superando os números do ITSP no mesmo período.
Dando continuidade a uma grande ação de reconhecimento de áreas improdutivas,
realizadas ainda no final do governo FHC, o Incra teria sua ação mais intensa
na região noroeste do estado na região de Andradina, mais ao norte do Pontal.
Além disso, é digna de nota a busca por alternativas que gerassem o atendimento
à demanda dos sem-terra, mesmo considerando-se as limitações econômicas e
políticas desse período26. O exemplo mais evidente disso foi o assentamento de
milhares de famílias em projetos especiais, como os Projetos de Desenvolvimento
Sustentável (PDS), estratégia de assentamento originalmente concebida para
atender às populações tradicionais de castanheiros e seringueiros da Amazônia.
Ações judiciais tematizando danos ambientais por parte da agroindústria
sucroalcooleira possibilitaram a implantação, na região de Ribeirão Preto,
dedois PDS. Essa modalidade se repetiu, garantindo o assentamento de sem-terra
no sul do estado (Vale do Ribeira) e também no Pontal do Paranapanema. Observa-
se que, sobretudo no noroeste do estado (região de Andradina), a ampliação do
número de assentamentos garantiu uma base popular bastante estável ao grupo que
dirigiu o Incra no período recente. Na região de Ribeirão Preto (próxima a
Araraquara), o segmento do MST que liderou os sem-terra e, atualmente, dirige
boa parte dos assentados nos Projetos de Desenvolvimento Sustentável sempre
teve uma forte ligação com o grupo gestor do Incra.
Contudo, no conjunto de forças políticas que mobilizam os sem-terra, destacou-
se como aliado do Incra, sobretudo no segundo período do governo Lula (2007-
2010), a fração do MST sob liderança de José Rainha Jr., há anos desligado da
estrutura formal da organização. Essa citada preferência pelo "dissidente" Zé
Rainha opôs o MST do Pontal ao Incra. Divergências com relação ao andamento dos
projetos e uma citada recusa, por parte do Incra, de um grande projeto do MST
na região ' que funcionaria como um contraponto à liderança de Rainha ', teriam
sido outros elementos que levaram a que essa relação ficasse completamente
esgarçada nos últimos anos do governo Lula27.
Além disso, o apoio da regional Pontal do MST à ocupação de uma fazenda da
Cutrale, no município de Iaras, em 2009, acabou por ser o alegado motivo da
discórdia e distanciamento entre o movimento da região e o Incra. Bastante
divulgada pela mídia ' em notícias que mostraram a derrubada de pomares de
laranja da fazenda ', essa ação, que objetivaria pressionar o governo para a
recuperação de terras públicas naquela região, numa área em litígio por ser uma
propriedade original da União, conhecida como Núcleo Colonial Monção, acabou
por reativar uma campanha pública contrária ao MST, retomando as conhecidas
acusações de "baderneiros", "atrasados" e contrários à produção28.
Essa rápida panorâmica sobre as conjunturas dos dois órgãos de terras se fecha
no ano de troca de governos (2011), embora não dos partidos que encabeçam as
coligações governantes (PT e PSDB, nas esferas federal e estadual,
respectivamente). Os impasses com relação a mudanças na atuação dessas duas
agências públicas, que exercem importante papel de mediação junto à população
assentada, estão fortemente condicionados às novas direções desses institutos,
assim como à prioridade dada, pelos governantes, às temáticas relativas ao
assentamento de novas famílias e às políticas de apoio às experiências de
assentamentos rurais já em desenvolvimento.
IMPASSES DOS MEDIADORES POLÍTICOS: COOPTAÇÃO E ESVAZIAMENTO
Sem dúvida, o MST é a principal referência em termos de organização de luta
pela reforma agrária no Brasil. Para além de uma multiplicidade de movimentos
que se empenham na luta pela terra, sobretudo em atuação no Pontal do
Paranapanema (Lima, 2006), também é objeto de avaliação, neste trabalho, o
movimento sindical rural, notadamente a Feraesp, entidade bastante ativa na
região de Araraquara29. As trajetórias dessas organizações, embora tendo
origens e estratégias diferentes nos anos 1980-1990, coincidem em postura
frente ao estado no período Lula (2003-2010).
Ensaiando uma avaliação dessa relação entre os movimentos, como atores
políticos, frente ao arranjo hegemônico que dirige o Estado brasileiro, temos
que esta se torna profundamente mais complexa com a chegada ao poder político
da frente liderada pelo PT, em 2003. A mais óbvia das observações nesse campo
diz respeito à inflexão adotada pelas organizações, notadamente o MST. Embora
com marchas e contra-marchas, fica evidente, ao observarmos o período todo do
governo Lula, que o MST adotou "um lado" na divisão das forças hegemônicas da
política brasileira. No entanto, essa trajetória merece ser revista. De um tom
celebrativo comedido, do tipo "chegamosaogoverno enãoaopoder" ' depoimentos de
lideranças logo após a eleição ' e da análise de que o governo Lula era um
"governoem disputa"(reiterada em entrevistas de lideranças a importantes órgãos
de imprensa ao longo de 2003), percebe-se, claramente, a elevação do tom
crítico a partir da não aprovação, pelo Governo, da proposta do II Plano
Nacional de Reforma Agrária, elaborada sob a coordenação de Plínio de Arruda
Sampaio, ainda no final de 2003 (Branford, 2010; Oliveira, 2006).
Em 2004, parecia desenhar-se, no cenário político brasileiro, uma postura que,
a partir da frustrante situação de 2003, dominaria a relação entre Governo e as
organizações de trabalhadores rurais em tela neste trabalho (Feraesp e MST).
Assiste-se a uma tensão crescente no diálogo, acompanhado de um acirramento dos
conflitos no campo, a partir do aumento das ações de ocupação, que sempre foram
a marca registrada do MST.
Tal postura, derivada da frustração das organizações e de parte da esquerda que
ajudou a eleger Lula, era esperada, dadas as decisões que o governo federal
tomou, tanto com relação à temática agrária, quanto com relação à gestão
macroeconômica do Estado brasileiro, reeditando a linha tida como "neoliberal"
do governo anterior. No caso específico da Feraesp, cuja natureza institucional
a faz especial porta-voz dos interesses dos assalariados rurais, cita-se, como
agravante nesta conjuntura de distanciamento, a discussão de Medida Provisória
que "flexibilizaria" o contrato de trabalho do assalariado rural sazonal,
considerada uma "burla" da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para o
segmento dos proletários do campo30.
Porém, a conjuntura que se desenvolveu em 2005 teve um efeito fortíssimo sobre
as ações e posturas políticas desses mediadores, no contexto de sua relação com
o governo federal. Pesa sobre tais ações a eclosão da principal crise do
governo Lula, a denúncia do chamado "mensalão", que seria uma prática adotada
pelo Executivo para aliciar uma base governista totalmente fisiológica. A
ameaça de um processo por corrupção ativa, que poderia chegar até ao
impedimento do presidente Lula, fez ocorrer um novo alinhamento dos movimentos,
agora sob pressão de um "golpe da direita".
Enquanto setores da esquerda, que atuavam no meio sindical e, inclusive,
detinham mandatos eletivos pelo PT, rompem formalmente com opartido31, o MST
acaba por setor na rum fiador popular de Lula,uma espécie de força de dissuasão
política, ao lado da União Nacional dos Estudantes (UNE) e CUT, (à qual a
Feraesp é filiada). Inúmeras foram as ameaças não cumpridas de mobilizações
massivas, de rua, de ambos os lados, detratores e defensores do governo. No
campo da oposição capitaneada por PSDB e PFL/DEM, evidenciou-se a completa
falta de apoio junto aos setores mais organizados das classes populares,
justamente aqueles que sempre apoiaram Lula. No campo hegemonizado pelo
Governo, por sua vez, a simples referência a possíveis manifestações de massa,
mas sempre a partir de declarações das lideranças políticas das organizações
populares (MST inclusive), bastou para definir a vitória de Lula nessa "batalha
política nas ruas que efetivamente não ocorreu" (Barone, 2011).
Uma postura pragmática foi, paulatinamente, assumida e ganhou força desde 2005.
A vitória de Lula em 2006, com apoio político do MST ' velado no primeiro turno
e explícito no segundo ', teria ajudado a consolidar o que passou a ser
definido como "lulismo" (Singer, 2009), que não deixa de ser, de uma maneira
atualizada, um novo populismo. O certo é que, enquanto a Feraesp aderiu de
forma mais institucional ao governo(viaCUT), o MST parece ter mudado
substancialmente sua forma de agir frente ao Estado, e ao governo Federal, sem
uma reflexão crítica sobre essa relação32.
Notou-se que, para além da adesão institucional via CUT, a Feraesp também
desenvolveu relações com distintas instâncias governamentais. Para além de
convênios mediados pelo Incra e MDA, objeto especial de "patrocínio"
governamental no caso do MST, a Feraesp executou uma estratégia sindical de
pactuação com o setor sucroalcooleiro33, o que lhe garantiu apoio no
desenvolvimento de vários programas de capacitação/requalificação, além do
esboço de um grande projeto de produção de alimentos nos assentamentos para
fornecimento aos refeitórios das usinas e destilarias, uma espécie de Programa
de Aquisição de Alimentos (PAA) privado.
Numa escala mais próxima da realidade dos assentamentos, ambas as organizações
estimularam a formação de entidades cooperativas, cujos objetivos podem variar,
embora sua gestão normalmente acabe por ficar fortemente dependente da
conjuntura e da tomada de decisões dos movimentos em relação aos governos.
Tanto no Pontal do Paranapanema quanto em Araraquara, ao lado de iniciativas
associativas mais pulverizadas e, às vezes, de orientação contrária aos
principais mediadores (governos e movimentos), MST e Feraesp investiram na
estruturação de cooperativas, cujas trajetórias sofreram um declínio muito
rápido, às vezes sequer promovendo alguma mudança na realidade dos produtores
assentados.
Em Araraquara, a Feraesp chegou a apoiar ativamente a formação de uma grande
cooperativa, no início da década de 1990, a Cooperativa dos Assentados na
Reforma Agrária da Região de Araraquara (COAPRA), sediada no PA Bela Vista do
Chibarro, cujo parque de máquinas não logrou atender aos seus associados no
preparo das terras gerando, inclusive, uma inadimplência que a levou ao seu
completo imobilismo (Barone, 2002). Esse fracasso acabou por fortalecer, em
grande parte dos assentados, uma tendência à adesão da proposta de plantio de
cana para fornecimento agroindustrial, patrocinada principalmente por uma
associação dita "independente" (Barone e Ferrante, 2007).
A já discutida retomada das iniciativas do Incra nesse PA enfrentou esse grupo
organizado de assentados, gerando inclusive ações de despejo (Barone, Ferrante
e Bergamasco, 2008; Ferrante e Barone, 2011). Como uma estratégia alternativa,
a FERAESP patrocinou a formação de outra cooperativa, com escopo mais
abrangente, já que não atende somente a assentados: a Unicampo. A partir de
parcerias com o Incra, a Unicampo tem desenvolvido atividades de capacitação em
agroindústria familiar e promovido microprojetos produtivos, sobretudo
envolvendo grupos de mulheres nos assentamentos de Araraquara.
No Pontal do Paranapanema, dados o patamar de desenvolvimento regional e a
amplitude política e demográfica que os Projetos de Assentamentos exibem, o MST
fundou, em 1994, a Cocamp, um ambicioso projeto econômico para os assentamentos
(Ribas e Thomaz Jr., 2000). No entanto, a não consecução de seu projeto
industrial, aliado a um frustrante estímulo à fruticultura junto aos seus
associados (com promessa de compra da produção para a despolpadeira),
determinou o esvaziamento da Cocamp. Além disso, a situação financeira dos
assentados ficou, em muitos casos, pior.
A importância desse projeto, não só para os assentamentos, mas para toda a
região, foi prejudicada pelos inúmeros problemas de gestão da cooperativa.
Dependente de recursos oficiais, a Cocamp sofreu com a extinção do Procera34,
principal fonte de seu financiamento. A partir dos anos 2000, a Cocamp passou,
também, a ser investigada pelo Ministério Público por denúncias de desvio de
recursos. Atualmente, o processo se encontra parado e parece improvável que o
apoio político (e material) dado aos muitos acampamentos e ocupações do MST na
região não tenha levado, de alguma forma, a um comprometimento da parte
produtiva da cooperativa. Sem dúvida, essa situação cria um impasse que se
prolonga até os dias de hoje. A cooperativa não concluiu nenhuma das obras de
instalação industrial, imobilizando um alto capital sem qualquer perspectiva de
retorno.
A retomada das atividades da cooperativa continua incerta, mesmo após
tentativas envidadas pelo Incra/SP no primeiro governo Lula (2003-2006). No
segundo período Lula, essa cooperativa passou a ser mais um motivo de
afastamento entre MST e Incra. Para o órgão federal, a cooperativa encontrou
dificuldades em receber verbas oficiais devido aos processos judiciais que
envolvem a sua gestão. Para lideranças do MST, o Incra abandonou a luta
política por esse projeto, em favor de ações mais pulverizadas e de maior
visibilidade. O já citado apoio ao projeto de produção de biodiesel na região,
defendido pela dissidência liderada por "Zé Rainha", também afastou a
coordenação regional do MST da órbita do Incra. Em acréscimo, temos que o
fracasso do projeto do biodiesel, embora haja ainda alguns cultivos
experimentais, mas sem qualquer perspectiva de retorno econômico35,sóreforça a
perda de legitimidade também da dissidência, lançando os assentamentos num
vazio de representação política mais coesa.
CONCLUINDO: POR UMA NOVA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO
O programa de assentamentos rurais, iniciado em São Paulo no empuxo da
transição democrática e, no governo Montoro, antecipando o próprio I PNRA,
chega à segunda década do século XXI com uma população beneficiada estimada em
mais de 15 mil famílias. Sua gestão, no entanto, mostra-se extremamente
difícil, não só pela exiguidade de terras legalmente aptas para destinação aos
sem-terra, motivo muitas vezes alegado frente aos trabalhadores. As
dificuldades de inserção plena e autônoma desses "novos agricultores
familiares" nos circuitos econômicos regionais, altamente oligopolizados, sem
dúvida são relevantes, embora pese, a favor desses agentes, a criação de um
polo institucional de demanda por alimento, materializado nos programas do
governo federal (PAA, PNAE etc.). Resta, no entanto, uma deficiente assistência
técnica a esses produtores, bem como uma ausência de estratégia clara,
minimamente consensual e de médio e longo prazos para incrementar o
desenvolvimento dos Projetos de Assentamento.
Essas últimas dificuldades a serem superadas dizem respeito, fundamentalmente,
aos mediadores aqui discutidos (agências estatais e organizações de
trabalhadores). Mais de 25 anos após o I PNRA, um serviço de assistência
técnica aos assentados da reforma agrária se mostra extremamente dependente do
governo de turno, bem como das injunções político-partidárias por ele geradas.
O Itesp, que foi importantíssimo no processo de luta pela terra no Pontal do
Paranapanema, sofreu um esvaziamento de suas funções nos períodos mais
recentes. Esse órgão, por outro lado, conta com um quadro de assistência
técnica que, se não é suficiente numericamente, tem maior estabilidade e
experiência, pois são todos funcionários concursados. No caso do Incra, a
contratação de organizações para prestar assistência técnica (o órgão público
em si não pode fazer ATER), mostra-se muito dependente das mudanças
conjunturais de sua superintendência, além de sofrer forte influência político-
partidária.
Com relação às organizações de trabalhadores (MST e Feraesp, aqui estudadas),
estas padecem de uma falta de visão de longo alcance. Por trás dos discursos
mais ou menos radicalizados (como a defesa da agroecologia nos assentamentos),
pouco é feito no sentido da construção de consensos e disseminação de práticas
que facilitem a vida dos assentados e apontem para um "Norte" claro. Observou-
se que, sobretudo no período do governo Lula, as oportunidades de mediar
recursos (para projetos produtivos ou "de formação") foram, na maioria das
vezes, subterfúgios para fortalecer as estruturas políticas dessas
organizações, não restando muito em termos de mudança no contexto dos
assentamentos.
Esses dois tipos de agências se complementam, na medida em que, não havendo uma
pressão específica por parte dos movimentos, os órgãos públicos não se sentem
cobrados para desenvolver programas neste sentido. No caso do Incra, uma
constatada capacidade de propor projetos e oferecer recursos, algo em si
positivo, pode causar mesmo uma inversão no sentido dessa pressão. Isso, somado
ao sensível controle político partidário do órgão, gera uma certa letargia nas
organizações de trabalhadores, com tendência a diminuir sua criatividade
propositiva, empurrando-as para a posição de meras forças auxiliares do governo
do PT, dentro de uma estrutura populista (Barone, 2011). Os assentados, por seu
lado, fortemente dependentes das iniciativas desses dois conjuntos de
mediadores, carecem de expressar suas demandas específicas frente essas
agências. Além disso, em se consolidando essa letargia propositiva das suas
organizações representativas, enfrentarão dificuldades enormes para buscar uma
estratégia que os coloquem em posição menos subalterna diante do estado. Tornar
essas agências mais orgânicas dos seus interesses reais parece ser um desafio
dos assentados, para além da mera pressão por mais recursos, discurso mais
comum quando se tematiza o assunto. Sem isto, a perspectiva de pensar em outro
modelo de desenvolvimento para os assentamentos corre o risco de permanecer no
campo das utopias e virtualidades.
NOTAS
1. Referimo-nos à trajetória de pesquisa da equipe do Núcleo de Pesquisa e
Documentação Rural (Nupedor), fundado em 1987, cujos sucessivos projetos
tematizam a política de assentamentos rurais no Estado de São Paulo. Há cerca
de 20 anos, pesquisas desse Núcleo, apoiadas pelo CNPq, estudam
prioritariamente o desenvolvimento dos assentamentos rurais nas regiões de
Araraquara e do Pontal do Paranapanema.
2. Entendemos por integração uma situação na qual o assentado tem, por meio de
contrato ou acordo tácito, uma relação direta com alguma agroindústria,
enquanto fornecedor de matéria-prima (cana, frango, leite) que será entregue à
empresa e por ela processada.
3. Destacam-se, como exemplos dessas novas medidas institucionais, o Programa
de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE), ambos geridos pelo governo federal, que fomentam a produção dos
assentamentos garantindo a sua venda.
4. Respectivamente, Cooperativa dos Assentados de Reforma Agrária do Pontal do
Paranapanema, Cooperativa de Produção de Biodiesel do Oeste Paulista e
Cooperativa Unificada dos Trabalhadores do Campo.
5. Existe um outro PA no munícipio, o de Bueno de Andrade, com trinta famílias,
cuja origem é praticamente idêntica ao do núcleo VI da Monte Alegre
6. Ocupada por meio de sucessivas grilagens de terras, a região extremo-oeste
de São Paulo, conhecida como Pontal do Paranapanema, concentrou conflitos pela
posse da terra. Durante os anos 1990, a partir da atuação do MST na região,
milhares de sem-terra foram assentados na região (Leite, 1998; Fernandes,
1996).
7. Nesta parte do texto, sempre que utilizarmos a sigla INCRA estaremos nos
referindo à Superintendência Regional 08 (SR-8) do Instituto de Colonização e
Reforma Agrária, que corresponde à jurisdição do Estado de São Paulo' com
exceção de menções explícitas no texto em que nos referimos à estrutura
nacional do órgão.
8. Teremos, ao término do atual período de governo (2011-2014), 20 anos de
governos peessedebistas em São Paulo.
9. Cita-se que no programa de governo da gestão Alckminn (2003-2006), havia
referência à política de assentamentos do estado, inclusive com uma meta,
específica para o Pontal do Paranapanema, de 1.200 novas famílias assentadas.
No programa de gestão do governo Serra (2007-2010) não há menção aos
assentamentos (fala-se de regularização fundiária no Pontal) nem citação de
metas para assentar sem-terra no estado.
10. Em depoimentos colhidos informalmente, técnicos mais antigos do Itesp
fizeram reiteradamente esta avaliação. Numa ocasião, inclusive, comentou-se que
o governador José Serra estaria sendo fiel à sua opinião, manifestada anos
atrás, de que seria mais viável economicamente "dar um táxi" para cada
trabalhador rural, em vez de assentá-los em alguma terra.
11. A âncora verde do real foi justamente a facilidade, ocasionada pela
paridade cambial imposta nos primeiros anos da nova moeda, na importação de
alimentos para suprir o mercado interno, segurando qualquer tendência de alta
da inflação motivada pela crescente demanda de bens da agropecuária.
12. Corria, no início da década de 1990, uma ação popular reivindicando do
estado a tomada de posse das áreas devolutas griladas durante décadas na região
do Pontal. Essa iniciativa da sociedade civil, liderada pela Comissão Pastoral
da Terra, não prosperou, embora tivesse motivado a Procuradoria do Estado a
articular processos de averiguação da legitimidade dos títulos fundiários na
região (Fernandes, 1996). Esses processos se arrastam, desde então, com algumas
sentenças definitivas a favor do estado, saindo já nos primeiros anos do novo
século.
13. Covas, durante seu mandato de senador no período Constituinte (1987-1988),
foi líder da bancada da reforma agrária, o grupo de parlamentares que defendiam
cláusulas constitucionais pró-distribuição de terras no país.
14. Cita-se o questionamento judicial dos concursos para técnicos da nova
fundação e a não implementação de plano de carreira dos funcionários, elaborado
ainda sob a diretoria executiva nomeada por Covas.
15. Cita-se que, durante a gestão Covas, a diretoria executiva do Itesp se
mantinha contrária às diferentes propostas de "consórcio" para plantio de cana
nos assentamentos da região de Araraquara (Ferrante e Santos, 2003). Por outro
lado, a partir de pressões da base política do governador Alckmin, nessa mesma
região, a nova diretoria executiva do órgão estabeleceu duas portarias que
regulamentaram as "parcerias negociais" entre assentados e usinas e
destilarias.
16. Segundo avaliação de técnicos do próprio Itesp.
17. Além do registro de muitos técnicos que migraram do Itesp para o Incra de
2006 a 2010, era comentado, de forma jocosa e pelos próprios técnicos, que os
funcionários do Itesp ficavam no escritório "buscando informações sobre
concursos públicos para prestar".
18. O Programa Paulista Agricultura de Interesse Social (PPAIS) foi amplamente
divulgado no primeiro ano da gestão Alckmin (2011), com implantação prevista
para 2012.
19. Essa gestão do Incra, além do PT no seu núcleo dirigente, teve uma forte
ligação com a seção paulista da Associação Brasileira da Reforma Agrária
(ABRA), ONG com grande tradição na pressão pela reforma agrária no país.
20. Particularmente essa problemática situação da Cooperativa do MST em Teodoro
Sampaio, por mais que a proximidade de agentes do Incra tivesse intenção de
colaborar em soluções, mantém-se como um imbrogliopraticamente insolúvel. O
bloqueio judicial das contas da COCAMP, ainda investigada por malversação de
recursos públicos, inviabilizou várias tentativas de recuperação política e
econômica dessa organização cooperativa (Ribas e Thomaz Jr., 2000).
21. A execução de ação de despejo judicial, como resposta política contrária à
cessão de lotes para plantio de cana agroindustrial, foi uma realização dos
agentes lotados no escritório de Araraquara, ao longo de alguns anos de
negociações. Tal ação impactou bastante os moradores do assentamento que
passaram a buscar o rompimento dos contratos de fornecimento de cana às Usinas
(Ferrante e Barone, 2011).
22. Existem ações judiciais questionando a regularidade, dentre outras coisas,
dos contratos de terceirização.
23. As disputas por espaço e por concepção de políticas públicas ' quase sempre
eivadas de disputas entre grupos de militantes ' marcou diferentes áreas do
governo federal sob a presidência de Lula. Cita-se, especialmente, o divórcio
entre a estrutura do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Incra, que
é uma autarquia formalmente submetida ao MDA, mas com uma estrutura
independente e um tempo de existência de várias décadas.
24. Nos primeiros meses da gestão Dilma (2011), em depoimento, colhido como
desabafo, um agente do núcleo político do Incra se queixou de que os setores do
MST que faziam forte campanha pela substituição do superintendente haviam sido
contemplados com ações do órgão. Se esse depoimento demonstra a fragilidade do
grupo, é eloquente também na revelação de que a contestação passou a existir
nos corredores do governo e do partido, "queimando" a figura do
superintendente.
25. Tratando-se de terras devolutas, a competência jurisdicional para sua
arrecadação e destinação aos trabalhadores sem terra é do governo estadual,
através de seu órgão de terras, o Itesp.
26. Talvez a mais importante ação do órgão federal no período foi atuar de
forma mais eficiente, sobretudo para garantir uma maior celeridade no processo
de liberação dos primeiros financiamentos aos novos PAs (Silva, 2011),
verdadeiro gargalo no desenvolvimento socioeconômico dos assentamentos ao longo
de todo o período iniciado com a Nova República.
27. Cita-se que a regional do MST do Pontal se posicionou publicamente contra a
direção do Incra no início de 2011, inclusive com ocupação do escritório
regional do órgão (em Teodoro Sampaio) para "exigir a saída do
superintendente".
28. Esclarece-se que foi dessa superintendência do Incra em análise a
iniciativa de mover ação judicial para reaver essas terras da União, em
processo que ainda se encontra em andamento. A ocupação da fazenda da Cutrale
em 2009, com documentada derrubada de pomares da empresa, foi também censurada
pela direção do Incra, que viu nela uma manobra atabalhoada, que mais
atrapalhou do que ajudou a luta pela terra naquela região.
29. Formada em 1989 como dissidência da estrutura da Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Feraesp, desde seu surgimento, atua
promovendo a luta pela reforma agrária, inclusive com ocupações, concentrando
suas ações na região de Araraquara (Ferrante, 1992).
30. Trata-se da MP 410, efetivamente editada em 2007, que criou um tipo de
"contrato de trabalho rural por pequeno prazo", incidente sobre os "safristas",
uma categoria de assalariados rurais sazonais, como os cortadores de cana ou
apanhadores de café ou laranja, base dos sindicatos ligados à Feraesp.
31. A linha "conservadora" adotada por Lula, mais as denúncias de corrupção,
levaram a uma ruptura com o PT de um grupo (do qual fez parte Plínio de Arruda
Sampaio, presidente de honra da Associação Brasileira da Reforma Agrária e
coordenador do grupo que apresentou a proposta do II PNRA) que trabalhou,
então, para a formação do PSOL. Na expectativa desse movimento, por afinidade
política-programática, o MST tinha tudo para estabelecer forte relação política
com esse grupo, o que não ocorreu nem plano federal, nem no Estado de São Paulo
(sobretudo nas eleições de 2010).
32. Especificamente com relação ao MST, esta nova postura acaba por envolvê-lo
num obscurantismo que ameaça sua autonomia. A adesão à campanha de Dilma, já no
primeiro turno de 2010, não se coaduna com a visão de conjuntura que a
organização expressa a partir de sua militância de base. O lulismo parece
assombrar o Movimento, a partir de uma política de relação pessoal com
lideranças, nomeações de militantes (via estratégia do órgão de terras,
conforme visto acima) e uma bem executada ação clientelista, muito mais
complexa que a ampliação do "bolsa-família" (Barone, 2011).
33. Trata-se do "Compromisso Nacional para aperfeiçoar as condições de trabalho
na cana-de-açúcar", documento de livre adesão (um pacto), elaborado a partir
das discussões entre o setor patronal e o dos trabalhadores ligados ao setor
sucroalcooleiro e assinado em julho de 2009 por vários Ministérios do governo
federal, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), representando o setor
patronal, a CONTAG e a Feraesp (representando o setor dos trabalhadores).
34. Programa Especial de Crédito da Reforma Agrária, principal programa de
financiamento de investimentos nos assentamentos, extinto em 1999.
35. Cita-se que acusações de desvio de recursos públicos para o projeto de
implantação de cultivos para biodiesel nos assentamentos do Pontal foi o motivo
da mais recente detenção de José Rainha Júnior (preso numa operação da Polícia
Federal em junho de 2011).