Rupturas e continuidades no padrão organizacional e decisório do Ministério das
Relações Exteriores
Introdução
As premissas vigentes na administração pública na maioria dos Estados estiveram
fundamentadas no total afastamento das burocracias das questões político-
partidárias, cabendo às mesmas a execução técnica das decisões tomadas pelos
políticos eleitos. Essas características, no entanto, estão sendo colocadas em
"xeque" por novos modelos propostos para reforma da máquina estatal. Esses
formatos em sua essência têm como proposta implantar, no setor público, uma
administração mais próxima daquelas utilizadas pelas empresas privadas, que
adotam o gerenciamento por programas, a horizontalização decisória, além de
visar a estabelecer uma proximidade maior da estrutura com o cliente,
orientando suas ações não mais para processo e sim para o objetivo final, ou
seja, contemplar as demandas dos cidadãos.
A horizontalização em detrimento da verticalização, a ênfase nos resultados em
detrimento dos processos, a proximidade com o cidadão em detrimento do
insulamento institucional, a transparência nas ações públicas, a redução do
aparato administrativo do Estado e as parcerias público-privadas são algumas
das características fundamentais do modelo de administração gerencial que
procuram superar os ditames que orientaram as ações dos servidores públicos e
do próprio aparato organizacional e funcional do Estado Moderno até pelo menos
finais do século XX, quando novas propostas emergem em resposta ao cenário
mundial em transformação.
No Brasil, os primeiros movimentos de reforma no sentido da "desburocratização"
começam a surgir nas décadas de 1970 e 1980, quando os atores políticos
nacionais passam a repensar e a instituir reformas sobre o papel do Estado
tanto no que diz respeito ao seu relacionamento com a sociedade como também ao
seu próprio formato de organização e funcionamento. O modelo vinculante
demonstrava-se estagnado e incapaz de responder às demandas sociais de forma
eficiente e responsiva, além da máquina pública estar gerando gastos excessivos
e grave crise fiscal. Com isso, inúmeras propostas políticas foram
apresentadas, identificando à descentralização política e administrativa como
modelo de superação das problemáticas presentes.
Outro fator que passou a ser elemento de reflexão foi o papel desempenhado
pelas burocracias, já que passaram a ser atores com grande relevância e
influência no processo de tomada de decisão política. A capacitação técnica, a
especialidade e a continuidade no cargo, tornaram os burocratas atores com um
poder informacional significativo, capazes muitas vezes de definir o jogo
político.A problemática envolvida na função real que as burocracias vêem
desempenhado na máquina do Estado está diretamente atrelada às formas e aos
mecanismos de controle democrático existentes sobre elas. Isto porque, uma vez
que os servidores são cargos permanentes conquistados mediante concursos, ou
seja, isentos de indicação política e/ou almejado via sufrágio universal, não
há controle direto por parte dos cidadãos sobre as decisões tomadas por
burocratas. Diante disso, os congressistas, representantes eleitos pelo povo
para legislar e para fiscalizar as ações do Executivo, são os atores com
capacidade de influenciar as ações da burocracia. No entanto, a relação entre
Legislativo e burocracias varia em função do arcabouço institucional,
regimental e constitucional que fundamentam os mecanismos de controle. Isto
quer dizer, que dependendo do país, esse controle do Legislativo sobre o
Executivo pode variar significativamente, do estágio centralizado, funcionado
em favor do Poder Executivo, ao poliárquico1, em que a estrutura dos poderes
funciona de maneira equilibrada.
Nesse ensejo, no que se refere às questões relativas à política externa, a
problematização da permeabilidade institucional, transparência e
desconcentração política foi tratada mais tardiamente entre teóricos e
políticos. Até a década de 1970, as agendas diplomáticas dos Estados estiveram
concentradas em temas da "alta política", voltados predominantemente ao hard
power, caracterizado pelo alto grau de sigilo e sensibilidade das temáticas
inter-estatais. Após esse período, os temas softs emergem como pauta central
nessas agendas e, consequentemente, no caso do Brasil, a concentração do poder
decisório no Ministério das Relações Exteriores e sua dinâmica altamente
insulada passa a ser problematizada, uma vez que as questões de política
externa com características multidimensionais demandavam, com cada vez mais
freqüência, uma dinâmica interativa entre as burocracias federais, bem como um
diálogo mais estreito entre os poderes Executivo e Legislativo na conformação
das posições internacionais do país.
A partir desse enfoque, caberá compreender, nesse artigo, como se estrutura o
processo decisório em política externa no Brasil, com ênfase na dinâmica inter-
burocrática. O marco temporal estabelecido para averiguação empírica foi de 20
anos (1988-2007), caracterizado pelo novo marco constitucional do país. Para
tanto, foram selecionados indicadores que possibilitem apontar respostas sobre
o padrão decisório em matérias internacionais no Brasil, seja ele centralizado
ou horizontalizado em sua estrutura intra e inter-burocrática.
Para averiguação da estrutura funcional e relacional entre os departamentos que
participam do processo decisório intra-burocrático (Ministério das Relações
Exteriores) observou-se a dinâmica prevista no regimento interno, a estrutura
de comando a partir das Subsecretarias que são os eixos organizacionais da
hierarquia funcional e o modus operandi da organização. Já para análise do
relacionamento e coordenação de políticas entre as agências burocráticas
(Ministérios), foram consideradas as seguintes variáveis: número de Comissões
Interministeriais, número de Secretarias de Relações Internacionais e/ou
Assessorias de Relações Internacionais presentes na estrutura de outros
Ministérios, número de diplomatas emprestados para exercer sua função em outras
pastas ministeriais (com base de controle nos dados inversos, ou seja, no
número de funcionários de outros Ministérios alocados no Itamaraty). Todos
esses índices foram distribuídos ao longo de 20 anos (1988-2007), com o
objetivo de averiguar se houve uma crescente nos dados previamente citados. Com
isso, não se objetiva alcançar uma análise conclusiva sobre a dinâmica
decisória intra e inter-burocrática, mas identificar tendências seja de
continuidade do padrão de insulamento seja de mudanças com o aumento da
porosidade dessas instituições.
Os ciclos reformistas da administração pública brasileira e o impacto na
história orgânica do MRE
A organização administrativa do Brasil é tão antiga quanto sua própria
história. Antes mesmo de tornar-se um país independente, o Brasil já contava
com organizações governamentais que tinham como finalidade a preservação do
território nacional bem como de suas riquezas. A estrutura administrativa nesse
primeiro momento carecia de critérios que buscassem regimentar sua organização;
o foco era garantir os objetivos perseguidos pela Coroa. Mesmo após sua
independência, os critérios de seleção para os cargos públicos bem como os
procedimentos operacionais não eram pautados por regras definidas; as decisões
eram centralizadas na figura do Imperador, os cargos eram distribuídos de
acordo com a proximidade pessoal e os bens públicos eram cotidianamente
confundidos com os interesses privados (Cheibub, 1985).
A administração patrimonialista, assim conhecida pelos estudiosos da área,
caracterizou o poder público no Brasil até pelo menos os anos 1930, quando
novas propostas são levadas à baila com a finalidade de dirimir as
características patrimonialistas e oligárquicas expressas na máquina
administrativa do Estado Brasileiro. Assim como destacado por Raymundo Faoro em
sua obra "Os donos do poder", durante todo o Império e a Primeira República o
estamento aristocrático-burocrático de juristas, letrados e militares comandava
o poder no Brasil, derivando seu poder e renda do próprio Estado. Para Faoro,
esse grupo político dirigente reproduziu no Brasil o sistema montado em
Portugal no século XIV, formado por uma nobreza decadente que se aproveitava do
patrimônio do Estado - com arrecadação de impostos pagos pela burguesia
mercantil - para sua própria sobrevivência.
No Ministério das Relações Exteriores, não era diferente. Comandados por
juristas e letrados, filhos ou parentes próximos de representantes da classe
dirigente que iam estudar no exterior, a história diplomática e a própria
trajetória da organização foi marcada por nomes que refletiam essa estrutura de
poder (Cheibub, 1985). Perpetuava-se também, como nas demais repartições
públicas, a exclusão das mulheres que eram impedidas de participar, representar
e serem representadas na classe política nacional. Os funcionários públicos a
serviço do Estado eram contratados pela proximidade pessoal e afetiva com o
Chefe de Estado, o que significa que os cargos eram preenchidos por indicação a
partir de uma seleção viciada e nepotista. A preferência também era demonstrada
por brasileiros que tivessem bacharelado em direito concluídos em universidades
do exterior, o que por si só era considerado como demonstração de aptidão e
competência para a inserção no serviço público e na diplomacia (Castro, 1983).
Há de se ressaltar, portanto, que as exigências para o preenchimento do cargo
de diplomata restringiam-se a pouquíssimas pessoas, aquelas que possuíam
condições financeiras de ir estudar no exterior, possuidores de títulos e
honrarias, regidas, em geral, por Viscondes e Barões.
Portanto, se há alguma particularidade no modelo organizacional do Ministério
das Relações Exteriores quando comparada às demais burocracias federais, esta
diferenciação ocorre após a década de 1930, já que até esse momento obteve uma
história praticamente similar às demais repartições que compõem a administração
direta (Castro, 1983).
Com a reforma do Estado de 1936 e com a criação do Departamento Administrativo
do Serviço Público (DASP) - órgão executor e organizador da administração
pública - ficou determinada uma série de princípios que deveriam nortear a
reforma, refletindo a estrutura do poder político dirigente que passara para as
mãos da burguesia industrial. Dentre as características do novo modelo
administrativo estavam: a tecnicidade, a profissionalização, a neutralidade
política, a centralização, a hierarquização, o caráter meritocrático das
carreiras, os critérios gerais e uniformes de classificação de cargos, a
racionalização geral dos métodos e ênfase nos procedimentos
Esse segundo ciclo de reformas e ruptura na história da organização das
instituições públicas federais teve impacto significativo na organização do
Ministério das Relações Exteriores, pois foi durante esse período que a
carreira diplomática tornou-se unificada, possibilitando a constituição de um
grande espírito de corpo. Além disso, conquistou autonomia em relação às demais
burocracias estatais na promoção e execução de seu processo seletivo para a
inserção na carreira, com a criação da academia diplomática em 1945 - Instituto
Rio Branco -, que veio reforçar esse processo de autonomia e insulamento em
relação às demais burocracias (Cheibub, 1985).
Portanto, a grande diferenciação da história do Ministério das Relações
Exteriores em relação às demais burocracias estatais inicia-se com a reforma de
Mello Franco (1930-33) quando é atribuída a base para unificação da estrutura
do Ministério e da carreira que, até então, possuía uma composição tripartide:
Secretaria de Estado, Corpo Diplomático e Corpo Consular. As funções atribuídas
no interior de cada uma dessas estruturas já haviam sendo equiparadas
hierarquicamente por reformas anteriores, o que permitiu, após a unificação, a
transição entre os quadros. A fusão das carreiras diplomáticas e consulares foi
definitivamente consolidada na gestão de Oswaldo Aranha (1938-44) que definiu
também os critérios para o ingresso no serviço, quais sejam: concurso de provas
e títulos, ficando restrito apenas a candidatos do sexo masculino (Castro,
1983).
A unificação da carreira propiciou a coesão do corpo de funcionários, que
passou a repartir aspirações, atribuições, responsabilidades; as mudanças
passariam também atingir a todos, seja de caráter meramente regulamentar da
carreira e do serviço de promoções ou de reformas mais amplas na estrutura
funcional e organizacional da Secretaria de Estado (Barros, 1986).
Outro marco para a organização do Ministério das Relações Exteriores foi a
criação do Instituto Rio Branco em 1945, que obteve inicialmente a definição
como de centro de investigação e ensino, posteriormente alterado, assumindo
definitivamente seu caráter de academia diplomática. O Instituto Rio Branco
pode ser visto também como um centro de socialização de valores, repartições de
princípios, consolidação do conhecimento e de fomento a constituição de um
espírito de grupo, que fundamentalmente tornou o Ministério das Relações
Exteriores uma organização diferenciada pela coesão durante um longo período de
sua história (Barros, 1986).
Essa estrutura particular que aos poucos o MRE foi assumindo em relação às
demais burocracias estatais tornou-o mais forte e respeitado frente às demais
instituições que compõe o Poder Executivo Federal. A inquestionável competência
para lidar com assuntos de natureza internacional propiciado em grande medida
pela formação coesa, pela solidez institucional e pela rigidez da estrutura
hierárquica tornou a instituição menos permeável que as demais, sendo o
Ministério que menos comporta cargos comissionados e profissionais externos
dentro de seu quadro funcional.
Anos mais tarde, algumas temáticas antes ausentes da agenda de trabalho das
burocracias federais e das próprias atribuições diplomáticas passam a permear
constantemente a dinâmica de trabalho dos Ministérios, havendo cada vez mais a
sobreposição de competências para determinados assuntos. Com isso, além de uma
reestruturação na máquina, havia a necessidade crescente de uma regulamentação
transversal que impedisse determinados conflitos inter e intra-burocráticos,
devido às sobreposições presentes.
Sendo assim, já na década de 1950, após as duas administrações de Getúlio
Vargas, inicia-se no Brasil um processo de reflexão sobre a eficácia do
funcionamento da administração pública centralizada e altamente hierárquica,
uma vez que a mesma passara a ser considerada motivo de paralisia decisória e
retardamento nos processos. Neste contexto, o Presidente Juscelino Kubitschek
encaminha ao Congresso, na mensagem de número 189, um Projeto de Lei cuja
proposta visava estabelecer o intercâmbio ministerial por meio da criação de
Comissões para o trato de questões transversais, tais como as responsáveis pela
operacionalização do comércio exterior brasileiro, chefiadas por Ministros de
assuntos econômicos em missões diplomáticas, além de um assessor indicado pelo
Ministro da Indústria e Comércio e outro assessor indicado pelas Confederações
Nacionais da Indústria, Comércio e Rural Brasileira. Essas determinações
trouxeram pela primeira vez a participação de setores organizados da sociedade
civil para compor centros de decisão em matéria de comércio exterior (Castro,
1983).
As gestões durante o regime ditatorial no Brasil também foram marcadas por
inúmeros processos de reformas nas estruturas administrativas do Estado; a
reforma desse período foi dirigida pela Comissão Central de Reforma
Administrativa Federal2 (CEBRAF) em articulação com o DASP e o SERPRO. O
objetivo nesse momento foi a busca por conciliar centralismo político, premissa
de regime autoritário, com descentralização administrativa. Esse dilema esteve
presente em ações políticas durante todo o regime militar, ora com reformas
descentralizantes na administração, ora com a tendência de centralizá-la para o
controle total das instâncias de decisões políticas. A escolha do melhor modelo
organizacional também era tema norteador de inúmeros debates acadêmicos e
políticos nesse momento. A preocupação com a eficiência administrativa
permanecia latente, mas, ao mesmo tempo, novas preocupações voltadas para o
atendimento ao cidadão, com ênfase nos processos e na horizontalização de
poder, passaram também a exercer uma notável influência nos destinos da
administração pública (Bresser, 1999).
Cabe a ressalva que mesmo com as iniciativas anteriores, a centralização rígida
permanecia invariável nos órgãos da administração direta, como nos Ministérios.
A partir de 1979 é constituído para esses devidos fins o Ministério
Extraordinário de Desburocratização, que desenvolveu projetos visando a atingir
mais diretamente os interesses dos cidadãos, diminuindo a rigidez burocrática,
a hierarquização e os procedimentos longos que traduziam em ineficiência
decisória. Como resultados observados, essa reforma tornou o sistema de mérito
menos rígido, atribuindo maior flexibilidade na ocupação dos cargos mediante a
hierarquia de carreira e tornando os cargos da alta hierarquia comissionados
com indicação direta do Presidente da República (idem).
No plano particular da reforma aplicada ao Ministério das Relações Exteriores,
alguns instrumentos foram criados com o objetivo de coordenar competências, bem
como o de responder às demandas emergentes do empresariado nacional. Foi
durante esse período, portanto, que pela primeira vez na história
organizacional o critério de divisões funcionais e geográficas foi
regulamentado, buscando impedir sobreposições de funções bem como possibilitar
a melhor articulação possível das tarefas em andamento. Assim, para caso de
dúvida na distribuição do expediente, a seção de classificação deveria
encaminhá-lo primeiramente a seção geográfica (como ocorre até os dias atuais)
e, em caso de conflitos de competências, os mesmos deveriam ser resolvidos
pelos Chefes de Divisão, pelo Secretario Geral Adjunto ou de Departamento, ou
seja, a quem o assunto tivesse atrelado. Não havendo entendimento, o conflito
deveria ser solucionado pelo chefe da Comissão de Coordenação (Castro, 1983).
Todavia, mesmo com os esforços iniciados em 1979, a descentralização não
atingiu a administração direta, pois além de haver as resistências naturais à
mudança, havia também desconfiança sobre o verdadeiro funcionamento e o real
impacto que as premissas desse novo modelo de gestão poderiam causar à vida do
Estado (Pires, 1997). Por isso, um novo projeto de reforma do Estado foi
proposto. Em 1995, na primeira gestão do governo Fernando Henrique Cardoso, a
preocupação central era o estabelecimento de uma reforma estrutural do Estado.
Dentre as diversas propostas destacava-se a necessidade de repensar os
fundamentos da administração pública brasileira, que já dava sinais de
esgotamento. A inspiração de reformar a gestão pública vinha agora de seus
próprios vizinhos latino-americanos que iniciavam, concomitantemente, mudanças
e reformas na máquina estatal (Bresser, 1999).
A primeira mudança nesse sentido foi a transformação da então Secretaria de
Administração Federal da Presidência da República em um Ministério (Ministério
da Administração Federal e Reforma do Estado), que passou a responsabilizar-se
pela organização, planejamento e implementação da reforma do Estado, tendo em
vista os princípios da administração pública gerencial. Em adição, criou-se a
Câmara de Reforma do Estado com formação interministerial e o Conselho da
Reforma do Estado, formado por representantes da sociedade civil, com a função
de assessorar e complementar as atribuições da Câmara. O Plano Diretor da
Reforma do Aparelho do Estado servia, neste sentido, como documento norteador e
marco legal do processo de reforma. (Pires, 1997)
Reiniciava, a partir daí, o terceiro ciclo de reformas da administração pública
no Brasil. Em um primeiro momento, caberia planejar e reorganizar a
administração pública como um todo para, em seguida, iniciar a segunda fase,
referente à implementação, cujo processo é mais longo e difícil.
No estágio de implementação, o Ministério da Administração Federal e Reforma do
Estado foi incorporado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, com o
objetivo de amarrar a distribuição orçamentária com a adequação aos preceitos
do modelo de gestão e com os programas de qualidade. No entanto, como ressalta
Bresser (2001), foi durante o processo de implementação, agora sob
responsabilidade do Ministério do Planejamento, que a reforma foi paralisada.
As explicações para isso podem ser as mais diversas, mas talvez a mais
importante delas esteja no fato de que as burocracias (ou unidades
administrativas do Estado) estão longe de representar apenas um papel
administrativo e processual, pois são, antes de tudo, atores políticos, que
disputam por poder e sobrevivência dentro máquina do Estado. Portanto, qualquer
concepção que possa representar uma mudança significativa em seu modo de
atuação, sofre muitas resistências; e se pensarmos que os agentes da reforma
são os próprios servidores e responsáveis pelas pastas ministeriais, apresenta-
se, neste contexto, um grande paradoxo.
Assim, ao analisar o histórico do ciclo de reforma, compreende-se que as
iniciativas foram acompanhadas pela criação de novos órgãos dentro da
administração pública que fariam o papel de processar, planejar e implementar
as reformas, o que significa que as mudanças, quando ocorridas, sempre foram
iniciativas de agentes externos à administração, que foram colocados no
interior da mesma para processá-la. Mas essa avaliação também possibilita
concluir que as mudanças de governo e a extinção dessas unidades com
responsabilidades específicas, muitas vezes resultam na paralisia do processo
de reforma, que pode ou não ser concluída, o que dependerá de iniciativas
futuras. Como ressalta Resende (2002) o problema da não-conclusão de ciclos é a
sobreposição deles (falhas sequênciais), prejudicando a própria definição de
papéis das burocracias, que passam a responder por modelos mistos de gestão
pública, dado a preservação de características dos diversos processos.
É, portanto, a partir dessa base de reflexão que os demais tópicos desse artigo
foram planejados. O objetivo é analisar um período na história do Ministério
das Relações Exteriores que o mesmo passa a lidar com um cenário internacional
em completa transformação, de uma arena doméstica em processo de consolidação
da democrática e de uma estrutura de Estado que passa a repensar o seu papel e
a forma de lidar com as demandas incipientes. Neste sentido, procura-se avaliar
se mudou a estrutura organizacional e decisória intra-burocrática (Ministério
das Relações Exteriores) e se houve mudança no padrão de relacionamento inter-
burocrático no processo de tomada de decisão em temas de política externa; com
isso, o foco recairá sobre as relações estabelecidas no interior do próprio
Poder Executivo.
Mudanças de cenários e suas resultantes para as regras do jogo: o Ministério
das Relações Exteriores no contexto pós-Constituinte
A Constituição de 1988 foi bastante conservadora no tratamento e na
regulamentação das funções que passariam a exercer a máquina pública em um
contexto agora democrático e, por natureza, mais próximo às demandas da
sociedade. As propostas reformadoras em relação ao formato e modelo de
administração só vieram à baila anos mais tarde, em 1995, com o Plano Diretor
de Reforma do Estado que, assim como mencionado anteriormente, tinha como
proposta adaptar a prestação dos serviços do Estado a um novo contexto nacional
e internacional.
Dentro dessa nova proposta organizacional, o Ministério das Relações Exteriores
passa por uma readequação institucional em 2004 e 2006 respectivamente. Esses
anos marcaram um processo de ampliação e reforma na estrutura dessa burocracia,
que incorpora, mesmo que de maneira bastante tímida, canais de diálogo com os
demais atores estatais e não-estatais. Além disso, as bases estruturais do
Ministério foram ampliadas, incorporando maior número de temáticas a serem
abordadas dentro de suas divisões departamentais.
Na formatação atual, a competência e a distribuição de tarefas dos órgãos que
compõem o organograma ministerial estão subdivididos em grandes eixos de
atuação, que alocam tanto o aspecto geográfico como também o critério temático.
São eles: a Subsecretaria-Geral de Política I; a Subsecretaria-Geral de
Política II; a Subsecretaria-Geral da América do Sul; a Subsecretaria de
Assuntos Econômicos e Tecnológicos; a Subsecretaria-Geral das Comunidades
Brasileiras no Exterior; a Subsecretaria-Geral de Cooperação e Promoção
Comercial; a Subsecretaria-Geral do Serviço Exterior. Essas sete Subsecretarias
compõe o eixo estrutural e funcional do Ministério das Relações Exteriores
abaixo das funções do Secretário Geral e do Ministro de Estado, que preservam
além desses, outros departamentos de assessoramento vinculados diretamente ao
Gabinete. A escala decisória intra-burocrática obedece a essa estrutura
apresentada, altamente hierárquica, iniciando o processo com os Chefes de
Divisões, que respondem hierarquicamente ao Chefe de Departamento, que está
submetido ao Subsecretário Geral. O mesmo deve responder ao Secretário Geral
que articula juntamente com os Chefes de Gabinete e com o Ministro de Estado as
decisões de política externa. O ápice da cúpula decisória está nas mãos
presidenciais que, juntamente com o Ministro de Estado e seus assessores
diretos, tomam as decisões de cunho internacional do país.3
Estão submetidos a esse processo decisório intra-ministerial altamente
concentrado na cúpula todos os temas de caráter mais sensíveis e que envolvem
maiores recursos financeiros, sendo que os demais funcionários alocados abaixo
dessa estrutura funcional possuem baixa autonomia decisória, funcionado muitas
vezes apenas como despachantes. Em outras palavras, o espaço de interlocução
intra-ministerial é aberto apenas para o tratamento de temas que são
considerados menos sensíveis, pois, do contrário, a decisão sobre determinada
política é realizada pela diplomacia de Gabinete, que restringe as decisões a
um pequeno núcleo de pessoas da alta hierarquia governamental, como: Presidente
da República, Ministro das Relações Exteriores, Secretário de Estado,
Subsecretários.
No entanto, quanto menor a relevância da questão tratada e menos recursos
financeiros envolvidos, maior autonomia das partes, ou seja, não há necessidade
da tomada de decisão pela cúpula, sendo a mesma realizada pelas estruturas mais
baixas da hierarquia burocrática como as divisões e subdivisões. Como exemplo,
pode-se mencionar a formação de um Grupo de Trabalho para regular a
implementação de um Acordo de Transporte Rodoviário Internacional, ou a
harmonização de normas; nestes casos a decisão compete ao Chefe de Divisão, com
a anuência do órgão brasileiro especializado (no caso de transporte rodoviário,
a ANTT, e instituições de controle de fronteira). São decisões que fazem parte
da rotina do trabalho e que se necessitassem subir aos níveis mais altos de
hierarquia tornariam o trabalho impraticável.
Além disso, a dinâmica decisória intra-organizacional também pressupõe uma
interlocução interna entre as divisões temáticas e geográficas; a regra é que
as divisões temáticas devam sempre antes do despacho de temas a serem decididos
reportarem-se às divisões geográficas para coordenação política.
Outro aspecto a ser ressaltado é que algumas das Subsecretarias, embora possuam
relativamente o mesmo poder decisório no âmbito interno da burocracia,
caracterizam-se por dinâmicas diferentes no que se refere ao seu processo de
insulamento ou porosidade no diálogo com demais atores governamentais e até
mesmo com grupos organizados da sociedade civil. Um destaque para as
repartições de maior porosidade tanto em relação com as demais repartições
governamentais como em relação à sociedade civil são: a Subsecretaria de
Assuntos Econômicos e Tecnológicos, a Subsecretaria-Geral das Comunidades
Brasileiras no Exterior, a Subsecretaria-Geral de Cooperação e Promoção
Comercial. A primeira delas possui um diálogo mais estreito com os grupos
econômicos organizados que mediante as consultas informais e reuniões de
trabalho procuram identificar as fragilidades e as potencialidades do setor,
bem como a sua importância estratégica para o país, formando a partir desses
dados a posição negociadora. É válido ressaltar, no entanto, que embora haja o
diálogo com esses setores são essas apenas iniciativas consultivas, o que
significa que os interesses e o posicionamento dos setores não necessariamente
prevalecerão na decisão final. Essa Subsecretaria também possui um diálogo
bastante freqüente com os demais Ministérios, uma vez que a temática comercial
e tecnológica traduz uma transversalidade de competências e responsabilidades
ministeriais. Já a Subsecretaria Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior
tem por natureza funcional a responsabilidade pelo diálogo e a assistência as
pessoas que se encontram fora do país, por isso, o intercâmbio é mais um
pressuposto departamental. No que se refere a Subsecretaria Geral de Cooperação
e Promoção Comercial, também é pressuposto da organização promover o
intercâmbio cultural e comercial, estreitando o relacionamento dos países
mediante a aproximação de atores sociais e econômicos estratégicos para essa
função.
Contudo, mesmo com a proposta de reforma da administração pública pautada em
novos preceitos organizados segundo fundamentos gerenciais, o que se pode
averiguar é que internamente a estrutura mantém o seu padrão extremamente
racional-burocrático, isto é, no que se refere à organização interna de suas
repartições e o relacionamento entre os diversos níveis hierárquicos intra-
burocrático, o Ministério de Relações Exteriores preserva uma absoluta
centralização decisória na figura do Ministro de Estado e do Secretário Geral.
Apenas são despachadas sem o seu consentimento questões de pequena relevância e
procedimentos cotidianos, ou seja, quanto menos sensível o tema, mais autonomia
decisória do departamento diretamente responsável pela temática.
Por outro lado, paradoxalmente, o Ministério das Relações Exteriores atualmente
caracteriza-se por um aumento da porosidade institucional e da interlocução com
as demais burocracias e com a sociedade civil, quando comparado a momentos
anteriores de sua história organizacional, embora preserve intacta sua rígida
estrutura funcional e de despacho de questões intra-burocráticas e a hierarquia
decisória já conhecida. Exemplos desses canais de interlocução criados
recentemente com a sociedade civil organizada principalmente no que se refere a
temáticas comerciais são a SENALCA4 (Seção Nacional de Coordenação dos Assuntos
relativos à ALCA) e a SENEUROPA5 (Seção Nacional de Coordenação dos Assuntos
relativos às negociações Mercosul-União Européia), criadas para
institucionalizar o diálogo entre o MRE e as entidades da sociedade civil que
têm interesse nas negociações da ALCA e Mercosul-União Européia. Ademais, há
ainda Conselho Empresarial Permanente, que busca promover o diálogo entre
diplomacia e o empresariado. Existe também a possibilidade de criar canais ad
hoc de participação da sociedade civil em outros casos específicos de política
externa.
Como exemplo desse último formato é possível destacar a construção coordenada
da postura negociadora do Brasil em temas da agenda ambiental a partir da
Conferência do Rio (Eco-92). Até então, ou seja, da primeira Conferência
realizada em Estocolmo (1972) para o debate do tema em âmbito global até 1992,
a construção da postura negociadora do país manteve-se concentrada
exclusivamente nas mãos do Ministério das Relações Exteriores, que permaneceu
com uma postura assertiva em âmbito internacional mesmo em dissonância com as
preferências domésticas que não apontavam para a mesma direção das iniciativas
mundiais. No entanto, esse cenário é alterado com a Conferência do Rio, cuja
construção da preferência brasileira para o encontro foi realizada de forma
coordenada com a constituição de canais de interlocução entre repartições do
governo federal. Assim, embora a Divisão do Meio Ambiente alocado no Ministério
das Relações Exteriores tenha sido o órgão responsabilizado nesse momento pela
coordenação das atividades interministeriais, o que de certa forma ainda
colocava no centro dos debates o Itamaraty, o mesmo passou a reunir-se com
outros órgãos governamentais, cujo trabalho foi institucionalizado na Comissão
Interministerial para a Preparação da Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento (CIMA). Outras iniciativas ocorreram nesse mesmo
sentido acerca da temática ambiental, tais como: Comissão Interministerial para
o Desenvolvimento Sustentável (CIDES), Comissão de Políticas de Desenvolvimento
Sustentável e da Agenda XXI Nacional, Comissão Interministerial de Mudança
Global do Clima (CIMGC). O que se pode inferir a partir do exemplo supracitado
é o fato de mecanismos de coordenação de preferências estarem sendo criados com
cada vez mais freqüência para lidar com assuntos de natureza transversal, que
cortam horizontalmente as instâncias governamentais possuidoras de competências
complementares. Apresentam, com isso, um crescente diálogo inter-institucional
e atribuem espaços mais abrangentes dentro da máquina governamental para
capitação das demandas sociais.
Dinâmica decisória inter-burocrática
A interlocução com os demais Ministérios federais também tem sido mais
freqüente, resultados também da nova agenda de política externa brasileira, que
incorpora preceitos da agenda internacional pós-Guerra Fria, quais sejam: meio
ambiente, direitos humanos, crime organizado, fome, pobreza, desarmamento,
biocombustiveis etc; temáticas essas que muitas vezes pressupõe a sobreposição
de competências, obrigando os Ministérios a coordenarem ações na execução e
planejamento de tarefas em âmbito nacional e internacional. Desse modo, essa
interdependência vigente entre os ambientes doméstico e internacional bem como
a incorporação de temáticas transversais na agenda diplomática demandaram um
diálogo mais estreito entre as burocracias federais para definição de
posicionamento do país em âmbito internacional nas mais diversas temáticas.
Esse aumento da interatividade ministerial6 pode ser observada a partir dos
dados coletados de 1988 a 2007 em comparação com os 20 anos anteriores, ou
seja, de 1968 a 1987. A avaliação foi realizada primeiramente em torno do
número de Comissões Interministeriais constituídas por meio de portarias
ministeriais para tratar de temáticas transversais ao longo desses anos. Assim,
os dados demonstram que no período anterior ao marco temporal da pesquisa
(1968-1987) foram criadas um total de 23 Comissões Interministeriais, enquanto
que nos 20 anos seguintes, ou seja, de 1988 a 2007 foram, criadas 38. Em termos
percentuais esses dados estão expressos em 38% e 62% respectivamente.

O que se pode observar é que houve um aumento significativo do número de
Comissões Interministeriais criadas pós-Constituição de 1988. Se considerarmos
ainda para efeitos de demonstração, como ficam esses dados se avaliados os
períodos pré e pós-redemocratização, a disparidade entre os dados dos períodos
aumentam significativamente. Entre os anos de 1968 a 1984, 12 comissões
interministeriais foram criadas, ao passo que de 1985 a 2007 o total chega a
49.
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Mas, efetivamente, o que importa é saber, dentro do propósito dessa pesquisa,
se desse total de Comissões Interministeriais o Ministério das Relações
Exteriores obteve uma participação expressiva, ou seja, se a burocracia
especializada em política externa efetivamente vem ampliando seu diálogo com as
demais agências burocráticas federais. Vejamos:
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Como pode ser observado no gráfico acima, aumenta expressivamente a
participação do MRE nas Comissões Interministeriais no período pós-
redemocratização. Nos 20 anos anteriores ao marco temporal estabelecido pela
pesquisa (1968-1987), do total de 23 Comissões Interministeriais, 6 delas
obtiveram participação do MRE, ou seja, o mesmo foi incorporado em 26,08% das
Comissões. Já de 1988-2007 com um total de 38 Comissões constituídas, o
Itamaraty participou de 17 delas7, o que significa que esteve presente em
44,73% das comissões.
A seleção desse indicador foi realizada com o intuito de demonstrar o aumento
da porosidade institucional do Itamaraty ao longo dos anos, ou seja, a
diminuição do insulamento institucional no que tange ao processo decisório de
temas da política externa brasileira e o aumento da constituição das policys
networks na conformação das preferências. Além de demonstrar o número de
Comissões Interministeriais das quais participou o Ministério das Relações
Exteriores ao longo desses últimos 20 anos, selecionamos também outros
indicadores de interatividade com a finalidade de demonstrar o aumento da
porosidade institucional do Itamaraty no que se refere à relação inter-
burocrática.
Desse modo, considerou-se inicialmente como elemento que expressa um aumento da
interatividade burocrática o número de funcionários do Ministério das Relações
Exteriores emprestados para exercerem suas funções em outros Ministérios; assim
também, como elemento de controle, buscou-se observar a contrapartida, ou seja,
quantos funcionários são emprestados de outros Ministérios para trabalharem no
interior do Itamaraty. O resultado dos dados compilados foi: de 1988 a 2007
foram 750 funcionários do Itamaraty serviram em outras burocracias federais,
enquanto que apenas 77 funcionários vieram de fora para dentro dessa
organização (de outras pastas ministeriais), isto é, prestar serviços de
natureza técnica sobre assuntos adjacentes à atividade diplomática como, por
exemplo, assessores para assuntos jurídicos.8 Isso significa que a demanda por
parte de outras pastas ministeriais de servidores especialistas em temas das
relações exteriores foi praticamente 10 vezes maior do que a demanda do
Ministério das Relações Exteriores por profissionais especialistas em assuntos
adjacentes a competência técnica dessa burocracia.
Associado aos dados funcionais pôde-se observar também, como movimento
complementar, a constituição de Assessorias de Relações Internacionais e/ou
Secretarias de Relações Internacionais em outras pastas ministeriais com a
função de assessorar e coordenar ações da unidade administrativa com a
Chancelaria, principalmente em casos de sobreposição de competências; esse é um
importante fator a ser considerado, principalmente quando analisado o aumento
da transversalidade temática e da relevância das questões internacionais para
outros Ministérios. Atualmente, apenas os Ministérios das Comunicações,
Integração Nacional e Previdência Social não contam com um órgão interno
responsável pelo tratamento de matérias internacionais, todas as demais pastas
que integram a gestão do atual governo (Presidente Lula) contam com esse
serviço, o que pressupõe um aumento de diálogo burocrático no tratamento dos
temas da agenda diplomática brasileira.
Assim, somente para efeitos de exemplificação, buscou-se demonstrar, a partir
de uma seleção aleatória, a competência atribuída a órgãos dessa natureza em
outros Ministérios para, com isso, verificar até que ponto há sobreposição e/ou
coordenação de tarefas com o Ministério das Relações Exteriores. Por exemplo,
compete a Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento
I - formular as diretrizes de ação governamental para a política
agrícola e para a segurança alimentar; II - analisar e formular
proposições de ação governamental para o setor agropecuário; III -
supervisionar a elaboração e aplicação dos mecanismos de intervenção
governamental referente à comercialização e ao abastecimento
agropecuários; IV - promover estudos, diagnósticos e avaliar os
efeitos da política econômica sobre o sistema produtivo agropecuário;
V - administrar o sistema de informação agrícola; VI - identificar
prioridades, dimensionar e propor o direcionamento dos recursos para
custeio, investimento e comercialização agrícola, inclusive dos
orçamentários, no âmbito do Sistema Nacional de Crédito Rural; VII -
promover estudos relacionados com o seguro rural e o zoneameto
agrícola, em articulação com a CER, visando dar suporte técnico à
execução do PROAGRO; VIII - prover os serviços de secretaria-
executiva do CNPA; IX - participar de negociações sobre os temas de
política comercial externa que envolvem produtos do setor
agropecuário e seus insumos;
X - criar instrumentos para promover a utilização eficiente dos meios
logísticos de escoamento da produção agropecuária; e; XI - formular
proposições para a comercialização e promoção de produtos
agropecuários, incluindo o planejamento do exercício da ação
governamental para todos os segmentos produtivos do setor
agroindustrial, bem como orientar, coordenar e avaliar a execução das
medidas aprovadas.9
Como se pode observar na descrição acima, o diálogo inter-institucional deve
ser freqüente quando a temática negociada internacionalmente pelo Ministério de
Relações Exteriores possui uma representação específica no interior do governo
federal. A questão central, no entanto, é que muitas vezes as negociações
envolvem o interesse de vários Ministérios que podem ter preferências
completamente opostas, em virtude da área que representa. São nesses momentos,
portanto, que o diálogo inter-institucional torna-se mais freqüente. Cabe
ressaltar também, que, em momentos de conflito de interesses interministeriais,
cabe ao Presidente da República finalmente decidir sobre o posicionamento que o
país vai adotar em determinada negociação internacional.
Considerações finais
O crescente aumento da participação de outros atores em questões de política
externa vem levando a uma mudança no padrão decisório dessa área no Brasil,
anteriormente caracterizado como insulado e altamente concentrado no Itamaraty.
Desse mesmo modo, verificou-se que, embora esses espaços de diálogo venham
sendo abertos em relação a outros atores estatais e mesmo atores não-estatais,
no que se refere à estrutura interna do Ministério das Relações Exteriores, o
que se observa é a manutenção do status quo organizacional, ou seja,
preservando-se a estrutura decisória altamente centralizada e hierarquizada na
cúpula, sendo os aspectos da funcionalidade da carreira, dos cargos e dos
despachos mantidos. Conclui-se, a partir desses fatores apontados, que há
presença nesse Ministério responsável pela condução da política externa do país
de duas lógicas administrativas distintas: em primeiro lugar, o aumento da
porosidade pressupõe diminuição do insulamento burocrático com a incorporação
de preceitos gerenciais, que visam a atender os interesses dos cidadãos
(cliente); por outro lado, a hierarquização e a rigidez funcional pressupõem
centralização administrativa, princípio este amplamente criticado pela nova
proposta de gestão pública.
Portanto, verifica-se um processo de mudança ainda incipiente, onde há
sobreposições de lógicas administrativas distintas, uma em direção a mudança,
outra em direção a resistência e a manutenção do status quo. Quais dessas
tendências prevalecerão na dinâmica decisória em política externa no Brasil
dependerá sem dúvida da resposta do MRE a uma fase que requer mudança e
adaptação institucional.