"Depois aconteça o que acontecer": por uma rediscussão do Caso Panther e da
política externa de Rio Branco
Buscando seguir o tom da mensagem de Rodrigues Alves e visando uma audiência
específica, Rio Branco elaborou um relato da aproximação que a fazia remontar
ao período anterior à Independência, desenvolvendo, em seguida, o raciocínio de
que esta fora estimulada pela necessidade de resistir-se à ameaça das potências
europeias e às intrigas dos países hispano-americanos. Após a morte de Rio
Branco, O Brasil, os Estados Unidos e o Monroísmo passaria a ser citado fora do
contexto imediato e republicado com indicação da autoria de Rio Branco,
justificando quaisquer políticas e iniciativas de alinhamento com os Estados, e
seria nesse sentido que Rio Branco inauguraria o topos da continuidade da
aproximação com os Estados Unidos na historiografia da política externa
brasileira. Contudo, é necessário compreender que o texto de Rio Branco foi
escrito no contexto determinado pelo Caso Panther para responder às críticas
feitas então à projetada visita de Elihu Root ao Rio de Janeiro. No artigo, Rio
Branco cuidou de encadear a visita de Elihu Root num elenco de atitudes e
iniciativas que teriam se iniciado antes da Independência, permitindo defendê-
la por meio de sua remissão a uma historicidade inquestionável. Isso pode ser
facilmente depreendido se cuidarmos de verificar o texto da mensagem
presidencial de Rodrigues Alves, já que nesta se faz uma recapitulação dos
acontecidos em 1905; ademais, se notarmos que a citação empregada por Rio
Branco em seu texto foi recortada do trecho da "mensagem" que anuncia a visita
de Elihu Root:
A 25 de julho espera chegar a capital, em visita ao Brasil, o
secretário de Estado dos Estados Unidos da América, S. Elihu Root,
que será nosso hóspede durante alguns dias.
Tenho grande satisfação em ver que cada vez mais se estreitam as
relações de cordial amizade entre o Brasil e os Estados Unidos da
América. Concorrendo para isso, não tenho feito mais do que seguir a
política traçada desde 1822 pelos fundadores da nossa Independência e
invariavelmente observada por todos os Governos que o Brasil tem
tido.
Na verdade, Álvaro Lins rearticulou o topos da continuidade por meio de sua
própria narrativa da política externa de Rio Branco, construindo a ideia de que
o ministro teria sempre planejado e operado de modo que a aproximação se
tornasse ainda mais palpável. Note-se que a narrativa de Álvaro Lins insere
anacronicamente o artigo de Rio Branco na narrativa, uma vez que este é citado
em seguimento a uma descrição das negociações sobre o Acre. Isso lhe permite a
operação do raciocínio de que "nunca o Barão apelaria, nunca apelou, para o
expediente de um pedido de intervenção parcial dos Estados Unidos [...]", e
juntar nesse raciocínio o episódio da elevação das representações dos dois
países à categoria de embaixada, cujo fechamento seria a célebre frase: "Era
como que uma moldura nova e brilhante para dar relevo a um quadro antigo".
Observe-se que Álvaro Lins não data a citação ao artigo de Rio Branco, mas
apenas menciona que este fora "publicado no Jornal do Commercio e muitas vezes
reproduzido em outros jornais e folhetos" (1965, 329, nota 556).
Por conseguinte, a frase "moldura nova e brilhante para dar relevo a um quadro
antigo", tantas vezes citada, é a representação da reelaboração do toposda
continuidade feita por Álvaro Lins, com o qual nem Burns nem Rodrigues
concordavam: para Burns a "aliança não escrita" deveria ser compreendida apenas
no contexto da República e dos ministérios Rio Branco; para Rodrigues, o
"americanismo" de Rio Branco deveria ser entendido como circunstância lógica,
mas transitória de um processo. No diálogo com Lins, Burns constitui o Caso
Panther como elemento de ligação da narrativa que lhe permite interpretar o
alinhamento do Brasil com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que eleva
Joaquim Nabuco como personagem principal da trama que culmina na vinda de Elihu
Root ao Rio de Janeiro. Já para Rodrigues, se confiarmos nas apostilas do curso
de História Diplomática que lecionou no Instituto Rio Branco e que foram
reunidas por Ricardo Seitenfus, só cabia citar o incidente da Panther para
demonstrar que Rio Branco concebia as "relações tão estreitas quanto possível,
mas sem que isso pudesse prejudicar nossa liberdade de ação soberana"
(RODRIGUES, 1995, 67-68). Por conta disso o incidente é completamente marginal
nas obras de Rodrigues, sendo apenas mencionado para que se pudesse frisar que
Rio Branco fez questão de desmentir os jornais na questão do apelo de
intervenção aos Estados Unidos.
No sentido de melhor compreensão do nosso problema, podemos agora colocar que
duas aproximações historiográficas principais podem ser delineadas a partir do
debate colocado em 1966: a primeira entendendo o alinhamento com os Estados
Unidos como uma consequência da política encetada por Rio Branco; a segunda
desvinculando Rio Branco da prática dos seus sucessores, a adesão ao
"imperialismo protetor" dos Estados Unidos.
O Caso Panther depois de Burns e Rodrigues
Em 1972, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira revisitaria o Caso Panther e seu
contexto. No livro Presença dos Estados Unidos no Brasil, Moniz Bandeira insere
o incidente numa interpretação do contexto histórico em que salienta os
"colossais interesses dos construtores de navios" que buscavam lucrar com o
acirramento dos sentimentos imperialistas. Nesse sentido, Moniz Bandeira
salienta que a imprensa estadunidense veiculava continuamente denúncias de que
a Alemanha pretendia "apoderar-se de território na América do Sul" e que a
frequência dessas notícias, segundo o próprio representante brasileiro em
Washington, era a prova de sua intencionalidade (1978, 167). Contudo, Moniz
Bandeira entende que a disputa imperialista não era de todo infundada e os
Estados Unidos estavam entrando em uma nova fase de sua política externa,
"emergindo para o Imperialismo", dinâmica esta confirmada pelo acerto feito com
as grandes potências europeias na Crise da Venezuela em 1902, na secessão do
Panamá em 1903, e na invasão da República Dominicana em 1905.
Por conseguinte, Moniz Bandeira interpreta que o apoio de Rio Branco à Doutrina
Monroe se deu em função do entendimento de que esta resguardaria o Brasil
contra as agressões extracontinentais e permitiria constituir "uma associação
com os Estados Unidos, em pé de igualdade", visando tanto "a transformação do
Continente numa espécie de condomínio em que o Brasil ficava com as mãos livres
para exercer a sua hegemonia na América do Sul" quanto o alívio das pressões
que a Inglaterra exercia (1978, 169-170).
Podemos observar, assim, que o problema do imperialismo estadunidense colocado
pela análise de Rodrigues foi reconsiderado por Moniz Bandeira a partir de sua
remissão ao contexto internacional, enquanto as intenções de Rio Branco no
processo de aproximação com aquele país foram explicadas no âmbito hemisférico
por meio do topos da continuidade da política externa brasileira: "era, no
fundo, a velha orientação do Império, que adquiria consciência e forma" (1978,
169). Podemos compreender ainda a explicação de Moniz Bandeira pela influência
do contexto da ditadura militar brasileira (1964-1985) em sua escrita, pois
esse autor coloca, ainda que sub-repticiamente, uma explicação para outra
continuidade, a do pleito da sub-hegemonia continental, um dos focos da
política externa desde o governo Castelo Branco.
Restava, entretanto, uma tensão a ser resolvida na narrativa: se considerarmos
que Moniz Bandeira foi influenciado por Rodrigues, como explicar, sem se
afastar demasiadamente da narrativa anterior, que as intenções de Rio Branco
não consubstanciaram uma tentação de alinhamento com os Estados Unidos? Para
isso, Moniz Bandeira lança mão exatamente da interpretação concorrente,
reelaborando o papel construído por Burns para o personagem de Joaquim Nabuco.
Mantendo o protagonismo de Nabuco na narrativa da aproximação e na cena do
incidente da Panther, Moniz Bandeira constrói uma personagem antagônica à de
Rio Branco. No caso, o embaixador brasileiro em Washington não teria
compreendido "o sentido que Rio Branco imprimia ao Monroísmo", dando-lhe "o
sentido da adulação aos Estados Unidos", e, citando Oliveira Lima, Moniz
Bandeira indicou que "sua atitude foi, invariavelmente, pan-americana do
Norte", pois "julgava um bem o Brasil ser dirigido pelos Estados Unidos" (1978,
171).
Essa reelaboração do papel de Joaquim Nabuco seria então juntada ao argumento
nacionalista que Rodrigues havia elaborado na figura retórica do
"Bacharelismo". Vários enunciados acerca de Joaquim Nabuco são então
disponibilizados de modo a constituir um par semântico com a figura do
"Bacharel" constituída por Rodrigues e exemplificada na frase: "a vaidade, o
amor próprio e não sei se o interesse daqueles que nos governam e que querem
brilhantes e vantajosas sinecuras no exterior [...]" (RODRIGUES, 1966, 51).
Observe-se a seguinte citação:
Nabuco envaidecia-se de seu trabalho. E de seu charme. O de mais belo homemde
Washington. Convenceu-se de que impressionou Root a ponto de induzi-lo a viajar
ao Rio de Janeiro. E de que sua escolha marcava uma época[...] Estas e outras
lisonjas, com que o Presidente Theodore Roosevelt contemplava o seu narcisismo,
ele consignou no seu diário. E procurou pagá-las com a vassalagem [...]
(BANDEIRA, 1978, 173).
Na construção de Moniz Bandeira, as manobras de Joaquim Nabuco foram contidas
apenas pela firmeza com que Rio Branco visava seus objetivos, mas, descrevendo
por Joaquim Nabuco a essência dos diplomatas brasileiros, a morte de Rio Branco
permitia encadear quase que naturalmente um processo. No caso, o incidente da
Panther excitara, ao extremo, a "solidariedade e comunhão de sentimentos, que
os representantes das oligarquias formulavam sob a regência de Root", pois, ao
final, "Lauro Müller substituiu-o no Ministério das Relações Exteriores e,
logo, manifestou seu espírito de subserviência" (1978, 173 e 187).
Esse viés seria retomado em 1988 por José Joffily no seu livro O Caso Panther,
mas, no tratamento dispensado por esse autor, nem mesmo Rio Branco se salvaria,
sendo caracterizado como um indivíduo intempestivo e excêntrico, e equiparado a
Joaquim Nabuco pela "beleza apolínea, o culto a certos hábitos lúdicos". Nessa
construção, Joffily, citando Aníbal Fernandes, lembra, inclusive, "que Nabuco
tinha fama de 'dandy' ou 'correur de femme'. Chegaram a inventar que usava
pulseirinhas de ouro e que punha brilhantina nos bigodes" (1988, 106).
Igualando as duas personagens na narrativa, Joffily podia revelar a
pusilanimidade de nossas elites e utilizar o Caso Panther como uma
representação da condição do colonizado. O incidente servia para revelar "as
raízes da nossa carga de colonialismo e de rendição incondicional ao
imperialismo que corre nas veias da burguesia brasileira e de suas elites"
(1988, 43). Escrevendo no estertor do período de exceção, Joffily criticava o
ensino de história e a própria historiografia, acusando esta pela canonização
da classe dirigente. Assim, o argumento central do autor é que no incidente da
Panthera má condução da política externa do País por Rio Branco e Joaquim
Nabuco quase teriam levado o Brasil a uma guerra contra a Alemanha, mas que
tais circunstâncias e o próprio incidente foram deixados de lado pelos
historiadores, censurados no movimento de autoindulgência de nossas elites.
Ironicamente, Joffily reifica em sua narrativa o argumento que o próprio
imperialismo estadunidense utilizou para lastrear suas pretensões no início do
século XX, o chamado "Perigo alemão", o expansionismo germânico em direção ao
Brasil.
Depois de Joffily, curiosamente, parte da historiografia subscreve ao mesmo
tempo as teses de Burns e de Rodrigues, não compreendendo mais haver distinção
entre as ideias da "aliança não escrita" e do "americanismo" de Rio Branco.
Contudo, de um modo geral, a construção de Rodrigues prevaleceu sobre as
outras, na medida em que, mesmo considerando a importância de Joaquim Nabuco na
narrativa da aproximação com os Estados Unidos, a maioria dos autores entende
haver uma separação entre seu papel e o de Rio Branco na questão. No caso, a
aproximação com os Estados Unidos seria descrita enquanto parte de uma
estratégia de Rio Branco que visava neutralizar as intervenções que poderiam
ser perpetradas contra o Brasil, servindo aos propósitos do País sem que
significasse alienação da soberania, entendimento este que iria adquirir outro
significado, o do alinhamento, após a morte de Rio Branco (CERVO, 1992, 174).
Em praticamente todas as obras sobre a política externa brasileira, o incidente
da Panther desapareceria enquanto elemento articulador da narrativa, sendo
apenas citado esporadicamente de modo a endossar o direcionamento de certas
explicações pontuais.1
A exceção à regra é o artigo de Clodoaldo Bueno intitulado A competição alemã
no Brasil no início do século: o incidente da Panther, escrito em 1995,
trabalho em que esse autor busca, a partir do incidente, entender as linhas
básicas da ação de Rio Branco em meio à disputa entre Estados Unidos e
Alemanha. O interessante é que, embora a abordagem de Bueno seja original (a
tese do "meio ambiente" como condicionador da ação de Rio Branco), a
interpretação do autor subscreve os vieses abertos por Burns e Rodrigues, como
se pode depreender do título com que Bueno nomeia a conclusão do artigo:
"Reforço da presença norte-americana e do prestígio de Rio Branco". No caso, os
temas principais das teses de Burns e Rodrigues foram agrupados e reelaborados
numa só composição.
Finalmente, nos últimos anos, como parte dos esforços dedicados a reavaliar a
memória de Joaquim Nabuco, alguns trabalhos têm se dedicado a salientar mais o
papel desempenhado por este na aproximação com os Estados Unidos e se valem,
nessa operação, do incidente da Panther. Esta foi, por exemplo, a análise
desenvolvida por Rubens Ricúpero na conferência apresentada ao Seminário
Joaquim Nabuco, Embaixador do Brasil em 2005.
A rediscussão do Caso Panther por meio da crítica à cultura histórica
Pudemos observar em nossa análise da historiografia sobre o Caso Panther que o
incidente ganhou relevância a partir de um contexto determinado - a ditadura
militar -, quando passou a ser operado em duas operações historiográficas para
as quais assumiria distintos valores de representação. Essas representações
seriam reelaboradas até que desaparecesse o interesse em torno da própria
operação, quando os valores trabalhados foram subsumidos na grade geral de
compreensão da política externa brasileira.
Entretanto, mesmo que desligados de sua origem e de suas representações, os
sentidos de compreensão operados na historiografia (especialmente os que dizem
respeito ao papel da corporação diplomática e ao relacionamento com os Estados
Unidos) foram reelaborados e rearticulados em outros enunciados por novas
operações realizadas na disputa por posições no interior do sistema que
articula a ação diplomática com o pensamento da política externa. Essa análise
permite explicar por que a maioria dos novos elementos acerca do incidente da
Panther foi incorporada a outras investigações em vez de se juntar a sua
interpretação, assim como as interpretações mais recentes se desligaram dos
sentidos do debate e até confundiram as suas ideias.
Uma retomada da análise do Caso Panther por meio dos termos das operações e de
avaliação de seus desdobramentos não significa tomar partido nas velhas e novas
disputas, mas busca, sim, elucidar seus rastros. Nesse sentido, nosso
procedimento será o de trabalhar o Caso Panther não apenas como objeto de
interesse histórico, mas também historiográfico, cuja crítica nos permite
repensar os termos e sentidos da relação entre os Estados Unidos e o Brasil.
Nesse intuito, retomaremos nosso trabalho a partir do diálogo entre Burns e a
narrativa de Álvaro Lins.
A ideia da clivagem e o toposda continuidade
No diálogo com Álvaro Lins, Burns construiu um raciocínio divergente do topos
da continuidade no qual o Caso Panther é o evento que permite encadear uma
representação da clivagem entre a velha e a nova política externa brasileira. A
narrativa do incidente permite demonstrar que a relação com os Estados Unidos
está inserida numa ordem de sentidos diferente, instruída por Rio Branco e
Joaquim Nabuco. Como já apontamos anteriormente, a narrativa de Burns difere de
Álvaro Lins por buscar distinguir mais o papel de Nabuco e elidir parte do
sentido da atuação de Rio Branco. Note-se, como dado novo, que Burns também
deixou de incluir uma compreensão que ele, muito provavelmente, já havia
chegado:o encontro de Rio Branco com o embaixador alemão antecedeu o telegrama
para Nabuco.
Na sua narrativa, Álvaro Lins fez a inversão na ordem da trama histórica de
modo a endossar o argumento nacionalista. Observe-se que a expressão elidida
por Burns - "Depois aconteça o que acontecer" - forma um par semântico quase
perfeito com a frase que Álvaro Lins recortou do diário de Rio Branco: "Pois
que seja uma guerra, Excelência, se isto desgraçadamente for necessário".
Entretanto, se Burns reordenasse a ordem dos eventos terminaria ressignificando
o argumento nacionalista, que, como sabemos, era operado por José Honório
Rodrigues.
Além disso, para Burns não interessava ressaltar o estilo da mensagem nem a
excepcionalidade do seu conteúdo, mas a receptividade e a pronta resposta do
governo estadunidense à notícia do incidente com a Panther. Em sua construção,
o anúncio da visita de Root ao Brasil soma-se ao endosso dos Estados Unidos à
postura brasileira no incidente, para desencadear uma escalada das simpatias no
Brasil em direção à "aliança não escrita". Importa, sobretudo, fazermos notar a
força e influência dessa construção, pois sua lógica foi corroborada por Moniz
Bandeira, mesmo que a partir de outro olhar. No livro Presença dos Estados
Unidos no Brasil, o autor conclui que a visita de Root se encerra com um
"formidável êxito de propaganda" que permite a cristalização da "solidariedade
e comunhão de sentimentos" dos representantes das elites oligárquicas com os
Estados Unidos (1978, 173).
Por conseguinte, pode-se entender que a quebra do topos da continuidade
permitiu juntar diferentes interesses num só raciocínio e mesmo agrupar esses
investimentos numa nova composição. A clivagem da política externa é um
constructo historiográfico em que a relação com os Estados Unidos passa a ser
compreendida no bojo de uma nova ordem de sentidos, representada ora na figura
da "aliança não escrita" ora pela ideia da dependência ou da colonização.
A clivagem como herança?
Como a lógica da 'nova ordem de sentidos' foi desenvolvida por meio de análises
centradas na atuação brasileira, será que uma aproximação diferente deixaria
entrever outra compreensão? Nesse caso, se nos valermos da atuação de Elihu
Root como chave de leitura, podemos observar que sua viagem à América do Sul
não se restringiu ao Brasil, mas ainda foi estendida para outros países, a
saber, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Panamá, Colômbia, e só por falta de
tempo não incluiu o Paraguai, a Bolívia e o Equador (BACON, 1917, xiii-xiv).
Nos discursos proferidos neste período, Elihu Root trabalhava a ideia de que
uma transformação excepcional ocorria tanto nos Estados Unidos quanto na
América do Sul, cujos termos ele definia na seguinte reflexão: nos Estados
Unidos se acumulara, pela primeira vez, "um superavit de capital além do
requerido para o desenvolvimento interno", enquanto na América do Sul "o
progresso do desenvolvimento político estava levando o continente vizinho [...]
para fora do estágio do militarismo e para dentro do estágio do industrialismo"
(ROOT, 1917b, 246-247).
Abria-se, por conseguinte, uma janela de oportunidade para o comércio, para a
expansão industrial e para a liderança estadunidense, urgindo,
consequentemente, reconhecer e aproveitar a complementaridade de duas dinâmicas
convergentes, a dos Estados Unidos e a da América do Sul, em proveito dos
propósitos de uma estratégia global.
No Rio de Janeiro, Root assinalou que essa excepcionalidade poderia afirmarse
como um "movimento continental" visando ao aumento da civilização, a ser
materializado por meio do "intercâmbio e assistência mútua entre as repúblicas
Americanas" e no respeito comum aos princípios democráticos. O progresso
material era o fim último de uma opção conjunta que, pelo lado dos Estados
Unidos, não aspirava a ganhos territoriais e ainda prometia preservar o
continente dos efeitos das perturbações que já se avizinhavam na Europa. A
liderança estadunidense sobre a comunidade americana significava, em resumo:
"segurança e prosperidade, produção e comércio, riqueza, conhecimento, as artes
e a felicidade para todos" (ROOT, 1917a, 10-11).
Observe-se que Root evocava todo um imaginário da colonização e da intervenção
europeia, no qual ainda se evidenciava o fosso que separava os países
periféricos das potências industrializadas. A cooperação pan-americana era
propalada então como um compromisso assumido pela nação mais privilegiada junto
às suas irmãs menores, em direção da igualdade, da liberdade e da prosperidade
material. Nos enunciados de Root o incidente da Panther era um termo oculto,
que por não necessitar ser explicitado em seu tempo, deixou de figurar na
maioria das construções posteriores.
A Pantherno imaginário estadunidense
Todos os textos que trabalharam o Caso Panther, de uma maneira ou de outra,
procuraram mostrar que a real importância do incidente residiu em sua
significação, que demonstrava a fragilidade da posição do Brasil no contexto
internacional, pressionado pela Alemanha, pelos Estados Unidos ou pelas duas
potências ao mesmo tempo. Algumas explicações ressaltaram ainda a importância
do "perigo alemão" para a opinião pública da época, notando que Rio Branco não
se impressionava com esse problema, e que o tema era parte da propaganda
antigermânica divulgada pelos jornais brasileiros.
Em nossa aproximação, queremos observar que, muito antes do incidente, a
Panther já ocupava lugar destacado no imaginário estadunidense como o símbolo
da ameaça germânica aos Estados Unidos, ao ponto, por exemplo, de o jornal The
New York Timester registrado suas façanhas 81 vezes apenas entre o final de
1901 e o início de 1906, até mesmo destacando-a em editoriais e notícias de
primeira página. Essa pertinência da Panther ao imaginário estadunidense
possibilitaria repensar, dentre outras coisas, o episódio que causou tantos
dissabores a Joaquim Nabuco, assim como a fala de Rio Branco no encontro com o
embaixador alemão.
Sabemos por meio de pesquisas recentes que a presença naval alemã no Caribe
fazia parte de uma ampla estratégia alemã para o continente americano. Nesse
sentido, a Panther participou de várias missões na área e foi um dos barcos de
guerra que no final de 1904 e início de 1905 participou do cruzeiro que passou
por 52 portos e pelo menos 9 países do Caribe, numa missão que visava a
demonstrar a força da presença alemã na região.
A Panther foi lançada ao mar em 1901 como parte do plano de construir barcos
capazes de operar tanto no litoral quanto no interior dos continentes, de modo
a poder estender a capacidade de operação de suas forças armadas e a influência
da política externa germânica. Para melhor exercer essa função, sua
oficialidade foi treinada nos usos culturais e na compreensão dos sistemas
políticos estrangeiros, formando uma elite capaz de atuar com relativa
autonomia em relação ao comando das relações exteriores da Alemanha (WIECHMANN,
2000).
Em 1903, por exemplo, quando enviada para reparos técnicos no Canadá, a Panther
visitou vários portos daquele país fazendo uma política de relações públicas
que impressionou vivamente a população local. Seus oficiais e marinheiros
participaram então de regatas e apresentações musicais com sua banda, até mesmo
sendo convidados para animar eventos locais (BASSLER, 2006, 117-118). Já em
1906, os oficiais da Panther aproveitaram a passagem pelos Estados Unidos e
Canadá para cartografar e fotografar os portos e possíveis locais de
desembarque naqueles países, bem como os pontos frágeis de seu sistema de cabos
submarinos, informações estas que teriam sido de extrema utilidade para os
ataques dos submersíveis alemães durante a Primeira Guerra (HADLEY, 2004, 165-
166).
Contudo, seria por conta de outras atividades que a Panther passaria a
representar o caráter da política alemã. Em 1902 a Pantherinterviu na guerra
civil haitiana tomando partido da situação e afundando o principal barco
daquele país, o Crête-à-Pierrot, então sob o comando de um almirante rebelde.
Segundo o The New York Times, o Departamento de Estado teria julgado que a
Doutrina Monroe não teria sido violada, uma vez que ela não deveria ser
estendida ao ponto de proteger um comandante rebelde num país estrangeiro e que
o episódio poderia até ser benéfico, prevenindo os atos contra o comércio
costumeiramente praticados durante as instabilidades políticas da América
Central e do Sul.2 Apesar disso, citando a repercussão internacional do
incidente, o mesmo jornal notava que a admissão de limitações à Doutrina Monroe
abria precedente perigoso, sendo "impossível deixar de perceber que algum
incidente similar no futuro poderia atiçar uma fagulha na bucha do canhão da
Doutrina Monroe", mesmo porque "o monroísmo conforme explicitado pelos homens
de estado era uma coisa; as susceptibilidades do povo americano eram outra".3
Ainda assim, o The New York Timesdefendeu em editorial a posição do seu
governo, comparando a atividade da Panther no Haiti com a intervenção
estadunidense no Brasil durante a Revolta da Armada, julgando que em ambos os
casos a ação contra os revoltosos fora justificada pela ameaça que
representavam ao comércio internacional.4
Contudo, pode-se perceber uma transformação nas posições assumidas pelo jornal
a partir do final de setembro de 1902, quando, citando um editorial do
periódico inglês The Daily Telegraph, noticia que a Inglaterra e a Alemanha
passariam a cooperar na América em torno do princípio da liberdade de comércio
conforme definido pelo Tratado de Berlim de 1878, "buscando pôr fim a um estado
de coisas que escandalizavam a moderna civilização e envergonhavam a cada país
responsável pelo Tratado de Berlim".5 Esta compreensão de que um princípio
empregado na partilha da África estava sendo transposto para a América tornar-
se-ia ainda mais premente nos Estados Unidos com a intervenção anglogermânica
na Venezuela em 1902-1903, e especialmente quando a Panther e o barco inglês
Fantome forçaram a barra do rio Orinoco, penetrando no território daquele país.
Envolvidos no problema da secessão do Panamá, os Estados Unidos pouco mais
fizeram do que condenar as atividades destinadas a cobrar pela força as dívidas
venezuelanas, que incluíram o apresamento de barcos, o desembarque de tropas e
o bloqueio dos seus principais portos. O bombardeamento do Forte de San Carlos,
uma das ações levadas a cabo pelo esquadrão alemão comandado pela Panther,
provocaria o editorial intitulado The German Way[O Estilo Alemão], no qual se
enfatizava que aquela atitude constituía uma afronta ao governo estadunidense
que tentava então negociar uma solução para o conflito, sintetizando a rudeza
que caracterizava o modo de proceder da Alemanha a qual motivava a "renovação
da agitação antigermânica nos Estados Unidos".6 A partir desse editorial a
Panther começaria a ser lembrada enquanto uma representação do "estilo alemão",
lembrando-se que era o barco que havia bombardeado o Forte de San Carlos e
afundado o Crête-à-Pierrot, recebendo por isto o cumprimento do próprio
Imperador: "Well done, Panther" [Bem feito, Panther].
Em outro editorial ficaria mais explícita a frustração dos que esperavam uma
manifestação do governo contra o "estilo alemão": "quando ocasiões como estas
acontecerem no futuro, e elas vão acontecer, nós deveremos estar advertidos
pela presente experiência", e se os alemães ou outra potência estrangeira
"estiver pensando em negar o nosso direito de receber completas informações de
seus propósitos", deverá antes estimar "se a receita vale os custos da
coleta".7
Depois, nos anos de 1903 e 1904, outros atritos menores com a Alemanha, dessa
vez em Santo Domingos e no Haiti, também seriam referidos a partir de sua
remissão à representação que a Panther evocava: "Bem feito, Panther" era a
frase sempre repetida, se reclamando uma atuação mais convincente do governo
estadunidense de modo a evitar a repetição do acontecido na Venezuela.
Por conseguinte, nossa compreensão do envolvimento dos Estados Unidos no
incidente do Brasil é que este se desenvolve de reflexões anteriores, que
levaram seu governo a buscar com celeridade obter satisfações da Alemanha.
Note-se que o editorial do The New York Times sobre o incidente no Brasil
repete a linha e
o estilo dos editoriais precedentes e termina, ademais, com a indefectível
frase: "Bem feito, Panther". Isso nos leva a crer que sua contundência, ao
lembrar que os Estados Unidos tinha ido à guerra com a Inglaterra em 1815 por
conta de questão semelhante, pouco tinha a ver com os supostos esforços de
Nabuco no sentido de provocar "reações monroístas", mas com a própria dinâmica
da
política externa estadunidense que levava em conta os insucessos anteriores e a
suscetibilidade da sua opinião pública. Nesse mesmo sentido, pode-se
compreender que a ida de Nabuco à Secretaria de Estado não é o verdadeiro
denominador da atuação estadunidense, o que isentaria o embaixador da acusação
de incitamento da intervenção estadunidense - provavelmente, a intervenção
ocorreria de qualquer modo.
Ainda, havemos de considerar que o imaginário estadunidense era partilhado no
resto do continente, o que permitiria explicar a excitação de Joaquim Nabuco e
o posicionamento de Rio Branco no episódio. Decerto, foi o acerto anglo-
germânico em torno dos princípios expressos no Tratado de Berlim que levou
Joaquim Nabuco a escrever sobre o receio de que as "noções sugeridas pela
partilha africana se possam aplicar à América" (NABUCO, 1903) ou que o "Direito
Internacional Africano" (NABUCO apud BUENO, 1995, 69) fosse transposto para cá.
A amizade alemã e a balança de poder
Será que poderíamos trabalhar a ideia da continuidade também como um constructo
historiográfico apontando sua lógica e depois trazer elementos novos para sua
compreensão?
Analisando seu texto fundador, O Brasil, os Estados Unidos e o Monroísmo,
escrito logo após o Caso Panther e antes da visita de Elihu Root, podemos notar
que Rio Branco justifica a aproximação com os Estados Unidos a partir de uma
enumeração de vários episódios que demonstrariam a continuidade de uma política
desde antes da Independência. Nessa operação, Rio Branco seleciona documentos
que demonstrariam a antiguidade da amizade entre os dois países, visando a
atingir com esse argumento uma audiência específica, a dos seus críticos, que
fundamentavam suas análises na demonstração de que as iniciativas de Rio Branco
discrepavam dos fundamentos da política externa do Império.
Contudo, pode-se notar, pela análise do texto, que o argumento da antiguidade
não basta para sensibilizar essa audiência: Rio Branco procura selecionar e
grifar passagens que dizem respeito às impressões causadas pelo contexto
imediato, que não inclui apenas o Caso Panther, mas também as dissensões com a
Argentina e o Peru. Nesse sentido, os trechos destacados por Rio Branco são
aqueles que dizem respeito à formulação de uma liga ou aliança ofensiva e
defensiva com os Estados Unidos e é no bojo dessa lógica que ele explica a
adesão precoce do Brasil à Doutrina Monroe.
O alcance desse argumento pode ser mais bem compreendido se recorrermos à
análise da mentalidade das elites letradas do período e notarmos a grande
disseminação na época de um saber afinado com a ideologia imperialista, que
propunha um raciocínio sobre o Estado baseado na afirmação da importância do
território e na balança de poder. Rio Branco era mesmo especialmente suscetível
a esse tipo de raciocínio, uma vez que havia servido nos Estados Unidos e na
Alemanha durante o período da maior divulgação e penetração das doutrinas
baseadas no pensamento de Alfred Thayer Mahan.8
Ao mesmo tempo, podemos notar que esse discurso e seus enunciados podiam ser
aproximados e assemelhados a um saber e um pensamento sobre o espaço
constituído no Império e que este era entendido como tendo sido essencial para
a manutenção do corpus da Nação (PEIXOTO, 2005). Se essa era a intenção de Rio
Branco, poucas evidências sobraram para sua defesa, mas essas ainda nos
permitem aventar que, se a aproximação com os Estados Unidos não era apenas um
objetivo transitório e não permanente, dificilmente também poderia ser
considerada como um alinhamento ou uma aliança estreita.
Pouco antes do incidente da Panther, em março de 1905, Rio Branco havia
conseguido por intervenção direta do Imperador Guilherme II, que o Exército
alemão admitisse oficiais brasileiros em suas fileiras. Coincidentemente, as
condições do acordo estipulavam que, sete meses depois, no auge do incidente
com a Panther, fosse necessário cuidar da oficialização e da renovação do
estágio do primeiro grupo de militares.9 Havia, além disso, três outros
interesses específicos: a compra de armas, a vinda da Missão Militar Alemã e o
enorme intercâmbio comercial com a Alemanha que operavam no sentido de que o
Caso Panther não desarticulasse as relações entre os dois países. Note-se que
mesmo depois do incidente, Rio Branco continuou buscando esses objetivos e que
em 1908 o expresidente Rodrigues Alves e o Marechal Hermes da Fonseca visitaram
a Alemanha com sua estadia custeada pelos dois maiores fabricantes de armas
daquele país, a Krupp e a Mauser.10
Alfred von Tirpitz, o todo-poderoso chefe do Almirantado alemão, sempre
considerou o incidente como algo banal, "uma tempestade num copo d'água",11 e
os diplomatas alemães dedicaram os maiores esforços, durante e depois do
incidente, para evitar prejuízos, cuidando, por exemplo, de evitar que os
barcos de guerra alemães parassem nos pequenos portos do sul do Brasil.12 Além
disso, Rio Branco conhecia o roteiro que a Panther cumpriria no Brasil e,
ademais, tinha obtido junto à Marinha permissão para que realizasse exercícios
de tiro na sua passagem pelo Rio de Janeiro. O Ministro sabia também que, dois
meses antes, a Panther já tinha ocasionado outro incidente na capital da
Paraíba (GUEDES, 2002, 314-315).
Foi a grande imprensa que criou o clima de enfrentamento com a Alemanha,
fazendo com que esse clima transbordasse para a Câmara, onde a oposição passou
a protestar duramente contra o suposto atentado alemão à soberania nacional.13
Aliás, Rio Branco já havia dito ao próprio Guilherme II, em 1901, que a
imprensa do Brasil era influenciada contra a Alemanha pelos interesses
estadunidenses,14 impressão que seria repetida depois da solução do
incidente.15
A crise diplomática terminou no dia 6 de janeiro de 1906, quando foi divulgada
uma declaração aprovada pelo Imperador Guilherme II e assinada conjuntamente
pelo Barão de Richthofen, Chanceler alemão, e pelo Príncipe de Bülow,
Secretário de Estado do Império. Na declaração, expressava-se o vivo pesar pelo
que o governo brasileiro havia passado, apontando o apreço pela amizade com o
Brasil e o desejo de fortalecer os laços já existentes. Dizia ainda que os
inquéritos alemães comprovaram que seus agentes haviam ultrapassado os limites
do encargo recebido e que por isso seriam submetidos à justiça militar de seu
país, mas frisava que estes apenas haviam procedido a um uso universalmente
seguido pelas marinhas de guerra, que era o de buscar seus desertores.
Entre as dinâmicas do regresso e do progresso
Ainda que a declaração da Alemanha fosse de encontro a tudo aquilo que fora
pleiteado pela imprensa, os artigos e notícias denunciando a "prepotência
alemã" e o "perigo germânico" continuaram a ser veiculados pela imprensa
durante todo o ano de 1906. Foi nesse período que os jornais construíram a
narrativa de que a agressão alemã fora motivada por um plano secreto do Estado-
Maior alemão, visando a anexar o sul do Brasil com o apoio dos colonos alemães.
No caso, Rio Branco teria facilitado uma futura anexação na medida em que se
acovardou com a exibição imperialista, não cortando relações com a Alemanha nem
insistindo numa punição exemplar para o comandante da Panther.
Esse tema tornar-se-ia, daí em diante, lugar-comum na cultura política,
impressionando a produção das ideias sobre a nação e a identidade que seriam
retomadas, inclusive, no ambiente especial do final da década de 1950. Seria no
contexto das disputas da Guerra Fria que a ideia da continuidade seria retomada
por Álvaro Lins, que reelaboraria o texto de Rio Branco a partir do argumento
de que sua análise da transformação da balança de poder mundial e hemisférica
fora perfeita. Contudo, para Lins esses condicionantes não seriam suficientes
para explicar por que a ênfase original de Rio Branco numa liga ou aliança
ofensiva e defensiva com os Estados Unidos foi reelaborada numa construção que
privilegia suas observações a respeito do monroísmo. Para isso, seria
necessário entendermos que a aproximação com os Estados Unidos foi trabalhada a
partir de uma ordem diferente: esta teria se dado numa colaboração especial,
que destacou nosso país das demais nações sul-americanas, uma vez que o Brasil,
por meio da herança do saber do Império, transformara mesmo a essência da
Doutrina de Monroe, que integrava "no seu corpo, em formação ainda naquela
época, princípios e ideias da política externa brasileira" (LINS, 1965, 337).
Note-se que a leitura de Álvaro Lins se faz para uma audiência em que a
geopolítica faz sentido, acreditada enquanto Ciência e ensinada em
universidades, academias militares e no Instituto Rio Branco. Ainda, a
interpretação de Lins se insere no contexto interno, que implicava a
necessidade de ter de explicitar o alinhamento com os Estados Unidos e a luta
contra a subversão comunista. Nesse ponto o retorno da tradição não se daria no
seu encontro com a política externa, mas também na política interna - Lins
entendia que o verdadeiro legado de Rio Branco era a possibilidade de encontro
do passado com um projeto capaz de imprimir um futuro próspero para a Nação:
Enfrentando a ironia ou a cólera dos livres-pensadores do jacobinismo
republicano, o presidente Rodrigues Alves, na sua primeira mensagem
ao Congresso, invocava o nome de Deus. Era a primeira vez que, na
República, o chefe de Estado fazia apelo à Providência Divina em
documento dessa espécie. Isto representava [...] um sinal dos novos
tempos, indicava a vitória do espírito tradicional através da
"república dos conselheiros" (LINS, 1965, 340).
Foi justamente contra esse constructo que junta as dinâmicas do regresso e do
progresso, que se lançaram não apenas releituras da história da política
externa, mas, sobretudo, visões sobre o espaço e a identidade nacional que
procuravam repelir aquilo que acusavam de atraso. Ao final, Rio Branco foi
ressignificado a partir de posições que dificilmente endossaria, já que ele
mesmo estava empenhado numa operação que colava o passado às possibilidades que
o presente oferecia.