A política de cooperação do Brasil com a África Subsaariana no setor rural:
transferência e inovação na difusão de políticas públicas
Introdução
A configuração de um grupo de economias emergentes como atores relevantes da
cena internacional constitui um dos fenômenos mais marcantes da história
econômica mundial recente. E o interesse desses países pelo continente africano
contribui para sua atual transformação econômica e social, por meio da
diversificação comercial, de investimentos e parcerias, bem como das novas
modalidades de cooperação para o desenvolvimento. Tal transformação reflete, em
grande medida, a normalização das relações pós-coloniais africanas, embora a
influência dos parceiros tradicionais seja ainda relevante (AfDB et al. 2011).
Se, por um lado, as economias emergentes se associam em função de suas
performances econômicas e colaboram regularmente em fóruns políticos, por outro
lado, suas estratégias de desenvolvimento e política externa são bastante
distintas. Elas variam segundo os setores, tipos de bens comercializados,
tecnologias subjacentes e modelos de financiamento utilizados (Bliss 2010).
O Brasil, que no Pós-Guerra se beneficiava da "ajuda internacional", formula no
fim dos anos 1960 um programa de comércio e cooperação com os países menos
desenvolvidos. Tal programa fundava-se na ideia de que o sistema tradicional de
ajuda havia esgotado grande parte dos seus paradigmas e que em razão de sua
rigidez ideológica e mesmo operacional seria incapaz de responder aos desafios
do desenvolvimento (Vaz e Inoue 2007). Enfrentando ao mesmo tempo os problemas
da modernização e das múltiplas dimensões da pobreza, o País evita utilizar os
termos "doador" e "beneficiário", optando pelo conceito de "cooperação
horizontal" (Rowlands 2008).
A agricultura foi identificada como área prioritária de troca pelos governos
africanos e brasileiro2. O Brasil tornou-se uma potência agrícola e um
exportador de numerosas matérias-primas e bioenergia, e demonstrou grandes
avanços na implementação de políticas relevantes para a segurança alimentar.
Sua dualidade de modelos de agricultura - familiar e industrial de exportação -
permite o empreendimento de iniciativas de cooperação em ambos os segmentos do
setor. Pretende-se, assim, tratar das dinâmicas da cooperação Sul-Sul (CSS) que
se desenvolvem entre o Brasil e o continente africano no setor agrícola e
analisar a construção da política de cooperação e a influência da dualidade de
modelos de desenvolvimento rural e agrícola na formulação dos projetos. Tais
questões se inserem nos quadros teóricos consagrados à análise de fenômenos
contemporâneos de difusão, transposição e convergência de políticas públicas -
policy transfer studies(Delpeuch 2008). Porém, o foco recai sobre as etapas
iniciais das trajetórias de difusão, o processo de "padronização"
(standardisation).
A perspectiva brasileira de cooperação internacional
Cooperação estruturante e horizontal
A atuação internacional do Brasil no século 20 foi orientada por um conjunto de
ideias e valores que definem a "autonomia" como o principal objetivo e o
"desenvolvimento econômico" como meio de se atingi-lo (Pinheiro 2004). No fim
dos anos 1960, o governo brasileiro passou a articular a política externa às
políticas públicas, a fim de promover o desenvolvimento nacional. Na década
seguinte, iniciativas de cooperação visavam a fortalecer a imagem do País não
apenas na América Latina, mas também na África (Valler Filho 2007). Foi,
contudo, a partir dos anos 2000, com a presidência de Lula, que a política de
cooperação ganha notoriedade.
Como mencionado, o País optou por evitar termos como "doação" ou "ajuda" e
busca associar suas ações políticas à CSS. Tal discurso tem algumas de suas
bases na Conferência de Bandung (1955), e nos Planos de Ação de Buenos Aires
(1978) e de San José (1997), esforços que marcaram a ênfase na horizontalidade
das formas de cooperação e na substituição simbólica de expressões como
assistência técnica pela de cooperação técnica. A cooperação técnica é um dos
principais instrumentos das ações externas do Brasil, promovida como um meio de
favorecer a formação e o emprego da mão-de-obra local (ABC 2011). As linhas
diretivas da CSS são a autonomia nacional, a ação em resposta à demanda dos
países parceiros e a ausência de condicionalidades. A CSS baseia-se ainda na
ideia de que os conhecimentos produzidos pelos países em desenvolvimento são
mais facilmente adaptáveis aos contextos locais de outros países em
desenvolvimento do que aqueles transferidos pela cooperação com os parceiros
tradicionais (Norte-Sul). Ela é apresentada como um modelo relacional eficaz e
de menor custo (MRE/ABC 2009).
A estratégia de CSS adotada pelo Brasil foi batizada de cooperação
estruturante, que inova pela integração do desenvolvimento de recursos humanos
ao desenvolvimento organizacional e institucional e pela proposta de se
aproveitar das capacidades endógenas e dos recursos de cada país, afastando-se
do modelo tradicional de transferência passiva e unidirecional de conhecimentos
e tecnologias (Buss et al. 2010). Esta cooperação promove ainda uma abordagem
holística, em que as trocas comerciais e os investimentos são vistos como meios
legítimos e eficazes de desenvolvimento (Haibin 2010). Trata-se, no entanto, de
um modelo em construção, como reiterou o próprio presidente Lula (IPEA/ABC
2010).
Dessa forma, o Brasil atraiu a confiança e o reconhecimento do hemisfério Sul,
sem contudo empreender uma atitude hostil em relação ao Norte. Seu compromisso
em favor do multilateralismo lhe garante maior crédito como parceiro
internacional. Seu know-how na luta contra a fome e a pobreza lhe confere o
interesse por parte dos países em desenvolvimento. O País é considerado um
parceiro potencial para a cooperação triangular, uma vez que ele compartilha de
valores chave com alguns dos doadores tradicionais (no que tange à democracia e
aos direitos humanos) (Lopes 2008). Tal estratégia representa uma etapa na
definição de uma política externa afirmativa e multilateral, mas não
necessariamente terceiro-mundista (ibid.). Não se pode, entretanto, ignorar o
aspecto político da CSS - um de seus principais objetivos é a reforma da ordem
internacional e de seu sistema econômico (pelo fortalecimento das relações
bilaterais e formação de coalizões nos fóruns multilaterais) (Pino 2009).
O lugar da África na política externa brasileira
O período histórico atual é identificado por Hirst (2010) como a terceira onda
de interesse brasileiro pela África, tendo a eleição presidencial de Lula
marcado a mais recente inflexão dessa política. Tais relações se tornaram a
principal referência simbólica da estratégia de CSS e têm como fundamento uma
identidade de caráter histórico, racial e sociocultural. O discurso político
enfatiza a intenção de se liquidar uma dívida histórica, mas ele é também
motivado pela ampliação de prestígio, da influência e pela formação de
coalizões dos países do Sul (ibid.).
Apesar de tal convergência em termos de interesses, a política africana do
Brasil foi marcada por impulsos descontínuos. Nos anos 1960, a Política Externa
Independente defendia o não alinhamento automático e a luta contra o
subdesenvolvimento. Tal período representou a primeira onda de aproximação da
África, com a abertura de embaixadas em países independentes (Gana, Nigéria e
Senegal) e apoio político aos movimentos de libertação colonial (ibid.). Nova
estratégia é implementada durante a détente. O Brasil seguia o caminho de um
Pragmatismo Ecumênico e Responsável, fortalecendo suas relações com os países
comunistas e africanos, numa segunda onda mais bem coordenada e acompanhada de
uma ruptura da relação com Portugal.
No âmbito econômico, diversas empresas brasileiras se engajaram e, entre 1972 e
1981, a participação das transações comerciais com a África passou de 3% para
9% do volume total negociado pelo Brasil (ibid.). Impulso que perdeu força nos
anos 1980 e 1990. Os esforços concentravam-se sobre os países de língua
portuguesa, fenômeno fortalecido em 1996, com a criação da Comunidade de Países
de Língua Portuguesa (CPLP).
O governo Lula inaugurou a terceira onda de relações Brasil-África e a
cooperação técnica foi beneficiada por crescentes recursos financeiros.
Observou-se em 2009 um aumento de mais de 250% de iniciativas em relação a 2008
(ABC 2011), porém os dados de recursos efetivamente executados permanecem muito
imprecisos. A partir daí, as relações passam a se diversificar para além dos
países lusófonos. Ao todo, 17 embaixadas brasileiras foram abertas e o
presidente Lula realizou dez viagens ao continente (incluindo 23 países),
sempre acompanhado de representantes do setor privado. O Brasil inaugurou um
escritório antena da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em
Acra; uma fábrica de antirretrovirais ligada ao escritório da Fiocruz em
Maputo; fazendas de produção de algodão e de arroz no Mali e no Senegal; e
centros de formação profissional (Figura_1).

Houve intensificação não apenas do comércio exterior como da atuação das
empresas brasileiras (Figura_2). O nível do comércio com a África foi
multiplicado por seis, entre 2000 e 2008 (de US$ 4,2 bilhões a US$ 25,9
bilhões). E apesar de uma inflexão no ano de 2009, ligada à crise financeira
internacional (Ncube et al. 2011), o ano de 2010 foi marcado por uma tendência
crescente (US$ 20 bilhões) (AfDB et al. 2011). Vale notar que o Brasil é o
único país em desenvolvimento com o qual a África possui um importante
excedente comercial (ibid.). Além do Ministério das Relações Exteriores (MRE),
o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) possui um papel
fundamental para ampliar a presença do capital nacional na região. Em 2008, os
incentivos para as empresas brasileiras exportarem para a África (no âmbito do
Programa de Integração com a África) chegaram a R$ 477 milhões, passando a R$
649 milhões em 2009 (PDP 2010). Não há dados oficiais em relação aos
investimentos diretos (IED), porém estima-se em US$ 10 bilhões o montante em
2009 (Ncube e Vencatachellum 2011). E mesmo se tal valor corresponde a uma
pequena proporção dos IED brasileiros (6,3%), os investimentos aumentam desde
2000.
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De fato, a intensificação recente do engajamento brasileiro no continente
africano reflete em grande medida seu próprio modelo de crescimento, que
combina um setor privado dinâmico com o apoio do BNDES e outras instituições
públicas. O diálogo político, a cooperação técnica, os investimentos e o
comércio exterior representam dimensões complementares das relações Brasil-
África atuais.
Agricultura no centro da cooperação do Brasil com a África
O duplo modelo agrícola brasileiro: das disputas internas à coexistência
pacífica
O processo de modernização da agricultura brasileira se inicia nos anos 1950,
com a importação de meios mais avançados de produção. A formação do complexo
agroindustrial dependia de estímulos governamentais, principalmente
instrumentos de crédito rural e incentivos fiscais (Teixeira 2005). O papel do
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em suas
configurações institucionais anteriores, foi fundamental, e a criação da
Embrapa promoveu o desenvolvimento de tecnologias apropriadas a diferentes
regiões do País.
Se, de um ponto de vista econômico, a modernização da agricultura contribuiu
para o aumento da produtividade e das exportações, bem como para a integração
de diferentes regiões à economia nacional, de um ponto de vista socioambiental,
a utilização de insumos e equipamentos modernos agravou a degradação ambiental
e contribuiu para o crescimento do desemprego no meio rural (modernização
conservadora) (Teixeira 2005). O agronegócio foi responsável pela gestão
macroeconômica e pela balança de pagamentos durante a estagnação econômica da
década de 1980. Políticas de taxa de câmbio favoráveis às exportações, de
preços mínimos para os produtos agrícolas e de desenvolvimento tecnológicos
para o aumento da produtividade possibilitaram o crescimento da agricultura,
num ambiente macroeconômico interno e externo desfavorável.
Com o processo de abertura política e fim do regime militar, os movimentos
sociais e as entidades agrárias se articulam. Ocupações de terra reivindicando
reforma agrária, assim como manifestações demandando programas de crédito
diferenciados para os pequenos produtores, tornaram-se frequentes. A
agricultura familiar surge como "conceito-síntese" que caracteriza todo um
setor rural (Porto e Siqueira 1997), ganhando espaço no cenário político à
medida que o modelo da modernização conservadora falha em termos sociais
(Bianchini 2005). São criados o Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar (Pronaf) e o Ministério Extraordinário da Política
Fundiária - transformado em Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). O
Pronaf constituiu o primeiro programa governamental voltado para a agricultura
familiar, o que representou a legitimação do conceito pelo Estado brasileiro
(Schneider, 2003).
Diversos autores (Delgado 2010; Sabourin 2007; Schneider 2003) argumentam que a
articulação de atores sociais assim como seu reconhecimento pelo Estado deram
origem à concepção geral da presença de "duas agriculturas" que se autodefinem:
a agricultura capitalista patronal e uma pequena produção de subsistência, de
caráter camponês. A criação do MDA e a implementação do Pronaf apenas
cristalizaram essa representação. Tal percepção dicotômica do espaço agrário
brasileiro foi também legitimado pelas políticas públicas: o Plano Safra
garante recursos para a agricultura comercial em detrimento da agricultura
familiar, que é diretamente assistida pelo Pronaf. Não obstante, a polêmica
contamina o debate sobre uma política que seja adaptada à diversidade das
explorações familiares e de agricultores no Brasil.
Durante o governo Lula, o montante de recursos direcionados à agricultura
familiar mais que triplicou, assim como o número de agricultores se
beneficiando do crédito (Delgado 2010). Houve ainda um aprofundamento da
institucionalização dos mecanismos políticos, refletidos na adoção de
instrumentos jurídicos3. No entanto, a importância do agronegócio permanece
inalterada na economia e na política brasileiras, dado seu papel estratégico na
balança comercial. E, apesar das mudanças fundamentais da política externa, o
agronegócio continuou a determinar a agenda das negociações comerciais
internacionais (Machado 2009). Desde 2005, a política de exportações e as
negociações internacionais passam pela Secretaria Internacional do Mapa. A
criação de câmaras setoriais passou a reunir representantes do setor privado
para discutir políticas públicas para o agronegócio.
Nesse contexto, o governo Lula buscou aplicar uma estratégia de coexistência
pacífica entre os dois modelos agrícolas (Christoffoli 2007). Uma mudança
significativa no Pronaf ocorre com a implementação do Programa Mais Alimentos
(PMA), que surge com o objetivo de apoiar as grandes cooperativas bem como a
empresas agrícolas familiares. Outros programas também contribuem para a
integração das ações públicas, almejando-se a intersetorialidade, como, por
exemplo, o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA). O
PAA é coordenado por um grupo composto de diferentes ministérios e combina
mecanismos de apoio à produção e à comercialização, aplicando preços de
referência diferenciados para a agricultura familiar. Ele foca simultaneamente
múltiplas dimensões da cadeia agroalimentar. Por fim, a criação em 2003 do
Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) garante maior
visibilidade aos conflitos em torno das distintas demandas da agricultura
familiar e da agroindústria de exportação.
Interesse internacional nas políticas públicas brasileiras para o setor rural
O País teve um destacado aumento da produção agrícola nos últimos dez anos,
alcançado com baixos subsídios (5,7% da receita em 2005-2007) (The Economist
2010). As políticas adotadas no governo Lula tiveram um importante impacto
sobre os resultados de segurança alimentar, possibilitando atingir os Objetivos
de Desenvolvimento do Milênio (ODM) ligados ao tema cinco anos antes da data
limite (IPEA 2010).
A Embrapa foi protagonista de uma importante ruptura tecnológica, que
possibilitou a ampliação da fronteira agrícola para zonas anteriormente não
exploradas, além da intensificação da produção em áreas já produtivas. Tal
desempenho esteve ligado ao desenvolvimento de novas tecnologias e culturas
adaptadas aos diversos tipos de solo, à modernização de equipamentos agrícolas
e aos consequentes ganhos de produtividade.
No caso africano, vários países são importadores de alimentos e de energia.
Ainda assim, a agricultura permanece a principal fonte de empregos e receita de
exportação, representando 30% do PIB da África Subsaariana. Apesar de 60% da
população depender da agricultura, o setor é caracterizado por baixa
produtividade, fraca infraestrutura e pela falta de mão de obra qualificada
(BM/IPEA 2011). As questões de fertilidade dos solos e as penúrias de água
também contribuem para o fraco desempenho da agricultura (UA/NEPAD 2009a).
Em 2003, o Comprehensive Africa Agriculture Development Programme (CAADP) surge
como um arcabouço da União Africana (UA) para a articulação de iniciativas de
cooperação internacional e de investimentos. Se, até então, o foco era a
liberalização de mercados e o combate aos subsídios à exportação, o programa
passa a enfatizar as dimensões internas do desenvolvimento. Os investimentos e
as políticas públicas para agricultura retornam ao centro dos debates, após
anos de ajustes estruturais e desmantelamento do Estado. Nesse sentido, e numa
conjuntura de crise alimentar, os governos africanos e brasileiros
identificaram a agricultura como uma área prioritária de troca.
A nomeação de um brasileiro à direção da Organização das Nações Unidas para
Alimentação e Agricultura (FAO) significou um resultado importante da
estratégia brasileira de afirmação nas instituições internacionais e inaugurou
um debate sobre o papel da organização no apoio à formulação de políticas
públicas. Dessa forma, o potencial da cooperação brasileira em agricultura se
manifesta também em termos de troca de experiências na elaboração de políticas
públicas (Opera Mundi 2011).
O recente impulso da cooperação no setor agrícola está assim ligado às
expectativas internacionais, num contexto de crise alimentar e retorno da
agricultura ao centro do debate sobre desenvolvimento, e ao esforço assertivo
do Estado brasileiro na promoção internacional de sua experiência agrícola.
A pluralidade institucional da cooperação em Agricultura
Atualmente, o arcabouço institucional da cooperação é caracterizado por
segmentação e multipolaridade. No setor agrícola, além da Agência Brasileira de
Cooperação (ABC), diversas instituições participam: o Mapa, o MDA, o Ministério
de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o Ministério da Educação, a
Embrapa e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Além disso, estruturas
como o Consea, composto de representantes governamentais e pela sociedade
civil, acompanham as iniciativas. As universidades públicas estão da mesma
forma engajadas. E o diálogo entre as empresas e o setor público brasileiro no
que tange aos assuntos internacionais é expressivo. A política do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) de estímulo às missões e
ações do setor privado contribui para uma convergência de interesses (Hirst et
al. 2010).
A Embrapa tem papel singular nesse arranjo. Em 2008, cerca de 50% dos projetos
da ABC contavam com sua participação (Magalhães 2008). A Embrapa África almeja
disponibilizar aos países africanos tecnologias brasileiras, concentrando-se
nas parcerias com organizações internacionais, na resposta às demandas do setor
privado e às exigências do MRE. O escritório facilita as iniciativas dos
empresários africanos interessados pelas tecnologias brasileiras, da mesma
forma que as dos empresários brasileiros que buscam negócios na África. Assim,
a instituição contribui para os acordos firmados entre governos africanos e
brasileiro, consolidando seu papel de facilitador da política externa no setor
agrícola. A transferência tecnológica está também associada à criação de
mercados para as máquinas, insumos e equipamentos.
Há ainda uma preocupação em se implementar programas economicamente
estruturantes, capazes de envolver o setor privado africano e criar
oportunidades de negócios. Os estudos de viabilidade da produção de
biocombustíveis realizados pelo BNDES compreendem essa noção empresarial e
propõem a elaboração de business plans. A mesma perspectiva está presente em
projetos em Moçambique e no Mali. O engajamento do setor privado brasileiro é
promovido não apenas pelos créditos às exportações e pelas parcerias em solo
africano com a Embrapa, mas também pelos esforços do MRE. Portanto, ainda que a
cooperação brasileira seja essencialmente governamental, os atores privados têm
importante participação.
Por outro lado, a representação de atores da sociedade civil é relativamente
fraca, mas observam-se iniciativas pontuais no Fórum da Sociedade Civil dos
Países da CPLP. Uma rede dirigida pela Associação Brasileira de ONGs mobiliza-
se no sentido de construir um mecanismo de acompanhamento e avaliação da
cooperação. Outras iniciativas de cooperação descentralizada são também
identificadas (como, por exemplo, o programa de cooperação técnica
descentralizada Sul-Sul4).
A política externa brasileira é atualmente fruto de coalizões de interesse de
atores internos e internacionais, com capacidades variadas de influência. Nesse
contexto, alguns dos traços que caracterizam este período são a consolidação da
pluralização de atores e a politização da política externa (Hirst et al. 2010).
Os trabalhos sobre a circulação internacional de políticas públicas também
evidenciam a fragmentação do Estado. Tais atores infraestatais dispõem de
recursos assimétricos e não intervêm necessariamente em todas as etapas do
processo de transferência. Possuem, normalmente, autonomia para conduzir em seu
setor as atividades de cooperação internacional, em função de suas próprias
concepções do "interesse geral" (Slaughter 2002). Porém, uma categoria
particular de atores é central nesses estudos: aqueles que se mobilizam a favor
da generalização de uma política ou modelo. Eles efetuam um trabalho de
informação e persuasão de decisores político-administrativos. Ancelovici e
Jenson (2012) ressaltam a importância dos promotores políticos no processo de
conversão de ideias e de práticas locais em "modelos tipo", pelo que os autores
chamam de "padronização".
Até recentemente, a cooperação brasileira em agricultura passava quase que
exclusivamente pelas iniciativas da Embrapa de transferência de conhecimentos e
tecnologias que permitiram ao Brasil tornar-se um importante produtor e
exportador agrícola. Porém, com uma participação mais recente do MDA, e a
introdução de programas voltados à agricultura familiar no portfólio de
projetos, o conteúdo da cooperação se vê alterado. O Diálogo Brasil-África
também contribuiu para a afirmação do papel desse ministério (Cabral 2011).
A transferência de modelos de desenvolvimento: processo e implicações
Iniciativas selecionadas
De acordo com a ABC, os projetos estruturantes são concebidos a partir de uma
perspectiva de longo prazo, compreendendo instalações de capacitação e formação
profissional. Diante das assimetrias territoriais e econômicas entre o Brasil e
certos países africanos, e do interesse em se criar economias de escala, alguns
desses projetos passam a focar organizações regionais (Goes et al. 2010; BM/
IPEA 2011).
O Projeto Cotton Four, de US$ 5,2 milhões, visa a apoiar o desenvolvimento do
setor algodoeiro dos países Benim, Burkina Faso, Chade e Mali. No Senegal, um
projeto de US$ 2,4 milhões visa a apoiar o desenvolvimento nacional da
rizicultura. O projeto de apoio técnico ao desenvolvimento da inovação agrícola
em Moçambique é implementado desde 2010, por meio da cooperação trilateral, com
a Embrapa e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional
(USAID), num primeiro componente, e com a Agência de Cooperação Internacional
do Japão (JICA) no segundo.
Além dos projetos estruturantes, o Brasil executa iniciativas com ênfase, por
um lado, na capacitação para a pesquisa agrícola, e, por outro, nas políticas
públicas como de produção e distribuição de produtos agrícolas. Cumpre observar
que algumas das ações são também executadas em solo brasileiro. Esse é o caso
das iniciativas de formação de quadros africanos do setor agrícola, seja na
Embrapa Estudos e Capacitação ou na Universidade Afro-Luso-Brasileira (Unilab),
implantada na região semiárida do Nordeste do Brasil. Ademais, a Plataforma
Brazil-Africa Agricultural Innovation Marketplace visa a reunir experts
brasileiros e africanos em projetos agrícolas cooperativos num arranjo
trilateral em que US$ 3 milhões já foram investidos.
Por outro lado, o Programa de Aquisição de Alimentos África (PAA África) reúne
uma série de projetos-piloto de criação de mercados institucionais de
agricultura familiar em diferentes macrorregiões africanas. Esse programa é
implementado em colaboração com a FAO e o Programa Mundial de Alimentos (PMA).
O Programa Mais Alimentos África (MAF) constitui um programa de financiamento
facilitado para aquisição de máquinas e de equipamentos agrícolas brasileiros.
A Câmara de Comércio Exterior (Camex/MDIC) aprovou uma linha de crédito de US$
640 milhões para financiar as exportações (BM/IPEA 2011), que são acompanhadas
de atividades de cooperação técnica.
O setor privado agrícola passa a se beneficiar das similaridades geológicas e
climáticas entre o Brasil e a África. Uma iniciativa recente entre a empresa
brasileira Pinesso e sua parceira sudanesa, Agadi, é um exemplo de joint-
venture dedicada à produção de algodão e soja no Sudão. O BNDES também concede
recursos para a construção de uma usina de etanol em Angola.
Projeção internacional da política agrícola brasileira
Num contexto de intensificação da globalização e das trocas, nem a origem nem a
escala das ações coletivas e das políticas públicas são, como sublinham
Ancelovici e Jenson (2012), exclusivamente nacionais. No entanto, os mecanismos
que criam essas conexões e abrem as vias das transferências de práticas e
instituições para além das fronteiras nacionais são ainda imprecisos. A CSS
fundamenta-se, como já visto, nas similaridades dos parceiros, o que tornaria
mais simples ou potencialmente mais efetiva a adaptação das soluções
tecnológicas e políticas desenvolvidas. Não obstante, a escolha dessas soluções
está atrelada a um processo de legitimação no nível internacional e nas
administrações públicas dos países parceiros (ibid.).
O processo de "padronização" segue, segundo a abordagem de Ancelovici e Jenson
(2012), três mecanismos: certificação, descontextualização e formatação5,
focando a maneira pela qual ideias, práticas e inovações são identificadas no
seu meio por decisores, ONGs ou atores internacionais e, em seguida,
configurados em uma espécie de matriz que possa ser utilizada em outro
contexto. A primeira etapa de toda transferência internacional seria a
transformação das práticas locais em fórmulas destinadas à exportação. Esta é
considerada uma etapa relevante, uma vez que nem todas as ideias, práticas e
políticas tornam-se modelos tipo. A decisão de promover uma determinada norma
ou instituição em vez de outra depende de um processo político.
Tilly e Tarrow (2008) esclarecem que a certificação ocorre quando uma instância
exterior reconhece um ator político e suas reivindicações. Supõe-se, portanto,
que um ator dispõe de poder para certificar outros, mas pode também significar
a aquisição de legitimidade de um conjunto de práticas. No caso da cooperação
brasileira, o desempenho do setor agrícola brasileiro na última década é
manifestamente reconhecido, o que garante sua legitimidade internacional. Mas a
ofensiva política do governo Lula teve grande influência na certificação dos
programas e tecnologias brasileiros por atores internacionais, como o PNUD e a
FAO e os próprios governos africanos.
No entanto, o retrato das políticas brasileiras em agricultura constitui o
resultado de uma disputa histórica entre duas visões diferentes de
desenvolvimento. O governo Lula esforçou-se para criar um ambiente
institucional que comunique a ideia de coexistência pacífica entre esses dois
modelos, visão esta que será exportada ao continente africano. De acordo com
Cabral (2011), parece inevitável que as divergências das políticas públicas
tenham algum reflexo sobre a cooperação. Porém, a noção da conciliação ou da
coexistência pacífica entre os dois modelos agrícolas foi a escolhida para ser
transferida, em vez da dicotomia institucional historicamente característica da
agricultura brasileira. Esse projeto não reflete necessariamente a diversidade
dos debates políticos da sociedade brasileira, mas o debate assim como ele foi
recentemente institucionalizado.
O Programa ProSavana, por exemplo, busca promover a segurança alimentar - por
meio da organização e do aumento da produtividade da agricultura familiar - e a
produção de excedentes exportáveis - com apoio técnico ao agronegócio. Ele se
baseia numa estratégia dual de intervenção que apoia, num mesmo arcabouço
institucional e programático, os pequenos e médios agricultores, assim como os
produtores orientados para o agronegócio e mercados externos. Tal exemplo
representa um reflexo do esforço político de conciliação entre os diferentes
modelos.
O PAA África combina instrumentos de apoio à produção e à comercialização e se
concentra simultaneamente sobre as múltiplas dimensões da cadeia agroalimentar,
o que caracteriza a integração da agricultura familiar à lógica da
agroindústria. Em Moçambique, essa iniciativa foi ainda associada à melhoria da
infraestrutura de transporte (rodovias no Corredor de Nacala). O programa
garante a demanda e a distribuição dos produtos agrícolas dos grandes e
pequenos agricultores. O Programa MAF vai além das iniciativas pontuais de
capacitação para focar o apoio à formulação de políticas públicas e associa a
cooperação técnica a uma modalidade econômica. O projeto ainda vincula a
indústria de equipamentos e insumos agrícolas, bem como a assistência técnica
para a fase de produção.
De fato, o modelo de desenvolvimento rural e agrícola exportado não representa
um modelo estável no contexto brasileiro. Ele é base de múltiplas disputas por
políticas públicas, apoio financeiro e valor simbólico. Porém, nos últimos
anos, as iniciativas de cooperação passam a refletir esse modelo de apoio à
agricultura familiar que não reduziu a importância da agroindústria de
exportação. Esta mantém, assim, sua legitimidade no Brasil enquanto promotora
do desenvolvimento e garante sua permanência entre os grandes beneficiários das
políticas públicas. Cumpre lembrar que os primeiros projetos elaborados
baseavam-se na cooperação técnica para a promoção de um setor agrícola moderno
e passível de produzir excedentes exportáveis. Foi basicamente após a crise
alimentar de 2008 e a constatação dos resultados positivos dos programas
brasileiros que as iniciativas integrando a agricultura familiar ganham maior
espaço.
Essa popularidade dos programas brasileiros é atribuída tanto à sua
certificação por diversas organizações internacionais quanto aos esforços do
governo Lula para promovê-los como instrumentos de transferência e aprendizado
entre países do Sul. O Brasil mostrou que, graças à eficácia de suas políticas
públicas, foi possível atingir os ODM ligados à segurança alimentar antes da
data limite, o que seria uma constatação internacional de seu sucesso. Além
disso, a escolha de Graziano da Silva para a presidência da FAO atesta o
reconhecimento internacional dessas políticas, e principalmente dos países
africanos, que contribuíram amplamente para essa indicação.
Para tornarem-se objetos de transferência internacional, as políticas públicas
selecionadas e certificadas pelos atores internacionais passam por um processo
de descontextualização de suas condições de origem, o que exige um trabalho
político e cognitivo prévio (Ancelovici e Jenson 2012). Tal processo significa
um esforço de "deslocalização" de determinadas práticas, ideias ou instituições
de seus contextos sociais, culturais, econômicos, políticos e históricos. As
longas negociações, os estudos de viabilidade, a definição de zoneamentos
socioeconômicos e agroecológicos e os esforços de adaptação dos objetivos dos
programas aos objetivos dos planos nacionais e regionais africanos para
agricultura são algumas das iniciativas que contribuem para a transformação dos
programas brasileiros de desenvolvimento rural em arcabouços passíveis de serem
transferidos ao continente africano.
Os promotores políticos têm grande importância no processo de conversão das
ideias e práticas locais em modelos tipo, passíveis de serem difundidos. O
mecanismo de formatação se refere ao trabalho discursivo estratégico realizado
por esses atores para definir os problemas e simplificar as situações e
experiências, bem como propor soluções. Assim, os promotores da cooperação
brasileira formatam e apresentam as iniciativas selecionadas como instrumentos
de desenvolvimento rural e de redução da pobreza, e identificam os países
africanos como seus parceiros, em vez de beneficiários. Num momento histórico
de afirmação das políticas pós-neoliberais e de valorização da cooperação entre
os países do Sul, a adoção dos princípios utilizados pela diplomacia brasileira
(demand-driven, ausência de condicionalidades, respeito à autonomia, não
intervenção, colaboração horizontal) parece mais adequada que sua rejeição
(ibid.).
Vale notar que não se trata necessariamente de uma perspectiva racional ou
soberana da transposição de políticas públicas (Delpeuch 2008). No entanto, tal
abordagem proporciona uma elucidação interessante, ao apresentar as relações de
cooperação internacional não necessariamente como unidirecionais, mas baseadas
muitas vezes numa demanda ou em um "mercado político". Dessa forma, a
finalidade da transposição não é a reprodução fiel de um modelo, mas a
elaboração de maneira concertada de uma resposta a um problema político
específico.
Desafios da transferência de políticas públicas
As similaridades são a base dos discursos políticos referentes às relações
Brasil-África. Porém, como defende Cabral (2011), é credível que as
similaridades agroclimáticas, ao menos para alguns países africanos, facilitem
a troca de experiências na área agrícola. E a língua comum com os países
lusófonos também pode contribuir para acelerar essas trocas. Porém, a
proximidade e as similaridades entre o Brasil e a África são certas vezes
superestimadas, tendendo a não levar em conta a limitada influência dos
descendentes africanos nas instituições políticas brasileiras e a simplificar
as particularidades dos contextos africanos. Na verdade, apesar dos laços
históricos, a profundidade dos conhecimentos do Brasil sobre a África hoje é
questionável. E a construção da sua identidade nacional fundada no discurso da
mestiçagem, nutrindo a ideia de uma "democracia racial"6, representou um grande
desafio ao movimento racial brasileiro.
Cabral continua e discute a "transferibilidade" das dinâmicas Estadosociedade
civil, e - poderíamos acrescentar - das dinâmicas Estado-setor privado. O
estímulo proveniente do Estado ao engajamento desses atores é suficiente ou ela
depende de uma espontaneidade autóctone sobre a qual as relações de cooperação
governo a governo têm pouca influência? Para a autora, a ideia de que as
políticas públicas brasileiras podem ser facilmente transferíveis ao contexto
africano segue uma lógica técnica que não leva em conta a capacidade de
absorção dos países africanos assim como a trajetória social dessas políticas.
Cabe notar, entretanto, que uma série de medidas - como estudos de viabilidade
e os esforços de adaptação aos planos nacionais e regionais africanos -
contribuem para a adaptação às realidades locais, ainda que não estejamos em
condição de avaliar sua eficácia7.
Outras questões emergem no que diz respeito às experiências selecionadas para
serem difundidas. O desenvolvimento da região do Cerrado no Brasil, por
exemplo, é considerado por muitos como um grande sucesso em termos tecnológicos
e econômicos. Todavia, os movimentos sociais ressaltam seus problemas de ordem
socioambiental. O compartilhamento da experiência brasileira em biocombustíveis
representa outra iniciativa questionável no que concerne a adaptação. O setor
no Brasil contou historicamente com uma forte estratégia governamental de
estímulo, sólidos marcos regulatórios, sistemas de regulação de preços e
políticas de financiamento da produção. Assim, o possível desenvolvimento do
setor nos países africanos deverá levar em conta esses aspectos estruturais.
A Embrapa Moçambique caracteriza sua política de transferência tecnológica: o
foco são as instituições, assim como a comunidade científica local8. Outro
diplomata ressalta a existência de uma verdadeira transferência de
competências, em que os parceiros são capazes de posteriormente replicar os
conhecimentos, igualmente adquiridos num ambiente de carências e limitações9.
Para Westney (apud Delpeuch 2008), a transferência internacional de uma forma
organizacional, como no caso do fortalecimento institucional do Instituto de
Investigação em Agricultura de Moçambique (IIAM) pela Embrapa, comporta
necessariamente uma parte considerável de inovação, na medida em que a
integração do projeto ao seu ambiente de recepção deve suprimir, ajustar ou
renovar uma parte dos componentes do modelo.
Conclusão
Num primeiro momento, as práticas de cooperação em agricultura focavam a
capacitação e a transferência tecnológica, com vistas a aumentar a
produtividade, por meio da adaptação de soluções tecnológicas desenvolvidas no
Brasil em condições edafoclimáticas similares. Porém, mais recentemente elas
passaram a integrar a assistência para a formulação de soluções de ação
pública, como nos exemplos do PMA e PAA. Outra característica marcante dessas
iniciativas é a preocupação com a viabilidade e a sustentabilidade econômicas,
e, em certos casos, seu fundo claramente comercial. Portanto, transferência de
competências, difusão de políticas públicas e engajamento do setor privado são
aspectos marcantes das relações Brasil-África em agricultura.
O artigo mostrou que o mesmo ambiente institucional que define as políticas
brasileiras para agricultura é transferido ao continente africano por meio dos
projetos de cooperação. Os dois ministérios da agricultura contribuem para a
construção da agenda de cooperação internacional no setor, segundo sua missão
na agenda política interna e sob a lógica da conciliação entre agricultura
familiar e agroindústria. Eles contam também com a colaboração de outros
ministérios e agências. Além disso, as dinâmicas de parcerias público-privadas,
bastante presentes nas políticas agrícolas brasileiras, refletem a política de
cooperação, ainda que as relações Brasil-África pareçam muito dependentes dos
impulsos governamentais.
O trabalho buscou ainda analisar os processos e as implicações da circulação de
políticas públicas no nível internacional. A CSS baseia-se na ideia de que os
países parceiros estão bem posicionados para propor soluções inspiradas em suas
próprias experiências. Identificou-se uma lógica de transferência política e
técnica na formulação dos programas de cooperação em agricultura, que busca
legitimação tanto no nível internacional quanto bilateral. A finalidade da
transferência não é necessariamente a reprodução fiel dos modelos, mas a
elaboração concertada de uma resposta a um problema político específico. No
entanto, ela impõe alguns riscos, por causa dos problemas de adaptação, ao
mesmo tempo em que possibilita a produção de inovações endógenas, ainda que
essas inovações sejam até então mais promissoras que efetivas. Um potencial
inovador é verificado, por exemplo, na sua ênfase ao fortalecimento
institucional e à implementação de projetos conjuntos.
Como lembra Antoniazzi (2012), os dois lados do Atlântico enfrentam alguns
desafios similares, no que tange, por exemplo, à adaptação às mudanças
climáticas e à recuperação de terras degradadas. O Brasil e a África concentram
o potencial mundial de terras agricultáveis, das quais uma grande parte possui
vegetação natural. Por outro lado, uma grande extensão de terras degradadas tem
potencial agrícola. O aspecto tecnológico é fundamental para a recuperação e a
alocação dessas áreas, de maneira alternativa àquela do pacote da "modernização
conservadora". Estes são alguns dos exemplos em que os parceiros poderiam
promover uma cooperação de fato horizontal e nas quais a capacitação e a
promoção da inovação serão essenciais. Outros autores consideram que a própria
abordagem econômica da cooperação visando a garantir a criação local de
riquezas, segundo uma lógica semelhante àquela dos demais países, constitui em
si uma importante inovação da CSS (AT 2012).
Nesse contexto, os novos atores estatais e privados são passíveis de alterar
tanto os mecanismos e práticas do sistema de cooperação internacional para o
desenvolvimento quanto os processos de elaboração de políticas públicas
nacionais. As receitas de boa governança, formuladas pelas agências
tradicionais de cooperação, provavelmente virão a ser questionadas. No entanto,
interrogações permanecem quanto à direção a ser tomada pelo Brasil nesse
processo. Declarações reiteradas dos promotores de sua política de cooperação a
definem como um "modelo ainda em construção". Porém, visando a se consolidar
como liderança no Sul, o País deverá evitar o risco de reproduzir as fórmulas
verticais. Além disso, maiores esforços políticos e financeiros ainda serão
necessários para distinguir sua cooperação pelo nível técnico e operacional.