Crescimento econômico e desenvolvimento urbano: por que nossas cidades
continuam tão precárias?
O Brasil tem vivido nos últimos anos um ciclo de crescimento econômico sólido.
No período entre 1999 e 2009, o PIB cresceu a uma taxa anual de 3,27%, enquanto
a população ocupada aumentou a uma taxa anual de 2,29%1. Além de significativo,
este período foi marcado por uma mudança na condução da política econômica, que
teve como uma das estratégias a expansão do mercado interno, incorporando
parcelas maiores da população brasileira ao mercado, o que significou,
particularmente a partir de 2005, que as variáveis mais relevantes para o
crescimento passaram a ser o consumo interno e a formação bruta de capital
fixo2. No âmbito das políticas socioeconômicas foram também implementados
programas dirigidos à população mais miserável, com o objetivo de retirá-los do
nível de subsistência precário em que se encontravam, mediante programas de
transferência de renda (Bolsa Família) e um conjunto de políticas sociais
destinadas a aumentar as oportunidades de empreendedorismo e desenvolvimento
econômico3. Cabe também destacar a retomada do papel dos bancos e fundos
públicos na provisão de crédito e na alavancagem dos investimentos públicos e
privados, entre outros, por meio de programas como o PAC, Minha Casa, Minha
Vida e o fomento a outros setores econômicos específicos (por exemplo,
automóveis, construção naval etc.)4.
Do ponto de vista institucional, na década anterior, a partir de um intenso
debate no seio da sociedade civil, nos partidos e entre governos acerca do
papel dos cidadãos e suas organizações na gestão das cidades, foram anos de
avanços no campo do direito à moradia e direito à cidade, com a incorporação à
Constituição do país, em 1988, de um capítulo de política urbana estruturado em
torno da noção de função social da cidade e da propriedade, do reconhecimento
dos direitos de posse de milhões de moradores das favelas e periferias das
cidades do país e da incorporação direta dos cidadãos aos processos decisórios
sobre esta política5. Foi também no mesmo período que o processo de
descentralização federativa, fortalecimento e autonomia dos poderes locais,
propostos desde a Constituição de 1988, foram progressivamente implantados,
processo limitado tanto pelos constrangimentos do ajuste macroeconômico como
pela alta dose de continuidade política que o processo de redemocratização
brasileira envolveu6.
Sinais e reflexos do crescimento econômico são visíveis em localidades, cidades
e metrópoles brasileiras em várias regiões. A expansão e maior disponibilidade
de subsídios públicos ao crédito para a produção habitacional, associada ao
crescimento da economia, têm provocado um dos maiores ciclos de crescimento do
setor imobiliário nas cidades já vividos no país7. As dinâmicas econômicas
recentes têm desafiado as cidades a absorver esse crescimento, melhorando suas
condições de urbanização de modo a sustentá-lo do ponto de vista territorial.
Os desafios não são poucos, já que não se trata apenas de expandir a
infraestrutura das cidades para absorver um crescimento futuro, uma vez que a
base - financeira, política e de gestão - sobre a qual se constituiu o processo
de urbanização consolidou um modelo marcado por disparidades socioespaciais,
ineficiência e grande degradação ambiental8. Porém, apesar dos sucessos da
política econômica entre eles, um aumento espetacular do gasto público no setor
de desenvolvimento urbano - e as promessas da descentralização e do Estatuto
das Cidades, as marcas desse modelo continuam presentes em várias dimensões do
processo de urbanização.
Este ensaio busca discutir alguns dos limites e obstáculos que têm incidido
sobre a capacidade da rede urbana brasileira responder ao desafio de ampliar o
direito à moradia e à cidade para o conjunto de moradores e propiciar um
suporte adequado e sustentável para a expansão da produção e do consumo nas
cidades. Tendo como base os resultados preliminares do relatório das cidades no
Brasil (1990-2008)9, o artigo procura apontar relações entre a dinâmica
econômica recente e as condições de urbanização das cidades, levando em
consideração o modelo atual de financiamento e gestão do desenvolvimento urbano
no país.
ECONOMIA E DINÂMICA TERRITORIAL NO BRASIL CONTEMPORÂNEO: MUDANÇAS E
CONTINUIDADES
Foge do escopo deste artigo retomar, no plano teórico, a análise dos
entrelaçamentos entre o crescimento e dinamismo econômico e a produção e
reprodução do espaço urbano e regional. O papel das cidades e regiões no
processo de reestruturação produtivo-territorial e de globalização tem sido
tema, desde os anos de 1990, de uma literatura crescente, que recebeu
contribuições de vertentes como a chamada nova ortodoxia econômica espacial10 e
o "urbanismo industrial"11. No cenário brasileiro, a retomada do debate teórico
sobre as relações entre economia e território representa desafio ainda maior à
luz das disparidades socioespaciais, da diversidade, do tamanho do espaço
nacional e das características históricas do modelo de desenvolvimento
brasileiro12, exigindo um esforço intelectual para atualizar as contribuições
da economia política em relação à configuração do espaço brasileiro, a fim de
gerar uma compreensão contemporânea daquilo que Brandão denominou os espaços do
subdesenvolvimento13.
O escopo aqui será, portanto, mais modesto. Apresentamos alguns dados empíricos
recentes sobre a dinâmica econômica nas cidades brasileiras e, a partir disso,
geramos algumas hipóteses que precisam ser exploradas em pesquisas posteriores.
Argumentamos que algumas dessas hipóteses são instigantes e possibilitam um
diálogo com a literatura brasileira mais crítica, na qual se problematiza as
relações entre a economia e a trajetória das cidades e regiões em geral, e as
mudanças e continuidades no padrão de desenvolvimento regional e urbano em
particular. Isto é, ao longo do processo histórico de reestruturação
socioprodutiva e territorial que acompanhou os vários ciclos econômicos do
país, permanecem diversos desafios estruturais, principalmente os relacionados
com as disparidades socioespaciais que marcam o território brasileiro na escala
macrorregional e urbana.
A ESCALA MACRO REGIONAL
São bem conhecidas as diversas transformações que ocorreram ao longo dos ciclos
econômicos14, mostrando, por exemplo, as moldagens da dinâmica macroespacial e
da economia durante as várias etapas da historia brasileira. Assim, a economia
colonial agroexportadora, que se estruturou por meio das cidades-regiões de
arquipélagos-autarquias, umbilicalmente conectadas à matriz europeia15,
evoluiu, a partir da industrialização dos anos de 1930, para um espaço
nacional. Conforme Oliveira16 descreveu, no período pós-1950 este processo
desencadeou a transformação de uma configuração macroespacial de "economias
regionais nacionalmente localizadas" para "uma economia nacional regionalmente
localizada", crescentemente sob o comando hierárquico de São Paulo. Os laços de
complementaridade produtiva e de especialização inter-regional evoluíram de
acordo com um padrão no qual São Paulo exportava bens de maior valor agregado e
importava produtos intermediários e primários do território brasileiro17. A
fase marcou a consolidação de uma rede urbana mais densa, com efeitos de
encadeamento inter-regionais de maior amplitude. O período pós-1970 apresentou
uma desconcentração macroespacial da indústria para fora da região e do Estado
de São Paulo, tanto impulsionada pelas chamadas deseconomias de aglomeração,
como pelas políticas regionais explícitas do regime militar18. No pós-1990,
inspirado pelo cenário de reestruturação produtivo-territorial e de abertura
econômica sem políticas tecnológicas e industriais compensatórias, um conjunto
de autores19 levantou um debate em torno da tese da fragmentação do espaço
nacional. Na visão dos defensores da tese, algumas regiões dinâmicas
(principalmente as localizadas no Sudeste, Sul e, parcialmente, no Centro-
Oeste) estariam diretamente conectadas à economia internacional, enquanto os
antigos laços de complementaridade produtiva ente as regiões brasileiras, que
foram consolidadas durante o nacional-desenvolvimentismo, se desmanchariam
rapidamente. Os estudos recentes sobre o Programa de Aceleração de Crescimento
(PAC) argumentam que as políticas federais apenas reforçam esta tendência à
fragmentação do território nacional por meio da consolidação de arranjos
produtivos e polos exportadores especializados em segmentos como a mineração, a
siderurgia e o agro-bussiness20.
Ao mesmo tempo, encontramos continuidades na configuração macroespacial do
território brasileiro. Por exemplo, os estudos mais recentes do IBGE21 e do
Ministério do Planejamento22 sobre as chamadas centralidades urbano-regionais,
definidas em termos de um modelo de lugares centrais à la Christaller ampliado
- que leva em consideração a capacidade de polarização econômica, e a presença
de infraestrutura urbana, redes de telecomunicação e sedes governamentais
apontam para um quadro de continuidade de polarização a partir do Sudeste e do
Sul, que apenas gradualmente transborda para algumas novas centralidades em
territórios específicos do Centro-Oeste.
Os dados levantados no âmbito do relatório "O Estado das Cidades no Brasil"
para o período de 2002 a 2006 parecem confirmar este padrão. Classificamos os
municípios brasileiros em relação a PIB per capita e dinamismo do PIB per
capita23. Para as duas variáveis, definimos cinco extratos: muito baixo, baixo,
médio, alto e muito alto. Analisamos o comportamento de municípios que fogem
das situações médias, em quatro categorias de cidades: municípios com nível do
PIB per capita abaixo e com dinamismo econômico muito acima da média brasileira
(Mapa_1); municípios com nível do PIB per capita e dinamismo muito acima da
média brasileira (Mapa_2); municípios com nível do PIB per capita abaixo da
média brasileira, sem crescimento expressivo (Mapa_3); e municípios com um
nível do PIB per capita muito acima da média brasileira, e sem crescimento
expressivo (Mapa_4)24. As cidades com um PIB per capita muito acima da média
brasileira concentram-se na maior parte no Sudeste, Centro-Oeste e Sul. Já as
cidades com um nível do PIB per capita abaixo da média brasileira concentram-se
principalmente na Amazônia e na região semiárida nordestina.

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A leitura mais detalhada da dinâmica macrorregional de algumas cadeias
produtivas específicas, dando ênfase na classificação dos segmentos industriais
(entre bens de consumo duráveis, não duráveis e bens intermediários) e os
chamados serviços produtivos, isto é, aqueles que puxam a dinâmica das
economias locais, também aponta um quadro de polarização a partir do Sudeste,
do Sul e de uma parcela do Centro-Oeste. Os chamados setores dinâmicos (ou
básicos) exportam a sua produção (para outras cidades do país ou para o
exterior). Tipicamente, são setores como os serviços de apoio à produção
(serviços financeiros e logísticos, serviços de consultoria etc.) ou os bens de
consumo duráveis (máquinas e equipamentos, material de transporte etc.). Os
chamados setores não dinâmicos (ou não básicos), como os setores de
alimentação, bebidas, serviços pessoais, não exportam, mas apenas fornecem ao
mercado da própria cidade. Foram adotados aqui dois indicadores gerais: (1)
índices de especialização em termos do número de estabelecimentos25; (2)
índices de concentração em termos do número de estabelecimentos26. Esses
índices foram medidos segundo uma chave que classificou o grau de
especialização e concentração dos estabelecimentos de acordo com a
característica das cidades, utilizando tercis que definiram os níveis de
concentração como alto, médio ou baixo. Os mapas mostram que os segmentos
dinâmicos (os bens de consumo duráveis e os serviços produtivos) continuam
concentrados em um número muito pequeno de cidades do Sul e do Sudeste (Mapas_4
e 6). As cidades especializadas e concentradas no segmento de bens
intermediários localizam-se principalmente na Amazônia, Centro-Norte e Centro-
Oeste. Trata-se de cidades com vocação de fornecimento de matéria prima e/ou
insumos para a produção final (mineração, produtos químicos, papel, celulose,
petróleo etc.). Já as cidades especializadas e concentradas nos bens de consumo
não duráveis (bebidas, alimentação, serviços pessoais etc., ou seja, os
serviços que não são exportados) seguem a dinâmica populacional, ou seja,
instalam-se nos grandes centros urbanos mais próximo das regiões litorâneas
(Mapa_5).
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Essa configuração macroespacial das cadeias produtivas reforça hipóteses já
conhecidas que se referem aos limites da desconcentração espacial e à chamada
"desconcentração concentrada" do dinamismo econômico brasileiro27. Os dados
apontam também que, mais do que o porte populacional ou a situação na
hierarquia da rede urbana, a variável que mais incide sobre o dinamismo
econômico e as condições de desenvolvimento urbano do município é a própria
localização no território. Tanto em 1991 como em 2000, as melhores performances
estão claramente concentradas no Sudeste e no Sul, e nos municípios do Centro-
Oeste mais próximos ao Sudeste (Sul de Minas, Triângulo Mineiro e Sul de
Goiás).
RETRATO DA PRECARIEDADE: A INFRAESTUTURA DOS DOMICÍLIOS
Para a análise das condições de urbanização do país, construímos um indicador
suprasetorial replicável no tempo e disponível para todos os municípios
brasileiros, que pode ser lido como uma proxy das condições de urbanidade neles
presente28. Sinteticamente, a metodologia proposta procura dimensionar qual é o
percentual dos domicílios do município, em suas áreas urbanas e rurais, onde
existe infraestrutura básica, incluindo abastecimento de água, afastamento do
esgoto e lixo e presença de banheiro, existência de luz elétrica e localização
e densidade do domicílio29. Partindo-se do pressuposto de que uma política de
desenvolvimento urbano tem, entre outros, o objetivo de garantir condição de
urbanização totalmente adequada para cada um dos domicílios brasileiros,
consideramos como "adequado", de acordo com os dados disponíveis, o domicílio
que não apresentasse qualquer inadequação. Os critérios e indicadores
selecionados são apresentados na Tabela_1.
Após o processamento dos dados censitários, foram elaborados mapas e análises
quantitativas e comparativas sobre a adequação dos domicílios nos municípios,
analisando também separadamente os domicílios urbanos e rurais de cada um.
Também foram feitas projeções das variáveis, com base nos dados da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-IBGE) para 2006 e 2008, para subsidiar
a construção de hipóteses sobre as mudanças ocorridas na década de 2000,
antecipando-se aos resultados do censo 2010.
A leitura dos mapas e tabelas em 1991 revelou um país cujas cidades
apresentavam baixas condições de urbanidade, menos de 23% de domicílios
totalmente adequados e cerca de metade dos municípios com 0% de domicílios
totalmente adequados. Embora indicasse avanços, o retrato das condições de
urbanização em 2000 ainda permanecia preocupante. Apenas 33% dos domicílios do
Brasil eram totalmente adequados, 30,5 milhões de domicílios tinham alguma
inadequação e nenhum município apresentava 100% de seus domicílios plenamente
adequados. O município com melhores condições apresentava 87,2% de domicílios
totalmente adequados. A projeção de 2008 parece indicar avanços em ritmo apenas
ligeiramente mais intenso: a porcentagem de domicílios adequados cresce 10,26
pontos percentuais entre 91 e 2000 e 12,63 pontos no período subsequente.
Mais do que o porte populacional ou a posição na rede urbana30, a variável que
mais parece incidir sobre a condição de desenvolvimento urbano dos municípios é
a localização no território nacional. Tanto nos dados de 1991 como nos de 2000,
os melhores percentuais de adequação estão concentrados em São Paulo, Rio de
Janeiro, sul de Minas Gerais, Triângulo Mineiro e sul de Goiás. Em seguida, na
região Sul e em alguns pontos da franja atlântica do nordeste do país. Nesta
região a média de adequação dos municípios é quase duas vezes maior do que a
média brasileira. Se retirarmos os municípios deste grupo, a média de
domicílios adequados em 2000 cai de 33% para 19%.
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Mapas_7_e_8
Na comparação dos dados de 1991/2000/2008 entre as regiões, observa-se
variações positivas em todas as regiões. No entanto, as maiores variações
percentuais ocorreram nas regiões onde já havia melhores condições em 1991.
Embora esse quadro indique que na Amazônia, no Nordeste e no Centro Oeste os
percentuais de domicílios adequados tenham mais que dobrado no período, os
maiores avanços em pontos percentuais ainda se dão nos municípios inseridos em
regiões que já são as mais bem estruturadas. Por outro lado, vem ocorrendo um
espraiamento das melhores condições, conforme mostram os Mapas_9, 10, 11 e 12.
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Os municípios que em 1991 possuíam alta porcentagem de domicílios com apenas
uma inadequação constituíram a região que em 2000 tinha melhores condições de
urbanização (Mapa_11), sendo que os dados de 2000 mostram o espraiamento de
municípios nessa mesma situação rumo ao Sul e Centro-Oeste, sugerindo uma
provável continuidade desse processo na década seguinte (Mapa_12).
Tabela_3
A observação mais atenta desses indicadores revela, no entanto, que a
precariedade também está presente na região Sudeste, que tinha apenas metade de
seus domicílios totalmente adequados em 2000 e 65% na projeção de 2008.
Considerando que nesta região se encontram a maior parte das cidades mais
populosas, e 42,2% dos domicílios do país, isto nos dá a dimensão do peso do
contingente de domicílios sem urbanidade no seio da região mais próspera e
estruturada do país. A desigualdade socioespacial tem uma clara expressão
regional, mas tem também uma dimensão intra-urbana persistente no modelo de
desenvolvimento urbano do país.
A ESCALA INTRA-URBANA
A literatura sobre a produção capitalista das cidades em geral, e sobre a
relação entre o mercado e o urbano no caso brasileiro em particular, é vasta e
foge ao escopo deste trabalho recuperá-la. O modelo de exclusão territorial,
analisado pioneiramente por Kowarick31, aponta para um urbano dividido entre a
inserção nos circuitos avançados e globalizados de mercado para poucos e a
negação do direito à cidade para a maior parte dos moradores urbanos32.
Para os nossos objetivos, cabe destacar um eixo central desse debate: o
dinamismo dos circuitos econômicos não produziu cidades com urbanidade33. É
desnecessário dizer que o fenômeno não é novo; já Oliveira34, na sua crítica à
razão dualista cepalina, de um segmento atrasado que estaria dificultando o
avanço do moderno, ressaltava
que nas cidades brasileiras encontramos um imbricamento do arcaico e do
moderno. Em sua visão, o padrão de industrialização e urbanização no período
que se estende do pós-guerra até o milagre brasileiro produzia cidades nas
quais o nível do salário real do trabalhador não acompanhava o ritmo do
crescimento econômico35. Isso significa que a relação salarial não garantia nem
sequer os custos de reprodução da força de trabalho urbana em meio à pujança
econômica:
A produção ilegal das moradias e o urbanismo segregador são produtos
deste descompasso e das características do mercado imobiliário e
fundiário nas cidades - sobre cujos agentes não pesa nenhum
constrangimento antiespeculativo - e das características dos
investimentos públicos, que favorecem o mercado concentrado e
restrito36.
Considerando este pano de fundo conceitual, examinamos dados exploratórios
sobre a evolução da massa salarial por empregado e o crescimento do PIB per
capita no período de 2002 a 2006. Os Gráficos_1 e 2 mostram a evolução do
quociente das duas variáveis37. Nas cidades que apresentam um dinamismo muito
acima da média brasileira em termos do crescimento do PIB per capita no período
de 2002 a 2006, o crescimento da massa salarial por empregado não acompanha o
aumento do PIB per capita. Este resultado vale tanto para as cidades com um PIB
per capita (muito) abaixo ou (muito) acima da média brasileira.
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Já nas cidades com dinamismo igual ou aquém da média brasileira no referido
período, o crescimento da massa salarial consegue acompanhar melhor o dinamismo
do PIB per capita, já que não há o que distribuir (Gráfico_3).
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Esses dados são parciais e foram compostos por meio de fontes diferentes;
assim, é necessário certa cautela na formulação de hipóteses mais amplas38. De
qualquer forma, o descolamento entre a evolução da massa salarial por empregado
e o PIB per capita nas cidades dinâmicas sugere uma distribuição funcional da
renda, isto é, a entre salários, lucros e renda da terra, que favorece os
fatores de produção capital e terra, em detrimento do fator de trabalho. O
quadro remete à imagem da cidade patrimonialista descrita por Maricato39,
capturada por um ciclo vicioso de concentração de patrimônio, poder econômico e
poder político. Cabe lembrar - e ao contrário do que afirma a narrativa
mainstream40, que ainda interpreta o crescimento econômico local, a valorização
da terra e o desenvolvimento urbano como variáveis sinônimas - que, na ausência
de mecanismos compensatórios, o dinamismo econômico e a distribuição funcional
de renda distorcida compõem um coquetel perverso, tendendo a agravar a situação
do trabalhador pela exclusão socioespacial, alimentada pela valorização
especulativa da terra.
Para explorar melhor esta última hipótese, elaboramos dados que relacionam a
economia da cidade (conforme mensurada pelo nível do PIB per capita em 2002 e o
seu crescimento no período entre 2002 e 2006) e as condições de urbanização no
ano 2000, conforme evidenciado pela porcentagem de domicílios perfeitamente
adequados. No universo de 59 cidades do grupo de cidades muito dinâmicas, e com
um PIB per capita abaixo da média brasileira, por exemplo, o Gráfico_4 aponta
para baixas condições de urbanização: a maioria desses municípios tem menos de
um 10% dos domicílios perfeitamente adequados.
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No Gráfico_5 resumimos as condições de urbanização para o outro extremo do
substrato de cidades, isto é, as com um nível do PIB per capita e um dinamismo
acima da média brasileira. Percebemos que, das 225 cidades que pertencem a este
substrato, uma parcela substancial possui mais do que metade de seus domicílios
perfeitamente adequados. Ao mesmo tempo, chama atenção a grande dispersão das
condições de urbanização: mais de um terço das cidades "capitalizadas" em
termos do nível e do dinamismo do PIB per capita não apresenta sequer 20% dos
domicílios perfeitamente adequados.
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As informações nos Gráficos_4 e 5 apenas permitem a formulação de uma hipótese:
de acordo com a lógica da produção do espaço urbano e regional brasileiro, as
condições de urbanização são compradas no mercado, como veremos adiante. Mas,
num sistema de acumulação que não reproduz os custos da força de trabalho, e
com um Estado que apresenta capacidade de investimento em urbanização limitada
e quase inexistente regulação do mercado imobiliário e da terra urbana, o
mercado não acompanha o crescimento econômico da cidade, produzindo cidades sem
urbanidade.
POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO URBANO: CONTINUIDADES E TRANSFORMAÇÕES
A política nacional de desenvolvimento urbano foi estruturada nos anos de 1960/
1970 por meio da montagem de um sistema de financiamento de habitação e
saneamento. O governo federal arrecada e redistribui, mediante empréstimos, os
recursos da principal fonte de financiamento dessas políticas:o fundo destinado
a indenizar trabalhadores demitidos sem motivo, cuja arrecadação líquida é
designada para financiar programas de saneamento e habitação (Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço - FGTS). Na habitação, o modelo baseava-se no financiamento
da produção privada e de companhias públicas, incorporando posteriormente a
oferta de crédito bancário para o consumidor final41. Na política de
saneamento, o financiamento foi canalizado para companhias estaduais. Como o
sistema dependia do retorno do investimento ao fundo público, pago pelos
beneficiários finais através de tarifas dos serviços de saneamento e das
prestações da casa-própria, os sistemas expandiram-se mais nas regiões de maior
renda, onde o retorno financeiro dos investimentos era garantido42. Nem na
habitação nem no saneamento este modelo foi capaz de prover condições adequadas
de moradia para a maior parte da população, cuja renda não a habilitava para a
condição de "demanda" neste mercado de casas e infraestrutura. O modelo foi
estruturado para atender basicamente às regiões urbanas, e particularmente as
grandes cidades, onde havia mercado e escala de demanda para os produtos.
Paralelamente, o mesmo Estado regulou a produção e a expansão das cidades, por
meio de leis de parcelamento, zoneamentos e planos urbanísticos, delegando ao
loteador privado a missão de produzir terra urbanizada, com infraestrutura e
espaços públicos para a expansão da cidade43.
De acordo com este modelo, o mercado formal de urbanização produz,
privadamente, "cidade". Isto de fato ocorreu para as classes médias e altas;
para os demais brasileiros, no campo e nas cidades, restou uma inserção
precária e ambígua no território: sem condições básicas de urbanidade, com
vínculos frágeis com a terra que ocupam, vulneráveis a expulsões e remoções.
Nas cidades, o resultado foi uma urbanização sem infraestrutura básica, ora
pela omissão do poder local da tarefa de fiscalizar o mercado formal, que
frequentemente deixa os loteamentos sem infraestrutura, ora por sua
incapacidade de ofertar moradia e loteamentos adequados aos grupos de menor
renda, impulsionando um mercado privado paralelo de baixíssima qualidade
urbanística e habitacional.
Essa lógica impôs um padrão predatório que condenou as cidades como um todo a
um modelo insustentável do ponto de vista ambiental e econômico, já que impõe
perdas ambientais e externalidades negativas para seu conjunto muito difíceis
de recuperar. Em primeiro lugar, a espacialização da concentração das
oportunidades em um fragmento da cidade, e a ocupação extensiva de suas
periferias densas, precárias e cada vez mais distantes, impõe um padrão de
circulação e mobilidade dependente do transporte sobre pneus e, portanto, de
alto consumo energético e alto potencial poluidor. Por outro lado, a ocupação
das áreas frágeis ou estratégicas do ponto de vista ambiental - como são os
mananciais de abastecimento de água, os complexos dunares ou mangues - são
decorrentes da combinação de um padrão extensivo de crescimento por abertura de
novas fronteiras e da "expulsão" permanente da população mais pobre das áreas
ocupadas pelo mercado. Por fim, a engenharia urbana mecânica que procurou
transformar a cidade em máquina de produção e circulação tratou sua geografia
natural - como rios, vales inundáveis e encostas - como obstáculo a ser
superado, aterrando, terraplanando e caucionando as águas, num desenho que
procura minimizar as perdas territoriais para o mercado de solos.
Tanto para os segmentos empresariais como para os autoconstrutores do habitat
popular, a ação dos governos locais, investindo em urbanização ou regulando o
território, tem sido decisiva. Para o mercado formal de produção da cidade, a
relação com o aparato estatal se dá sobretudo por meio da produção e do
fornecimento de bens cujo demandatário é o próprio Estado - é o caso das
empreiteiras de obras públicas e de concessionários de serviços urbanos como
coleta de lixo, transporte, entre outros44. Ocorre também pelo estabelecimento
do marco regulatório das transações econômico-jurídicas neste mercado, nas leis
e nas normas que afetam a competitividade e a rentabilidade de seus produtos,
da política de tributação sobre os imóveis às normas de uso e ocupação do solo.
Nas cidades brasileiras, é forte a presença desses setores no encaminhamento
dos processos decisórios e na implementação de projetos e programas de
urbanização, garantindo seus mercados e uma rentabilidade mais segura para seus
investimentos45. Esta acontece com base no estabelecimento de conexões
privilegiadas com segmentos burocráticos de agências públicas, assim como pelo
controle político do Executivo e do Legislativo municipais.
Se para o mercado formal o Estado brasileiro tem sido o principal referencial
de indução ou obstaculização de expansão do setor, para os autoconstrutores do
habitat popular a ação do Estado é, também, central. Tal relação, igualmente
imersa em um terreno marcado pela ambiguidade, é estabelecida com base no grau
de tolerância por parte do aparato estatal em relação a ocupações e demais atos
de infração à legalidade instituída no marco jurídico e no grau de acesso aos
bens públicos - como infraestrutura e serviços urbanos - distribuídos pelo
Estado. A partir dos anos de 1990, governos, em todas as instâncias, começam a
investir em políticas de urbanização de assentamentos precários. Esse momento
coincidiu também com os processos de redemocratização do país, que pressionava
por uma resposta, principalmente por parte dos governos locais, às demandas
populares de consolidação e urbanização. A urbanização ex-post passa a ganhar
um espaço importante na agenda urbana, assim como nos processos político-
eleitorais em nível local, com reverbarções significativas em outras instâncias
de poder, como veremos na próxima seção.
No âmbito do mesmo processo político, a chamada "agenda de reforma urbana" foi
sendo formulada e institucionalizada mediante, principalmente, reformas no
ordenamento legal do país e processos de constituição de espaços de
participação popular, como conferências e conselhos46. Do ponto de vista da
gestão territorial, embora desde 2001 tenha sido aprovado um novo marco
regulatório - o Estatuto da Cidade -, que, em tese, dotaria os municípios de
maior poder sobre o processo de urbanização, as formas predominantes de
regulação parcelamento do solo e zoneamento - foram pouco modificadas, e o
pacto político territorial que permitiria a implementação da função social da
propriedade não ocorreu47. O mesmo podemos afirmar em relação às instâncias
participativas no campo do desenvolvimento urbano - mesmo quando
institucionalizadas não ganharam força e enraizamento a ponto de reverter o
sentido dos processos decisórios sobre o desenvolvimento urbano no país. Foge
do escopo deste artigo analisar os bloqueios que se antepuseram à implementação
dessa agenda, assim como as inovações e as formas de resistência que estas
propiciaram. Para efeito da hipótese que pretendemos apresentar, mais do que
uma suposta "vontade política" de implementar um plano diretor participativo ou
de fortalecer instâncias de participação, os governos carecem claramente de
incentivos para fazê-lo, já que, como veremos adiante, os processos decisórios
sobre os investimentos e o destino da cidade são, no atual modelo federativo e
sistema político brasileiros, estruturados sob outra lógica48.
No âmbito do governo federal, modificações importantes na política de habitação
ocorreram no governo Lula, com um aumento espetacular no volume de recursos
disponibilizados para o desenvolvimento urbano. Os dados sobre os repasses do
Orçamento Geral da União para estados e municípios revelaram um salto de quase
oito vezes entre 2001-2004 e 2005-2008. O crédito - especialmente para os
beneficiários finais - elevou-se mais de dez vezes49. Além disso, a combinação
de subsídios diretos ao beneficiário final com crédito mais acessível propiciou
um aumento da oferta de casas e apartamentos, incluindo extratos de renda que
se encontravam fora do mercado formal, sobretudo na faixa de 5 a 10 salários
mínimos de renda familiar mensal.
No entanto, estes recursos estão sendo disponibilizados para o tomador final ou
transferidos para os governos estaduais e locais sem que tenha ocorrido uma
mudança significativa nos processos de gestão e ordenamento do solo, como
ressaltamos anteriormente, assim como nas arenas decisórias sobre os
investimentos em desenvolvimento urbano, como veremos adiante.
FEDERALISMO À BRASILEIRA: ENTRE A DESCENTRALIZAÇÃO TUTELADA E O NEOLOCALISMO
COMPETITIVO
Nos anos de 1980, ao modelo centralizado da política de desenvolvimento urbano
estruturado no período autoritário, com o poder decisório sobre a destinação de
recursos concentrado sobretudo na esfera federal se contrapôs uma pauta
municipalista que ganhou espaço com a nova Constituição. Contudo, pode-se dizer
que na área de desenvolvimento urbano, diferentemente do que ocorreu em áreas
como a educação e a saúde, não houve uma reforma do Estado nem na direção de
uma descentralização autônoma, com municípios financiados por recursos
próprios, nem na estruturação de um sistema com uma clara hierarquização de
competências de gestão entre os níveis de governo financiado por fontes
estáveis e permanentes50.
O texto constitucional aumentou a participação dos municípios nas
transferências constitucionais, fortalecendo-os financeiramente e atuando de
forma redistributiva com a intenção de diminuir as desigualdades entre os
grandes municípios (com maior capacidade de arrecadação) e os pequenos (mais
dependentes de transferências)51. No entanto, mesmo com o aumento de recursos
advindos das transferências obrigatórias, como o Fundo de Participação dos
Municípios, as receitas municipais são insuficientes para produzir condições
adequadas de urbanização. A maior parte dos municípios depende de acesso a
crédito junto a bancos públicos ou de transferências voluntárias dos governos
estadual ou federal, caracterizando o que a literatura sobre federalismo no
Brasil denomina descentralização tutelada, ou seja, aquela que é feita por meio
de transferências negociadas caso a caso, mantendo uma frágil relação de
dependência entre a esfera local e a central, baseada em laços políticos,
técnicos ou institucionais que podem ser efêmeros52.
O principal fundo financiador do desenvolvimento urbano - o FGTS - tem em seu
Conselho Curador a principal arena para definição das diretrizes e dos
programas para alocação dos recursos. Este conta com uma representação de
empregados e empregadores, mas não possui representação de estados e
municípios. Em outras palavras, ainda que suas decisões sejam fundamentais para
o financiamento das políticas de desenvolvimento urbano dos governos locais, o
Conselho não é uma arena com representação federativa53.
Com receitas próprias limitadas, restam aos municípios o acesso ao crédito e as
chamadas transferências voluntárias. As transferências são efetuadas por meio
de convênios dos municípios com os governos estaduais e federal, estabelecidos
por processos de seleção conduzidos pelo Executivo (o chamado orçamento
programável) ou pelo Legislativo (as emendas parlamentares)54. A continuidade
do perfil das emendas individuais e seu papel no orçamento público ao longo de
mandatos presidenciais com agendas distintas demonstram, além da pouca
relevância para o centro da agenda, a alta funcionalidade política deste
mecanismo, que, com um baixo custo, pode, em conjunturas específicas,
apresentar rentabilidade elevada do ponto de vista da governabilidade55. Embora
envolvendo valores pequenos, a emenda individual "carimbada" pode ter impactos
positivos no sucesso eleitoral e sobrevivência política dos parlamentares. Se
do ponto de vista dos grandes objetivos da coalizão governante as emendas têm
pouca importância, é necessário ressaltar que no âmbito da competição política
no município, base fundamental para definir a reeleição de um parlamentar, este
mecanismo pode ser crucial.
Considerando as regras atuais de organização partidária e de competição
eleitoral, assim como os custos crescentes das campanhas eleitorais, os
parlamentares necessitam não apenas de mecanismos de acesso à distribuição de
recursos públicos, como também de alternativas de financiamento de suas
campanhas para garantir sua sobrevivência política. O controle de postos-chave
na máquina estatal em condições de interferir nas regras de contratação de
serviços e obras, assim como a garantia de um fluxo de recursos para alimentar
esta máquina podem responder a esta dupla função: de provocar possíveis
retornos eleitorais positivos por parte dos beneficiários diretos das obras e
serviços, e de recepção de possíveis prêmios por parte dos contratistas sob a
forma de contribuições para custear campanhas56. Não é por acaso que a área de
desenvolvimento urbano - hoje gerida pelo Ministério das Cidades - tem sido,
juntamente com a área da Saúde, a que mais recebe emendas por parte dos
congressistas.
O peso e a importância desses mecanismos para o modelo político eleitoral e o
chamado presidencialismo de coalizão ajudam a entender a proliferação de novos
municípios, a manutenção de estruturas locais precárias e pouco autônomas e a
dificuldade de estabelecimento de relações horizontais entre os entes
federados, mediante arranjos federativos colaborativos. No modelo de gestão
predominante, os municípios atuam de forma isolada; enquanto as relações
verticais entre União, estados e municípios se estruturaram para o
desenvolvimento das políticas de desenvolvimento urbano, as relações
horizontais, entre municípios, não se consolidam, e as formas de cooperação
intermunicipais são poucas e frágeis. Este tema é particularmente grave no caso
dos aglomerados urbanos e regiões metropolitanas que até hoje não encontraram
caminhos para constituir esferas possíveis de planejamento e gestão57.
Nesse sentido, os dados remetem ao debate crítico sobre o significado das
mudanças na organização territorial do Estado brasileiro que ocorreram no
período pós-1988. Alguns autores argumentam que emergiu um padrão neolocalista
e competitivo, com baixa capacidade endógena de colaboração interfederativa na
provisão de serviços territoriais de interesse comum. Fiori58, por exemplo,
afirma que, a maneira pela qual o processo de descentralização foi conduzido ao
longo dos anos de 1990 tornou as relações federativas cada vez mais
competitivas, culminando num cenário de guerras tributárias e desregulamentação
competitiva envolvendo estados e municípios. A supervalorização do câmbio e as
taxas de juro elevadas que acompanharam o Plano Real, reforçadas pela
liberalização do arcabouço institucional que norteava os investimentos e o
comércio, permitiram o ingresso maciço das cadeias produtivas e do capital
financeiro internacionais, montando a cena para o que o autor denominou, de
forma provocativa, a "federação emergente dos mercadores"59, ou, na
terminologia de Oliveira60, o leilão invertido envolvendo os entes federativos
e o setor privado61.
NOTAS FINAIS
Nas décadas de 1990 e 2000, observou-se uma melhora das condições de adequação
dos domicílios no país. No entanto, o modelo de política habitacional calcado
apenas no financiamento da compra de uma unidade nova - vigente desde os anos
do BNH - não atingiu uma parcela significativa da população,entre zero e três
salários mínimos de renda familiar mensal, onde se concentra mais de 90% do
déficit habitacional. População que não consegue acessar o mercado e, portanto,
não tem acesso à moradia adequada. Tampouco se equacionou a dimensão
urbanística deste modelo; a expansão urbana continua ocorrendo de forma
fragmentada e desestruturada, gerando um padrão precário de mobilidade, além de
grandes vulnerabilidades urbano-ambientais. Sem qualquer política associada de
fortalecimento da capacidade e do poder de gestão sobre o território e na
ausência de qualquer constrangimento em relação à transferência das mais valias
geradas coletivamente sobre o preço da terra, grande parte dos recursos,
inclusive dos subsídios públicos, é transferida sobre os preços dos terrenos,
provocando um espraiamento ainda maior das cidades e reiterando um processo de
exclusão para rendas mais baixas. Hoje, o mercado imobiliário, aquecido pela
enorme injeção de recursos para a produção habitacional por meio do Programa
Minha Casa Minha Vida (2009), afirma encontrar dificuldades para implementar
novas unidades, por falta de terrenos com infraestrutura adequada. Os
empreendedores cobram dos municípios a provisão de infraestrutura básica de
urbanização. O Estado, por sua vez, não está estruturado para desenvolver
políticas de produção de cidades ex-ante - é diminuta a capacidade de
financiamento local da urbanização - mesmo em contextos de grande dinâmica
econômica - e menor ainda as possibilidades de planejamento e gestão. A exceção
dos subsídios - já mencionados - para produção de casas, a maior parte dos
recursos injetados em urbanização na década de 2000 foram destinados a
programas de intervenção em assentamentos precários - procurando remediar as
precariedades produzidas pelo modelo em curso.
Além da concentração da precariedade em certos territórios e das disparidades
reveladas por alguns indicadores específicos, os indicadores apresentados aqui
expõem a necessidade de políticas desenhadas especificamente para certos
territórios. No entanto, as políticas brasileiras de provisão de condições de
urbanização e de desenvolvimento econômico apresentam padrões uniformes de
intervenções, dialogando pouco com as especificidades regionais, como por
exemplo, da Amazônia, com sua ocupação pouco adensada e seu meio ambiente
peculiar. Desde o BNH assistimos ao desenvolvimento de uma política sob um
único molde, realidade que não se modificou muito, apesar da introdução de
novos programas no setor da habitação.
Esta análise exploratória aponta também para a atualidade do debate que se
originou na economia política brasileira sobre os chamados espaços de
subdesenvolvimento. Isto é, na produção capitalista do espaço urbano e
regional, as cidades representam uma arena privilegiada no processo de
acumulação, mas os atores sociais tradicionalmente excluídos da sua função
social não têm conseguido se apropriar devidamente dos frutos do crescimento
econômico. Na ausência de mudanças estruturais na sociedade brasileira, que
articulam e mobilizam as cidades a partir de uma estratégia multiescalar
"subversiva"62, o crescimento econômico, a injeção em grande escala de recursos
financeiros dos fundos públicos e o fortalecimento do arcabouço jurídico e
institucional para nortear a gestão democrática e participativa dos espaços
locais representarão passos insuficientes para mudar de forma significativa o
rumo das cidades brasileiras.
RAQUEL ROLNIK é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo.
JEROEN KLINK é professor da Universidade Federal do ABC.
[1] Fonte: IBGE: Contas Nacionais (para o PIB - 1999-2009) e PNAD (para a
população ocupada - 1999-2009).
[2] Cf. Siqueira, Tagore V. de. "Competitividade sistêmica: desafios para o
desenvolvimento econômico brasileiro". Revista do BNDS, nº 31, jun., 2009, p.
141.
[3] Cf. Almeida, Maria Hermínia Tavares de. "A política social no governo
Lula". Novos Estudos Cebrap nº 70, 2004, pp. 7-17.
[4] Cf. Sant'Anna, André A., Borça Jr., Gilberto e Araújo, Pedro Q. "Mercado de
crédito no Brasil: evolução recente e o papel do BNDES (2004-2008)". Revista do
BNDES, nº 31, jun., 2009, pp. 43-8.
[5] Trata-se dos artigos 182 e 183 da Constituição, que constituem o capítulo
de Política Urbana e de sua regulamentação, por intermédio da Lei federal
11257/01 - o Estatuto da Cidade. Cf. Rolnik, Raquel. "Democracia no fio da
navalha:limites e possibilidades para a implementação de uma agenda de reforma
urbana no Brasil". Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, nº 11,
2010, pp. 31-50.
[6] Cf. Avritzer, L. "Modelos de deliberação democrática: uma análise do
orçamento participativo no Brasil". In: Boaventura, S. (org.). Democratizar a
democracia: os caminhos da democracia participativa. Rio de Janeiro:
Afrontamento, 2003; Alston, Lee e outros. "Who decides on
public expenditures? A political economy analisys of the budgtet process. The
case of Brasil". Economic and Social Study Series. São Paulo: Fipe/USP, 2005.
[7] Cf. Denaldi, Rosana e outros. "Nota técnica: infraestrutura e
desenvolvimento urbano". Brasília, 2010, mimeo.
[8] Cf. Rolnik, op. cit.
[9] O relatório "O Estado das Cidades no Brasil: 2000-2008" foi fruto de uma
proposição conjunta do Ministério das Cidades, Caixa Econômica Federal, Frente
Nacional dos Prefeitos, BID, UN-HabitatLAC e Cities Alliance, que teve o
Instituto Pólis como secretaria executiva e que mobilizou uma rede de
especialistas e instituições envolvidas na pesquisa e na produção de dados
sobre desenvolvimento urbano. Ver <www.relatoriodascidades.org.br>. Embora
utilize a base de dados do Relatório, este artigo expressa exclusivamente a
opinião de seus autores
[10] Cf. Krugman, Paul. Development, geography and economic theory. Cambridge,
Massachusetts: The MIT Press, 1996.
[11] Cf. Scott, Allen. Regions and the world economy. Nova York: Oxford
University Press, 1998; Storper, Michael. The regional world:
territorial development in a global economy. Nova York/Londres: The Guilford
Press, 1997.
[12] Definido como incompleto por autores como Sampaio JR., Plínio. "O impasse
da 'formação nacional'". In: Fiori, José Luís (org.). Estados e moedas no
desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999.
[13] Cf. Brandão, Carlos A. A dimensão espacial do subdesenvolvimento: uma
agenda para os estudos urbanos e regionais. Campinas, tese de livre-docência,
Unicamp, 2003.
[14] Cf. Furtado, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Editora
Nacional, 1991; Moreira, Ruy. "Uma nova regionalização para
pensar o Brasil?". In: Limonad, Ester, Haesbaert, Rogério e Moreira, Ruy
(orgs.). Brasil, século XXI. Por uma nova regionalização? Agentes, processos e
escalas. São Paulo: Max Limonad, 2004, pp. 123-35.
[15] Cf. Prado Jr., Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense,
1994.
[16] Oliveira. "Mudança na divisão inter-regional do trabalho no Brasil". In: A
economia da dependência imperfeita. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
[17] Cf. Cano, Wilson. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no
Brasil, 1930-1995. Campinas: Editora da Unicamp, 1998.
[18] Idem.
[19] Cf. Araújo. Ensaios sobre o desenvolvimento brasileiro: heranças e
urgências. Rio de Janeiro: Revan/Fase, 2000; Pacheco, Carlos
Américo. Fragmentação da nação. Campinas: Editora da Unicamp, 1998; Fernandes, Ana Cristina e Negreiros, Rovena. "Economic
developmentalism and change within the Brazilian urban system". Geoforum, nº
32, fev. 2001, pp 422-33.
[20] Cf. Leitão, Karina O. A dimensão territorial do Programa de Aceleração de
Crescimento. São Paulo: tese de doutorado, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP, 2009.
[21] Cf. Regiões de influencia das cidades. Rio de Janeiro: Ministério de
Planejamento, Orçamento e Gestão/IBGE, 2007.
[22] Cf. Estudo da dimensão territorial para o planejamento. Vol. 3: Regiões de
referência. Brasília: Ministério de Planejamento, 2008.
[23] Para uma metodologia semelhante, ver o diagnóstico que norteou o plano
nacional para o desenvolvimento regional (Araújo, Tânia Bacelar de e Galvão,
Carlos G. "Política nacional de desenvolvimento regional: uma proposta para
discussão". In: Limonad, Haesbaert, e Moreira (orgs.), op. cit.).
24] Neste Relatório, quando mencionamos municípios com PIB per capita ou
dinamismo econômico "(muito) alto", referimo-nos à agregação dos municípios nos
extratos "alto" e "muito alto". Da mesma forma, quando usamos o termo "(muito)
baixo", referimo-nos à agregação dos extratos "baixo" e "muito baixo".
Crescimento expressivo significa crescimento acima ou muito acima da média
brasileira (ou seja, são os municípios com um crescimento alto ou muito alto).
[25] No que se refere ao padrão de especialização utilizamos o quociente
locacional. O quociente locacional no setor x na cidade y expressa a
participação do setor x na economia da cidade y, de um lado, em relação à
participação do mesmo setor x numa economia de referência, como, por exemplo, a
economia brasileira. Definimos a existencia de especialização em determinado
setor nas cidades que têm um quociente locacional maior que: (a) bens de
consumo duraveis e bens intermediarios: 4; (b) serviços de produção e bens de
consumo não duráveis: 1,5. Utilizamos como fonte principal os dados da pesquisa
Rais-Caged para o período 2006.
[26] Complementamos o quociente locacional de especialização com um índice que
mede a concentração em termos de determinada variável (por exemplo, o número de
estabelecimentos) como a participação do setor x na cidade y no total do setor
x na economia de referência maior (por exemplo, a economia brasileira).
[27] Cf. Diniz, Campolina C. "Desenvolvimento poligonal no Brasil: nem
desconcentração, nem contínua polarização". Revista Nova Economia, nº 3, set.
1993, pp. 52-6.
[28] A metodologia de construção do indicador de adequação dos domicílios foi
desenvolvida originalmente em 1996 a partir de dados pesquisados na Pesquisa
Regional por Amostra de Domicílios, coordenada pela professora Neide Patarra e
depois aperfeiçoada para os dados do Censo Demográfico de 1991 e 2000 por
Aurílio Caiado, com o apoio do Nepo-Unicamp. A metodologia foi posteriormente
readequada para a pesquisa Regulação Urbanística e Solo Urbano para Habitação
de Interesse Social sob coordenação de Raquel Rolnik, com apoio da Fapesp e do
Lincoln Institute of Land Policy, em 2009, para o Estado de São Paulo. Durante
a elaboração do Relatório das Cidades , esta foi novamente revista em oficinas
com a rede de especialistas mobilizada pelo projeto Relatório e os dados
reprocessados pela equipe técnica do Nepo.
[29] Estes indicadores foram selecionados por estarem disponíveis nos Censos de
1991 e 2000, permitindo comparações, e por serem os únicos indicadores de
infraestrutura urbana disponíveis para a totalidade dos municípios brasileiros
com replicabilidade a cada dez anos e grande confiabilidade.
[30] Adotamos a Regic, do IBGE, já citada, para localizar o município na rede
urbana.
[31] Cf. Kowarick, L. F. F. "Viver em risco: sobre a vulnerabilidade no Brasil
urbano". Novos Estudos Cebrap, nº 63, 2002, pp. 103-41.
[32] Cf. Santos, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo, Hucitec, 1993; Rolnik. "Exclusão territorial e violência". São Paulo em
Perspectiva, vol. 13, nº 4, 1999, pp. 100-11.
[33] São, na terminologia de Milton Santos e Maria Silveira, as cidades
corporativas, nas quais ocorreu uma privatização do território (cf. Santos e
Silveira. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de
Janeiro/São Paulo: Record, 2006).
[34] Cf. Oliveira, F. de. Crítica à razão dualista. O Ornitorrinco. São Paulo:
Boitempo, 2003.
[35] Vale lembrar que o autor também destacou o papel ambivalente do salário
mínimo, que, como uma espécie de âncora geral na economia, acabou nivelando
para baixo os salários entre categorias (cf. Oliveira, op. cit., pp. 35-39).
[36] Maricato, Ermínia. Metropole na periferia do capitalismo:ilegalidade,
desigualdade e violência. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 43.
[37] Isto é, o valor negativo do quociente mostra o descompasso (em pontos
percentuais) entre o crescimento da massa salarial por empregado e do PIB per
capita.
[38] Cabem as ressalvas habituais em relação ao sistema Rais-Caged (cobre
apenas o setor formal, e depende das declarações dos próprios estabelecimentos
econômicos). Além disso, deduções conceituais que cabem ao PIB nacional não
devem ser automaticamente transferidas para o PIB dos municípios.
[39] Cf. Maricato. "O Ministério das Cidades e a política nacional de
desenvolvimento urbano". Políticas Sociais. Acompanhamento e Análise. Brasília:
Ipea, nº 12, fev. 2006, p. 211.
[40] Cf. O'Sulivan. Urban economics. Boston, MA/Homewood, IL: Irwin, 1993.
41] Cf. Arretche, Marta. Estado federativo e políticas sociais: determinantes
da descentralização. Rio de Janeiro/São Paulo: Renavan/Fapesp, 2000.
[42] Cf. "Flexibilização institucional da prestação de serviços de saneamento:
implicações e desafios. Brasília: MPO, 1995 (série Modernização do Setor
Saneamento).
[43] As regras para o parcelamento de solo foram instituídas em 1979 pela Lei
6766, definindo a responsabilidade do parcelador em dotar os loteamentos com
infraestrutura básica e áreas destinadas para a instalação de áreas verdes e
equipamentos públicos. Tais espaços são definidos sob a forma de percentuais da
área total da gleba.
[44] Cf. Marques, E. "Estado e empreiteiras II: permerabilidade e políticas
urbanas". Dados - Revista de Ciências. Sociais, vol. 46, nº 1, 2003, pp. 39-74.
[45] Cf. Ferreira, J. O mito da cidade global: o papel da ideologia na produção
do espaço urbano. São Paulo:Vozes/Editora da Unesp/Anpur, 2007, p. 221.
[46] Cf. Fernandes, Edesio. Direito urbanístico e política urbana no Brasil.
Belo Horizonte: Del Rey, 2001.
[47] O Estatuto requeria a implementação de Planos Diretores em todos os
municípios metropolitanos e com mais de 20 mil habitantes até 2006, que
deveriam ser elaborados de forma participativa e incluir os novos instrumentos
urbanísticos. Pesquisa coordenada pelo IPPUR/UFRJ e realizada por uma rede de
pesquisadores em todo o país constatou que estes, embora tenham sido
incorporados na maior parte dos PDS elaborados requerendo regulamentação
posterior para sua aplicação (o que não ocorreu), as regras de zoneamento e
parcelamento do solo tiveram sua lógica pouco alterada.
[48] Cf. Rolnick, "Democracia no fio da navalha", op. cit.
[49] Estes dados referem-se à analise dos contratos efetuados pela Caixa
Econômica Federal com os recursos do OGU no período entre 2001 e 2008,
analisados no âmbito do Relatório das Cidades.
[50] Cf. Almeida, M. H. T. de e Medici, André Cezar. Descentralização e
políticas sociais. São Paulo: Fundap, 1996; Arretche. "Federalismo e políticas
sociais no Brasil: problemas de coordenação e autonomia". Trabalho apresentado
no IV Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, Rio de Janeiro,
21-24 jul. 2004. No campo da habitação, a implementação de um sistema Nacional
de Habitação de Interesse Social, proposto a partir de iniciativa popular
protagonizada por movimentos de moradia ao Congresso Nacional, foi atropelada
pelo lançamento de um programa ambicioso de provisão de moradias Minha Casa
Minha Vida -, baseado no subsídio direto ao crédito para que familias comprem
produtos produzidos diretamente por construtoras privadas.
[51] Cf. Bremaeker, F. "Panorama da finanças municipais em 2005". Ibam - Série
Estudos Especiais, nº 184, 2006.
[52] Cf. Almeida e Medici, op. cit.
[53] Cf. Arretche. "Federalismo e relações intergovernamentais no Brasil: a
reforma de programas sociais". Dados - Revista de Ciências Sociais, vol. 45, nº
3, 2002, pp. 431-58.
[54] As emendas parlamentares são rubricas orçamentárias "carimbadas", ou seja,
com definição prévia não apenas do programa ou ação, mas também do local
preciso de sua destinação. Podem ser coletivas - de bancadas regionais ou
estaduais - e individuais. No caso das emendas individuais, normalmente é
prefixado um valor anual por parlamentar, o qual pode alocar em ações
finalísticas de qualquer setor.
[55] Cf. Pereira, C. e Mueller, B. "Comportamento estratégico em
presidencialismo de coalizão: as relações entre Executivo e Legislativo na
elaboração do orçamento brasileiro". Dados - Revista de Ciências Sociais, vo.
45, nº 2, 2002, pp. 265-301.
[56] Propositadamente aqui não nos referimos às práticas de corrupção, comuns
no país, quando percentuais dos recursos públicos envolvidos nas obras ou
serviços são desviados para pagar as "caixinhas"para funcionários da máquina
estatal ou políticos. Vários "escândalos" vieram à tona recentemente no país,
envolvendo tais práticas, inclusive - mas não exclusivamente - por meio de
emendas parlamentares. Não ressaltamos este ponto em nossa análise porque sua
denúncia nos levaria a supor que o problema central da democracia brasileira é
a ética. Sem menosprezar sua importância, parece-nos que a questão é mais
complexa.
[57] Cf. Ribeiro, L. C. Q (org.). Metrópoles: entre a coesão e a fragmentação,
a cooperação e o conflito. São Paulo;Rio de Janeiro: Fundação Perseu Abramo/
Fase, 2004.
[58] Cf. Fiori, José. L. "O federalismo diante do desafio da globalização". In:
Britto, Alvares R.B e Silva, Pedro L. B. (orgs.). A federação em perspectiva:
ensaios selecionados. São Paulo: Fundap, 1995.
[59] Ibidem, p. 36
[60] Cf. Oliveira. "A crise da federação: da oligarquia à globalização". In:
Britto e Silva (orgs.), op. cit., p. 58.
[61] Para uma discussão internacional sobre o surgimento de um regime de
organização territorial do Estado que é competitivo e neolocalista, ver
Brenner, Neil. New state spaces: urban governance and the rescaling of
statehood. Nova York: Oxford University Press, 2004.
[62] Cf. Randolph, Rainer. "Do planejamento colaborativo ao planejamento
'subversivo': reflexões sobre limitações e potencialidades de planos diretores
no Brasil". Scripta Nova, vol. 11, nº 17, ago. 2007, em <http://www.ub.es/
geocrit/sn/sn-24517.htm>