Redes de apoio social no Rio de Janeiro e em São Paulo
Os padrões de relação em que se inserem os indivíduos têm sido associados, na
literatura internacional e brasileira, aos mais variados fenômenos. O presente
artigo visa contribuir para o entendimento da importância das redes na
sociabilidade cotidiana dos indivíduos, analisando as redes de apoio social no
cotidiano, na busca de emprego e em crises de saúde no Rio de Janeiro e em São
Paulo em período recente1. Os resultados são originários de survey realizado
pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM-Cebrap) e pelo IUPERJ (atual IESP-
UERJ) em 2008, com 1.744 pessoas nas duas cidades. A amostra foi desenhada para
representar o conjunto da população, mas também os 40% mais pobres de cada
cidade.
O artigo dá continuidade a uma agenda de pesquisa preocupada em explorar o
papel das redes de relações sociais nas condições de vida em metrópoles,
particularmente entre os mais pobres2, seguindo debates presentes na literatura
internacional3. Em pesquisa anterior4, analisamos as redes pessoais de 209
indivíduos em situação de pobreza em sete diferentes locais na metrópole de São
Paulo, replicando posteriormente a pesquisa para outras 153 redes em Salvador5.
Trabalhando com as redes totais dos indivíduos, o estudo mostrou a centralidade
das redes na mediação do acesso a bens e serviços obtidos em mercados e fora
deles, como acesso a emprego, inclusive de melhor qualidade (emprego com
carteira assinada), obtenção de apoios e auxílios sociais, presença de maior ou
menor precariedade social e obtenção de rendimentos monetários.
O presente artigo testa de forma estatisticamente representativa os principais
elementos encontrados anteriormente, assim como discute os principais
condicionantes das redes, cruzando suas características com atributos dos
indivíduos, como idade, sexo, renda, escolaridade e status migratório.
O artigo é organizado em três seções, além desta introdução e da conclusão. Na
próxima seção, resenhamos brevemente a literatura sobre redes egocentradas. Em
seguida, apresentamos a metodologia da pesquisa e as principais características
e dinâmicas que cercam as redes, indicando a existência de padrões claros
referentes ao ciclo de vida dos indivíduos e aos grupos sociais aos quais
pertencem. Apesar disso, as redes apresentam grande heterogeneidade, inclusive
no interior de cada grupo social. A terceira seção explora essa heterogeneidade
desenvolvendo uma tipologia das redes, claramente associadas à presença de
localismo e homofilia, confirmando as hipóteses iniciais da pesquisa.
REDES SOCIAIS E SUAS CARACTERÍSTICAS
Esta seção apresenta elementos conceituais importantes, principalmente entre
redes pessoais e redes egocentradas, sem pretender resenhar a literatura do
tema6. As redes egocentradas representam um recorte analítico das redes
pessoais dos indivíduos. O seu estudo não parte de considerações ontológicas
individualistas sobre os padrões de relação, mas de uma restrição produzida
pelo método das redes de sociabilidade mais amplas. Conceitualmente, portanto,
redes egocentradas são redes pessoais, mas centradas no ego e com distância
máxima de um passo a partir dele.
O estudo de redes pessoais parte do conjunto de contatos de um dado indivíduo
em sua sociabilidade, incluindo vínculos diretos e indiretos (os amigos e os
amigos dos amigos, por exemplo), utilizando geradores de nomes e técnicas de
bola de neve7. A aplicação de tais métodos permite levantar redes grandes e que
circunscrevem situações sociais inteiras. Entretanto, as ferramentas e o método
empregados tornam extremamente difícil a aplicação desse tipo de pesquisa para
grandes grupos populacionais, mesmo através de técnicas de amostragem. Por essa
razão, esse tipo de investigação leva a desenhos de pesquisa baseados em
estudos de caso com escolha intencional, seguidos de saturação das situações
existentes para a análise da variação dos resultados. Como em todos os casos de
aplicação desse tipo de desenho, aprendemos muito sobre os detalhes das
situações e sobre os efeitos da combinação dos elementos envolvidos, mas a
capacidade de generalização dos padrões encontrados é menor.
Diferentemente, as redes egocentradas podem ser obtidas a partir de surveys,
gerando resultados estatisticamente significativos para grandes populações.
Nesse caso, os entrevistados são instados a listar os seus contatos imediatos
para dada ajuda, resolução de problema ou situação social, mas sem que se
descubra como esses contatos se desdobram em outros, localizados mais distantes
do ego. Pesquisas por amostragem regulares podem incluir esse tipo de
informação, possibilitando inclusive a realização de painéis sobre os contatos
presentes em dada sociedade, como no caso do General Social Survey norte-
americano, realizado regularmente desde 19728.
A despeito da relevância das redes egocentradas em diversas comparações
internacionais9, estamos de acordo com a crítica que Lonkilla10 endereça a
essas pesquisas: "Esses surveys não incluem dados sobre as interconexões entre
os alters e, nesse sentido, não permitem a análise da estrutura das redes
pessoais". Dado que uma parte importante dos elementos materiais e imateriais
circula nas redes a distâncias maiores que um passo, o estudo das redes
egocentradas desconsidera informações sobre muitas dimensões sociais, embora
permita maior generalidade nos resultados. Além disso, esse tipo de dado
permite entender melhor padrões de ajuda e reciprocidade em momentos de
necessidade que podem ocorrer de forma não mediada, por meio de vínculos
diretos. Assim, resultados obtidos através de redes egocentradas e aqueles
obtidos através de redes pessoais não são diretamente comparáveis, embora
certas tendências possam ser testadas.
Uma parte significativa dos elementos disponíveis para análise diz respeito a
atributos dos indivíduos presentes nas redes, além do seu tamanho, sendo a
homofilia uma das dimensões mais importantes. Homofilia é a característica de
uma relação que descreve a coincidência de atributos entre os indivíduos. Nesse
sentido, existem muitos tipos de homofilia, tantos quantos forem os atributos
considerados, por exemplo: relação homofílica de sexo é relação de pessoas do
mesmo sexo e relação racial homofílica é entre pessoas que se reconhecem como
pertencendo à mesma raça11. A homofilia é considerada importante, pois relações
entre indivíduos com atributos diferentes tendem a veicular mais frequentemente
informação e recursos materiais e imateriais não redundantes12.
Em termos específicos, podemos calcular o grau de homofilia presente em uma
rede com relação a certo atributo a partir da informação de cada díade,
considerando a proporção das relações presentes nessa rede que envolve díades
com atributos iguais. No entanto, na ausência de informações específicas sobre
os vários atributos dos indivíduos que compõem uma rede, podemos presumir as
características gerais de homofilia de uma rede utilizando outras informações
que estão usualmente associadas à presença de atributos similares nas díades,
como a presença de parentes e vizinhos - vínculos que muitas vezes tendem a ter
características próximas às do ego -, ou o localismo. O localismo diz respeito
à proporção da rede que habita próximo ao ego, sugerindo maior ou menor
circulação geográfica, assim como o pertencimento a esferas de sociabilidade
geograficamente distantes ou próximas.
Outra dimensão importante no entendimento das redes sociais é a multiplicidade.
Isso ocorre quando uma pessoa é citada por um ego como participando de mais de
uma de suas redes e/ou esferas de sociabilidade. Qual o sentido social dessa
multiplicidade? Pesquisas anteriores já mostraram que o comportamento
relacional múltiplo pode trazer vantagens para os indivíduos, pois facilita a
obtenção de informações, recursos e apoios de ambientes relacionais distintos
ao reduzir a homofilia de seus vínculos13. Entretanto, a multiplicidade em
redes egocentradas obtidas por survey não diz respeito a uma maior circulação
social do ego, mas às pessoas que participam de suas redes realizando múltiplas
tarefas, auxiliando em diferentes situações de ajuda cotidiana. Nesse caso,
portanto, a presença de multiplicidade tende a aumentar a redundância dos
contatos de um dado ego e aponta para uma maior unificação (ou menor
especialização) de suas redes temáticas. A existência de multiplicidade nesse
artigo, portanto, está associada a graus mais elevados de homofilia e acesso
mais restrito a redes diferentes que possam veicular novas informações e
recursos, embora nenhuma das dimensões das redes deva ser considerada
isoladamente.
Na literatura internacional que aborda comparativamente as redes egocentradas
em áreas urbanas, uma importante referência é o estudo de Fischer e Shavit14. A
partir de surveys realizados na Califórnia, EUA, nos anos 1970, e em Haifa,
Israel, nos anos 1980, os autores demonstraram que as redes egocentradas
encontradas nas duas regiões não diferem muito. Contudo, os israelenses
apresentam, em média, redes mais densas, mais baseadas em parentesco e mais
duradouras do que as norte-americanas. Grossetti15 replicou o estudo em
Toulouse, França, encontrando similaridades na densidade média das redes. Estas
foram explicadas a partir de uma suposta estabilidade das estruturas
relacionais em países industrializados, levando Grossetti a concluir que as
redes não são muito sensíveis a variações de contexto. O autor também discutiu
o papel do "capital relacional" no reforço de vários tipos de desigualdades,
uma vez que encontrou em Toulouse diferenças nas estruturas das redes -
considerando tamanho, densidade e homofilia - de acordo com diferentes grupos
educacionais. Esses resultados foram confirmados tanto pela pesquisa sobre
redes pessoais em São Paulo quanto pelas redes egocentradas discutidas neste
artigo.
Outra análise interessante, desta vez baseada em redes pessoais totais, é o
estudo de Lonkila,16 que analisou laços sociais no ambiente de trabalho como
fonte de apoio social, entre trabalhadores russos e finlandeses, comparando os
resultados com os obtidos por Ruan para a China17. Baseado em redes pessoais
obtidas em Helsinque em 2003 e São Petersburgo em 2000, o autor descobriu que o
passado socialista é ainda visível no papel central que colegas de trabalho
desempenham nas redes de apoio social na China e na Rússia, diferentemente da
Finlândia. O autor viu uma combinação complexa de tradições e experiências
soviéticas pós-soviéticas, no caso da Rússia, sublinhando, contudo, que "os
aspectos econômicos por si só dificilmente poderiam explicar as diferenças
observadas"18.
De maneira similar, Lee, Ruan e Lai19 contrastaram as influências socialista e
capitalista sobre redes egocentradas de apoio social em Pequim e Hong Kong,
ambas sociedades urbanas modernas com patrimônio cultural similar, mas com
diferentes estruturas econômicas e sociais. Os autores encontraram grandes
semelhanças nas redes egocentradas de Pequim e Hong Kong, explicadas pela
cultura chinesa em comum. Eles também destacaram os parentes próximos como a
mais importante fonte de apoio social nas duas cidades. Uma diferença
importante entre as cidades é a relevância muito maior da renda em Hong Kong do
que em Pequim: pessoas de baixa renda em Hong Kong muito provavelmente não têm
ninguém a quem recorrer para apoio social, ao contrário do observado em Pequim.
Como veremos, a renda é também uma clivagem importante para explicar as redes
pessoais e egocentradas no Brasil.
Bastani destacou outra dimensão importante nas redes de apoio social - a
família20. Ao analisar redes pessoais de classe média na Teerã pós-revolução
islâmica, Bastani mostra que homens e mulheres têm redes pessoais muito
similares no que se refere ao tamanho e à porcentagem de parentes na rede, mas
que diferem substancialmente na composição por sexo. Como observado em outros
estudos - e também no caso das redes em São Paulo -, pessoas mais educadas têm
redes maiores. Diferentemente de outros estudos, no entanto, os idosos têm
redes maiores, o que é explicado por Bastani como um efeito da estrutura da
família iraniana e pela maior permanência de filhos e irmãos nas redes, não
importando sua idade. Várias dessas dinâmicas são explicadas pelo contexto
social iraniano pós-revolucionário: devido às "restrições socioeconômicas
impostas pela sociedade em geral, família e parentesco são locais de encontro
onde a socialização dos jovens e do casamento são facilitadas"21. Além disso,
de maneira similar ao que temos encontrado nas cidades brasileiras, os laços
familiares são muito importantes para a alocação de recursos e para vários
tipos de apoio social ao longo da vida do indivíduo. A relevância da família é
também explicada pela população jovem e pela elevada taxa de fertilidade do
Irã.
A única pesquisa sobre cidades brasileiras realizada anteriormente sobre redes
egocentradas abordava especificamente as dimensões da homofilia e do localismo
entre os habitantes da favela Céu de Estrelas, no Recife22. Os autores
encontraram elevada homofilia, tanto de sexo quanto de idade e escolaridade, em
especial entre os indivíduos com idade e escolaridade mais altas. A pesquisa
indicou ainda um elevado localismo e forte presença de vizinhos e parentes nas
redes dos indivíduos.
De forma geral, a literatura indica que as melhores situações sociais estão
associadas a menores graus de homofilia. Essa associação se explica tanto
porque heterofilia gera maior acesso a diversas dimensões sociais quanto porque
aqueles em piores condições sociais tendem a dispor de menos recursos para
produzir e manter relações mais heterofílicas - manter vínculos tem custos, dos
mais variados tipos, emocionais e financeiros, por exemplo. A causalidade entre
tipos de sociabilidade/ redes e condições sociais é múltipla, pois ao longo de
suas trajetórias de vida os indivíduos constroem tanto suas redes quanto seus
atributos de forma lenta, paulatina e na maioria das vezes não intencional. O
nexo entre esses dois planos é dado por diferentes mecanismos relacionais23.
Redes e atributos são fortemente impactados por mecanismos que envolvem
recursos econômicos, processos educacionais e migratórios, a geografia urbana e
a segregação e os acúmulos de vantagens e desvantagens nas trajetórias de
vida24.
A grande maioria desses mecanismos é circular e tende a ser cumulativa
socialmente, impactando mais negativamente os indivíduos na razão direta de sua
pobreza. Em decorrência da ação conjunta desses mecanismos, indivíduos mais
pobres tendem a ter redes com maior homofilia, mais locais e mais recentes do
que indivíduos não pobres. Como os dados daquela pesquisa não eram
representativos para o conjunto da sociedade, ou mesmo para os indivíduos em
situação de pobreza, este artigo procura confirmar os resultados em condições
de representatividade estatística, mesmo considerando as diferenças entre redes
egocentradas e redes pessoais.
REDES EGOCENTRADAS DE APOIO SOCIAL
O survey de 2008 realizado no Rio de Janeiro e em São Paulo produziu uma ampla
gama de informações sobre condições gerais de vida e de acesso a diversas
políticas públicas. Foram entrevistadas 1.744 pessoas em pesquisa domiciliar,
sendo 801 em São Paulo e 943 no Rio de Janeiro, todas chefes ou cônjuges do
chefe do domicílio. A amostragem da pesquisa foi desenhada para ser
representativa do conjunto da população, mas também dos 40% mais pobres de cada
cidade, levando em conta as duas diferentes distribuições de renda.
Dentre os entrevistados, 45% eram homens e 55% mulheres. As idades variaram
entre 16 e 90 anos, embora a maioria dos entrevistados tivesse entre 30 e 50
anos (46%) e entre 21 e 30 anos (20%). Pouco mais da metade dos entrevistados
(55%) tinha renda familiar mensal igual ou inferior a R$ 950 (em valores de
junho de 2008 com base na PNAD 2006) - esse era o corte de renda que
aproximadamente separava os 40% mais pobres nas duas cidades - e 43% era
natural de estado da federação diferente daquele de moradia.
Neste artigo são explorados apenas os resultados relativos às redes
egocentradas de apoio social. Foram incluídas perguntas sobre as "relações que
você mantém com pessoas próximas - como amigos, parentes, vizinhos, colegas de
trabalho - e sobre como vocês se ajudam em algumas situações". Os entrevistados
foram instados a responder sobre relações ligadas a ajudas:
■ no dia a dia, emprestando mantimentos ou ferramentas, cuidando de
seus filhos, etc.;
■ dando dicas de emprego, informações sobre vagas, recomendações ou
emprestando dinheiro, no caso de perda de emprego;
■ auxiliando em problema grave de saúde em sua família, ou em
situação de morte ou gravidez, transportando para hospital, marcando
consultas ou ajudando financeiramente.
Para cada uma dessas perguntas, os entrevistados podiam responder até dez
nomes, indicando atributos desses contatos: a) tipo da relação (parente, amigo,
vizinho, colega de trabalho, igreja ou associação, conhecido ou ex-patrão); b)
se mora ou não no mesmo bairro.
Características gerais das redes
As redes egocentradas de apoio são obviamente muito menores do que as redes
totais, pelo próprio método de coleta das informações. Enquanto as redes
pessoais levantadas em São Paulo apresentavam médias de 53 nós para os
indivíduos pobres e 94 nós para indivíduos de classe média, no caso das redes
egocentradas de apoio os indivíduos listaram em média 5,2 pessoas, sendo que em
média 1,2 pessoa foi incluída em mais de uma rede, sugerindo 3,9 indivíduos
como relação de apoio direto para cada entrevistado. A rede de apoio no caso de
saúde tende a ser a maior, com 2,3 nós em média, seguida pela de cotidiano com
1,8 pessoa e a de emprego com 1,2 nó. Os tamanhos das três redes de ajuda são
altamente correlacionados entre si, embora haja variações: indivíduos com
grande rede de apoio em uma das situações tendem a ter redes grandes também nos
demais tipos de ajuda. Isso indica que a sociabilidade e os atributos de cada
indivíduo são os principais influenciadores das redes, e não a especificidade
das ajudas. As redes de apoio social tendem a ser muito locais: 86% dos
indivíduos são do próprio bairro, sendo a rede de ajudas no cotidiano a mais
local (93%) e a de emprego a menos local (80%).
A homofilia de sexo (proporção de pessoas em uma dada rede que é do mesmo sexo
do ego) é de 59%, em média, mas é maior entre as mulheres (65%, contra 53% no
caso das redes de homens), repetindo resultado já obtido no caso das redes
pessoais em São Paulo. O localismo das redes de homens e mulheres é
praticamente idêntico, mas as redes de emprego dos homens tendem a ser um pouco
mais locais do que as das mulheres.
Ainda em termos médios, as redes eram compostas principalmente de parentes
(57%), seguidos de vizinhos (24%) e de amigos (13%), indicando concentração em
vínculos homofílicos. Colegas e patrões aparecem em patamar muito inferior, com
2%. Essa participação, entretanto, varia muito entre as três redes de apoio. A
composição das redes egocentradas para solução de questões de saúde é
concentrada em parentes (72%), seguidos por vizinhos (11%), colegas (6%) e
amigos (4%). As redes para ajuda cotidiana são baseadas em parentes e vizinhos
(39% e 36%), com os amigos representando 8%. As redes mobilizadas para obtenção
de emprego têm uma distribuição muito mais equânime, com parentes e amigos
contribuindo com 24% e 21%, respectivamente, e vizinhos, patrões e colegas em
um patamar mais baixo - 10%, 4% e 3%, respectivamente.
Informações referentes à obtenção de fato do emprego confirmam essas
distribuições e, embora 29% dos entrevistados sustentem ter conseguido o
emprego atual sozinhos, 27% dos entrevistados afirmaram que o obtiveram por
intermédio de amigos, 16% por parentes, 6% por conhecidos e 4% por vizinhos.
Concursos, ex-patrões, agências de empregos e anúncios variados respondiam a
menos de 4%. O papel das relações sociais é, portanto, evidente. Resultados
similares foram obtidos nas redes pessoais em São Paulo, onde 66% dos
entrevistados obtiveram seu emprego por meio de redes, assim como em
Guimarães25, que encontrou um percentual ainda mais elevado de obtenção de
empregos através de redes, 80% entre os indivíduos que procuravam emprego em
agências.
Mas como as redes variam segundo atributos sociais? O restante desta seção
explora a associação entre as redes egocentradas, atributos e processos
sociais.
Ciclo de vida
Comecemos a análise pelo ciclo de vida ilustrado pelo Gráfico_1, a seguir. Na
verdade, trata-se de um exercício analítico, visto que não temos as redes dos
indivíduos ao longo de suas vidas, mas as redes de indivíduos diversos em
diferentes pontos do ciclo de vida.

A composição dessas três curvas (linha pontilhada) nos dá o total de vínculos,
que aumenta até os 40 anos para cair lentamente até os 60 e intensamente a
partir de então. O total de vínculos únicos (linha contínua preta) tende a se
elevar até os 30 anos, se estabilizar até os 60, para cair intensamente a
partir de então. Em ambos os casos os dados indicam a expansão das redes com a
entrada na vida adulta e a sua retração com o envelhecimento, padrão que é
condizente com a literatura que associa tamanho das redes e ciclo de vida26. A
diferença entre essas duas curvas indica a presença de vínculos múltiplos, ou
seja, o fato de que um mesmo indivíduo é mobilizado para ajudar em mais de uma
situação social. Como podemos ver, a diferença entre as duas curvas começa
alta, mas se reduz paulatinamente em todas as faixas de idades. Isso indica que
o ciclo de vida acarreta uma especialização das redes, aumentando gradativa mas
continuamente a fragmentação das redes (ou rompendo a sua unificação). Se na
juventude isso é contrabalançado pela elevação da atividade relacional, com o
envelhecimento leva a um recolhimento relacional.
As três outras curvas do gráfico referem-se às redes temáticas. A rede de saúde
se mantém relativamente constante em todas as faixas, com apenas uma pequena
elevação próxima entre os 50 e 60 anos e uma leve queda depois dos 70 anos. A
rede de emprego aumenta até os 40 anos acompanhando a entrada dos indivíduos no
mercado de trabalho, para depois declinar. Vale notar como a redução das redes
de emprego ocorre precocemente, inclusive considerando as idades típicas médias
das aposentadorias no país. O mesmo tipo de dinâmica ocorre com a rede do
cotidiano, mas a queda ocorre com menor intensidade e se inicia depois dos 60
anos. Observam-se, portanto, a trajetória de inserção social crescente e mais
ampla na transição para a fase adulta, e a de crescente isolamento no caso dos
mais velhos.
Essa interpretação é reforçada pela dinâmica do localismo. As redes de jovens
com menos de 20 anos tendem a ser substancialmente locais (em média, 91% dos
indivíduos presentes na rede dos jovens residem no mesmo bairro), mas a
presença de indivíduos de fora do bairro aumenta a partir dos 20 anos e o
localismo cai lentamente ao longo do ciclo da vida, chegando a 84% nas pessoas
com 71 anos ou mais. Vale ressaltar que essa queda é explicada principalmente
pela queda das redes de cotidiano e de emprego, que passam de 98% para 88% e de
86% para 77%, respectivamente, entre o início e o fim do ciclo.
Mas como muda a composição relativa das redes ao longo das faixas etárias? A
literatura sugere que a presença elevada de familiares e vizinhos, assim como
redes mais locais e com mais alta multiplicidade, tende a ter padrões de
vínculo mais homofílicos. O Gráfico_2, a seguir, apresenta essa informação.
[/img/revistas/nec/n90/06g2.jpg]
Como podemos ver, a presença de parentes nas redes é sempre elevada, mas é
maior nas primeiras idades, caindo à medida que o indivíduo entra na
maturidade, e se elevando novamente a partir dos 60 anos. Os vínculos com
amigos crescem relativamente até os 50 anos de idade, para cair a partir de
então. E os vínculos com vizinhos, que se mantêm relativamente constantes até
os 50 anos, crescem até os 60 anos (contrabalançando em parte a queda dos
amigos), mas voltam a cair após essa idade. A combinação dos movimentos das
três curvas reforça as dinâmicas já destacadas - amadurecimento, com a redução
da família e o crescimento do papel dos amigos, e envelhecimento, com a redução
dos amigos e dos vizinhos e o retorno da família. Isso é coincidente com o
descrito pela literatura27, assim como com as dinâmicas observadas nas redes
pessoais em São Paulo.
Todos esses resultados tendem ser similares para o Rio de Janeiro e para São
Paulo.
Renda e escolaridade
Além dessas dinâmicas gerais, no entanto, grupos sociais distintos tendem a ter
redes diferentes. De fato, as redes de indivíduos com rendas familiares mensais
inferiores a R$ 950 têm em média 3,7 vínculos contra 4,2 vínculos dos
indivíduos com rendas mais altas, especialmente pelo menor tamanho das redes de
apoio para emprego e saúde. A distribuição da escolaridade segue a mesma
tendência.
Um resultado similar é encontrado se abrimos as faixas de renda, embora com
algumas nuances, como se pode ver no Gráfico_3. O tamanho das três redes de
apoio tende a aumentar entre as faixas de renda muito baixa e média, mas entre
as rendas mais elevadas o tamanho das redes e os vínculos únicos, apenas os
vínculos únicos, caem levemente. A principal tendência com relação aos vínculos
múltiplos é de manutenção, com pequena redução na faixa de renda mais elevada.
O comportamento dessas curvas pode indicar dois processos sociais distintos mas
combinados. Por um lado, a constituição e a manutenção de vínculos envolvem
custos emocionais, operacionais e financeiros28, e por isso indivíduos muito
pobres têm mais dificuldade de manter redes de apoio maiores. Por outro lado,
entre as últimas faixas de renda, uma parcela substancial de bens e serviços é
obtida de forma mercantilizada, não dependendo da constituição e manutenção de
redes de apoio extensas. Isso é reforçado pela pequena importância relativa das
ajudas cotidianas, assim como pela queda, nas rendas mais altas, do peso
relativo da vizinhança, como veremos mais adiante. A rede de apoio que tende a
variar menos entre grupos de renda é a relacionada à saúde, reforçando a
estabilidade observada anteriormente. Embora para os grupos de maior rendimento
os serviços de saúde em si tendam a ser obtidos através do mercado, uma série
de auxílios mobilizados em crises de saúde é prestada por apoio social em todos
os grupos, como levar ou acompanhar doentes aos serviços de saúde ou ajudá-los
posteriormente, em casa.
[/img/revistas/nec/n90/06g3.jpg]
Os grupos sociais também variam substancialmente no que diz respeito ao
localismo de suas redes. Como se pode ver no Gráfico_4, o localismo sobe
levemente nas primeiras faixas de renda (o que talvez se deva apenas à variação
amostral, considerando o tamanho dos grupos), mas a partir daí decresce
continuamente. Esse decréscimo tem maior intensidade nas redes de emprego, que
apresentam os mais baixos níveis de localismo dentre todas as redes. As redes
de cotidiano, ao contrário, são sem dúvida alguma as mais locais para todos os
grupos, o que é condizente inclusive com o tipo de auxílio prestado, geralmente
porta a porta. Nesse caso também se verifica uma elevação no início das faixas
de rendimento (que pode se dever à variação amostral) e depois uma queda, mas
de proporções muito inferiores à das demais curvas. No caso da saúde, a queda
se acentua a partir das faixas intermediárias de rendimentos, o que talvez se
deva à mercantilização das ajudas nas faixas mais elevadas. Resultados muito
similares são obtidos com escolaridade, indicando que grupos sociais mais bem
posicionados tendem a ter redes menos locais, resultado já encontrado para as
redes pessoais em São Paulo.
[/img/revistas/nec/n90/06g4.jpg]
O Gráfico_5 explora as diferenças de composição das redes por faixas de
rendimento, comparando as duas faixas de renda polares29. Como podemos ver, a
participação de parentes nas redes de apoio é elevada em ambas as faixas,
embora seja um pouco menor acima de três salários mínimos. A presença de
vizinhos acompanha a tendência e declina com a renda. A participação dos
amigos, ao contrário, cresce bastante com a renda. Como sabemos, é possível
sustentar a menor homofilia e o menor localismo das relações de amizade, quando
comparadas com a família e a vizinhança. Assim, esses dados reforçam a mais
ampla integração relacional de grupos sociais mais bem posicionados, mesmo para
redes egocentradas de ajuda, repetindo os resultados das redes pessoais de São
Paulo. Resultados similares são obtidos com a escolaridade, assim como
desagregando as cidades.
[/img/revistas/nec/n90/06g5.jpg]
A associação entre as características das redes e a maior ou menor integração
social é comprovada pelos processos de migração. Entre os migrantes, e os
migrantes nordestinos em particular, as redes tendem a ser menores, tanto nos
vínculos totais quanto considerando apenas vínculos únicos. Isso é explicado
por migrantes terem menores redes do cotidiano e do emprego, além de contarem
com menor presença de vínculos múltiplos, sugerindo redes de ajuda mais
segmentadas. Suas redes são mais centradas em vizinhos e a presença de patrões
é maior (embora também apresentem pequena dimensão absoluta). Os dados não
mostraram efeitos significativos do tempo de migração, sugerindo pequena
importância para os processos de assimilação dos migrantes.
Por fim, não há diferenças significativas por sexo. As mulheres têm redes de
cotidiano e de saúde maiores do que os homens, mas não há diferenças
significativas nos totais, tanto incluindo vínculos repetidos quanto
considerando apenas vínculos únicos. As redes masculinas, por outro lado,
tendem a ter mais amigos, menos vizinhos e menos patrões (apesar da pequena
proporção destes). Não há diferenças sensíveis referentes a sexo quanto ao
localismo. Essa relativa indiferenciação já havia sido encontrada nas redes
pessoais estudadas em São Paulo e em estudos com dados do Social General Survey
norte-americano31.
TIPOS DE REDES EGOCENTRADAS E ATRIBUTOS INDIVIDUAIS
Por fim, considerando a grande variabilidade encontrada, decidimos classificar
as redes, de modo a explorar conjuntamente todas as dimensões discutidas. Essa
estratégia explicita como as redes variam e quais as principais clivagens que
as diferenciam.
A partir das evidências apresentadas anteriormente com relação à variação entre
as redes de pobres e não pobres (renda familiar média inferior e superior a R$
950, respectivamente), decidimos proceder a uma classificação por análise de
agrupamentos para cada um dos dois grupos32. A análise de agrupamentos
considerou nove variáveis das redes de cada um dos entrevistados: total de
vínculos, total de vínculos únicos, multiplicidade, proporções de parentes,
vizinhos e amigos, além do localismo médio. O universo da análise incluiu 1.630
casos, sendo 816 não pobres, 814 pobres e 114 desconsiderados por apresentar
problemas com alguma das variáveis. A análise resultou em quatro grupos para
indivíduos pobres e cinco para não pobres33. A classificação foi realizada
separadamente para cada grupo para permitir a obtenção de resultados
específicos por grupo. A observação dos indicadores por tipo de rede,
entretanto, sugeriu que a maior parte dos tipos de redes aparece tanto entre
pobres quanto entre não pobres, enquanto apenas um tipo é específico dos não
pobres. Esse resultado é muito importante, pois sugere que os mesmos princípios
organizam internamente cada grupo, apesar de as redes e os atributos
apresentarem obviamente valores absolutos diferentes.
Os tipos de redes são descritos a seguir, indicando a sua incidência por grupo
social. Uma tabela ao final do artigo apresenta os indicadores médios por tipo.
Redes grandes, com amigos e baixo localismo
Esse tipo de rede está presente apenas entre os indivíduos não pobres (67
casos). São redes com tamanho muito grande (6,1 nós), principalmente pela
presença de redes maiores na saúde (3,2 nós, as maiores redes de saúde, em
média) e no emprego (2,2 nós, as maiores dentre os tipos), e multiplicidade
média (1,0). Observa-se elevada presença relativa de amigos (28%) e baixa
presença de vizinhos (12%). Esse tipo de rede tem as menores proporções de
indivíduos do próprio bairro, em especial no emprego - apenas 16% - e na saúde
- 38%. Os indivíduos com essas redes têm a mais elevada renda per capita média
entre os analisados (R$ 1.413), assim como a melhor escolaridade34. A idade
média no grupo é de 44 anos e as mulheres se encontram sobrerrepresentadas
nesse tipo de rede.
Redes grandes a médias, com amigos e elevado localismo
Esse tipo de rede se encontra tanto entre indivíduos pobres (148 casos) quanto
entre não pobres (170 casos). O tamanho das redes é grande (4,9 nós), mas
inferior ao do tipo anterior e a multiplicidade é similar à do tipo anterior
(cerca de 1,0). Vale reportar que esse tipo apresenta redes de emprego muito
grandes entre pobres e não pobres: 1,9 nó. A participação relativa mais
importante é dos amigos - cerca de 47% das redes de pobres e não pobres
classificados neste tipo são compostos desse tipo de vínculo, percentual mais
elevado entre todos os tipos -, sendo a presença de parentes (34%) e de
vizinhos (14%) muito inferior às suas médias no conjunto dos entrevistados. O
localismo é elevado, variando entre 83% e 95% dos vínculos. Os indivíduos com
esse tipo de rede apresentam a mais baixa idade média (39 anos entre os pobres
e 40 entre os não pobres). Tanto com relação à renda como à escolaridade, esse
tipo de rede delimita indivíduos médios no interior de cada grupo social. Os
homens se encontram sobrerrepresentados nesse tipo de rede, tanto entre os
pobres quanto entre os não pobres.
Redes médias a pequenas, principalmente de ajuda cotidiana, com vizinhos e
localismo
Esse tipo de rede também se mostra presente entre pobres (212 casos) e não
pobres (213 casos). O tipo reúne redes entre médias (as dos não pobres, com
média de 4,2 nós) e entre médias e pequenas (as dos pobres, com média de 3,8
nós), com multiplicidade muito elevada (as mais elevadas entre os casos
estudados, 1,5 e 1,3 para pobres e não pobres, respectivamente). O tamanho das
redes é explicado principalmente pelas grandes redes de cotidiano (as maiores
dentre as estudadas, com 2,1 e 2,2 nós para pobres e não pobres,
respectivamente). O tipo de participante mais presente são os vizinhos, com
entre 68% e 65% dos vínculos, enquanto os parentes estão presentes com 26% e
28%, respectivamente, o que corresponde a quase a metade da proporção média nos
casos estudados. O localismo, por fim, é bastante elevado em termos médios,
variando entre 81% e 98%. As pessoas com esse tipo de rede têm rendas baixas -
de R$ 213 e R$ 870 entre pobres e não pobres, assim como idades médias
relativamente altas - entre 45 e 49 anos, dentre pobres e não pobres. A
escolaridade entre os pobres é a mais baixa dentre todos os desse grupo, sendo
a segunda pior dentre os não pobres.
Redes pequenas, principalmente de saúde, com parentes e localismo
Esse tipo de rede egocentrada novamente se faz presente tanto entre pobres (371
casos) quanto entre não pobres (341 casos). Trata-se do tipo de rede mais
frequente. O tamanho é pequeno - 3,6 nós entre os pobres e 4 nós entre os não
pobres - e a multiplicidade é alta - 1,2 nó. Apesar de pequenas, essas redes
incluem as maiores redes de saúde, em média, ao mesmo tempo que as redes de
emprego e cotidiano estão, ao contrário, dentre as menores. Essas redes são
baseadas quase exclusivamente em parentes - 86% para não pobres e 85% para
pobres -, sendo amigos e vizinhos pouco presentes (3% e 4% de amigos e 8% e 7%
de vizinhos). O localismo é o mais alto dentre todos os tipos de redes,
variando entre 92% e 99% entre tipos de redes de apoio. Os rendimentos médios
desse tipo são os mais baixos, tanto entre pobres quanto entre não pobres. O
mesmo se verifica com a escolaridade, sugerindo que quem tem esse tipo de rede
tem situação social relativamente pior, independente do grupo social. Isso
reforça a associação entre as piores condições sociais, elevada homofilia e
localismo.
Redes pequenas, com parentes, e baixo localismo
Esse tipo de rede caracteriza 83 casos entre os pobres e 46 entre os não
pobres. Reúne redes pequenas - 3,7 nós entre os pobres e 2,6 entre os não
pobres, em especial pelas pequenas redes de emprego e cotidiano. As redes
apresentam baixa multiplicidade (1 nó entre os pobres e 0,5 entre os não
pobres, em média) e alta presença de parentes, embora inferior à do tipo
anterior - 79% entre não pobres e 86% entre pobres. Mas a principal diferença
com o grupo anterior está no localismo, que nesse caso é baixo, variando de 17%
para o emprego entre os não pobres (e 19% entre os pobres) a 64% para o
cotidiano entre os pobres (e 50% entre os não pobres), todos muito inferiores
às médias dos casos estudados. Os indivíduos com redes desse tipo têm renda
média de R$ 248 entre os pobres e R$ 955 entre os não pobres, a renda média
mais elevada dentre os pobres e a segunda mais alta entre os não pobres. As
distribuições de escolaridade também são relativamente altas (a melhor dentre
os pobres).
A Tabela_1 sintetiza as informações anteriores, reordenando os tipos não mais
em ordem decrescente de tamanho, mas em ordem decrescente de rendimento
familiar per capita médio. Esse procedimento explicita os elementos que
organizam a variabilidade das redes, tanto para pobres quanto para não pobres.
Como podemos ver, as melhores condições sociais referentes a renda,
escolaridade e emprego estão associadas a baixo localismo. Em ambos os casos
também estão sub-representados vizinhos, sendo que entre os não pobres estão
sobrerrepresentados os amigos e entre os pobres os parentes. Nesse último caso,
a alta presença relativa de parentes pode se dever ao pequeno tamanho das
redes. O tamanho das redes, entretanto, parece não fazer muita diferença em si.
As piores condições, no entanto, estão associadas a localismo e predominância
de vizinhos, elementos associados potencialmente a maior homofilia.
Os indivíduos com melhores condições, tanto entre pobres quanto entre não
pobres, dispõem de todos os tipos de redes de apoio, mas, se nos dirigimos às
piores condições, quase desaparecem as redes de apoio para emprego (tanto causa
quanto consequência das piores condições). A rede de apoio de saúde parece ser
o tipo de rede de apoio mínima, presente mesmo nas piores situações, e que
acaba por sobressair entre os indivíduos com piores condições de renda e
escolaridade, tanto pobres quanto não pobres.
Pode-se imaginar que essa associação entre redes e atributos tende a produzir
circularidades negativas que certamente contribuem para reproduzir as
desigualdades sociais e a pobreza, mesmo entre os mais pobres, confirmando
resultados das redes pessoais em São Paulo.
CONCLUSÃO
Os resultados indicaram que, embora as redes egocentradas de apoio social
tendam a ser muito menores e menos complexas do que as redes pessoais totais,
elas variam segundo os mesmos princípios.
As redes tendem a crescer até a idade adulta e a diminuir durante a velhice, em
especial as redes de apoio para obtenção de emprego. Quanto à composição, as
redes de jovens e de idosos tendem a apresentar maior presença relativa de
parentes. Por outro lado, a presença de vizinhos e, principalmente de amigos,
cai após os 60 anos de idade. Pode-se dizer, portanto, que tanto jovens quanto
idosos apresentam redes com graus mais elevados de homofilia. Essa dinâmica
etária, entretanto, se superpõe a outras. Uma das mais importantes está ligada
a diferentes grupos sociais, pois mecanismos relacionais facilitam a construção
e a manutenção de vínculos no caso de grupos sociais mais bem posicionados. De
forma geral, quando comparadas com as redes de indivíduos de menor renda, as
redes de pessoas de maior renda tendem a ser maiores, menos locais e mais
baseadas em amigos, em prejuízo da família e dos vizinhos. Esses resultados
confirmam homofilia mais elevada entre indivíduos mais pobres, o que certamente
gera importantes consequências referentes à reprodução das desigualdades.
A tipologia desenvolvida confirmou a existência de intensa heterogeneidade
interna a cada grupo social. Entretanto, os resultados demonstraram a
existência de tipos similares de redes entre pobres e não pobres, apesar das
evidentes diferenças de atributos sociais, o que sugere a operação dos mesmos
mecanismos relacionais entre pobres e não pobres. No interior de cada grupo, os
indivíduos mais bem posicionados socialmente tendem a contar com redes
potencialmente menos homofílicas, menos locais e menos baseadas em vizinhos e
em familiares, assim como em apoios cotidianos. Essa associação entre homofilia
e piores condições sociais contribui provavelmente para circularidades,
perpetuando as desigualdades de oportunidades relacionais e de atributos
sociais.
EDUARDO MARQUES é professor livre-docente do Departamento de Ciência Política
da USP e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole do Cebrap (CEM/Cebrap).
RENATA BICHIR é doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ e pesquisadora do
Centro de Estudos da Metrópole do Cebrap (CEM/Cebrap).
[1] Como não foram encontradas diferenças significativas entre as redes
egocentradas de apoio social nas duas cidades, a maior parte das análises
agrupa as duas, salvo quando há indicações contrárias.
[2] Marques, Eduardo. Redes sociais, pobreza e segregação em São Paulo. São
Paulo: Ed. Unesp/CEM, 2010.
[3] Briggs, Xavier (org.). The Geography of opportunity: Race and Housing
Choice in Metropolitan America. Washington, DC: Brookings Institution Press,
2005; Blokland, Talya e Savage, Mike. Networked urbanism:
social capital in the city. Londres: Ashgate, 2008; e
Mustered, Sako, Murie, Alain e Kestellot, C. Neighborhoods of poverty: urban
social exclusion and integration in Europe. Londres: Palgrave, 2006.
[4] Marques, E., op. cit.
[5] Marques, E., Bichir, Renata, Moya, Encarnación e Castello, Graziela. "Redes
sociais, pobreza e espaço em duas metrópoles brasileiras". In: Baeninger,
Rosana (org.). População e cidades: subsídios para o planejamento e para as
políticas sociais. Campinas: Editora Unicamp/ Unfa/ Nepo, 2010.
[6] Para referências técnicas gerais, ver Wasserman, Stanley e Faust,
Katherine. Social Network Analysis: Methods and Applications. Cambridge:
Cambridge University Press, 1994, e Hanneman, Robert e
Riddle, Mark. Introduction to social network methods. <http://faculty.ucr.edu/
~hanneman/>, acessado em 21/06/2011. Para uma história da
análise de redes, ver Freeman, Linton. The development of social network
analysis. Vancouver: Empirical Press, 2004.
[7] Os dados para estudarmos redes são usualmente cognitivos, sendo, portanto,
fortemente influenciados pela percepção que indivíduos diferentes têm sobre
suas relações. Longe de representar uma limitação, essa informação nos fornece
exatamente os dados de que precisamos, já que os indivíduos utilizam as redes
da forma como as compreendem.
[8] Beggs, J. "Revising the rural-urban contrast - personal networks in
nonmetropolitan and metropolitan settings". Rural sociology, 61, 1996, pp. 306-
25, e Moore, Gwen. "Structural determinants of men's and
women's personal networks". Annual Sociological Review, vol. 55, nº 5, 1990,
pp. 726-35.
[9] Fischer, Claude e Shavit, Y. "National differences in network density:
Israel and the United States". Social Networks, 17, 2, 1995, pp. 129-45, e Grossetti, Michel. "Are French networks different?". Social
Networks, 29, 3, 2007, pp. 391-404.
[10] Lonkila, M. "The importance of work-related social ties in post-soviet
Russia: the role of co-workers in the personal networks in St. Petersburg and
Helsinki". Connections, vol. 30, 1, 2010, pp. 46-56, p. 47.
Todos os excertos em inglês foram traduzidos livremente pelos autores.
[11] Ver McPherson, Miller, Smith-Lovin, Lynn e Cook, James. "Birds of a
feather: homophily in social networks". Annual Review of Sociology, n. 27, pp.
415-44, 2001, e Kadushin, Charles. "Some basic network
concepts and propositions". In: Introduction to Social Network Theory.
<www.scribd.com/doc/12748508/Basic-Network-Concepts,_2004>, acessado em 21/06/
2011.
[12] Briggs, X (org.). The Geography of opportunity Race and Housing Choice in
Metropolitan America. Washington, DC: Brookings Institution Press, 2005.
[13] Blokland, Talja. Urban Bonds. Londres: Basil Blackwell, a partir de
classificação anterior de Ulf Hannertz; e Marques, op. cit., 2003.
[14] Fischer e Shavit, op. cit.
[15] Grossetti, op. cit.
[16] Lonkila, op. cit.
[17] Ruan, D., Freeman, L., Dai, X., Pan, Y. e Zhang, W. "On the changing
structure of social networks in urban China". Social Networks, vol. 19, 1997,
pp. 75-89.
[18] Lonkila, op. cit., p. 54.
[19] Lee, R., Ruan, D. e Lai, G. "Social structure and support network in
Beijing and Hong Kong". Social Networks, vol. 27, 2005, pp. 249-74.
[20] Bastani, S. "Family comes first: Men's and women's personal networks in
Tehran". Social Networks, 29, 2007, pp. 357-74.
[21] Bastani, op. cit., p. 371.
[22] Fontes, Breno e Eichner, Klaus. "A formação de capital social em uma
comunidade de baixa renda". Redes - Revista Hispana para el análisis de Redes
sociales, vol. 7, nº 2, 2004, pp. 1-33, e Fontes, Breno.
"Sobre a sustentabilidade das associações voluntárias em uma comunidade de
baixa renda". Tempo social, vol. 15, nº 1, 2003, pp. 159-89.
[23] Marques, Eduardo. "Mecanismos relacionais". Revista Brasileira de Ciências
Sociais, vol. 22, nº 64, 2007, pp. 157-61.
[24] Marques, op. cit., 2010.
[25] Guimarães, Nadya. À procura de trabalho. Instituições do mercado e redes.
Belo Horizonte: Argumentun, 2009.
[26] Bidart, Caire e Lavenu, Daniel. "Evolution of personal networks and life
events". Social Networks, nº 27, 2005, pp. 359-76.
[27] Como em Bidart e Lavenu, op. cit., e Blokland, op. cit.
[28] Marques, op. cit.
[29] As faixas intermediárias de renda foram omitidas por seguirem o padrão das
apresentadas.
[30] As informações do survey também incluíam a presença de colegas (do
trabalho, de igrejas e associações) e ex-patrões, mas a sua presença relativa
foi omitida dos gráficos por ser em geral muito baixa (sempre inferiores a
2,5%).
[31] Moore, op. cit.
[32] De forma a simplificar a apresentação, nos referimos a pobres e não pobres
como "grupos sociais", embora evidentemente fossem necessárias muitas outras
especificações para delimitar grupos no sentido da estrutura social. Trata-se
apenas de uma forma rápida de distinguir esses dois grupos na descrição e na
análise dos tipos de redes.
[33] Todas essas análises foram realizadas no software Spss versão 13.0,
utilizando o algoritmo K-means.
[34] Vale destacar que os rendimentos reportados como características dos
grupos são rendas familiares médias mensais per capita, enquanto o limiar de
diferenciação entre pobres e não pobres (R$ 950) diz respeito à renda familiar
média mensal utilizada como corte dos 40% mais pobres a partir da PNAD 2006.