As crises do capitalismo democrático
O colapso do sistema financeiro norte-americano que ocorreu em 2008 converteu-
se em uma crise econômica e política de dimensões globais. Como esse evento
mundialmente impactante pode ser conceitualizado? As teorias econômicas
predominantes tendem a conceber a sociedade como uma entidade regida por uma
tendência geral ao equilíbrio, em que as crises e a mudança não passam de
desvios temporários do estado estável de um sistema normalmente bem integrado.
Um sociólogo, no entanto, não é obrigado a compartilhar dessa visão. Em vez de
interpretar nossa atual atribulação como um distúrbio isolado em uma condição
essencialmente estável, vou considerar a "Grande Recessão"1 e o (quase) colapso
subsequente das finanças públicas como a manifestação de uma tensão elementar
subjacente à configuração político-econômica das sociedades capitalistas
avançadas - uma tensão que faz do desequilíbrio e da instabilidade regra, e não
exceção, e que encontrou expressão numa sucessão histórica de distúrbios no
interior da ordem socioeconômica. Mais especificamente, vou argumentar que a
crise atual só pode ser plenamente compreendida à luz das transformações
contínuas e inerentemente conflituosas da formação social que chamamos de
"capitalismo democrático".
O capitalismo democrático só se estabeleceu completamente após a Segunda Guerra
Mundial e à época apenas nas porções "ocidentais" do mundo, na América do Norte
e na Europa Ocidental. Ali funcionou muito bem durante as duas décadas
seguintes - tão bem, de fato, que esse período de crescimento econômico
ininterrupto ainda domina nossas ideias e expectativas sobre o que o
capitalismo moderno é ou poderia e deveria ser. Isso a despeito de, haja vista
a turbulência que se seguiu, o quarto de século imediatamente posterior à
guerra dever ser reconhecido como verdadeiramente excepcional. Na verdade,
creio que não os trente glorieuses mas as várias crises que se seguiram
representam a condição normal do capitalismo democrático - uma condição pautada
por um conflito endêmico entre mercados capitalistas e políticas democráticas,
que recrudesceu com o término do alto crescimento econômico dos anos 1970.
Abaixo discutirei a natureza desse conflito, e em seguida abordarei a sucessão
de transtornos político-econômicos que ele gerou, ambos os quais precederam e
moldaram a atual crise global.
MERCADOS VERSUS ELEITORES?
Suspeitas de que capitalismo e democracia possam não se combinar facilmente
estão longe de ser novidade. Já no século xix e em boa parte do século xx, a
burguesia e a direita política manifestavam temores de que a "regra da
maioria", implicando, inevitavelmente, o predomínio dos pobres sobre os ricos,
acabaria por extinguir a propriedade privada e os mercados livres. A classe
trabalhadora ascendente e a esquerda política, por sua vez, advertiam que os
capitalistas poderiam se aliar às forças reacionárias para abolir a democracia
com o intuito de se protegerem de ser governados por uma maioria permanente
empenhada na redistribuição econômica e social. Não quero discutir os méritos
relativos das duas posições, muito embora a história sugira que, ao menos no
mundo industrializado, a esquerda tinha mais razão para temer que a direita
sacrificasse a democracia, a fim de salvar o capitalismo, do que tinha a
direita para temer que a esquerda abolisse o capitalismo em favor da
democracia. Seja como for, nos anos pós-Segunda Guerra havia um pressuposto
amplamente compartilhado de que, para que fosse compatível com a democracia, o
capitalismo teria de ser submetido a um controle político amplo (compreendendo,
por exemplo, a nacionalização de empresas e setores essenciais ou um modelo de
"cogestão" que incluísse os trabalhadores, como na Alemanha), a fim de que a
própria democracia fosse protegida de restrições impostas pelo livre mercado.
Enquanto Keynes, assim como Kalecki e Polanyi até certo ponto, estavam em voga,
Hayek parecia condenado a um exílio temporário.
Desde então, no entanto, a teoria econômica predominante ficou obcecada pela
"irresponsabilidade" de políticos oportunistas que satisfazem um eleitorado
pouco versado em economia, interferindo em mercados naturalmente eficientes em
busca de metas - como pleno emprego e justiça social - que mercados
genuinamente livres proporcionariam a longo prazo de qualquer jeito, mas que
deixam de proporcionar quando distorcidos pela política. Segundo teorias
tradicionais da "escolha pública", as crises econômicas basicamente se originam
de intervenções políticas que distorcem os mercados visando metas sociais2.
Nessa visão, as intervenções adequadas são aquelas que deixam os mercados
livres de interferência política; as incorretas, que distorcem os mercados,
derivam de um excesso de democracia - mais precisamente, da transposição,
levada a cabo por políticos irresponsáveis, da democracia para a economia, onde
ela não deveria se meter. Hoje, poucos iriam tão longe quanto Hayek, que nos
últimos anos de vida advogou a abolição da democracia tal como a conhecemos em
defesa da liberação econômica e da liberdade civil. Não obstante, o cantus
firmus da atual teoria econômica neoinstitucionalista é profundamente
hayekiano. Para funcionar de maneira adequada, o capitalismo requer políticas
econômicas pautadas por normas, proteção de mercados, direitos de propriedade
constitucionalmente resguardados de interferência política discricionária;
autoridades regulatórias independentes; bancos centrais vigorosamente
protegidos de pressões eleitorais; e instituições internacionais - como a
Comissão Europeia ou o Tribunal de Justiça europeu - que não tenham de se
preocupar com reeleição popular. Contudo, essas teorias evitam propositadamente
a questão crucial de como chegar a isso, talvez porque seus defensores não
tenham respostas, ou ao menos nenhuma que possa ser dada publicamente.
Há vários modos de conceitualizar as causas subjacentes ao atrito entre
capitalismo e democracia. Para os presentes fins, vou caracterizar o
capitalismo democrático como uma economia pautada por dois princípios ou
regimes conflitantes de alocação de recursos: o primeiro opera de acordo com a
produtividade marginal, ou com aquilo que é exposto como uma vantagem por um
"livre jogo das forças de mercado", e o outro se baseia em necessidades ou
direitos sociais, tal como estabelecidos por escolhas coletivas em contextos
democráticos. Sob o capitalismo democrático, os governos são teoricamente
instados a cumprir ambos os princípios simultaneamente, ainda que eles quase
nunca se alinhem de forma substantiva. Na prática, podem negligenciar um
princípio em favor do outro por algum tempo, até serem penalizados pelas
consequências: governos que deixem de atender demandas democráticas por
proteção e redistribuição se arriscam a perder o apoio da maioria, enquanto
aqueles que desconsideram as demandas por compensação dos detentores dos
recursos produtivos - com relação à produtividade marginal - provocam
disfunções econômicas que se tornam cada vez mais insustentáveis, solapando
também seu apoio político.
Na utopia liberal da teoria econômica convencional, a tensão entre esses dois
princípios de alocação do capitalismo democrático é superada pela conversão da
teoria no que Marx teria chamado de "força material". Segundo essa visão, a
economia como "conhecimento científico" ensina aos cidadãos e aos políticos que
a verdadeira justiça é a justiça do mercado, pela qual todos são recompensados
de acordo com sua contribuição, em vez de terem suas necessidades transformadas
em direitos. Na medida em que a teoria econômica viesse a ser aceita como
teoria social, "viraria realidade" no sentido de ser performativa - revelando
assim seu caráter essencialmente retórico como um instrumento de construção
social por persuasão. No mundo real, porém, não é tão fácil dissuadir as
pessoas de suas crenças "irracionais" em direitos sociais e políticos, em
contraposição à lei do mercado e ao direito de propriedade. Até o momento, as
noções de justiça social alheias à lógica do mercado têm resistido às
tentativas de racionalização econômica, por mais impositivas que elas tenham se
tornado na idade de chumbo da expansão do neoliberalismo. As pessoas se
recusaram obstinadamente a abrir mão da ideia de uma economia moral, sob a qual
possuem direitos que têm precedência sobre as repercussões das transações de
mercado3. De fato, sempre que podem - como recorrentemente podem em democracias
efetivas -, tendem de uma maneira ou de outra a insistir na primazia do social
sobre o econômico, na proteção de compromissos e obrigações sociais contra as
pressões do mercado por "flexibilidade", na expectativa de que a sociedade
satisfaça as aspirações humanas a uma vida fora da ditadura dos "sinais"
instáveis dos mercados. Provavelmente, é esse o fenômeno que Polanyi descreveu
em A grande transformação como um "contramovimento" em reação à transformação
do trabalho em mercadoria.
Segundo a teoria econômica predominante, desarranjos como inflação, déficits
públicos e dívida privada ou pública excessiva resultam de um conhecimento
insuficiente das leis que regem a economia, essa máquina de geração de riqueza,
ou da desconsideração dessas leis na busca egoísta de poder político. Já as
teorias de economia política - na medida em que levam a política a sério e não
são apenas teorias funcionalistas da eficiência - veem na alocação de mercado
apenas um tipo de regime político-econômico entre outros, regido pelos
interesses dos detentores dos recursos produtivos escassos e portanto em
posição de vantagem no mercado. A alocação política, por sua vez, é preferida
por aqueles que têm pouco peso econômico mas têm poder político potencialmente
amplo. Dessa perspectiva, a teoria econômica convencional é basicamente a
exaltação teórica de uma ordem social político-econômica a serviço daqueles
bem-dotados de poder de mercado, visto que equipara os interesses deles com o
interesse geral. Ela apresenta as demandas distributivas dos detentores de
capital produtivo como imperativos técnicos da boa, no sentido de
cientificamente fundamentada, gestão econômica. Para a economia política, a
explicação convencional para as disfunções econômicas, segundo a qual elas
resultariam de uma clivagem entre princípios tradicionalistas da economia moral
e princípios moderno- -racionais, é uma deturpação enviesada, que oculta o fato
de que a economia "econômica" também é uma economia moral - mas a economia
moral daqueles que ocupam posições privilegiadas no mercado.
Na linguagem da teoria econômica convencional, as crises se afiguram como
punição para governos que deixam de respeitar as leis naturais da economia que
são as suas autênticas governantes. Em contraposição, uma teoria de economia
política digna desse nome concebe as crises como manifestações das "reações
kaleckianas" dos detentores de recursos produtivos a políticas democráticas que
penetram em seu domínio exclusivo, e que os impedem de explorar ao máximo seu
poder de mercado, subvertendo suas expectativas de serem justamente
recompensados por suas operações de risco ousadas. A teoria econômica
convencional aborda a estrutura social e a distribuição dos interesses e
poderes nela operantes como coisas exógenas, considerando-as constantes e com
isso tornando ambas invisíveis e, para os fins da "ciência" econômica,
naturalmente dadas. A única política que uma teoria dessas consegue conceber
envolve tentativas oportunistas, ou na melhor das hipóteses incompetentes, de
transgredir as leis econômicas. Toda política econômica boa é por definição
apolítica. O problema é que essa visão não é compartilhada por aqueles que
consideram a política um recurso imprescindível contra os mercados, cuja
operação à rédea solta interfere no que julgam ser a ordem correta das coisas.
A menos que eles sejam de alguma forma persuadidos a adotar a doutrina
econômica neoclássica como um modelo inequívoco daquilo que a vida social é e
deve ser, suas demandas políticas, tais como democraticamente expressas, vão
divergir das prescrições da teoria econômica convencional. A questão é que,
enquanto uma economia, desde que suficientemente abstraída de forma conceitual,
pode ser modelada como tendendo ao equilíbrio, uma economia política não pode,
a menos que seja desprovida de democracia e dirigida por uma ditadura platônica
de reis-economistas. A política capitalista, como veremos, tem feito o possível
para nos conduzir do deserto do oportunismo democrático corrupto para a terra
prometida dos mercados autorregulamentados. Até agora, porém, a resistência
democrática persiste, e com ela os deslocamentos em nossas economias de
mercado, às quais ela continuamente dá ensejo.
ARRANJOS DO PÓS-GUERRA
O capitalismo democrático do pós-guerra sofreu sua primeira crise no decênio
subsequente ao final dos anos 1960, quando a inflação começou a crescer
rapidamente por todo o mundo ocidental,e o declínio do crescimento econômico
passou a inviabilizar a fórmula da paz político-econômica entre capital e
trabalho que findara os conflitos domésticos após as devastações da Segunda
Guerra Mundial. Essa fórmula implicava essencialmente a aceitação dos mercados
capitalistas e os direitos de propriedade pela classe trabalhadora organizada
em troca de democracia política, o que lhes possibilitava contar com seguridade
social e com a melhoria constante de seu padrão de vida. O período ininterrupto
de mais de dois decênios de crescimento resultou em percepções populares,
profundamente enraizadas, do contínuo progresso econômico como um direito de
cidadania democrática - percepções que se converteram em expectativas políticas
que os governos se sentiram coagidos a cumprir com a desaceleração do
crescimento, mas cada vez menos capazes de cumpri-lo.
A estrutura do arranjo entre trabalho e capital no pós-guerra era
fundamentalmente a mesma nos países - sob outros aspectos bem diferentes - em
que o capitalismo democrático fora instituído. Compreendia um Estado de bem-
estar em expansão, o direito dos trabalhadores à livre negociação coletiva e a
garantia política do pleno emprego, subscrita por governos que faziam amplo uso
do instrumental econômico keynesiano. Quando o crescimento começou a ratear no
final dos anos 1960, porém, ficou difícil manter essa combinação. Enquanto a
livre negociação coletiva possibilitava aos trabalhadores, por meio de seus
sindicatos, agir de acordo com expectativas, já firmemente arraigadas, de
aumentos salariais anuais em caráter regular, o compromisso dos governos com o
pleno emprego, bem como com a expansão do Estado de bem-estar, protegia os
sindicatos de potenciais perdas de postos de trabalho causadas por acordos
salariais que excediam o crescimento da produtividade. Desse modo, a política
governamental alavancava o poder de barganha dos sindicatos para além do nível
que um livre mercado de trabalho poderia sustentar. No final dos anos 1960 isso
se traduziu em uma onda mundial de militância trabalhista, impulsionada por um
vigoroso senso de direito político a um padrão de vida ascendente e livre do
medo do desemprego.
Nos anos subsequentes, governos de toda parte do mundo ocidental enfrentaram a
questão de como fazer com que os sindicatos moderassem as reivindicações
salariais para as suas categorias sem ter de retirar a promessa keynesiana de
pleno emprego. Nos países em que a estrutura institucional do sistema de
negociação coletiva não conduzia aos "pactos sociais" tripartites, a maioria
dos governos permaneceu convencida ao longo de toda a década de 1970 de que
permitir o aumento do desemprego a fim de conter aumentos salariais reais
colocava em risco sua sobrevivência, senão para a estabilidade da própria
democracia capitalista. Sua única saída foi uma política monetária acomodatícia
que, conquanto permitisse que a livre negociação coletiva e o pleno emprego
continuassem a coexistir, fazia-o à custa de elevar a taxa de inflação num
ritmo que se acelerou ao longo do tempo.
A princípio, a inflação não era um grande problema para trabalhadores
representados por sindicatos fortes e com poder político suficiente para obter
indexação salarial de facto. A inflação atinge primordialmente credores e
detentores de ativos financeiros, segmentos que em geral não incluem
trabalhadores, ou ao menos não incluíam nos anos 1960 e 1970. É por isso que a
inflação pode ser descrita como um reflexo monetário do conflito distributivo
entre uma classe trabalhadora que demanda garantia de emprego, bem como uma
maior participação na renda nacional, e uma classe capitalista que busca
maximizar o retorno sobre o seu capital. Uma vez que os dois lados agem de
acordo com ideias mutuamente incompatíveis sobre o que lhes é de direito, um
deles enfatizando os usufrutos da cidadania e o outro os do poder de posse e
mercado, a inflação também pode ser considerada uma expressão de anomia numa
sociedade que, por razões estruturais, não consegue chegar a um critério comum
de justiça social. Foi nesse sentido que o sociólogo britânico John Goldthorpe
sugeriu, no final dos anos 1970, que a inflação alta era inerradicável numa
economia de mercado capitalista democrática que permitia que trabalhadores e
cidadãos corrigissem efeitos negativos dos mercados mediante ação política
coletiva4.
Para governos que precisam enfrentar as demandas conflitantes dos trabalhadores
e do capital num mundo de taxas de crescimento em queda, uma política monetária
acomodatícia era um método substituto conveniente para evitar um conflito
social de soma zero. Nos anos iniciais do pós-guerra, o crescimento econômico
municiara governos em luta contra concepções de justiça econômica incompatíveis
com bens e serviços adicionais por meio dos quais podiam neutralizar
antagonismos de classe. Agora os governos tinham de se virar com dinheiro
adicional, ainda não chancelado pela economia real, como um meio de antecipar
recursos futuros por meio do consumo e da distribuição no presente. Essa
maneira de pacificar conflitos, apesar de eficaz a princípio, não poderia
persistir indefinidamente. Como Hayek nunca cansava de assinalar, inflação
acelerada fatalmente ocasiona distorções econômicas por fim incontroláveis nos
preços relativos, na relação entre rendas variáveis e fixas e naquilo que os
economistas chamam de "incentivos econômicos". Ao provocar reações kaleckianas
de detentores de capitais cada vez mais desconfiados, a inflação acaba por
gerar desemprego, penalizando os mesmos trabalhadores cujos interesses ela pode
inicialmente ter favorecido. A essa altura, no mais tardar, os governos sob o
capitalismo democrático estarão sofrendo pressões para abandonar os arranjos
salariais redistributivo- -acomodatícios e restituir a disciplina monetária.
INFLAÇÃO BAIXA, DESEMPREGO EM ALTA
A inflação foi controlada após 1979 (Gráfico_1), quando Paul Volcker, recém-
nomeado presidente do Fed pelo presidente Jimmy Carter, elevou as taxas de
juros a patamares sem precedentes, fazendo com que o desemprego saltasse para
níveis não vistos desde a Grande Depressão. O "putsch" de Volcker foi
chancelado em 1984 com a reeleição de Ronald Reagan (que de início, diz-se,
teria ficado receoso dos efeitos políticos das diretrizes desinflacionárias
agressivas de Volcker). Margareth Thatcher, que havia seguido a esteira dos
Estados Unidos, ganhou um segundo mandato em 1983, também a despeito do
desemprego elevado e da rápida desindustrialização causados, entre outras
coisas, por uma política monetária restritiva. Tanto nos Estados Unidos como no
Reino Unido, a desinflação foi acompanhada de ataques abertos aos sindicatos
por parte dos governos e dos empregadores, cujos casos emblemáticos foram o
triunfo de Reagan sobre a Organização Sindical dos Controladores de Tráfego
Aéreo e o de Thatcher sobre o Sindicato Nacional dos Mineiros. Nos anos
seguintes, as taxas de inflação permaneceram continuamente baixas em todo o
mundo capitalista, ao passo que o desemprego aumentou mais ou menos
regularmente (Gráfico_2). Paralelamente, a sindicalização declinou em quase
todos os lugares, e as greves se tornaram tão esporádicas que alguns países
deixaram de manter estatísticas sobre elas (Gráfico_3).

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A era neoliberal teve início com o abandono, pelos governos anglo- -americanos,
das lições do capitalismo democrático do pós-guerra, que sustentavam que o
desemprego solaparia o apoio político não só ao governo da vez, mas também ao
próprio capitalismo democrático. Os experimentos conduzidos por Reagan e
Thatcher com seus eleitorados foram observados com grande atenção por
formuladores de políticas do mundo inteiro. Entretanto, aqueles que esperavam
que o fim da inflação traria o fim do desarranjo econômico logo se
decepcionaram. À medida que a inflação recuou, a dívida pública começou a
aumentar, e não de forma totalmente inesperada5. A dívida pública crescente dos
anos 1980 tinha diversas causas. A estagnação do crescimento indispusera os
contribuintes mais do que nunca à tributação, e com o fim da inflação também
acabaram os aumentos tributários automáticos por meio do "bracket creep"6. O
mesmo se aplicava à contínua desvalorização da dívida pública em razão do
enfraquecimento das moedas correntes, um processo que a princípio complementava
o crescimento econômico e que passou a substituí-lo cada vez mais, reduzindo a
dívida acumulada de um país em relação à sua receita nominal. No lado da
despesa, o crescente desemprego, causado pela estabilização monetária, requeria
gastos crescentes em assistência social. Ademais, os vários direitos sociais
criados nos anos 1970 em troca de moderação dos sindicatos nas negociações
salariais - por assim dizer, salários adiados da era neocorporativista -
começaram a ser cobrados, onerando cada vez mais as finanças públicas.
Com a inflação não mais disponível como recurso para estreitar a lacuna entre
as demandas dos cidadãos e as dos "mercados", o ônus de assegurar a paz social
recaiu sobre o Estado. Por algum tempo, a dívida pública se mostrou um
equivalente funcional conveniente da inflação: assim como a inflação, a dívida
pública tornava possível introduzir recursos ainda não gerados de fato nos
conflitos distributivos em curso, propiciando aos governos explorar recursos
futuros em acréscimo àqueles já disponíveis. Uma vez que o embate entre a
distribuição via mercado e a distribuição social passou do mercado de trabalho
para a arena política, a pressão eleitoral substituiu as reivindicações
sindicais. Em vez de inflacionar a moeda corrente, os governos começaram a
tomar empréstimos em proporções crescentes para atender demandas de benefícios
e serviços como um direito dos cidadãos, assim como exigências concorrentes de
que a renda refletisse o juízo do mercado e desse modo contribuísse para
maximizar o uso lucrativo dos recursos produtivos. A inflação baixa - assim
como as taxas de juros baixas que se seguiram à contenção da inflação -
favorecia isso, já que assegurava aos credores que os títulos públicos iriam
manter seu valor no longo prazo.
Tal como a inflação, porém, o acúmulo da dívida pública não pode perdurar para
sempre. Os economistas advertiram há muito tempo que o déficit público tem um
efeito de "esvaziamento" [crowding out] sobre o investimento privado,
ocasionando taxas de juros altas e crescimento baixo, mas jamais foram capazes
de identificar o limiar crítico. Na prática, mostrou-se possível, ao menos por
algum tempo, manter as taxas de juros baixas pela desregulamentação dos
mercados financeiros e simultaneamente conter a inflação por meio de práticas
reiteradas de desmantelamento das ações sindicais7. Contudo, os Estados Unidos
em particular, com sua taxa de poupança nacional excepcionalmente baixa, logo
iriam vender seus títulos públicos não só para os cidadãos, mas também para
investidores estrangeiros, incluindo fundos soberanos de variados tipos8. Além
disso, à medida que aumentavam os ônus da dívida era preciso destinar uma
proporção crescente dos gastos públicos ao serviço da dívida, mesmo que as
taxas de juros permanecessem baixas. Acima de tudo, chegar-se-ia a um ponto -
ainda que imprevisível - em que credores estrangeiros e nacionais começariam a
se preocupar em reaver seu dinheiro. No mais tardar, então, as pressões dos
"mercados financeiros" pela consolidação dos orçamentos públicos e pelo retorno
à disciplina fiscal se fariam sentir.
DESREGULAMENTAÇÃO E DÍVIDA PRIVADA
A eleição presidencial americana de 1992 foi dominada pela questão dos dois
déficits: o do governo federal e o do país como um todo, no comércio exterior.
A vitória de Bill Clinton, cuja campanha se voltara sobretudo para o "duplo
déficit", suscitou tentativas de consolidação fiscal em todo o mundo,
promovidas de maneira agressiva, sob a liderança dos Estados Unidos, por
organizações internacionais como a OCDE e o FMI. De início, a administração
Clinton parece ter planejado acabar com o déficit público mediante um
crescimento econômico acelerado impulsionado por reformas sociais, tais como o
aumento do investimento público em educação9. Uma vez que os democratas
perderam a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de 1994, porém,
Clinton se voltou para uma política de austeridade, envolvendo cortes profundos
nos gastos públicos e mudanças nas políticas sociais que, nas palavras do
presidente, poriam fim ao "Estado de bem-estar tal como o conhecemos". De 1998
a 2000, pela primeira vez em décadas, o governo federal americano estava
administrando um superávit orçamentário.
Isso não é o mesmo que dizer, no entanto, que a administração Clinton tivesse
encontrado um meio de pacificar uma economia capitalista democrática sem
recorrer a recursos econômicos adicionais ainda não disponíveis. A estratégia
de Clinton de gestão do conflito social se valeu intensamente do aprofundamento
da desregulamentação do setor financeiro, que havia se iniciado sob Reagan10. A
crescente desigualdade de renda, causada pela contínua dessindicalização e
pelos cortes severos nos gastos sociais, bem como a redução da demanda
agregada, causada pela consolidação fiscal, foram contrabalançadas pela criação
de oportunidades sem precedentes para que cidadãos e pessoas jurídicas se
endividassem. A feliz expressão "keynesianismo privado" foi cunhada para
designar aquilo que era, em essência, a substituição da dívida pública pela
dívida privada11. Em vez de o governo tomar dinheiro emprestado para financiar
o acesso igualitário a habitação decente ou para a formação de mão de obra
qualificada para o mercado, passou a permitir - às vezes forçá-los a tanto -
que cidadãos individuais, sob um sistema de endividamento extremamente
generoso, tomassem empréstimos por sua própria conta e risco para pagar seus
estudos ou seu acesso a um bairro menos carente.
A política de Clinton de consolidação fiscal e revitalização econômica por meio
da desregulamentação financeira teve muitos beneficiários. Os ricos foram
poupados de aumentos de impostos, e aqueles espertos o bastante para dirigir
seus interesses para o setor financeiro acumularam lucros descomunais nos cada
vez mais complexos "serviços financeiros" que passaram a ser autorizados a
comercializar de maneira quase irrestrita. Mas os pobres também prosperaram, ao
menos alguns deles e por algum tempo. As hipotecas de alto risco [subprime
mortgages] se tornaram um substituto - ainda que ilusório no final das contas -
para as políticas sociais, que foram sucateadas, bem como para os aumentos
salariais, que se tornaram indisponíveis nos segmentos inferiores de um mercado
de trabalho "flexibilizado". Para os afro-americanos em particular, a casa
própria era não só a realização do "sonho americano" como também um substituto
fundamental para as aposentadorias, que muitos eram incapazes de obter no
mercado de trabalho e a qual não tinham nenhum motivo para esperar de um
governo comprometido com a austeridade permanente.
Durante algum tempo, a posse de um imóvel ofereceu à classe média e até a uma
parcela dos pobres uma oportunidade atraente para participar da febre
especulativa que nos anos 1990 e no início dos anos 2000 estava tornando os
ricos bem mais ricos - por mais traiçoeira que essa oportunidade viesse a se
revelar depois. Com a disparada dos preços dos imóveis causada pela demanda
crescente de pessoas que em circunstâncias normais jamais teriam condições de
comprar uma casa, a utilização de parte ou da totalidade do valor líquido de um
imóvel para financiar os custos da escolarização da geração seguinte (que se
elevavam com rapidez), ou simplesmente para consumo pessoal (a fim de compensar
estagnação ou queda salarial), tornou-se uma prática comum. Tampouco era
incomum que os proprietários de imóveis usassem seu novo crédito para comprar
uma segunda ou terceira residência, na esperança de lucrar com o aumento
ilimitado improvável do valor dos bens imobiliários. À diferença da era da
dívida pública, quando se obtinham recursos futuros para uso no presente
mediante empréstimos governamentais, esses recursos passaram a ser postos à
disposição pela venda, em mercados financeiros liberalizados, de obrigações a
pagar que representavam uma parcela significativa dos ganhos futuros dos
indivíduos, municiando-os, em troca, do poder instantâneo de comprar o que bem
entendessem.
Assim, a liberalização financeira compensou uma era de consolidação fiscal e
austeridade pública. O endividamento individual substituiu a dívida pública, e
a demanda individual, construída sob altas taxas por um crescente setor caça-
níqueis, ocupou o lugar da demanda pública gerida pelo Estado pela sustentação
do emprego e dos lucros na construção civil e em outros setores (Gráfico_4).
Essas dinâmicas se intensificaram depois de 2001, quando o Fed passou a adotar
taxas de juros bastante baixas para evitar uma recessão econômica e o
consequente aumento do desemprego. Além de lucros sem precedentes no setor
financeiro, o keynesianismo privado sustentou uma economia afluente que se
tornou alvo da inveja dos movimentos trabalhistas europeus. De fato, a política
de Alan Greenspan de crédito abundante respaldando o crescente endividamento da
sociedade americana foi considerada um modelo por líderes sindicais europeus,
que notaram com grande entusiasmo que o Fed, diversamente do Banco Central
Europeu, era obrigado por lei a promover não só estabilidade monetária como
também níveis de emprego elevados. Tudo isso, é claro, terminou em 2008, quando
a pirâmide creditícia internacional na qual se apoiara a prosperidade do final
dos anos 1990 e do início dos anos 2000 subitamente veio abaixo.
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ENDIVIDAMENTO SOBERANO
Com a derrocada do keynesianismo privado em 2008, a crise do capitalismo
democrático do pós-guerra entrou em sua quarta e mais recente etapa, após as
sucessivas eras de inflação, de déficits públicos e de endividamento privado
(Gráfico_5)12. Com o sistema financeiro global prestes a se desintegrar, os
Estados-nação buscaram restituir a confiança econômica socializando os créditos
podres emitidos como forma de compensar a consolidação fiscal. Somada à
expansão fiscal necessária para evitar um colapso da "economia real", a medida
resultou em um novo aumento dramático dos déficits públicos e da dívida pública
- um desdobramento, cabe notar, que não se deveu de modo algum a gastos extras
inconsequentes por parte de políticos oportunistas ou de órgãos públicos
desavisados, como insinuado pelas teorias da "escolha pública" e pela vasta
literatura de economia institucional produzida nos anos 1990 sob os auspícios,
entre outros, do Banco Mundial e do FMI13.
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O salto quântico da dívida pública após 2008, que desfez por completo toda
consolidação fiscal porventura alcançada na década anterior, refletiu o fato de
que nenhum Estado democrático se atreveu a impor a sua sociedade outra crise
econômica da magnitude da Grande Depressão dos anos 1930, como punição para os
excessos de um setor financeiro desregulamentado. Mais uma vez, o poder
político foi chamado a colocar à disposição recursos futuros a fim de assegurar
a paz social do presente, e os Estados, mais ou menos voluntariamente,
assumiram a responsabilidade por uma significativa parcela da nova dívida
originalmente gerada no setor privado, de modo a tranquilizar os credores
privados. Mas se isso efetivamente respaldou as fábricas de dinheiro da
indústria financeira, restabelecendo com rapidez seus extraordinários lucros,
salários e bonificações, não logrou evitar a desconfiança crescente de parte
dos mesmos "mercados financeiros" de que os próprios governos nacionais, no
processo de resgatá-los, poderiam ter se expandido além da conta. Mesmo com a
crise econômica global longe de seu fim, os credores começaram a exigir
ruidosamente um retorno ao equilíbrio monetário por meio de medidas de
austeridade fiscal, buscando assegurar-se de que seus investimentos na dívida
pública, enormemente ampliados, não seriam perdidos.
Nos três anos após 2008, o conflito distributivo sob o capitalismo democrático
se converteu em um cabo de guerra intrincado entre investidores financeiros
globais e Estados-nação soberanos. Se no passado trabalhadores disputavam com
empregadores, cidadãos com ministros da Economia e devedores privados com
bancos privados, as instituições financeiras passaram a enfrentar os mesmos
Estados que pouco antes elas haviam chanteageado a salvá-las. Mas a
configuração subjacente de poderes e interesses se tornou bem mais complexa, e
ainda aguarda exame sistemático. Desde o início da crise, por exemplo, os
mercados financeiros voltaram a cobrar de diferentes Estados taxas de juros
amplamente distintas, aplicando graus diversos de pressão sobre os governos
para convencer seus cidadãos a aceitar cortes de gastos sem precedentes - de
acordo, mais uma vez, com uma lógica de distribuição centrada no mercado
basicamente inalterada. Haja vista o montante da dívida assumida hoje pela
maioria dos Estados, até elevações mínimas da taxa de juros dos títulos
públicos podem causar um desastre fiscal14. Ao mesmo tempo, os mercados
precisam evitar impelir os Estados a declarar falência soberana, sempre uma
opção para os governos caso as pressões dos mercados se tornem fortes demais. É
por isso que há de se encontrar Estados dispostos a socorrer outros que estejam
sob maior risco: para se proteger de uma elevação geral das taxas de juros dos
títulos públicos que o primeiro calote acarretaria. Uma ordem similar de
"solidariedade" entre Estados em favor dos investidores é promovida onde o
calote soberano atinge bancos situados fora do país insolvente, o que poderia
forçar os países de origem dos bancos a uma vez mais nacionalizar enormes
cifras de dívida podre a fim de estabilizar suas economias.
Há ainda outras formas pelas quais a tensão entre as demandas por direitos
sociais e as operações dos mercados livres se manifesta hoje no capitalismo
democrático. Alguns governos, inclusive a administração Obama, têm tentado
retomar o crescimento econômico por meio do endividamento - na esperança de que
políticas de consolidação futuras sejam amparadas pelos dividendos desse
crescimento. Outros podem estar prevendo em segredo um retorno da inflação, que
dissolveria a dívida acumulada mediante uma expropriação suave dos credores -
assim como o crescimento econômico, isso atenuaria as tensões políticas
decorrentes das medidas de austeridade. Ao mesmo tempo, os mercados financeiros
podem estar à espera de uma batalha promissora contra a interferência política,
que de uma vez por todas restabeleça a disciplina de mercado e acabe com todas
as tentativas políticas de subvertê-la.
Outras complicações provêm do fato de que os mercados financeiros precisam da
dívida pública, uma vez que são investimentos seguros: pressionar com demasiado
rigor por orçamentos equilibrados pode privá-los de oportunidades altamente
desejáveis de investimento. As classes médias dos países capitalistas avançados
têm investido boa parte de suas economias em títulos públicos, ao passo que
muitos trabalhadores fizeram investimentos pesados em aposentadorias
suplementares. Orçamentos equilibrados provavelmente implicariam que os Estados
precisariam tirar das suas classes médias, na forma de impostos mais altos,
aquilo que elas passaram a poupar e investir, entre outras coisas, na dívida
pública. Os cidadãos não só deixariam de auferir juros, mas também não poderiam
mais transmitir suas economias aos filhos. Contudo, ainda que isso deva deixá-
los interessados em que os Estados fiquem, se não isentos de dívidas, ao menos
confiavelmente aptos a cumprir suas obrigações para com seus credores, também
pode fazer com que eles tenham de pagar pela liquidez de seus governos na forma
de profundos cortes em benefícios e serviços públicos, dos quais em parte
também dependem.
Por mais complexas que sejam as clivagens nas diretrizes internacionais para a
dívida pública que começam a surgir, o preço da estabilização financeira
provavelmente será pago por outros que não os detentores de dinheiro, ou ao
menos de dinheiro real. A reforma das aposentadorias públicas, por exemplo,
será acelerada por pressões fiscais, e na medida em que governos derem calote
em qualquer canto do mundo as aposentadorias privadas serão igualmente
atingidas. O cidadão comum irá pagar - pela consolidação das finanças públicas,
pela bancarrota de Estados estrangeiros, pelas crescentes taxas de juros da
dívida pública e, se necessário, por mais um resgate de bancos nacionais e
internacionais - com suas economias particulares, com cortes em benefícios
públicos, com redução de serviços públicos e com impostos mais altos.
DESLOCAMENTOS SUCESSIVOS
Nas quatro décadas desde o fim do crescimento do pós-guerra, o epicentro da
tensão tectônica no âmbito do capitalismo democrático migrou de uma localização
institucional para outra, ocasionando uma sequência de distúrbios econômicos
diferentes mas sistematicamente relacionados. Nos anos 1970, o conflito entre
as demandas democráticas por justiça social e as demandas capitalistas por
distribuição segundo a produtividade marginal, ou "justiça econômica", se deu
primordialmente nos mercados de trabalho nacionais, onde a pressão salarial dos
sindicatos, no contexto de regimes de pleno emprego politicamente garantidos,
provocou inflação acelerada. Quando aquilo que era, no fundo, uma forma de
redistribuição mediante desvalorização da moeda corrente se tornou
economicamente insustentável, forçando os governos a extingui-la com um alto
risco político, o conflito ressurgiu na arena eleitoral. A partir daí ele
ocasionou uma disparidade cada vez maior entre gastos públicos e receitas
públicas e por consequência uma dívida pública rapidamente crescente, em
resposta a demandas dos eleitores por benefícios e serviços para além daquilo
que uma economia capitalista democrática poderia ser capaz de conceder ao seu
"Estado taxador"15.
Quando os esforços para refrear a dívida pública se tornaram inevitáveis,
porém, eles tiveram de ser acompanhados, em nome da paz social, por
desregulamentação financeira, por meio da facilitação do acesso ao crédito
pessoal, como uma rota alternativa a atender demandas - com força normativa e
política - dos cidadãos por segurança e prosperidade. Isso também não perdurou
muito mais do que uma década até que a economia global quase cambaleasse sob o
fardo de promessas irrealistas de pagamento futuro por consumo e investimento
no presente, autorizadas pelos governos em contrapartida à austeridade fiscal.
Desde então, o embate entre as noções populares de justiça social e a
insistência econômica em justiça de mercado uma vez mais mudou de âmbito, dessa
vez ressurgindo em mercados de capitais internacionais e nas complexas disputas
que ora ocorrem entre instituições financeiras e eleitorados, entre governos e
organizações internacionais. A questão agora é até que ponto os Estados poderão
ainda impor os direitos de propriedade e as expectativas de lucro dos mercados
aos seus cidadãos, ao mesmo tempo evitando ter de declarar bancarrota e
resguardando o que ainda possa restar de sua legitimidade democrática.
Transigência com a inflação, aceitação da dívida pública e desregulamentação do
crédito pessoal não passam de expedientes temporários para governos defrontados
com um conflito aparentemente incoercível entre os dois princípios de alocação
contraditórios sob o capitalismo democrático: de um lado direitos sociais, de
outro produtividade marginal tal como dimensionada pelo mercado. Esses três
expedientes funcionaram por algum tempo, mas logo começaram a causar mais
problemas do que resolviam, indicando que uma reconciliação duradoura entre
estabilidade social e econômica nas democracias capitalistas é um projeto
utópico. Tudo o que os governos conseguiram alcançar ao lidar com as crises de
suas épocas foi movê-las para novas arenas, onde reapareceram sob novas formas.
Não há nenhum motivo para acreditar que esse processo - a sucessiva
manifestação das contradições do capitalismo democrático em variedades de
desarranjo econômico sempre novas - tenha terminado.
DESARRANJO POLÍTICO
A essa altura, parece evidente que a capacidade de gestão política do
capitalismo democrático declinou acentuadamente nos últimos anos, mais em
certos países do que em outros mas também de maneira abrangente, no sistema
político-econômico global emergente. Em consequência, riscos parecem estar se
ampliando, tanto para a democracia quanto para a economia. Desde a Grande
Depressão, os formuladores de políticas raras vezes - talvez jamais - depararam
com tanta incerteza como hoje. Um exemplo é o fato de que os mercados esperam
não só consolidação fiscal mas também, e ao mesmo tempo, prognósticos razoáveis
de futuro crescimento econômico. Não é claro como ambas as coisas podem ser
combinadas. Embora o prêmio de risco da dívida pública da Irlanda tenha caído
quando o país se comprometeu com uma severa redução de seu déficit, algumas
semanas depois voltou a subir, presumivelmente porque o programa de
consolidação irlandês parecia tão estrito que tornaria a recuperação econômica
impossível16. Ademais, há uma convicção amplamente compartilhada de que a
próxima bolha já está se formando em algum lugar de um mundo mais do que nunca
inundado de crédito oferecido a juros baixos. Não se pode mais oferecer
créditos hipotecários de alto risco para investimentos, pelo menos não por
enquanto. Mas restam ainda os mercados de matérias-primas ou a nova economia da
internet. Nada impede que as empresas financeiras se utilizem do excedente de
dinheiro proporcionado pelos bancos centrais para ingressar em quaisquer
negócios que aparentem ser os novos segmentos em crescimento, em proveito de
seus clientes prediletos e, é claro, de si mesmas. Enfim, com o malogro da
reforma regulatória do setor financeiro sob quase todos os aspectos os
requisitos de capital aumentaram um pouco, e os bancos que eram grandes demais
para falir em 2008 também podem contar com essa condição em 2012 ou 2013, o que
os deixa com a mesma capacidade de extorquir o mesmo público que tão
astuciosamente conseguiram explorar naquele ano. Mas agora pode ser impossível
repetir o socorro público ao capitalismo privado nos moldes de 2008, quanto
mais não seja porque as finanças públicas já estão esticadas até o limite.
Contudo, na atual crise a democracia está tanto em risco quanto a economia, se
não mais. Não só a "integração sistêmica" das sociedades contemporâneas - ou
seja, o funcionamento eficaz de suas economias capitalistas - se precarizou,
mas também sua "integração social"17. Com o advento de uma nova fase de
austeridade, a capacidade dos Estados- nação de fazer a mediação entre os
direitos dos cidadãos e os requisitos de acumulação de capital foi severamente
afetada. Governos de toda parte enfrentam resistência mais forte a aumentos de
impostos, particularmente em países altamente endividados, nos quais será
preciso gastar dinheiro público novo por muitos anos para pagar bens consumidos
há muito tempo. Além disso, com a interdependência global cada vez mais
estreita, já não é possível ter a pretensão de que as tensões entre economia e
sociedade, entre capitalismo e democracia, podem ser geridas no interior das
comunidades políticas nacionais. Hoje nenhum governo pode governar sem prestar
detida atenção às obrigações e constrangimentos internacionais, inclusive
aqueles dos mercados financeiros que forçam os Estados nacionais a impor
sacrifícios à sua população. As crises e as contradições do capitalismo
democrático se tornaram definitivamente internacionalizadas, manifestando-se
não só dentro dos Estados mas também entre eles, em combinações e permutações
inauditas.
Como lemos quase todo dia nos jornais, "os mercados" passaram a ditar por vias
sem precedentes o que Estados supostamente soberanos e democráticos ainda podem
fazer por seus cidadãos e o que devem lhes recusar. As mesmas agências de
classificação de risco sediadas em Manhattan que contribuíram de maneira
fundamental para ocasionar o desastre da indústria de dinheiro global agora
estão ameaçando rebaixar as notas dos títulos de Estados que aceitaram um grau
antes inimaginável de endividamento novo para resgatar aquela indústria e a
economia capitalista como um todo. A política ainda restringe e distorce
mercados, mas apenas, parece, num plano muito distante da vivência cotidiana e
das capacidades organizacionais das pessoas comuns - os Estados Unidos, armados
até os dentes não só de porta-aviões mas também de um suprimento ilimitado de
cartões de crédito, ainda têm a China para comprar sua dívida ascendente; todos
os demais países têm de escutar o que "os mercados" lhes dizem. Desse modo, os
cidadãos cada vez mais percebem seus governos não como seus agentes, mas de
outros Estados ou de organizações internacionais tais como o FMI ou a União
Europeia, incomensuravelmente mais isolados da pressão eleitoral do que era o
tradicional Estado-nação. Em países como Grécia e Irlanda, qualquer coisa que
se assemelhe a democracia será efetivamente suspensa por muitos anos. Para
proceder "responsavelmente", no sentido definido por mercados e instituições
internacionais, os governos nacionais terão de impor uma rígida austeridade, a
preço de se tornarem cada vez mais irresponsáveis para com seus cidadãos18.
A democracia não está sendo sequestrada apenas nos países atualmente sob ataque
dos "mercados". A Alemanha, que ainda se encontra numa situação econômica
relativamente confortável, comprometeu-se com décadas de cortes nos gastos
públicos. Além disso, o governo alemão mais uma vez terá de fazer com que os
seus cidadãos provenham liquidez para países sob risco de calote, não só para
salvar bancos alemães, mas também para estabilizar a moeda comum europeia e
evitar um aumento geral da taxa de juros da dívida pública, como é provável que
ocorra caso o primeiro país entre em colapso. O alto custo político disso pode
ser dimensionado pela queda progressiva do capital eleitoral do governo de
Angela Merkel, que redundou numa série de derrotas em importantes eleições
regionais ao longo de 2010. A retórica populista, que insinua que talvez os
credores também devessem pagar uma parcela dos custos, tal como expressa pela
chanceler alemã no início daquele ano, foi prontamente abandonada quando "os
mercados" manifestaram seu assombro aumentando ligeiramente a taxa de juros da
dívida pública nova. Agora a conversa é sobre a necessidade de passar, nas
palavras do ministro da Economia alemão, do antiquado "governo", que não está
mais à altura dos novos desafios da globalização, para a "governança",
denotando em particular uma permanente redução da autoridade orçamentária do
Bundestag19.
As expectativas políticas ora apresentadas aos Estados democráticos pelos seus
novos mandantes podem ser impossíveis de satisfazer. Os mercados e as
instituições internacionais exigem que não só os governos como também os
cidadãos se comprometam credulamente com a consolidação fiscal. Partidos
políticos que se oponham à austeridade precisam ser derrotados de modo
retumbante nas eleições nacionais, e tanto o governo como a oposição devem se
comprometer publicamente com "finanças sadias", caso contrário o custo do
serviço da dívida vai aumentar. Entretanto, pleitos em que os eleitores não
tenham nenhuma opção efetiva poderão ser percebidos como inautênticos, o que
talvez cause toda sorte de desarranjos políticos, da diminuição do
comparecimento às urnas e a ascensão de partidos populistas aos distúrbios nas
ruas.
As arenas do conflito distributivo foram se tornando cada vez mais distantes da
política popular. Nem os mercados de trabalho nacionais dos anos 1970, com as
múltiplas oportunidades que ofereciam para mobilizações políticas
corporativistas e coalizões interclasses, nem a política de gastos públicos dos
anos 1980 ficavam além da apreensão ou do alcance estratégico do "homem do
povo". Desde então, os campos de batalha em que se dá o embate das contradições
do capitalismo democrático ficaram cada vez mais complexos, tornando
extremamente difícil para qualquer um que não pertença às elites políticas e
financeiras reconhecer os interesses subjacentes e identificar seus próprios
interesses20. Embora esse quadro possa gerar apatia no nível das massas e com
isso tornar a vida das elites mais fácil, não se pode contar com isso num mundo
em que a aquiescência cega aos investidores financeiros é postulada como o
único procedimento racional e responsável. Para aqueles que se recusam a ser
dissuadidos de outras racionalidades e responsabilidades sociais, um mundo
desses pode parecer simplesmente absurdo - a ponto de que a única conduta
racional e responsável seja fazer o maior número de estragos possível na haute
finance. Ali onde a democracia tal como a conhecemos está efetivamente
suspensa, como em países como Grécia, Irlanda e Portugal, tumultos nas ruas e
insurreições populares podem ser o derradeiro modo de expressão política que
resta para os desprovidos de poder de mercado. Devemos manter a esperança, em
nome da democracia, de que em breve teremos a oportunidade de observar mais
alguns exemplos?
As ciências sociais pouco ou nada podem fazer para ajudar a dirimir as tensões
e as contradições estruturais subjacentes aos desarranjos econômicos e sociais
do momento. O que podem fazer, em todo caso, é lançar luz sobre elas e
identificar os encadeamentos históricos por meio dos quais as atuais crises
sejam plenamente compreendidas. Também podem - e devem - evidenciar o drama de
Estados democráticos que estão sendo transformados em agências de cobrança de
dívidas a serviço de uma oligarquia global de investidores, que comparada à
"elite do poder" de C. Wright Mills parece um esplêndido exemplo de pluralismo
liberal21. Mais do que nunca, o poder econômico parece ter se tornado poder
político, enquanto os cidadãos parecem estar quase inteiramente despojados de
suas defesas democráticas e de sua capacidade de imprimir à economia interesses
e demandas que são incomparáveis com os dos detentores de capital. De fato,
levando em conta a sucessão das crises do capitalismo democrático desde os anos
1970, parece haver uma possibilidade real de um novo arranjo - mesmo que
temporário - do conflito social no capitalismo avançado, desta vez inteiramente
a favor das classes proprietárias ora firmemente entrincheiradas em sua
fortaleza politicamente indevassável: a indústria financeira internacional.
WOLFGANG STREECK é diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Sociedades
(Colônia, Alemanha).
[*] Artigo originalmente publicado em New Left Review, n. 71, set.-out. 2011,
pp. 5-29. O texto foi apresentado em abril de 2011 nas Max Weber Lectures,
promovido pelo European University Institute de Florença. Agradeço a Daniel
Mertens por sua assistência de pesquisa.
[**] Agradeço a Alexandre F. Barbosa pela leitura de verificação. Quaisquer
equívocos que possam ter permanecido na versão final da tradução são de minha
responsabilidade. [N. T.]
[1] Sobre a expressão, ver Reinhart, Carmen e Rogoff, Kenneth. This time is
different: eight centuries of financial folly. Princeton, Nova Jersey, 2009.
[2] A formulação clássica se encontra em Buchanan, James e Tullock, Gordon. The
calculus of consent: logical foundations of constitutional democracy. Ann
Arbor, Michigan, 1962.
[3] Cf. Thompson, Edward. "The moral economy of the English crowd in the
eighteenth century". Past & Present, vol. 50, n. 1, 1971; Scott, James. The
moral economy of the peasant: rebellion and subsistence in Southeast Asia. New
Haven (Connecticut), 1976. O conteúdo exato de tais direitos obviamente varia
entre diferentes contextos sociais e históricos.
[4] Goldthorpe, John. "The current inflation: towards a sociological account".
In: Hirsch, Fred e Goldthorpe, John (orgs.). The political economy of
inflation. Cambridge (Massachusetts), 1978.
[5] Já nos anos 1950, Anthony Downs notou que nas democracias as demandas dos
cidadãos por serviços públicos tendem a exceder a provisão de recursos
disponíveis ao governo; cf., por exemplo, "Why the government budget is too
small in a democracy". World Politics, vol. 12, n. 4, 1960. Ver também
O'Connor, James. "The fiscal crisis of the state". Socialist Revolution, vol.
1, n. 1-2, 1970.
[6] Avanços para alíquotas de imposto de renda mais altas em razão de aumentos
da renda nominal conforme a taxa de inflação. [N. do T.]
[7] Cf. Krippner, Greta. Capitalizing on crisis: the political origins of the
rise of finance. Cambridge (Massachusetts), 2011.
[8] Cf. Spiro, David. The hidden hand of American hegemony: petrodollar
recycling and international markets. Ithaca, Nova York, 1999.
[9] Cf. Reich, Robert. Locked in the cabinet. Nova York, 1997.
[10] Stiglitz, Joseph. The roaring nineties: a new history of the world's most
prosperous decade. Nova York, 2003.
[11] Crouch, Colin. "Privatised keynesianism: an unacknowledged policy regime".
British Journal of Politics and International Relations, vol. 11, n. 3, 2009.
[12] O gráfico mostra a evolução da crise no principal país capitalista, os
Estados Unidos, onde as quatro etapas se desdobraram de maneira típico-ideal.
Para outros países é preciso fazer ponderações que reflitam suas condições
específicas, entre as quais suas posições na economia global. Na Alemanha, por
exemplo, a dívida pública começou a se elevar acentuadamente já nos anos 1970.
Isso corresponde ao fato de que ali a inflação era baixa muito tempo antes de
Volcker, em razão da independência do Bundesbank e das políticas monetaristas
por ele adotadas já em 1974 (cf. Scharpf, Fritz. Crisis and choice in European
social democracy. Ithaca, 1991).
[13] Para uma coletânea representativa, ver Poterba, James e Von Hagen, Jürgen
(orgs.). Institutions, politics and fiscal policy. Chicago, 1999.
[14] Para um Estado com dívida pública correspondente a 100% do pib, um aumento
de dois pontos percentuais na taxa média dos juros que ele tem de pagar a seus
credores elevaria seu déficit anual na mesma proporção. Um déficit no orçamento
corrente de 4% do pib consequentemente aumentaria pela metade.
[15] Schumpeter, Joseph. "The crisis of the tax state" [1918]. In: Swedberg,
Richard (org.). The economics and sociology of capitalism. Princeton, 1991.
[16] Em outras palavras, nem mesmo os "mercados" estão dispostos a apostar seu
dinheiro no mantra supply-side [da doutrina macroeconômica assim denominada,
literalmente "do lado da oferta"], segundo o qual o crescimento é estimulado
por cortes nos gastos públicos. Por outro lado, quem poderá dizer quanta dívida
nova é suficiente - e quanta é além da conta - para que um país cresça mais
rápido do que sua dívida antiga?
[17] Os conceitos foram elaborados por David Lockwood em "Social integration
and system integration". In: Zollschan, George e Hirsch, Walter (orgs.).
Explorations in social change. Londres, 1964.
[18] Cf. Mair, Peter. Representative versus responsible government. Colônia,
2009 (Max Planck Institute for the Study of Societies, Working Paper 09/8).
[19] "Nós precisamos", afirmou Wolfgang Schåuble (Financial Times, 05/12/2010),
"de novas formas de governança internacional, governança global e governança
europeia". O ministro reconheceu que se o parlamento alemão fosse solicitado a
abrir mão de sua jurisdição sobre o orçamento imediatamente, "não se
conseguiria uma votação favorável", mas "se nos dessem alguns meses para
trabalhar nisso, e se nos dessem a esperança de que outros Estados-membros
também anuiriam, eu veria uma possibilidade". Schåuble estava falando,
convenientemente, como vencedor do concurso promovido pelo Financial Times para
eleger o ministro da Economia europeu do ano.
[20] Por exemplo, os apelos políticos à "solidariedade" redistributiva são
agora dirigidos a nações inteiras, instadas por organismos internacionais a
apoiar outras nações inteiras, a exemplo do pedido de que a Eslovênia ajude
Irlanda, Grécia e Portugal. Isso escamoteia o fato de que aqueles que estão
sendo apoiados por essa espécie de "solidariedade internacional" não são as
pessoas do povo, mas sim os bancos, nacionais e estrangeiros, que de outro modo
teriam de aceitar perdas ou lucros menores. Também elide diferenças de renda
entre as nações: se os alemães são em média mais ricos do que os gregos (ainda
que alguns gregos sejam bem mais ricos do que quase todos os alemães), os
eslovenos são em média bem mais pobres do que os habitantes da Irlanda, que
estatisticamente tem uma renda per capita mais alta do que quase todos os
países do euro, inclusive a Alemanha. Essencialmente, o novo alinhamento do
conflito traduz conflitos de classes na forma de conflitos internacionais,
contrapondo nações que estão sujeitas às mesmas pressões dos mercados
financeiros por austeridade pública. Pede-se a cidadãos comuns que demandem
"sacrifícios" de outros cidadãos comuns que por acaso são de outros Estados, em
vez de demandálos daqueles que há muito tempo voltaram a auferir seus "bônus".
[21] Wright Mills, C. The power elite. Oxford, 1956.