A rotatividade dos servidores de confiança no governo federal brasileiro, 2010-
2011
Em 7 de outubro de 2007, o então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou
Luiz Antonio Pagot para a Presidência do Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes (Dnit). Essa nomeação, de acordo com a mídia à
época, era um agrado ao governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, e ao Partido
da República (PR)1. Naquele ano, o PR só não foi mais fiel ao governo em
plenário, com uma taxa de 89,63% de apoio às Propostas do Executivo, do que o
Partido dos Trabalhadores (PT), com taxa de 93,95%2. A nomeação de Pagot
seguiu, portanto, critérios relativos à formação de maiorias no
Presidencialismo de coalizão.
Como Presidente do Dnit, Pagot, filiado ao PR desde 5 de março de 2007, ocupou
um cargo DAS-6. O acrônimo DAS refere-se a cargos de Direção e Assessoramento
Superior, que são os únicos de "livre Provimento" no Executivo federal
brasileiro. Ou seja, a eles podem ser indicadas pessoas que não fizeram
concurso (embora essa não seja a regra), como no caso de Pagot. O número 6
indica o mais alto nível desse tipo de cargo - acima dele, só o secretário-
executivo do ministério (ocupante de um cargo nes - Natureza Especial) e o
então ministro Alfredo Nascimento.
Pouco menos de quatro anos após sua nomeação, no início de julho de 2011, o
Presidente do Dnit foi acusado de liderar atos corruptos relativos a contratos
de obras. Outros servidores da cúpula do Ministério dos Transportes foram
afastados junto com Pagot3. Diretores regionais do Dnit correram riscos
desiguais de também perder o emprego: alguns deles tinham fortes padrinhos
políticos, enquanto outros já eram investigados pelo Tribunal de Contas da
União4.
De acordo com a imprensa, a presidenta Dilma Rousseff aproveitou a oportunidade
para "limpar" a corrupção do Dnit e do Ministério dos Transportes. Para isso,
demitiu diversos servidores de confiança filiados ao PR e a outros partidos,
Luiz Antonio Pagot entre eles. O ministro Alfredo Nascimento, também presidente
nacional do partido, anunciou que o PR deixaria a base do governo e entregaria
os cargos de confiança que ocupa no governo federal5. A decisão foi
posteriormente revista. O ministro caiu, e a presidenta recebeu elogios
internacionais pelas demissões feitas devido à descoberta de atos corruptos6.
A narrativa apresentada acima sobre a burocracia do governo federal brasileiro
e sua relação com os partidos políticos e a presidência da República é a do
cotidiano jornalístico: presidente nomeia servidor de confiança com base em
indicação de aliados, esse servidor é associado a atos corruptos e a nova
presidenta o demite porque o escândalo ganha bastante espaço na mídia e atinge,
indiretamente, sua credibilidade.
Essa narrativa talvez ilustre, no entanto, uma parte pequena da realidade. O
caso de Luiz Antonio Pagot no Dnit é um exemplo de rotatividade de servidores
de confiança no governo federal brasileiro. Pagot foi alçado ao cargo por
afinidades partidárias e demovido deste devido à publicização do escândalo de
corrupção em que esteve envolvido.
Para contextualizar o caso de Pagot e outros servidores de confiança filiados
ao PR, devemos olhar o histórico dos 134 filiados a esse partido que ocupavam
cargos DAS em dezembro de 2010. Trinta e oito deles (28,35%) foram demitidos
até abril de 2011, possivelmente como resultado da mudança de governo. De maio
até o fim de julho de 2011, ainda não contabilizando as demissões decorrentes
do escândalo no Ministério dos Transportes, apenas quatro outros filiados ao PR
foram demitidos de seus cargos de confiança. Notamos que a taxa de permanência
dos funcionários das filiados a esse partido foi 66,7%, a mais alta de todos os
partidos entre dezembro de 2010 e abril de 2011. A média do tempo de filiação
dos que permaneceram em seus cargos é de 13,3 anos, lembrando que o PR resultou
da fusão do Partido Liberal (pl) com o Partido de Reedificação da Ordem
Nacional (Prona) em outubro de 2006.
Afinal, quais são os determinantes de mudanças na composição da burocracia - ou
sua "rotatividade" - no Brasil? A estabilidade de ministros e burocratas é
considerada importante por analistas políticos, para que o setor público atinja
bons resultados e seja responsivo às demandas dos cidadãos. O excesso de
estabilidade dos burocratas em seus cargos, no entanto, pode ser também
associado à corrupção7. Ainda que Luiz Antonio Pagot seja inocente de atos
corruptos, é fato que ele permaneceu à frente do Dnit por quase quatro anos,
tempo suficiente para relacionar-se bem com lobbies ilícitos.
A literatura geralmente analisa a rotatividade de servidores públicos com
relação ao setor privado, verificando o que torna certos burocratas atraentes
para empresas privadas8. Essa é uma questão importante, sobretudo na área
econômica9. Este artigo analisa uma questão correlata: a rotatividade dos mais
de 20 mil servidores de confiança dentro do governo federal brasileiro entre
dezembro de 2010 e abril de 2011.
A principal pergunta a ser abordada é: a rotatividade dos funcionários se deve
a escândalos de corrupção ou à mudança do chefe do Executivo? Nossos dados
mostram que a taxa de permanência dos 20.808 servidores de confiança no governo
federal brasileiro entre dezembro de 2010 e abril de 2011 é 58,61%10.
Escândalos de corrupção não explicam esse resultado, enquanto a mudança do
chefe do Executivo é um fator mais plausível, de acordo com nossa análise.
Outros aspectos como a estabilidade de funcionários de carreira - que
frequentemente ocupam cargos de confiança - e a predileção de ministros por
servidores com longo tempo de serviço público para ocupar cargos desse tipo
podem dar uma visão mais completa desse fenômeno.
As evidências apresentadas são descritivas. Trata-se de uma análise
exploratória, sem a pretensão de chegar a conclusões definitivas sobre o
assunto. Essa análise se justifica, entre outros motivos, porque sabemos pouco
sobre como o Executivo funciona no nível federal brasileiro para além da
composição dos gabinetes ministeriais11 e de alguns estudos de caso sobre
ministérios bastante relevantes12. Sabemos pouco também sobre fatores que
afetam a continuidade de políticas públicas no Brasil. A rotatividade de
burocratas é, plausivelmente, um desses fatores.
O artigo está dividido em quatro partes. A primeira apresenta o tema dos cargos
de confiança e a literatura internacional sobre mudanças na composição da
burocracia. A segunda seção apresenta quatro hipóteses referentes à
rotatividade dos servidores de confiança e seus resultados. A terceira seção
discute os resultados e a quarta apresenta conclusões e apontamentos para
estudos futuros.
I. CARGOS DE CONFIANÇA NO BRASIL
Os cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS) foram fruto da reforma
administrativa iniciada em 1967, sendo formalizados em dezembro de 1970.Dois
anos depois, eles foram divididos em duas categorias: direção superior e
assessoramento superior. São também separados em níveis de 1 a 6, sendo que
salário e atribuições aumentam progressivamente. O funcionário DAS-1 ganha no
mínimo 2.115 reais, enquanto o DAS-6 recebe ao menos 11.179 reais. Esses
servidores, especialmente os de nível 4 a 6, têm acesso privilegiado à
informação governamental e atuam sobre a hierarquia no sentido de facilitar,
controlar, influenciar e implementar decisões.
O entendimento geral é que a distribuição dos cargos comissionados obedece à
lógica do presidencialismo de coalizão. O presidente eleito, para conseguir
maioria no Congresso, comporia uma coalizão na qual trocaria pastas
ministeriais por apoio no parlamento. Supõe-se que, para além do cargo de
ministro, o presidente distribui certo número de cargos na burocracia entre os
partidos aliados13.
Há cerca de 21 mil funcionários DAS em um universo de 538.143 empregados do
Executivo federal - quase 4%. Mas, ao contrário do que poderíamos imaginar,
apenas 13,6% dos cargos DAS são ocupados por filiados a partidos14.
Considerando apenas os cargos DAS-6, os mais importantes, esse percentual sobe
para 33,3%.
São filiados ao PT 913 servidores em cargos de confiança, um total de 31% dos
DAS com filiação partidária. Trezentos e noventa e oito, ou 12,94%, são
peemedebistas. O restante é dividido entre os demais partidos. Considerando
apenas a "elite do poder" - os DAS mais importantes, dos níveis 4, 5 e 6 -, a
vantagem pende para os petistas. Desses funcionários, 48,74% são filiados ao
PT, 9,77% ao PMDB e 6,43% ao PDT, com outros partidos logo atrás, variando
entre 4% e 2%.
A presença de partidos na burocracia governamental de alto nível pode ser uma
evidência contra o argumento de que "os partidos foram esvaziados em seu papel
de agregar demandas e transmiti-las às instâncias de formulação de políticas.
[...] Tornaram-se tributários do poder estatal, destituídos que foram de
funções governativas e, portanto, de capacidade efetiva de influir no processo
decisório"15.
Durante o governo FHC, os ministros eram responsáveis pelo preenchimento dos
cargos em comissão de DAS 1 a 4. Os níveis 5 e 6 podiam ser escolhidos
diretamente pelo presidente, mas não há evidências de que este se envolvia nas
escolhas de cargos de confiança além dos secretários-executivos dos ministérios
(ocupantes de cargos NES - Natureza Especial)16. A partir de junho de 2003, o
ministro da Casa Civil, na época José Dirceu, passou a ter competência para
escolher os funcionários que ocupariam os cargos de DAS. Dois anos depois, o
presidente Lula editou um decreto exigindo que 75% dos cargos de DAS dos níveis
1 a 3 e 50% dos cargos de nível 4 deveriam ser ocupados exclusivamente por
servidores de carreira.
Apesar de esforços recentes para entender a alta burocracia brasileira,
especialmente os DAS dos níveis 5 e 617, muito pouco se sabe sobre a dinâmica
interna desses cargos e os possíveis determinantes das mudanças na composição
da burocracia. Vale frisar que embora o desenvolvimento teórico de estudos
sobre a burocracia no Brasil seja incipiente comparado ao norte-americano, por
exemplo, empiricamente não estamos mal. Estudos recentes nos Estados Unidos
ainda analisam o posicionamento ideológico de ministros18 e da burocracia19
através de surveys.
Por que analisar a rotatividade dos servidores de confiança especialmente?
Esses são, sem dúvida, os principais cargos da burocracia do governo federal,
respondendo apenas aos ministros e, algumas vezes, aos secretários-executivos
das pastas ministeriais. Nem todos os órgãos ministeriais possuem cargos DAS,
mas tê-los indica relevância e prestígio para a burocracia20. São, também, os
únicos cargos de "livre provimento" - ou seja, que podem ser ocupados sem
concurso - no governo federal, com as ressalvas já explicitadas acima.
De acordo com a literatura, a rotatividade no serviço público pode ser boa por
três principais motivos. O primeiro é o de fazer circular novas soluções para
problemas existentes, trazendo indivíduos de outra burocracia ou mesmo de fora
do serviço público para oxigenar as ideias em torno de assuntos que cabem na
jurisdição do órgão ministerial21. É sabido que a falta de circulação de novas
ideias e de debate público sobre temas próprios da burocracia faz regimes
ditatoriais sofrerem com problemas que poderiam ser de fácil solução. Ditaduras
não acolhem novidades, mas sim matam seus proponentes, como o engenheiro russo
Peter Palchinsky22.
O segundo motivo pelo qual a rotatividade de burocratas pode ser boa é para
evitar o compadrio destes com lobbies ilícitos23. Outro argumento importante a
favor da rotatividade é o de esta ser um corretivo à incerteza inerente às
relações de delegação entre políticos e burocratas24. Quando o chefe do
Executivo nomeia um ministro ou um servidor DAS para seu posto, não se sabe
como o nomeado irá se comportar. É possível que um ministro do PMDB proponha
políticas mais à direita do que o governo do PT deseja; é possível que um
funcionário DAS-5 do Ministério do Meio Ambiente persiga políticas indesejadas
pela presidenta do PT. São exemplos fictícios, mas plausíveis, dos riscos
inerentes à delegação político-burocrata em democracias25. A demoção de
ministros ou burocratas "hostis" pode corrigir os rumos do governo, reajustando
os objetivos dos órgãos governamentais às políticas desejadas pelo chefe do
Executivo26.
Há também bons argumentos contra a rotatividade de funcionários, todos de
alguma maneira ligados à ideia de que a alta rotatividade afeta negativamente o
desempenho do serviço público. Isso ocorreria porque a alta rotatividade pode:
i) permitir que se perca o expertise organizacional e temático de burocratas
especialistas em certo assunto27; ii) dificultar a implementação de avaliação
do desempenho do serviço público28; iii) aumentar os custos de monitoramento da
burocracia por parte do chefe do Executivo, pois monitorar novos atores é mais
difícil do que monitorar atores com os quais presidente e ministros convivem há
mais tempo29; iv) desperdiçar a experiência dos burocratas com redes informais
de poder na área em questão30; v) tornar órgãos com rotatividade alta demais
pouco atraentes para servidores mais qualificados31.
Diversos autores tratam dos determinantes da rotatividade de gestores locais32,
ministros em parlamentarismos33 e servidores nomeados pelo presidente norte-
americano34. Entre os fatores que podem afetar as taxas de rotatividade estão
escândalos de corrupção35, ambiente e política organizacional36, baixos
salários para servidores públicos comparados a posições equivalentes no setor
privado37 e discordância em torno de políticas substantivas entre o presidente
e o Legislativo38.
Neste artigo, dois argumentos orientam nossas hipóteses sobre a rotatividade
dos servidores de confiança no Brasil. O primeiro é o de que a eleição de um
novo presidente, mesmo que seja do mesmo partido que o anterior, motiva
mudanças na burocracia. Isso ocorreria porque cada presidente tem objetivos
políticos diferentes e um mandato específico, conferido pela maioria do
eleitorado, para perseguir certos resultados em vez de outros. O segundo
argumento é o de que mudanças na composição da burocracia são motivadas por
escândalos de corrupção. Uma vez associados a atos corruptos, órgãos
ministeriais puniriam os servidores de confiança.
Antes de apresentar as hipóteses, cabe uma breve explicação metodológica. O
Portal da Transparência do Governo Federal (www.transparencia.gov.br), mantido
pela Controladoria-Geral da União desde novembro de 2004, disponibiliza uma
lista completa dos servidores do governo e os órgãos ministeriais nos quais
estes trabalham39. Em abril de 2011, havia 326 órgãos nos quais funcionários do
governo federal trabalhavam. Cento e um eram órgãos de governos municipais e
estaduais para os quais servidores federais haviam sido transferidos; 110 eram
órgãos sem jurisdição nacional, como universidades federais e centros de
pesquisa; 14 eram órgãos já extintos, associados a nomes de servidores
específicos na tabela do governo por motivos de pagamento; 10 eram agências
reguladoras com função mais fiscalizadora do que de policymaking; 91 eram
órgãos que consideramos, de fato, como sendo do governo federal e responsáveis
por políticas de alcance nacional40.
Nem todos esses, no entanto, contavam com servidores do tipo DAS, já que há
outras maneiras de promover funcionários e dar a eles responsabilidades maiores
do que para outros, como através DAS "funções gratificadas"41. Os quinze órgãos
ministeriais sem servidores DAS foram excluídos da análise42, bem como os sete
que não contam com servidores DAS de nível 643. Analisamos, assim, 69 órgãos do
governo federal, todos elencados na tabela_1 do anexo.
I. HIPÓTESES E RESULTADOS
A principal pergunta abordada neste artigo é: a rotatividade dos funcionários
de confiança é afetada por escândalos de corrupção ou pela mudança do chefe do
Executivo?
A primeira hipótese é a de que a taxa de permanência dos funcionários de
ministérios comandados por partidos diferentes no governo de Dilma Rousseff é
menor que a dos ministérios que continuaram sob o comando do mesmo partido
(H1). Nesse caso, seria a mudança do chefe do Executivo e de suas prioridades
que afetaria a mudança nos partidos que controlam o ministério e,
consequentemente, a composição do quadro de funcionários dos mesmos. Isso
valeria especialmente para funcionários que ocupam cargos de confiança do nível
4 ao 6, pois são estes os responsáveis por funções de policymaking e, portanto,
mais suscetíveis à substituição do que outros funcionários (H2).
Os ministérios que mudaram de ministro de dezembro de 2010 para abril de 2011
foram: Previdência Social (PT para o PMDB), Relações Exteriores (PT para sem
filiação), Comunicações (PMDB para PT), Integração Nacional (PMDB para psb),
Saúde (PMDB para PT), Ciência e Tecnologia (psb para PT), Cultura (pv para sem
filiação), Desenvolvimento (sem filiação para PT), Meio Ambiente (PT para sem
filiação) e Turismo (PT para PMDB).
Trinta e três órgãos ministeriais44 compõem os dez ministérios mencionados
acima e seus servidores de confiança poderiam ter sido potencialmente afetados
pela mudança de chefia do ministério.
Para a hipótese 1, esperamos que a taxa de permanência dos funcionários DAS em
órgãos afetados por mudança de partido seja menor que a dos demais órgãos. Para
a hipótese 2, esperamos que: i) a taxa de permanência dos funcionários DAS de
nível 4 a 6 dentro de órgãos afetados por mudança de partido seja menor do que
a taxa de permanência dos demais DAS; ii) a taxa de permanência dos
funcionários DAS de nível 4 a 6 dentro de órgãos afetados por mudança de
partido seja menor do que a dos mesmos funcionários nos demais órgãos; iii) a
taxa de permanência dos funcionários de mais alto nível (DAS-6) dentro de
órgãos afetados por mudança de partido seja menor do que a taxa de permanência
dos demais DAS; iv) a taxa de permanência dos funcionários de mais alto nível
(DAS-6) dentro de órgãos afetados por mudança de partido seja menor do que a
dos mesmos funcionários nos demais órgãos.
A confirmação desses cinco argumentos daria suporte à lógica da mudança do
chefe do Executivo como determinante da rotatividade de funcionários de
confiança do governo federal brasileiro. A Tabela_1 mostra os resultados.
A primeira hipótese parece menos plausível: a taxa de permanência de todos os
funcionários DAS em órgãos afetados por mudanças de partido é dois pontos
percentuais maior do que a dos demais órgãos, se excluirmos a Presidência da
República45. Quanto à hipótese 2, os argumentos i, iii e iv encontram mais
apoio nos dados. Apenas o argumento ii, segundo o qual funcionários DAS de
nível 4 a 6 teriam maior rotatividade em órgãos afetados por mudança de
partido, parece menos plausível, pois o número é praticamente o mesmo para os
dois tipos de órgãos.
No Ministério da Pesca, apesar de não haver mudança no partido que controlou o
ministério, nenhum funcionário DAS permaneceu. No Ministério do Desenvolvimento
Social e no Ministério DAS Relações Exteriores, apenas cerca de 30% dos
servidores de confiança permaneceram em seus cargos. Observando dados
desagregados por órgãos ministeriais, nenhum dos 113 funcionários DAS do
Instituto Brasileiro de Museus (Ministério da Cultura) permaneceu. No
Departamento Nacional de Produção Mineral (Ministério de Minas e Energia) a
rotatividade também foi alta: apenas 27% dos DAS mantiveram seus cargos.
A taxa de permanência dos funcionários DAS do Ministério da Fazenda foi de
63,6% - um pouco acima da média geral, mas bastante abaixo, por exemplo, da do
Ministério dos Transportes (82% de permanência). Esse dado alerta para a
pertinência de repensar o Ministério da Fazenda como excepcional, com padrões
de funcionamento diferentes dos demais ministérios da Esplanada46.
Os resultados referentes a essas duas hipóteses nos dão duas principais lições.
A primeira é a de que mudanças na direção dos ministérios não necessariamente
se traduzem em mudanças na composição dos cargos de confiança. Isso pode ser
uma evidência de que novos ministros (e novos partidos ocupando ministérios) se
aproveitam da expertise de funcionários de confiança já existentes nesses
ministérios para poder realizar uma transição menos penosa. Voltaremos a esse
ponto mais adiante.
A segunda é a de que os funcionários de confiança com funções de policymaking
dentro dos órgãos ministeriais são mais afetados pela mudança da chefia do que
os demais funcionários. Isso é natural se considerarmos que a principal função
dos ministérios é implementar leis, algo que nem sempre é levado em conta por
parte da literatura internacional sobre o Brasil. Barbara Geddes47 e Peter
Evans48, por exemplo, afirmam que o governo federal contém "ilhas de
excelência" responsáveis por governar com autonomia da política e órgãos
burocráticos que são mais usados para fins de clientelismo. Os resultados
vistos aqui mostram que essa visão precisa ser revista, ao menos parcialmente.
A terceira hipótese é a de que a rotatividade de funcionários que trabalham nos
órgãos da Presidência da República deve ser mais alta do que nos demais órgãos
(H3), pois é na Presidência que se concentram os principais assessores do chefe
do Executivo49. A Casa Civil da Presidência da República, especificamente, é o
órgão que coordena a produção de medidas legislativas dentro do Executivo,
recolhendo as propostas de ministros e transformando algumas delas em projetos
de lei, projetos de emenda constitucional ou medidas provisórias50. Os
resultados são mostrados na Tabela_2.

A taxa de permanência dos funcionários de confiança da Presidência da República
foi, na média, 42,2% - ou seja, abaixo da média dos órgãos ministeriais como um
todo. No entanto, a Tabela_2 mostra que órgãos auxiliares à Presidência (agu,
cgu, Ipea e Vice-Presidência) foram incluídos nessa conta. Considerando apenas
a estrutura específica da Presidência, incluindo a Casa Civil, a taxa de
permanência dos servidores DAS sobe para 60%, bastante parecida com a média
geral do governo.
Esses dados permitem dimensionar o grau de mudança na burocracia crucial para a
coordenação de políticas públicas governamentais que ocorreu na transição de um
governo petista para o outro. O fato de a nova presidenta não haver substituído
mais funcionários de confiança da Presidência do que a média dos ministérios
indica, com dados concretos, forte continuidade entre seu governo e o governo
Lula. Vale lembrar também que, mais recentemente, Dilma Rousseff tem indicado
seguir prioridades diferentes DAS do governo anterior51, mas o fato é que isso
acontecerá com muitos funcionários de confiança que mantiveram os cargos
obtidos no governo Lula.
Nossa quarta hipótese é a de que órgãos ministeriais afetados por escândalos de
corrupção deveriam exibir maior rotatividade dos servidores de confiança do que
os demais órgãos (H4). O raciocínio que a sustenta é o de que a presidenta
deve, em resposta à opinião pública, realizar um expurgo de funcionários de
confiança nos órgãos ministeriais associados a escândalos.
É necessário, antes de mais nada, alertar para o caráter exploratório da
análise. Não propomos uma medida de "corrupção" concreta para o sistema
político brasileiro, assunto espinhoso e de graves limitações metodológicas52,
sem resposta convincente na vasta literatura internacional sobre corrupção53.
Propomos analisar como a publicização de escândalos de corrupção pode ser um
dos fatores que afetam a distribuição de cargos de confiança no governo federal
brasileiro.
A fonte sobre escândalos de corrupção é o projeto "Deu no Jornal", organizado
pela ong Transparência Brasil. Trata-se da compilação, na internet, de
reportagens sobre corrupção em 73 veículos de imprensa espalhados pelo Brasil,
incluindo revistas e jornais de circulação nacional. O projeto abrange notícias
publicadas desde 26 de janeiro de 2004. Usar a imprensa como fonte sobre
corrupção de fato, como Edward Glaeser e Claudia Goldin54 fizeram, não é uma
boa solução; mas usá-la como fonte sobre a publicização de escândalos de
corrupção, a exemplo de Pereira, Rennó e Samuels55, é mais razoável.
A pesquisa no projeto "Deu no Jornal" precisa ser usada com cuidado. Há órgãos
ministeriais que combatem a corrupção (como a Advocacia-Geral da União, a
Controladoria-Geral da União e a Polícia Federal) e por isso, obviamente, são
muito citados nas reportagens sobre o assunto. Uma leitura cuidadosa indica que
esses órgãos não estiveram envolvidos, eles mesmos, em casos de corrupção
dentro do período analisado. Outros órgãos, como o Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação56, são citados como possíveis fiscalizadores de
programas. Há ainda órgãos que são citados em escândalos de prefeituras e por
isso não foram contabilizados.
No período de tempo considerado aqui - 1º de dezembro de 2010 a 31 de abril de
2011 -, os seguintes órgãos ministeriais foram associados a escândalos de
corrupção: Incra, inss, Ministério da Previdência Social, Ministério do Turismo
e Vice-Presidência da República57. Não é demais frisar que a análise aqui feita
não implica a crença na culpa dos servidores desses órgãos, tampouco a crença
na falta de corrupção em outros órgãos do governo. Lembramos também que
estender essa análise para pontos futuros no tempo ainda não foi possível, mas
é recomendável.
A Tabela_3 mostra a taxa de permanência dos servidores de confiança dos órgãos
afetados por escândalos de corrupção vs. órgãos não afetados por escândalos.
Discriminamos três taxas de permanência: a de todos os funcionários DAS, a dos
funcionários DAS de nível 4 a 6, e a dos funcionários DAS de nível 6.
É razoável excluir dessa análise o órgão da Vice-Presidência, pois podemos
esperar que a rotatividade de servidores nesse órgão esteja mais ligada à
lógica de mudança da chefia do Executivo: com um novo vice-presidente, no caso
Michel Temer (PMDB), tem-se novos funcionários de confiança para servi-lo.
Portanto, é muito mais plausível que a taxa de rotatividade de 100% dos
servidores DAS do órgão esteja mais ligada a esse fator do que a um escândalo
de corrupção.
Observamos que os quatro órgãos afetados por escândalos de corrupção tiveram
uma taxa de permanência de seus funcionários de confiança maior do que a dos
demais órgãos, inclusive no caso de funcionários que ocupam cargos de nível
mais alto. A lógica muda quando se trata de apenas funcionários DAS de nível 6:
nenhum deles manteve o cargo em órgãos afetados por escândalos de corrupção no
período analisado.
Há ao menos duas explicações para esses resultados. A primeira é que os
expurgos pós-escândalos são realizados no nível mais alto dos órgãos
ministeriais. Vale lembrar que Luiz Antonio Pagot, chefe do Dnit citado no
início deste artigo58, ocupava um cargo DAS-6. Isso é compreensível se
considerarmos que a briga entre partidos para ocupar cargos de confiança é mais
acirrada quanto mais importante é o cargo.
A segunda explicação é que boa parte dos cargos de confiança no governo federal
brasileiro são ocupados por servidores de carreira, e demiti-los é bastante
difícil. O Decreto 5.497, de julho de 2005, definiu que 75% dos cargos DAS de
nível 1 a 3 e metade dos DAS de nível 4 deveriam ser ocupados por servidores de
carreira. Embora não haja punição, na prática, para o não cumprimento dessa
regra, é um indício de que muitos cargos de confiança são ocupados por
servidores de carreira, e não por outsiders. Dada a estabilidade do serviço
público, demitir um funcionário por participar de atos corruptos pode ser algo
bastante demorado.
III. A POLICY EXPERTISE COMO EXPLICAÇÃO ALTERNATIVA
Nossa análise mostra que as demissões de servidores de confiança não são
inteiramente explicadas pelo envolvimento desses em escândalos de corrupção ou
pela mudança de controle do ministério. Quais são outras explicações plausíveis
para entender a rotatividade desse tipo de funcionário no governo federal
brasileiro?
Cada órgão ministerial possui motivos próprios, internos, para realizar
mudanças na sua composição, mesmo no caso dos servidores de confiança,
largamente (e de modo exagerado59) associados à interferência partidária. Uma
burocracia pode, plausivelmente, evitar a rotatividade de seus funcionários de
modo a ganhar autonomia e expertise frente a outras burocracias. Ou pode
desejar a renovação de seus quadros técnicos por motivos de idade60. Assim,
mudanças nos cargos de confiança poderiam obedecer à dinâmica interna dos
órgãos ministeriais. E isso não teria relação direta com escândalos de
corrupção nem mudanças na chefia do Executivo, mas sim com a vontade da
burocracia (e seus chefes) de ganhar com a expertise de funcionários.
Uma boa definição de expertise é a de Callander61, para quem um policy expert é
alguém que possui mais sabedoria do que outras pessoas sobre como políticas
públicas de certa área se traduzem em resultados concretos para a população.
Podemos interpretar, a partir disso, que policy experts também sabem navegar na
burocracia de modo a persuadir colegas e chefes de que a política X é melhor do
que a Y.
Isso é ilustrado de maneira fascinante em um artigo sobre a burocracia no
início dos anos 1990 no Brasil62. O pesquisador entrevistou dois assessores
parlamentares, respectivamente do Ministério do Trabalho e do Ministério da
Agricultura: "Enquanto o primeiro sobreviveu à troca de ministro [por ter]
montado um eficiente sistema informatizado de acompanhamento e análise do
processo legislativo, capacitando o ministério a acompanhar a tramitação de
projetos de lei [de interesse do ministério], o segundo, ocupando o cargo desde
1986, demonstrava um excelente conhecimento do complexo jogo político
congressual e uma grande articulação com os lobbies da agricultura e suas
respectivas bancadas no Congresso".
Para verificar o grau de expertise dos funcionários de confiança no governo
federal brasileiro atual, medimos o tempo de serviço público de dois tipos de
ocupantes desses cargos: filiados a partidos que permaneceram em seus cargos
após a transição Lula-Dilma e os que perderam seu cargo. O primeiro grupo tem,
em média, 15,74 anos de serviço público, enquanto o segundo grupo tem 13,74.
Isso mostra que ser um funcionário das filiado a um partido não garante a
manutenção do cargo. É um indício de que a burocracia valoriza a expertise de
funcionários de confiança: quanto mais tempo de serviço público um sujeito tem,
mais expert ele é.
Um indício ainda mais forte disso é o fato de que cerca de 2% dos funcionários
das são filiados ao PSDB ou ao DEM, partidos de oposição ao governo petista.
São 423 funcionários, concentrados principalmente no Ministério da Fazenda, no
Ministério da Saúde e no Ministério do Planejamento. Cinco por cento deles
ocupam cargos das nos níveis 5 e 6. Para diversos autores, burocracias da área
econômica exibem características diferentes das demais, notadamente por se fiar
mais em experts sem se preocupar tanto com a lógica partidária de distribuição
de cargos63. O dado apresentado aqui mostra a pertinência de estender essa
hipótese para burocracias da área social, como o Ministério da Saúde.
Do ponto de vista estritamente organizacional, a diversidade de preferências
políticas pode ser positiva64. No entanto, é plausível imaginar que um órgão
ministerial com muitos representantes de partidos diversos, sobretudo nos
níveis 5 e 6, pode ter dificuldades para formular sua agenda.
Os funcionários DAS filiados ao PSDB e ao dem possuem, em média, catorze anos
de carreira pública. Nota-se ainda que os filiados aos partidos da oposição nos
altos cargos são funcionários de carreira com cerca de três anos a mais de
serviço público do que a média dos demais filiados ocupantes dos cargos de
mesmo nível. Os servidores tucanos tiveram taxa de permanência equivalente a
62%, enquanto para os filiados ao dem a taxa foi de 62,6%. Essa média é mais
alta do que a dos filiados aos demais partidos (53%), o que indica que parte da
explicação sobre a rotatividade dos servidores está ligada a critérios de
escolha internos à lógica burocrática. Afinal, burocratas "hostis"65, com
preferências políticas bastante distintas das dos partidos da coalizão,
deveriam, de acordo com a lógica partidária, ser expurgados completamente de
cargos de confiança.
IV. CONCLUSÕES
A análise aqui empreendida mostra que: i) mudanças partidárias na direção dos
ministérios não necessariamente se traduzem em mudanças na composição dos
cargos de confiança; ii) funcionários de confiança com funções de policymaking
dentro dos órgãos ministeriais (ou seja, os das-4 a 6) são mais afetados pela
mudança da chefia do que os demais funcionários; iii) funcionários de confiança
da Presidência da República têm, em média, a mesma taxa de permanência que os
funcionários de outros órgãos; iv) órgãos afetados por escândalos de corrupção
tiveram uma taxa de permanência de seus funcionários de confiança maior do que
a dos demais órgãos.
Encontramos alguma evidência de que a rotatividade dos funcionários de
confiança no governo federal brasileiro é diretamente afetada pela mudança da
chefia do Executivo, embora isso esteja longe de explicar esse fenômeno como um
todo. Apontamos a necessidade de considerar fatores como a policy expertise
(medida em tempo de serviço público) dos funcionários das, bem como a ocupação
desses cargos por servidores de carreira, para entender por que alguns
funcionários permanecem em seus cargos enquanto outros são demovidos.
Esses resultados e análises são importantes por pelo menos dois motivos. O
primeiro é o de mostrar que a rotatividade da elite burocrática no Brasil
recente tem taxas parecidas com a rotatividade da elite parlamentar. Como
vimos, a taxa de permanência dos 20.808 servidores de confiança no governo
federal brasileiro entre dezembro de 2010 e abril de 2011 é 58,61%. A taxa de
permanência dos deputados federais brasileiros nas eleições de 1995 a 2007 foi,
em média, 44%66. Isso mostra que o país oxigena suas lideranças de um modo
razoável para uma democracia, sem contar tanto com caciques e líderes
oligárquicos quanto alguns imaginam.
Além disso, analisar a rotatividade da elite da burocracia brasileira é
bastante relevante para pensar a estabilidade das políticas públicas por ela
sugerida, produzida e implementada67. Órgãos ministeriais com maior turnover
produzem políticas públicas de pior qualidade do que os demais? Como a
diferente composição de funcionários DAS-4 a 6, com relevantes funções de
formulação das políticas, afeta o conteúdo destas? Trata-se de uma linha de
pesquisa promissora.
Por último, este estudo mostra a necessidade de realizar mais pesquisas para
entender como funcionam os ministérios não apenas nas relações Executivo-
Legislativo, mas também nas relações "Executivo-Executivo". Sabe-se que há o
empréstimo de servidores de um órgão ministerial para outro68 e suspeita-se
fortemente que a rotatividade de funcionários está associada ao desempenho do
serviço público. Como se dá a dinâmica de "requisitar" servidores de um órgão
para outro? Como é possível medir, de maneira razoável e válida para todos os
órgãos ministeriais, o desempenho da administração pública federal? São
questões relevantes a considerar em estudos futuros sobre a burocracia
brasileira.
SÉRGIO PRAÇA é doutor em Ciência Política pela usp, com pós-doutorado pela fgv-
sp, e professor de Políticas Públicas na Universidade Federal do abc. Durante a
pesquisa que deu origem a este texto, teve financiamento da Fapesp.
BRUNO HOEPERS é doutorando em Ciência Política na Universidade de Pittsburgh.
ANDRÉA FREITAS é doutoranda em Ciência Política na usp com financiamento da
Capes.
[*] Agradecemos aos dois pareceristas anônimos da revista por comentários que
ajudaram a melhorar o artigo.
[1] "Lula entrega dnit ao PR para recompensar fidelidade da legenda". O Estado
de S. Paulo, 7/10/2007.
[2] Banco de Dados Legislativos do Cebrap.
[3] "Dilma afasta cúpula do Ministério dos Transportes envolvida em esquema de
propina". Veja Online, 2/7/2011.
[4] "Na mira da presidente, 15 dos 23 Dnits nos Estados têm focos de
corrupção". O Estado de S. Paulo, 24/7/2011.
[5] "PR deixa base, entrega cargos e prega 'voto consciente'". O Estado de S.
Paulo, 17/8/2011.
[6] "Dilma tries to drain the swamp". The Economist, 20/8/2011.
[7] Abbink, K. "Staff rotation as an anti-corruption policy: an experimental
study". European Journal of Political Economy, vol. 20, nº 4, 2004, pp. 887-
906.
[8] Borjas, George J. "Labor turnover in the U.S. federal bureaucracy". Journal
of Public Economics, vol. 19, nº 2, 1982, pp. 187-202.
[9] Ver, nesse sentido, Fiuza, Guilherme. 3.000 dias no bunker. Rio de Janeiro:
Record, 2006, pp. 218-19; e Olivieri, Cecília. "Política,
burocracia e redes sociais: as nomeações para o alto escalão do Banco Central
do Brasil". Revista de Sociologia e Política, nº 29, 2007, pp. 147-68.
[10] A tabela_1 do anexo mostra a taxa de permanência desagregada por órgão
ministerial. A escolha dos órgãos ministeriais analisados será explicitada em
seguida.
[11] Amorim Neto, Octavio. "Formação de gabinetes presidenciais no Brasil:
coalizão versus cooptação". Nova Economia, vol. 4, nº 1, 1994, pp. 9-34; idem. "Gabinetes presidenciais, ciclos eleitorais e
disciplina legislativa no Brasil". Dados, vol. 43, nº 3, 2000, pp. 479-519.
[12] Loureiro, Maria Rita e Abrucio, Fernando. "Burocracia e política na nova
ordem democrática brasileira: o provimento de cargos no alto escalão".
Relatório de Pesquisa, fgv-sp, 1997. Uma revisão interessante
dessa literatura é a de Abrucio, Fernando L., Pedroti, Paula e Pó, Marcos
Vinicius. "A formação da burocracia brasileira: a trajetória e o significado
das reformas administrativas". In: Loureiro, Maria Rita, Abrucio, Fernando e
Pacheco, Regina (eds.). Burocracia e política no Brasil: desafios para o Estado
democrático no século xxi. Rio de Janeiro: Ed. fgv, 2010, pp. 27-71.
[13] Mostramos, em outro artigo, que a maioria dos partidos da coalizão
controla menos cargos na burocracia do que seu peso parlamentar levaria a crer.
Ver Praça, Sérgio, Freitas, Andréa e Hoepers, Bruno. "Political appointments
and coalition management in Brazil, 2007-2010". Journal of Politics in Latin
America, vol. 3, nº 2, 2011, pp. 141-72.
[14] Ignoramos algumas dezenas de homônimos, mas isso não afeta a análise. Para
uma explicação metodológica extensa sobre esse ponto, ver o Anexo I do texto
citado na nota anterior.
[15] Diniz, Eli. Crise, reforma do Estado e governabilidade. Rio de Janeiro:
Ed. fgv, 1997, p. 19.
[16] Para mais detalhes, ver Loureiro, Maria Rita e Abrucio, Fernando.
"Burocracia e política na nova ordem democrática brasileira: o provimento de
cargos no alto escalão". Relatório de Pesquisa, fgv-sp, 1997.
[17] D'Araujo, Maria Celina. A elite dirigente do governo Lula. Rio de Janeiro:
Ed. fgv, 2009.
[18] Bertelli, Anthony M. e Grose, Christian R. "The lengthened shadow of
another institution? Ideal point estimates for the Executive Branch and
Congress". American Journal of Political Science, vol. 55, nº 4, 2011, pp. 767-
81.
[19] Clinton, Joshua D. e Lewis, David. "Expert opinion, agency
characteristics, and agency preferences". Political Analysis, vol. 16, nº 1,
2008, pp. 3-16.
[20] Leitão, Miriam. Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda.
Rio de Janeiro: Record, 2011, pp. 290-91.
[21] Kingdon, John W. Agendas, alternatives, and public policies. New York:
Addison-Wesley, 1995; Huber, John e Martinez-Gallardo,
Cecilia. "Cabinet instability and the accumulation of experience: the French
fourth and fifth republics in comparative perspective". British Journal of
Political Science, vol. 34, nº 1, 2004, pp. 27-48.
[22] Graham, Loren. The ghost of the executed engineer: technology and the fall
of the Soviet Union. Harvard: Harvard University Press, 1993.
[23] Abbink, K. "Staff rotation as an anti-corruption policy: an experimental
study". European Journal of Political Economy, vol. 20, nº 4, 2004, pp. 887-
906; Rauch, James."Leadership selection, internal promotion,
and bureaucratic corruption in less developed polities". Canadian Journal of
Economics, vol. 34, nº 1, 2001, p. 240-58.
[24] Huber, John e Martinez-Gallardo, Cecilia. "Replacing cabinet ministers:
patterns of ministerial stability in parliamentary democracies". American
Political Science Review, vol. 102, nº 2, 2008, pp. 169-80.
[25] Martin, Lanny e Vanberg, Georg. "Policing the bargain: coalition
government and parliamentary scrutiny". American Journal of Political Science,
vol. 48, nº 1, 2004, pp. 13-27.
[26] Lewis, David. The politics of presidential appointments: political control
and bureaucratic performance. Princeton: Princeton University Press, 2008.
[27] Carpenter, Daniel P. The forging of bureaucratic autonomy: reputations,
networks, and policy innovations in executive agencies, 1862-1928. Princeton:
Princeton University Press, 2001, p. 29.
[28] Abrucio, Fernando. "Profissionalização". In: Andrade, Regis de Castro e
Jaccoud, Luciana (orgs.). Estrutura e organização do Poder Executivo:
administração pública brasileira. Brasília: enap/cedec, 1993, pp. 33-107.
[29] Huber, John. "How does cabinet instability affect political performance?
Portfolio volatility and health care cost containment in parliamentary
democracies". American Political Science Review, vol. 92, nº 3, 1998, pp. 577-
91.
[30] Lewis, David. The politics of presidential appointments: political control
and bureaucratic performance. Princeton: Princeton University Press, 2008, p.
58.
[31] Ibidem.
[32] Boyne, George e outros. "Executive succession in English local
government". Public Money & Management, vol. 28, nº 5, 2008, pp. 267-74.
[33] Berlinski, Samuel, Dewan, Torun e Dowding, Keith. "The impact of
individual and collective performance on ministerial tenure". Journal of
Politics, vol. 72, nº 2, 2010, pp. 559-71; Indridason,
Indridi H. e Kam, Christopher. "Cabinet reshuffles and ministerial drift".
British Journal of Political Science, vol. 38, nº 4, 2008, pp. 621-56.
[34] Chang, Kelly, Lewis, David e McCarty, Nolan. "The tenure of political
appointees". Texto apresentado no Encontro Anual da American Political Science
Association, 2001.
[35] Dewan, Torun e Dowding, Keith. "The corrective effect of ministerial
resignations on government popularity". American Journal of Political Science,
vol. 49, nº 1, 2005, pp. 46-56; Dewan, Torun e Myatt, David
P. "Scandal, protection, and recovery in the cabinet". American Political
Science Review, vol. 101, nº 1, 2007, pp. 63-77.
[36] Boyne e outros, op. cit.
[37] Chang, Lewis e McCarty, op. cit.
[38] Ibidem.
[39] Essa disponibilidade de dados tem origem no importante aumento da
transparência governamental iniciada por Luiz Carlos Bresser-Pereira no antigo
Ministério da Administração e Reforma do Estado através do Boletim Estatístico
de Pessoal, que começou a ser editado em maio de 1996. Esse boletim, no
entanto, só traz dados agregados por ministérios - daí a importância do Portal
da Transparência, que traz dados individuais dos servidores.
[40] Mais considerações sobre os vários tipos de órgãos do governo federal
brasileiro estão em Taylor, Matthew, Praça, Sérgio e Katherine Schlosser-
Bersch. "An archipelago of excellence? Evaluating agency capacity in Brazil".
Texto apresentado no workshop State Capacity in the Developing World, da
Princeton University e da Universidade de São Paulo, fevereiro de 2012.
[41] Sobre esse aspecto, ver Pacheco, Regina Silvia. "Profissionalização,
mérito e proteção da burocracia no Brasil". In: Loureiro, Abrucio e Pacheco,
op. cit.
[42] São eles: Banco Central, Companhia Brasileira de Trens Urbanos, Companhia
de Desenvolvimento do Vale São Francisco, Companhia Nacional de Abastecimento,
Embrapa, Empresa Brasil de Comunicação, Empresa de Pesquisa Energética, Empresa
de Trens Urbanos de Porto Alegre, Indústrias Nucleares do Brasil, Instituto
Nacional de Educação de Surdos, Nuclebrás Equipamentos Pesados, Procuradoria-
Geral da República, Receita Federal, Serviço Federal de Processamento de Dados
e Valec.
[43] São eles: Agência Espacial Brasileira (81,2), Centro Nacional de
Tecnologia Avançada (0), Comando da Aeronáutica (77,3), Comando da Marinha
(85,9), Comando do Exército (88,3), Defensoria Pública da União (20,0) e
Departamento de Polícia Rodoviária Federal (57,8). A exclusão desses órgãos
implica excluir 410 servidores DAS-1 a 5. A taxa de permanência desses
servidores entre dezembro de 2010 e abril de 2011 está entre parênteses.
[44] São eles: Instituto Nacional de Seguro Social; Ministério da Previdência
Social; Superintendência Nacional de Previdência Complementar; Fundação
Alexandre Gusmão; Ministério das Relações Exteriores; Ministério das
Comunicações; Departamento Nacional de Obras Contra as Secas; Ministério da
Integração Nacional; Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia;
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste; Fundação Nacional de Saúde;
Fundação Oswaldo Cruz; Ministério da Saúde; Comissão Nacional de Energia
Nuclear; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico;
Ministério da Ciência e Tecnologia; Fundação Biblioteca Nacional; Fundação Casa
de Rui Barbosa; Fundação Cultural Palmares; Fundação Nacional das Artes;
Instituto Brasileiro de Museus; Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional; Ministério da Cultura; Instituto Nacional da Propriedade Industrial;
Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial;
Ministério do Desenvolvimento Industrial e Comércio Exterior; Superintendência
da Zona Franca de Manaus; Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis; Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade;
Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro; Ministério do Meio
Ambiente; Instituto Brasileiro de Turismo; Ministério do Turismo.
[45] A Presidência da República será tratada separadamente.
[46] Stein, Ernesto e outros. The politics of policies: economic and social
progress in Latin America. 2006 Report. Washington, D.C.: Inter-American
Development Bank, 2006, p. 64.
[47] Geddes, Barbara. Politician's dilemma: building state capacity in Latin
America. Berkeley: University of California Press, 1994.
[48] Evans, Peter B. Embedded autonomy: states and industrial transformation.
Princeton: Princeton University Press, 1995.
[49] Lameirão, Camila. "A Casa Civil como instituição do Executivo federal".
Desigualdade & Diversidade, edição especial, dez., 2011, pp. 143-84; Rennó, Lucio. "A estrutura organizacional da Presidência da
República no Brasil: agenda de pesquisa, marco institucional e reformas
recentes (1995-2011)". Texto apresentado no sexto encontro da European
Consortium for Political Research, 2011; Silva, Mariana
Batista. "Processo Legislativo em Duas Arenas: dinâmica interna do Executivo e
sucesso legislativo no presidencialismo de coalizão brasileiro". Texto
apresentado no I Encontro Internacional de Legislativos na América Latina, Belo
Horizonte, outubro de 2011.
[50] Queiroz, Antonio Augusto de. Por dentro do governo: como funciona a
máquina pública. Brasília: diap, 2009, pp. 94-96.
[51] "Coming into her own". The Economist, 18/2/2012.
[52] Abramo, Claudio W. "Percepções pantanosas: a dificuldade de medir a
corrupção". Novos Estudos Cebrap, nº 73, 2005, pp. 33-37.
[53] Mas vale ver McMillan, John e Zoido, Pablo. "How to subvert democracy:
Montesinos in Peru". Journal of Economic Perspectives, vol. 18, nº 4, 2004, pp.
69-92; Golden, Miriam e Picci, Lucio. "Proposal for a new
measure of corruption, illustrated with Italian data". Economics &
Politics, vol. 17, nº 1, 2005, pp. 37-75.
[54] Glaeser, Edward e Goldin, Claudia. "Corruption and reform: an
introduction". In: Glaeser, Edward e Goldin, Claudia (orgs.). Corruption and
reform: lessons from America's economic history. Chicago: University of Chicago
Press, 2006, pp. 3-22.
[55] Pereira, Carlos, Rennó, Lúcio e Samuels, David. "Corruption, campaign
finance, and reelection". In: Power, Timothy e Taylor, Matthew (orgs.).
Corruption and democracy in Brazil. Notre Dame: Notre Dame University Press,
2011, pp. 80-99.
[56] "O controle das verbas do Fundeb". O Estado de S. Paulo, 12/4/2011.
[57] O envolvimento desses órgãos em escândalos de corrupção está documentado
nas seguintes reportagens: "Procuradoria acusa Incra de desviar cestas básicas
de acampamentos". Folha de S.Paulo, 18/1/2011 (Incra); "pf
prende quadrilha acusada por rombo de R$ 120 milhões no inss". Folha de
S.Paulo, 28/4/2011 (inss); "Previdência demitirá 120
servidores por fraudes". O Estado de S. Paulo, 5/4/2011 (Ministério da
Previdência Social); "Documento de ministro [do Turismo] tem
'selo' com sigla PR". O Estado de S. Paulo, 11/12/2010 (Ministério do Turismo); e "Caso Temer: procurador pede arquivamento". O Globo, 12/4/
2011 (Vice-Presidência da República).
[58] O Dnit não foi incluído entre os órgãos afetados por escândalos de
corrupção, pois nele o escândalo ocorreu após abril de 2011, mas a lógica é a
mesma.
[59] Ver Praça, Freitas e Hoepers, op. cit.
[60] "Aos 50 anos, Inpe busca renovação". O Estado de S. Paulo, 24/7/2011.
[61] Callander, Steven. "A theory of policy expertise". Quarterly Journal of
Political Science, vol. 3, nº 2, 2008, pp. 123-40.
[60] Costa, Valeriano Mendes. "Sistema de governo e administração pública no
Brasil". In: Andrade e Jaccoud, op. cit., pp. 203-70.
[63] Dargent, Eduardo. "Agents or actors? Assessing the autonomy of economic
technocrats in Colombia and Peru". Comparative Politics, vol. 43, nº 3, 2011,
pp. 313-32.
[64] George, Elizabeth e Chattopadhyay, Prithviraj."Group composition and
decision making". In: Hodgkinson, Gerard P. e Starbuck, William H. (orgs.). The
Oxford handbook of organizational decision making. Oxford: Oxford University
Press, 2008, pp. 361-79.
[65] Huber, John e McCarty, Nolan. "Bureaucratic capacity, delegation, and
political reform". American Political Science Review, vol. 98, nº 3, 2004, pp.
481-94.
[66] Massonetto, Ana Paula. "A institucionalização do parlamento brasileiro: um
estudo comparativo da rotatividade dos parlamentares nas Câmaras dos Deputados
(Brasil, Chile, Estados Unidos e Portugal) e na Assembleia Legislativa de São
Paulo". São Paulo: Cepesp/fgv, 2010 (mimeo).
[67] Stein, Ernesto e outros, op. cit.
[68] Loureiro, Maria Rita, Abrucio, Fernando e Rosa, Carlos Alberto.
"Radiografia da alta burocracia federal brasileira: o caso do Ministério da
Fazenda". Revista do Serviço Público, vol. 49, n-º 4, 1998, pp. 46-81.
[/img/revistas/nec/n94/a04anethu.jpg]_
Anexo-_Clique_para_ampliar