A magia desencantada: Henry James e o caso de "Os amigos dos amigos"
Não há nada socialmente mais constrangedor do que, convidado a uma festa, ser
ignorado pelo anfitrião. É isso que Henry James, o anfitrião, de certo modo faz
ao incluir o conto "Os amigos dos amigos" no volume 17 de sua esplêndida Edição
de Nova York de obras escolhidas e não dedicar a ele quase que o menor
comentário. Ao tomo 17 pertencem "O altar dos mortos" e "A fera na selva", e
sobre essas novelas o autor tece longas considerações no prefácio. Sobre "A
vida privada" e "Julia Bride", também tem o que dizer, embora esta última lhe
pareça deslocada no conjunto. Mas aos "Amigos dos amigos", assim como a "Owen
Wingrave", "Sir Edmund Orme" e "A coisa realmente certa", reserva o tratamento,
digamos, coletivo. São todas, segundo ele, composições cuja distinção é a de
serem divertidas. Assim como "A bela esquina", não teriam existido não fosse o
seu amor por "uma história como história", ou seja, o seu interesse na criação
das cenas, na deflagração do drama, na elaboração do suspense, da surpresa, do
alívio, tendo em vista o deleite do leitor preferencialmente sagaz. Depois de
observar que "A bela esquina" representaria uma dessas "fantasias acabadas" que
falam melhor por si próprias, constata que este também seria o caso de "Os
amigos dos amigos", de que ainda se despede com uma ironia pouco habitual para
o trato da própria obra - acrescentando que ele provavelmente "não permite
nenhum outro comentário"1.
Pouco antes James confessara ter dificuldade para trazer à memória o germe de
"Os amigos dos amigos", bem como de "Owen Wingrave", "Sir Edmund Orme" e "A
coisa realmente certa". Como se sabe, seu método geral de avaliação, nos
prefácios à Edição de Nova York, consiste em confrontar este germe ou fonte
primária, colhido de suas notas e reminiscências, com o córrego, lago ou rio
formados na versão final da obra editada. James até admite que é capaz de
localizar essas narrativas em seus cadernos de apontamentos, mas já não
consegue lembrar "como inicialmente acordaram neste berço grosseiro"2 - isto é,
como em suma foram parar ali. Sobre "Owen Wingrave" ao menos se recorda de que
o conto foi motivado pela figura de um jovem rapaz sentado no banco do
Kensington Gardens numa tarde de verão, conquanto não saiba como, a partir
disso, surgiu a história. Mas positivamente nada dos "Amigos dos amigos".
O enredo gira em torno de dois personagens, um homem e uma mulher muito
parecidos um com o outro, que nunca se veem, apesar das inúmeras tentativas de
seus amigos de lhe promoverem o encontro. A estranha simetria de suas
circunstâncias reside sobretudo no fato de que cada um deles recebeu, pouco
antes do anúncio do falecimento, a visita do espectro de seu genitor (o pai, no
caso dela; a mãe, no dele). Se o evento funesto fez com que ela viesse a ser
conhecida como aquela que viu o fantasma do pai, a longa sucessão de
desencontros passa a ser tema de fofoca e até de pilhéria na sociedade, apesar
do crescente desconforto, vergonha e até mesmo terror que a situação começa a
infundir em ambos. A história é contada por uma narradora que, no curso dos
acontecimentos, fica noiva do homem e, por ciúmes, decide frustrar um encontro
que ela própria precipitadamente marcara entre os dois. Ela desmarca com o
noivo, mas nada avisa à amiga, que vai até sua casa e, no fim, imagina que foi
o outro o responsável pelo novo desencontro. O fato é que horas mais tarde, na
mesma noite da reunião frustrada, a mulher morre. A narradora toma ciência do
falecimento no dia seguinte quando, arrependida, vai à casa da amiga para
confessar a fraude. Ao contar a notícia ao noivo, este revela que a amiga lhe
fizera uma visita na noite anterior. Para a narradora, ele a vira como
anteriormente havia visto a mãe: numa visitação fantasmagórica. Para o noivo, a
outra fora ter com ele ainda em vida. O cotejo dos fatos não conduz a nenhuma
conclusão definitiva. Os preparativos para o casamento seguem conforme o
planejado até que a narradora confronta o noivo, acusando-o de continuar
encontrando-se, todas as noites, com a mulher morta. Ele refuta a alegação,
mas, quando é instado a escolher entre a narradora e a outra, mostra-se evasivo
e zombeteiro. Ela rompe o compromisso de casamento. Seis anos mais tarde, ao
saber da morte dele, comenta que o óbito só confirma a sua teoria, no sentido
de que este seria o "resultado de um insaciável desejo", a "resposta a um
chamado irresistível"3.
Percorrendo os notebooks de James encontramos o esqueleto dramático desse conto
num estágio bastante avançado num apontamento de 10 de janeiro de 1896. E até
mesmo algumas expressões posteriormente utilizadas no conto, como a descrição
do casal fadado a sempre desencontrar-se como "dois baldes num poço".
Regressando algumas semanas até o dia 21 de dezembro de 1895 vemos uma anotação
com um tratamento um pouco menos desenvolvido, mas também bastante claro: o
conto se basearia na "ideia, ou amostra de fantasia, sobre duas pessoas que
regularmente ouviram falar uma da outra, que estiveram regularmente perto uma
da outra e que regularmente se desencontram". Nesse argumento ainda não
percebemos a ambiguidade do conto acabado; a pessoa morta indubitavelmente
aparece e os dois "se encontram e, se necessário, amam-se. - Eles veem, eles
sabem, tudo o que poderia ter sido possível se tivessem se encontrado". Também
estavam presentes para James a necessidade de o conto ser curto (para os
padrões do autor), o pressuposto de que o fantasma deveria ser da mulher e não
do homem e a conveniência de a história ser relatada por uma terceira pessoa.
Aqui ele curiosamente "assume" a posição desse personagem: "Eu contei a um
sobre o outro - é principalmente por meu intermédio que eles sabem um do outro.
Eu não devo ser tanto um entremetteur ou uma entremetteuse: eu posso até ser um
pouco relutante ou desconfiado, até mesmo um pouquinho ciumento, se o mediador
for uma mulher". Nesse ponto, James mais ou menos se decide, voltando ao
tratamento na terceira pessoa, que a história ganharia interesse se fosse
contada por uma mediadora e que ela, mordida pelo ciúme, adivinha ou sente que
o homem a quem "mais ou menos ama" continua a encontrar-se com a mulher morta.
Ou seja, o elemento do ciúmes também estava presente nesse estágio4.
F. O. Matthiessen e Kenneth B. Murdock, os editores dos notebooks, creem
enxergar a origem dessa história numa anotação datada de dez meses antes (5 de
fevereiro de 1895), pouco após o retumbante fracasso da peça Guy Domville, o
maior malogro da carreira de James5. O registro feito logo após o dramático
retorno à ficção está associado à ideia do "tarde demais - de uma amizade,
paixão ou elo - de um afeto muito desejado e aguardado, estabelecido tarde
demais? - quero dizer, completamente tarde demais para a vida". Nesse esboço
bastante nebuloso de história ("a mera sugestão de uma sugestão"), eles podem
se encontrar, "mas apenas para separar-se e sofrer, quando algum deles está
morrendo 'ou algo assim' [...] É amor, é amizade, é compreensão mútua - o que
quisermos [...] É uma paixão que poderia ter sido". James acrescenta que não se
trata simplesmente do caso de uma pessoa casada encontrar a paixão verdadeira;
a circunstância do casamento é mero detalhe. Entrementes, outro fato ocorre.
Para James, esse outro fato não relativo ao matrimônio é "o desperdício da
vida", desperdício este que, por sua vez, "é a implicação da morte"6.
Após uma breve pausa, o autor embarca numa outra direção um tanto mais
misteriosa (refletindo que porventura haja ali, como de fato há, pelo menos
duas histórias), adicionando ao tema o "concetto" de um homem de gênio que
renuncia "à sua ambição, ao sonho de sua juventude, a seu gênio, talento e
vocação", em troca de algo muito inferior, mundano e mercenário. James
concebera esse "concetto" um ano antes e, naquela época, chamara a trágica
consciência dessa situação "de morte em vida" (living death). A morte significa
a renúncia, o desperdício de uma vida. Esse homem se casa com uma mulher que
está cercada pela vida, mas que representa a morte. No passado, ele havia
abandonado a amada, que se casara e tivera filhos, mas tanto esses descendentes
quanto o marido morreram. Ela estaria assim cercada pela morte, "e no entanto
vive com a vida". Para James, o "Eu Morto" (Dead Self) ou "eu vicário" do homem
(o que ele antes chamara de morte em vida) vive indiretamente na simpatia ou
fidelidade da mulher. Essa relação corresponderia à sua "vida verdadeira".
James acrescenta que esse homem pode morrer materialmente ("sua carne deve
morrer como seu espírito havia morrido fazia muito tempo") e que isso, essa
morte, para a antiga amante, é o sinal de que ele enfim abandonara sua esposa
por ela, que ele agora vive para ela. "Agora ela o possui - ele é todo seu."
Mas esse entrecho ainda lhe parece um tanto banal, e James conclui que, para
ganhar interesse, o argumento precisaria corresponder não à história do homem,
mas à da mulher. Desse modo, seria o "senso na mulher do que poderia ter sido
para ele que confere a intensidade [...] Ela é seu Eu Morto: ele está vivo nela
e morto em si mesmo - eis algo da pequena fórmula que pareço entrevoir"7.
O leitor de James admitirá, portanto, que essas preocupações muito vagas e um
pouco cifradas não tratam apenas da possível fonte dos "Amigos"; à volta da
temática do desperdício da vida, por parte de um homem, em relação a uma mulher
compreensiva, giram várias das histórias de James dessa época, de "O altar dos
mortos" (do mesmo ano, 1895) à "Fera na selva" (1903), passando até pela
situação do pobre e vendido Strether, em Os embaixadores (também de 1903), cujo
famoso germe, ao menos o germe consciente e propalado pelo próprio James, seria
bem outro.
Mas Matthiessen e Murdock não deixam de ter razão. Podemos ligar o lampejo
originário a várias partes da história, embora aqui e ali com ênfase e
polaridade diversas. A ideia do desperdício da vida não está presente de forma
flagrante, a não ser que a imaginemos em princípio relacionada à vida da
mulher, mas é possível, como veremos, que o caráter mundano da vida do homem
possa aludir a isso. Naturalmente, por outro lado, o "tarde demais" está ali;
quando o casal enfim se encontra ou temos de presumir que ela já está morta ou
morrerá brevemente. Se o homem não pode senão estar indiretamente implicado com
o desperdício da vida, a narradora (quase entremetteuse), que nada adivinha a
esse respeito, também não assume o papel de sua confidente fiel ou da pessoa em
quem ele vive. A pessoa em quem ele vive, no texto definitivo, é a outra
mulher, como virtualidade distante, enquanto viva, e próxima, no pós-morte.
Assim entendemos bem a insistência dele, no final, em dizer que ela está ou
estava viva: mesmo morta, ela em todo caso vive para ele. E ele, para ela.
Este último aspecto, no entanto, caro à proposta original de James, se
desenvolve muito vagamente mais para o fim do conto, sendo apenas aludido pela
narradora numa espécie de clímax em que o leitor é convidado a completar as
lacunas. Como viveu o homem após separar-se da narradora? Como se dariam as
visitações da falecida? Qual a relação entre essa vida além da morte e a morte
aquém da vida que o restante de sua existência possivelmente lhe reservara?
Talvez tenha sido esta a razão para James tratar "Os amigos dos amigos" com
algum descaso. Ele como que sacrificara o seu interesse profundo (o da morte em
vida ou da vida em morte) por um entretenimento, pelo zelo - como sugere no
prefácio - na criação de um drama, um suspense; no fundo, por seu virtuosismo
técnico. O conto não disporia de profundidades a serem investigadas. Ele fala
por si. Sua arquitetura é sua própria eloquência, e devemos procurar nessa
edificação deliberadamente bem ajustada, no que está bem à vista, o que quer
que seja que essa história nos possa dizer ou calar.
E o que salta à vista é justamente o que James descreve na entrada mais recente
de seu caderno, quatro meses antes de o conto sair em dois periódicos
populares, o americano Chap Book e a inglesa Chapman's Magazine: a história de
duas pessoas que perpetuamente se desencontram, como na imagem dos dois baldes
do mesmo poço - e, como continua no conto, das "duas pontas de uma gangorra, os
dois partidos do Estado: quando um estava em cima o outro estava embaixo,
quando um estava dentro o outro estava fora". Eles dizem as mesmas coisas,
fazem as mesmas coisas, sentem as mesmas coisas:
Eram ambos incrivelmente parecidos entre si: tinham as mesmas ideias,
ardis e gostos; os mesmos preconceitos, superstições e heresias;
diziam as mesmas coisas e por vezes as faziam; gostavam e desgostavam
das mesmas pessoas e lugares, dos mesmos livros, autores e estilos;
havia pontos de semelhança até mesmo em sua aparência e feições.
No essencial o que temos aqui é um recurso bastante primitivo e naturalmente
básico quando se trata de uma história de fantasmas: a figura do duplo. A
questão fascina James desde os primeiros contos. Em "Um peregrino apaixonado"
(1875), o personagem do americano vê, em delírio, o fantasma de uma mulher, que
o confunde com seu infame antepassado inglês, que a havia abandonado e
indiretamente lhe causara a morte; nem precisava chegar a tanto: a narrativa já
os estabelecera como duplo um do outro. E até mesmo nas narrativas mais
"sérias", ou seja, aquelas nas quais o sobrenatural não entra diretamente em
jogo, como Os embaixadores, nós contemplamos a imagem duplicada de Madame de
Vionnet no parquete polido do salão de seu apartamento - o reflexo aponta
fantasmagoricamente para as revoluções sangrentas do passado. Ou então podemos
pensar na fantasmagoria representada pela milionária Mrs. Newsome (o duplo
imperial de Madame de Vionnet?), que nunca aparece na história, mas cujo poder
e cujo capital determinam cada passo importante da trama. E o tema é mais
ostensivamente desenvolvido em "A vida privada" e "A bela esquina". Além disso,
no famoso "A volta do parafuso" não podemos esquecer que se trata de dois seres
malignos que assombram duas crianças (dando-nos ensejo a estabelecer não apenas
um, mas vários duplos) - e de que é justamente esse caráter da duplicidade da
aflição sofrida (por dois seres supostamente inocentes) que forneceria aos
acontecimentos, segundo se conclui no início, seu outro apertão, sua outra
volta no parafuso da tortura física e psicológica a que assistimos8.
Com efeito, o conceito do duplo ronda o interdito. O herói não deve encontrar
esse seu "outro eu". Tal como a sombra que está sempre atrás, ao lado ou à
nossa frente, e nunca deve estar "em nós" (daí também o caráter perigoso do
meio-dia, quando ou não temos sombra, ou ela estaria incorporada à nossa
substância). Quando Clement Searle é confundido com seu ancestral, em "Um
peregrino apaixonado", sente a aproximação da morte; logo, imagina, será ele
próprio um fantasma a assombrar seu Doppelgånger (o termo é empregado noutra
passagem do conto). Foi o fato de a preceptora forçar a confissão de Miles, em
"A volta do parafuso", e assim trazer à luz a horrenda visão de Quint (por sua
vez, duplo do patrão), que causa a morte do menino. O espelho de mão, oferecido
pelo antiquário a Markheim, como que deflagra o assassinato e o terrível exame
de consciência que se segue no conto de Stevenson. A aparição de lady Madeline
de Usher, no final de "A queda da casa de Usher", sela o destino do irmão, de
quem não deixa de ser o duplo, conforme Leo Spitzer demonstrou em outros
termos. E Freud estudou o efeito inquietante do duplo ou sósia na obra de
Hoffmann, sobretudo em "O homem de areia" e "O elixir do diabo"9.
Na Antiguidade, a morte e o interdito também estão associados ao duplo. Narciso
afoga-se quando vê a própria imagem refletida na água. Talvez por isso a
"cópia" de Helena feita por Hera, que consola e atormenta Menelau, também deve
desvanecer antes da entrada da verdadeira Helena na peça homônima de Eurípedes.
Em Mito e pensamento entre os gregos, Jean-Pierre Vernant discorre sobre a
categoria psicológica do duplo, ao examinar o caso das estátuas kolossói. Em
sua origem, não estavam relacionadas ao aspecto colossal ou grandioso, mas a
seu caráter fixo e ereto, produzidas que eram de uma "pedra erguida, de uma
laje plantada no chão, às vezes mesmo enterrada"10. A função primitiva do
kolossós parece a de ter sido a de substituir um defunto ausente; digamos, um
marinheiro que morreu no mar ou um guerreiro morto numa batalha em terra
estrangeira. Os antigos acreditavam que, quando o cadáver ficava insepulto, o
seu duplo, sua psyché ou sombra ficava vagando no mundo, promovendo
atrocidades. O sepultamento simbólico do morto reestabeleceria a ordem. Nesse
sentido, o kolossós seria uma espécie de forma visível da psyché:
Substituído ao cadáver no fundo da tumba okolossósnão visa reproduzir
os traços do defunto, dar a ilusão de sua aparência física. Não é a
imagem do morto que ele encarna e fixa na pedra, é a sua vida no
além, esta vida que se opõe à dos vivos, como o mundo da noite [o
além, o mundo infernal] ao mundo da luz [o visível, o mundo dos
vivos]. Okolossósnão é uma imagem: é um "duplo"11.
Mas o kolossós não precisaria ser necessariamente enterrado. Fixado sobre o
solo, também cumpriria a missão de manter afastadas as forças infernais.
Vernant chama a atenção para o caráter ambíguo dessa estátua que realiza o
trânsito entre o mundo dos vivos e dos mortos, no sentido de que, com sua
presença, marca o sinal de uma ausência.
Psyché e kolossós pertencem à categoria de fenômenos aos quais se aplicam o
termoε
δωλον
(eídolon), da mesma forma que a imagem do sonho ([/img/revistas/nec/n94/
a06img01.jpg]/óneiros), a sombra ([/img/revistas/nec/n94/a06img02.jpg]/skía) e
a aparição sobrenatural ([/img/revistas/nec/n94/a06img03.jpg]/phásma). Para
Vernant trata-se de uma categoria psicológica determinada, a categoria do
duplo. Se não se trata propriamente de uma imagem, tampouco seria um objeto
"natural" ou mesmo uma criação mental. Realidade exterior ao sujeito, o eídolon
se revela, em sua presença, como pertencendo a um mundo distante, insólito, não
familiar. Assim Aquiles vê Pátroclo quando adormece, mas, quando tenta abraçá-
lo, esse duplo transforma-se em fumaça, desaparecendo sob a terra (também se
evola em fumaça o eídolon de Helena, na peça de Eurípedes; e sabemos que a
psyché pode ser denominada sombra, sonho ou fumaça, kapnós). Ou seja, Aquiles
está diante de Pátroclo em pessoa, está diante de uma realidade que não é
Aquiles, mas essa realidade é igualmente um sopro, uma fumaça - é seu amigo
Pátroclo, mas também a sua ausência. A mesma decepção sente Odisseu ao tentar
por três vezes, no Hades, enlaçar a mãe, Anticleia, o que aguça a sua dor. Na
tragédia Alceste, de Eurípedes, a protagonista se prepara para descer aos
infernos depois de ter tirado de lá o marido Admeto. Ela pagou com a própria
vida a vida do esposo resgatada do reino dos mortos. Inconsolável, Admeto
promete não mais casar-se e, de fato, todas as noites, une-se em sonho com sua
mulher. Mas, ao abraçá-la, não experimentará o prazer quente, mas "a fria
volúpia"12.
Em essência, o eídolon contém algo de enganoso, da decepção, do engodo. Falta
ao duplo o que forma a verdadeira realidade: "o esplendor ou irradiamento da
vida"13.
Por fim Vernant se pergunta o que faz uma simples pedra, algo do terreno do
familiar, dos objetos conhecidos, assumir os contornos de uma realidade
sobrenatural. Há várias explicações, como o fato de a juventude para os gregos
ser associada a um ser flexível e cheio de vida, enquanto a velhice
corresponderia a um dessecar. Os mortos estariam dessecados (lembremos que as
almas dos mortos estão sempre sedentas); o cadáver, desse modo, estaria mais
próximo da pedra dura, seca e rígida. Por outro lado, a morte pertence ao mundo
do invisível, ao mundo cego, como a pedra. Ao contrário da gema, da pedra
preciosa, que cintila, refletindo a luz, o bloco de pedra fria e silenciosa que
compõe o kolossós de "olhos vazios" (expressão do Agamenon, de Ésquilo) alude
ao mundo da noite, o mundo dos mortos. Por essas razões, os gregos, quando
precisavam jurar às forças infernais, juravam "pela pedra". Não é à toa que
Odisseu, durante sua excursão no Hades, teme que Perséfone lhe envie a cabeça
da Górgona - que imagem mais apropriada ao mundo subterrâneo do que a da
terrível Medusa, que converte em pedra quem a contempla?
Examinando esses pressupostos, podemos perceber algumas das correntes profundas
capazes de ligar o tema do duplo às preocupações de James em torno da "morte em
vida e da vida na morte". De fato, o duplo realiza esse trânsito. Essa seria
também uma das razões alardeadas para que os chamados primitivos temessem ser
fotografados: eles receariam que sua alma fosse capturada. Analogamente podemos
imaginar que o homem e a mulher do conto, em tudo parecidos, até na recusa de
serem fotografados, temiam inconscientemente que a foto pudesse roubar-lhes o
trânsito com o mundo dos mortos - a que ambos desde o início estão
relacionados.
E, no entanto, um dos elementos intrigantes quando se pensa numa "história de
fantasmas" como esta reside no fato de que todos aceitam e acham deliciosos
episódios tais como os que teriam ocorrido com aquela dama e aquele cavalheiro
- o da mulher ter visto a imagem do pai morto e o do homem, da mãe morta. Ela
até mesmo passa a ser conhecida por essa peculiaridade. No fim, a narradora
insiste na repetição da experiência: o noivo teria visto mais uma vez um
espectro, e não uma pessoa viva. Por mais que ela estivesse tomada pelo ciúmes
e, às vésperas do casamento, não quisesse conceber a alternativa afetivamente
mais dolorosa, parece-nos estranho que ela opte sem pestanejar pela resposta
fantasmagórica. Seria como um regresso aos tempos antigos, em que essas
soluções são perfeitamente possíveis? Não exatamente. Pois na passagem do
antigo para o moderno perdeu-se a magia. O mágico ou sobrenatural torna-se
banal, ordinário (explicado como uma "acessibilidade a formas de vida") ou
assunto de comédia, enquanto o plausível - a mulher passou de fato em vida
pelos aposentos dele - torna-se extraordinário. Ou seja, e essa talvez seja a
maior das ironias do conto: trata-se de uma história de fantasmas em que todos
parecem achar o sobrenatural bem menos assustador (ou mais "admissível") que a
realidade.
A narradora insiste, desesperada, que a amiga "estava morta, estava morta!",
quando ele mais uma vez afirma que a viu viva. Para ela está claro: "- Eu sou a
vida, sabe. O que você viu ontem à noite era a morte". Naturalmente o noivo
insiste que a sua visitante era a vida - e com efeito era, independentemente do
que quisermos acreditar. Como havia ocorrido com Admeto, a sua amada lhe havia
devolvido a vida e naquele momento, assim, em troca, precisava retirar-se para
o mundo das sombras. A rival da narradora já era ao mesmo tempo vida e morte,
carne e brumas, fome e pó. E seu destino estava selado, bem como o dele. O
interdito era claro e a sentença fatal se cumprira. Mas isso não o impede de
amá-la, agora mais do que nunca. Como Admeto ele não se casará, nem com a
narradora nem com ninguém. Como disse James, entretanto, o que importa não é o
casamento em si: o importante é o fato intuído pela narradora, a de que ele
passou a encontrar-se com ela todas as noites (quando o trânsito com o além é
possível). Instado a escolher entre ela - a mulher de carne e osso - e a imagem
da outra, ele mantém-se fiel a esta última, a que lhe restituiu a vida e, por
isso, teve de morrer. E assim permanecerá pelos anos que lhe restam até enfim
responder ao "chamado irresistível".
Há, é claro, outro ponto intrigante, e esse ponto reside na própria figura da
narradora. No princípio James imaginava que a história (qualquer história que
proviesse do tema entrevisto) pudesse ser apresentada pela pessoa na qual o
homem, morto por dentro, estaria vivo: a mulher que lhe percebesse o drama da
vida desperdiçada. Se fosse assim, a história teria de ser obrigatoriamente
vista pela perspectiva da alma-gêmea do homem; mas a narradora intervém, é por
meio dela que temos a história - e é por causa disso também que sabemos muito
pouco sobre o que efetivamente se passa com a amiga e com o amigo. A narradora
ao mesmo tempo joga luz sobre o caso e o torna opaco. Na realidade James, ao
contar essa história específica, produziu uma inversão de ponto de vista; e de
polaridade: quem conta a história não é aquela que dá a vida, mas aquela que
representa a morte. E mais uma vez temos de voltar-nos para a motivação
profunda.
Pois intriga-nos o fato de que, enquanto ele é no fim chamado por um apelo
irresistível, a narradora também não resiste, como declara no início, a fazer
tudo desabar sobre ela - foi ela quem primeiro falou a ele sobre a amiga, foi
ela quem constantemente insiste no encontro entre os dois e foi ela quem, tão
logo ele lhe pede a mão, imediatamente propõe reunir a dupla predestinada. Ela
estava tão predestinada quanto eles, mas por outra razão. Pouco antes do
confronto final, a narradora afirma que o seu ciúme era a "sua máscara de
Medusa" (medusa-mask). Mas não seria o contrário? Não seria a sua natureza
gorgônea que a faz vestir a máscara do ciúme? Como a terrível Górgona, não lhe
resta senão transformá-lo em pedra, ressecá-lo, roubar-lhe o fluxo vital, matá-
lo em vida14. E não estava sozinha nesse empreendimento.
Sabemos pouco sobre o personagem do cavalheiro, mas alguns detalhes do texto
nos sugerem que ele, como James imaginara no plano inicial, já estaria vivendo
sua vida vicária. Nas suas primeiras anotações, o autor descreve o homem como
um indivíduo que teria trocado o seu gênio por uma existência mundana - e é
esse mundanismo que vemos encaixar-se como mão à luva ao personagem. Se a
mulher parece fugir do convívio social mais intenso, sendo definida como uma
"suburbana" pela narradora, ele parece incorporado a esse meio. Diz a
narradora: "Ele apreciava o convívio social, mas o encontrava em toda parte e o
desfrutava de passagem. Eu nunca sabia onde ele estava num dado momento, e
houve ocasiões em que não o vi meses a fio". O trabalho dele, brevemente
aludido e relacionado a constantes "fiscalizações" que o obrigavam a esses
períodos de ausência, também não parece ser dos mais estimulantes. Mas o que
chama mais a atenção para a feição mundana de sua existência é justamente o
título da história. Aliás, a única informação direta que James nos fornece a
respeito desse conto, no prefácio à Edição de Nova York, é que ele foi
inicialmente lançado como "The way it came" [Do jeito que aconteceu] - um
título que o autor achou insípido e depois trocou quando o incluiu na
coletânea.
Trata-se de uma mudança, essa do título, pouco comum em James15, o que nos
obriga a ponderar se não havia outra razão para ela além da insipidez.
Sobretudo quando detectamos no novo título o anúncio do motivo principal do
conto: o desdobramento por meio do duplo. "Os amigos dos amigos" é um título
perfeitamente espelhado, dois termos idênticos ligados por uma preposição - e
que nos faz ponderar um pouco sobre quem seriam os "amigos" em primeiro lugar
para, em seguida, detectar os amigos destes. Os primeiros são facilmente
detectados como os amigos da autora dos manuscritos, conforme declara no
introito um possível editor ou intermediário a um colega, ao lhe entregar o
"fragmento" que contém a história. A narradora escolheu não designá-los quer
seja pelo nome, quer seja por iniciais. Sua identidade é desconhecida, e talvez
por uma boa razão, reflete ele: ela queria dar a história ao conhecimento do
público, mas não pretendia que as pessoas identificassem os protagonistas. Os
protagonistas são portanto o casal fatídico, ao passo que os amigos deles são
as pessoas que os cercam; os amigos dela, por exemplo, entre os quais a
narradora se inclui: "Todos nós, seus amigos soubemos a respeito e,
horripilados, comentamos a história entre nós [...] todavia, como o sobrenome
que ela agora ostentava era muito comum, e como sua separação judicial, pelo
andar das coisas, dificilmente poderia ser tida como uma distinção, costumavam
referir-se a ela como 'aquela, você sabe, que viu o fantasma do pai'".
É esse coeso grupo de comentadores, muitos dos quais amigos dele também,
atentos para o decoro dos sobrenomes e para o bom-tom público, que pretendem a
princípio fazê-los encontrar-se e depois, diante da impossibilidade do
encontro, divertem-se com a anedota resultante. Trata-se de um "droll chorus",
um coro divertido no sentido do singular, curioso, excêntrico ou até ridículo -
e é justamente o aspecto cômico que James quer ressaltar quando alude a certas
mulheres tolas que se vangloriavam de terem-na visitado e, portanto,
participado indiretamente de uma história incomum. No entanto, todos esses
amigos, mulheres tolas (como muitas da plateia que inicialmente ouve falar da
história das crianças de "A volta do parafuso") ou não, representam a sociedade
mundana da época16, aquele público que se diverte acompanhando e propagando o
espetáculo daqueles dois: "Minha dama e meu cavalheiro propiciavam ambos, a mim
e a outros, assunto muito adequado para uma farsa exuberante". No original:
"roaring farce".
Essa plateia costuma reunir-se para apreciar muitos dos dramas ou comédias de
James, narrados ou desenrolados diante dela. Miss Barrace, por exemplo, nos
Embaixadores, descreve Strether como o herói do drama a que eles assistem. É
nesse mesmo romance que vemos empregado duas vezes o adjetivo "roaring" - a
primeira refere-se à fabulosa e enigmática fortuna dos Newsome, a roaring
trade, no sentido básico de negócio extremamente bem-sucedido, um estouro; e a
segunda, remete à época contemporânea: roaring age, uma era exuberante,
tremenda, irremediavelmente ligada, tanto no sentido semântico quanto de
enredo, à ideia de um progresso irresistível, de novidade, de sensação. Chad
Newsome, enfim prestes a tomar as rédeas do império familiar, indiretamente
define a época como a era da publicidade, a área aliás que ele pretende dirigir
ao chegar aos Estados Unidos. "C'est un monde", diz ele no fim do romance a
respeito da nova "arte" capaz de mudar o mundo. O artigo inominável fabricado
pelos Newsome pode enfim adquirir forma na era informe dos desejos sem
substância e das substâncias imateriais17.
James estava longe de conhecer o alcance do admirável mundo novo que o novo
século prometia descortinar, mas assim como enxerga esse progresso (pelos olhos
de Strether) com mais do que uma ponta de melancolia, também parece vincular o
adjetivo intensifi - cador (tremenda farsa) em "Os amigos dos amigos" menos à
farsa que possa haver do que à disposição daquela plateia de, como dizia Miss
Barrace, deleitar-se com o drama. São esses expectadores que requerem o
espetáculo estrepitoso, bem como a fofoca do momento, a notícia do dia, a falsa
exclusividade, o último grito, de primeira mão; a boa história, se possível
vívida e indiscreta. São eles também a que, afinal, se destina a suposta
publicação dos manuscritos da narradora, uma plateia de leitores.
Pois, ao nos aproximarmos pela última vez da fonte originária da história,
constatamos que é essa entidade coletiva dos "amigos dos amigos" que constitui
a causa da "morte em vida" do cavalheiro em questão. Se na realidade tal
cavalheiro parece mal desenvolvido no produto final (e talvez essa tenha sido a
razão para James afirmar ter se "esquecido" do germe) e se esse aspecto da
trama vem a ser mais bem elaborado em outras narrativas, como "A fera na selva"
ou Os embaixadores, isso não nos desautoriza a identificar a derrocada dos
sonhos a essa plateia mundana. A mesma, a propósito, que provocou o maior
opróbrio da vida de James, vaiando e deblaterando e destruindo de maneira cruel
sua quimera teatral.
A narradora, como representante desse grupo18, queria obter o retrato dos dois
amigos, para que, encaixilhados numa "moldura da rua St. James", pudesse expor
os atores da farsa como um troféu sobre o consolo da chaminé de sua sala de
visitas. Não é tanto o caráter da fotografia, pelos fatores já mencionados, que
chama a atenção agora, mas o fato de ela fazer duas vezes menção a esse
arremate sofisticado. A moldura conta mais do que o recheio nessa sociedade de
superfícies, assim como a bela capa do periódico que Strether editava em
Woollett sobressai ao conteúdo. E a publicidade, nessa escala de James,
configura o ápice da mudança, "a grande força do futuro". Os fantasmas estão
agora à nossa volta, o tempo todo, tornaram-se horrivelmente domésticos, por
vezes cópias tristonhas a nos lem - brar de nossa condição insubstancial. Em "A
bela esquina", a aparição do duplo de Brydon, bem como sua expectativa, é
inquietante, mas quando ele de fato toma, por assim dizer, corpo, amarfanhado
com suas cicatrizes e dedos faltando, inspira-nos menos o horror do que a
piedade. O pobre fantasma de Brydon parece ter tido um destino muito pior do
que o próprio herdeiro, após décadas na Europa e agora animado pelo espírito do
empreendedorismo americano e as reformas arquitetônicas correspondentes.
Olhando por esse prisma o enigma inicial, parece mesmo lógico que essa
sociedade encare com familiaridade os fatos sobrenaturais19. Não, é claro,
pelas mesmas razões descritas por Vernant a respeito dos antigos gregos, mas
quem sabe até pelos motivos opostos. Os gregos sabiam respeitar a terrível
Perséfone, e até o solerte Odisseu evitava encontrar-se com a Górgona. O
kolossós era justamente prova da necessidade de manter afastado o mundo
infernal. Mas numa sociedade que representa o domínio da capa sobre o conteúdo,
da moldura comprada na rua elegante sobre o que possa conter, a sociedade do
espetáculo, do coro cômico, do comentário maldoso, das máscaras, do riso à
socapa, dos salões, festas e entretenimentos da moda, nesta sociedade, enfim,
que há muito havia perdido a luz e o calor próprios, não é de espantar que seus
integrantes considerem o mundo das sombras, o mundo frio e enganoso das imagens
peregrinas como a sua mais perfeita, sua única realidade possível. Tal solução
não soa apenas natural; é tristemente "irresistível".
Marcelo Pen é professor do departamento de Teoria Literária da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
[1] James, Henry. The art of the novel. Org. Richard P. Blackmur. Nova York:
Charles Scribner's Sons, 1937, pp. 252-62.
[2] Ibidem.
[3] No original, "It was the result [...] of an unquenchable desire [...] a
response to an irresistible call". Uso, no geral, a boa tradução de José Paulo
Paes confrontada com o original, propondo ligeiras mudanças quando há exigência
de maior rigor para a análise. Todas as citações do conto, portanto, referem-se
a: James, H. Até o último fantasma. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia
das Letras, 1994, pp. 65-95; e James, H. The turn of the screw and other
stories. Nova York: Oxford University Press, 1992, pp. 81-111.
[4] Matthiessen, F. O. e Murdock, Kenneth B. The notebooks of Henry James. Nova
York: Oxford University Press, 1947, pp. 231 e 241-45.
[5] Na época ele escreveu: "Pego da minha velha pena de novo - a pena de todos
os meus velhos e inesquecíveis esforços e lutas sagradas. Para mim - hoje -
nada mais preciso dizer. Alto, amplo e pleno o futuro ainda se abre. É agora
que realmente posso produzir a obra da minha vida. E vou produzir. Só preciso
enfrentar meus problemas". Ibidem, p. 179.
[6] Ibidem, pp. 182-84.
[7] Ibidem.
[8] Em nota anterior àquela em que James alude ao "tarde demais", escrita aliás
no mesmo dia (5 de fevereiro de 1895), a ideia do duplo ganha evidência no
"possível pequeno drama" sobre a afeição intensa entre dois irmãos, cuja
experiência de vida é absolutamente "idêntica" - "Duas vidas, dois seres e uma
experiência". Trata-se de um reflexo, de uma duplicação da melancolia, da
ironia. Matthiessen e Murdock, op. cit., pp. 181 e 182. (Destaque meu.)
[9] Veja Spitzer, Leo. "A reinterpretation of 'The fall of the house of
Usher'". In: Essays on English & American literature. Princeton: Princeton
University Press, 1962; e Freud, Sigmund. "O inquietante". In: História de uma
neurose infantil ("O homem dos lobos"), além do princípio do prazer e outros
textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Agradeço a Luiz
Tenório Oliveira Lima a referência a Freud.
[10] Vernant, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. 2ª ed. São Paulo:
Paz e Terra, 2002, p. 385. Agradeço a Ademir Santos a sugestão e o empréstimo
do livro e a discussão do tema entre os gregos clássicos e pré-clássicos.
[11] Ibidem, p. 385. Os acréscimos entre colchetes são meus. A ideia de que o
homem é formado a partir de uma realidade terrena, visível, e uma entidade
invisível associada ao mundo do além pode ser encontrada em muitas sociedades
tradicionais, como é o caso das culturas que professam a religião "vaudou" ou
"vodun" na África Ocidental (ainda hoje praticada da costa do Togo ao oeste da
Nigéria). Muitas estatuetas mostravam uma cabeça dupla ou até dois corpos
inteiros, simbolizando a indissociabilidade entre a pessoa física e seu duplo
potencial (yè). Em geral cravadas por sua parte inferior no solo para atos de
feitiçaria (assim a confecção do duplo garantiria o domínio completo do
enfeitiçado, que não voltaria nem depois de morto para assombrar seus
inimigos), também por vezes serviam como proteção aos iniciados. (Sobre esse
assunto remeto ao excelente catálogo Vaudou, da Fondation Cartier pour l'Art
Contemporain, Paris, 2011.) A observação de James sobre a necessidade de a
carne do homem morrer, acompanhando assim o espírito, morto fazia muito tempo,
não deixa de ter um quê da duplicidade contida nessas antigas práticas.
[12] Ibidem, p. 391.
[13] Ou seja, o "cháris" (ibidem, p. 390). Não enveredaremos aqui pela complexa
discussão que cerca o conceito de eídolon, que também pode ser vinculado à
noção do simulacro e é assim traduzido, em determinados contextos.
[14] James posteriormente, durante sua viagem aos Estados Unidos, visitará o
túmulo de sua família (entre eles o de seu pai e de sua irmã Alice) no
cemitério de Cambridge, Massachusetts. Ele denominará esse senso e essa visão
fantasmagóricos de "a fria face de Medusa da vida" (the cold Medusa-face of
life). Edel, Leon. Henry James: A life. Londres: Collins, 1987, pp. 600 e 601.
[15] Mas não a única. The Old Things, por exemplo, serializado no Atlantic
Monthly de abril a outubro de 1896, virou Os espólios de Poyton (The Spoils of
Poyton) no ano seguinte, quando saiu a edição em livro em Londres e nos Estados
Unidos. (O primeiro título que James cogitou para esse romance foi The House
Beautiful.)
[16] É costumeiro, aliás, identificar-se o coro, no teatro antigo, a uma
entidade coletiva, à pólis ou à sociedade.
[17] James, Henry. Os embaixadores. São Paulo: Cosac Naify, 2010, pp. 86, 552 e
553.
[18] Claro que no encerramento do conto a narradora, a fim de confirmar o
portento presenciado, alega que o noivo refuta "numa nuvem de troça" ("cloud of
chaff") a sua teoria, nos obrigando a ver o homem ainda imerso no ar mundano -
mas aí entramos na questão da confiabilidade ou não do narrador, algo de que
não trataremos aqui. Como a preceptora de "A volta do parafuso", ela precisava
confirmar suas hipóteses. Custasse o que custasse e doesse a quem doesse.
[19] James não está sozinho no repúdio à nova ordem social. Em meados do século
xix, Hans Christian Andersen, numa chave a um só tempo mais clara e mais
platônica, associa o império da sombra à derrocada dos valores em um mundo que
prefere o simulacro ao original. No seu famoso conto sobre o tema do duplo,
"Skyggen", a sombra de fato manda matar o homem sábio do qual originou, mas só
depois de este constatar que ninguém mais se interessaria pelos assuntos sobre
os quais escreve, a verdade, o bem e o belo - constatação que o leva a seguir
sua sombra como uma sombra e projeta o final trágico.