Biotecnologia em saúde humana no Brasil: produção científica e pesquisa e
desenvolvimento
De acordo com estimativas do Ministério da Saúde, o complexo do setor de
biotecnologia em saúde humana no Brasil - conjunto de atividades científicas e
produtivas que figura no debate público como parte do chamado "complexo
econômico industrial da saúde"1, por um lado, e do setor de biotecnologia, por
outro - é um mercado de aproximadamente R$ 160 bilhões por ano, que emprega
cerca de vinte milhões de trabalhadores diretos e indiretos2. A conexão entre
saúde (de forma geral) e a inovação em saúde humana e biotecnologia (foco deste
artigo) aparece nas palavras de Gadelha, que oferece uma "abordagem sistêmica"
de análise:
a saúde atua como consumidora e demandante de equipamentos médico-
hospitalares, produtos farmacêuticos, imunoderivados, soros e demais
insumos relacionados à prestação desses serviços e acabam por
dinamizar uma relação com subsistemas industriais de base química e
biotecnológica, além daqueles de base mecânica, eletrônica e de
materiais3.
O presente artigo dialoga com a literatura sobre "complexo econômico industrial
da saúde", "sistema de inovação do setor de saúde" e "biotecnologia para
saúde". Ao apresentar novas análises sobre a produção científica e a P&D
voltada à biotecnologia em saúde humana no Brasil4, busca contribuir com tal
debate e propõe que é preciso olhar para a biotecnologia como um setor da
economia que pode ser entendido como um conjunto de empresas atuantes no Brasil
e que desenvolvem, de fato, alguma atividade biotecnológica. A Fundação
Biominas foi pioneira em realizar estudos para compor panoramas do setor ao
longo dos anos 20005. Segundo o estudo Brazil biotech map, o setor é formado
por empresas jovens e pequenas, cerca de metade delas atuando em saúde humana6.
Além do complexo da saúde e do setor de biotecnologia, o sistema de ciência e
tecnologia constitui outro tópico necessário para estruturar a análise do
objeto deste artigo. Nos últimos vinte anos o Brasil avançou em termos de
C&T. A formação de pesquisadores titulados aumentou dez vezes de 1993 a
2011, atingindo aproximadamente 43 mil mestres e 12 mil doutores7. De 1996 a
2009, o Brasil triplicou a sua participação na produção mundial de artigos
indexados, de 0,9% para 2,7%. Em áreas como biologia, o Brasil só fica atrás de
Estados Unidos e China, em termos absolutos; e, em medicina clínica, atrás
apenas de Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Japão e China8. Ademais, o
aumento no financiamento para CT&I (principalmente com a criação dos fundos
setoriais a partir de 1999) e as mudanças regulatórias (como a Lei do Bem e a
Lei de Inovação) ampliaram as possibilidades de um processo de desenvolvimento
baseado em conhecimento e inovação.
No entanto, apesar dos avanços realizados em C&T - pilar de todo o setor de
biotecnologia -, ainda é necessário superar muitas fraquezas para se alcançar
um crescimento econômico baseado em conhecimento e inovação. O dispêndio em
P&D, por exemplo, ainda é baixo em termos relativos - 1,1% do PIB, quando a
média da OCDE é de 2,9% e da UE é de 1,8% -, muito embora esteja aumentando em
termos absolutos - o Brasil investe cerca de US$ 23 bilhões, comparável a
Espanha e Itália9. A minoritária participação do setor empresarial nesse tipo
de investimento tem consequências, como o persistente baixo número de patentes
- em maioria de instituições públicas. E, a despeito do maior número de mestres
e doutores, 68% dos pesquisadores ainda trabalham na academia10.
Segundo Gadelha11, a carência de atividades mais intensivas em tecnologia na
área de saúde está relacionada à crescente demanda por produtos e serviços
importados. O déficit na balança comercial do "complexo econômico industrial da
saúde" subiu de US$ 3 bilhões, em 2003, para US$ 10 bilhões, em 2011, sendo
metade em medicamentos e insumos farmoquímicos, 23% em equipamentos, 17% em
hemoderivados e 10% em reagentes, vacinas e soros12.
Qual seria, então, a situação do Brasil em termos de CT&I para a
biotecnologia em saúde humana? No contexto de um amplo complexo da saúde, que
requer biotecnologia para inovar e tornar-se mais competitivo e avanços em
C&T, quais seriam os prós e os contras do país nessa área? A fim de cercar
tais questões, este artigo joga luz sobre três dimensões da CT&I para a
biotecnologia em saúde humana no Brasil: distribuição no território, produção
científica e P&D em empresas.
A estrutura produtiva e a infraestrutura de CT&I da biotecnologia em saúde
humana no Brasil são fortes e vêm crescendo, todavia, são também concentradas e
muito dependentes do Estado. Espacialmente, encontram-se aglomeradas na região
Sudeste do Brasil, em especial, em poucas cidades do estado de São Paulo. São
setorialmente concentradas, com produção científica de fronteira e inovação em
poucas áreas de conhecimento, como cardiologia, câncer e doenças infecciosas.
Por fim, quase a totalidade das empresas, a maioria, micro e pequenas, depende
de financiamento público para P&D.
Contando com esta introdução, o artigo está estruturado em quatro seções ao
todo. A segunda trata da capacidade de produção científica relacionada à
biotecnologia em saúde humana, em que são utilizadas informações sobre recursos
humanos (mestres, doutores e docentes a partir do banco de dados de programas
de pós-graduação da Capes) e artigos publicados (Scopus e Thomson/ISI). Na
terceira seção, o foco são as empresas e o financiamento em P&D, a partir
de dados dos programas Subvenção econômica da Finep (federal) e Pesquisa
inovativa em pequenas empresas da Fapesp (estadual), além de um levantamento
sobre realização de ensaios clínicos (na plataforma "clinicaltrials.gov").
Finalmente, a quarta seção aponta desafios para a biotecnologia em saúde humana
no Brasil e levanta questões para discussão.
PRODUÇÃO CIENTÍFICA E BIOTECNOLOGIA EM SAÚDE HUMANA NO BRASIL
A produção científica em universidades, centros de pesquisa e instituições de
ciência e tecnologia é um dos pilares da biotecnologia em qualquer parte do
mundo. O Brasil tem um sistema de pós-graduação bem estruturado, que
proporciona condições para que a formação de recursos humanos no campo da
ciência seja avançada em algumas áreas, embora bastante desigual em termos
setoriais e de distribuição no território.
Nos últimos vinte anos, as instituições do sistema de C&T13 brasileiro
aperfeiçoaram sua atuação, houve crescimento nos dispêndios em P&D no país
e o sistema de ensino superior e pesquisa tem apresentado resultados positivos
em termos de recursos humanos (formação de pesquisadores) e produção científica
(artigos publicados). No entanto, o impacto dessas publicações e a produção
tecnológica (medida por patentes) não avançaram14. A análise a seguir foca os
recursos humanos em pesquisa como proxy do potencial de produção científica,
passando, brevemente, pela evolução da publicação de artigos.
Recursos humanos para pesquisa
No que se refere à formação de recursos humanos em nível de pós-graduação, o
crescimento no Brasil, nas duas últimas décadas, foi expressivo. Em 1987, o
país formou 3.865 mestres e 1.005 doutores. Em 2011, foram titulados cerca de
onze vezes mais mestres (42.830) e doze vezes mais doutores (12.217) do que há
24 anos (Gráfico_1).

Três pontos merecem destaque em relação a essa tendência de crescimento. O
primeiro é que há forte concentração no Estado de São Paulo: um quarto dos
mestres e 40% dos doutores se titularam por instituições paulistas. O segundo é
que, apesar de a proporção de pesquisadores no total da população estar
melhorando no Brasil, ela ainda é baixa (660/milhão) quando comparada às dos
países desenvolvidos - 4.500/ milhão nos Estados Unidos e na Coreia do Sul e
5.500/milhão no Japão15. Desse modo, o Brasil contribui com apenas 1,7% dos
pesquisadores do mundo, muito menos que todos os países desenvolvidos, mais
China, Índia e Rússia. O terceiro é o fato de os pesquisadores encontrarem
poucas oportunidades no mercado de trabalho brasileiro, sendo majoritariamente
empregados em universidades e institutos de pesquisa (68%), e não no setor
privado (com apenas 26,5%), como ocorre nos países desenvolvidos16. O baixo
percentual de pesquisadores no setor privado pode estar relacionado às baixas
taxas de inovação e de tecnologia proprietária das empresas (como veremos mais
à frente).
A despeito dessas dificuldades, o incremento na formação de recursos humanos no
Brasil foi significativo nas grandes áreas de conhecimento relacionadas a saúde
humana e biotecnologia. Se tomarmos como ponto de partida o ano 2000, o número
de mestres e doutores tem crescido, e em 2011 era praticamente o dobro nas
áreas de ciências biológicas e da saúde. Em relação ao total, em 2011, 22% dos
42.830 novos mestres no Brasil eram das áreas de ciências biológicas e da
saúde, assim como 30% dos 12.217 doutores titulados no mesmo ano (Gráfico_2).
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Visto o aumento expressivo, de modo geral, na formação de recursos humanos, uma
opção para a análise do potencial de produção científica voltada à
biotecnologia em saúde humana no país é a utilização das informações da Capes
sobre a pós-graduação, tanto pública como privada, conforme apresentado a
seguir.
Potencial de pesquisa em saúde humana e biotecnologia
A fim de apresentar um panorama mais específico da capacidade de produção
científica em biotecnologia em saúde humana no Brasil, selecionamos algumas
subáreas de conhecimento das ciências biológicas e da saúde cujos cursos de
pós-graduação podem ter projetos em biotecnologia em saúde humana. Antes de
realizar os cruzamentos dos dados, foi preciso um trabalho de filtragem das
áreas17 que seriam de interesse pelo fato de estarem relacionadas ou servirem
de base para atividades biotecnológicas.
A unidade do banco de dados da Capes é o programa de pós-graduação, e aqui
utilizamos o número de matriculados (mestrandos e doutorandos) e de docentes em
cada um dos programas18 em 2011. Assumimos que tal informação possa ser tomada
como proxy da capacidade de recursos humanos para a produção de C&T no
país, uma vez que se trata daqueles que estão fazendo pesquisa atualmente e
formalmente em programas de pós-graduação19.
Na impossibilidade de detalhar precisamente e desagregar por áreas de
conhecimento tanto esse conjunto de doutores como aqueles pesquisadores em
empresas ou em laboratórios de pesquisa público e privados (sem vínculo com
pós-graduação), utilizamos aqui a informação disponível da Capes, que permite
uma organização em áreas relacionadas à biotecnologia em saúde humana.
A análise com base em docentes e pesquisadores em mestrado e doutorado como
proxy de produção científica na academia mostra que há um potencial para a
criação de conhecimento nas áreas relacionadas à biotecnologia em saúde humana,
mas que ela está bastante concentrada em algumas cidades e com pesquisa
avançada em poucas áreas de conhecimento. Há no Brasil 11.813 docentes e 29.115
pesquisadores matriculados em programas de pós-graduação de mestrado e
doutorado nas áreas aqui selecionadas20. Isso representa 18% do total de
docentes do Brasil e 17% dos mestrandos e doutorandos matriculados em programas
de pós-graduação no país.
O estado de São Paulo concentra 37,5% desses 40.928 pesquisadores (matriculados
em mestrado e doutorado e docentes), bem acima de outros estados, como Rio de
Janeiro (12,5%), Minas Gerais (8,6%) e Rio Grande do Sul (8,2%). Além do eixo
Sudeste/Sul, todos os estados da região Nordeste somam 15% dos pesquisadores em
áreas relacionadas à biotecnologia em saúde humana (Pernambuco, 4,2%; Ceará,
3,4%; e Bahia, 2,9%).
Isso se reflete em uma análise espacial mais desagregada, uma vez que apenas 79
municípios (do total de 5.565) concentram todos os 40.928 pesquisadores. Entre
as cinco cidades com mais pesquisadores, três são do estado de São Paulo: a
capital (19%), Campinas (5,6%) e Ribeirão Preto (5,3%). As outras duas são as
capitais dos estados do Rio de Janeiro (10,8%) e do Rio Grande do Sul (5,6%).
Belo Horizonte (4,9%) aparece em sexto, pouco acima de Recife (4,1%) (Mapa_1).
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A produção científica concentrada é positiva por um lado, ao permitir a troca
de conhecimento e o fortalecimento de centros de referência em pesquisas de
fronteira. Por outro lado, diminui as possibilidades de formação de
pesquisadores e de florescimento de novos centros, o que, por sua vez, diminui
a diversidade, as oportunidades de aproveitamento do conhecimento de cada
região (como a biodiversidade brasileira para pesquisa no caso da Amazônia) e
do próprio desenvolvimento local e de longo prazo, características mais
suscetíveis de experiências de crescimento baseadas em conhecimento e inovação.
No que se refere às áreas de conhecimento, o maior destaque em quantidade de
pesquisadores do conjunto de áreas aqui selecionado é a medicina. A soma de
especialidades da medicina representa 6% do total de pesquisadores do Brasil,
boa parte em cirurgia, patologia, cancerologia e cardiologia. Outro grupo com
significativo número de mestrandos, doutorandos e docentes é o das áreas
relacionadas à química voltada para saúde humana: bioquímica, farmácia,
farmacologia e engenharia química somam 9.123 pesquisadores, ou seja, 4% do
total no Brasil. Pesquisadores em microbiologia, imunologia, doenças
infecciosas e parasitologia somam 4.393 - 2% do total do Brasil. Uma área que
cresceu bastante nos últimos anos no país foi a genética, cuja participação no
total do país é de 1% (2.166 pesquisadores).
A biotecnologia como área de conhecimento específica na pós-graduação
brasileira é recente. Dado seu caráter interdisciplinar, muito da pesquisa
biotecnológica está em outras áreas. Mesmo assim, vale lembrar que o número de
pesquisadores em biotecnologia e engenharia biomédica somavam 3.281 (1,5% do
total do Brasil).
Produção científica: mais publicações em áreas relacionadas à biotecnologia
De acordo com o último SIR World Report, que ranqueou 3.290 instituições de
pesquisa de 106 países, o Brasil ocupa a 10-a posição em performance
científica21. Isso se deve em parte ao crescimento, nos últimos anos, no número
de publicações brasileiras de forma geral e na participação relativa do país no
total produzido no mundo. Segundo a base Scopus, em 2011, o Brasil publicou
46.933 artigos, 2,3% dos 2.062.532 no mundo (mais da metade da América Latina,
54,1%)22.
Em relação às informações sobre número de artigos publicados em periódicos
científicos indexados de outra fonte, a Thomson/ISI, o Brasil produzia seis mil
em 1996 e 32 mil em 2009. Isso significa um salto na participação nas
publicações no mundo, passando de 0,9% do total mundial em 1996 para 2,7% em
200923. Junto com China, Coreia do Sul, Turquia e Taiwan, o Brasil ficou entre
os cinco países com maior crescimento percentual na publicação de artigos entre
1981 e 2009. Em termos absolutos, entre 2001 e 2009, apenas China, Estados
Unidos, Coreia do Sul, Índia e Canadá tiveram variação maior que a
brasileira24. O Brasil ocupa agora a 13-a posição no ranking mundial, mas ainda
permanece atrás de países de menor economia e população, como França (65 mil),
Canadá (55 mil), Itália (51 mil), Espanha (44 mil), Coreia do Sul (39 mil) e
Austrália (38 mil), fora Estados Unidos, China, Reino Unido, Alemanha e
Japão25.
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O número de artigos publicados é outro indicador que explicita a concentração
regional da ciência no Brasil: apenas sete universidades (todas públicas)
respondem por 60% desses artigos em periódicos internacionais, sendo que a USP
é responsável por cerca de um quarto do total26.
Nas grandes áreas de conhecimento há uma participação expressiva do Brasil em
áreas relacionadas à saúde humana e biotecnologia. Das onze áreas em que o país
tem maior participação em artigos publicados indexados no total mundial, sete
delas estão relacionadas à saúde humana e/ou à biotecnologia e aumentaram sua
participação na produção mundial entre 2004 e 200927 (Tabela_1). Além disso,
farmacologia e toxicologia, microbiologia, biologia e bioquímica, e
neurociências e ciências comportamentais são conjuntos em que o Brasil tem
maior peso relativo, já que aparecem com participação acima da média geral
brasileira no mundo (2,7%)28.
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Em relação ao impacto das publicações brasileiras, apesar de ainda ser baixo, é
interessante notar que aumentou, passando de 1,45 citações por artigo, dois
anos após a publicação, em 2000, para 2,05 citações, em 200729. E as áreas que
mais se destacam são justamente aquelas relacionadas à saúde, e com origem,
principalmente, no estado de São Paulo30.
Por fim, vale mencionar a evolução do Brasil nas duas últimas décadas em termos
de registros de patentes. Houve um aumento no número de patentes depositadas no
escritório dos Estados Unidos (USPTO) entre 1988 e 2011. Considerando os
depósitos com primeiro autor residente no Brasil, foram 71 pedidos, em 1988, e
586, em 2011 - 725% de aumento. E as concessões subiram de 29, em 1988, para
254, em 2011 (775%).
No entanto, esse crescimento em valores absolutos não foi expressivo em termos
relativos, pois muitos outros países também aumentaram o seu número de
patentes, sendo que alguns, como Coreia do Sul, China, Índia, tiveram
desempenho muito acima do Brasil. Por tal motivo, o país, que ocupava a 30-
a posição no ranking de patentes concedidas em 1988, passou apenas para a 29-
a em 2011. Ou seja, o Brasil continua ocupando uma posição de pouco destaque no
ranking de países em termos de registro internacional de propriedade
intelectual. Além disso, vale ressaltar: a maioria das patentes é gerada nas
universidades e institutos de pesquisa públicos, e não no setor privado,
diferentemente dos demais países como os Estados Unidos; e metade delas tem
origem no estado de São Paulo31.
Embora tenha aumentado a publicação de artigos científicos, falta ao Brasil
ampliar o impacto dessa produção científica no debate internacional.
Universidades, como a USP, e agências de fomento, como a Fapesp, têm
explicitado e apoiado cada vez mais a necessidade de os pesquisadores buscarem
a internacionalização de seus projetos, mediante parcerias com pesquisadores do
exterior e publicação nos principais periódicos do mundo.
NOVOS PROJETOS EM SAÚDE HUMANA: A CONEXÃO ENTRE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
O setor privado brasileiro investe pouco em P&D: 0,5% do PIB, sendo cerca
de um terço desse investimento proveniente de renúncia fiscal via leis de
incentivo. A título de comparação, a média da UE é 1,15% e a da OCDE 1,58% do
PIB. O país cujo setor privado mais investe são os Estados Unidos, com 2% do
PIB. Disparidade que, no entanto, não é tão grande no que se refere ao
investimento público em P&D: 0,59% do PIB no Brasil, contra 0,62% do PIB na
UE e 0,69% na média da OCDE, tampouco muito longe dos países com maior gasto
público em P&D, a saber Austrália e Canadá, na casa de 0,85% do PIB32.
Tais informações ganham ainda maior sentido quando observamos as fontes de
financiamento para P&D das empresas de biotecnologia em saúde humana. Duas
instituições federais têm papel mais importante na distribuição de fundos não
reembolsáveis para projetos inovadores em biotecnologia em saúde humana: a
Finep, agora Agência Brasileira de Inovação, que publica chamadas específicas
de editais de subvenção para empresas (cuja análise será feita a seguir), e o
BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que possui
diferentes programas de incentivos à inovação - o Funtec é o seu fundo não
reembolsável33. No que se refere à esfera estadual, há significativo
investimento das agências de fomento, principalmente da Fapesp.
Para fins de contextualização, entre 237 empresas de biotecnologia no Brasil
identificadas no Brazil biotech map 2011, 53% (125 empresas) têm saúde humana e
insumos (a maioria de reagentes) como principal área de atuação34. Desse
conjunto de empresas de biotecnologia em saúde humana, 79% utilizam recursos
públicos para P&D, sendo que 61% utilizam Finep, 40%, programas do CNPq, e
44% recorrem a fundações estaduais de amparo à pesquisa (Fapesp e Fapemig, por
exemplo). Vale lembrar que são empresas jovens (67% criadas após 2000) e
pequenas (70% têm faturamento até R$ 2,4 milhões e 83% têm até 50 empregados).
Esses dados sugerem, pois, a dependência das empresas com atividades
biotecnológicas na área de saúde humana em relação às agências públicas de
fomento à inovação. Espaço que, em outros países, é ocupado, pelo menos em
parte, pelo capital de risco privado.
A seguir apresentamos informações de duas importantes fontes de financiamento
para as empresas que atuam na área de biotecnologia/saúde humana no Brasil, a
Subvenção econômica, da Finep, e o programa Pesquisa inovativa em pequenas
empresas (PIPE), da Fapesp, e avaliamos a experiência da inovação a partir de
uma breve análise de ensaios clínicos no Brasil.
Investimento federal EM P&D: o caso da Subvenção econômica da Finep
Com o objetivo de compreender melhor a natureza e a localização geográfica dos
projetos inovadores em saúde humana desenvolvidos no país, analisamos os
projetos aprovados pela Finep no âmbito da subvenção econômica, que é o
instrumento para concessão de recurso não reembolsável da instituição35. O
primeiro achado é que a metade de todos os projetos foi de empresas do estado
de São Paulo. Rio Grande do Sul aparece em segundo lugar, com 10% das
concessões, e em terceiro, Minas Gerais e Paraná, ambos com 9%. Rio de Janeiro
tem 7%, e Goiás, Santa Catarina, Ceará, Brasília, Amazonas, Paraíba, Pernambuco
e Piauí juntos somam 15%36.
É importante ressaltar que a Finep, assim como outras instituições de fomento
federais, possui uma política para favorecer o desenvolvimento das regiões
Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, estabelecendo que 30% dos recursos de
uma chamada sejam designados prioritariamente a essas regiões. O levantamento
mostra que as três regiões contribuíram somente com 14% de todos os projetos
aprovados, indício de que não houve projetos suficientes enviados por seus
respectivos estados ou que os projetos enviados não preencheram os requisitos
para aprovação.
Como saúde humana compreende áreas bastante diversas, categorizamos os projetos
por área terapêutica37. Foi possível, então, agrupá-los em 13 categorias:
câncer, saúde dentária, doenças cardiovasculares, dermatologia, doenças
infecciosas, doenças negligenciadas, ortopedia, genética, medicina
regenerativa, inflamação, endocrinologia, dores crônicas e doenças
respiratórias. Câncer é a categoria com maior número de projetos, 20% do total,
seguida de saúde dentária (14%), doenças cardiovasculares (13%), dermatologia
(13%) e doenças infecciosas (10%) (Gráfico_4).
Ao avaliarmos a distribuição geográfica das cinco categorias predominantes,
apesar da concentração dos projetos aprovados no Estado de São Paulo,
especialmente em câncer, doenças cardiovasculares e doenças negligenciadas, a
região Sul (Paraná, com dez casos, e Santa Catarina, com cinco) se destaca em
projetos inovadores em ortodontia38.
Por fim, é importante ressaltar que, quando a Finep lança um edital do programa
Subvenção, geralmente já estão definidos previamente áreas e temas. Por
exemplo, áreas prioritárias em uma chamada podem ser biotecnologia, saúde e
energia. Dentro de cada área são definidos temas para submissão de projetos. As
áreas e respectivos temas podem variar a cada ano e são decisões que envolvem o
MCTI, não só a Finep. Em 2008, por exemplo, o edital Subvenção estabeleceu que
um dos temas para submissão de projetos na área de saúde era "Desenvolvimento
de dispositivos diagnósticos, prognósticos e ferramentas terapêuticas para
doenças negligenciadas e câncer". Assim, os seis projetos em câncer aprovados
no estado de Minas Gerais não foram de empresas dedicadas à pesquisa em câncer,
mas de empresas de diagnóstico molecular que submeteram projetos envolvendo
diagnóstico de câncer.
Uma breve análise complementar ao instrumento da Subvenção que vale ser feita
neste artigo é sobre o programa Inovar fundos39, voltado ao desenvolvimento da
indústria de venture capital no Brasil, em que a Finep realiza chamadas
públicas de propostas de capitalização para apoiar gestores de fundos. Ao
analisarmos o documento com resultados do programa até 2012, notamos que: (i)
somente 25% vão para seed capital, aquilo que empresas iniciantes precisam;
(ii) considerando os fundos de seed e venture capital com participação da
Finep, poucos têm como foco a biotecnologia, e, quando têm, saúde humana não é
área prioritária. Do total de cem empresas, identificamos cinco em saúde
humana. Dentre elas, três são dedicadas a serviços (clínica oncológica, CRO e
fertilização in vitro) e somente duas na área de biotecnologia em saúde
humana40; uma em ortodontia e outra dedicada à descoberta de novas drogas para
saúde humana41.
O capital de risco no Brasil não está investindo em empresas voltadas para
biotecnologia em saúde humana, como ocorreu com o fundo de seed money do BNDES,
Criatec I, já encerrado. O portfólio de empresas de biotecnologia que receberam
investimento abrangia agronegócio e saúde humana, mas, neste caso, empresas de
equipamentos e de tecnologia da informação em saúde e serviços. O investimento
"de risco" tem mostrado mais interesse em aplicações diretas na área da saúde,
como hospitais, empresas de diagnóstico, equipamentos, tecnologia da informação
aplicada à saúde, do que em projetos em biotecnologia, que são densos em
tecnologia e de alto custo e risco. Com exceção do exemplo já antigo da
Biobrás, a biotecnologia nacional carece de casos de sucesso em saúde humana.
Investimento estadual em P&D: o programa pesquisa inovativa em pequenas
empresas (PIPE)
O estado de São Paulo é o que mais investe em P&D no Brasil. Cerca de um
terço do gasto público em P&D no país (ou 0,2% do PIB) vem de fundos
estaduais. Se considerarmos apenas São Paulo, dois terços provêm de recursos
estaduais (US$ 9,2 bilhões). Isso significa que o Estado de São Paulo gasta em
P&D quase o dobro do México e o triplo da Argentina42.
Parte desse investimento é feito pela Fapesp, cujo orçamento anual é de 1% do
total da receita tributária do Estado. Um de seus programas para P&D nas
empresas é o Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). Criado em 1997 e
inspirado no programa norte-americano Small Business Innovation Research
(SBIR), busca apoiar ciência e tecnologia como mecanismo de promoção da
inovação em micro e pequenas empresas (até 100 empregados). Os projetos duram
pelo menos dois anos e seu objetivo final é a comercialização dos produtos e
processos que resultaram das pesquisas apoiadas. Atualmente são quatro chamadas
por ano, com R$ 20 milhões por chamada e concessões de até R$ 1 milhão por
empresa43.
De janeiro de 1998 a março de 2013, período coberto pela coleta de dados aqui
realizada diretamente no banco de dados da Fapesp, foram aprovados 1.155
projetos de auxílio à pesquisa44. Ao observarmos por grande área de
conhecimento, verificamos que mais da metade foi para as engenharias (61%),
seguidas por ciências exatas e da terra (20%), ciências biológicas e da saúde
(14%) e ciências agrárias (12%).
Para os fins da discussão proposta neste artigo, somamos ciências biológicas e
da saúde com engenharia biomédica, uma área específica dentro das engenharias
que responde por 7% de todos os projetos. As áreas relacionadas à biotecnologia
em saúde humana representam 21% dos projetos de auxílio à pesquisa no âmbito do
PIPE durante todo o período de vigência. Quanto às áreas de conhecimento
específico, esses 238 projetos foram direcionados principalmente para
engenharia biomédica e o conjunto bioquímica, farmácia e farmacologia (Tabela
2).
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Os projetos do conjunto biotecnologia e saúde humana estão distribuídos em
trinta municípios (Mapa_2), enquanto o total de projetos do programa PIPE está
em 107 municípios, o que demonstra certa especialização regional da
infraestrutura de C&T&I no Estado de São Paulo, achado que se apoia na
literatura sobre o tema45.
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Apesar de serem realizados em empresas, a localização dos projetos se concentra
nas cidades de importantes universidades e institutos de pesquisa do Estado de
São Paulo, reconhecidas pela excelência em ciências da saúde e biológicas. Dos
238 projetos relacionados à biotecnologia e saúde humana, 201 (84%) foram
concedidos para empresas nos municípios de São Paulo, Ribeirão Preto, São
Carlos, Campinas, Mogi das Cruzes e Botucatu (Mapa 3). A ausência de projetos
aprovados no oeste e no sul do estado é digna de nota, e corrobora o achado da
especialização territorial da ciência e da inovação no Estado de São Paulo46.
Biotecnologia em saúde humana no Brasil: uma análise a partir dos testes
clínicos
Em saúde humana, grande parte dos projetos inovadores passa pelos ensaios
clínicos para chegar ao mercado. Outra maneira, portanto, de avaliar a
capacidade de inovação no setor é por meio da análise de ensaios clínicos, seus
patrocinadores e áreas de conhecimento. Para tanto, é importante separar
ensaios clínicos em suas diferentes fases. O esforço de inovação maior está nos
ensaios clínicos de fases iniciais (0 a 2). A fase 3 envolve outras variáveis,
como grande quantidade de pacientes, e exige participação multicêntrica, que
pode envolver vários países na execução de um protocolo de pesquisa determinado
pela instituição proponente. Quanto mais ensaios clínicos em fases iniciais,
maior tende a ser o esforço de inovação naquele país ou área de conhecimento.
Realizamos, então, uma busca por ensaios clínicos nas áreas de conhecimento
predominantes encontradas nos projetos de subvenção econômica aprovados pela
Finep e que, obviamente, precisam de ensaios clínicos para levar um produto ao
mercado, a saber cardiologia, câncer e doenças infecciosas. Para contextualizar
o panorama nacional, fizemos a mesma busca no Brasil e nos Estados Unidos, país
líder em inovação em saúde humana. Para cada área de conhecimento e país
filtramos as buscas em: (1) ensaios abertos fase 0-2 patrocinados pela
indústria; (2) ensaios abertos fase 0-2 patrocinados por outras instituições;
(3) ensaios abertos fase 3 patrocinados pela indústria e (4) ensaios abertos
fase 3 patrocinados por outras instituições47.
Seguindo tais parâmetros, o total selecionado foi de 10.589 ensaios em
andamento nos Estados Unidos e 352 no Brasil nessas três áreas. Como já era
esperado, a maior proporção de ensaios clínicos nos Estados Unidos está nas
fases 0-2, enquanto no Brasil a maior proporção está na fase 3 (Gráfico_5). Nos
Estados Unidos, em câncer, 79% dos ensaios estão nas fases 0-2 (sendo 46%
patrocinados por instituições não industriais e 34% pela indústria); 56% do
total de ensaios em cardiologia (sendo 37% por instituições não industriais e
19% pela indústria); e 60% dos ensaios em doenças infecciosas (sendo 37% por
instituições não industriais e 23% pela indústria).
No Brasil, a maior proporção dos ensaios clínicos é de fase 3 e patrocinados
pela indústria (principalmente multinacional estrangeira): 48% dos ensaios de
câncer, 39% daqueles em cardiologia e 55% dos ensaios em doenças infecciosas.
Em cardiologia, a participação de instituições não industriais, a maioria
brasileiras, também é significativa (33%).
Vale chamar atenção para dois achados importantes na análise. O primeiro se
refere aos ensaios de fase 0-2 - aqueles que indicam maior inovação - no
Brasil, em que câncer é a área que apresenta maior proporção: 41% dos ensaios,
sendo 28% patrocinados pela indústria e 13% por outras instituições.
Cardiologia, por exemplo, aparece com 29% dos ensaios. A diferença é que, em
câncer, a maior parte de ensaios de fase 0-2 é patrocinada pela indústria
multinacional estrangeira, e, em cardiologia, os patrocinadores são, em
maioria, instituições de pesquisa e hospitais nacionais. Isso pode ser um
reflexo do maior interesse do mercado internacional por inovações em câncer do
que em cardiologia48.
O segundo achado é que a participação de empresas brasileiras, seja como
patrocinadoras ou colaboradoras, é muito pequena, nas três áreas terapêuticas
analisadas. Em cardiologia, uma das áreas em que o Brasil possui boa reputação
internacional em ciência básica e aplicada, entre 142 ensaios clínicos abertos,
somente cinco (3,5%) têm participação de empresas brasileiras: Scitech Produtos
Médicos, Pró-Cardíaco em parceria com o grupo DASA, a prestadora de serviços
LAL e a farmacêutica Eurofarma (com dois ensaios). Diversas instituições de
pesquisa nacionais, como USP, INCOR, UFRJ, UFBA, UFJF, entre outras, são
patrocinadoras. Em câncer, o padrão é similar. Em meio a uma diversidade de
multinacionais conduzindo ensaios clínicos no Brasil, há poucas empresas
nacionais: Eurofarma, Recepta, de anticorpos monoclonais, e a Lavilabor, de
produtos naturais, e a LAL.
Foi surpreendente notar que esse padrão não foi muito diferente em doenças
infecciosas. De 166 ensaios abertos, há onze em empresas brasileiras: EMS,
Laboratório Teuto Brasileiro, Adapt Produtos Oftalmológicos, Biolab Sanus,
Zodiac Produtos Farmacêuticos, Zurita Laboratório Farmacêutico e a LAL. A
grande maioria dos ensaios tem como patrocinadores a indústria estrangeira.
Esses achados a partir dos ensaios clínicos confirmam, por outros meios e com a
utilização de novos dados, aquilo que aparece na literatura sobre o tema no
Brasil: a baixa capacidade de inovação do setor privado em saúde humana. Para
Gadelha, por exemplo, um dos problemas essenciais do complexo industrial
brasileiro da saúde é a baixa capacidade inovativa da indústria farmacêutica
nacional, que está descolada da base científica e tecnológica brasileira49.
Apesar do número crescente de mestres e doutores, nossas publicações ainda têm
pouco impacto e a quantidade de patentes depositadas pela base científica e
tecnológica brasileira é baixa. Esse "descolamento" entre a indústria
farmacêutica nacional e a base científica e tecnológica brasileira pode ser
também consequência de que muito do investimento na formação de recursos
humanos não tem, necessariamente, uma relação direta com a geração de
tecnologias interessantes para a criação de produtos no mercado.
A indústria farmacêutica brasileira apresenta uma característica singular: a
existência de laboratórios públicos de alcance nacional, voltados
essencialmente para a produção de medicamentos constantes dos programas
governamentais em saúde. Em conjunto, os laboratórios oficiais são capazes de
produzir cerca de 11 bilhões de unidades farmacêuticas por ano, com 195
apresentações, englobando mais de 100 princípios ativos. A produção desses
laboratórios representava, em 2006, cerca de 3% da produção nacional em valor e
10% em volume, o que equivalia a cerca de 10% do total de compras em
medicamentos do Ministério da Saúde. Apesar de a dependência externa em insumos
para produção de medicamentos ser um problema comum aos países em
desenvolvimento, o Brasil é um dos poucos países a apresentar um parque público
estatal de produção de medicamentos, instalado em várias regiões do território
nacional50.
O papel desempenhado pelos laboratórios oficiais, no entanto, vai além da
produção de medicamentos, representando uma importante forma de regulação de
mercado. Através da oferta de medicamentos, esses laboratórios contribuem para
aumentar a concorrência no setor, desenvolver pesquisa em áreas de menor
interesse para a indústria e, sobretudo, facilitar o acesso da população de
baixa renda aos medicamentos.
Na cadeia de desenvolvimento de novos produtos em saúde humana, existe uma
capacidade instalada nas nossas instituições de pesquisa e hospitais para
realizar P&D em áreas estratégicas para o setor, como câncer e cardiologia,
porém falta envolvimento de empresas nacionais. O que é coerente com a baixa
inovação das farmacêuticas nacionais e com um setor de biotecnologia ainda
formado por empresas muito jovens e pouco capitalizadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O artigo apresentou um panorama do setor de biotecnologia em saúde humana no
Brasil mostrando sua concentração espacial e setorial em termos de produção
científica, a dependência do setor privado em relação aos investimentos
públicos para P&D, a baixa capacidade de inovação na cadeia de novas drogas
e uma desconexão entre os avanços em ciência e tecnologia e a inovação no setor
privado de biotecnologia em saúde humana.
A concentração regional de C&T no Brasil pode ser vista tanto como um ponto
positivo quanto como um problema. Por um lado, a própria aglomeração de
atividades em certas regiões permite o fluxo de conhecimento tácito, o
aprendizado via proximidade física e institucional e os chamados efeitos de
transbordamento (spillovers), como a criação de empresas em centros regionais
especializados, o que é essencial para a indústria de biotecnologia.
Por outro lado, indica que o Brasil está subutilizando sua capacidade e sua
diversidade regional e de conhecimento local para o desenvolvimento científico
da saúde humana e para o próprio desenvolvimento econômico e social do país. Os
dados demonstram a dependência de recursos financeiros, humanos e de
infraestrutura dos estados mais desenvolvidos para que o país possa desenvolver
inovações em saúde humana.
A alta dependência de financiamento público e a baixa capacidade de inovação
das empresas são evidências que dialogam diretamente com a literatura sobre o
tema, a qual aponta desafios importantes quando se fala em biotecnologia em
saúde humana no Brasil: 1) a centralidade da produção nos laboratórios
públicos; 2) a relação entre o alto déficit comercial e a baixa capacidade
tecnológica e de inovação da indústria nacional e 3) a necessidade de aprimorar
instrumentos de poder de compra do governo como estratégia para estimular
desenvolvimento tecnológico51. Para dar conta de tais desafios, as políticas
públicas no setor de saúde podem estimular o desenvolvimento tecnológico no
complexo industrial da saúde, de forma geral, e na biotecnologia em saúde, de
forma específica52.
Em 2012, foi lançada pelo governo federal a Estratégia Nacional de
C&T&I que, segundo Costa, "enfatiza a necessidade de promover
mecanismos de estímulo à inovação em saúde e de intensificação da transferência
tecnológica para os laboratórios públicos nacionais"53. A produção de vacinas
reagentes para diagnóstico e biofármacos em instituições públicas foi
reforçada, por exemplo, no Instituto Butantan e em unidades da Fiocruz a partir
do uso do poder de compra do Estado.
A portaria que define as parcerias para desenvolvimento produtivo na saúde
também é explícita no sentido da articulação entre uma política industrial,
tecnológica e de inovação motivada pela política de saúde:
As PDP são parcerias realizadas entre instituições públicas e
entidades privadas com vistas ao acesso a tecnologias prioritárias, à
redução da vulnerabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) a longo
prazo e à racionalização e redução de preços de produtos estratégicos
para saúde, com o comprometimento de internalizar e desenvolver novas
tecnologias estratégicas e de valor agregado elevado54.
Segundo o Ministério da Saúde, até dezembro de 2013, eram 104 acordos para a
produção no Brasil de 97 produtos, entre eles, vacinas, antirretrovirais,
medicamentos oncológicos, fármacos para doenças negligenciadas e biossimilares.
O arranjo envolve 19 laboratórios públicos e 60 privados, sendo 30 de capital
nacional e 30 estrangeiros55.
Com a finalidade de colocar a indústria brasileira numa rota de aprendizado
tecnológico de biossimilares e diminuir o déficit na balança comercial em saúde
humana no país, o governo federal pretende utilizar seu poder de compra para
estimular a produção local de medicamentos e biossimilares56. O fato de que o
governo pagará até 25% a mais quando estes produtos forem manufaturados no país
já estimulou o setor privado. Duas joint ventures que têm como objetivo a
manufatura de biossimilares, a BioNovis e a Orygen Biotecnologia, foram criadas
com o apoio do governo federal na articulação e a participação do BNDES no
futuro. E a Biomm, criada por acionistas da Biobrás, vai investir R$ 330
milhões na construção de uma unidade para fabricar insulina humana
recombinante57.
Há ainda o Profarma-Biotecnologia do BNDES e o Inova-Saúde, parceria da Finep
com o Ministério da Saúde. Neste último, e também nos editais em conjunto
Finep/Fundações Estaduais no programa Tecnova, é permitida a contratação de
serviços no exterior, caso não sejam oferecidos no país. Possibilidade bastante
importante, pois muito da expertise necessária para o desenvolvimento de novos
produtos em saúde humana ainda não existe no país58. Por outro lado, todos os
programas de subvenção, da Finep ao CNPq, restringiram a contratação de
consultores especializados, o que dificulta mais ainda a interação
universidade-empresa, uma vez que os maiores especialistas em pesquisa estão
nas ICTs59.
Nos últimos cinco anos, parece que tem aumentado também o interesse externo no
Brasil, tanto de empresas internacionais atraídas pelo mercado consumidor
brasileiro e pela possibilidade de parcerias público-privadas, como de
investidores interessados em inovação. No pavilhão do Brasil, durante os
congressos anuais da BIO, principal evento do setor que ocorre nos Estados
Unidos, a busca por empresas, inovações e oportunidades de negócios no país tem
sido intensa e crescente60.
Apesar dos esforços e avanços, muito da inovação em biotecnologia em saúde
humana advém da descoberta de novas drogas, algo em que o Brasil não vai bem.
Trata-se de processo longo, de alto risco, intensivo em capital e que exige
forte estratégia de proteção de propriedade intelectual. O déficit brasileiro
em saúde humana é principalmente em relação a produtos biotecnológicos, aqueles
de maior valor agregado e prescritos para doenças crônicas, principal problema
da população do país hoje61. O déficit é um problema que o governo federal
tenta atacar com as ações mencionadas acima. Contudo, uma análise geral do
setor em outros países mostra que há ainda outros desafios. No caso do setor de
biotecnologia dos Estados Unidos, por exemplo, as empresas começaram a ter
resultados depois de um longo período de desenvolvimento (e de investimento)
sem gerar retorno financeiro. Um ponto importante é pensar como parcerias e
licenciamentos são partes fundamentais no que Pisano62 chama de "anatomia do
negócio em biotecnologia", ao narrar o caso norte-americano entre os anos 1970
e início de 2000. Segundo ele, empresas iniciantes dependiam de parcerias com
as farmacêuticas estabelecidas, por conta de capital. Os investidores de
capital de risco não se interessavam em colocar recursos em possíveis negócios
embrionários baseados em ciência e em fase de desenvolvimento de produto. A
solução das pequenas empresas foi buscar os recursos das big pharmas e ceder
futuros direitos de produtos.
Por outro lado, até a primeira década dos anos 2000, para as farmacêuticas, era
interessante ter a parceria com as empresas nascentes de biotecnologia. Isso
porque estas poderiam acessar o conhecimento das universidades, uma vez que
estariam mais próximas da academia e do modus operandi da ciência (muitas
fundadas por pesquisadores, igualmente no caso brasileiro) e mesmo próximas
fisicamente, muitas vezes instaladas dentro da universidade ou em suas
redondezas (como também ocorre no Brasil). As empresas de biotecnologia acabam
funcionando como intermediárias entre as farmacêuticas e as universidades,
lidando melhor com os conflitos entre negócio e academia, entre a necessidade
do conhecimento aplicado e o tempo para o resultado da pesquisa. Ou seja,
funcionam bem para suprir a lacuna entre a descoberta científica e o
desenvolvimento de produto aplicado.
Como forma de gerar retorno financeiro para os investidores, empresas de
pequeno porte são compradas pelas grandes, interessadas na inovação
desenvolvida. Estas mesmas empresas, em geral, quando start-ups, receberam
recursos financeiros do governo, tiveram investimento de capital de risco, em
alguns casos, e fizeram parcerias com empresas maiores63. Mas, no Brasil, há
problemas na estrutura institucional, regulatória e de mercado para estimular
tais arranjos.
Outro exemplo de caminho para empresas pequenas é o estabelecimento de
parcerias em rede para lidar com a incerteza e a complexidade do processo de
desenvolvimento de novas drogas, como é o caso da Recepta em anticorpos
monoclonais. Em seu estudo sobre a empresa, Felizardo explica o arranjo que
envolve instituições com distintas competências de pesquisa e diferentes
investidores:
as parcerias foram a solução para estruturar sua pesquisa em rede,
driblar a necessidade de toda a infraestrutura material e incorporar
todo o aparato imaterial (biólogos, bioquímicos, veterinários,
médicos) que sustenta a condução das pesquisas64.
O país conta com uma base acadêmica forte, como indicado neste artigo, e uma
comunidade biomédica sofisticada. A descoberta de novas drogas é um processo
longo, difícil, de alto risco e caro, que requer a aproximação entre a academia
e o setor privado. Nesse campo, parece que existem ainda muito mais gargalos do
que forças.
O resultado das pesquisas no Brasil soa estar em descompasso com a realidade
comercial internacional, o que dificulta o fomento de um setor de biotecnologia
que, para ser robusto, precisa "ser internacional". Há pesquisas de fronteira
na academia no Brasil, e algumas geram start-ups interessantes que sobrevivem
durante algum tempo com incentivos públicos (como Fapesp e Finep), mas o que
fazer depois do financiamento governamental para P&D? Empresas de
biotecnologia, muitas vezes, precisam não só de uma rodada de capital de risco,
mas de várias65. Como essas pequenas empresas (ou quase empresas) podem crescer
para estabelecer parcerias, ser compradas ou chegar a lançar produtos
inovadores no mercado?
O sistema de formação de recursos humanos conforme estruturado no Brasil tem
titulado pesquisadores, o que, sem dúvida, é positivo. Entretanto, há uma
discussão em curso que questiona se as engrenagens dessa estrutura não acabam
desfavorecendo a ousadia na pesquisa. O mundo da academia privilegia a
publicação de artigos, e não o desenvolvimento de pesquisas e tecnologias que
possam se tornar produtos, como no caso de medicamentos. São lógicas
diferentes. Essa é uma questão que está colocada para universidade não só no
Brasil como em outras partes do mundo, o que alguns autores chamam de "nova
função da universidade": além de ensino, pesquisa e extensão, estabelecer uma
capacidade de estimular o desenvolvimento tecnológico empreendedor66.
O aumento no número de pesquisadores formados na pós-graduação e na produção
científica é importante para a base científica e tecnológica do Brasil. No
entanto, a interação universidade-empresa, os investimentos do setor privado em
novos fármacos e medicamentos, assim como as políticas públicas para o setor,
como as parcerias público-privadas, as compras governamentais e o subsídio para
inovação, são movimentos recentes que ainda não têm impacto direto, por
exemplo, na dependência externa e no déficit na balança comercial de
medicamentos.
O histórico mostra que a biotecnologia inovadora em novas terapias para saúde
humana tem bom retorno financeiro, e pode ser, na média, mais rentável para
investidores do que o setor de tecnologia de informação, por exemplo. Mas, para
tanto, são necessários recursos, tempo e ousadia67. Ampliar a produção
científica tanto em termos de áreas de conhecimento quanto em distribuição
territorial é um desafio, assim como continuar os estímulos para que haja mais
parcerias universidade-empresa e para que o setor privado invista mais em
P&D, inclusive naqueles projetos de maior risco. É necessário a combinação
de diferentes condições para que a biotecnologia em saúde humana possa
contribuir com mais força para um processo de desenvolvimento baseado em
inovação no Brasil.
[1] Gadelha, Carlos Augusto, Quental, Cristiane e Fialho, Beatriz de Castro.
"Saúde e inovação: uma abordagem sistêmica das indústrias da saúde". Cad. Saúde
Pública, Rio de Janeiro, vol. 19, n-º 1, jan.-fev., 2003, pp. 47-59.
[2] Ministério da Saúde. "Complexo industrial em números - Ministério da Saúde"
< www.saude.gov.br>, acessado em 04/2013.
[3] Gadelha, Carlos Augusto, Quental, Cristiane e Filho, Beatriz de Castro, op.
cit.
[4] Ibidem; Gadelha, Carlos Augusto. "Desenvolvimento, complexo industrial da
saúde e política industrial". Revista Saúde Pública, n. 40, São Paulo: USP,
2006, pp. 11-23; Gadelha, Carlos Augusto, Costa, Laís
Silveira e Maldonado, José. "O complexo econômico-industrial da saúde e a
dimensão social e econômica do desenvolvimento". Revista Saúde Pública, vol.
46, supl. 1, São Paulo: USP, dez. 2012; Viana, Ana Luiza e
outros. "Saúde, desenvolvimento e inovação tecnológica: nova perspectiva de
abordagem e de investigação". Lua Nova, vol. 83, 2011, pp. 41-78; Cassiolato, José Eduardo e Albuquerque, Eduardo da Motta. "As
especificidades do sistema de inovação do setor saúde". REP, vol. 22, nº 88,
2002, pp. 134-51; Reis, Carla, Pieroni, João Paulo e Souza,
José Oswaldo. Biotecnologia para a saúde no Brasil. BNDES Setorial, vol. 32,
2009, pp. 193-230.
[5] Biominas. Parque nacional de empresas de biotecnologia. Belo Horizonte:
Fundação Biominas, 2001. Idem. Estudo de empresas de
biotecnologia do Brasil. Belo Horizonte: Fundação Biominas, 2007. Idem. Estudo das empresas de biociências - Brasil, 2009. Belo
Horizonte: Fundação Biominas, 2009. Biominas/PwC. A indústria
de biociências nacional: caminhos para o crescimento. Biominas Brasil e
PricewaterhouseCoopers (PwC), 2011.
[6] Cebrap, "Brazil biotech map 2011" < http://www.cebrap.org.br/v1/upload/pdf/
Brazil_Biotec_Map_2011.pdf >, acessado em 12/2012.
[7] Capes, "Geocapes - coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível
superior" < http://geocapes.capes.gov.br/geocapesds/ >, acessado em 01/2013.
[8] Hollanders, Hugo e Soete, Luc. "O crescente papel do conhecimento na
economia global". In: Relatório Unesco sobre ciência 2010. Tradução de Demerval
de Sena Aires Júnior. Setor de Ciências Naturais da representação da Unesco no
Brasil, 2010.
[9] Ibidem.
[10] MCTI, "Indicadores - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação" <
www.mct.gov.br>, acessado em 01/2013.
[11] Gadelha, Carlos Augusto, Costa, Laís Silveira e Maldonado, José, op. cit.
[12] Ibidem.
[13] A pós-graduação brasileira se apoia em dois órgãos federais: a Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da
Educação, responsável pela avaliação e também por financiamento de pesquisa; e
o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma
agência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que fomenta a
pesquisa científica e tecnológica e a formação de recursos humanos. Além deles,
há as fundações estaduais de fomento à pesquisa, como a Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
[14] Discutiremos possíveis causas e consequências disso mais adiante.
[15] Hollanders, Hugo e Soete, Luc, op. cit.
[16] MCTI, op. cit.
[17] A Capes utiliza uma classificação de áreas de conhecimento com a seguinte
desagregação, do geral ao específico: grandes áreas, áreas de descrição e áreas
de avaliação. No que diz respeito às ciências biológicas, incluímos neste
panorama áreas de conhecimento como: biofísica, biologia geral (inclui
molecular), bioquímica, farmacologia, fisiologia, genética, imunologia,
microbiologia, morfologia e parasitologia. Em relação às ciências da saúde,
foram consideradas farmácia e nutrição, além de diversas especialidades da
medicina, tais como alergologia e imunologia clínica, anatomia patológica e
patologia clínica, cancerologia, cardiologia, cirurgia, doenças infecciosas e
parasitárias, oftalmologia e radiologia médica. Por fim, entre as engenharias,
foram selecionadas a engenharia química e a engenharia biomédica. Uma área de
conhecimento multidisciplinar denominada biotecnologia entrou recentemente na
classificação da Capes e também foi aqui selecionada.
[18] O banco contém as seguintes informações: mestres e doutores (tanto
matriculados como titulados), docentes, instituição de ensino superior do
programa, município e estado.
[19] É importante ressaltar que não estamos assumindo que esses sejam todos os
pesquisadores no Brasil trabalhando na área de biotecnologia em saúde humana.
Além disso, ao considerarmos apenas os docentes dos programas de pós-graduação,
estamos subestimando o potencial de pesquisa, pois os docentes vinculados aos
programas de pós-graduação são em número menor que os docentes em geral e
doutores com dedicação exclusiva, ou seja, profissionais que podem também ter
pesquisas em andamento. É possível avaliar o nível dessa subestimação em torno
de 17%, o que não compromete a análise. Isso porque, por exemplo, em 2007, essa
foi a diferença encontrada em instituições de ensino superior (IES) federais,
onde havia 25.697 docentes com dedicação exclusiva com doutorado e 21.084
docentes na pós-graduação (diferença de 4.613, ou seja, 17,9%). Para as IES
estaduais, eram 12.820 contra 10.668, diferença de 2.152 (16,8%). Fapesp.
"Recursos financeiros e humanos em pesquisa e desenvolvimento". In: Indicadores
de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo 2010. São Paulo: Fapesp, 2011.
[20] Capes, op. cit.
[21] SIR World Report 2012: Global Ranking.
[22] São valores preliminares publicados pelo SCImago journal & country
rank (2012) e foram incluídos os chamados documentos passíveis de citação
("Citable documents").
[23] MCTI, op. cit.
[24] Hollanders, Hugo e Soete, Luc, op. cit.
[25] Cruz, Carlos Henrique de Brito e Chaimovich, Hernan. "Brasil". In:
Relatório Unesco sobre ciência 2010. Trad. Demerval de Sena Aires Júnior. Setor
de Ciências Naturais da representação da Unesco no Brasil, 2010.
[26] Ibidem.
[27] Apesar de não ser foco do artigo, vale mencionar ciências agrárias e
ciências dos animais/plantas, em que o peso relativo da produção brasileira na
ciência mundial é bem mais alto que a média.
[28] Importante lembrar que os dados da Thomson Reuters Science Citation Index
não captam todo o movimento de aumento de produtividade da ciência brasileira,
uma vez que ele ocorre também em periódicos locais (fora da contagem da
empresa) e muitos com circulação somente em português.
[29] Cruz, Carlos Henrique de Brito e Chaimovic, Hernan, op. cit.
[30] Fapesp. "Indicadores de CT&I em saúde no estado de São Paulo". In:
Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo 2010. São Paulo:
Fapesp, 2011.
[31] Idem. "Atividade de patenteamento no Brasil e no exterior". In:
Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo 2010. São Paulo:
Fapesp, 2011.
[32] Cruz, Carlos Henrique de Brito e Chaimovic, Hernan, op. cit.
[33] Vale mencionar o programa Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE) do
CNPq, que tem como objetivo incentivar a contratação de mestres e doutores pela
iniciativa privada.
[34] As informações sobre empresas de biotecnologia aqui apresentadas são novos
cruzamentos feitos a partir do banco de dados construído para o Brazil Biotech
Map 2011. Sobre a metodologia, ver Cebrap, op. cit.
[35] As informações são do banco de dados da Finep, e foram coletadas a partir
de busca por estado em que selecionamos todos os projetos relacionados à saúde
humana de 2007 (primeiro projeto de Subvenção econômica aprovado) até 2010. Ver
<http://www.finep.gov.br/pagina.asp?pag=programas_subvencao>, acessado em 12/
2011.
[36] A mesma empresa pode ter mais de um projeto aprovado em diferentes
programas. A maioria dos projetos é do edital de Subvenção econômica, mas
alguns são de outros programas da Finep como o Juro zero (que foi
descontinuado) ou ICT-Empresa. Outros programas foram introduzidos pela Finep
em 2013, o Inova saúde, por exemplo, que não fez parte desta análise.
[37] Dos 185 projetos relacionados à saúde humana, 112 foram passíveis de
classificação em áreas terapêuticas. Os outros 73 são de equipamentos ou
processos que não se encaixam em uma área específica. Por isso, foram retirados
da continuação da análise.
[38] Há empresas com vários projetos aprovados, como a Scitech, de Goiás, e a
Angelus, do Paraná.
[39] Ver histórico em http://download.finep.gov.br/programas/inovar/
Resultados.pdf, acessado em 03/02/2014.
[40] Pesquisa própria nos sites das empresas para entender sua área de atuação.
[41] BioZeus, investida por meio do fundo Burrill Brasil I - da Burrill &
Company, uma das maiores empresas de capital de risco em ciências da vida no
mundo, que abriu escritório no Brasil em 2011.
[42] Cruz, Carlos Henrique de Brito e Chaimovic, Hernan, op. cit.; Fapesp.
"Recursos financeiros e humanos em pesquisa e desenvolvimento", op. cit.
[43] O Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica
(PITE) tem menor número de concessões (146 convênios, de 1995 a 2010). Criado
em 1994, o objetivo principal é estimular a parceria de empresas com
universidades do estado de São Paulo. Há financiamento não reembolsável por
parte da Fapesp e uma contrapartida de investimento da empresa. Diferentemente
do PIPE, o PITE concentra projetos em empresas de maior porte.
[44] Não consideramos no levantamento a concessão de bolsas de pesquisa no país
vinculadas ao programa, que somam 1.813 no período. Ver http://
www.bv.fapesp.br/pt/pesquisa, acessado em 11/04/2013.
[45] Fapesp. "Dimensão regional dos esforços de ciência, tecnologia e inovação
no estado de São Paulo". In: Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em
São Paulo 2010. São Paulo: Fapesp, 2011; Torres-Freire,
Carlos, Abdal, Alexandre e Callil, Victor. "Science, technology and innovation
in the Brazilian State of São Paulo: the need for public policies for region-
based development". International Journal Technological Learning, Innovation
and Development, vol. 6, n-º 3, 2013, pp. 225-243.
[46] Torres-Freire, Carlos, Abdal, Alexandre e Callil, Victor, op. cit.
[47] As buscas foram feitas no site clinicaltrials.gov para cada área (cardiac,
cancer e infectious diseases). Utilizou-se primeiro o filtro para estudos em
aberto, então o país foi selecionado (no caso, Estados Unidos ou Brasil) e os
seguintes filtros foram aplicados: phases 0-2 ou phase 3, e industry ou all
others. Consideramos todos os ensaios clínicos abertos até 30/03/2013.
[48] Huggett, Brady. "Public biotech 2012 - the numbers". Nature Biotechnology,
vol. 31, n-º 8, ago., 2013.
[49] Gadelha, Carlos Augusto. "Desenvolvimento, complexo industrial da saúde e
política industrial", op. cit.
[50] Gadelha, Carlos Augusto, Quental, Cristiane e Filho, Beatriz de Castro,
op. cit. Em relação ao desenvolvimento de fármacos para o tratamento de doenças
infecciosas e endêmicas (leishmaniose, doença de Chagas, malária e
leptospirose), é importante mencionar os casos do Centro de Biotecnologia
Molecular Estrutural (CBME) - financiado pela Fapesp e que deu origem ao
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biotecnologia Estrutural e
Química Medicinal em Doenças Infecciosas (INBEQMeDI) -, do Instituto Butantan e
do Instituto Adolfo Lutz. Ver Fapesp. "Indicadores de CT&I em saúde no
estado de São Paulo". In: Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São
Paulo 2010. São Paulo: Fapesp, 2011.
[51] Para um retrato do setor de biotecnologia em saúde humana no Brasil até
2007, ver Rezaie, Rahim e outros. "Brazilian health biotech - fostering
crosstalk between public and private sectors". Nature Biotechnology, n-º 26,
2008, pp. 627-44.
[52] Ver Gadelha, Carlos Augusto, Quental, Cristiane, Filho, Beatriz de
Castro., op. cit.; Shadlen, Kenneth e Fonseca, Elize Massard. "Health policy as
industrial policy: Brazil in comparative perspective". Politics & Society.
Londres: SAGE Publications, vol. 41, n-º 4, p. 561-87, 2013.
[53] Costa, Laís Silveira, Gadelha, Carlos Augusto e Metten, Antoine. "Saúde e
desenvolvimento no Brasil: estado da arte e desafios". In: Jornada nacional de
economia da saúde, 6ª ed., Brasília, 2012. O setor pode se
beneficiar também de programas amplos de estímulo a C&T&I. Um deles é o
Ciência sem fronteiras, que permite aumentar a experiência internacional dos
pesquisadores em biotecnologia no Brasil. Outro é o Start-up Brasil, programa
do MCTI para acelerar novos empreendimentos, cujo foco em 2013 era a tecnologia
da informação. Chama ainda atenção que o edital estimula empreendedores
estrangeiros a participar da criação de empresas de base tecnológica no país.
[54] Ver Portaria n-º 837, de 18 de abril de 2012, Ministério da Saúde.
[55] Ministério da Saúde, 2013, http://www.brasil.gov.br/saude/2013/12/brasil-
vai-desenvolver-19-novos-produtos-de-saude, acessado em 12/12/2013.
[56] Ver http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Decreto/D7713.
htm
[57] Nova corrida pela inovação está atualmente nos chamados biobetters e
outros novos produtos, que podem continuar aumentar o déficit brasileiro. Ver
Aggarwal, Saurabh. "What is fueling the biotech engine - 2012 to 2013". Nature
Biotechnology, vol. 32, nº 1, jan., 2014, pp. 32-9.
[58] Rezaie, Rahim e outros, op. cit.
[59] Além disso, foi criado em 2012 o Programa nacional de apoio à atenção
oncológica (Pronon). Entre as ações apoiadas por meio de incentivos fiscais,
estão pesquisas clínicas, epidemiológicas e experimentais. Ver http://
www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12715.htm.
[60] A missão brasileira é organizada pelo projeto setorial de biotecnologia
apoiado pela Apex Brasil e coordenado pela Fundação Bio-Rio.
[61] The Lancet Saúde Brasil, maio 2011, http://www.thelancet.com/series/
health-in-brazil
[62] Pisano, Gary. Science business: the promise, the reality, and the future
of biotech. Cambridge: Harvard Business School Press, 2006.
[63] Ver Hugget, Brady. "Public Biotech 2012 - the numbers". Nature
Biotechnology, vol. 31, n-º 8, ago., 2013, pp. 697-703; Idem.
"Biotech's wellspring: the health of private biotech in 2012". Nature
Biotechnology, vol. 31, nº 5, maio, 2013, pp. 396-403; Idem.
"Biotech's wellspring: a survey of the health of the private sector". Nature
Biotechnology, vol. 30, n-º 5, maio, 2012, pp. 395-400.
[64] Ver Felizardo, Rafael Grili. A revolução da biotecnologia. Recepta inova
na luta contra o câncer. São Paulo: Editora Papagaio, 2012.
[65] Hugget, Brady. "Biotech's wellspring: a survey of the health of the
private sector", op. cit., pp. 395-400. Idem, "Public Biotech 2012 - the
numbers", op. cit., pp. 697-703; Idem, "Biotech's wellspring: the health of
private biotech in 2012", op. cit., pp. 396-403.
[66] Ver Etzkowitz, Henry. The triple helix: university-industry-government
innovation in action. Nova York: Routledge, 2008; Idem.
"Research groups as 'quasi-firms': the invention of the entrepreneurial
university". Research Policy, 32, 2003, pp. 109-21.
[67] Ver Booth, Bruce e Salehizadeh, Bijan. "In defence of life sciences
investing". Nature Biotechnology, vol. 29, n-º 7, jul., 2011, pp. 579-83.