A estética do nacionalismo: modernismo literário e autoritarismo político em
Portugal no início do século XX
A relação entre modernismo artístico e literário, por um lado, e autoritarismo
de direita, por outro, tem sido frequentemente notada. Segundo o ensaio
clássico de G. L. Mosse, "O fascismo e os intelectuais", os movimentos
autoritários de extrema direita do período entre as duas guerras, na Europa
Ocidental, não podem ser totalmente compreendidos fora do seu contexto
cultural, nomeadamente no que diz respeito à ascensão do elitismo e do
nacionalismo modernos, bem como à tradição literária anterior à guerra1. É
minha convicção que, em Portugal, alguns dos melhores artistas e escritores das
décadas de 1910 e 1920, em particular aqueles associados com o modernismo
(Orfeu, 1915) e o futurismo (Portugal Futurista, 1917), contribuíram de forma
significativa para a "atitude de espírito" e a "política estética", utilizando
a terminologia de Mosse, que deram ao fascismo a sua aura inicial e que
atraíram criadores e intelectuais. O fato de as tendências culturais e
políticas terem vindo a divergir, e de os regimes autoritários e totalitários
da década de 1930 terem, de modo crescente, dado lugar ao tradicionalismo
cultural, é outro aspecto que confirma a semelhança de padrões entre Portugal e
o resto da Europa.
Neste artigo, concentrar-me-ei principalmente na obra de Fernando Pessoa (1888-
1935), José de Almada Negreiros (1893-1970), Mário de Sá Carneiro (1890-1916) e
os seus companheiros da geração modernista. Este trabalho, contudo, não é um
exercício de crítica literária. Não é meu propósito tentar reavaliar a obra
desses escritores, mas apenas analisar os aspectos políticos explícitos e
frequentemente implícitos da sua atividade criadora. Antes de comentar os
escritos da geração do Orfeu, gostaria de mostrar brevemente a forte relação
que existe, desde a década de 1880, entre a modernização dos padrões literários
portugueses e a ascensão do nacionalismo, em particular no que respeita o
movimento republicano. Tentarei, a seguir, resumir e analisar as conotações
políticas do movimento modernista que se seguiu à proclamação da República em
1910. Para concluir, abordarei a fisionomia cada vez mais tradicionalista do
regime autoritário português e o afastamento da maior parte dos criadores
literários de vanguarda.
Resta-me acrescentar, finalmente, uma nota metodológica. Estou consciente da
natureza controversa desta investigação. Não só grande número de críticos negou
qualquer relação entre o modernismo e o fascismo em Portugal, como alguns deles
argumentaram mesmo que qualquer tentativa para relacionar esse movimento
literário com o autoritarismo político seria moralmente errada e, na verdade,
prejudicial à reputação de um notável grupo de artistas2. No que me diz
respeito, a pesquisa histórica não deve sujeitar-se a esse tipo de restrições e
apresso-me a acrescentar que, no caso de essa relação vir a ser estabelecida,
por remota que seja, não vejo de que modo isso poderá prejudicar a reputação
artística ou até moral dos autores em questão.
AS ORIGENS DO NACIONALISMO LITERÁRIO
Parece-me razoável afirmar que as tendências culturais portuguesas,
particularmente em literatura, sofreram uma mudança significativa nos finais da
década de 1860 com o advento da chamada "Geração de 1870". Na medida em que a
cultura possa ser relacionada com os problemas mais amplos da mudança social, é
lícito dizer que as tendências literárias modernas seguiram de perto a
institucionalização do liberalismo político e o começo da modernização social e
econômica. Contudo, foi apenas na década seguinte, como reação aos problemas
políticos e sociais levantados pelas deficiências de funcionamento do sistema
liberal e pela progressão da economia de mercado, que o movimento republicano
surgiu, contribuindo para estabelecer, desde o início, um forte elo entre a
luta contra o regime monárquico e a ascensão do nacionalismo moderno.
Do ponto de vista estético, pode dizer-se que o modernismo literário português
foi iniciado pelo poeta Cesário Verde (1855-1886). O nascimento da poesia
moderna portuguesa é frequentemente datado dos tempos de Antero de Quental
(1842-1819), mentor teórico da "Geração de 1870". No entanto, apesar do seu
grande envolvimento em causas políticas e sociais e da sua contribuição crucial
para a ideologia da "decadência" como o principal ingrediente do nacionalismo
moderno3, Antero permaneceu, do ponto de vista estético, um "neoclássico" e não
conseguiu revolucionar a escrita poética do seu tempo4. Como o próprio Pessoa
disse, "Cesário ensinou-nos a ver", o que, neste contexto, significa que
Cesário Verde foi, de fato, o primeiro a trazer para a poesia portuguesa as
preocupações baudelairianas com o mundo moderno e as novas atitudes do artista
perante a modernidade. Quando, em 1914, foi pedido a Mário de Sá Carneiro para
citar as obras principais da literatura moderna portuguesa, este respondeu de
modo provocatório: "Frisantemente, o livro do futurista Cesário Verde,
ondulante de certo, imenso de Europa, ziguezagueante de esforço"5.
Como era de prever, também Cesário se associou ao protesto político e ao
republicanismo, chegando a contribuir para as comemorações republicanas de
Camões, em 1880, com o famoso "O sentimento de um ocidental", no qual descreve
as deambulações do artista através da cidade moderna. É verdade que o
patriotismo de Cesário apenas se revela brevemente em algumas alusões críticas
ao papel dominante desempenhado pela Grã-Bretanha na história e na política
portuguesas. Vale a pena realçar, porém, a sua associação com o republicanismo
e as celebrações camonianas, pois estas foram, sem dúvida, os eventos
fundadores do moderno nacionalismo político em Portugal. Concebidas pelo
Partido republicano contra o Tratado de Lourenço Marques imposto pela Grã-
Bretanha, em 1877, não é por acaso que as comemorações misturaram
explicitamente literatura e política, elegendo como símbolo nacional o poeta do
século XVI célebre pelo relato épico dos feitos históricos portugueses, Luís de
Camões6.
No entanto, datar o nacionalismo literário português da década de 1880
corresponde, sobretudo, a sublinhar o duradouro impacto estético das inovações
estilísticas e temáticas de Cesário, bem como a sua influência sobre os
modernistas dos anos 1910 do século XX. Dito isto, só na década de 1890 é que o
nacionalismo literário amadureceu. Cesário Verde já havia morrido quando se deu
a maior crise do liberalismo português, abrindo caminho a uma nova fase
histórica, tanto em literatura como em política. Em janeiro de 1890, o ultimato
britânico conferiu mais força ao nacionalismo político num só dia do que a
propaganda republicana e os ideólogos autoritários na veia de Oliveira Martins
(1845-1894) lhe tinham dado na década anterior. Atingindo no coração a
identidade portuguesa como nação atrasada e pequena, incapaz de corresponder à
imaginada grandeza do seu império histórico, o ultimato provocou uma reação
patriótica que encontrou a sua melhor expressão literária em vários livros do
mais popular dos poetas republicanos, Guerra Junqueiro (1850-1923).
O ultimato seria, porém, seguido por mais problemas sociais, econômicos e
políticos. Na viragem de 1892, a sociedade portuguesa já se tinha afastado
abruptamente do liberalismo comparativamente pacífico das quatro décadas
anteriores e passara a um estado de crise semipermanente, que viria a resultar
primeiro na República, depois no golpe de Estado de 1926 e, finalmente, na
década de 1930, na institucionalização do autoritarismo sob Salazar. Por outras
palavras, 1890 marca o início do "crepúsculo do Estado liberal" em Portugal,
para usar a expressão de Mosca7. A monarquia foi seriamente posta em causa pela
primeira vez em 31 de janeiro de 1891 e, entre os chefes do abortado golpe
republicano do Porto, não se pode deixar de notar a presença de dois dos mais
influentes ideólogos nacionalistas do período seguinte, a quem Junqueiro
dedicou o drama em verso Pátria (1896): Basílio Teles (1856-1923), sem dúvida o
proponente mais articulado do autoritarismo nos princípios do século XX; e
Sampaio Bruno (1856-1915), cujo positivismo adquiriu, com o decorrer do tempo,
tons de profecia esotérica próxima do "sebastianismo" do próprio Fernando
Pessoa em À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais (1920) e Mensagem (1934)8.
É nesse contexto que se têm de compreender, igualmente, os repetidos elogios de
Fernando Pessoa à poesia nacionalista de Junqueiro, independentemente do baixo
valor estético hoje atribuído a esses poemas. Contudo, o nacionalismo literário
- transformado agora num movimento autoconsciente - não adquiriu qualquer
dimensão épica nem heroica durante a última década do século XIX. Em contraste
com Pátria, de Junqueiro, o nacionalismo literário representou, antes, um
afastamento da cena política e social, tornando-se uma espécie de refúgio do
subjetivismo e, na realidade, de certo tradicionalismo. Apesar dos seus
esforços para escrever um poema patriótico, significativamente intitulado "O
Desejado" - publicado postumamente em Despedidas (1902), com um prefácio de
Sampaio Bruno -, o melhor representante do nacionalismo literário, António
Nobre (1867-1900), embora estreitamente ligado às novas tendências da poesia
francesa, continua também a ser o exemplo mais óbvio da inerente contradição
entre tradição e modernidade que atravessa o nacionalismo.
Assim, pode dizer-se que, a partir de 1890, "a marca da dupla face de Jano"
própria do modernismo literário9 já era também visível em Portugal. Parece-me
lícito afirmar que essa ambígua qualidade provém diretamente, neste caso, da
natureza do próprio sentimento nacionalista, como Gellner observou10. De
qualquer modo, é importante lembrar como Pessoa também estava estranhamente
ciente dessa "qualidade jânica":
Quando a hora do Ultimatum abriu em Portugal, para não mais se
fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na
literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu
olhar. Junqueiro - o de Finis Patriae e o de Pátria - foi a face que
olha o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha o
Passado, e se entristece11.
A relação dos modernistas com António Nobre foi sempre muito forte, em
particular no caso de Sá Carneiro, que amava as suas "ternuras de pagem,
saudades de luar, febres esguias". Mas também Pessoa reconheceu que:
Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um trás
consigo [...] é ele ainda, e a vida dele [...] é, afinal, a súmula da
vida que vivemos [...] sem outra consolação do que essa, infantil, de
sabermos que é inutilmente que choramos12.
A exemplo de António Nobre, como adiante mostrarei, também Pessoa se virou cada
vez mais para o passado, apesar dos seus esforços para descrever o esotérico
futuro do "Quinto Império". Quando escreveu sobre Nobre, em princípios da
década de 1910, no início da sua espetacular intervenção na cena cultural
portuguesa, Pessoa estava ideologicamente - senão esteticamente - muito mais
próximo da retórica heroica e futurante de Junqueiro do que do lirismo triste e
nostálgico do autor de Só (1892). De fato, nas suas "Anotações" à Pátria,
Junqueiro dá-nos mais do que uma indicação para explicar a forte ênfase
colocada por Pessoa na relação entre, por um lado, o seu conceito de "nova
poesia portuguesa" e, por outro, o nacionalismo republicano.
Os mal disfarçados elementos messiânicos e algo autoritários da noção de
reforma política concebida por Junqueiro culminam num conceito de república que
antecipa, claramente, a própria visão de Pessoa. Para Guerra Junqueiro,
o republicanismo não é [...] uma fórmula de Direito Público; é a
fórmula extrema da salvação pública [...] Republicano e Patriota
tornaram-se sinónimos [...] Nesta agudíssima crise nacional, a
República é mais do que uma simples forma de governo. É o último
esforço, a última energia que uma Nação moribunda opõe à Morte13.
Assim, do mesmo modo que Junqueiro e, em larga medida, que a Renascença
Portuguesa, a revista "saudosista" criada por Teixeira de Pascoais (1877-1952)
pouco tempo depois da proclamação da República, Pessoa associou-se igualmente
de forma explícita ao movimento republicano, ao mesmo tempo que estabelecia uma
relação forte, embora obscura, entre esse movimento e as novas tendências da
literatura portuguesa:
Tendo o movimento literário português nascido com e acompanhado o
movimento republicano, é dentro do republicanismo, e pelo
republicanismo, que está, e será, o glorioso futuro deduzido. São
duas fases do mesmo fenómeno criador14.
Também para Pessoa, "ser monárquico em Portugal, hoje, é atraiçoar a alma
nacional e o futuro da Pátria". Contudo, acompanhando Junqueiro e, em
particular, a rejeição total de um teórico radical do republicanismo como
Basílio Teles (1856-1923) relativamente ao liberalismo enquanto sistema
político inadequado para sustentar o estatuto histórico de Portugal, Pessoa
logo se separa de qualquer tentativa, por parte do republicanismo, para
prolongar a política do constitucionalismo:
O republicanismo que fará a glória da nossa terra e por quem novos
elementos civilizacionais serão criados, não é o actual,
desnacionalizado, idiota e corrupto do tripartido republicano15.
É evidente, por conseguinte, que, a partir do primeiro apelo a "uma nova poesia
portuguesa" feito em 1912, Pessoa não só estabeleceu uma profunda conexão entre
a literatura e a política sob um conceito messiânico do republicanismo, como
exprimiu também vigorosamente o seu nacionalismo e o seu desprezo pela política
demo-liberal:
É bom fixar isto também: que se ser monárquico é ser traidor à alma
nacional, ser correligionário do Sr. Afonso Costa, do Sr. Brito
Camacho ou do Sr. António José de Almeida, assim como da vária
horrorosa subgente sindicalista, socialística e outras coisas,
representa paralela e equivalente traição16.
Finalmente, esta dupla rejeição do liberalismo e do socialismo é acompanhada de
um veemente apelo ao modernismo em literatura, bem como em política, enquanto
verdadeiro "valor civilizacional". Como Pessoa escreveu posteriormente sobre a
República:
o espírito de tudo isso é absolutamente o contrário da nova corrente
literária. Tudo ali é importado [...] sem elevação nem grandeza [...]
para nada de morte lhes faltar, nem anti-tradicionalistas são. [Mas
tudo isso, assim como] as formas extremas de democracia, [...]
anarquia e socialismo; a nossa sub-humanidade política e a nossa
proletariagem humanitariante; tudo isso, que afinal é estrangeiro,
morrerá de per si, ou à boca dos canhões do nosso Cromwell futuro. E
a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova.
No começo da década de 1910, tal atitude estética e política não pode deixar de
ser associada ao movimento que se vinha propagando, em quase toda a Europa, no
sentido de uma "saída" diferente para as clivagens tradicionais próprias do
quadro demo-liberal. Embora seja sempre difícil falar de "pré-fascismo", em
particular no caso de um criador, cujas principais preocupações eram
evidentemente estéticas, não me parece errado dizer que existiam desde 1912, na
atitude política de Fernando Pessoa, numerosos ingredientes que relacionam a
sua filosofia política com as principais correntes do nacionalismo autoritário
moderno. Efetivamente, é essa mistura específica de modernismo e nacionalismo
que o separa, simultaneamente, do brando autoritarismo de muitos escritores
republicanos da época, como alguns dos membros da Seara Nova, e do crescente
tradicionalismo dos autores monárquicos, nomeadamente os Integralistas
Lusitanos.
A REVOLUÇÃO MODERNISTA
Poucas dúvidas haverá de que o principal impulso de Pessoa em direção ao
modernismo literário e à sua associação com a jovem geração futurista deriva
das suas preocupações estéticas e não de qualquer militância política
consistente. Por outras palavras, embora haja provas convincentes da sua
insatisfação com a falta de propostas políticas transformadoras no seio do
grupo da Renascença Portuguesa, parece claro que a ruptura com esse movimento
só veio confirmar o seu profundo desacordo estético com o "saudosismo" de
Pascoais, e com a vagueza e a sentimentalidade neorromânticas da maior parte
dos poetas da Renascença. No entanto, como reconhece o poeta e crítico José
Augusto Seabra, os complexos motivos que levaram Pessoa a afastar-se do grupo
de Pascoais não eram muito diferentes daqueles que levaram António Sérgio
(1883-1969) e Raúl Proença (1884-1942), futuros fundadores do grupo da Seara
Nova, a fazer a mesma coisa, a fim de formularem propostas próprias para
superar a crise do liberalismo português. Tais motivos não podem, por
conseguinte, ser inteiramente isolados das atitudes políticas mais vastas
perante o regime liberal17.
Em qualquer caso, foi essencialmente sob a influência da sua educação inglesa e
da leitura dos simbolistas franceses, bem como da descoberta recente da poesia
quase desconhecida de Camilo Pessanha (1869-1926)18, que Pessoa redigiu o
poema-manifesto "Paúis" em 1913, como reação contra o "saudosismo".
Previsivelmente, o poema foi recusado pela Águia - a revista da Renascença
Portuguesa - e o episódio pôs termo à colaboração de Pessoa com o movimento. Do
mesmo passo, "Paúis" representou importante ruptura com as tendências
predominantes da poesia portuguesa. Não só o poema se fez eco das expressões
mais sofisticadas da arte e da literatura europeias da época, como contribuiu
imediatamente para cristalizar, em torno de Fernando Pessoa, o grupo de jovens
artistas que viria a publicar Orfeu dois anos mais tarde. Apesar do óbvio
caráter esteticamente revolucionário de "Paúis", não é fácil relacioná-lo,
remotamente que seja, com qualquer ideologia política. Tal ligação entre
revolucionarismo estético e revolucionarismo político só se tornará mais clara
com o advento do futurismo português em 1917.
Na realidade, o "paúlismo" ainda se encontrava a meio caminho entre o
modernismo tradicional, com o seu subjetivismo decadente, e o novo modernismo
com a sua complexidade e objetividade, segundo o futuro programa de Pessoa. Só
os poetas menores do grupo continuaram a escrever durante algum tempo na veia
paúlica. Em finais de 1914, Mário de Sá Carneiro, que estivera afastado em
Paris, ficou surpreendido ao saber que o seu jovem amigo António Ferro (1895-
1956), o futuro administrador de Orfeu, andava a espalhar a notícia de que o
"paúlismo" fora ultrapassado por outro "ismo" criado por Pessoa19. E de fato,
em março do mesmo ano, Pessoa escrevera "Chuva oblíqua", um longo manifesto
poético do "interseccionismo", que surgiu como uma espécie de equivalente
literário do cubismo e representava uma fase mais adiantada da procura pessoana
daquilo a que chamava a "intelectualização das emoções". Embora o
"interseccionismo" dificilmente possa ser descrito como politizado, Sá Carneiro
- sobretudo em "Manicure" e "Apoteose", os dois únicos poemas futuristas que
escreveu, antes de se suicidar em Paris, em abril de 1916 - e Almada Negreiros
conferiram-lhe um tom político, à medida que a "política estética" e a política
tout-court se tornaram partes integrantes da matéria de que era feita a
literatura modernista.
Contudo, no mesmo dia em que escreveu "Chuva oblíqua", a 8 de março de 1914,
Pessoa terá criado também o seu primeiro heterônimo, Alberto Caeiro, o anti-
Pascoais, cujo materialismo metafísico - ou "paganismo transcendental", como
ele lhe chamava - contém mais de um ponto de conexão com os aforismos do
Tratactus de Wittgenstein. Embora também não se possa falar de poesia política
a propósito d'O guardador de rebanhos, também Caeiro alude, por vezes,
explicitamente, ao cotidiano político, ao mesmo tempo que torna explícita a sua
posição anti-humanitária e antissocialista. É assim que alude, por exemplo, de
modo realista, mas desdenhoso, a esse "homem das cidades" que:
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso...
Mais importante, porventura, é o fato de o segundo heterónimo surgir igualmente
em março e é exato que Caeiro diz sentir, no final d'O guardador de rebanhos
(poema XLVI), a emergência de outra personalidade:
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a natureza produziu.
Ainda assim, sou alguém,
Sou o Descobridor da Natureza,
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele próprio...
A descoberta de "sensações verdadeiras" começa realmente com "Opiário", seguido
pouco depois pela dramática "Ode triunfal". Esses poemas fazem figura de
manifesto do "sensacionismo" e, na verdade, de precursores do futurismo
português, o qual se materializou no decorrer dos três anos seguintes sob a
assinatura de um fictício engenheiro naval formado em Glasgow, Álvaro de
Campos, o homem que desde o início declarou pertencer "a um género de
portugueses que depois de estar a Índia descoberta ficaram sem trabalho".
Pertença e cosmopolitismo surgiram no modernismo português, simultaneamente,
como um dom natural proveniente do contexto universalista da aventura marítima
nacional - assim o afirmou Pessoa sob o disfarce de Álvaro de Campos. Daí o
"sensacionismo" reivindicar ser mais inovador e profundo do que todos os
"ismos" da época, incluindo o futurismo. Como é sabido, Pessoa escreveu sem
cessar acerca disso e sentimos a sua amargura patriótica quando diz, não sem
uma ponta de verdade:
O cubismo, o futurismo e outros ismos menores tornaram-se bem
conhecidos e muito falados, porque se originaram nos admitidos
centros da cultura europeia. O sensacionismo, que é um movimento bem
mais importante, bem mais original e bem mais atraente do que
aqueles, permanece desconhecido porque nasceu longe daqueles
centros20.
Finalmente, alguns meses depois da invenção de Caeiro e Campos, apareceu o
terceiro grande heterônimo, Ricardo Reis, igualmente membro da família
sensacionista. Mas, nas suas odes pseudo-horacianas, as sensações foram
subjugadas ou, no dizer do próprio Pessoa, "o sensacionismo foi logicamente
tornado neoclássico pelo Dr. Ricardo Reis". Assim, antes mesmo de rebentar a
Primeira Guerra Mundial, a intervenção de Pessoa, que contava então 26 anos, já
havia criado o padrão virtualmente único da sua contribuição à literatura
moderna. Para citar um dos seus tradutores ingleses, "Fernando Pessoa é o
exemplo máximo do tipo de poeta essencialmente moderno: o introvertido
objectivo"21. Ou, para cunhar um conceito familiar à terminologia estética de
Pessoa, a subjetividade objetivada. De fato, como dizem Bradbury e Macfarlane,
se um dos aspectos mais notáveis do período entre 1890 e 1930 é essa
extraordinária galáxia de talentos, e se poucas fases históricas
contêm uma tal opulência de escritores importantes [...] cuja
complexidade de investigação estética, cujo sentido generativo do
estilo e cuja temerária inteligência de base oferecem tantos
trabalhos dignos de serem considerados em pormenor22,
então é adequado dizer que Fernando Pessoa era, ele mesmo, toda uma galáxia de
complexa pesquisa estética, de sentido generativo do estilo e de inteligência
temerária, senão virtualmente autodestruidora.
Um ano após o nascimento dessa galáxia de heterônimos, Portugal passava por uma
segunda experiência autoritária. Em 1907, o antigo político monarquista João
Franco (1855-1929) já tentara, sem êxito, montar uma solução ditatorial para os
problemas de longo prazo do liberalismo oligárquico e clientelar. Em 1915, a
breve ditadura do general Pimenta de Castro (1846-1918) constituiu nova
tentativa inconstitucional, a primeira sob a República, a fim de conter as
novas pressões impostas ao regime liberal pela crescente agitação urbana e pela
guerra. Pimenta de Castro acabou por ser derrotado em 14 de maio de 1915, ao
cabo de uma sangrenta revolução chefiada pelo Partido Democrático, episódio que
encontrou vários ecos na literatura modernista.
Embora, inicialmente, Pessoa pareça ter-se oposto à ditadura, mostrou-se mais
tarde favorável a Pimenta de Castro e não deixou de relacionar o autoritarismo
mitigado deste último com a série de tentativas ditatoriais que acabaram por
levar à queda do regime republicano e à implantação do nacionalismo autoritário
na segunda metade da década de 192023. Mais importante, contudo, é o fato de
ter sido sob o regime de Pimenta de Castro que várias facções da extrema
direita tiveram, pela primeira vez, repercussão notória nas elites portuguesas.
A mais influente dessas facções foi, sem sombra de dúvida, o Integralismo
Lusitano, diretamente inspirado pela Action Française e inspirador, por seu
turno, do Integralismo brasileiro, cuja ideologia recuava à tradição
nacionalista política e literária portuguesa. Apesar de o tradicionalismo
cultural e estético dos integralistas impedir que os modernistas se associassem
a eles, Pessoa, como muitos outros, serviu-se repetidas vezes dos seus temas
políticos.
Outro canal de expressão do nacionalismo autoritário moderno, criado igualmente
em princípios de 1915, foi a revista quinzenal Ideia Nacional, publicada por
Francisco Homem Cristo Filho (1892-1928), filho de outro Homem Cristo (1860-
1943), antigo militante republicano que se juntara às fileiras do autoritarismo
monárquico, declarando-se desiludido com a República. A Ideia Nacional
inspirava-se no nacionalismo italiano e publicava com orgulho artigos dos
líderes do nacionalismo italiano, como Corradini e Federzoni, que depois da
guerra se juntariam ao Partido Fascista de Mussolini. Almada Negreiros também
colaborava regularmente na revista, chegando a desenhar várias das suas capas.
Literato cosmopolita e extravagante, o jovem Homem Cristo desfrutava de alguma
credibilidade entre a extrema-direita parisiense e manteve-se sempre defensor
da juventude como categoria política. Sá Carneiro e outros membros do movimento
modernista, como o pintor Guilherme de Santa-Rita (1889-1918) e o dr. Raul Leal
(1886-1964), costumavam encontrar-se antes da guerra com Homem Cristo em Paris,
onde este publicou um entusiástico Mussolini Bâtisseur d'Empire (1923). Durante
a ditadura militar implantada em 1926 em Portugal, Homem Cristo não pactuou com
a alegada moderação ideológica dos militares e foi expulso do país, vindo a
morrer aos 36 anos de maneira algo futurística num acidente de viação, perto de
Roma, quando ia encontrar-se com Mussolini.
Finalmente, foi ainda sob o regime de Pimenta de Castro que Pessoa e os seus
amigos lançaram Orpheu, em março de 1915, provocando um "escândalo" imediato e
duradouro. Com a publicação dos dois números da revista, o modernismo português
adquiriu, pois, os traços de uma "guerrilha estética" que veio a ajudar na
fragmentação da legitimidade cultural da República. A exemplo do futurismo
italiano e de vários outros movimentos europeus de vanguarda, Orpheu representa
também um novo tipo de politização da arte e da literatura. Não só os artistas
e escritores se organizavam em facções, publicando manifestos atrás de
manifestos, como a revolução estética se apresentava como uma metáfora, senão
mesmo como um modelo, da necessidade de revolucionar toda a ordem social e até
a própria vida. "A arte moderna revolucionou a Vida", gostava António Ferro de
dizer em princípios da década de 1920, repetindo o que haviam proclamado antes
dele outros modernistas mais notáveis24. De fato, o artista moderno não se via
como um intelectual engagé, apoiando qualquer ideologia política estabelecida,
como muitos intelectuais tinham feito no passado e fariam no futuro. Via-se,
sim, empenhado em impor à política uma visão estética do mundo. Como Pessoa o
disse cristalinamente, "a política é uma forma subordinada da estética".
A POLÍTICA DO MODERNISMO E DO FUTURISMO
A politização da estética e a estetização da política atingiram o auge dois
anos mais tarde com a publicação, em 1917, do único número da revista Portugal
Futurista, que continha o provocatório "Ultimatum" de Álvaro de Campos e foi
rapidamente apreendido pela polícia do presidente do conselho Afonso Costa
(1871-1937). Porém a força motora por trás do futurismo português foi Almada
Negreiros. Cinco anos mais novo do que Pessoa, desenhista e futuro pintor,
familiarizado com Paris e as suas tendências, Almada teve papel decisivo na
junção do grupo inicial de Orpheu, ainda de certo modo decadentista, com a nova
geração de pintores portugueses. Sob a influência de Santa-Rita Pintor, nome de
combate do autoproclamado agitador futurista, Almada foi o mais importante
membro do grupo na luta de guerrilha contra as instituições literárias da época
e contra a sociedade portuguesa em geral.
Ao contrário de tudo o que seria de prever, a publicação de Orpheu constituiu
um êxito inesperado por causa das reações escandalizadas que provocou da parte
dos poderes estabelecidos. O contra-ataque de Almada foi fulminante. Ao mesmo
tempo que trabalhava na sua singular contribuição para a prosa modernista,
nomeadamente a sua longa e brilhante novela urbana, A engomadeira, publicada em
janeiro de 1915, "onde interseccionei evidentes aspectos da desorganização e
descarácter lisboeta"25, Almada tornou-se, com pouco mais de 20 anos, o
empresário do espetáculo modernista e especializou-se em escrever os seus
manifestos mais provocatórios.
Primeiro, publicou o "Manifesto anti-Dantas", onde atacou vigorosamente não só
o poeta e dramaturgo acadêmico Júlio Dantas (1876-1962), mas todos "esses
cavalheiros que deram a Portugal a reputação do país mais atrasado da
Europa"26. E logo a seguir, na mesma data em que os partidários do
autoritarismo e os liberais se enfrentavam sangrentamente pela primeira vez no
Portugal republicano, 14 de maio de 1915, Almada escreveu o poema mais feroz
desses dias ferozes, "A cena do ódio", que figura como uma longa e sarcástica
denúncia de todos os defeitos da sociedade portuguesa, em especial da classe
média e, claro está, da elite política27.
Ao longo dos dois anos seguintes, foi ele também quem apresentou o pintor
Amadeu de Sousa Cardoso (1887-1918) ao público lisboeta como a "primeira
descoberta portuguesa da Europa do século XX" (dezembro de 1916); e,
finalmente, provocou uma enorme vaga de protestos com a sua primeira
conferência futurista, onde leu o Ultimatum futurista às gerações portuguesas
do século XX, cuja brilhante ironia não excluía algumas conotações políticas
evidentes:
Nós vivemos numa Pátria onde a tentativa democrática se compromete
quotidianamente. A missão da República portuguesa já estava cumprida
antes de 5 de Outubro: mostrar a decadência da raça [...] É preciso
explicar à nossa gente o que é a democracia para que não torne a cair
em tentação. É preciso violentar todo o sentimento de igualdade que
sob o aspecto da justiça social tem paralisado tantas vontades e
tantos génios [...] É preciso ter consciência exacta da
Actualidade...28
É certo que o movimento estético revolucionário foi muito breve, como de resto
a maior parte das experiências de vanguarda tende a sê-lo. Perdeu muito com o
suicídio de Sá Carneiro e a morte prematura de Santa-Rita por tuberculose, bem
como a do melhor pintor do modernismo português, Sousa Cardoso, devido à
epidemia de 1918. Embora Pessoa e Almada nunca se tenham afastado um do outro,
a verdade é que parecem ter-se empenhado cada vez mais nas próprias obras,
deixando a luta de guerrilha para figuras de menor envergadura, como o editor
artístico da Ideia Nacional, José Pacheco (1885-1934)29, ou António Ferro, que
viria a estabelecer contatos com o modernismo brasileiro, publicando o seu
tardio manifesto futurista "Nós", em 1922, na revista Klaxon. Almada ainda
publica um belo poema em prosa pré-surrealista, "A invenção do dia claro"
(1921), editado por Pessoa na sua Olisipo, mas tem de partir para Espanha em
1927 por razões profissionais e aí permaneceu até 1932. Desenvolveu então
intensa atividade artística, ao mesmo tempo que se envolvia na vida cultural
local, dinamizando as relações intelectuais entre os grupos modernistas luso-
espanhóis30.
Entretanto, os frutos ideológicos do movimento modernista português tornaram-se
evidentes após o assassinato de Sidónio Pais em dezembro de 1918 e durante o
período de intenso conflito político entre autoritarismo e liberalismo que se
lhe seguiu. É bem conhecido o compromisso de Pessoa com o sidonismo e não é
preciso lembrar que é ele o autor de O Interregno: Defesa e justificação da
ditadura militar em Portugal, publicado em 1928, já sob o regime ditatorial.
Voltaremos a isso daqui a pouco. Em 1927, António Ferro publicou a sua
influente Viagem à roda das ditaduras - um inquérito internacional aos novos
regimes autoritários que se propagavam pela Europa e no qual Ferro elogiava
particularmente Mussolini. Mais tarde, foi ele o entrevistador de Salazar,
acabando por ser secretário da Propaganda Nacional - a partir do fim da guerra,
secretário do Turismo e Informação - de 1933 a 1949. Finalmente, outra figura a
mencionar neste contexto é António de Cértima (1895-1983), que se apresentava a
si próprio como membro da juventude literária e política, e reconhecia a sua
dívida intelectual para com o movimento modernista. Cértima foi o autor de um
perturbante e popular relato do colapso militar português em África durante a
Primeira Guerra Mundial (Epopeia maldita, 1924). A partir dessa experiência
pessoal de patriotismo ulcerado, tornou-se na década de 1920 um dos proponentes
mais articulados do autoritarismo em Portugal (O ditador, 1927).
Por outras palavras, seria errado avaliar o impacto dos anni incendiari do
modernismo português, para usar a expressão do futurista italiano Viviani31,
tomando apenas em consideração o seu curto espaço de vida. Do ponto de vista
intelectual, os modernistas e futuristas não só contribuíram de forma muito
significativa para minar a já abalada legitimidade cultural do regime
republicano, como tornaram também vã a reivindicação dos liberais portugueses
de conduzirem a nação à "regeneração" e à modernização, muito em particular aos
olhos da juventude intelectual. Por assim dizer, a partir de 1917, o fogo
ateado pelos modernistas não parou de arder.
Estou, pois, plenamente de acordo com João Gaspar Simões, quando esse descarta
as tentativas de Pessoa, nos princípios dos anos 1920, para se separar das
manifestações reacionárias dos estudantes universitários portugueses, alegando
que tais acontecimentos resultariam, mais uma vez, do liberalismo e do
catolicismo tradicional. Toda a minha argumentação vai, portanto, no sentido
daquilo que Simões já escrevia na sua célebre biografia do poeta:
Os tempos tinham mudado [...] no sentido preconizado pelo mesmo
Álvaro de Campos [...] Com efeito, o autor do Ultimatum [...] bem
como o autor de certos artigos no jornal Acção [...] haviam influído
mais na formação da mentalidade que principiava a revelar-se do que a
Monarquia dos Braganças e a República Portuguesa32.
Os tempos tinham realmente mudado e, entre os escritores daqueles anos
agitados, Pessoa talvez tenha contribuído mais do que qualquer outro para a
mudança no sentido da hegemonia das ideologias e padrões de comportamento
político autoritários. É certo que as ideias políticas de Pessoa estavam longe
de ser simples e lineares, mas seria errado pensar que ele se absteve de toda e
qualquer ação política direta. Embora esporadicamente, o fato é que não
desdenhou empenhar-se a fundo e apraz-me revelar, creio que pela primeira vez,
uma dessas ocasiões. Estamos há muito tempo a par dos dois ensaios publicados
na revista Acção de maio a agosto de 1919: "Como organizar Portugal" e "Opinião
Pública". Porém a maior parte de nós não sabia do alto grau de esforço pessoal
que Pessoa dedicou à publicação e à distribuição do "Orgão do Núcleo de Acção
Nacional".
O jornal Acção era dirigido por Geraldo Coelho de Jesus, amigo íntimo de Pessoa
acerca de quem, infelizmente, sabemos muito pouco; nem sequer as datas de
nascimento e morte. Engenheiro de minas e autor de um surpreendente plano de
grande visão para a industrialização do país publicado em 1919, Coelho de Jesus
foi certamente, embora por pouco tempo, um dos mais coerentes apoiantes da
modernização econômica e social do país sob a direção de um governo forte33.
Como tantos outros membros da intelligentsia, também ele fora apoiante do
regime de Sidónio Pais (1872-1918) e, pouco tempo depois do assassinato do
carismático ditador, lançou aquela modesta publicação, sem outra ajuda além de
Pessoa, a fim de divulgar uma ideologia elitista da competência técnica
bastante parecida com a de Pela Grei, publicada por António Sérgio no ano
anterior. Como Sérgio e a Seara Nova, também Coelho de Jesus declarava não ser
contra os partidos políticos, "mas só contra os resultados da política dos
partidos". Contudo, a posição apolítica e construtiva dos dois primeiros
números de Acção foi pouco mais do que um disfarce. O terceiro número acabou
por publicar uma enorme fotografia de Sidónio na capa, com uma citação do
Hamlet, de Shakespeare, em inglês, escolhida sem dúvida por Pessoa: "He was a
man, take him for all in all;/ I shall not look upon his like again"34.
Os verdadeiros objetivos políticos do Núcleo de Acção Nacional ficavam, assim,
à vista. Ciente da incapacidade de uma política puramente elitista obter apoio
popular, Coelho de Jesus, com a aquiescência de Pessoa, não hesitou em escrever
nesse mesmo número de Acção:
Se procurarmos na vida nacional, qual a força capaz de concentrar
patriotismo, qual a força capaz de, ao mesmo tempo, atingir as
competências e o povo (sendo assim um esboço de coesão nacional),
encontramos só uma: o sidonismo, o culto [...] pela memória do
chorado presidente Sidónio Pais. O resto é só bolchevismo - ou o
bolchevismo dos nossos pobres operários [...] ou o bolchevismo
disfarçado dos nossos partidos políticos [...] Ou sidonismo ou
bolchevismo: o problema está nisto para quem queira ter acção
política em Portugal. Nós [...] vamos pelo sidonismo35.
Ora, apesar de nem Pessoa nem Coelho de Jesus terem tido uma participação
significativa na vida política nacional, o poeta não deixou de estar, durante
breve momento, ativamente envolvido na difusão desse número de Acção, o qual
provocou os previsíveis protestos dos republicanos, então no apogeu do seu
radicalismo e particularmente sensíveis a qualquer regresso do sidonismo.
Podemos hoje saber tudo acerca da excitação de Pessoa por meio de quatro cartas
e um telegrama que enviou ao amigo Coelho de Jesus, então fora de Lisboa, entre
9 e 11 de agosto36. Pessoa estava pessoalmente encarregado da difusão dos
alegados 10 mil exemplares da revista e orgulhava-se da sua eficácia como
ativista político. A maior parte do conteúdo das cartas é de ordem técnica, mas
também contém algumas anotações políticas:
Quero que voçê acredite que tenho tratado de tudo, que não descurei
nada, e que nada descurarei. Êxito: parece-me muito grande, e que
teremos de fazer uma segunda edição. É um escabeche medonho por toda
a parte (9 de agosto).
A verdade é que a distribuição da revista causou pequenos incidentes no centro
de Lisboa, pois alguns republicanos tentaram destruir todos os exemplares que
apanhavam:
O chefe de vendas calcula entre 1.000 e 2.000 o número de exemplares
queimados pelos vários formigas no Rocio [...] Devo dizer que me
parece que vários tipos fizeram do jornal "bandeira", isto é, andaram
agitando o retrato de Sidónio por toda a parte, e foi naturalmente
qualquer coisa dessas que fez nascer a ideia de dar cabo dos
exemplares...
E Pessoa até sentiu as emoções que todos os ativistas políticos experimentaram,
ocasionalmente, ao longo das suas carreiras:
Na redacção [...] soube que tinha aparecido um indivíduo
indignadíssimo porque dois marinheiros lhe tinham rasgado um número
do jornal que estava a ler [...] Imagine v. que um engraxador, um
rapazito de uns 17 anos, contou-me como a cousa se passou e disse-me
que tinha em casa todos os três números do jornal, que coleccionava.
Realmente, estas cousas chegam a ser enternecedoras. Tenho aqui no
escritório o número rasgado [...] como recordação (10 de agosto).
Finalmente, Pessoa fala a Coelho de Jesus de um "projecto esplêndido, mas
arriscado para o número 4. Voçê nem calcula o que é!". Não temos conhecimento,
porém, desse ousado projeto. Em vez disso, porém, conhecemos o conteúdo dos
escritos políticos de Pessoa nos números anteriores de Acção, assim como
sabemos que ele trabalhou arduamente na sua redação, em particular o artigo
intitulado "Opinião Pública". À parte a sua apologia da ditadura militar em
1927, este constitui sem dúvida o seu texto político mais interessante e
lembra, essencialmente, a crítica feita pelos teóricos elitistas ao
liberalismo. Pessoa não conhecia bem a teoria elitista, mas cita, por exemplo,
o Conservatism de Lord Cecil (1907), a fim de repudiar o sufrágio político com
base no argumento de "os resultados eleitorais apenas representarem o poder
ditatorial de alguns dirigentes do partido vencedor". Mais retoricamente, mas
ainda à maneira modernista, proclama que "as sociedades tradicionais são
possivelmente governadas pelos mortos, mas [...] as sociedades democráticas são
governadas pela morte". Supostamente, "o socialismo é a demência terminal do
liberalismo". E, de forma mais interessante, declara que a opinião pública é,
por definição, negativa e tradicionalista.
No entanto, apesar da tentativa de sofisticação do argumento, a conclusão é
demasiado previsível: "Ser revolucionário é servir o inimigo. Ser liberal é
odiar a Pátria. A democracia moderna é uma obra de traidores". Por fim, embora
haja um tom curiosamente populista neste artigo, Pessoa permanece no essencial
um elitista autoritário. Como escreveu algures, "entre um operário e um macaco
há menos diferença que entre um operário e um homem realmente culto"37. E não
se trata de mera retórica política, pois encontramos a mesma noção expressa num
poema célebre assinado por Álvaro de Campos:
A capacidade de pensar o que sinto,
que me distingue do homem vulgar,
Mais do que ele se distingue do macaco.
DO REVOLUCIONARISMO PATRIÓTICO AO SEBASTIANISMO MESSIÂNICO
Embora seja evidente que o impulso estético em direção à modernidade colocou o
novo movimento em contradição com a atitude predominantemente tradicionalista
do nacionalismo português, também é claro que o futurismo só conseguiu
reconciliar a vocação cosmopolita da modernidade com o apelo ao engrandecimento
nacional de modo precário e breve. Por outro lado, enquanto a conciliação
estilística do modernismo e do nacionalismo denota um elevado nível de
inovação, em particular nas odes futuristas de Álvaro de Campos e, acima de
tudo, na sua longa "Ode marítima", o simbolismo político do modernismo nacional
revela-se, afinal de contas, muito menos inovador. A forte influência
estilística de Walt Whitman sobre Campos não deve ser interpretada como tendo
igualmente um importante impacto temático, para não falar de qualquer
influência democrática, como o próprio Harold Bloom dá a entender no seu famoso
O canône ocidental38.
Na maior parte das vezes, de fato, as declarações e alusões contidas nos
escritos políticos de Pessoa - reunidos há algum tempo - não revelam qualquer
diferença decisiva relativamente às correntes autoritárias e elitistas
dominantes em Portugal, desde Oliveira Martins até António Sérgio39. Como
tentei mostrar noutra altura, se algo distingue Pessoa da maioria dos autores
republicanos da época, é o seu elitismo extremo, o seu nacionalismo exacerbado
e as suas fortes inclinações autoritárias, pelo menos até à subida de Salazar
ao poder, cuja "tese", como ele lhe chama, Pessoa compara corretamente com o
Integralismo, do qual ele próprio desejava diferenciar-se40.
Como já tive oportunidade de dizer, quando Orpheu foi lançado em 1915, Pessoa e
os seus companheiros estavam sobretudo preocupados em distanciar-se das formas
anteriores do nacionalismo literário. Assim, embora isso possa parecer
paradoxal, eram a favor da "desnacionalização" da arte. Numa nota manuscrita de
1915 sobre "O que é que Orpheu quer? ", Pessoa disse-o de forma clara:
Criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço. A nossa época é
aquela em que todos os países, mais materialmente do que nunca, e
pela primeira vez intelectualmente, existem todos dentro de cada um
[...] Por isso a verdadeira arte moderna tem de ser maximamente
desnacionalizada [...] Só assim será tipicamente moderna41.
É ele, contudo, quem afirma também nessa mesma nota, que "qualquer cais europeu
- mesmo o de Alcântara - chega para conter a terra inteira". Isso dá-nos uma
pista óbvia não só para os primeiros grandes poemas assinados por Álvaro de
Campos - "Opiário", "Ode triunfal" e "Ode marítima" - mas também para a maneira
como Portugal estava a ser chamado, segundo os modernistas, a desempenhar um
papel dinâmico na nova era comercial, industrial e urbanística. Esse papel era
diametralmente oposto a tudo aquilo que os tradicionalistas defendiam,
nomeadamente o "cretinismo rural" que Alberto Caeiro também ridicularizara de
modo diferente, mas convergente. O nacionalismo dos modernistas reivindicava,
assim, ser muito diferente do passadismo, e em certa medida até o era. Mas só
em certa medida e durante pouco tempo.
Almada Negreiros foi, de novo, o mais franco. Como escreveu no Ultimatum
Futurista, não só era necessário criar em Portugal "um espírito de aventura
contra o sentimentalismo literário dos passadistas" e desenvolver "a actividade
cosmopolita das nossas cidades e docas", como se fazia também sentir a
necessidade urgente de uma "nova noção de Pátria":
Os poetas portugueses só cantam a tradição histórica e não a sabem
distinguir da tradição-pátria [...] Têm a inspiração na história e
são portanto absolutamente insensíveis às expressões do heroísmo
moderno. Donde resulta toda a impotência para a criação do novo
sentido da pátria42.
Assim, o patriotismo de Almada revela um sentido da ironia e do construtivismo
positivo, politicamente vizinho das ideias do Núcleo de Acção Nacional. Esse
construtivismo não dissipou as suas inclinações autoritárias, mas afastou sem
dúvida qualquer inclinação para o sentimentalismo, o tradicionalismo e, na
verdade, qualquer esperança na salvação messiânica. Ao mesmo tempo que
respondia a várias encomendas do regime, Almada dava-se conta, dolorosamente,
da crescente distância que separava os dias heroicos do patriotismo futurista
da chamada "Política do Espírito", concebida por António Ferro à frente do
Secretariado da Propaganda Nacional. Almada marcou essa distância com
característico sarcasmo logo que Ferro iniciou a sua intervenção cultural,
convidando Marinetti a visitar Lisboa em novembro de 1932:
Os inimigos figadais do futurismo em Portugal ganharam a sua primeira
vitória anteontem na presença do chefe do futurismo, F. T. Marinetti
[...] O admirável criador do futurismo está naquela fase académica e
na respectiva idade que se prestam lindamente para ser manejadas
pelos putrefactos e arranjistas [...] Lastimamos, nós os futuristas
portugueses, a amnésia [de Marinetti] quanto a Portugal, a sua falta
de memória acerca de que nomes heróicos do futurismo fizeram aqui
nesta terra uma guerra sem tréguas contra putrefactos e botas de
elástico43.
Também Pessoa se apercebeu da rendição de muitos artistas ao apelo do
nacionalismo tradicional e do autoritarismo reacionário. Do mesmo modo, também
ele se mostrou particularmente sarcástico com a nomeação de Marinetti para a
Academia Italiana em 1924:
Lá chegam todos ...
Marinetti académico ...
As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f ...
No entanto, Fernando Pessoa não se demitiu de toda e qualquer participação
nesta prolongada e, doravante, desesperada batalha pela modernidade plena. Só
que, desta vez, os adversários não eram, como Gaspar Simões indicou, o habitual
bando de escritores acadêmicos e de políticos liberais, mas um grupo fascista
de estudantes universitários chefiados por Pedro Teotónio Pereira, que viria a
ser mais tarde subsecretário de Estado das Corporações do governo do Estado
Novo. Assim, em 1923, damos com Pessoa a publicar e a distribuir pessoalmente
um breve "Aviso por causa da Moral", no qual respondia acidamente à campanha
lançada pelos estudantes contra o poeta António Botto (1897-1959), cujas
Canções de amor homossexual Pessoa não só tinha acabado de publicar, como as
elogiara como contributo estético inovador para o modernismo literário
português, levando o seu interesse pela contribuição esteticista de Botto a
ponto de traduzir as Canções para inglês44.
Na altura, Pessoa pediu ironicamente aos estudantes que "se calassem tão
silenciosamente quanto possível", mas o episódio não ficou por ali. Algumas
semanas mais tarde, Raul Leal, antigo colaborador de Orpheu, publicou outro
panfleto em louvor de Botto, significativamente intitulado "Sodoma divinizada".
O pobre dr. Leal foi selvaticamente atacado como um "pederasta louco" e Pessoa
voltou à liça com uma extraordinária e comovedora defesa da liberdade
individual e, em derradeira instância, de todas as formas de desvio: "Há três
coisas de que um espírito nobre [...] nunca troça [...] os deuses, a morte e a
loucura", cunhando então a célebre frase que viria, mais tarde, a integrar num
dos seus poemas:
Loucos são os heróis, loucos os santos, loucos os génios, sem os
quais a humanidade é uma mera espécie animal, cadáveres adiados que
procriam45.
Nada está mais longe dos mitos fascistas e futuristas da virilidade e da
violência. Fernando Pessoa oferece a Raul Leal a sua amizade incondicional e
orgulha-se de tê-lo como companheiro "nesta aventura cultural em que
coincidimos, diferentes e sózinhos, sob os risos e insultos dos velhacos". O
episódio é tanto mais revelador da avaliação global que Pessoa fazia da
aventura modernista quanto ele era pouco dado a oferecer a sua amizade.
Conforme diria mais tarde, "nunca visitei um amigo doente. E sempre que,
estando eu doente, recebia uma visita, ressentia-a [...] como uma
injustificável violação da minha decisiva intimidade". Por conseguinte, é
lícito considerar os últimos episódios da guerrilha modernista em Portugal como
uma dolorosa admissão de derrota ou, pelo menos, de profunda frustração. É o
que se revela também na sua poesia. É verdade que nunca houve muitos versos
verdadeiramente joviais na sua obra anterior, mas a partir de 1920 não se
encontra uma única linha jubilatória: "O universo reconstruiu-se sem ideal nem
esperança", como se lê no final da "Tabacaria" (1928).
Do mesmo modo, a conciliação futurista que Pessoa fez do nacionalismo e do
modernismo, bem como os seus escritos políticos, nunca revelou a ironia e a
reflexividade demonstradas por Almada Negreiros. O Ultimatum de Álvaro de
Campos proporciona-nos mais do que uma pista para a sua frustrada paixão
política. Numa clara alusão ao ultimato britânico de 1890, que tanto ferira o
orgulho português, é da extremidade ocidental da Europa que ele dirige o seu
desafio a todos os "mandarins europeus"46. Em veia tipicamente futurista,
proclama que "a Europa tem sede de que se crie, tem fome de futuro!", mas vai
muito mais além do que o já habitual louvor das "virtudes higiénicas da
guerra". A fim de explicar tal fome e tal sede de futuro, decreta a "lei
malthusiana da sensibilidade", segundo a qual "os estímulos à sensibilidade
crescem em progressão geométrica, enquanto a própria sensibilidade só se
desenvolve em progressão aritmética". A humanidade estava, por assim dizer, a
atrasar-se em relação à sua época. Para acompanhar a enorme potencialidade da
época moderna, Campos sugere "a necessidade de uma adaptação artificial", um
"acto de cirurgia sociológica", a fim de "eliminar da psicologia contemporânea
[...] os preconceitos da personalidade, individualidade e objectividade
pessoal".
Como resultado político de tal cirurgia, teríamos, como era de prever, "a
abolição total do conceito de democracia", bem como "a abolição de qualquer
crença em que a 'opinião pública' dura mais de meia hora". Há, porém, algo mais
do que mera provocação futurista na noção de que a democracia e a opinião
pública deviam ser substituídas pela "ditadura do completo, do Homem que contém
em si mesmo o maior número de homens". Na verdade, o nietzchismo de Campos no
Ultimatum -
O Super-Homem será, Não o mais Forte, Mas o Mais Completo! ...
O Super-Homem será, Não o Mais Duro, Mas o Mais Complexo! ...
O Super-Homem será, Não o Mais Livre, Mas o Mais Harmónico!
- é inteiramente consistente com o elitismo exacerbado dos modernistas, por um
lado, e com a tendência para favorecer a ascensão de um líder carismático, "o
Político que edificará conscientemente o destino inconsciente do seu Povo",
pelo outro.
Esse apelo a uma liderança carismática viria a ser, como já sabemos, muito em
breve satisfeito, para lá de todas as expectativas, pela ditadura de Sidónio
Pais após o golpe de 1917. E tanto os modernistas como os futuristas não
deixaram de o apoiar entusiasticamente. Entre muitos outros, António Ferro
escreveu mais tarde a propósito de Sidónio:
Foi então que senti, pela primeira vez, a beleza, o sentido poético
da palavra chefe [...] A ele [Sidónio] devo esta certeza que nunca
mais me abandonou: a poesia das nações, a sua poesia heróica, não
está nas alfurjas, nas associações secretas, ou até nos parlamentos,
mas nos seus chefes47.
Quanto à paixão que Pessoa sentiu por Sidónio, temos apenas de nos lembrar do
seu longo, embora malsucedido, poema de 1920, "À Memória do Presidente-Rei
Sidónio Pais". Mais importante, porém, é que esse apelo a uma forte liderança
messiânica não constituía, de forma alguma, um aspecto novo do nacionalismo
português desde 1880. Do lado monárquico, já mencionei Oliveira Martins, mas a
influência do cesarismo martiniano propagou-se rapidamente. Devido ao seu papel
na teoria da literatura moderna em Portugal, vale também a pena lembrar a
contribuição de Guilherme Moniz Barreto (1863-1896), autor de uma apologia de
1890 extremamente bem articulada do cesarismo48; assim como a de Luís de
Magalhães (1859-1935), membro destacado do monarquismo autoritário, ministro de
João Franco na ditadura de 1907 e depois na breve "Monarquia do Norte"
estabelecida por Paiva Couceiro no Porto, em princípios de 1919. Luís de
Magalhães foi provavelmente o primeiro escritor a associar explicitamente o
apelo moderno a uma liderança carismática com a antiga tradição do
sebastianismo no seu poema de 1898, "D. Sebastião"49.
No entanto, essa tendência fazia-se sentir de forma porventura ainda mais forte
entre os nacionalistas republicanos, os quais frequentemente aderiram ao
Partido republicano por decepção com a pretensa incapacidade do rei D. Carlos
para conduzir o país à "salvação nacional". Junqueiro é de novo um bom exemplo,
sobretudo dada a sua popularidade entre os republicanos. Nas já citadas
"Anotações à Pátria", ao mesmo tempo que manifestava repetidamente a sua
revolta contra "o advento do materialismo burguês", Junqueiro revela as raízes
nacionalistas do seu republicanismo:
A crise não era simplesmente económica, política ou financeira. Muito
mais: nacional [...] Perigava a existência, a autonomia da Pátria.
Hora grande, momento único. A revolução impunha-se republicana?
Conforme. Se o monarca nos saísse um alto e nobre carácter, um grande
espírito, juvenil e viva encarnação do ideal heróico, tanto melhor. A
revolução estava feita50.
Porém o rei não satisfez tais expectativas na altura do ultimato britânico e,
daí, a procura de Junqueiro por uma liderança forte. Muitos dos temas do
nacionalismo autoritário já são aqui evidentes, em particular o tema da
"juventude heroica". Por outro lado, Junqueiro vai proceder à elaboração de
vários dos símbolos que os grupos autoritários utilizariam abundantemente nas
décadas de 1910 e 1920, em especial a "Ressurreição de Lázaro"51 e Nun'Álvares,
o condestável português da guerra com Castela no final do século XIV, que se
tornou o "equivalente funcional" de Joana d'Arc na mitologia dos adeptos
portugueses da Action Française52.
A partir dessa elaboração simbólica, o apelo à liderança carismática e
autoritária surge quase automaticamente:
A ductilidade, quase amorfa, do carácter português, se torna
duvidosas as energias colectivas, os espontâneos movimentos
nacionais, facilita, no entanto, de maneira única, a acção de quem
rege e quem governa. Cera branda, os dedos modelam-na à vontade. Um
grande escultor, eis o que precisamos53.
Finalmente, Junqueiro declara não estar interessado na "forma de governo", mas
essencialmente na "forma do governante"; e após insistir de novo no facto de
que "a revolução urgente não era social nem política, mas moral", aproxima-se
tanto quanto era possível a um influente autor republicano fazê-lo, em meados
da década de 1890, da moderna perspectiva autoritária quanto à liderança
política:
A metempsicose, em moderno, do grande Condestável, eis o meu sonho
[...] A mesma chama noutro envólucro. Não combateria castelhanos,
combateria portugueses. O inimigo mora-nos em casa54.
E quem era esse "inimigo interno"? Os monárquicos? Os católicos? Nada disso.
Era antes o "burguês estúpido", o "burguês rotundo", o "burguês odioso". Por
outras palavras, mais outro tema do autoritarismo ao qual os modernistas não
deixaram de dar uma forma literária previsivelmente provocatória, em especial
na desopilante Cena do Ódio de Almada (a propósito do golpe de maio de 1915
contra a ditadura do general Pimenta de Castro), mas também em muitos versos de
Álvaro de Campos e outros autores menores. A filosofia política e social
perfilhada por Junqueiro atingiria a plenitude na década seguinte, com um
importante acréscimo de informação histórica e sociológica, na obra de outro
ideólogo influente, Basílio Teles, nomeadamente na sua análise de 1905 sobre a
ascensão do republicanismo após o ultimato britânico:
Sim! mil vezes um tirano, duro e frio, contanto que inteligente e
patriota, prendendo, deportando, perseguindo, mas impondo à estima do
mundo um povo que apenas lhe vem servindo de joguete, do que um bando
de politicantes histriões, atascados em torpeza e estupidez [...]
Resta ainda, algures, neste país de escravos, um homem de espada, com
energia e capacidade para mandar? Que se mostre, que apareça à luz do
dia, sem hesitação nem receio, que nos livre, quanto antes, de um rei
antipático e de um parlamento ridículo, e governe em lugar deles, a
sério, a valer, restituindo ao exercício do poder a força e a
autoridade que lhe faltam55.
Assim, do ponto de vista do simbolismo político, não há muita inovação nas
obras literárias modernistas, incluindo a de Fernando Pessoa. Os temas
principais, bem como muitas das imagens da sua poesia nacionalista e,
sobretudo, dos seus escritos políticos, provêm diretamente de uma tradição bem
estabelecida, que atravessou o monarquismo e o republicanismo, e proporcionou a
legitimação cultural ao regime autoritário, em especial àquela forma de
liderança carismática que Sidónio Pais encarnou por um momento, abrindo depois
caminho para o golpe militar de 28 de maio de 1926 e, por fim, para a ditadura
do "Estado Novo" salazarista.
A estreita associação do nacionalismo e do autoritarismo com os símbolos
tradicionais da lenda patriótica portuguesa pode ser ilustrada com quantos
exemplos queiramos escolher na obra de Pessoa. Não vou portanto sobrecarregar o
leitor com citações. Acrescentarei apenas que esses exemplos mostram como era
difícil, até mesmo para o criador do modernismo português, resistir ao
convencionalismo literário e ao próprio "passadismo", apesar dos seus
constantes esforços estilísticos. Se a reputação de Pessoa como criador
assentasse exclusivamente na Mensagem e no resto da sua poesia "sebastianista",
seria muito duvidoso que ele tivesse sido reconhecido internacionalmente como
um dos grandes poetas do século XX. De fato, à medida que o tempo foi passando,
a poesia de Pessoa desligou-se cada vez mais dos valores universais da
modernidade para se refugiar no subjetivismo tradicional ou, o que é ainda mais
importante do ponto de vista desta investigação, na autonegação esotérica e na
esperança messiânica.
CONCLUSÃO
Por que motivo, então, Fernando Pessoa não se rendeu ao apelo salazarista, como
aconteceu com a maior parte dos seus companheiros, incluindo aqueles que o
regime marginalizou, como António Botto? Ninguém respondeu ainda a esta
pergunta de modo satisfatório e não tenho a pretensão de o fazer. Se tivesse de
escolher um motivo principal, apontaria a sua individualidade sabiamente
caprichosa, pronta a levar sempre a contrária. Mas, em vez de fazer estéreis
conjecturas psicológicas, é preferível retomar o fio cronológico.
Assim como Sá Carneiro e o heterônimo Ricardo Reis se declararam monárquicos
conservadores, também Álvaro de Campos se fez passar por um presumível
monárquico, em aparente contradição com o alegado republicanismo de Fernando
Pessoa ele mesmo. Contudo, também é verdade que este último tentara mais de uma
vez avançar com uma teoria da "República Aristocrática", enquanto via de saída
para aquilo que descreveu como "a tortura política do Portugal
contemporâneo"56. Sidónio Pais, mais uma vez, correspondia perfeitamente a essa
teoria. A tal ponto que o rascunho da Constituição presidencialista foi
redigido para Sidónio, na realidade, por integralistas monárquicos, que também
o viram, a exemplo de Pessoa, como "Presidente-Rei", isto é, o rei eleito, o
líder escolhido:
Antemanhã da redenção
Nele uma hora encarnou El-Rei
Dom Sebastião.
O que é interessante é que Fernando Pessoa voltou a confrontar-se com esse
dilema político pouco depois do golpe nacionalista de 18 de abril de 1925,
frequentemente descrito como o "ensaio-geral" da conspiração autoritária antes
da tomada de poder pelos militares no ano seguinte. Num brilhante mas
incompleto diálogo intitulado "Na farmácia do Evaristo", Pessoa discute
minuciosamente a história política da República e, pela primeira vez, emprega a
categoria moderna da legitimação, a fim de justificar o impasse ideológico e
institucional, que era, segundo ele, a característica essencial da crítica
situação política do país, a qual se prestava a ataques constantes e cada vez
mais violentos contra o regime republicano57. O debate ficou sem conclusão, mas
dificilmente poderíamos não perceber para quem iam as simpatias de Pessoa. E,
três anos mais tarde, isso demonstrou-se de modo tão claro quanto as suas
crescentes pretensões esotéricas o permitiam, em O interregno, publicado pelo
reativado Núcleo da Acção Nacional.
É preciso acrescentar que a sua "defesa e justificação da ditadura militar" não
era, de modo algum, o primeiro apelo destes a ser expresso pela intelligentsia
portuguesa. Um apelo análogo é, nomeadamente, o do historiador literário
Fidelino de Figueiredo (1889-1967), que havia sucedido ao poeta e futuro
historiador republicano Jaime Cortesão (1884-1960) na direção da Biblioteca
Nacional após o golpe militar; mais tarde, derrotado por Salazar numa das
muitas vãs tentativas de tomadas do poder no seio do novo regime autoritário,
Fidelino refugiou-se em Espanha e posteriormente no Brasil58. No entanto, a
argumentação de Pessoa era mais interessante do que a da grande maioria, pois
apresentava a sua tese na linha já desenvolvida em "Opinião Pública", "Na
farmácia do Evaristo" e noutros escritos publicados postumamente. Dado o
impasse institucional entre monárquicos e republicanos, bem como a falibilidade
da opinião pública, segundo Pessoa, só os militares possuíam meios legítimos
para garantir aquele "mínimo social [...] sem o qual até mesmo as actividades
mais simples [...] não podem ser prosseguidas".
De modo semelhante à maioria dos participantes na campanha a favor de uma
intervenção dos militares na crise política do país, também Fernando Pessoa
encarava a ditadura militar como um "estado de transição", um "interregno".
Contudo, enquanto os críticos liberais dos partidos republicanos a viam como
uma transição para um novo acordo constitucional, e outros, como Salazar e os
integralistas, a viam como um passo irreversível em direção à
institucionalização do autoritarismo como regime político, Pessoa encontrava-se
desesperadamente só ao pensar que o interregno era uma transição para o seu
esotérico "Quinto Império" da grandeza lusitana.
Anos mais tarde, algures em 1933, Fernando Pessoa mostra-se novamente
decepcionado com a situação política. Numa nota manuscrita sem data e sem
seguimento, afirma estar a trabalhar numa nova versão do Interregno:
Publiquei em Janeiro de 1928 um folheto com o mesmo título que o
presente. Dou hoje esse escrito por não escrito; escrevo este para o
substituir [...] Havia de facto Interregno, isto é, a Ditadura era,
propriamente, uma ditadura de interregno. Com a votação da nova
Constituição estamos já num regime: o Interregno cessou [...] Não me
proponho discutir a Nova Constituição ou o Estado Corporativo; a
ambos aceito, por disciplina; de ambos discordo59.
Porém nunca chegou a escrever essa nova versão nem, na verdade, explicou por
que razão não concordava com o Estado Novo: porque "discordo" e foi tudo. Se
ele vivesse mais tempo, teria certamente esclarecido os seus motivos, por mais
esotéricos que fossem. É certo que deixou alguns poemas inéditos, escritos
sobretudo em 1935 e bastante pouco conseguidos, em que ataca sarcasticamente
Salazar e o Estado Novo60. Contudo, ainda em dezembro de 1934, andava muito
atarefado com a publicação do seu primeiro livro - inicialmente intitulado
Portugal, acabando por se chamar Mensagem - e concorria ao prêmio literário de
"poesia nacionalista" que o antigo companheiro do Orpheu, António Ferro, havia
criado no Secretariado da Propaganda Nacional.
Ora, segundo Gaspar Simões, teria sido o duplo fracasso da Mensagem que
afastou, eventualmente, o poeta do regime. Não ganhou o primeiro prêmio e,
ainda por cima, os seus novos amigos da Presença - a revista literária coimbrã
fundada em 1927 -, que lhe haviam dado o reconhecimento e o apoio que nunca
ninguém lhe dera antes, não esconderam o fato de a Mensagem não estar à altura
dos padrões que o próprio poeta se impusera durante os dias heroicos de Orpheu.
Uma vez mais, não podemos ter certezas, mas uma carta que Pessoa escreveu ao
presidente da República, general Carmona, sem no entanto lha enviar, faz pensar
que a possível intervenção de Salazar no sentido de que o prêmio do SPN não
fosse atribuído a Fernando Pessoa pode, de fato, ter contribuído para reforçar
a ideia que este tinha de Salazar como um ditador que já não se limitava a
proibir de "dizer isto ou aquilo" mas obrigava a "ter que dizer isto ou
aquilo", em suma, que o "integralismo" de Salazar se tornara "integral". Tão
importante como isso, era ideia convergente de que Pessoa também já se
compenetrara:
À medida que se têm ido afirmando e acentuando os estados
autoritários hoje em moda, nessa mesma medida se têm ido confirmando
na sua hostilidade ou afastando, para a indiferença quando não para a
oposição, os poetas, os artistas e os intelectuais designáveis de
"novos"
tal como escreveu acerca do grupo da Presença numa nota manuscrita de 1935
sobre a "Nova Poesia Portuguesa", mostrando claramente ter compreendido a
natureza da ditadura e percebendo que os novos criadores não poderiam deixar de
se manifestar contra tal regime61.
Last but not least, em fevereiro de 1935, Pessoa deu-se ao trabalho de se opor
publicamente à proibição das "sociedades secretas" pela "Assembleia Nacional"
recentemente nomeada. A sua comovente, embora racional, defesa da Maçonaria é
bem conhecida. Apesar de negar ser maçon, declara contudo "ter visto a mesma
luz noutro templo"62. Não tenho as qualificações necessárias para comentar as
suas crenças esotéricas, acerca das quais muito se tem escrito sem se chegar a
qualquer conclusão, mas não se pode deixar de reconhecer a profundidade dos
seus sentimentos nesta matéria. Arrisco-me a sugerir que o ataque autoritário
contra a maçonaria pode ter sido "a gota que fez transbordar o vaso" e que
alienou as eventuais simpatias que Fernando Pessoa pudesse ter sentido pelo
Estado Novo.
Incansavelmente, Pessoa vira-se logo a seguir para outra teoria política, o
"liberalismo nacional". Redescobre os valores do individualismo e opõe-se
firmemente à censura. Acredita que a sociedade precisa de "ordem" e
"prestígio", e reconhece que Salazar deu ambas as coisas ao país, mas por
qualquer motivo que nunca chegou a esclarecer, acha o prestígio de Salazar
"absurdo" e considera o novo regime, com razão, uma "tirania". Não teve, porém,
tempo ou vontade para prosseguir a teoria do "nacionalismo liberal"63.
Seja como for, já era tarde demais para uma reconciliação entre o autoritarismo
e o liberalismo, bem como entre o nacionalismo e o modernismo. Apesar de alguns
esforços por parte de António Ferro, era impossível ocultar o crescente
tradicionalismo cultural e estético do Estado Novo, outra coisa não sendo de
esperar, aliás, de uma ditadura que se apoiava sobretudo nas classes médias
conservadoras e provincianas, nos católicos e nos monárquicos. Do ponto de
vista político, o regime tornou-se ainda mais repressivo quando a guerra civil
rebentou em Espanha. Em consequência disso e de harmonia com o estado de
espírito internacional em meados dos anos 1930, as novas gerações intelectuais
tendiam a juntar-se às fileiras da oposição à ditadura. Alguns dos jovens
escritores tornaram-se comunistas ou simpatizantes e, com o advento do
"neorrealismo" nos anos 1940, a intelligentsia de esquerda acabou por conseguir
impor uma espécie de contra-hegemonia cultural durante as duas ou três décadas
seguintes.
De tal modo que somente nos finais dos anos 60, princípios da década de 70 do
século passado, é que a revolução literária modernista se tornou conhecida do
grande público. Apesar da forte influência que exerceu sobre gerações
sucessivas de poetas e da publicação de alguns estudos importantes sobre a sua
obra, o público em geral só veio a descobrir Fernando Pessoa mais de três
décadas após a sua morte. Em contrapartida, nos últimos trinta anos, em
particular desde a liberalização do sistema político em 1974, a admiração por
Pessoa e os modernistas tornou-se uma espécie de culto, o que dificulta por
vezes o trabalho do investigador para colocar as atividades dessa geração numa
perspectiva histórica. Foi tudo o que tentei fazer aqui. Deixando de lado
juízos morais e estéticos, que nunca estiveram no meu espírito, espero ter
fornecido provas convincentes de que o simbolismo político do modernismo
português estava intimamente ligado à crescente tradição do nacionalismo
autoritário, a qual proporcionou a legitimação cultural para o golpe militar de
1926 e para a subsequente institucionalização da ditadura de Salazar. Parece-me
legítimo argumentar, portanto, que a estética nacionalista recebeu,
efetivamente, um impulso significativo, embora ambíguo e contraditório, por
parte de Fernando Pessoa e dos seus companheiros modernistas.
[*] Publicado originalmente como "The aesthetics of nationalism: literary
modernism and political authoritarianism in early twentieth-century Portugal".
Luso-Brazilian Review, vol. XXVI, n-º 1, 1984. A presente versão foi revista e
atualizada pelo autor em agosto de 2013.
[1] Mosse, George L. "Fascism and the intellectuals". In: Woolf, S. J. (org.).
The nature of fascism. Londres: Weinfeld and Nicolson, 1968, pp. 205-25.
[2] Entre os que conheceram Pessoa e foram dos primeiros a escrever sobre ele,
incluem-se João Gaspar Simões, Vida e obra de Fernando Pessoa: história de uma
geração, 2 vols. (Lisboa: Bertrand, s/d, especialmente vol. II, pp. 285
passim), e Adolfo Casais Monteiro (citado por J. A. Neves, nesta nota); nas
gerações seguintes, contam-se José Augusto Seabra, "Poética e política de
Fernando Pessoa", Persona, Porto, Centro de Estudos Pessoanos, n-o 1, 1977, pp.
11-20, e Joel Serrão (nesta nota), para mencionar só alguns
dos mais importantes comentadores de Pessoa. Entre os autores secundários, é
comum a atitude de defender Pessoa de "aqueles que acusaram Fernando Pessoa de
[ser] ultradireitista, fascista e outras coisas que o poeta jamais foi", como
escreve, por exemplo, João Alves das Neves. "As ideias políticas de Fernando
Pessoa em três volumes", Persona, n-o 8, 1983, pp. 51-3.
Também nos Estados Unidos, alguns dos admiradores de Pessoa, tal como o seu
tradutor Edwig Honig, acreditam que "é injusto e certamente irónico chamar
fascista a Pessoa [...] Todas as coisas escritas contra Pessoa [...] impedem-no
de se tornar conhecido como escritor português", em entrevista a George
Monteiro (org.). The man who never was. Essays on Fernando Pessoa. Providence:
Gávea-Brown, 1982, p. 161. Para um ponto de vista mais
próximo do meu, ver Margarido, Alfredo. "Introdução a Fernando Pessoa". In:
Santo António. São João. São Pedro. Lisboa: Regra do Jogo, 1986.
[3] Quental, Antero de. "Causas da decadência dos povos peninsulares nos
últimos três séculos" (1871). In: Prosas. Coimbra: Imprensa da Universidade,
1926, vol. 2, pp. 92-140.
[4] Ver, por exemplo, Nuno Júdice, no prefácio às Odes modernas de Antero de
Quental. Lisboa: Ulmeiro, 1983, pp. 5-11, max. 6.
[5] Citado por João Alves das Neves (ed.) em Mário de Sá Carneiro.São Paulo:
Iris, s/d, p. 205. Tem sido bastante discutida a contribuição de Sá Carneiro
para o modernismo e o futurismo. Pamela Bacarisse, no seu excelente estudo A
alma amortalhada: Mário de Sá Carneiro's use of metaphor and image (Londres:
Thamesis, 1984), tende a minimizar tal contribuição, mas John
Parker, em The life and works of Mário de Sá Carneiro (tese de doutoramento não
publicada, Cambridge, 1959), manifesta apreço pela sua "visão
cubista". Sabemos também que Sá Carneiro era atraído pela teoria da "república
aristocrática" de Pessoa (ver abaixo).
[6] Mais de cem anos depois, Portugal continua a celebrar "O Dia de Portugal" -
"O Dia da Raça", como era designado sob Salazar e Caetano - a 10 de junho, data
presumível da morte de Camões em 1580. A explicação do lugar simbólico do poeta
quinhentista no moderno nacionalismo português requeriria outra investigação.
[7] Ver o meu Portugal na alvorada do século XX. Forças sociais, poder político
e crescimento económico. Lisboa: Regra do Jogo, 1979.
[8] Ver Sampaio (Bruno), José Pereira. O Encoberto. Porto: Lello, 1904. Já em 1914 Pessoa escrevia a Bruno sobre o "sebastianismo":
cf. Serrão, Joel. Sampaio Bruno. Sua vida e obra. Lisboa: Inquérito, 1957, pp.
136-8.
[9] Ver Bradbury, Malcolm e Macfarlane, James (orgs.). Modernism: 1890-1930.
Harmondsworth: Penguin, 1976, p. 49.
[10] Gellner, Ernst. Nations and nationalism. Ithaca, NY: Cornell University
Press, 1983, pp. 79-80: "O nacionalismo tem as duas fases de Jano [. ..] uma adaptada ao pluralismo religioso e social das comunidades
rurais e populares [...] e a outra dirigida aos literatos fastidiosos,
escolásticos e individualistas das cidades".
[11] Pessoa, Fernando. "Para a memória de António Nobre". In: Obras em prosa.
Org. de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Aguilar, 1982, pp. 344-5.
[12] Ibidem.
[13] Guerra Junqueiro. Obras. Ed. de Amorim de Carvalho. Porto: Lello, 1972,
pp. 627-47.
[14] Pessoa, Fernando. A nova poesia portuguesa, publicada pela primeira vez em
1912 em números sucessivos da Águia (Porto: Renascença Portuguesa) e reeditada
muitas vezes desde então; cf. Obras em prosa, op. cit., pp. 361-97.
[15] Ibidem.
[16] Ibidem.
[17] Seabra, José Augusto. "Da 'Renascença Portuguesa' ao 'Orpheu'". Persona,
n-o 2, 1978, pp. 53-60; ver também o meu trabalho "O grupo da Seara Nova e as
ambiguidades do elitismo liberal português". Portuguese Studies, vol. 4, 1988.
[18] Sobre as relações entre Camilo Pessanha e a Geração Modernista, ver a
edição especial de Persona, n-o 10, Porto, jul. 1984.
[19] Carta de Sá Carneiro a Fernando Pessoa, 12 de dezembro de 1914, citada por
Neves, op. cit., p. 250.
[20] Manuscrito de 1916 (?) sobre "Os sensacionistas portugueses". In: Obras em
prosa, op. cit., p. 454.
[21] Griffith, Jonathan. "Introdução a Fernando Pessoa". In: Selected poems.
Harmondsworth: Penguin, 1974, pp. 9-23.
[22] Bradbury e Macfarlane, op. cit., p. 52. De facto, não há uma única
referência a Pessoa nem aos seus companheiros nas 700 e tal páginas desta
excelente coleção de ensaios sobre o Modernismo. Se o livro tivesse sido
publicado dez anos mais tarde, tal omissão não se teria provavelmente
verificado. O Modernismo português já foi objeto de atenção, por exemplo, na
obra de Folojewski, Zbigniew. Futurism and its place in the development of
Modern Poetry. A comparative study and anthology. Ottawa: University Press,
1980.
[23] Ver o prefácio que escrevi para a reedição de Eh Real! (13 de maio de
1915), número único do jornal onde Fernando Pessoa publicou o seu conhecido
"Preconceito da ordem" (Lisboa: Contexto, 1983). Ver também de Fernando Pessoa,
"Carta a um herói estúpido". In: Da república. Ed. Joel Serrão. Lisboa: Ática,
1979, pp. 195-9.
[24] Ferro, A. A idade do jazz-band (1923). In: António Ferro. Ed. António
Quadros. Lisboa: Secretariado Nacional da Informação, 1963, p. 15.
[25] Bem conhecido como artista plástico, os trabalhos literários de Almada
Negreiros eram praticamente desconhecidos até ao princípio da década de 1970.
Os contos escritos entre 1915 e 1920 foram reunidos em Obras completas. Lisboa:
Estampa, 1970, v. 2: Contos e novelas.
[26] In: Obras completas. Lisboa: Estampa, 1972, v. 6: Textos de intervenção;
que contém, com o volume 5, de ensaios, (Lisboa: Estampa, 1971), a maior parte
dos seus pronunciamentos estéticos e políticos desde 1915 até 1962.
[27] In: Obras completas. Lisboa: Estampa, 1971, v. 4: Poesia; incluindo também
o futurista "Mima-Fataxa" e "Litoral", ambos de 1916, e uma reedição de A
invenção do dia claro, publicada pela pequena casa editora Olisipo em 1921.
[28] In: Obras completas, v. 6, op. cit., pp. 29-39.
[29] José Pacheco, ou Pachêko como ele gostava de escrever, foi outro dos
empresários do movimento. Era codiretor com Pessoa da Contemporânea (1922-
1926). Mas numa carta de 4 de agosto de 1923 a Cortes Rodrigues, Pessoa queixa-
se: "Tanta saudade - cada vez mais tanta! Daqueles tempos antigos do Orpheu, do
paúlismo, das intersecções, e de tudo o mais que passou!... Você tem visto a
Contemporânea? É de certo modo a sucessora de Orpheu. Mas que diferença!"
(Obras em prosa, op. cit., p. 415).
[30] Para Almada Negreiros, ver Serra, Filomena. O retrato na encruzilhada da
pintura portuguesa, 1911-1949.Tese de doutorado, FCSH-UNL, 2013, em especial para este período, pp. 372-6. Almada irá finalmente
conquistar o seu lugar como o artista plástico nacional mais importante nos
anos 30 e 40 do século XX, nomeadamente com os painéis de azulejo das Gares
Marítimas de Alcântara (Serra, op. cit., pp. 550-60). Em contrapartida, só nos
anos 1930 publicou o único romance modernista português, Nome de guerra
(Lisboa: Europa, 1938), escrito em 1925 antes da estada em Madri.
[31] Viviani, Alberto. Giubbe Rosse. Il caffé fiorentino dei futuristi negli
anni incendiari, 1913-1915 (1933). 3-ª ed. Firenze: Valecchi, 1983.
[32] Simões, op. cit., pp. 202-3. Embora Simões resista à ideia de associar
Pessoa com o "nacionalismo de carácter fascista" (p. 285), reconhece, creio que
corretamente, a contribuição de Pessoa para uma "mentalidade" que só pode ser
descrita, no princípio dos anos 1920, como "nacionalista de carácter fascista".
[33] Cabral, M. V. "A Grande Guerra e o sidonismo - esboço interpretativo".
Análise Social, XV, 1979, pp. 373-92.
[34] "Era um homem, aceitem-no de corpo e alma/ Não voltarei a ver outro como
ele."
[35] Acção, n-o 3, ago. 1919.
[36] Do "espólio" de Fernando Pessoa conservado na Biblioteca Nacional, Lisboa:
Docs. 114233 a 114245. Pessoa parece ter sido mais chegado a Geraldo Coelho de
Jesus do que aos seus dois principais correspondentes, Sá Carneiro e Cortes
Rodrigues, porquanto usava o nome próprio de Coelho de Jesus e assinava as
cartas com o seu nome de batismo, coisa que nunca fez nas cartas endereçadas
aos seus dois outros amigos e correspondentes.
[37] Pessoa, Fernando. Ultimatum e páginas de sociologia política. Ed. de Joel
Serrão, Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Lisboa: Ática, 1980, p. 266.
[38] Bloom, Harold. The Western Canon. The books and school of ages. Nova York:
Riverhead, 1994, p. 455-6.
[39] A maior parte dos escritos políticos de Pessoa acham-se disponíveis nos
três volumes editados por Joel Serrão: os dois últimos são citados nas notas 20
e 31. O primeiro é Sobre Portugal. Introdução ao problema nacional (Lisboa:
Ática, 1979). Para uma opinião crítica da interpretação de Serrão, ver o meu
artigo "O universo político de Fernando Pessoa", Diário de Notícias, Revista de
Livros, 2 de março de 1983.
[40] Escreveu exatamente: "A tese do Professor Salazar é um apanhado, aliás
muito lúcido e lógico, de princípios já conhecidos - os da chamada 'contra-
revolução', ou seja, os que distinguem e definem as doutrinas dos chamados
integralistas. A minha tese ao contrário, trará, em seu desenvolvimento,
resultados de absoluta novidade" (Da República, op. cit., p.376). Mas, como de
costume, não elaborou a sua própria "tese"!
[41] In: Obras em prosa, op. cit., p. 407.
[42] In: Obras completas, v. 6, op. cit., p. 34.
[43] "Um ponto no I de futurismo". In: Obras completas, v. 6, op. cit., pp.
135-7.
[44] Ver o Espólio de António Botto na Biblioteca Nacional de Lisboa.
[45] Fernando Pessoa, Sobre um manifesto de estudantes (Lisboa, s/d), citado
por Maria Aliete Galhoz na sua "Introdução" a Fernando Pessoa: Obra Poética.
São Paulo: Aguilar, 1969, pp. 33-4.
[46] Embora a principal preocupação de Pessoa no "Ultimatum" de Álvaro de
Campos seja estética, Serrão inseriu-a com propriedade na sua seleção de
escritos políticos, ver Ultimatum e páginas de sociologia política, op. cit.,
pp. 111-30.
[47] In: D. Manuel II, o desventurado (1954), citado por Quadros, op. cit., pp.
128-30.
[48] Moniz Barreto, G. "Carta a El-Rei de Portugal sobre a situação do País e
seus remédios" (1893). In: Estudos dispersos. Coletânea, prefácio e notas de
Castelo Branco Chaves. Lisboa: Portugália, 1963, pp. 203-35.
[49] Ler, também, do historiador Alberto Sampaio (1841-1908), o comentário ao
D. Sebastião de Luís de Magalhães: "O simbolismo era bem transparente: [...] o
triste quadro da vida mesquinha que arrastava a pobre nação, à qual faltavam os
fortes combatentes, e hábeis pilotos dos tempos passados; e se por ventura
aparecia um destes, a insânia tirava-o do seu posto" (maio de 1898). In:
Estudos históricos e económicos. Porto: Chardron, 1923, v. 2, pp. 105-10, max.
107.
[50] Guerra Junqueiro. "Anotações à Pátria". In: Obras, op. cit., pp. 627-47.
[51] O tema da ressureição de Lázaro como símbolo da regeneração nacional foi
utilizado em especial por Ezequiel de Campos (1874-1965), ideólogo da
competência técnica associado à Seara Nova e que, posteriormente, aderiu ao
"establishment" salazarista.
[52] A Cruzada Nun'Álvares, criada em 1918, foi uma das mais importantes
organizações autoritárias que precederam a tomada do poder pelos militares,
tendo-se envolvido durante a década de 1920 não só em propaganda, mas também em
várias tentativas de derrubada do regime liberal, nomeadamente no golpe militar
falhado de 18 de abril de 1925.
[53] "Anotações à Pátria", op. cit.
[54] Ibidem.
[55] Teles, B. Do ultimatum ao 31 de Janeiro. Porto: Lello, 1905, p. 197.
[56] In: Ultimatum e páginas de sociologia política, op. cit., p. 355 passim.
[57] Totalmente desconhecido até há algum tempo, o manuscrito inacabado "Na
farmácia do Evaristo" foi publicado pela primeira vez por Joel Serrão em Da
república, op. cit., pp. 271-94.
[58] Figueiredo, Fidelino de. O pensamento político do Exército. Lisboa:
Empresa Literária Fluminense, 1926.
[59] In: Da República, op. cit., pp. 361-2.
[60] Para acompanhar as atividades e pensamentos de Pessoa durante o último ano
de vida, desde 1-o de dezembro de 1934 a 30 de novembro de 1935, ver Sousa,
João Rui de e Cunha, Teresa Sobral (eds.). Fernando Pessoa - O último ano.
Catálogo da Exposição do 50-o aniversário da sua morte. Lisboa: Biblioteca
Nacional, 1985.
[61] Simões, op. cit., p. 315 passim; ver também Serra, Filomena. "'A contra-
imagem' de Fernando Pessoa". In: Serra, op. cit., pp. 426-7. Ver igualmente
Pessoa, Obras em prosa, op. cit., pp. 403-6.
[62] Pessoa, F. "Associações Secretas". In: Da República, op. cit., p. 391
passim, especialmente 404.
[63] "Nacionalismo Liberal". In: Ultimatum, op. cit., pp. 343-51; também Da
República, op. cit., pp. 370-1.