"Uni por Uni, eu escolhi a que era do lado da minha casa": Deslocamentos
cotidianos e o acesso, a permanência e a fruição da universidade por bolsistas
do ProUni no Ensino Superior privado
- Descobri que a minha coisa é palco, sabe? Tô em formação também,
que nem você. Só que eu mesmo pago a minha [. . . ]. Não tenho pai
rico. [. . . ] enquanto não me descobrem, continuo encoberta e
balconista. [. . . ] ué. Alguém tem que ser balconista nesta vida.
Moraes, Reinaldo. Vidadois. In: Umidade: histórias. São Paulo:
Companhia das Letras, 2005.
INTRODUÇÃO
As reflexões que seguem consistem em desdobramentos da pesquisa Políticas de
inclusão e transição no mercado de trabalho: o caso do ProUni, coordenada pela
Profa. Dra. Márcia Lima, e realizada no Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (Cebrap) ao longo dos anos de 2009 e 20101. Essa pesquisa teve o
objetivo de reconstruir o Programa Universidade para Todos (ProUni), como
política pública de acesso ao Ensino Superior, e também de avaliar o programa
em termos de alargamento das oportunidades no mercado de trabalho para seus
beneficiários.
Um dos elementos que obteve forte destaque ao longo das entrevistas foi a
questão da mobilidade dos beneficiários do programa. Para grande parte deles,
deslocar-se entre casa, escola e trabalho, na cidade de São Paulo, era um ponto
de fundamental importância para a definição da qualidade da experiência de
Ensino Superior auferida, chegando, muitas vezes, a condicionar as
possibilidades de acesso e permanência no Ensino Superior. É exatamente sobre
esse ponto, que surgiu de forma espontânea nas entrevistas, que nos debruçamos
neste artigo.
Visamos, assim, investigar em quais condições (para estudantes com variadas
características de moradia e ocupação) as distâncias percorridas na cidade
envolvendo idas e vindas à Instituição de Ensino Superior (IES) constituem uma
questão relevante e a ser considerada no momento da tomada de decisão por
ingressar no nível superior e em qual instituição e curso. Buscamos, também,
compreender como os deslocamentos diários, em uma grande cidade como São Paulo,
estão relacionados com a qualidade da experiência de Ensino Superior desses
estudantes.
Em outros termos, nossas preocupações são:
* localização do campus/IES desempenha algum papel para essa escolha? Se
sim, qual?
* Há diferenças significativas, do ponto de vista dos deslocamentos
cotidianos, entre o sistema privado e o público?
* Quais significados são atribuídos a tais deslocamentos?
* Como esse tempo é utilizado?
* Como os deslocamentos diários impactam na experiência universitária do
prounista2?
O ProUni é um programa do Ministério da Educação (MEC) que concede bolsas de
estudos integrais ou parciais, presenciais ou a distância, para alunos egressos
do Ensino Médio da rede pública. Além desse, os critérios de elegibilidade são:
* renda bruta familiar de até 1,5 salário-mínimo (bolsa integral) ou três
salários mínimos (bolsa parcial);
* pessoas portadoras de deficiência; ou
* professores da rede pública.
Por fim, o programa também deve ser considerado uma política de ação
afirmativa, já que reserva vagas (cotas) para os autodeclarados pretos ou
pardos de acordo com a respectiva proporção desses grupos de cor ou raça na
população total de cada unidade da federação. Existente desde 2004, o ProUni já
distribuiu mais de 1 milhão de bolsas de estudos.
O argumento de fundo que sustentamos ao longo do artigo é que para quem mora
nas regiões mais afastadas do "eixo universitário público" da cidade de São
Paulo - corredor Vila Mariana-Centro- -Butantã 3, que contém os principais
campi das IES públicas da capital paulista -, a dispersão territorial dos campi
das IES privadas em São Paulo e sua presença em regiões mais próximas das áreas
periféricas facilita o acesso dos estudantes e, principalmente, a permanência
deles no Ensino Superior. Além disso, o sistema superior privado está mais
próximo do transporte público, sobretudo das estações de metrô e de trem e
terminais rodoviários4 . Esse dado contribui para a composição dos elementos
que viabilizam o acesso e a permanência, e propiciam uma experiência menos
extenuante de Ensino Superior 5.
Contudo e apesar de a disposição do sistema superior privado na cidade
favorecer o acesso e a permanência nesse nível de ensino, suas características,
associadas ao perfil e às condicionantes estruturais dos próprios estudantes,
podem levar a um tipo de experiência (fruição) de ensino relativamente precária
ou insuficiente. Concretamente, destacamos algumas características da oferta
privada, como a predominância de cursos noturnos em IES de grande porte e de
qualidade mediana, cujas estratégias competitivas são majoritariamente
dependentes de preço e processos de padronização e massificação do ensino para
a obtenção de economias de escala6. Algumas poucas IES, capazes de competir
qualitativamente (independentemente de seu preço), fogem a esse padrão. Na
cidade de São Paulo, podemos citar, entre outras, as escolas de Economia,
Direito e Administração da Fundação Getulio Vargas (FGV), a Faculdade Cásper
Líbero, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP). Dessas citadas, só as duas últimas aderiram ao
ProUni.
Do ponto de vista dos candidatos/estudantes, argumentamos que a capacidade da
variável distância - concebida como interação entre distância física e a
acessibilidade (por transporte público) - em condicionar o acesso e a
permanência de prounistas7 no Ensino Superior, por um lado, e a escolha do
campus/IES, por outro, cresce na medida em que certas barreiras são vencidas.
Nesse sentido, não afirmamos que a variável distância é o fator mais
importante, mas apenas que cresce em importância em condições específicas.
Dentre as barreiras existentes, destacamos:
* "passar" no vestibular e/ou obter nota no Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem) suficiente para o ingresso em um curso de alguma IES privada;
* essa possibilidade de ingresso acontecer simultaneamente em mais de um
curso/IES;
* obter uma bolsa de estudo, seja do ProUni ou não, caso o ingresso seja em
IES particular; e
* ter a possibilidade de realizar o curso no período noturno.
Em outras palavras, argumentamos que o peso da variável distância para a
escolha do campus/IES e para a permanência tende a crescer a partir do momento
em que o candidato/estudante passa a desfrutar de alguma possibilidade de
escolha.
Nesse sentido, a forma pela qual o fenômeno é aqui abordado está em
conformidade com outros estudos sobre o tema. Diversos estudos8 apontam para
alguns fatos:
* os prounistas são membros da primeira geração de sua família, ou mesmo a
primeira pessoa da família a alcançar o Ensino Superior;
* a realização desse nível de ensino ser concebido como "sonho"; e
* a percepção e/ou experiência concreta da grande dificuldade que é ser
aprovado no vestibular de uma universidade pública.
Em geral, em decorrência desses fatos apontados, o que está em jogo é ingressar
em um curso de alguma IES. Assim, a "escolha" por um curso/campus/IES é apenas
o segundo momento, não acessível a todos, de um processo no qual o fundamental
é ingressar o mais rápido possível em algum curso/campus/IES. Para aqueles que
desfrutam do "luxo" da escolha - seja entre mais de um curso/campus/IES, seja
entre o ingressar agora ou posteriormente - a distância desde o local de
moradia e/ou de trabalho tende a se tornar um elemento de crescente
importância, principalmente quando a qualidade dos cursos/IES possíveis é
percebida como semelhante9.
Além disso, a disponibilidade de cursos noturnos é fundamental, uma vez que o
prounista - ou o estudante com desvantagens econômicas e educacionais - tem uma
dupla posição de trabalhador-estudante. Muitas vezes, a posição de estudante é
função da posição de trabalhador, seja porque o trabalho é de suma importância
para o custeio da permanência, mesmo para aqueles que não pagam a faculdade10;
seja porque, devido à experiência no mercado, o Ensino Superior é percebido
como uma estratégia de mobilidade social, mesmo que limitada, e/ou de
sobrevivência no mercado de trabalho, sendo a obtenção do título, qualquer
título, aspecto de suma relevância.
Dessa dupla condição deriva a necessidade de compatibilizar o trabalho com a
faculdade/universidade, o chefe com o professor. O trabalhador-estudante padece
de uma ausência de tempo crônica, expressa em falta de tempo para, além de
estudar, realizar atividades inerentes ao Ensino Superior e importantes para a
formação universitária. Exemplos são a participação na atlética, centro
acadêmico ou movimento estudantil, atividades artísticas (teatro, coral etc. ),
happy hours e festas, ciclos de seminários e colóquios e outras atividades
extracurriculares. Muitas vezes, o trabalhador-estudante não tem outra saída a
não ser criar tempo para cumprir as exigências mínimas do curso, como estudar
no ônibus, nas refeições, no intervalo e nas horas que deveriam ser de sono.
Afirmamos, assim, que os prounistas, em particular, e os estudantes com
desvantagens socioeconômicas e educacionais, em geral, fazem parte de segmentos
da população passíveis de ser caracterizados como "nova classe trabalhadora"11.
Em que pese a recente inclusão nas esferas de produção e consumo, esses
segmentos da população permanecem relativamente excluídos do acesso e/ou das
possibilidades plenas de desfrute de bens e serviços mais valorizados pela
sociedade, inclusive da educação. Para os fins deste artigo, suas
características mais relevantes são a necessidade precoce de trabalhar, a
relação pragmática com a formação escolar e a constante pressão exercida pelo
tempo, expressa na sensação de urgência ("não há tempo a perder").
Um aspecto que reforça a percepção da educação superior, pública, sobretudo,
como um bem escasso, não disponível a todos, é o paradoxo das políticas de
inclusão12. Nos últimos dez anos, apesar de políticas de ação afirmativa terem
se disseminado pelo Ensino Superior público, propiciando acesso a uma grande
variedade de cursos em IES de boa qualidade, em termos absolutos, o ProUni
beneficia um número muito maior de pessoas, promovendo, contudo, acesso a uma
variedade restrita de cursos em IES de qualidade mediana. Com base em dados
apresentados no artigo "Juventude negra e educação superior"13, pode-se inferir
que, até 2008, para cada dez bolsas fornecidas pelo ProUni, aproximadamente uma
pessoa era beneficiada por algum programa voltado para IES públicas.
Os estudos que, de alguma forma, abordaram a questão dos deslocamentos e da
distância14 identificaram um padrão no qual o transporte é concebido, ao mesmo
tempo, como custo monetário e de tempo. Além de ser relativamente caro, toma
horas preciosas do dia/noite do estudante. Remete, portanto, a dificuldades de
permanência de ordem financeira e material.
Com relação às estratégias de pesquisa, empregamos uma dupla abordagem, que
combina produção cartográfica com técnicas qualitativas. Primeiro, e com o
objetivo de analisar a distribuição espacial dos campi das IES que ofertam
cursos com bolsas ProUni na cidade de São Paulo, espacializamos um banco de
dados de tais cursos, construído no âmbito da pesquisa citada15. Também
identificamos, nas cartografias, a malha de transportes de trens e metrô da
cidade, traçamos os trajetos que nossos entrevistados faziam para o campus/IES
em que estudavam e estimamos como seriam tais percursos caso tivessem
ingressado no mesmo curso, mas na IES pública mais próxima de sua residência.
Depois, com a intenção de investigar os significados associados às distâncias
percorridas na cidade, bem como a forma pela qual essas distâncias pesaram na
escolha do campus/IES dos prounistas, voltamos-nos para o conjunto das
entrevistas realizadas ao longo da pesquisa. No total, foram 32 entrevistas com
beneficiários e ex-beneficiários do programa que cursaram o Ensino Superior na
cidade de São Paulo. Posteriormente, uma entrevista foi descartada, pois o
entrevistado 23 morava em São Paulo e estudava em Jundiaí. Por isso,
consideramos que nossa amostra de informantes é de 31 pessoas. A seguir
apresentamos um quadro-síntese com informações sobre gênero, cor/raça, idade,
local de moradia, curso, IES e trabalho.
Tabela 1 Quadro-síntese: 31 informantes
ID Sexo Cor/ Idade Residência Curso IES Trabalho
raça (cargo e/ou empresa)
1 M Parda 22 SP/Zona Pedagogia Mackenzie Professor da rede pública
Leste
2 M S. I. 28 Cidade Direito Uninove Aux. técnico de educação
Tiradentes (concursado)
3 F Branca 22 Taboão da Pedagogia Mackenzie Desempregada
Serra
4 M Branca 22 Itapecerica Nutrição Mackenzie Pesquisador-bolsista
da Serra
5 M Branca 22 Jaraguá Sistemas de Mackenzie Escola de informática
Informação
6 M Branca 22 Osasco Psicologia Mackenzie Associação dos jovens
autistas
7 F Parda 29 Santo Amaro Psicologia Mackenzie Trabalho voluntário
8 F Branca 24 Grajaú Arquitetura Mackenzie Escritório de arquitetura
9 F Preta 26 Poá Psicologia Mackenzie Desempregada
10 M Preta 22 Ferraz de Psicologia São Marcos Telemarketing
Vasconcelos
11 M Branca 41 Cidade Direito São CPTM
Tiradentes Francisco
12 M Preta 25 Vila Guarani Rádio e TV São Judas Estagiário na MTV
Tadeu
13 M Branca 27 Vila Zilda Engenharia de Uninove Estagiário em
Produção multinacional
14 M Branca 24 Santana Jornalismo UniSant'Anna S. I.
15 M Branca 20 Guaianases AdministraçãCruzeiro do Dinap (distribuidora da
Sul Editora Abril)
16 F Branca 28 Morro Doce Psicologia Unip Operadora de
(Perus) rastreamento de cargas
17 F Parda 21 Vila Nova Direito Uninove Desempregada
Cachoeirinha
18 F Amarela 20 Penha (Zona AdministraçãUnicsul Agente comunitária do PSF
Leste)
19 M Parda 21 São Mateus Rede de Faculdade C. S. I.
Computadores Drummond
20 F Negra 34 Jabaquara AdministraçãUniasp Transpax
(transportadora)
21 M Branca 20 Jabaquara Tecnólogo em Anhembi S. I.
Gastronomia Morumbi
Taboão- Tecnólogo em Faculdade
22 F Branca 31 Diadema Logística Tec. S. I.
Anchieta
24 F Preta 31 Santana Pedagogia UniSant'Anna S. I.
25 F Preta 25 Jaçanã- Produção Anhembi Não trabalha
Tucuruvi Musical Morumbi
26 M Preta 27 Guarulhos Engenharia Unicsul Rondon (indústria de papel)
(Bonsucesso) Mecânica
27 M Parda 19 Guarulhos Engenharia de UniSant'Anna Auxiliar de almoxarifado
(Bonsucesso) Produção
28 M Preta 23 Guarulhos Ciências da Unip Fundação Casa (func.
Computação público)
29 M Preta 26 Ferraz de Publicidade e Anhembi Banco Itaú
Vasconcelos Propaganda Morumbi
30 F Preta 26 Rio Grande Rede de Faculdade C. Terceirizada da Siemens
da Serra Computação Drummond
Jd. Umarizal
31 F S. I. S. I. (Campo História PUC-SP CCBB
Limpo)
32 F Preta 23 Perdizes Artes do PUC-SP Cantora, contorcionista e
Corpo bailarina
Fonte: Conjunto das entrevistas. Elaborado pelos autores. Obs. : Todas as
respostas foram autodeclaradas. Variável cor/raça seguiu categorias do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O método utilizado para identificar os entrevistados foi heterodoxo. A fim de
alcançar a maior variedade possível de informantes em termos de gênero, idade,
cor e, principalmente, curso e IES, optamos por iniciar o contato em redes
sociais. Concretamente, a partir da identificação das maiores comunidades do
Orkut de prounistas16, com o apoio de um software que captura os e-mails
disponibilizados pelos próprios usuários na rede social, enviamos um
questionário eletrônico para o autopreenchimento via Google Docs. Além de
filtros que permitiam a seleção de perfis que dessem conta da variedade
desejada, havia uma pergunta sobre a disponibilidade para uma entrevista
qualitativa e presencial17. Em geral, aqueles que se mostraram disponíveis para
tal entrevista forneceram telefone para contato, o que permitiu marcar as
entrevistas18. Por fim, completamos nossa amostra de informantes por meio de
"bola de neve".
ANÁLISE ESPACIAL DA OFERTA DE CURSOS
Esta seção dedica-se à análise da distribuição territorial dos campi de IES
particulares que tiveram cursos oferecidos com bolsa ProUni na cidade de São
Paulo em 2010, bem como das trajetórias moradia-escola feitas pelos nossos
entrevistados. Além disso, estimaremos quais e como seriam essas mesmas
trajetórias na hipótese de terem ingressado no mesmo curso, só que na IES
pública mais perto de sua residência.
Na próxima seção, nos voltamos para o conjunto das entrevistas e investigamos a
forma específica pela qual as distâncias a serem percorridas nos deslocamentos
diários influenciam na escolha do campus/IES, os significados associados a tais
deslocamentos e os desdobramentos sobre as possibilidades de fruição do Ensino
Superior.
Trabalhamos com a hipótese enunciada no início do artigo e desenvolvida nesta e
na próxima seção de que a rede de campi do sistema privado de Ensino Superior
na cidade de São Paulo, em razão de sua dispersão relativamente maior e de se
poder chegar ao local por meio de transporte público, facilita o acesso e a
permanência daqueles que moram nas regiões mais distantes da cidade (ou mesmo
fora da cidade). Nesse sentido, e na medida em que há alguma possibilidade de
escolha, tende-se a "preferir" IES mais próximas (ou menos distantes) do local
de moradia ou trabalho, principalmente quando a qualidade dessas IES é
percebida como semelhante. Muitas vezes, principalmente para aqueles que além
de "morar longe" não têm opção a não ser conjugar trabalho com escola, essa
"proximidade" pode revelar-se determinante para a viabilização do curso
superior.
O Mapa 1 traz a territorialização, na capital paulista, dos campi das IES
privadas que, em 2010, ofertavam bolsas ProUni. Nele, além dos campi(pontos
pretos preenchidos), vislumbram-se os campi das IES públicas19 (triângulos sem
preenchimento), o sistema metroferroviário paulistano (linhas finas e
pretas)20e a demarcação do centro expandido21 (linhas grossas e cinzas). Já o
Mapa 2 traz a composição de renda dos distritos da capital paulista (proporção
de domicílios com renda mensal inferior a 2 salários-mínimos).
Mapa 1 Distribuição dos campi de IES privadas vinculadas ao ProUni, SP, 2010
Fonte: Inep/MEC, 2010.
A observação dos mapas revela um padrão de localização dos campi no qual três
critérios fundamentais se associam:
• concentração no centro expandido e em suas imediações;
• sub-representação nos distritos com maior concentração de pobreza e situados
nos extremos da cidade;
• disposição ao longo do traçado das linhas de trem e metrô.
Destacamos que esses padrões são bastante consistentes, havendo poucas
exceções. Juntos, conformam uma tendência segundo a qual certa desconcentração
dos campiconvive com espaços vazios de IES e de metrô ou trem, mas densos em
população e no qual predomina famílias com renda menor, como o leste da Zona
Leste e a maior parte da Zona Norte (exceto Santana, Tucuruvi, Vila Guilherme e
Mandaqui).
[/img/revistas/nec/n99//0101-3300-nec-99-00065-gf02.jpg]
Mapa 2 Distribuição dos domicílios com renda inferior a dois salários mínimos,
SP, 2010
Pode-se constatar a grande concentração de campi ao longo das linhas Azul
(trecho Vila Mariana-São Bento), Verde (trecho Ana Rosa-Sumaré) e Vermelha
(trecho Sé-Barra Funda), constituindo um eixo densamente povoado de campi de
IES privadas22, o que coincide com as áreas da cidade com uma proporção grande
de domicílios com patamar de renda médio ou alto. Nesse sentido, sugerimos que
a distribuição espacial do setor privado na cidade de São Paulo reflete a sua
demanda potencial (clientela pagante). Entretanto, não necessariamente reflete
a demanda potencial de prounistas, cujos patamares de renda familiar são
inferiores. Nesse sentido, se o sistema de Ensino Superior privado é
relativamente mais disperso que o público, não é suficientemente disperso para
tornar a variável distância irrelevante aos prounistas.
No Mapa 3, identificamos o percurso residência-IES realizado cotidianamente
pelos nossos entrevistados. Optamos pelo traçado entre local de moradia e de
estudo pelo fato de a moradia ser mais fixa que o local de trabalho e, na
maioria dos casos, anterior ao ingresso no Ensino Superior; ao passo que o
local de trabalho muda com mais frequência, inclusive sendo afetado pela
entrada no Ensino Superior. Diversos entrevistados, que já tinham vasta
experiência no mercado de trabalho, passaram a estagiar durante a faculdade e/
ou mudaram de emprego graças ao fato de terem se tornado "estudantes
universitários" e/ou "conquistado" o diploma.
[/img/revistas/nec/n99//0101-3300-nec-99-00065-gf03.jpg]
Mapa 3 Percursos casa-IES, 31 entrevistados, SP, 2010 Fonte: Entrevistas.
Elaborado pelos autores.
Optamos por traçar as linhas retas entre os pontos em detrimento dos trajetos
reais, dado o intuito de apenas indicar as distâncias a serem vencidas e não
assinalar, rua por rua, os trajetos percorridos. De qualquer forma, na Tabela
2, estimamos tempos e distâncias médios por transporte público dos percursos
casa-escola dos entrevistados, o que ajuda a dimensionar melhor o tamanho dos
trajetos23.
Por fim, explicitamos nosso entendimento de que se, por um lado, nossos
resultados não são estatisticamente generalizáveis, por outro, podem ser
considerados indicações dos esforços dos prounistas para se deslocar até a
faculdade e, nesse sentido, constituem-se em bons casos exploratórios24. Com
eles é possivel de levantar hipóteses para pesquisas futuras.
O primeiro ponto a ser observado no mapa refere-se ao local de residência dos
informantes. Muitos moram nos extremos da capital paulista ou mesmo em
municípios vizinhos, configurando um padrão de residência consistente com as
informações obtidas no Mapa 2. Um segundo ponto diz respeito à localização dos
campi e à escolha do campus(esse ponto será aprofundado na próxima seção).
Como já dito, há um padrão de dispersão dos campi das IES privadas que
privilegia o traçado do sistema metroferroviário, do centro expandido e da
distribuição da renda. Em contrapartida, os cursos ofertados por IES públicas
em São Paulo estão concentrados, sobretudo, no campus São Paulo da Unifesp
(Vila Mariana), na Faculdade de Direito e de Saúde Pública da USP (Centro) e na
USP Oeste, conformando o eixo Vila Mariana-Centro-Butantã.
A articulação entre local de moradia e de estudo sugere haver um padrão no qual
prounistas tendem a "escolher" (sempre que houver mais de uma opção disponível)
campimais próximos de sua residência ou do trabalho ou, de alguma forma, mais
acessíveis. Importante dizer que isso não significa necessariamente distâncias
curtas (informantes 9, 10, 15, 16, 29 e 30, por exemplo). E nem que prounistas
estão dispostos a deixar a distância em segundo plano, o que ocorre somente em
condições especiais, como ingressar em IES de qualidade elevada (informantes 4,
6, 7, 8 e 31, por exemplo).
A Tabela 2 fornece evidência suficiente para iniciar essa discussão, a qual
será aprofundada na próxima seção, com base na análise das entrevistas com
prounistas. A tabela, além de estimar tempos, distâncias e número de conduções
necessárias para o percurso entre casa e escola, traz essas mesmas variáveis
para a hipótese de cada entrevistado ter cursado o mesmo curso na IES pública
mais próxima de sua residência.
Tabela 2 Estimativa de percursos casa-escola reais e hipotéticos, 31
entrevistados prounistas, São Paulo, 2010
Percurso real Percurso hipotético
Tempo Distância Tempo Distância
ID (min. (km) Meios (min. (km) Meios
) )
1 70 15,6 2 ônibus 89 26,9 2 ônibus
2 93 54,5 Ônibus e 2 metrôs 85 27,8 Ônibus e 2 metrôs
3 42 12 1 ônibus 44 8,5 3 ônibus
4 107 32,4 2 ônibus 122 35,8 2 ônibus
5 66 17,4 3 ônibus 115 34,4 2 ônibus
6 86 18,7 2 ônibus 68 10,3 2 ônibus
7 69 16,9 2 ônibus 91 19,2 2 ônibus
8 87 25,8 2 ônibus 98 25,2 3 ônibus
9 95 30,9 Ônibus, metrô e 114 44 Ônibus, metrô e
trem trem
10 49 25 Ônibus e trem 88 41,7 Ônibus, metrô e
trem
11 86 23,4 2 ônibus e metrô 60 31,3 Trem e metrô
12 60 10,5 2 ônibus e 2 metrô77 15,6 2 ônibus
13 53 8,4 Ônibus 94 23,3 2 ônibus
14 5 0,5 A pé (vizinho 62 14,6 Ônibus
da IES)
15 52 19,6 Ônibus, metrô e 78 37 Ônibus, metrô e
trem trem
16 53 14,5 2 ônibus 93 15,7 2 ônibus
17 52 10,3 2 ônibus 54 12,7 2 ônibus
18 37 9,5 2 ônibus 88 23,5 2 ônibus
19 39 11,4 2 ônibus 45 20 Trem e 2 ônibus
20 62 17,3 3 ônibus 74 17,2 3 ônibus
21 36 8,4 2 ônibus 55 15,5 Metrô e ônibus
22 57 8 Ônibus 58 16,4 Trem e ônibus
24 5 0,5 A pé (vizinho da 62 14,6 Ônibus
IES)
25 58 20,6 2 ônibus e metrô 39 10,5 Ônibus e metrô
26 - 12,3 - - 42,8 -
27 - 31,1 - - 44,4 -
28 - 12,1 - 119 27,6 3 ônibus
29 109 35,1 2 ônibus, metrô e 106 38,8 2 ônibus, metrô e
trem trem
30 127 31,3 2 ônibus, metrô e 112 38,9 Trem
trem
31 60 14,1 2 ônibus, metrô e 57 10,5 2 ônibus
trem
32 5 0,5 A pé (vizinho 15 2,7 Ônibus
da IES)
Média61,4 16,4 - 78 24,1 -
Fonte: Entrevistas e Google Maps. Obs. : Estimativas foram obtidas como saídas
às 17h45 de 28 jun. 2008.
Como resultado, temos que o tempo médio de deslocamento entre casa e escola
real é de cerca de 1 hora e a distância de 16 quilômetros. Já entre o local de
moradia e a escola fictícia levaria-se 1h20 e 24 quilômetros. Para 18 dos 28
casos com informações disponíveis, o trajeto para a IES fictícia é mais
demorado, em 5 casos o tempo de trajeto é semelhante e em apenas 5 é inferior.
Com relação à distância, em 24 de 31 casos, a IES real é mais perto que a
fictícia, em 5 é semelhante e em apenas 3 é inferior. Além disso, observamos
que 3 dos nossos entrevistados eram vizinhos da faculdade e iam a pé.
Certamente, a grande concentração de cursos do sistema público de Ensino
Superior na USP Oeste (Butantã), nas suas faculdades de Direito (Centro) e de
Saúde Pública (Pinheiros), e na Unifesp (Vila Mariana) contribui para esse
resultado. Mas queremos chamar a atenção para os impactos disso para a
permanência de prounistas que moram em localidades distantes das áreas mais
valorizadas da cidade e que dependem diretamente de transporte público e
precisam conciliar trabalho com estudo. Desse ponto de vista, a "proximidade"
que o sistema privado de ensino proporciona, em que pese a sua menor qualidade
em comparação com o sistema público, facilita a permanência.
OS DESLOCAMENTOS DIÁRIOS, O PROCESSO DE ESCOLHA DO CAMPUS/IES E SEUS
SIGNIFICADOS
Nesta seção, debruçamo-nos sobre o conjunto das entrevistas, a fim de buscar,
na fala de nossos informantes, em quais condições a proximidade teve influência
na escolha do campus/IES e com qual peso, bem como os significados que associam
a seus percursos cotidianos entre casa, trabalho e escola. Partimos do ponto em
que paramos na seção anterior, ou seja, de que há uma grande heterogeneidade
nos trajetos, com prounistas vizinhos à faculdade e outros que moram a duas
horas da faculdade. E que, mesmo para esses estudantes que não moram tão perto,
a rotina de deslocamentos poderia ser ainda mais demorada e longa caso tivessem
ingressado na IES pública com o mesmo curso.
O ponto central para o aumento do peso da variável distância no processo de
tomada de decisão é a possibilidade de dispor de alguma escolha. Em outras
palavras, constituem-se em determinantes da influência que a distância terá na
definição do campus/IES, o fato de:
* obter nota no Enem suficiente para o ingresso em mais de um curso/IES;
* haver disponibilidade de curso noturno;
* existir alguma margem de negociação com o sentimento de "urgência" em
cursar o Ensino Superior (derivada de um sonho e/ou das exigências do
mercado de trabalho).
Aliada a isso, a percepção da qualidade da instituição é algo fundamental, uma
vez que, quanto mais as IES são entendidas como possuidoras de qualidade
semelhante, fatores alternativos tendem a ganhar peso. Considerando as IES que
ofertaram bolsas ProUni na capital paulista no ano de 2010, talvez valesse a
pena enfrentar grandes distâncias para estudar na PUC ou no Mackenzie, mas,
para estudar em IES consideradas medianas, com oferta perto de casa ou do
trabalho, esse esforço não se justificaria. Veja, nas palavras de um dos três
entrevistados que se declararam vizinhos da faculdade, os motivos que o levaram
a estudar na instituição escolhida:
Escolhi porque era a [IES] mais próxima de casa. Já que eu ia fazer
Uni mesmo, Uni por Uni, eu escolhi a que era do lado da minha casa,
aí eu não ia gastar com condução.
Entrevistado 14. Vizinho da faculdade.
Na fala de outro vizinho, ao justificar a escolha da IES, mais uma vez aparece
a articulação de forma bastante clara entre qualidade e proximidade. Note-se
que ele não foi aprovado em sua primeira opção, mas foi em todas as outras:
Era a PUC [a primeira opção de IES na inscrição do ProUni], aí depois
a UniSant'Anna, que era perto da minha casa, a Uninove, que também
tem aqui perto, e a Uniban, que também tem aqui próximo ao Campo de
Marte. Então eu escolhi pela proximidade e pela qualidade, na verdade
a minha primeira opção era a PUC, ficaria um pouco mais longe.
Entrevistado 24. Vizinho da faculdade.
Este entrevistado justifica por que escolheu a IES na qual estuda:
Entrevistado: [a escolha da IES] foi mais uma questão de proximidade
do serviço. Por exemplo, a Unip aqui. . . e tinha em vários lugares.
Tinha aqui em Alphaville, tinha a da av. Marquês de São Vicente, que
fica perto de metrô, e com um monte de ônibus.
Entrevistador: Desculpe, qual Unip você faz?
Entrevistado: Eu tinha colocado na inscrição a de Alphaville e a da
Marquês, que era perto do metrô. Aí, eu tô na da Marquês. Não é perto
do meu serviço, mas como eu trabalho dia sim, dia não, fica melhor
porque tem metrô, ônibus, tem tudo.
Entrevistado 16. Morador de Morro Doce/Anhanguera, trabalhava em Barueri.
O próximo justifica a escolha do campus, tendo a IES já definida:
Escolhi essa unidade da Uninove porque a faculdade era próxima do
serviço, era mais fácil para eu ir embora e tal.
Entrevistado 17. Morador da Vila Nova Cachoeirinha, estudava próximo ao
Memorial da América Latina.
Com relação a IES com muitos campi, como a Unip e a Uninove25, a dispersão
territorial das unidades parece ser uma vantagem competitiva importante, pois
apresenta condições de recrutar estudantes de várias regiões da cidade. Mais um
entrevistado que, já tendo o curso decidido (Ciências da Computação), justifica
a ordenação de suas opções de IES no processo de inscrição no ProUni e acabou
cursando a Unip:
No ProUni eu optei pela Unip, Uninove, Cruzeiro do Sul e
UniSant'Anna. A quinta opção eu não lembro, mas escolhi por causa da
proximidade de acesso, né? As faculdades com transporte que saíam do
meu bairro pra ir até lá.
Entrevistado 28. Morador de Guarulhos, estudava na Vila Guilherme.
Nesse sentido, a noção de proximidade envolve margem para negociação. Morar ou
trabalhar próximo da escola não necessariamente significa ser seu vizinho e ir
caminhando. Significa estar em um lugar acessível por transporte público, com
trem, metrô ou corredores de ônibus, e suficientemente próximo a ponto de não
chegar atrasado quando, por exemplo, o horário de saída do serviço é às 18h e o
de entrada na faculdade é às 19h.
Fiz cursinho em 2008 no Centro, trabalho na av. Santo Amaro e moro no
Jabaquara. Aí, eu via a dificuldade de chegar até o cursinho: eu saía
às seis da tarde, então, tinha que chegar lá às sete. Aí, eu falei
assim: "Se eu fizer uma faculdade, tem que ser na minha região, que
eu saio daqui do trabalho e tenho um acesso rápido". Aí, eu optei por
essa faculdade que eu tô [Uniasp]. Fica em Santo Amaro, fica show de
bola. Estou na Santo Amaro e de qualquer lugar vou andando.
Entrevistado 20. Morador do Jabaquara, trabalhava e estudava em Santo Amaro.
Nos trechos seguintes, os informantes ressaltaram como a variável proximidade
foi positiva para a escolha do campus/IES. Mas tal variável pode também atuar
de uma forma negativa, levando à desistência ou postergamento do sonho ou
necessidade do Ensino Superior, principalmente se as condições de estudo forem
quase inviáveis ou quando há alguma opção de estudo percebida como mais
adequada:
Quando fiz esse cursinho, eu prestei um curso técnico [informática].
Nesse mesmo ano que eu fiz cursinho [2005], eu tinha conseguido a
bolsa do ProUni para Letras na Uninove. Gostava de Português e tudo
mais, só que o curso técnico era em Guarulhos e a faculdade era em
São Paulo. Pela proximidade, pela oportunidade e também por algumas
dificuldades, porque eu não teria o valor da passagem, eu acabei
fazendo o curso técnico.
Entrevistado 28. Morador de Guarulhos, só foi ingressar no Ensino Superior no
fim do curso técnico.
O que eu consegui [na primeira vez em que tentou o ProUni] foi uma
bolsa de 50% na São Judas, em Psicologia. Faltava R$ 400,00 para
pagar a mensalidade e ainda era na Mooca. E transporte, né? Pensei:
"vamos mais para frente, ver se eu consigo alguma coisa depois".
Entrevistado 3. Morador de Taboão da Serra, só foi ingressar no Ensino Superior
no ano subsequente.
O próximo entrevistado fala sobre os momentos nos quais trabalho e estudo se
tornam antagônicos. Neste caso, havia certa margem para abdicar do emprego, mas
não para parar de trabalhar, uma vez que continuou fazendo "bicos":
Não tava conseguindo conciliar o trabalho com a faculdade, não dava
tempo, né? Eu não conseguia sair do trabalho e chegar a tempo na
faculdade. Uma vez eu tentei fazer isso. Cheguei, fiquei meia hora e
já era hora de ir embora. Cheguei às 9h30 da noite na faculdade, 10h
acaba, né? E outra, ia perder a bolsa, né? E eu ia ficar de DP de
todas as disciplinas e aí eu resolvi sair do trabalho pra poder me
dedicar mais.
Entrevistado 23. Bolsista parcial, largou o emprego e ficou fazendo "bicos". A
escola ficava a vinte minutos da residência.
Ainda em relação à escolha do campus/IES destacamos que diversos cursinhos, ao
orientar seus alunos sobre o ingresso no Ensino Superior, tocam na questão da
distância e dos deslocamentos, contribuindo para esse tema ser objeto de
reflexão. Por exemplo:
Na Educafro [cursinho popular] eles falam pros alunos que você tem
que pesar muita coisa [na hora de escolher a faculdade]. Se a
faculdade é perto, quantas horas você tem? Não adianta trabalhar no
Centro e ir pra Zona Leste pra estudar e morar na Zona Sul.
Entrevistado 20. Fez um ano de cursinho e seguiu as orientações recebidas.
Passando para temas derivados do anterior e que surgiram durante a discussão,
destacamos que o transporte é percebido como custo de tempo e monetário, o
qual, muitas vezes, inviabiliza ou dificulta a permanência. É o caso do
entrevistado que declarou que, além de ter de arcar com metade da mensalidade,
pois havia obtido apenas a bolsa parcial, ia ter de se deslocar até a Mooca e
pagar a passagem, o que foi a "gota d'água" que o levou a postergar o ingresso
no Ensino Superior. Segundo um entrevistado que ia a pé para a faculdade a fim
de economizar:
Eu vinha da Vila Maria [onde trabalhava] todo dia a pé para a
faculdade [em Santana] pra poder pagar todos os meus compromissos.
Entrevistado 27. Passou por dificuldades financeiras durante o curso.
E outro, que ao chegar a São Paulo, vindo da Bahia, mesmo tendo a bolsa do
ProUni e moradia garantida na casa do irmão, viu-se compelido a buscar
urgentemente um emprego para custear, entre outras coisas, o transporte:
Vim para São Paulo sem experiência [de trabalho] nenhuma. Quando eu
cheguei aqui, eu precisava de alguma coisa, qualquer coisa porque o
ProUni paga a mensalidade, né? Mas tem outros custos com trabalho de
faculdade, com transportes.
Entrevistado 19. Veio da Bahia para estudar em São Paulo; morava em São Mateus,
na casa do irmão e estudava no Tatuapé.
Há ainda um entrevistado que, em um momento de descontração, ao avaliar o
ProUni e outras políticas públicas, elenca o ProUni e o Bilhete Único como as
duas melhores "coisas" feitas pelo governo. Salientamos que a menção ao Bilhete
Único remete diretamente à redução dos tempos de deslocamento e à redução dos
valores gastos com passagens:
Fora o Bilhete Único [risos], o ProUni foi uma das melhores coisas
que o governo fez.
Entrevistado 16. Ao avaliar o ProUni.
Além disso, a falta de tempo e a necessidade de conciliar trabalho com estudo
levam o estudante a utilizar o tempo gasto no metrô, trem e ônibus, mesmo
sabendo que não é o ideal e nem o mais confortável para estudar:
Estudo, em média, 1h, 1h30 dentro do ônibus e dentro do metrô também.
Entrevistado 2. Leva 1h30 para chegar à faculdade e pega ônibus e metrô com uma
baldeação.
Na minha casa, eu estudo, gosto de ler os textos e outras coisas que
muitas vezes nem é proposto pelos professores. E eu estudo no ônibus
quando estou sentada, mas eu gosto mais de estudar na minha casa.
Entrevistado 7. Leva 1h20 para chegar à faculdade e pega dois ônibus.
Sim, estudo no ônibus e no metrô também [risos] e no trem
principalmente, mas, assim, eu aprendi. No começo me dava dor de
cabeça, mas eu acabei me acostumando.
Entrevistado 6. Leva 1h30 para chegar à faculdade e pega ônibus, trem e metrô.
Não tinha tempo para estudar. Principalmente porque, como eu moro
longe, eu tenho um grande tempo de viagem de trem. Então aproveitava
esse tempo pra estudar.
Entrevistado 29. Morador de Rio Grande da Serra, na região do ABC, estudava no
Tatuapé e trabalhava em Santo Amaro.
Se por um lado, o transporte público e o tempo nele despendido fazem as vezes
de biblioteca, envolvendo uma atividade que demanda concentração e esforço, por
outro é, ao mesmo tempo, ponto extremo e símbolo de uma rotina deveras
cansativa. Isso é particularmente verdade para aqueles que conjugam trabalho
com estudos e estão longe de serem vizinhos da faculdade:
Eu fazia a faculdade de manhã e trabalhava das 2h tarde às 10h noite
em um bicicletário em São Bernardo. Chegava podre em casa. Tinham que
me acordar para ir à faculdade porque era longe de casa.
Entrevistado 12. Sobre uma época em que trabalhava em São Bernardo, estudava na
Mooca e morava no Jabaquara.
Agora estou com o tempo mais livre, mas quando estou trabalhando aí é
mais complicado. Trabalho o dia inteiro e faço faculdade à noite. . .
Você chega em casa à meia-noite.
Entrevistado 17. Desempregado no momento da entrevista, morava na Vila Nova
Cachoeirinha e estudava próximo ao Memorial da América Latina.
Pego o trem para voltar para casa na hora que o trem abre: às 4h,
pois trabalho no turno da madrugada. E chego em casa às 7h da manhã,
vou dormir, acordo meio-dia e à 1h da tarde já tenho que estar vindo
para a faculdade.
Entrevistado 29. Morador de Rio Grande da Serra, na região do ABC, estudava no
Tatuapé e trabalhava em Santo Amaro.
Por fim, há mais um ponto que deve ser levantado, não diretamente relacionado
aos anteriores, mas que se refere ao local de moradia. A maior parte de nossos
entrevistados declarou que era uma informação quase pública, porque ninguém
escondia quem era prounista e quem não era. Mas como saber no início das aulas,
quando as pessoas ainda não se conheciam minimamente, quem era prounista e quem
não era? Um entrevistado apontou um método "infalível", pelo menos para a IES
na qual estudava, cujo alunado era caracterizado por uma origem abastada e um
alto nível socioeconômico:
[Prounista] tem cara de medo, assim. . . Não é cara de medo, cara
muito pra dentro, né? Então, você vê o cara, o pessoal ali
bagunçando, e o cara meio pra dentro, meio escondido. Aí você puxa
conversa: "Onde você mora?". Aí, o cara falava que morava ali na
periferia. . . aí eu sacava: "Vocês são do ProUni, né?!", "Ah, você
também é?".
Entrevistado 5. Estudava Sistemas de Informação no Mackenzie.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo empreendemos diversas tarefas. Em primeiro lugar, espacializamos
as unidades que oferecem cursos com bolsas do ProUni na cidade de São Paulo no
ano de 2010. Depois, estimamos os trajetos rotineiros casa-IES dos
entrevistados. Também investigamos em que medida esse quadro se alteraria caso
nossos informantes tivessem ingressado em curso análogo, mas na IES pública
mais perto de casa. Por fim, analisamos em quais condições as distâncias entre
casa, trabalho e escola influenciam o processo de escolha do campus/IES e os
significados associados a tais percursos.
A disposição dos campi nos quais esses cursos estavam contidos na cidade
obedecia a uma lógica que articulava três critérios básicos: centro expandido e
suas imediações, traçado do sistema metroferroviário e entorno com nível médio
ou alto de renda. Entretanto, os prounistas (pelo menos aqueles entrevistados
por nós, mas que em algum sentido expressam o perfil de estudantes com
desvantagens econômicas e educacionais) tendiam a morar em regiões mais
afastadas desse "centro expandido universitário", muitas vezes em cidades da
Grande São Paulo. Na medida em que comparamos os percursos reais por eles
empreendidos, identificamos que tais percursos seriam ainda maiores caso
estudassem no mesmo curso da IES pública mais próxima de sua residência. Os
cursos de IES públicas estão concentrados, sobretudo, em um eixo formado pela
USP (campus Oeste), faculdades de Direito e de Saúde Pública da USP e campus
São Paulo da Unifesp.
Com relação ao processo de escolha do campus/IES, concluímos que a proximidade
do local de moradia e/ou de trabalho é um critério bastante utilizado e que
tende a ganhar importância quando o candidato ao benefício tem alguma
possibilidade de escolha entre diferentes campi/IES e/ou perceba a qualidade de
suas possibilidades como semelhante.
Com isso, não pretendemos afirmar que a proximidade é o fator mais importante
para a escolha do campus/IES, embora ganhe importância nas condições
discutidas. Para uma população que, em geral, é a primeira geração de sua
família a ter acesso ao Ensino Superior e que articula simbolicamente o Ensino
Superior como sonho e expectativa de mobilidade social, o fundamental é "fazer
a faculdade", seja ela qual for.
Por fim, e em que pese o aspecto positivo de novas camadas sociais estarem
alcançando o Ensino Superior, particularmente com forte incentivo de programas
como o ProUni, cabe considerar as características dessa inclusão e a qualidade
da experiência de ensino que proporcionam. Sendo assim, destacamos, em primeiro
lugar, que a inclusão via setor privado segue seus vícios estruturais. Ou seja,
se, por um lado, a sua maior dispersão territorial favorece o acesso e,
principalmente, a permanência, por outro, a qualidade mediana das IES, a
padronização e a massificação do ensino e a concentração dos cursos nas áreas
de Humanidades e Ciências Sociais Aplicadas concorre para uma relativa
precariedade e insuficiência da experiência de Ensino Superior.
Em segundo lugar, o caráter imperativo da conciliação entre trabalho e estudos,
aliado ao senso de urgência e visão pragmática perante os estudos, próprios
dessa nova classe trabalhadora, impõe uma série de constrangimentos que também
concorrem para a insuficiência dessa experiência. Tais constrangimentos estão
associados tanto à conformação de um processo de escolha do curso/IES pautado
pela pressa e pela redução do tempo de dedicação aos estudos, como a quase
impossibilidade de realização de atividades não diretamente relacionadas à sala
de aula, mas importantes para a formação (como a participação em grupos de
estudos, seminários extraclasse, centro acadêmico ou movimento estudantil,
atlética, festas e happy hours etc. ).
Do ponto de vista específico da ProUni, reconhecemos a sua grande eficiência em
prover acesso ao Ensino Superior, sobretudo para camadas da população
tradicionalmente dele excluídos. Agora, do ponto de vista da política para o
Ensino Superior como um todo, entendemos haver a manutenção de questões não
resolvidas pelo programa ou até ampliadas pelo seu sucesso. Uma refere-se à
crescente segmentação do ensino, dentro do qual cada vez mais convivem
instituições com patamares diferentes de qualidade e estudantes com formação de
qualidade muito diferente. Outra diz respeito a uma crescente concentração dos
estratos de baixa renda, recém-chegados ao Ensino Superior, em IES que não
prezam pela excelência, conformando um círculo vicioso segundo o qual os
lugares (IES e cursos) mais concorridos permanecem com grandes barreiras de
acesso, especialmente para os mais pobres.
[1] Participamos da pesquisa, respectivamente, como coordenador executivo/
pesquisador e assistente de pesquisa. Ela foi realizada no Cebrap, com
financiamento da Fundação Ford e apoio do Centro de Estudos da Metrópole (CEM).
Gostaríamos de agradecer a Alvaro Comin, Antonio Sérgio Guimarães, Nadya Araújo
Guimarães e Ana Maria Almeida pela participação no workshop de discussão dos
resultados parciais; a Márcia Lima pelo incentivo e comentários a uma versão
preliminar deste artigo; a Daniel Waldvogel pela confecção das cartografias; e
a toda equipe da pesquisa (Cristina Helena Almeida de Carvalho, Flavia Rios,
Danilo Torini, Bruno Komatsu, Thiago Soares, Maíra Etzel e Paula Kaufmann)
pelas discussões, comentários e esforço na realização das entrevistas, na
coleta de informações para a composição dos bancos de dados.
[2] A partir daqui, chamaremos o beneficiário do ProUni pelo termo "prounista".
[3] Nesse eixo estão o campus Oeste USP e suas faculdades de Medicina e
Direito, e o campus Unifesp.
[4] A linha 4 Amarela, que serve o campus Oeste da USP pela estação Butantã,
foi entregue em maio de 2010. Mesmo com ela, para chegar ao seu destino, o
usuário deve tomar um ônibus em um trajeto de 15 a 30 minutos ou caminhar por
pelo menos 30 minutos.
[5] A variável distância, no sentido aqui tratado, não se restringe à distância
física (quilômetros) entre dois pontos. Mas é função da interação entre a
distância física e a facilidade de acesso, expressa, por exemplo, na
proximidade à rede de transporte público; no número de conduções e/ou
baldeações tomadas; e no tempo total do percurso.
[6] Cf. Garcia, Maurício. "Três grandes tendências para o Ensino Superior
privado no Brasil". Revista de Ensino Superior, n. 77. Campinas: Unicamp, 2005.
Sécca, Rodrigo Ximenes; Leal, Rodrigo Mendes. "Análise do setor de Ensino
Superior privado no Brasil". Rio de Janeiro: BNDES Setorial, n. 30, 2011. Para
uma caracterização da educação superior privada no Brasil, ver: Nunes, Edson de
Oliveira; Carvalho, Márcia de; Albrecht, Julia Vogel de. "A singularidade
brasileira: Ensino Superior privado e dilemas estratégicos da política
pública". n. 87. Rio de Janeiro: Observatório Universitário, 2009. Hoper.
"Análise setorial do Ensino Superior privado: Brasil 2013". Foz do Iguaçu:
Hoper, 2013. Para o estado de São Paulo, ver: Hoper. "Análise setorial do
Ensino Superior privado: São Paulo 2010". Foz do Iguaçu: Hoper, 2010.
[7] Ou de estudantes com desvantagens socioeconômicas e educacionais. A esse
respeito, ver: Almeida, Wilson Mesquita de. "Estudantes com desvantagens
econômicas e educacionais e fruição da universidade". Cadernos CRH, vol. 20, n.
49. Salvador: CRH/UFBA, 2007.
[8] Por exemplo: Almeida, Wilson Mesquita de., op. cit., 2007. Carvalho, José
Carmello. "O ProUni como política de inclusão". Anpocs, 2007. Apresentado no GT
Política de educação superior. Faceira, Lobelia da Silva. O ProUni como
política pública em suas instâncias macroestruturais, mesoinstitucionais e
microssocias. Tese (doutorado). Rio de Janeiro: PUC-RJ, 2009. Sotero, Edilza.
Negro no Ensino Superior. Dissertação (mestrado). São Paulo: FFLCH-USP, 2009.
Comin, Alvaro e Barbosa, Rogério. "Trabalhar para estudar: sobre a pertinência
da noção de transição escola-trabalho no Brasil". In: Novos Estudos, n. 91. São
Paulo: Cebrap, 2011.
[9] Concretamente, vencer grandes distâncias para chegar à PUC-SP ou à
Universidade Presbiteriana Mackenzie exemplos de IES privadas percebidas como
de excelência constitui esforço que talvez não seja levado a cabo para outras
IES percebidas como de qualidade mediana ou inferior.
[10] Por exemplo, trabalha-se para comprar livros, tirar cópias, pagar o
transporte, alimentação etc.
[11] Souza, Jessé. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova
classe trabalhadora? Belo Horizonte: UFMG, 2012.
[12] Lima, Márcia. "Acesso à universidade e mercado de trabalho: o desafio das
políticas de inclusão". In: Martins, Heloisa; Collado, Patricia (Orgs.).
Trabalho e sindicalismo no Brasil e Argentina. São Paulo: Hucitec, 2012.
[13] Silva, Adailton de; Silva, Josenilton da; Rosa, Waldemir. "Juventude negra
e educação superior". In: Castro, Jorge A.; Aquino, Luceni M. C.; Andrade,
Carla C. (Orgs.). Juventude e políticas sociais no Brasil. Brasília: Ipea,
2009.
[14] Ver: Almeida, Wilson Mesquita de., op. cit., 2007. Costa, Fabiana de
Souza. Políticas públicas de educação superior: ProUni. Dissertação (mestrado).
São Paulo: PUC-SP, 2008. Faceira, Lobelia da Silva, op. cit., 2009. Sotero,
Edilza, op. cit., 2009.
[15] Para construir esse banco de dados, a equipe realizou uma coleta primária
de informações nos dois períodos de inscrição no programa, em 2010, por meio da
sua página de inscrição. As informações são fornecidas semestralmente ao MEC
pelas próprias IES vinculadas ao ProUni, sendo, portanto, oficiais.
Contabilizamos mais de 2 mil cursos presenciais na capital paulista ligados ao
ProUni, dispersos em cerca de 70 IES e 120 campi.
[16] Em 2010, as duas maiores comunidades identificadas possuíam,
respectivamente, 70 mil e 30 mil membros.
[17] Obtivemos taxas de respostas que consideramos satisfatórias.
Aproximadamente, a cada dez membros das redes sociais, um disponibilizava e-
mail. Para cada dez e-mails enviados, um ou dois eram respondidos. E dos
respondidos, metade aceitava fazer a entrevista.
[18] A maior parte das entrevistas foi realizada em lugares públicos ou
coletivos, como a própria IES na qual o informante estudava ou estudou, a USP
campus Oeste ou o Centro Cultural São Paulo. Uma pequena parte nos recebeu no
trabalho ou em sua residência. Todas as entrevistas foram gravadas, tiveram
duração de cerca de uma hora e foram conduzidas por dois entrevistadores (um
pesquisador e um assistente).
[19] São eles: campus Oeste e Leste e Faculdade de Medicina e Direito da USP,
Instituto de Artes da Unesp, campus São Paulo da Unifesp e Fatec São Paulo.
[20] A recém-inaugurada linha 4 Amarela não foi inclusa na cartografia. O
trecho já inaugurado liga a estação da Luz (região central) ao Butantã (Zona
Oeste, próxima ao campus Oeste da USP), passando pela avenida Paulista e Faria
Lima.
[21] O centro expandido é delimitado pelas marginais Tietê e Pinheiros e pelas
avenidas Salim Farah Maluf, Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello, das Juntas
Provisórias, Tancredo Neves, Complexo Viário Maria Maluf, Don Affonso Taunay e
dos Bandeirantes.
[22] Bessa, Vagner et al. "Território e desenvolvimento econômico". In: Comin,
Alvaro et al. (Orgs.). Metamorfoses paulistanas. São Paulo: Sempla/Cebrap/
Imprensa Oficial/Unesp: 2012.
[23] As estimativas foram obtidas com a ferramenta de rotas do Google Maps.
Embora tenhamos assinalado a hora de saída como 17h45 de um dia de semana, é
provável que os tempos estimados para os percursos estejam subestimados, por
causa do trânsito da cidade.
[24] Sobre as possibilidades e os limites de generalizações com base em dados
obtidos de forma qualitativa e de estudos de caso, ver: Yin, Robert K. Case
Study Research: Design and Methods. Londres: Sage, 2003.
[25] A Unip tinha dez campi e a Uninove quatro campi na cidade de São Paulo, em
2010, com cursos presenciais. Outras IES com grande número de unidades eram:
Radial, com dez; Uniban, com oito; e PUC-SP, Universidade Anhembi Morumbi,
Unicsul e Universidade São Marcos, com quatro.