A universidade entre a excelência administrada e o social desenvolvimentismo
Este texto pretende ser uma introdução aos dilemas e desafios postos para um
projeto de universidade que se pretenda simultaneamente crítico e vinculado aos
novos contextos de produção de ciência e tecnologia da atualidade. O ponto de
fuga é a universidade brasileira e sua atual ambiguidade constitutiva. Mas,
para circunscrever com interesse o problema, é necessário ao menos reconstruir
em suas grandes linhas processos de mudança estrutural ocorridos em países como
EUA e Alemanha, de maneira a compreender com mais clareza os termos e a
especificidade da questão brasileira. É esse o sentido da divisão da
argumentação que se segue.
* * *
Descrevendo as grandes transformações no ensino superior norte-americano na
segunda metade do século XIX, Derek Bok escreveu: "Da era colonial passando
pela guerra civil, muitas faculdades adotaram um plano de estudos
excessivamente fixo conhecido como currículo clássico. Ele enfatizava a
disciplina mental atingida por meio de um estudo rigoroso de temas e textos
clássicos unida a uma disciplina moral obtida com auxílio de um estrito código
disciplinar, ensino religioso compulsório e um curso central de ética prática,
frequentemente ministrado à turma sênior pelo presidente da faculdade. Nas
faculdades dos séculos XVII e XVIII, grego e latim eram disciplinas
obrigatórias"2.
Com o tempo, surgem pressões para mudar esse modelo clássico: professores
americanos que estudaram na Europa pretendem introduzir o ensino de línguas
modernas, cientistas propõem mudanças no ensino e há uma demanda por cursos
práticos como os de agronomia ou artes mecânicas. Segundo Derek Bok, que foi
presidente da Universidade Harvard de 1971 a 1991 e presidente interino de 2006
a 2007, até a Guerra Civil a maioria dos cursos tinha apenas uma missão:
"educar um grupo de elite de homens jovens para profissões de erudição e
posições de liderança na sociedade. Com vistas a esse fim, elas [as
instituições de ensino] buscaram disciplinar a mente e constituir o caráter de
seus estudantes por meio de um currículo prescrito rigidamente, um código
disciplinar estrito e uma preocupação com a religião reforçada pelo
comparecimento compulsório ao serviço religioso"3. Entretanto, na segunda
metade do século XIX, três movimentos levam à multiplicação das missões do
sistema de ensino superior.
O primeiro movimento responde à necessidade de preparar os estudantes para as
diversas profissões. Apesar de não existirem universidades federais nos EUA,
foi grande a influência federal na ampliação das instituições de ensino
superior por meio da Lei Morrill, aprovada em 1862. O congressista Justin
Morrill apresentara em 1857 projeto de lei voltado para a criação de land grant
colleges. Apesar de aprovada em 1859, a lei foi vetada pelo presidente
Buchanan, que tinha sido eleito com apoio dos sulistas. A base para o veto fora
a afirmação da prática corrente de controle da educação pelos estados. O
projeto de lei pôde ser aprovado apenas durante a Guerra Civil, já que o Sul
estava então separado da União4: "O apoio federal previsto na Lei Morrill era a
renda de terras públicas (30 mil acres ou o recibo nesse valor de cada
congressista e senador). Os estados, por sua vez, deviam providenciar os
edifícios de sua instituição land grant e contribuir para a sua manutenção"5.
As terras eram concedidas aos estados e estes deveriam criar pelo menos um
college orientado para a agricultura e a engenharia. Houve nesse momento um
grande aumento no número de escolas profissionais nos Estados Unidos6, e logo
depois da Guerra Civil "os Estados Unidos deslancharam, utilizando maciçamente
o conhecimento organizado. Não apenas - e talvez não sobretudo, de início - na
manufatura, mas na agricultura"7. A produtividade da agricultura e da
manufatura americana aumentou exponencialmente no fim do século XIX.
O segundo movimento leva ao estabelecimento de outra missão para a
universidade: a pesquisa. Nesse movimento foi forte a influência do modelo
alemão da universidade de pesquisa. Segundo Moraes e Silva, por volta de 10 mil
norte-americanos estudaram na Alemanha no fim do século XIX8. O grande marco
norte-americano na abertura da via para a universidade de pesquisa foi a
fundação da Johns Hopkins University. Ela "pavimentou o caminho com a fundação,
em 1876, da escola de estudo superior [graduate school] dedicada à pesquisa e
ao treinamento de estudantes para carreiras de pesquisa científica e
acadêmica"9. Outras universidades, como Stanford, Chicago, Columbia e Harvard,
também começam a ter, ao lado dos cursos profissionais, doutorados relacionados
a pesquisas.
O terceiro movimento também foi de crucial importância na formulação de outra
missão da universidade, que hoje está, de certa forma, em risco. O terceiro
elemento na transformação "da educação superior norte-americana surgiu do
esforço precedente de educar uma elite. Seu núcleo são as humanidades. Membros
da faculdade que compartilhava esse objetivo dedicaram-se ao cultivo das mentes
dos estudantes de graduação por meio de uma educação liberal bem acabada, ao
mesmo tempo em que produziam obras acadêmicas sobre literatura, línguas
estrangeiras, história e filosofia"10. Trataremos mais à frente da situação de
decadência dessa missão da universidade, quando esboçarmos o diagnóstico da
atual Universidade da Excelência Administrada. Convém adiantar que nas últimas
décadas mais duas missões foram agregadas às universidades: primeiro, serviços,
e, depois, transferência de tecnologia e a criação de incubadoras de empresas.
Derek Bok ressalta que as universidades passam a ter explicitamente ações
voltadas para o desenvolvimento econômico local, regional e nacional.
Impressiona a velocidade das mudanças nas universidades americanas de meados do
século XIX até hoje: enorme crescimento do número de alunos, rápido
estabelecimento dos cursos profissionais e mudança de algumas universidades,
que rapidamente se tornaram universidades de pesquisa competitivas. Um exemplo
marcante da velocidade das mudanças são as transformações que resultaram do
relatório Flexner (1910) sobre educação médica nos Estados Unidos e no Canadá.
Flexner, que estudou na Universidade Johns Hopkins, em Harvard e depois na
Alemanha, tinha uma visão clara da universidade como universidade de pesquisa.
Ele apresenta em seu relatório uma crítica contundente da disparidade no nível
do ensino médico americano e a sugestão de fechar boa parte das escolas de
baixo nível. A crítica surtiu efeito, levando a uma profunda reformulação do
sistema de ensino e ao fechamento de um número considerável de escolas médicas.
Em seu instigante livro de 1930, Universities: American - English - German 11,
Abraham Flexner faz pesadas críticas ao lado comercial de algumas das boas
universidades que abrigavam excelentes grupos de pesquisa. Flexner critica a
extensa propaganda e banalização dos cursos por correspondência de
universidades como Chicago e Columbia. As atividades de serviço tornaram-se
meros negócios, não tendo nada mais a ver com educação em sentido próprio. Há
uma confusão "em nossas faculdades [colleges] entre educação e treinamento"12.
Universidades estabelecem seus "Departamentos de Estudo em Casa" (Home Study
Departments) e oferecem cursos de datilografia, culinária ou línguas
estrangeiras por correspondência. Flexner ironicamente expressa sua preocupação
com a pronúncia das línguas estrangeiras por tais alunos.
O conhecimento e a valorização das universidades alemãs possibilita a Flexner
criticar o sistema de créditos difundido em várias universidades americanas nas
quais os estudantes podiam frequentar os cursos mais disparatados e assim
colecionarem créditos até atingirem o total necessário. Algumas "faculdades
[colleges] contam pontos, unidades e créditos - um sistema abominável, que
destrói o esforço intelectual desinteressado e prolongado"13. Por outro lado,
Flexner nota que algumas boas universidades, como Yale e Princeton, não
oferecem cursos absurdos e têm currículos sólidos voltados para a educação
liberal. Será interessante comparar mais adiante a crítica ao sistema de
créditos feitas por Flexner com as críticas à escolarização produzida pelo
processo de Bolonha.
A partir da segunda metade do século XIX forma-se nos Estados Unidos um enorme
sistema de ensino universitário bastante diferente dos sistemas europeus. Se
compararmos com o alemão o sistema educacional norte-americano que se
consolidou e teve enorme ampliação no século XX, saltam à vista grandes
diferenças. Uma fundamental é o caráter, digamos, social-democrata do sistema
alemão - um vasto sistema público e gratuito de ensino secundário e
universitário, ambos com ótimo nível. A formação científica e humanística geral
do curso secundário alemão é mais homogênea em sua qualidade que a norte-
americana. Antes do Acordo de Bolonha, na universidade alemã o sistema de
grandes exames em lugar do de créditos dava grande responsabilidade e liberdade
de escolha para os estudantes, seguindo o espírito do "modelo Humboldt" de
liberdade de ensino e também de aprendizado.
Por sua vez, o sistema de ensino universitário norte-americano é bastante
complexo e diferenciado, possuindo universidades públicas estaduais (que cobram
mensalidades dos alunos), instituições privadas que podem ou não visar lucro,
colleges de quatro anos em instituições que visam lucro, além de "nonprofit
community colleges" com dois anos de cursos. Sob certo ponto de vista, algumas
universidades são de pesquisa e outras, usando o termo de Derek Bok, são
"universidades abrangentes" (comprehensive universities)14, que oferecem uma
ampla gama de formações distintas, de mestrados profissionais a programas de
doutorado, mas apresentam resultados de pesquisa modestos, sendo frequentemente
universidades com baixa exigência na seleção dos alunos. Em suma, o sistema
universitário norte-americano é bastante diferenciado, com variadas funções e
qualidade muito diversa. De qualquer forma, é importante ressaltar que
comparativamente a parcela da população no sistema universitário é bastante
significativa.
Gostaria de chamar atenção para um elemento importante presente no sistema
americano, a saber, a presença do ensino das "liberal arts"15. Como vimos, as
"liberal arts" faziam parte do currículo mesmo antes das mudanças do ensino na
segunda metade do século XIX. No século XX essa tradição foi rearticulada e
prossegue em certos colleges com a leitura dos "great books". Uma importante
mudança nas disciplinas e na concepção da formação humanística ocorreu na
segunda metade do século XX, levando às chamadas "guerras culturais" ou
"cultural wars".
As guerras culturais foram eventos que mostram como as universidades norte-
americanas são ágeis em certas mudanças e como elas reagem com rapidez a
eventos econômicos, políticos ou culturais. Além delas, outro exemplo
frequentemente citado da agilidade nas mudanças foi o enorme programa de bolsas
de estudos para os soldados que voltaram da Segunda Guerra Mundial. Já a guerra
da cultura foi provocada por mudanças culturais e políticas, como veremos na
sequência. Em reação a movimentos sociais, foram criadas várias disciplinas:
estudos afro-americanos, estudos feministas, estudos da sexualidade, estudo de
culturas não ocidentais, dentre outras.
A introdução dessas novas disciplinas no currículo universitário levou às
"guerras culturais". Houve uma profunda mudança no caráter das "humanities"
vinculada a transformações ocorridas na sociedade, nomeadamente a ampliação de
demandas emancipatórias e as crescentes exigências democráticas. A demanda pela
ampliação de direitos sociais vinculados a movimentos sociais - como, por
exemplo, os movimentos pelos direitos civis dos negros, pela emancipação da
mulher, pelas orientações sexuais - entra repentinamente no currículo
universitário. Em situações como essa é natural que surjam várias "doenças
infantis" nas disciplinas nascentes. Começa-se, por exemplo, a refazer toda a
história da cultura, das ciências e artes a partir da perspectiva feminina,
frequentemente chegando a resultados - para dizer o mínimo - pouco rigorosos,
sem mencionar determinadas conclusões bastante duvidosas dos "cultural studies"
em certas versões americanas. Há uma salada metodológica e temática que leva a
resultados precários.
Como geralmente ocorre em movimentos de grande inovação e que geram polêmicas
apaixonadas, surgiram posições extremadas que beiraram a caricatura. O
conhecido affaire Sokal foi um exemplo curioso, com equívocos graves dos dois
lados. O físico Alan Sokal escreveu um artigo misturando elementos de física a
graves erros cometidos propositalmente. O resultado, uma salada de teorias
desconstrutivistas pós-modernas, foi submetido a uma conceituada revista e o
artigo acabou sendo aceito para publicação. Depois da impressão do número da
revista que continha o artigo, Sokal publica outro texto denunciando o
artifício e esclarecendo os erros científicos intencionais presentes no
primeiro artigo. Sokal então publica junto com Jean Bricmont em inglês e
francês o livro Impostures Intellectuelles (1997)16. A polêmica teve grande
repercussão e rendeu inúmeros artigos, inclusive na imprensa, principalmente
francesa, já que a maioria dos autores pós-modernos citados era francesa.
A polêmica mais relevante, entretanto, foi outra: o conflito entre a defesa da
formação vinculada às "liberal arts", entendidas como cultura dos clássicos e
dos "great books", e a ampliação da noção de formação que levasse em conta as
novas disciplinas surgidas de movimentos sociais emancipatórios vinculados a
raças, gênero e orientações sexuais. Na defesa dos great books encontravam-se
pesos pesados como Allan Bloom, cujo livro The closing of the american mind
(1987) marcou época17. Na defesa das novas disciplinas vários autores
ressaltaram que, ao lado dos excessos e de algumas "arbitrariedades" teóricas,
há um certo ganho teórico e emancipatório com a ampliação da pauta da pesquisa
e do ensino representada pela criação das novas disciplinas.
O livro de Marta Nussbaum Cultivating humanity 18 apresenta a questão de
maneira sistemática. Parte da força da defesa das novas disciplinas realizada
por Nussbaum decorre de ela ser uma reconhecida "scholar", justamente no campo
dos estudos clássicos. Ao contrário de Bloom, Nussbaum acredita que o método
socrático de ensino e a coexistência das novas disciplinas ao lado das
clássicas são fundamentais para a democracia. "Porém, o futuro desses projetos
é altamente incerto. Eles correm certo perigo em nosso tempo, sobretudo o risco
de serem arruinados por um crescente interesse numa educação vocacional em
lugar da liberal"19. Parece que sua preocupação com o futuro da educação
aumentou bastante em análises posteriores, por exemplo, no livro de 2010: Not
for profit. Why democracy needs the humanities. Para Nussbaum, a educação como
negócio lucrativo ou apenas para o crescimento econômico sem a educação para a
cidadania democrática certamente levará ao desastre, daí a relevância das
humanidades, das "liberal arts".
A própria polêmica já indica como a formação cultural ampla, a formação
político-democrática e a formação ética ainda fazem parte da missão da
universidade norte-americana. Na Europa essa formação está mais presente no
ensino secundário. Fica no ar a questão: o que ocorre no Brasil, onde esse tipo
de formação não está presente nem no secundário nem na universidade? Essa
ausência não é uma das responsáveis pela crise atual?
Na avaliação das novas disciplinas, dos novos objetos do saber e novos ângulos
de abordagem de demandas emancipatórias há uma ambivalência que convém
destacar. Os estudos feministas, de cultura afro-americana, gênero e orientação
sexual, e mesmo os cultural studies ou, mais recentemente, os estudos pós-
coloniais, tiveram, quando de seu surgimento, certo aspecto crítico. Mas a
juventude das disciplinas levou, em alguns casos, a uma leitura da tradição que
aparecia como culpabilização sistemática dos clássicos. No Brasil o quadro é
diferente, para o bem e para o mal. Esses novos objetos são tratados nos cursos
de antropologia, sociologia e, em menor medida, nas letras, na história e na
filosofia. Dessa forma, as "antigas" disciplinas pertencentes ao mesmo
departamento dessas novas disciplinas auxiliam em radicalizações negativas à
cultura ocidental; por outro lado, elas mesmas não chacoalharam as disciplinas
e abordagens que escondem as questões de gênero, raça, orientação sexual e
marcas subsistentes do colonialismo. A situação é tanto mais grave porque as
humanidades estão sob ataque na Universidade da Excelência Administrada, ou
seja, na tendência atual de transformação dos sistemas de ensino superior
dirigidos por um estreito sentido de eficiência.
* * *
Depois da Segunda Guerra Mundial, junto com o esforço de reconstrução da
universidade alemã, tornou-se premente repensar a ideia de universidade
recuperando a longa tradição desde a Idade Média, mas, principalmente,
retomando a fecunda tradição aberta pelo modelo humboldtiano da Universidade de
Berlim. A situação era muito diferente daquela do início do século XIX, quando
a Alemanha ainda não unificada vivia sob parcial ocupação napoleônica e a
universidade tinha que participar na Bildung da nação e dos cidadãos e
consolidar a cultura e a ciência alemãs. Foi enorme o sucesso da criação da
universidade de pesquisa e da integração de ensino e pesquisa; logo depois, com
a cooperação entre alguns laboratórios universitários e as indústrias,
consolidou-se um novo modelo de universidade logo imitado por outros países. Já
vimos como se deu a apropriação norte-americana desse modelo, originalmente
alemão.
A nazificação da universidade foi uma catástrofe assustadora. A própria
essência da Bildung vinculada à Aufklärung foi destruída por sua versão
nacionalista xenófoba e racista. Nesse sentido, é da maior importância o livro
de Karl Jaspers republicado um ano após sua posse como reitor da Universidade
de Heidelberg, em 1945. O título da obra é significativo: A ideia da
universidade para a situação atual 20. Jaspers procura manter a tradição
humboldtiana sem perder de vista o então ainda bem vivo desastre nazista e a
transformação da organização das ciências com o aumento da especialização e a
necessária ampliação da universidade.
O caminho escolhido por Jaspers foi o de enfatizar o caráter cosmopolita da
ideia de universidade21. Os resultados da pesquisa feita em universidades
alemãs podem ser experimentados em termos de conquistas nacionais, mas o homem
de saber (sachlicher Mensch) "serve, na universidade, a uma ideia que não é
nacional, mas sim ocidental, tomada por ele, do modo que lhe é mais caro, como
ideia pura da humanidade"22. Trata-se aqui da difícil tentativa de manter a
ideia moderna de universidade em meio a transformações de vulto, com o
surgimento das escolas profissionais e da pressão pela especialização da
pesquisa cientifica, além da multiplicação das faculdades e da falta de contato
entre as disciplinas, sem mencionar a perda da unidade das ciências.
Para tanto, Jaspers se esforça por manter o que acredita serem os princípios
básicos da concepção humboldtiana23. É nesse sentido que insiste na referência
a uma universidade ideal, cuja sistematicidade garante a unidade apesar da
multiplicidade de suas tarefas:
A universidade realiza essas tarefas em sua ideia: a universidade é instituição
de pesquisa e de ensino, mundo da cultura [Bildungswelt], vida comunicativa, o
cosmo das ciências, tudo isso em uma só. Cada uma dessas tarefas torna-se tanto
mais forte, significativa, clara, quanto mais ela toma parte das demais. Na
ideia, uma tarefa não pode se desligar das outras sem que a substância da
universidade sucumba e sem que, ao mesmo tempo, cada tarefa se atrofie ou
assuma formas híbridas nefastas. Todas as tarefas são momentos de um todo vivo
da ideia 24.
Em 1986, Habermas realiza uma reconstrução desse processo em vista das
transformações ocorridas nos quarenta anos decorridos após a publicação do
livro de Jaspers. Sua conferência "A ideia de universidade - processos de
aprendizagem", pronunciada por ocasião da comemoração dos 600 anos da
Universidade de Heidelberg, começa lembrando o livro de Jaspers de 1923, sua
profunda revisão quando da republicação em 1946 e as relativamente parcas
modificações da reedição de 1961, chamando atenção para certa preocupação
surgida com os rumos da reformulação da universidade alemã no pós-guerra:
Não é mais suficiente a confiança na forma da tradição. A alternativa
que se apresenta hoje é a seguinte: ou é bem-sucedida a conservação
da universidade alemã através do renascimento de sua ideia na decisão
pela realização de uma nova forma de organização, ou ela encontra seu
fim no funcionalismo de enormes instituições de ensino e instrução
[Schul- und Ausbildungsanstalten] voltadas à formação de peritos
técnico-científicos25.
Jaspers ainda pretende manter grande parte dos ideais da universidade alemã
clássica: a ideia de universidade como unidade de ensino e pesquisa, a pesquisa
desinteressada, a liberdade de pesquisa e a liberdade do estudante de aprender,
mas também a unidade das ciências mantendo-se a centralidade da filosofia. Mas
Habermas chama atenção para o fato de que a perspectiva da filosofia do
idealismo alemão choca-se já em meados do século XIX com certas exigências
funcionais da sociedade e da economia, tanto na formação profissional como no
vínculo entre ciência e técnica industrial. Na segunda metade do século XX as
mudanças são ainda mais significativas. Além do distanciamento entre ensino e
pesquisa há o crescimento da especialização das ciências; a própria filosofia
torna-se uma especialidade ao lado de tantas outras26.
As transformações detectadas por Habermas continuaram com maior força na
segunda metade da década de 1980 e nas décadas de 1990 e 2000. Apenas para
mencionar algumas delas, assistiu-se e ainda se assiste à internacionalização e
à competição levando à diminuição de certas diferenças entre as universidades;
à importância crescente do conhecimento no desenvolvimento econômico
influenciando na configuração da formação profissional; e, por fim, às
necessidades da economia e da administração planejadora dirigindo parte da
pesquisa.
No entanto, em função de a produção de maior valor estar vinculada à inovação
tecnológica, trata-se de um movimento mais amplo que vem de longe. Com a dita
sociedade do conhecimento, há um vínculo cada vez mais forte entre produção de
ciência aplicada e desenvolvimento econômico. Com a internacionalização e o
deslocamento da produção dos países centrais para a periferia, o domínio das
patentes torna-se cada vez mais estratégico. Na concorrência brutal a ciência
feita nas universidades sofre também uma pressão grande para o caráter
aplicado. O vínculo mais estreito com a pesquisa nas empresas é imperativo.
Para enfrentar a concorrência com os Estados Unidos, a Europa reformou suas
universidades com o conhecido processo de Bolonha. Esse processo toma elementos
do modelo de universidade norte-americano e pretende aproximar as universidades
europeias, tornando-as mais competitivas no cenário internacional. A Declaração
de Bolonha (1999) criou o Espaço Europeu de Ensino Superior e introduziu um
sistema de diplomas comparáveis (bacharelado, mestrado, doutorado), além de uma
estrutura de créditos reconhecida por todos os signatários, estimulando, dessa
maneira, a colaboração no sentido de garantir a qualidade e a unificação dos
processos de avaliação, bem como parcerias entre as várias instituições.
Tentar avaliar os desdobramentos das transformações das universidades europeias
em seu conjunto levaria longe demais. De qualquer forma, algumas avaliações
parecem identificar resultados ambivalentes do processo de Bolonha27: por um
lado, a facilidade para os estudantes de terem experiências internacionais em
universidades de outros países europeus, já que a contabilização dos créditos é
garantida; por outro lado, no entanto, há indícios de um movimento de
escolarização excessiva do ensino universitário.
Mas não é possível isolar o processo de Bolonha de outros movimentos de
mudança, esses últimos de caráter, digamos, mundial. A sociedade do
conhecimento levou a uma reformulação das universidades para adaptá-las à
concorrência mundial pela inovação. Ao lado da pesquisa básica as universidades
ampliam a pesquisa aplicada e a transferência de tecnologia para o setor
produtivo. Estabelecem-se grandes parcerias entre a pesquisa realizada nas
indústrias e a pesquisa realizada nas universidades.
Nesse movimento surgem as grandes avaliações das universidades, como a
conhecida avaliação realizada pela Universidade de Shangai. O modelo e os
critérios para a avaliação foram tomados das mais ricas e produtivas
universidades norte-americanas. A cultura da avaliação se expande junto com
certa cultura da administração competitiva. A avaliação é basicamente
quantitativa, e mesmo a qualidade é vista como redutível à quantidade; por
exemplo, o número de citações é considerado como critério de qualidade. Surgem
simplificações como o "índice h"28 e conceitos como o de Universidade de
Excelência ou Universidade de Padrão Mundial, parâmetros ditados pelos
critérios de avaliação chineses e ingleses.
Quem explicita o real significado desse estado de coisas é Bill Readings:
[...] trata-se do reconhecimento de que a universidade não é apenas
parecida a uma corporação; ela é uma corporação. Estudantes na
Universidade de Excelência não se parecem a consumidores; eles são
consumidores [...]. A noção de excelência, funcionando menos para
permitir uma observação visual do que para permitir uma avaliação
exaustiva, serve para ligar a universidade a uma rede similar de
instituições burocráticas. Ou seja, "excelência" tem como função
permitir que a universidade entenda a si mesma exclusivamente em
termos da estrutura de administração corporativa29.
Vale a pena entrar na disputa pelo conceito de excelência, desde que em um
sentido crítico: a concepção dominante de excelência é quantitativa,
administrada; assim como Horkheimer e Adorno pensaram a reificação da sociedade
em termos de uma "sociedade administrada", há que pensar essa reificação da
universidade em termos de uma "excelência administrada".
A Universidade da Excelência Administrada perde elementos fundamentais da
cultura universitária crítica e democrática. O que não é imediatamente
quantificável fica fora da excelência; artes e humanidades, por exemplo. Uma
avaliação da excelência entendida como qualidade leva forçosamente a outras
abordagens e outros critérios. É bom que se diga que de forma alguma se
pretende aqui negar a importância das avaliações existentes. O que quero dizer
é que elas não são suficientes e que, ademais, induzem certas patologias.
Universidades que buscam acriticamente se adequar aos critérios da Universidade
de Excelência Administrada perdem de vista o necessário impacto local que
deveriam ter por objetivo.
Junto com essas transformações vem também uma visão mercantil da
universidade30, e isso não apenas nas universidades que visam o lucro; também
entre os estudantes amplia-se a visão estreita da formação apenas como
treinamento profissional. Além disso, a influência das exigências da inovação
industrial leva à mercantilização da própria pesquisa cientifica e, assim, à
diminuição do valor da pesquisa básica em detrimento das pesquisas aplicadas
ditadas pelas necessidades industriais imediatas31.
Esse movimento não é, entretanto, inelutável. É possível também detectar
tendências de resistência e de transformação do sentido das mudanças
tecnológicas. Mesmo a ideia de universidade na tradição humboldtiana está em
disputa e pode ser atualizada. Nas palavras de Habermas: "E, não menos
importante, o excesso utópico, que é inerente à universidade, conservou também
um potencial crítico que permaneceu em harmonia com as convicções fundamentais
ao mesmo tempo universalistas e individualistas do racionalismo ocidental e
que, de tempos em tempos, pôde ser reanimado para a renovação da
instituição"32.
Mesmo o projeto de unidade da ciência pode ser desinflado em um sentido
comunicativo:
Sou genuinamente da opinião de que há formas comunicativas da
argumentação científica por meio das quais mantêm-se unidos os
processos universitários de aprendizado em suas diversas funções
[...]. Por mais que o cientista pareça trabalhar solitariamente na
biblioteca, na mesa de trabalho, no laboratório, seus processos de
aprendizado estão inevitavelmente inseridos numa comunidade pública
de comunicação de pesquisadores. Uma vez que a empreitada da busca
cooperativa da verdade refere-se a essas estruturas de argumentação
pública, a verdade - ou pelo menos a reputação adquirida na
comunidade de pesquisadores - não pode nunca tornar-se um mero meio
de controle de um subsistema autorregulado33.
* * *
A fundação da maioria das universidades públicas brasileiras se deu sob o
impulso da constituição da nação no plano cultural e cientifico, em um projeto
de sociedade que foi chamado posteriormente de "nacional-desenvolvimentismo". O
aspecto cultural era parte de um projeto mais amplo. Nas palavras de Marcos
Nobre:
[...] de acordo com a imagem mais divulgada, os objetivos econômicos
primordiais do projeto nacional-desenvolvimentista brasileiro
estiveram ancorados em um tripé composto por empresas estatais,
transnacionais e familiares nacionais. Sua meta fundamental era a de
promover um desenvolvimento econômico o quanto possível autônomo,
realizado sob forma de um projeto de industrialização capaz de criar
um mercado interno de importância, de maneira a mitigar e
eventualmente superar a condição de completa dependência de um país
cuja economia está fundada na exportação de bens primários. A
principal estratégia para tanto foi a chamada "substituição de
importações", em que as áreas consideradas estratégicas eram
estimuladas e protegidas da competição de produtos importados por
meio de barreiras tarifárias e generosos subsídios estatais34.
Esse modelo de desenvolvimento vai se constituir a partir da década de 1930 e
passa por formulações democráticas, mas também por formulações autoritárias na
ditadura de Getúlio Vargas e depois na ditadura militar.
O desenvolvimento que nos interessa mais de perto aqui é o ocorrido com a
reforma universitária brasileira no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970,
que se deu no quadro do nacional-desenvolvimentismo autoritário da ditadura
militar. Como marcas características por ressaltar podem ser mencionadas: o
estabelecimento de um sistema nacional de pós-graduação, com grande ênfase na
pesquisa básica; significativo aumento de vagas, tanto nas universidades
públicas como nas universidades particulares, em direção a algo próximo de uma
universidade de massa; um aprofundamento da especialização, com a
correspondente e progressiva divisão de faculdades e cursos; dado o processo de
desenvolvimento industrial fortemente marcado pela substituição de importações,
não houve significativa vinculação da universidade com a pesquisa tecnológica e
transferência de tecnologia.
Há uma certa americanização, com o sistema de créditos, mas sem a formação
multidisciplinar que, de certa forma, era garantida nas universidades norte-
americanas pelo college. Esse processo de mão única para a especialização vai
se reforçar nas décadas seguintes, ainda que com resultados ambivalentes. De um
lado, a especialização possibilitou o estabelecimento de um sistema de pesquisa
com certa qualidade; mas, de outro lado, levou a uma especialização cega,
inconsciente de seu necessário vínculo multidisciplinar, uma especialização
pela especialização.
Com a redemocratização e a Constituição de 1988, a universidade se viu livre
das restrições autoritárias, mas nem por isso alterou essencialmente de maneira
consciente seu rumo. Nesse momento, mudanças estruturais do capitalismo
inviabilizam projetos como o do nacional-desenvolvimentismo:
Entre outras coisas, porque esse projeto político dependia de um
padrão tecnológico de produção relativamente estável nos países
centrais e do poderio de um Estado indutor do desenvolvimento, dois
pilares minados pela revolução da microeletrônica e pela crise de
crédito de fins da década de 1970, respectivamente. Um projeto de
desenvolvimento em situação de subdesenvolvimento não afastava a
necessidade de atualização tecnológica permanente, mesmo que uma
atualização retardada quando comparada com os países centrais. Mas o
que garantia essa atualização retardada era não apenas o fato de que
ela se dava em patamares de inovação meramente incrementais, mas
também a capacidade de financiamento e de investimento do Estado,
motor por excelência desse desenvolvimento subordinado. Foram essas
condições que desapareceram já desde o início dos anos 198035.
Se é possível dizer que, a partir de 1994, o país entra definitivamente em um
caminho de superação do nacional-desenvolvimentismo em termos de organização
produtiva, a situação da universidade nesse quadro é, mais do que ambígua, uma
situação de desorientação. Respostas incompatíveis e simultâneas convivem. O
velho ideal nacional-desenvolvimentista da pesquisa pura em contraposição à
pesquisa aplicada que apenas adapta tecnologicamente o país sem verdadeiramente
inovar convive com uma nova lógica de redes que ignora fronteiras e
localidades. Uma adaptação acrítica a modelos típicos da nova situação
internacional convive com tentativas de reviver uma autossuficiência científica
que perdeu seu lastro por completo. Entre a Universidade de Excelência
Administrada e a caduca defesa do modelo nacional-desenvolvimentista não se
pode escolher nenhuma das duas. Cabe construir uma nova maneira de pensar a
posição da universidade que escape a essa falsa e funesta alternativa.
A primeira dificuldade aqui está em que as duas vertentes da alternativa muitas
vezes não se encontram sequer em franca oposição, mas estão amalgamadas,
inconscientes de suas próprias bases de sustentação. É assim que a universidade
simultaneamente aposta nos rankings universitários como padrão de excelência e
defende um padrão supostamente humboldtiano de funcionamento. Para que seja
possível explicitar o problema e abrir uma discussão efetiva, seria necessário
recorrer a um modelo de sociedade sucedâneo do nacional-desenvolvimentismo, de
maneira a encontrar uma nova posição para a universidade nesse quadro. Sigo
aqui a proposta de Marcos Nobre e chamo esse novo modelo de social-
desenvolvimentismo, segundo o qual só é
desenvolvimento autêntico aquele que é politicamente disputado
segundo um padrão e o metro do social, quer dizer, aquele em que a
questão distributiva, em que as desigualdades - de renda, de poder,
de recursos ambientais, de reconhecimento social - passam para o
centro da arena política como o ponto de disputa fundamental. À sua
maneira peculiar e ziguezagueante, em uma interpretação coletiva
penosamente construída, foi essa a concretização de uma imagem de
sociedade presente no texto da Constituição Federal de 1988. Esse
modelo de sociedade não pertence, portanto, a um único governo ou
partido, mas é um projeto coletivo, gestado durante a longa transição
para a democracia36.
A pesquisa tecnológica se dá em rede mundial, mas o efeito pode ser local. Esse
tem de ser o sustentáculo fundamental da universidade social-
desenvolvimentista. Não se trata mais de ter como objetivo a reprodução dentro
do território nacional de toda a cadeia da produção de conhecimento, mas de
inserir-se nas redes de maneira a garantir o quanto possível a influência na
decisão da agenda de pesquisa e o impacto local dessa inserção. A tecnologia e
a inovação tornam-se centrais, mas não porque são produtos "nacionais", e sim
porque revelam uma inserção virtuosa em cadeias globais de produção de
conhecimento e inovação, com avanços locais significativos em termos de
desenvolvimento econômico, social, cultural, em termos de difusão,
transferência de tecnologia, políticas públicas.
As universidades reagiram a essas mudanças com remendos e puxadinhos, sem uma
autorreflexão mais ampla. Em algumas universidades, foram criadas agências de
inovação, incubadoras de empresas, agências para transferência de tecnologia,
mas sem uma reflexão mais ampla sobre as missões da universidade e sem mudanças
regimentais que pudessem favorecer a execução das novas tarefas. A
interpretação tecnocrática desse processo ambivalente tem sido um dos grandes
obstáculos a um debate de caráter mais amplo. Não por último, é uma
interpretação que favorece a lógica da especialização excessiva. E o processo
de especialização excessiva na universidade em um país com um ensino médio ruim
é um desastre.
A situação está longe de ser tranquila. Mas também está longe de ser
desastrosa. Se for possível colocar novas e boas questões, provocar um debate
de qualidade, avanços significativos podem ser alcançados. Uma boa questão
poderia ser, nesse contexto: como fazer pesquisas em redes globais e alcançar
impacto local significativo diante da mercantilização da pesquisa, da política
tecnocrática, da visão dominante da excelência quantitativa administrada, com
alunos pensados como clientes, vendo a universidade que frequentam como lugar
de treinamento e não de formação?
[1] Este texto é parte de um projeto mais amplo de reconstrução de "modelos de
universidade" e de sua influência nas políticas públicas acadêmicas e
científico-tecnológicas de três diferentes países: Alemanha, EUA e Brasil,
chegando até uma avaliação mais específica da Universidade de São Paulo. O que
se publica aqui é um esquema do "miolo" desse projeto. Pelas críticas e
sugestões de modificação, pelo auxílio na tradução de algumas citações, por
preciosas indicações bibliográficas, sem nenhuma responsabilidade pela
formulação final, agradeço a: Marcos Nobre, Diego Kosbiau, participantes do
Núcleo Direito e Democracia do Cebrap, Juliana P. Perez, Leopoldo Waizbort e
Andrew Feenberg.
[2] Bok, Derek. Higher education in America. Princeton University Press, 2013,
p. 166.
[3] Idem, p. 29.
[4] Ver, de Moraes, Reginaldo e Silva, Maitá de Paula, O peso do Estado na
pátria do mercado. Os Estados Unidos como país em desenvolvimento. São Paulo:
Editora Unesp, 2013, pp. 47-48.
[5] Idem, p. 48.
[6] Idem, p. 41.
[7] Idem, p. 58.
[8] Moraes e Silva, op. cit., p. 70
[9] Bok, op. cit.
[10] Idem, p. 29.
[11] Flexner, Abraham. Universities: American - English - German. Oxford
University Press, 1930.
[12] Idem, p. 72.
[13] Idem, p. 64.
[14] Bok, op. cit., p. 10.
[15] A referência a Sêneca se impõe: "Por que eles são chamados estudos
liberais? É por serem dignos de um homem livre. Mas, de resto, a única coisa
que é verdadeiramente liberal é aquela que o faz livre: é a sabedoria [...].
Por que, pois, ensinamos nossos filhos segundo os estudos liberais? Não é por
poderem dar a virtude, mas por prepararem o ânimo para recebê-la." Lettres à
Lucilius, carta 88. Paris: Les Belles Lettres, 2003, pp. 158 e 164.
[16] Sokal, Alan e Bricmont, Jean. Impostures Intellectuelles. Paris : Editions
Odile Jacob, 1997.
[17] Bloom, Allan. The closing of the American mind. How higher education has
failed democracy and impoverished the souls of today's students. Nova York:
Simon & Schuster, 1987.
[18] Nussbaum, Martha. Cultivating humanity. A classical defense of reform in
liberal education. Cambridge: Harvard University Press, 1997.
[19] Idem, p. 297.
[20] Jaspers, K. e Rossmann, K. Die Idee der Universität für die Gegenwärtige
Situation. Berlim: Springer-Verlag, 1961 (segunda edição acrescida de uma parte
escrita por Kurt Rossmann).
[21] "A ideia de universidade é ocidental, própria a nós, europeus, desde os
gregos. No entanto, as universidades como instituições [Instituitionen] são
estabelecimentos [Anstalten] estatais ou de toda maneira pertencentes a uma
nação. A universidade busca a verdade, ela quer servir à humanidade,
representar a humanidade pura e simplesmente. Humanitas- independente de quão
frequente e quão profundamente o sentido desse conceito tenha se alterado -
pertence à sua essência. Por esse motivo, toda universidade é, decerto, própria
a um povo, porém ela se esforça para apreender o supranacional e realizá-lo."
Idem, ibidem, p. 159
[22] Idem, ibidem.
[23] "Segundo seu nome, a universidade é universitas: o conhecimento e a
pesquisa existem, quando nutridos em um trabalho departamental, tão somente
como um todo. A universidade se desmorona quando se torna um agregado de
escolas departamentais, junto às quais ela permite passatempos, a chamada
formação geral e um palavreado vazio como ornamento indiferente. Cada ciência
particular existe em relação ao todo do conhecimento científico em geral. Por
esse motivo, o sentido da universidade é satisfazer seus estudantes com a ideia
desse todo de suas ciências específicas e com a ideia do todo do conhecimento
em geral." Idem, ibidem, p. 71.
[24] Idem, p. 65.
[25] Introdução de Karl Jaspers e Kurt Rossmann a Die Idee der Universität.
Berlim: Springer-Verlag, 1961 (Vorwort - dezembro de 1960).
[26] "O mais arriscado e improvável da ideia de universidade com a qual somos
confrontados nos famosos documentos de fundação torna-se claro em toda sua
extensão quando se explicitam as condições que teriam de ser satisfeitas para a
institucionalização de tal ciência - uma ciência, portanto, que, por meio tão
somente de sua estrutura interna, deveria, ao mesmo tempo, garantir e
possibilitar a unidade de pesquisa e ensino, a unidade das ciências, a unidade
de ciência e formação geral, assim como a unidade de ciência e esclarecimento
[Aufklärung]". Habermas, Jürgen. "Die Idee der Universität - Lernprozesse", in:
Seitdiagnosen. Frankfurt: Suhrkamp, 2003, p. 90 (publicado antes em Habermas
Eine Art Schadensabwicklung. Kleine Polittische Schriften VI. Frankfurt, 1987).
[27] A polêmica a respeito do processo de Bolonha e da dita Universidade de
Excelência é enorme. Indico alguns títulos, além da obra já citada de Bill
Readings, The university in ruins: Lenzen, Dieter. Bildung statt Bolonha!
Berlim: Ullstein, 2014; de Münch, Richard. Die akademische Elite. Berlim:
Suhrkamp, 2007, e Globale Eliten, lokale Autoritäten. Berlim: Suhrkamp, 2009;
duas interessantes coletâneas de artigos de autores de vários países:
Unbedingte Universitäten. Was ist Universität. Texte und Positionen zu einer
Idee. Zurique: diaphanes, 2010, e Unbedingte Universitäten. Was passiert?
Stellungnahmen zur Lage der Universität. Zuqique: diaphanes, 2010. Sobre a
noção de Bildung, em outra perspectiva, ver, de Theodor Adorno, "Theorie der
Halbbildung". In: Gesammelte Schriften 8. Frankfurt: Suhrkamp, 1972.
[28] Encontramos uma reflexão crítica das simplificações em processos de
avaliação em Gingras, Yves. Les dérives de l'évaluation de la recherche. Du bon
usage de la bibliométrie. Paris : Éditions raisons d'agir, 2014.
[29] Readings, Bill. The university in ruins. Cambridge: Harvard University
Press, 1966, pp. 22 e 29; ver também Kaube, Jürgen (ed.). Die Illusion der
Exzellenz. Berlim: Verlag Klaus Wagenbach, 2009.
[30] Ver, de Martha Nussbaum, Not for profit. Why democracy needs the
humanities. Princeton University Press, 2010.
[31] A bibliografia é ampla; entre outros, ver: Radder, Hans (org.). The
commodification of academic research. Science and the modern university.
University of Pittsburgh Press, 2010; Krimsky, Sheldon. Science in the private
interest. Has the lure of profits corrupted biomedical research?Rowman &
Littlefield Publishers, 2004; Feenberg, Andrew. Critical theory of technology.
Oxford University Press, 1991; Feenberg, Andrew. Transforming technology.
Oxford University Press, 2002.
[32] Idem, p. 93.
[33] Idem, p. 103.
[34] Nobre, Marcos. "Da 'formação' às 'redes': filosofia e cultura depois da
modernização". Cadernos de Filosofia Alemã, jan-dez 2012, p. 15.
[35] Idem, p. 28
[36] Nobre, Marcos. Imobilismo em movimento. Da abertura democrática ao governo
Dilma. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 24.
Received: November 17, 2014