A política de defesa brasileira: nem racionalismo, nem incrementalismo
Introdução
Em setembro de 2003, cumprindo um de seus compromissos de campanha e atendendo
a uma antiga reivindicação dos militares, o recém-eleito governo federal
resolveu tratar a questão do orçamento das Forças Armadas (FAs). Ao contrário
da prática até então vigente, essa medida foi feita de maneira a contextualizar
os vários temas relacionados às FAs e foi marcada pela realização de um ciclo
de debates que se prolongou até junho de 2004, e que contou com um número muito
significativo e sem paralelo na trajetória brasileira de discussão sobre o tema
de fazedores da política de defesa (entre eles o próprio Ministro da Defesa),
empresários, militares, pesquisadores etc.1
Dentre os pontos relativos à Política de Defesa tratados no ciclo de debates,
estavam o do reaparelhamento das FAs e o do atendimento de uma outra
reivindicação de militares e empresários: a revitalização da Indústria de
Defesa (ID). Embora não tenha havido um consenso, uma esmagadora maioria
concordou a respeito da conveniência em levá-la a cabo.2 Contudo, a
revitalização da ID não foi o tema mais importante, aparecendo de maneira
subordinada a dois outros mais abarcantes: o do reaparelhamento das FAs '
entendido como um objetivo maior que poderia vir a ser satisfeito dando-se
prioridade ao material de defesa produzido no País ' e o do orçamento. Isto
porque a expansão ou realocação da ID era percebida como condicionada à
ocorrência, em cadeia, dos dois outros objetivos.
A aceitação de que a revitalização seria facilitada através de uma
reorganização que levasse em conta o novo contexto geopolítico e que incluísse
um reaparelhamento condizente foi consensual. Não o foi, entretanto, a idéia de
que esse processo pudesse ocorrer sem um aumento do orçamento do Ministério da
Defesa. Isto é, que o reaparelhamento poderia ocorrer exclusivamente mediante a
sua simples revisão no sentido de diminuir a participação relativa do gasto de
pessoal e, dessa forma, liberar recursos para viabilizá-lo.3
Recebeu amplo apoio uma outra idéia relacionada ao tema da revitalização: a de
que uma maior profissionalização das FAs deveria passar por uma maior dedicação
dos militares ao reaparelhamento e à produção e P&D em defesa. De fato, até
a crítica mais contundente à Política de Defesa e à estrutura organizativa das
FAs, que se referiu à inconveniência das "propostas de que elas exerçam
atividades que não são as suas funções constitucionais" que poderiam levá-las
"novamente a extrapolar suas funções institucionais e controlar o poder
político" (Pinto et al., 2005, p.152), recomendou uma realocação de recursos
que permitisse "aumentar os gastos com os programas e as tecnologias que dêem
mais eficiência à ação do Estado na área militar" (idem).4
Não era de surpreender, então, que o endosso quase generalizado aos diversos
argumentos que apoiavam a idéia de uma maior profissionalização das FAs através
de um reaparelhamento via P&D e produção local de MD levasse a uma imediata
revitalização da ID. Entretanto, até o presente momento, isso não ocorreu. O
objetivo deste trabalho é investigar as possíveis causas desse fato mediante a
análise da maneira como se deu a evolução dos acontecimentos relacionados ao
tema da revitalização no âmbito da Política de Defesa brasileira, ancorando-se
na percepção que se tem desse processo a partir da visão das fontes
selecionadas. Isso é feito através da aplicação do instrumental de Análise de
Políticas5 sobre o escasso volume de dados empíricos e informações sistemáticas
que caracteriza os processos decisórios em que intervêm atores relacionados à
esfera militar.6
O trabalho não segue a metodologia usada para tratar outras áreas de política
pública sobre as quais existem maiores informações empíricas e resultados de
pesquisa disponiveis. Neste caso, o procedimento usual, de apresentar uma
hipótese e sugerir como, empiricamente, tal hipótese poderia ser verificada
para, na seqüência, expor as conclusões derivadas dos resultados obtidos, não é
viável. Este trabalho busca contribuir para gerar conhecimento sobre um estágio
anterior da atividade de pesquisa, que é aquele em que se encontra o assunto
tratado. Focaliza, portanto, o momento em que as hipóteses nascem a partir dos
fatos observados, pelo uso de uma metodologia especialmente adequada a esta
finalidade: a de Análise de Políticas.
A apresentação dos conceitos, modelos e ferramentas analíticas usados para
tanto foi remetida a notas de rodapé. Primeiro, porque, dado o seu grande
número, apresentá-los no corpo do texto levaria a interromper a leitura com
muita freqüência. Segundo, porque muitos leitores desta revista já os conhecem
e, por isto, não precisarão consultar as notas. Seu número e extensão se devem
à intenção de, mostrando a sua procedência, justificar o seu emprego e
facilitar a realização de análises semelhantes. Tendo como referência principal
as informações veiculadas publicamente, o trabalho se desenvolve na busca do
entendimento dos fatores que vêm levando ao diferimento da revitalização
mediante a formulação de hipóteses acerca da percepção que se tem, a partir da
visão das fontes selecionadas, dos valores, interesses e comportamentos dos
atores envolvidos no processo de tomada de decisão concernente ao tema, de
caráter particularmente complexo e sigiloso.7
Por razões que ficarão claras mais adiante o trabalho não possui um objetivo
prospectivo; isto é, de possibilitar a construção de cenários acerca da
possível evolução da questão da revitalização da ID. Tampouco pretende ser
prescritivo, embora possa servir como insumo para a elaboração de políticas.
Sua abordagem é fundamentalmente dedutiva e as conclusões que apresenta possuem
caráter investigativo e exploratório.
As fontes utilizadas são as que costumam veicular os problemas relacionados ao
tema:8 as de grande mídia (as revistas IstoÉ, Veja, Valor Econômico, o jornal O
Estado de S.Paulo etc) e as especializadas (Tecnologia e Defesa, Segurança
& Defesa, Defense News, <www.defesabr.com>, <www.defesanet.com.br>). Além
disso, consultaram-se os sites que costumam apresentar análises acadêmicas,
como o <www._defesa.ufjf.br>, da Universidade Federal de Juiz de Fora, e o
<www.brasilsoberano.com.br>, e o escasso material escrito por militares e
empresários envolvidos com o tema, assim como seus pronunciamentos públicos.
Destaque deve ser dado à coletânea de quatro volumes organizada por Pinto et
al. (2005).
A seção que se segue apresenta a hipótese que parece mais plausível a respeito
de como se estaria evoluindo a questão da revitalização. Isto é, de que
estariam convivendo e se confrontando duas dinâmicas, que corresponderiam aos
dois modelos clássicos e opostos ' racional e incremental ' de processo
decisório cuja adoção seria de interesse de cada um dos grupos em oposição.
Situação essa geradora de um impasse: o diferimento da revitalização.
A terceira seção, levando em conta evidências relativas à aquisição de MD
estrangeiro pelas FAs, formula outra hipótese acerca das características do
processo decisório da revitalização. Isto é, de que haveria um terceiro grupo
caracterizado por uma visão, forma de atuação e poder de decisão distintos
daqueles do grupo ' a rede da revitalização ' que se apresenta para a opinião
pública como o mais influente e dotado de argumentos mais legítimos.
A combinação das ferramentas analíticas da Análise de Política com a informação
obtida por meio do auxílio do instrumental da Economia da Defesa, que permitiu
contrastar as hipóteses formuladas sobre o comportamento dos atores com o que
parece ser a realidade, tornou possível explicitar uma racionalidade distinta
daquela veiculada por aquela rede, a qual desafia a imagem de senso comum que
se tem sobre a questão.
Emergem da análise do processo decisório da revitalização ' uma das questões
mais polêmicas e sensíveis para as relações entre os militares e outras elites
(como os empresários e a comunidade de pesquisa) e para as relações externas
brasileiras ' algumas conclusões que sugerem uma nova percepção sobre a
Política de Defesa nacional.
A hipótese do confronto entre racionalismo e incrementalismo e o padrão de
alocação do orçamento
As vozes que têm sido mais ouvidas no debate público acerca da revitalização da
ID parecem aspirar que o processo decisório a envolvido se dê de forma mais
racional.9 Argumentos alegadamente racionais, baseados nas implicações
positivas que tal medida acarretaria para o país, têm sido insistentemente
veiculados pelos partidários da revitalização buscando justificá-la. A forma
como que eles têm se articulado se assemelha ao que a literatura considera uma
policy network.10 Faz parte da essência do conceito e também da sua utilização
o questionamento à efetiva existência de uma policy network assumida por um
analista e à legitimidade do critério de pertinência a ela de determinadas
pessoas ou organizações. O que não tem impedido que, apesar de sua inerente
lassidão, sua utilização seja iluminadora e, provavelmente por isso, crescente.
A essa rede, formada por atores11 públicos (principalmente militares) e
privados (empresários, jornalistas e pesquisadores) se denomina aqui de rede da
revitalização, omitindo assim o termo "política", que poderia figurar entre as
duas palavras por brevidade e para evitar a confusão a que seu duplo
significado (de policy e de politics) induz na língua portuguesa. Num contexto
de governança não-hierarquizada,12 tal rede participa do jogo social da
revitalização.13 E dessa forma, aproveitando a vigência das normas democráticas
que sancionam o exercício de pressões de grupos organizados, procura
influenciar o processo de elaboração14 das políticas públicas a ela atinentes.
O modo como isso tem sido feito, que provavelmente decorre de uma análise
acerca do seu potencial de efetividade,15 insiste na irracionalidade da
situação presente, devido a qual, segundo se afirma, a segurança do País
estaria sendo colocada em risco e se estaria deixando de aproveitar
oportunidades de progresso científico e tecnológico e de desenvolvimento
econômico e social, uma vez que não se está impulsionando a revitalização.16
O ethos, ou a cultura institucional da rede da revitalização, dá origem à sua
agenda particular,17 à qual se pretende introduzir na agenda da política
pública18 da revitalização para, inclusive, segundo alega, conferir um caráter
mais racional ao seu processo de tomada de decisão. Não é intenção deste
trabalho discutir aspectos como a ideologia, os valores e os interesses dos
integrantes da rede, nem investigar a fundo como se estabelecem as alianças
entre os militares e outras elites que a tornam possível. Não obstante, a
descrição dos cinco blocos de argumentos que a cultura institucional utiliza
para justificar porque aqueles aspectos deveriam ser aceitos pela sociedade os
esclarecem de maneira adequada para os objetivos deste trabalho. Isso porque um
dos seus vieses é justamente evidenciar que, ao contrário do que se quer fazer
crer, os argumentos apresentados como se fossem advindos de avaliações de
caráter econômico ou tecnológico (e, por isso, de natureza "técnica") são, na
realidade, de caráter político.
Os dois primeiros blocos de argumentos relacionam-se com o conceito de efeito
spin-off, isto é, com um efeito de transbordamento ou "espirramento" dos
resultados tecnológicos e econômicos desencadeados pelo gasto militar no setor
da defesa para o setor civil da economia, assim como com a suposição de que a
tecnologia desenvolvida para propósitos militares tem (ou pode ter)
significativas aplicações para a produção civil ' e que essas aplicações teriam
um impacto positivo na capacitação tecnológico e em termos econômicos. O
terceiro, inspirado no que se entende como a realidade dos grandes produtores
de sistemas de armas, trata da obtenção de ganhos de comércio exterior através
da exportação de MD que a revitalização permitiria. No quarto, mais próximo à
tradição latino-americana, discute-se a substituição de importações, isto é, a
possibilidade de evitar a importação dos sistemas de armas demandados pelas
FAs. O quinto, inspirado talvez na realidade de alguns países periféricos
durante a Guerra Fria ou no comportamento do que se tem denominado países
rebeldes,19 trata das vantagens geopolíticas, de defesa dos interesses
nacionais, de aumento da capacidade de barganha em relação às grandes
potências, ou de projeção de poder em relação a países mais fracos, que a
produção local de MD proporcionaria.
A impressão que se tem, então, é que duas dinâmicas distintas no âmbito do
processo decisório relativo à revitalização estariam convivendo e tentando se
impor uma sobre a outra. Uma seria racional, impulsionada pela rede da
revitalização que, fundamentada naqueles argumentos modernizantes e de
interesse comum e inspirada num profundo sentimento nacionalista, defende a
P&D, a produção e exportação de MD. A outra, de viés incremental,20 que,
submetida a uma doutrina militar ultrapassada e ao corporativismo, difere a
profissionalização e a modernização das FAs capaz de aumentar a sua efetividade
e impede o remanejamento do orçamento das despesas com pessoal para o
reaparelhamento e, por conseqüência, a revitalização. Essa dinâmica, desprovida
de racionalidade seria impulsionada pelos responsáveis de facto pela Política
de Defesa e pela revitalização. Independentemente da veracidade desse
entendimento, o que não pode ser questionado é a afirmação da rede da
revitalização de que a forma de atuação desse ator é bem distinta da sua: a
identidade e locus de atuação do ator não é revelada, ele não participa do
debate público, nem se manifesta através de publicações, Ele, apenas,
decidiria...
Essa impressão de que estariam convivendo duas dinâmicas é potencializada pela
observação de uma questão-chave da Política de Defesa: a maneira como tem
evoluído o orçamento militar brasileiro. O que se verifica é que, embora esse
orçamento tenha aumentado entre 1995 e 200621 em 170%, o gasto em pessoal
aumentou 203%, absorvendo assim a maior quantidade de recursos adicionais
dedicados anualmente às FAs durante esse período. Pode-se dizer, inclusive, que
a partir de 2002, justamente quando se reacendem os ânimos da rede da
revitalização, é possível verificar uma mudança no padrão de alocação dos
recursos do Ministério da Defesa. A participação dos gastos de pessoal, que se
mantinha inferior a 79%, numa média de 78% desde 1995, chega a alcançar 85% no
período que vai de 2002 e 2006, sendo seu valor médio 82%. Em conseqüência, a
participação do gasto com investimento (rubrica que inclui o gasto em aquisição
de MD) baixou de 9% para 5% entre 1996 e 2006.
Ao que mostram os indicadores de dispêndio de recursos, parece que a composição
de forças no "jogo da revitalização" está apresentando uma resultante favorável
àqueles que não estão dispostos a alterar o "modelo" de organização das FAs.
Ou, numa linguagem talvez mais realista, a sacrificar seus salários e pensões
modificando a estrutura de gastos das FAs, desde há muito tempo enviesada nesse
sentido.
Essa situação seria então responsável pelo predomínio da dinâmica incremental
no processo decisório concernente à revitalização. Seu diferimento poderia
então ser explicado por um processo de não-tomada de decisão.22 Isto é, por um
processo decisório caracterizado por um controle da agenda política por parte
do ator com maior poder, o que faz com que os assuntos "não-seguros" levantados
pela rede da revitalização se mantenham encobertos (ou mesmo latentes) e não se
transformem em conflitos abertos merecedores de uma análise que pudesse
conduzir à tomada de decisão.23
Tem sido insistente e enérgico o comportamento (que beira à denúncia do que
seria uma irresponsabilidade dos tomadores de decisão) com que os partidários
da revitalização têm se manifestado no debate público sobre o tema,24 mediante
publicações especializadas25 ou através de matérias na imprensa.26
Esse tom pode dever-se a um objetivo característico da associação através de
policy networks, de buscar ampliar o número de simpatizantes e neutralizar
oponentes. Neste caso com um objetivo adicional: o de promover um movimento de
opinião pública, ou no âmbito da classe política, que, no limite, obrigasse o
ator com maior poder (entendido pela rede de revitalização como o tomador de
decisão) a adotar um modelo racional. Forçado, então, a acatar os argumentos
racionais entendidos como irrefutáveis pela rede da revitalização. E, caso
fosse de fato bem-sucedida, isso poderia inclusive fazer com que seu modelo
cognitivo particular27 passasse a ser o modelo cognitivo da política.28
Mas o instrumental analítico e viés investigativo que caracterizam este
trabalho, decorrente de sua intenção de dar a conhecer os fatores não
claramente perceptíveis "a olho nu" que estariam levando ao diferimento da
revitalização mediante a análise do comportamento dos atores com ela envolvidos
traz à consideração uma outra possibilidade. Esse comportamento pode ter um
objetivo mais modesto.
É freqüente que as policy networks tentem acumular poder forças mediante um
discurso enérgico e até agressivo visando tão-somente a atenuar uma das
características típicas dos processos incrementais, a não-tomada de decisão e,
assim, participar na tomada de decisão. Nesse caso, não importa muito a solução
dos problemas apontados ou a aceitação dos argumentos levantados, e sim o
objetivo de participar no processo decisório.29
Assim, de forma mais sutil do que a antes indicada, a rede não estaria
pretendendo que os tomadores de decisão adotem um modelo racional, ou mesmo que
aceitem introduzir na agenda os seus argumentos. Estaria apenas tentando
acumular poder para forçar sua participação num processo decisório com
características incrementais.
Qualquer que seja o objetivo da rede da revitalização, seu comportamento seria
um indício de debilidade.30 O que não configura nada que possa ser considerado
"politicamente incorreto". É natural e freqüente, que atores com menor poder
tentem ganhar o direito de participar do processo decisório através da
mobilização de outras elites ou da sociedade em geral.31 E só então ' depois de
obter o apoio necessário e passar a "sentar à mesa" em que se decide ' tentar
introduzir os temas de seu interesse na agenda política. Se seu poder for
suficiente para forçar os atores mais poderosos que controlam a agenda e o
processo decisório estiverem dispostos a alterar o seu caráter incremental que
lhes beneficia, é outra questão.
O reaparelhamento sem revitalização e a hipótese do modelo do processo
organizacional
Essa suspeição de debilidade abre uma pista investigativa que possui duas
meadas. A primeira, sugere que existiria uma instância de tomada de decisão não
totalmente contaminada pelo incrementalismo e sensível a argumentos de natureza
racional a ser cooptada. A segunda meada é derivada da observação de como tem
evoluído a política pública relacionada à aquisição de MD.
De fato, não obstante a sua plausibilidade respaldada pela evolução do
orçamento militar, a idéia de que o processo decisório relativo à revitalização
estaria sendo dominado por uma dinâmica estritamente incremental esbarra num
obstáculo sobre o qual se tem evidências empíricas bastante sólidas. Essas
evidências se referem a iniciativas efetivamente realizadas ou que estariam em
curso visando à aquisição de material de defesa produzido no exterior. Ou seja,
que estaria em marcha, ainda que com recursos escassos, um processo de
reaparelhamento das FAs não apoiado na produção local de material de defesa. E
que, em conseqüência, prescindiria da revitalização da ID.
De fato, ao longo dos últimos anos, tem sido noticiada periodicamente na
imprensa, e por meio de publicações especializadas, a aquisição de MD de
procedência estrangeira. Com freqüência bem mais elevada, têm sido ultimamente
noticiadas iniciativas que estariam sendo levadas a cabo com o objetivo de
importar MD, inclusive através de operações de escambo.32 Tudo isso em meio a
notícias desencontradas de que programas de reaparelhamento de cada uma das
forças estariam sendo reativados33 e que acordos de off set seriam realizados
visando à produção ou montagem no país de MD desenvolvido por empresas
localizadas no exterior.34
Outra iniciativa de não menor importância foi a adesão do governo brasileiro,
em junho de 2000, ao Protocolo 505 que faculta o recebimento de material de
defesa descartado pelas FAs dos EUA, desde que seja a ele facultado a inspeção
in loco dos sistemas de defesa dos países interessados aos quais o armamento é
incorporado (The Center for Public Integrity, 2001).35 Adesão esta denunciada
por integrantes da rede da revitalização como uma inaceitável sujeição do País
aos interesses de uma potência estrangeira (Coimbra, 2001).
Essa situação parece indicar que o processo decisório da Política de Defesa não
possui as características de "incrementalidade" alegadas pela rede da
revitalização. Isto é, o diferimento da revitalização não ocorreria devido a
uma incapacidade dos atores que participam no processo decisório de tomar
decisões racionais. De uma atrasada e recalcitrante postura irracional, marcada
pela não-compreensão dos benefícios da P&D e produção de MD, por uma
sujeição ao poder dos fabricantes de armas que dominam nosso mundo unipolar,
por uma falta de percepção acerca das hipóteses de conflito existentes e por
uma subordinação a injunções de tipo corporativo que impedem a realocação de
recursos no âmbito do orçamento do Ministério de Defesa.
Indícios de uma outra racionalidade
Haveria sim uma racionalidade. Existiria no âmbito do grupo dos tomadores de
decisão de mais alto nível acerca da Política de Defesa brasileira, que
obviamente não teria por que ser considerado monolítico, uma parcela dotada de
uma percepção de que as razões e argumentos esgrimidos pela rede da
revitalização não devem ser tomados ao pé da letra como prioridades de
governo.36
De maneira a esboçar o que poderia ser o conjunto de critérios adotado por
esses quadros técnico-políticos, se retomam aqueles enunciados anteriormente
como sendo os argumentos da rede da revitalização. O comentário que segue não
pretende sugerir que concordem com o seu teor, mas que o conheçam.
Em relação aos dois primeiros, que se relacionam com o conceito efeito de spin-
off, é bem provável que exista, por um lado, um conhecimento a respeito da
literatura estrangeira produzida por pesquisadores do campo da Economia da
Defesa suficiente para rebater a argumentação da rede da revitalização
pretensamente fundamentada na experiência internacional.37 E, por outro, uma
percepção de que um país periférico como o nosso (onde o comportamento racional
das empresas do setor civil é a importação de tecnologia), mesmo quando exista
tecnologia militar desenvolvida localmente, ela dificilmente será mais atrativa
do que a passível de ser comprada de empresas estrangeiras.38
O terceiro argumento ' de que a revitalização permitiria a exportação de MD de
forma rentável para as empresas, mesmo que sob condições favoráveis como as que
vigoraram nos anos de 1980, quando o País tinha como clientes países árabes em
guerra ' é também facilmente contraditado. De fato, a informação disponível nos
bancos de dados internacionais sobre oferta e demanda de MD mostram um
considerável estreitamento do mercado para produtos como os que a ID brasileira
poderia produzir.39
O mesmo tipo de informação permite invalidar o argumento da substituição de
importações. Uma análise dos fluxos brasileiros de exportação e importação de
MD mostra sua composição é muito distinta. O que pode ser interpretado como uma
muito baixa elasticidade de substituição do material importado pelo nacional,
denotando uma situação de "não-substituibilidade tecnológica". De fato, mesmo
durante os "anos dourados" da ID houve uma saturação tecnológica do cliente FAs
brasileiras em relação ao MD de baixa intensidade tecnológica produzido pela
ID. Embora contassem com recursos, as FAs não se interessaram em absorver a
produção local até o final da guerra Irã'Iraque orientada ao mercado externo, e
continuaram importando os itens mais intensivos em tecnologia que nunca foram
produzidos internamente.40
O último argumento, relativo a pretensas vantagens geopolíticas que a produção
local de MD proporcionaria, além de ter sido incisivamente questionado por
pesquisadores das áreas de relações internacionais e de assuntos militares, é
cada vez menos coerente com o cenário internacional e com a realidade do
País.41
É claro que a simples disponibilidade de informação e análise capaz de rebater
os argumentos da rede da revitalização não implica necessariamente que os
tomadores de decisão acerca do tema as conheçam, tampouco que as utilizem como
insumo para informar a sua conduta. Não obstante, o fato de que essa conduta é
coerente com o que é massivamente veiculado pela rede através da mídia, merece
ser considerado, uma vez que isso pode ser indício de uma outra
racionalidade...
Considerações finais
Três considerações encerram o processo investigativo a que se propôs este
trabalho acerca do processo decisório associado à revitalização da ID buscando
identificar as causas de seu diferimento.
A primeira diz respeito à natureza do processo decisório da revitalização. Ao
que parece, esse processo não se coaduna com o modelo racional, em que os
atores tomam suas decisões apoiando-se numa seqüência de passos
sistematicamente aplicada a problemas que são entendidos como "técnicos" (e não
políticos), num ambiente em que valores e interesses são claramente
explicitados. Igualmente, não se coaduna com o incremental, em que a elaboração
da política é um processo inescapavelmente político, as percepções e interesses
dos atores permanecem encobertas, mas invadem todas as suas etapas, e no qual é
no momento da implementação, mais do que o da formulação, que os conflitos se
revelam.
Isso parece aproximar-se do modelo proposto por Hogwood e Gunn (1984)
denominado de modelo do processo organizacional,42 em que as decisões e ações
do governo são interpretadas como um resultado de um comportamento que tem por
base rotinas e procedimentos-padrão previamente definidos no interior de uma
organização, a qual guarda uma considerável distância em relação ao jogo social
e às pressões de atores envolvidas com a política.
Sua característica de um meio termo entre os extremos racional e incremental
sugere que esse modelo possa ser utilizado para representar uma solução de
compromisso entre duas tendências concretas, cada uma forçando a vigência (ou
implantação) de um desses extremos. Assim, a dinâmica do processo decisório da
revitalização não seria a tipificada pelo modelo racional, em que seu ator mais
presente (ou em evidência) pretenderia implantar forçando um confronto aberto;
nem aquela incremental, cuja preferência se imputa ao ator mais influente no
processo decisório: a rede da revitalização.
A trajetória da revitalização seria então, fundamentalmente, o resultado de um
procedimento levado a cabo no interior do aparelho de Estado por quadros
técnico-políticos relativamente estáveis, que teria como objetivo de longo
prazo dotar o País dos meios de defesa coerentes com cenários de conflito por
eles previamente definidos, e atendendo a critérios próprios, ainda que
sensíveis às visões e pressões que se manifestam no ambiente da Política de
Defesa. A consecução desse objetivo seria lograda com um grau de autonomia
significativo em relação aos quadros dirigentes de cada uma das forças. Entre
outras razões para isso, talvez em função de um passado em que cada um deles
podia ter acesso direto ao nível de maior hierarquia da estrutura
governamental, não têm conseguido um acordo que permita a implementação
sequenciada ou ao menos combinada de seus respectivos projetos de
reaparelhamento.
A forma de atuação daqueles quadros técnico-políticos se dá por meio do
aproveitamento das oportunidades de negócio surgidas no mercado MD, em especial
naquele dos sistemas de armas de custo mais elevado produzidos no exterior,
caracterizado por uma volatilidade e formas de negociação características.
Assim, embora inserido num contexto caracterizado por uma visão de longo prazo,
por restrições orçamentárias, pela necessidade de conter as pressões exercidas
pelos partidários da revitalização e por atores a ela refratários em função de
seus interesses pecuniários, e pelo imperativo de garantir a autoridade do
governo democraticamente constituído, o procedimento teria características
eminentemente responsivas. Por um lado, às situações conjunturais do mercado
(possuindo agilidade e autoridade suficientes para aproveitá-las) e, por outro,
às mudanças naquele contexto; respondendo a ambas a partir de critérios e
considerações de natureza fundamentalmente política.
A segunda consideração relaciona-se com as características do ator responsável
por aquele procedimento que funcionaria segundo o modelo do processo
organizacional. E que, possuindo motivações, estratégias e formas de atuação
muito distintas daquelas da rede da revitalização, seria capaz de produzir
jogadas que dificultariam a sua efetividade.
Até quando o governo poderá manter a distância que hoje existe entre a agenda
da rede da revitalização e a sua própria agenda de governo, fazendo com que ela
seja aceita como sendo a agenda da política, depende de sua força política.43 E
também da postura que se adote em relação ao jogo da revitalização.
Nesse sentido, convém destacar que até agora sua imagem externa tem sido a de
uma policy community44 organizada em torno de valores e objetivos específicos e
permanentes (neste caso, razões de Estado) visando a proporcionar serviços e
soluções para problemas de interesse público. Policy community essa que, por
ter de manter um baixo perfil de atuação, faria o possível para não se
transformar numa epistemic community ' o que poderia ocorrer caso seus
integrantes, usando o recurso cognitivo que possuem, passassem a debater
publicamente com a rede da revitalização os argumentos que apresentam. Ou,
ainda, numa policy advocacy coalition, caso desejassem transmitir confiança ao
público acerca da veracidade de sua visão e da aplicabilidade de suas
propostas, aumentando assim sua influência (Marsh e Rhodes, 1992).
A última consideração diz respeito a duas dificuldades inerentes à análise aqui
desenvolvida e que tornam seu resultado também intrinsecamente precário e
difícil de fundamentar.
A primeira decorre do fato de que militares estão presentes em todos os três
grupos que participam no jogo da revitalização que, para defender seus
interesses (no caso dos dois primeiros) ou cumprir uma missão institucional (no
caso do último) buscam conferir ao processo decisório as características que
lhe são mais convenientes. Os militares participam da rede da revitalização,
que buscaria impor um modelo decisório que atenda à sua racionalidade; do grupo
privilegiado pela atual estrutura das FAs e que apenas aceitaria mudanças
incrementais que não afetassem significativamente seus direitos adquiridos; e
do nível de hierárquico superior dos tomadores de decisão que, nos bastidores
da política, estariam atuando de acordo com o modelo do processo
organizacional.
A segunda dificuldade, que se superpõe à anterior, diz respeito à própria
concepção que se tem dos militares enquanto atores políticos. Proença Junior e
Brigagão (2007) sugerem um espectro de seis possibilidades indicando que os
militares brasileiros costumam ser entendidos como: (1) esteio da nacionalidade
dotado de superioridade moral em relação aos civis ao qual se faculta atuar
acima de salvaguardas constitucionais ou legais; (2) "poder moderador" situado
acima e sendo responsável pelos três poderes constitucionais; (3) instrumento
de manutenção do poder das elites conservadoras contra o interesse das classes
populares; (4) "partido militar" capaz de calibrar autonomamente seu grau de
ingerência política; (5) ator político que parasita a sociedade em função das
armas que possui e assegura sua continuidade institucional em troca de sua
tolerância à existência do poder civil e da democracia; (6) corpo profissional
que provê o País dos meios de força de que necessite e, ao mesmo tempo,
constrói os vínculos e relacionamentos democráticos que afastariam a
possibilidade de intervenções militares.
Dependendo da perspectiva que se adote para entender seu comportamento é bem
distinto o cenário que se poderá antever para o jogo da revitalização...
Post-scriptum
Em dezembro de 2008, alguns meses depois deste trabalho ser aprovado para
publicação, foi lançada a Estratégia Nacional de Defesa. De fato, mais de cinco
anos depois de anunciada como um dos objetivos do ciclo de debates mencionado
na Introdução. Coroando um esforço midiático aparentemente bem-sucedido da rede
da revitalização, ela traz como um dos seus três "eixos estruturantes a
reorganização da indústria nacional de material de defesa, para assegurar o
atendimento das necessidades de equipamentos das Forças Armadas" (Jobim, 2009).
Num tom de quase-censura das ações governamentais para equipar as FAs, a
Estratégia fala em colocar as empresas da ID a salvo "das pressões do
imediatismo mercantil" e de "considerações comerciais" que estariam ocorrendo
em detrimento dos "imperativos estratégicos" do País (Ministério da Defesa,
2008 p. 26 e seguintes). A julgar por essa passagem, e pela promessa de "um
regime legal, regulatório e tributário especial" que, entre outros favores,
dispensará as empresas de entrar em licitações, as protegerá contra o risco dos
contingenciamentos orçamentários, assegurará a continuidade das compras das FAs
e as contemplará com recursos públicos para alavancar seus negócios, a rede da
revitalização parece ter obtido uma expressiva vitória.
No plano do discurso governamental, a menção ao "imediatismo mercantil" pode
ser interpretada como um recado claro e incisivo da rede da revitalização para
aquele grupo de tomadores de decisão da Política de Defesa até agora pouco
sensível aos seus argumentos que sua ação passaria a ser obstaculizada a partir
de agora pela força da lei; isto é, por meio de um "regime legal, regulatório e
tributário que reflita tal subordinação (aos "imperativos estratégicos")".
Não obstante, o fato de que no seu último item ' Disposições Finais ' a
Estratégia condicione sua implantação a documentos complementares, dentre os
quais alguns em que a ID aparece como objeto de planos, projetos, estudos,
etc., deixa no ar a pergunta: será que o período de mais de duas décadas de
adiamentos da revitalização terá efetivamente terminado?
Notas
1 Os oito debates realizados, cujos registros se encontram-se disponíveis no
sítio do Ministério da Defesa, estiveram sempre focados na orientação que
deveria seguir a Política de Defesa. Foram publicados quatro livros que deram a
conhecer as idéias veiculadas no Ciclo.
2 O livro que se originou do Ciclo de Debates dedicado ao tema tratado neste
trabalho (Pinto et al., 2005) é, se não a única, a principal referência
disponível. Com o objetivo de dar a conhecer a opinião dos maiores conhecedores
do assunto, a obra conta inclusive com um texto assinado por vários ex-
ministros de C&T e de Defesa. Todos os artigos ali incluídos, com exceção
de Dagnino (2005), enfatizam de forma radical, ainda que pouco fundamentada em
informação secundária ou primária e tampouco nos trabalhos publicados por
economistas de defesa, os efeitos econômicos e tecnológicos positivos da
P&D e da produção militar.
3 Reivindicando um aumento no orçamento, vários militares se referiram às
missões das FAs com o costumeiro tom grandiloqüente (Proença Jr. e Brigagão,
2007) e, à sua situação, de modo pungente e alarmista. Entre os partidários da
ampliação do gasto militar do mundo civil, o mais destacado foi o senador
Marcelo Crivela que sem maior fundamentação propôs a cifra ideal de 2,1% do
PIB. Do lado contrário, como era de se esperar, o maior destaque não foi dos
militares, e sim da jornalista, de tendência conservadora, Míriam Leitão.
Demonstrando amplo conhecimento dos argumentos dos seus adversários, e
contrariando o senso comum relativo à escassa parcela do PIB dedicada às FAs,
ela concentrou-se na necessidade de uma profunda reorganização das FAs: "o que
está diante dos militares brasileiros, nesse momento, é o desafio de gastar de
forma mais eficiente e com as prioridades reais os recursos oferecidos pelo
contribuinte" (Pinto et al., 2005, p. 155).
4 A visão de que a profissionalização das FAs brasileiras poderia ocorrer pela
via científico-tecnológico-produtiva tem sido avaliada em diversas
oportunidades e por pesquisadores que se colocaram de forma crítica ou
favorável a ela: Dagnino (1983, 1984), Brigagão (1985), Proença Junior (1990),
Franko-Jones, Dagnino e Franko-Jones (1992), Conca (1992, 1997), Proença Junior
e Franco (1993), Cavagnari Filho (1996), Dagnino e Proença Junior (1998) e
Costa (2007). Para se ter uma idéia de quão consensual é essa visão, vale
enfatizar que todos eles assinalaram que ela parecia ser muito bem recebida
pelas evites civis.
5 Para Bardach (1998), trata-se de um conjunto de conhecimentos proporcionado
por diversas disciplinas das ciências humanas utilizado para buscar analisar ou
resolver problemas concretos concernentes à política (policy) pública. Segundo
Dye (1976, p. 1), fazer "Análise de Política é descobrir o que os governos
fazem, porque fazem e que diferença isto faz". Para ele, Análise de Política é
a descrição e explicação das causas e conseqüências da ação do governo. O
escopo da Análise de Política, porém, vai muito além dos estudos e decisões dos
analistas, porque a política pública pode influenciar a vida de todos os
afetados por problemas das esferas pública (policy) e política (politics), dado
que os processos e resultados de políticas sempre envolvem a vários grupos
sociais e porque as políticas públicas se constituem em objeto específico e
qualificado de disputa entre os diferentes agrupamentos políticos com algum
grau de interesse pelas questões que têm no aparelho de Estado um locus
privilegiado de expressão.
6 Tal como ressaltam Ham e Hill (1993), esse instrumental é especialmente
adequado para a abordagem de processos decisórios envolvendo atores poderosos e
interesses pouco explícitos.
7 Entre vários pesquisadores de países com sólida tradição democrática (o que
não é o caso Brasil), e onde os militares não têm exercido papel político
marcante (o que está longe de ser o caso Brasil), Faltas (1985) foi um dos
primeiros a salientar o clima de sigilo que cerca o processo decisório
relacionado à produção e comercialização de MD, e a conseqüente dificuldade em
desvendar o processo de tomada de decisão que o orienta.
8 Em relação ao conceito de problema (ou situação-problema), quatro aspectos
merecem ser lembrados: (a) um problema social não é uma entidade objetiva que
se manifesta na esfera pública de modo naturalizado, como se ela fosse neutra e
independente em relação aos atores ' ativos e passivos ' do problema; (b) não
há situação social problemática senão em relação aos atores que a constroem
como tal; (c) reconhecer uma situação como um problema envolve um paradoxo,
pois são justamente os atores mais afetados os que menos têm poder para fazer
com que a opinião pública (e as elites de poder) a considere como problema
social; (d) a condição de penalizados pela situação-problema dos atores mais
fracos costuma ser obscurecida por um complexo sistema de manipulação
ideológica que, com seu consentimento, os prejudica (Dagnino, 2002).
9 Para Lindblom (1981), um processo decisório de tipo racional envolve comparar
(e escolher) as alternativas que melhor sirvam à obtenção de um dado resultado.
O que, no limite, envolve: (a) listar todas as estratégias alternativas; (b)
determinar todas as conseqüências que decorrem de cada estratégia alternativa;
(c) avaliar comparativamente cada um dos conjuntos de conseqüências.
10 As policy networks podem ser entendidas como um sistema de governança onde
vários atores estabelecem múltiplas ligações (que podem ser comunicações
confidenciais, suporte político, colaboração estratégica, obrigação formal de
reportar e consideração de interesses de outros autores no seu próprio processo
decisório) no âmbito do processo de negociação (RAAB, 2004).
11 Ator social é uma pessoa, grupo ou organização que participa de algum jogo
social; que possui um projeto político, controla algum recurso relevante;
possui, acumula (ou desacumula) forças no seu decorrer, sendo, portanto, capaz
de produzir fatos capazes de viabilizar seu projeto (Matus, 1996).
12 A diferença entre essa forma de governança baseada na atuação de as policy
networks e a de tipo corporativista (até há pouco predominante) estaria pautada
pela mudança do caráter das relações entre Estado e sociedade. No lugar de uma
situação hierarquizada em que o Estado organizava interesses privados e
arbitrava conflitos entre grupos corporativos que quase não interagiam, emerge
uma configuração em que seus representantes interagem entre si e com burocratas
estatais (em uma base igualitária) de modo a, legitimamente, estabelecer o rumo
das políticas públicas sem cair numa desregulação maximizadora do papel do
mercado (Dagnino, 2006).
13 É possível caracterizar o agir social como um jogo, que pode ser de natureza
cooperativa ou conflitiva, em que diferentes atores, com perspectivas que podem
ser comuns ou divergentes, possuem recursos distribuídos segundo suas histórias
de acumulação de forças em jogos anteriores. As regras do jogo podem se alterar
segundo o interesse dos atores em função de jogadas e acumulações,
reconfigurando as condições em que ele se desenvolverá. É mediante essas
acumulações que eles podem ampliar (ou reduzir) sua capacidade de produzir
novas jogadas e alterar a situação inicial (Matus, 1996).
14 Entendido como o conjunto dos três momentos (também chamados de fases ou
estágios), interligados por laços de realimentação, de formulação,
implementação e avaliação da política (Dagnino et al., 2002).
15 A efetividade de uma policy network que "aposta" em uma área de política
pública visando ao sucesso de um dado arranjo político-institucional depende do
modo em que se dá o intercâmbio de recursos que os atores nela envolvidos
possuem, em função da posição que ocupam em contextos nacionais ou
internacionais marcados por uma dada distribuição de poder, relações de
autoridade, interesses, dependências, hábitos, práticas, expectativas,
preferências, normas consensualmente aceitas ou institucionalmente impostas. A
análise dos interesses e recursos dos atores e o monitoramento de seu
comportamento são um excelente indicador prospectivo de viabilidade da policy
network e dos contornos que o arranjo tenderá a adquirir (Blom-Hansen, 1997).
16 A coletânea organizada por Pinto et al., (2005) apresenta inúmeros exemplos
de manifestações dessa natureza.
17 Os problemas percebidos por um ator ou grupo social envolvido com uma
política (a partir de sua perspectiva valores, crenças, posturas político-
ideológicas e interesses) compõem sua agenda particular. Entre as agendas
particulares está a agenda de governo, que expressa os valores e interesses
daqueles que governam (Dagnino et al., 2002).
18 A agenda da política pública (do processo decisório, ou do processo de
formulação da política, ou ainda, agenda decisória) é o conjunto de problemas
ou demandas que os que governam (ocupam o aparelho de Estado num determinado
momento) admitem (voluntariamente ou sob pressão) e classificam como objetos
sobre os quais vão atuar. Pode ser entendida como uma média ponderada pelo
poder relativo do ator das agendas particulares dos atores. Considerando que o
termo ator é usado para designar um coletivo (grupo social, organização etc.,
em geral não-monolítico), convém salientar que o mesmo vale para uma agenda
particular: ela também é uma combinação dos valores e interesses de indivíduos
diferentes com poder distinto.
19 Grupo integrado por um pequeno número de países periféricos que desafia pela
via violenta o direito das grandes potências de dominar o mundo à custa do
sacrifício dos interesses de seus cidadãos (Escudé,1995).
20 Segundo Simon (1957), num processo decisório de tipo incremental, a ação de
partidários de posições distintas interessados em influenciar as decisões
provoca um ajuste mútuo e contínuo entre eles fazendo com que a situação que
tende a resultar do processo difira apenas incrementalmente da que
anteriormente existia.
21 A partir de cálculos elaborados pelo autor com base em dados disponíveis em
<www.camara.gov.br>.
22 Bachrach e Baratz (1962) definem não-tomada de decisão como sendo a prática
de limitar o alcance real da tomada de decisão a questões seguras, através da
manipulação de valores dominantes na comunidade, mitos, procedimentos e
instituições políticas. A não-tomada de decisão ocorre quando os valores
dominantes, as regras do jogo aceitas, as relações de poder entre grupos e os
instrumentos de força, separadamente ou combinados, efetivamente previnem que
certas reclamações transformem-se em assuntos maduros que exijam decisão,
diferindo de assuntos que não se devem tornar objeto de decisão (entrar na
agenda de política). Num processo de não-tomada de decisão atuam aquilo que é
chamado de duas faces do poder: uma operando nos conflitos abertos sobre
decisões-chave, e a outra, buscando suprimir conflitos e fazendo o possível
para que um assunto não-seguro não entre no processo político.
23 Lukes (1974) cunhou a expressão "três faces do poder" para destacar que o
poder deve ser estudado em três dimensões: (a) a dos conflitos abertos entre
atores sobre assuntos-chave, quando o exercício do poder é explícito e pode ser
observado "a olho nu"; (b) a dos conflitos encobertos, quando ocorre a
supressão das reclamações impedindo que cheguem a ser incluídas na agenda de
decisão; e (c) a dos conflitos latentes, quando o exercício do poder se dá
conformando as preferência da população, através de mecanismos ideológicos de
difusão do sistema de crenças e valores dominante, de maneira a prevenir que
nem conflitos abertos nem encobertos venham a se manifestar no processo
decisório.
24 São tão numerosas as manifestações divulgadas por esta e pelas outras duas
vias que seria impossível mencioná-las aqui. Apenas a título de exemplo, ver
Coimbra (2001)
25 Também apenas a título de exemplo, ver Drumond (2003).
26 Ainda apenas a título de exemplo, ver IstoÉ, 21/6/2006.
27 O modelo cognitivo de um ator é o modelo a partir do qual ele irá descrever,
explicar e prescrever acerca do objeto da política e do seu contexto, e irá
participar no processo decisório. O modelo cognitivo possui uma relação de
realimentação com a agenda e com o projeto político do ator. De fato, dado que
a maneira como ator percebe a realidade (modelo cognitivo) lhe permite entendê-
la de uma forma mais coerente com seu projeto político, mais sintonizada com
eles tenderá a ser a sua agenda.
28 Dependendo do poder relativo do ator, seu modelo cognitivo poderá ser
percebido como correto, ser socialmente legitimado, e influenciar decisivamente
a forma e conteúdo da política. No limite, e semelhantemente ao que ocorre no
caso das agendas quando um ator dominante consegue impor a sua agenda como a
agenda da política, quando existir um ator capaz de enviesar significativamente
o processo decisório, a política incorporará o modelo cognitivo particular
desse ator. Ele passará a ser o "modelo cognitivo da política"; o qual passará
a servir de referência para todos os atores intervenientes, levando
iterativamente ao fortalecimento do poder do ator dominante. O que irá
dificultar progressivamente a irrupção de conflitos encobertos e latentes e,
inclusive, influenciar o modelo cognitivo dos atores com menor poder.
29 Segundo Etzioni (1967), o ajuste mútuo entre partidários de interesses
diferentes nem sempre é, de fato, mútuo. O fato desse ajuste tender a ser
enviesado em favor dos atores mais influentes e mais organizados, fazendo com
que questões não-seguras sejam negligenciadas, costuma levar os atores com
menor poder a concentrar seus esforços na tentativa de introduzir estas
questões na agenda política.
30 Nem todos os problemas que conformam as agendas particulares têm a mesma
facilidade de fazer parte da agenda decisória (ou agenda da política) e, assim,
impor aos que governam a necessidade de atuar sobre eles. A força ou debilidade
de um ator pode ser avaliada pela sua capacidade de aproximar a agenda
decisória de sua agenda particular.
31 O sistema de crenças e valores dominante numa determinada área de política
pública, ao atuar "naturalmente" em favor de certos grupos conforma uma
situação em que eles não precisam "lutar" para exercer o poder. E,
alternativamente, obriga aos menos poderosos a lutar para que suas opiniões
sejam ouvidas e para que seus conflitos latentes possam entrar na agenda
política e se transformar em conflitos abertos (Lukes,1974).
32 Apenas como exemplo, se indicam nesta nota e nas que seguem algumas notícias
recentes. Teria sido negociada com a Rússia a troca de carne e frango por
quarenta helicópteros (12 Mi-35, de ataque e 28 Mi-171, de transporte) que,
depois, se reduziram a doze helicópteros de ataque Mi-56 (na verdade trata-se
do Mi-35, uma vez que não existe o modelo Mi-56) num valor de 180 milhões de
dólares (IstoÉ, 27/8/2007). Foram adquiridos do governo francês, por 80 milhões
de euros, doze aviões Mirage C-2000 usados (Valor Econômico, 4/9/2006).
33 A informação mais recente é que uma parte significativa do aumento de 50%
que teria sido concedido ao Ministério da Defesa para 2008 seria usado no
reaparelhamento das FAs (Valor Econômico, 5/9/2007). E que teriam sido
destinados R$ 2 bilhões ao Exército para a compra de blindados a serem
produzidos por uma nova indústria de carros de combate; R$ 1,5 bilhão, à
Marinha para o programa do submarino nuclear; e R$ 2 bilhões à Aeronáutica para
adquirir aviões de caça franceses Rafale produzidos no exterior e em consorcio
com a Embraer (IstoÉ, 2007).
34 Estaria sendo negociada com a Eurocopter a transferência de tecnologia à
Helibrás para a produção de helicópteros Cougar e Pantera que equipariam a
Força Aérea (IstoÉ, 2007).
35 Segundo a mesma matéria, as FAs brasileiras teriam recebido até a sua
publicação 18 milhões de dólares de MD, incluindo quatro fragatas e dois outros
navios; o que representaria mais do que toda a ajuda militar norte-americana
concedida ao País durante a década de 1990.
36 Um governo forte é aquele que consegue impor ' mediante a coerção aberta, o
convencimento, ou através de mecanismos ideológicos ' a sua agenda de governo,
fazendo com que os outros atores sociais a aceitem como sendo a agenda
decisória. Ou, em outras palavras, que consegue fazer com que a agenda
decisória se confunda com a sua agenda de governo. A força de um governo
(governabilidade) é inversamente proporcional à distância entre a agenda de
governo e a agenda decisória que a contém.
37 Em Dagnino (2008) se oferece uma detalhada resenha da literatura
internacional recente acerca desse tema.
38 Este argumento encontra-se desenvolvido em Dagnino e Proença Junior (1998).
39 Tal linha de raciocínio está detalhada em Dagnino (1994).
40 Este argumento encontra-se desenvolvido em Dagnino (2005).
41 Em Dagnino (2005), usando a expressão popular "cutucar a onça com a vara
curta", demonstra-se a pouca efetividade e o perigo que envolve o argumento
apresentado pela rede da revitalização.
42 Além desse, muitos autores têm proposto modelos que se situam entre os dois
modelos extremos ' incremental e racional ', que são, na verdade, idealizações
convenientes para a análise e não descrições da realidade (Etzioni, 1967;
Harrison, Hunter e Pollit, 1990; Dror, 1964).
43 Quanto maior a disparidade entre a agenda decisória e a agenda de governo,
maior a probabilidade de enfrentamento entre os que governam e os demais atores
envolvidos, e maior a exigência de governança (capacidade de governar). E,
alternativamente, maior a probabilidade de que o governo venha a abandonar a
sua agenda (e seu projeto político) ou incorporar a ela problemas provenientes
da agenda de seus adversários para obter seu apoio político.
44 Ao contrário das policy networks, que aumentam seu poder atraindo atores de
uma maneira pouco exigente, operando por inclusão, a policy community tende a
operar por diferenciação e possui critérios mais estritos de entrada (Marsh e
Rhodes, 1992).