Organização política e cultivos ilícitos de coca na Bolívia: uma abordagem
etnográfica
Um fato que sempre causa forte impressão a qualquer um que tente compreender a
história política boliviana é a instabilidade de seus governos. Alguns
cientistas políticos bolivianos tentaram explicar a recorrência dos violentos
dissensos na política institucional invocando uma incompatibilidade entre as
normas consuetudinárias da maioria da população de origem indígena - o que
chamarei aqui de cultura política - e os princípios filosóficos da ideologia
democrática (Lazarte, 2002; Mansilla, 2003, 1993; Benavides, 2004; Ceres 1987,
p. 100). Outros sugeriram que a sociedade boliviana seria incapaz de "produzir
um sistema de organização política" adequado a conduzir sua "governabilidade"
devido à incompatibilidade entre as expectativas de realização política da
maioria de origem indígena e a orientação divergente do restante da população,
mais ocidentalizada (Calderón e Santos, 1987, p. 109). Tais explicações são
baseadas na evidente heterogeneidade cultural e na segmentação étnica do campo
político no país.
Com o objetivo de contribuir para uma compreensão do cenário político
contemporâneo na Bolívia, descreverei o funcionamento e a lógica de atuação do
segmento que mais cresceu, nos últimos anos, em termos de representação
política institucional: a maioria indígena-camponesa das etnias quéchua e
aymara. A constatação da instabilidade política e da diversidade cultural desse
país será apenas o ponto de partida da investigação. Minha estratégia de
explicação das dificuldades de conciliação política no cenário boliviano
percorrerá dois aspectos constituintes de sua cultura política: (1) a história
de longa duração1 que justifica o uso da noção de "mundo andino" (Murra, 2002)
como instrumento heurístico aplicado àquela realidade e (2) os acontecimentos
relacionados com a intervenção estrangeira na "guerra contra as drogas". Quanto
ao primeiro tópico, refiro-me a processos de longa duração que moldaram a
mentalidade coletiva e sua cultura política: as formas pré-incaicas de
administração da justiça, o papel proeminente do coletivo sobre o individual,
as formas cooperativas de produção e a ideologia igualitária que ela implica.
No segundo aspecto, o pano de fundo da etnografia será a questão da luta
internacional antidroga, da qual a Bolívia tem sido um dos principais alvos.
Muitos especialistas em "mundo andino" já assinalaram a interdependência entre
o passado e o presente na história das sociedades que o compõem, para citar
alguns temas: na religião (Marzal, 1995; Van Den Berg e Schiffers, 1992) e na
cosmologia (Zuidema, 1989; Duviols, 1973; Bouysse-Cassegne e Harris, 1987;
Nash, 1979); nas relações de parentesco e economia (Mayer e Bolton, 1980;
Ossio, 1992), na política (Flores Galindo, 1988; Platt, 1982; Orta, 2001;
Choque e Mamani, 2001). A noção de "mundo andino", portanto, supõe a existência
de formas estruturais de longa duração capazes de influenciar identidades
coletivas e padrões de ações no presente. Neste artigo, apresentarei uma
interpretação da cultura política boliviana atual ao descrever uma reunião em
um "sindicato rural" da região do Chapare, a principal área de cultivo ilícito
de folha de coca do país.2 "Sindicato rural" é o nome oficial dado às antigas
comunidades rurais, após a Revolução de 1952.3 Essas comunidades rurais,
presentes ao longo de toda região rural boliviana, são pensadas aqui como
herdeiras diretas dos ayllus4 e de suas formas de governar seus membros e
território.
No entanto, o presente logicamente possui suas determinantes próprias na vida
política boliviana. Neste caso, a perseguição internacional ao cultivo ilícito
da folha de coca, associado às condições econômicas deterioradas do campesinato
boliviano geraram um cenário muito propício para o movimento social dos
cocalerosbolivianos, a base do MAS (Movimiento al Socialismo) partido criado e
chefiado pelo presidente Evo Morales. O local onde realizei meu trabalho de
campo em julho de 2003, e durante o ano de 2004, é uma área relativamente
recente de cultivo de coca na Bolívia. Conhecida internacionalmente como zona
produtora de drogas, a região do Chapare foi, nos últimos anos, a área de maior
tensão social na Bolívia, devido às operações de erradicação dos cultivos de
coca que opuseram os camponeses às forças policiais e exército.5 Esta zona de
colonização desenvolveu-se graças ao cultivo de coca, destinado à produção
ilícita de drogas, nas décadas de 1970 e 1980. Devido ao surgimento de grande
mercado consumidor ilícito, o Chapare tornou-se ponto de convergência de uma
enorme massa camponesa sem-terra, ou proletários urbanos em processo de
"recampesinização" (Arrieta Abdala, 1989). Ou seja, antes de migrarem, alguns
dos novos cultivadores de coca já haviam sido inseridos em processos típicos da
economia capitalista. Alguns deles, operários demitidos das minas, privatizadas
ou falidas, eram representativos da então vanguarda esquerdista do país.6
Uma reunião sindical: a base social da política indígena - cocalera
Tratava-se apenas de uma reunião de rotina, como qualquer outra que ocorre
mensalmente em todas as comunidades camponesas do Chapare. Entre os presentes,
nove homens, onze mulheres e cinco crianças com idades entre seis meses e doze
anos. O local era rústico, um barracão de cerca de trinta metros quadrados,
coberto com telhas de barro. As paredes não vedavam totalmente o ambiente,
assemelhavam-se mais a um muro baixo, pois deixavam uma abertura de cerca de um
metro até o teto. Isso tornava o local bastante iluminado pelo sol da manhã,
mas parcialmente desprotegido das folhas das árvores que eram levadas pelo
vento para o piso de terra do prédio do sindicato de Bomborazama. Uma tábua
toscamente aplainada sobre dois troncos estava recostada em uma das paredes e
servia de assento para alguns; mulheres e crianças sentavam-se ao chão; outros,
apenas acocorados ou recostados nas paredes. No canto do salão, uma pequena
mesa de madeira. Sobre ela, folhas de coca, alguns recortes de jornais, atas
das reuniões e, atrás da mesa, o dirigente sindical.
Ele não era um ancião da comunidade, ao contrário, era talvez o mais jovem
dentre os presentes. Não mais que 30 anos. O cargo é rotativo e anualmente a
comunidade escolhe um de seus membros para ocupá-lo. Qualquer homem casado e
possuidor de um terreno (chaco) é elegível. Todavia, não existe grande
competição nem disputa para exercer a liderança neste nível da organização
camponesa. Todos os homens terão a oportunidade de dedicar horas gratuitas de
seu trabalho para servir à comunidade. O respeito que o dirigente sindical
merece advém justamente de abdicar de uma parcela considerável de seu tempo,
trabalho e recursos privados em prol da comunidade. O prestígio não é uma
condição para desempenhar essa tarefa, é uma conseqüência dela.
O prédio do sindicato seria um lugar pouco intrigante não fosse por um pequeno
cubículo em uma de suas extremidades. Formava um espaço de cerca de três metros
de frente por um de fundo e era destinado à guarda provisória de alguma
ferramenta ou material de trabalho, mas sua função principal era a reclusão de
moradores da comunidade (comunarios), caso fosse necessário. Durante minha
permanência em campo, a pena de reclusão não fora aplicada. Não obstante, a
existência da cela atestava a autoridade comunitária na resolução autônoma de
seus conflitos. Apesar de ser uma comunidade de menos de quarenta anos e muitos
de seus habitantes terem nascido na própria zona subtropical, ainda é a cultura
política dos habitantes das terras altas da Bolívia (altiplano), de onde
emigraram os colonizadores do Chapare, que norteia grande parte da sua
organização social. A resolução dos conflitos internos pela própria comunidade
é uma tradição andina reconhecida pela Constitución Política del Estado (C. P.
E.): "as autoridades naturais das comunidades indígenas e camponesas poderão
exercer funções de administração e aplicação de normas próprias como solução
alternativa de conflitos, em conformidade com seus costumes", mas ressalva que
isso ocorrerá sempre que suas deliberações "não sejam contrárias a essa
Constituição e às leis" (Constitución Política del Estado (C. P. E.), artigo
171, inciso III). Na prática, somente os casos em que uma das partes se dispõe
a romper relações com o restante do grupo, não se submetendo ao seu veredicto,
são levados aos tribunais estatais.
A administração da justiça é uma característica das "comunidades corporadas"
das terras altas da América Latina (Wolf, 2003). Os ayllusdo altiplano
boliviano procuraram manter essa prerrogativa, a despeito da estratégica
Reforma do virrey Francisco de Toledo (1569-1581), que dividiu os sistemas
jurídicos na colônia entre "república de índios e de espanhóis". Isso resultou
na predominância do sistema jurídico dos colonizadores sobre as leis andinas,
tratadas apenas como "usos e costumes". Todavia, os interesses da metrópole em
reduzir gastos administrativos propiciaram a preservação de alguma autonomia na
administração da justiça nos assentamentos indígenas criados pelos
colonizadores para fins de catequese, tributários e administrativos, as
chamadas reducciones. Segundo a Reforma toledana, os ayllus pré-incaicos,
subdivididos durante a colonização espanhola em conselhos administrativos
conhecidos como cabildos indígenas, passaram a escolher seus governantes
anualmente (Toledo, [1569] 1867, p. 157). Essa concessão da metrópole à
autonomia administrativa dos ayllus acabou por criar respaldo documental,
posteriormente usado por eles, para reivindicar território e autonomia jurídica
durante a República (Rivera Cusicanqui, 1991; Platt, 1982).
Após a Revolução de 1952, as comunidades tradicionais sofreram nova modificação
em sua terminologia administrativa e passaram a ser chamadas de "sindicatos
rurais". A fim de dar execução a seu projeto de estender suas redes
clientelistas ao campo, o "Estado de 52" duplicou a fonte de autoridade
naquelas comunidades, sobrepondo, de maneira conflitante, o dirigente sindical,
que deveria ser eleito anualmente, à autoridade tradicional dos jilaqatas, os
chefes tradicionais dos ayllus.
Apesar da controvertida implantação dos sindicatos no altiplano, seu
reconhecimento jurídico foi decisivo para a conformação do que reconhecemos
hoje no Chapare como formas de administração herdadas dos ayllus, tal como
resultaram de seu longo processo de transformação histórica. Depois da
Revolução de 52, os sindicatos atuaram como meio de ingerência estatal nas
comunidades indígenas das terras altas. Segundo Fernandez Osco (2000, p. 79), o
sindicalismo projetou as leis bolivianas nessas comunidades como "um modelo de
modernidade que o nacionalismo tentava levar às massas indígenas",
relativamente isoladas. Em vez de recorrer exclusivamente à memória, a decisão
jurídica de processos internos à comunidade passou a legitimar-se através das
atas; ao mesmo tempo as multas econômicas substituíram parcialmente os açoites
(chicotazos) e outras sanções físicas, como a mutilação. A pena capital foi
combatida pelos representantes do Estado. Em muitas daquelas comunidades a
forma dos sindicatos prevalece ainda hoje e pode ser largamente interpretada
como inspirada na organização dos ayllus(Albó, 1972). No Chapare podemos
constatar a adoção criativa dessa forma de organização política como um
mecanismo adaptativo empregado pelos colonizadores em um meio natural e
econômico desconhecido para eles, que acabavam de emigrar do planalto.
Tais indícios puderam ser notados em vários momentos daquela reunião em
Bomborazama. Naquela manhã, a assembléia iniciou-se com a leitura da ata do mês
anterior, feita por uma auxiliar do dirigente sindical. Foram pouco mais de
trinta minutos sem interrupção, discorrendo sobre as resoluções adotadas na
reunião anterior. Eram referentes a assuntos de interesse público sobre a
gestão de recursos coletivos e decisões acerca de intrigas matrimoniais.
Explicita-se neste último tópico a face tradicional da administração sindical
que o Estado de 52 não conseguiu apagar do horizonte comunitário. Mais do que
isso, a preocupação com a manutenção e a regulação dos matrimônios demonstra a
interdependência entre as unidades domésticas no sistema produtivo comunitário.
Pouquíssimas famílias cocaleras poderiam manter suas roças e padrão de
subsistência isoladas das demais, devido às exigências da cooperação entre elas
durante algumas etapas do ciclo agrícola. Recursos coletivos, como a força de
trabalho de seus membros, tornam os temas de "foro íntimo" assuntos de
interesse comum. A pauta da reunião corrente já estava pronta e seus itens
foram abordados ao final da leitura da ata.
Uma das decisões tomadas na reunião anterior tratava da convocação do antigo
ocupante de um terreno abandonado na comunidade. A posse e ocupação de terrenos
(chacos) é uma das causas mais freqüentes de conflitos em toda a região do
Chapare, assim como em outras zonas rurais da Bolívia. Para a família
camponesa, a terra é o principal meio de produção e a base de qualquer economia
de subsistência. Logo, a sobrevivência da comunidade depende do bom
aproveitamento desse recurso. O primeiro caso tratado na reunião foi
concernente ao chaco deixado ocioso, por mais de oito anos, pela família que
residia nele. O sindicato pretendia declarar o terreno "caduco", o que
significaria a subseqüente transmissão dos direitos sobre aquele terreno para
alguém disposto a habitar e assumir obrigações naquela comunidade. A antiga
moradora estava presente especialmente para tentar assegurar sua posse. Ela
agora vivia em Cochabamba,7 onde explorava um pequeno comércio de bebidas
alcoólicas. Antes mesmo do início da reunião, ela já havia declarado que não
pretendia voltar a viver naquela terra, dadas as atuais circunstâncias de
restrições ao cultivo de coca: "naquela terra não dá frutas e coca não se pode
mais plantar!", argumentava ela. Não seria fácil convencer aos demais sobre a
manutenção do terreno improdutivo. Afinal, passavam por dificuldades
semelhantes, mas persistiam na empresa colonizadora. A vontade de permanecer em
suas terras explica a dedicação dos cocaleros à causa da descriminalização dos
cultivos de coca. A grande demanda por folha de coca foi a principal razão de
ser da colonização; por este motivo seu livre cultivo é visto pelos migrantes
como a salvação de seu empreendimento nos trópicos.
A forma de integração dos cocaleros chapareñosao mercado inclui alternativas de
ganhos econômicos provenientes de outras funções temporárias, desde que não
implique déficit para as atividades sociais e políticas devidas à comunidade. O
afastamento de uma unidade produtiva do convívio comunitário, por um tempo
julgado excessivamente longo, é prejudicial ao equilíbrio da divisão do
trabalho coletivo. Deixar de participar ativamente na vida comunitária
configura abandono do terreno e conseqüente abdicação dos direitos sobre ele.
Por essa razão, a argumentação da comerciante não sensibilizava os cocaleros,
eles não a viam mais como parte da comunidade e não estavam dispostos a assumir
qualquer prejuízo decorrente daquela situação. Como camponeses, eles não são
simpáticos a que seus vizinhos adotem estilos de vida destoantes ao que a
comunidade espera de seus membros. Não se trata apenas do clássico
"conservadorismo camponês", mas de assegurar que a participação de todos na
vida coletiva possibilite a divisão eqüitativa das tarefas cotidianas. A
ideologia igualitária não se sustentaria na vida prática se as necessidades
básicas não encontrassem satisfação nos limites da economia camponesa.
O dirigente não precisou apresentar o caso aos demais, pois já o conheciam e
haviam deliberado sobre ele na reunião anterior, assim como em conversas
informais durante seus afazeres cotidianos. Limitou-se a comunicar a requisição
da posse do terreno e estipulou um valor a ser pago pelas benfeitorias que
restavam nele. As terras do trópico foram concedidas às famílias pelo Estado
por intermédio do sindicato, o qual se reservava o direito de tomá-las de volta
em casos como aquele. O sindicato camponês possui personalidade jurídica (C. P.
E., Artigo 171, inciso II). Quando disputas jurídicas são levadas ao tribunal
do Estado, o sindicato é quem sofre ou move o processo judicial, o que faz do
requerente ou réu um opositor da comunidade. O argumento recorrente dos
sindicatos, quando se tratam de disputas sobre terras, é o mesmo proclamado
desde a Ley de Reforma Agrária de 1953: "a terra é de quem a trabalha".
Após a Reforma Agrária que se seguiu à Revolução de 1952, muitos latifúndios
foram desapropriados por um critério que figura na atual Constituição
boliviana: "o trabalho é a fonte fundamental para a aquisição e a conservação
da propriedade agrária" (C.P.E., artigo 166). Os colonizadores do Chapare
receberam suas terras porque havia uma intenção estatal de povoar regiões tidas
como "vazias", mas supostamente aptas à agricultura e/ou à pecuária. De acordo
com a expectativa governamental, a colonização de regiões subtropicais
permitiria amenizar a pressão sobre a terra no altiplano. Agora que o produto
agrícola que possibilitou a colonização de amplas porções da selva boliviana
está sob restrição internacional, surgiram novos desafios para aqueles que
pretendem permanecer fiéis ao projeto de vida nos trópicos.
Era esse projeto que estavam tentando manter os cocaleros, quando exigiam a
desocupação do chacoimprodutivo em sua comunidade. Após apresentação da
proposta do sindicato, a ex-camponesa foi a primeira a falar: "Rogo a vocês que
me perdoem a demora em vir aqui, já faz muito tempo que não tenho paz na minha
vida, Deus sabe". Ela fez uma longa explanação contando as desventuras de sua
vida, desde quando partira de Bomborazama. "Meu marido não serve para nada,
apenas sabe embriagar-se o dia todo, e eu com um filho doente quase já não
consigo trabalhar. Não tenho quem me ajude e o dinheiro que ganho mal dá para
as despesas que são tantas, vocês sabem". Seguiu contando sobre um acidente que
sofrera e que a deixou sem poder locomover-se por semanas, fez questão de
mostrar a cicatriz em sua perna esquerda. Passaram-se quase trinta minutos e
ela apenas limitava-se a dizer, quanto ao motivo de sua presença ali: "não
posso perder esse terreno, que custou tanto esforço para conseguir". Por fim,
começou a chorar enquanto prosseguia reclamando sobre sua suposta condição
financeira miserável. Os presentes não demonstraram nenhuma comoção. Ao que
tudo indica, aquele era o comportamento esperado, e a ela foi dada a
oportunidade de desenvolver o drama, sem nenhuma interrupção, até quando
julgasse que tudo havia sido dito.
Ela não questionou as regras da comunidade nem tentou invalidar o pleito. Sua
estratégia foi a de se mostrar de acordo com a petição e apelar para a
sensibilização dos presentes. Concordava que seu problema devia ser resolvido
exclusivamente através do sindicato e não contestou sua legitimidade. Pediu um
prazo de um ano, até que seu filho mais velho pudesse residir no chaco, e
garantiu que estava disposta a pagar as contribuições devidas imediatamente.
Muitos dos camponeses acreditam que o tempo de fartura dos cultivos de coca
voltará um dia. Essa é uma das razões da persistência em continuar trabalhando
em seus terrenos, ainda que eles apresentem atualmente baixo rendimento para
outros cultivos. Mesmo aqueles que abandonaram seus chacos, para dedicar-se a
outras atividades longe dos trópicos, mostram-se esperançosos quanto ao retorno
dos tempos em que se poderá novamente cultivar a extensão de coca que sua força
de trabalho permitir. Talvez por isso não fosse uma solução para a requerente
romper com a comunidade e tentar assegurar a posse da terra nos tribunais. Isso
inviabilizaria um possível retorno para cultivar coca "quando a situação
mudar".
Os comunarios já haviam decidido quem poderia vir a ocupar aquele terreno, caso
sua atual possuidora não encontrasse uma solução satisfatória para o problema.
A falta de força de trabalho para cumprir as tarefas produtivas e demais
trabalhos públicos gera preocupação entre os cocalerosdo Chapare, pelo menos
desde que se intensificou a repressão policial sobre os cultivos de coca, no
final da década de 1980. Entretanto, a carência de força de trabalho na
comunidade não inibiu os critérios de recrutamento de novos moradores, baseados
em uma comunhão de valores culturais capazes de assegurar o consenso sobre a
obediência às normas comuns estabelecidas.
Apesar de a condição camponesa poder ser definida analiticamente a partir de
"uma relação estrutural, não [a partir de] um determinado conteúdo de cultura"
(Wolf, 2003, p. 121), a escolha de quem poderá residir na comunidade não está
baseada exclusivamente na posição social do pretendente, mas também em aspectos
diacríticos característicos do jogo de inclusão/exclusão, típicos dos processos
étnico-culturais (Barth, 1997). As decisões individuais dos colonizadores
tropicais são amplamente orientadas pela comunidade, tal como nas "comunidades
corporadas"; mas, diferentemente delas, é permitido e aprovado o ingresso de
novos membros em virtude da carência de força de trabalho. A receptividade, não
obstante, limita-se a membros de origem indígena, tornando fundamental o fator
étnico-cultural, o qual foi deixado de lado na caracterização "estrutural"
(Wolf, 2003, p. 123) dos tipos de campesinato latino americano. O "Estado de
1952" transformou as "comunidades indígenas" em "camponesas", segundo o
argumento de que o termo "índio" tinha ecoado durante anos de opressão pré-
revolucionária, tornando-se uma palavra carregada de significados negativos. A
equivalência dos termos "indígena" e "camponês", presente na legislação e no
senso comum dos citadinos bolivianos, faz parte da história política da nação.
Contudo, ela não deve levar-nos a subestimar os critérios de inclusão/exclusão
baseados na etnicidade - eles constituem o fundamento da apropriação comunal da
terra.
A importância da diferença cultural foi recentemente admitida pelo Estado
boliviano. Em uma emenda à Constituição, em 1994, a Bolívia declarou-se
multiétnica e pluricultural. A sua população quéchua e aymara designam-se ora
como indígenas, ora como camponeses, dependendo de qual aspecto queiram
ressaltar. As crianças que brincam nas praças dos povoados chapareños chamam-se
jocosamente uma a outra de "indígena!", para declarar algum tipo de
incapacidade do companheiro. Portanto, o termo é ambíguo, mas o avanço político
desse segmento tem tornado a condição indígena uma estratégia para a coesão
política, transformando novamente sua significação.8
A substituição oficial do apelativo étnico por um termo que descreve a condição
socioeconômica foi parte da política do Estado boliviano, desde a fundação da
República (1825). No entanto, a recusa em reconhecer juridicamente o índio, nas
sucessivas Constituições bolivianas até a Revolução de 52, nunca havia
significado sua incorporação igualitária como cidadão nacional. Esse statuslhe
foi bloqueado por meio do estabelecimento de prerrequisitos socioeconômicos
(possuir alta quantia em dinheiro, emprego ou ser proprietário de algum imóvel,
ser alfabetizado) que lhe impediam a plena participação na vida política.
Somente a partir de 1961 a cidadania política passou a exigir apenas inscrição
no "Registro Cívico", tornando os descendentes dos povos originários
habilitados para exercerem prerrogativas da cidadania boliviana.
Nas comunidades do Chapare, os sindicatos se auto-intitulam organizações
camponesas, não obstante, como mencionei, as regras de aceitação de novos
membros obedecerem mais a critérios diacríticos de ordem étnica. Todavia, o
simples pertencimento étnico não é suficiente para manter-se membro de uma
comunidade camponesa, como a comerciante quéchua de Cochabamba estava
comprovando. Quando ela terminou sua defesa naquela manhã, uma camponesa que
estava amamentando tomou a palavra e sugeriu a ela que aceitasse a compensação
oferecida pela comunidade e deixasse aquela terra para alguém disposto a
trabalhá-la. A desvantagem nessa opção era que a multa acumulada por conta da
sua prolongada ausência às reuniões e outras obrigações comunitárias
provavelmente ultrapassariam o montante que ela teria a receber da comunidade.
Fez-se um cálculo de suas dívidas desde o ano de 1998, pois as atas dos anos
anteriores não estavam disponíveis no momento. Além dos dias que faltara,
somaram-se também reuniões extras, ampliados9 e as despesas do sindicato com o
envio de seus membros às mobilizações e seminários de capacitação. Cada
modalidade possuía um valor. O valor da dívida foi convertido imediatamente
pela devedora para o dólar ao câmbio do dia, 150 dólares. Ela resolveu saldar
ali mesmo metade de sua dívida com o sindicato, evidenciando que sua condição
financeira não era tão precária. Os presentes não pareciam surpresos com isso,
todos sabiam que demonstrar carência e humildade faz parte do comportamento
público valorizado, mesmo quando se trata dos mais prósperos camponeses ou
comerciantes. A ostentação de riqueza cria um diferencial indesejável entre
pessoas que precisam ser iguais para trocar força de trabalho entre si.
"Isso não resolve nosso problema" disse o mais velho dos presentes (ex-líder
sindical, 61 anos): "Precisamos de alguém que nos ajude com todo o trabalho que
temos aqui; não é suficiente pagar as contribuições, quando precisamos de gente
para abrir novos caminhos e efetuar reparos nos que já existem". Nesse momento
veio à tona certo ressentimento de algumas das mulheres. Uma delas (uma jovem
mãe de três filhos, residente há dois anos na comunidade) resmungou amargamente
que não adiantava deixar um chaco sem quem o cuide, pois há famílias
necessitando da terra e dispostos a ajudar nos afazeres coletivos. Diante
disso, a ex-camponesa não teve outra saída a não ser prometer ocupar novamente
o terreno enviando seu irmão, o qual ficaria disponível para tomar parte na
vida comunitária a partir do próximo mês. Com essa promessa, e o pagamento da
primeira parte da dívida com o sindicato, o problema foi temporariamente
encerrado e o acordo foi assinado em "ata de compromisso".
O pacto precisa ser consensual; se não houver acordo, novas discussões terão
lugar até que ele seja obtido. O tempo não limita os argumentos relevantes e a
ideologia igualitária reinante nessas assembléias autoriza a qualquer um dos
membros a tomar a palavra. Não é incomum que uma polêmica atravesse o dia e se
prorrogue por outro. Se o dissenso for sobre questões de terra, a ausência de
um entendimento razoável para uma das partes levaria o caso ao Juzgado de Villa
Tunari,10 um tribunal especializado em questões fundiárias. Tive oportunidade
de acompanhar uma disputa semelhante naquele Juzgado. No dia do julgamento,
pelo menos trinta camponeses da comunidade requerente aglomeravam-se em frente
ao prédio do tribunal. O indivíduo que desejava manter a posse de seu terreno
ocioso foi aconselhado pelo juiz a aceitar uma pequena indenização e encerrar o
litígio. Ele concordou. Findo o caso, um dos advogados disse-me que aquela era
a solução menos desvantajosa para o requerente. Sua situação poderia tornar-se
mais crítica, caso o tribunal o apoiasse contra o grupo, pois a indisposição
geral manifesta contra ele inviabilizaria qualquer empreendimento futuro
naquela comunidade, seja dele, seja de alguém ligado a ele.
A propriedade coletiva do território sempre foi a principal fonte da autoridade
tradicional nas comunidades andinas. De forma semelhante, também nas zonas de
colonização, o controle e a distribuição dos lotes foram deixados a cargo dos
sindicatos rurais. Um território próprio é requisito indispensável para que se
exerça a autoridade delegada a cada sindicato. Por essa razão, a delimitação de
suas fronteiras é questão freqüentemente tratada nas reuniões. Esse foi o tema
seguinte na reunião que estou narrando. O sindicato vizinho estava requerendo
terras que os comunarios de Bomborazama alegavam pertencer a seu sindicato.
Nenhuma decisão foi tomada a respeito, apenas concluiu-se que o mais sensato
seria levar o problema à Central de Eterazama, órgão camponês que congrega
todos os sindicatos de área a que pertencia o sindicado de Bomborazama. O
número de sindicatos afiliados a uma Central varia, na região do Chapare, entre
15 a 65, de acordo com a densidade populacional de cada zona. O dirigente
sindical informou-me depois que os desacordos sobre limites territoriais
poderiam ser encaminhados ao Juzgado de Villa Tunari, caso não se chegasse a um
consenso na própria Central.
A terra só se tornou um recurso escasso no Chapare após o auge da produção de
coca destinada à indústria ilícita de cocaína, na década de 1980. Antes,
bastava a filiação a um sindicato para obter lotes de cerca de dez hectares por
família. Feito isso, adquiria-se automaticamente a responsabilidade de tomar
parte nas atividades comunitárias: assumir cargos sindicais, trabalhos
públicos, participação em bloqueios de estradas, manifestações, freqüência às
reuniões e pagamento de taxas de manutenção do sindicato. Quando a demanda por
folha de coca para a fabricação de cocaína cresceu, os agricultores adotaram um
sistema de trabalho de partidários, que cultivavam uma parcela da terra que a
unidade doméstica original não conseguia trabalhar. O produto era dividido
entre o proprietário e seu partidário na proporção de cinqüenta por cento. Nas
décadas posteriores, quando o programa de erradicação e a interdição policial
fizeram baixar o preço da coca, muitos bens de consumo voltaram a assumir seu
preço de mercado, inclusive a terra. Em 1996, entrou em vigor uma nova lei de
terras, a Ley Inra, por meio dela alguns trabalhadores rurais obtiveram
titulação de terras. O Instituto Nacional de la Reforma Agraria (Inra) tem
distribuído, nos últimos anos, títulos de propriedade para os moradores do
Chapare, mas os sindicatos cocaleros são contrários a essa política. Afirmam
que é um tipo de intromissão do Estado nos assuntos internos das comunidades. A
posse privada da terra enfraqueceria o poder dos sindicatos rurais, isto é, a
capacidade coletiva de decisão sobre o uso da terra dentro dos limites do
sindicato.
Esse tipo de rejeição da regulação do Estado é característico das pretensões de
autonomia reclamada pelas comunidades rurais na Bolívia. A lógica do
individualismo sob a qual se baseiam as intervenções do Estado (Dumont, 1993) é
conflitante em vários aspectos com os princípios coletivistas reinantes no
mundo rural andino. Segundo alguns camponeses, a difusão da propriedade
individual da terra abriria caminho para sua transformação em mercadoria, o que
poderia levar à perda de controle comunal sobre os possíveis compradores da
terra. Sem controle sobre seus membros, a manutenção da autoridade tradicional
ficaria inviabilizada, assim como a reprodução social das unidades domésticas.
A política e a economia não são dissociáveis na vida camponesa boliviana. Por
isso, a reunião sindical é o local onde se decide o que fazer dos terrenos
vacantes: o direito liberal e a economia de mercado não atuam como os
principais parâmetros das decisões sindicais sobre seu território. A
necessidade de simetria entre unidades produtivas e o gerenciamento coletivo do
território ajudam a compreender também a incompatibilidade entre a lógica
produtiva coletivista tradicional e a lógica de acumulação privada comum à
atividade ilícita de produção de drogas. Tal incompatibilidade fornece uma
pista para entendermos o apelo limitado que o engajamento direto na produção de
pasta-base exerce sobre o produtor de coca, desde que inserido em uma
comunidade e com acesso a terra e ao mercado. Conforme já mostrou Izquierdo
(2001) em seu estudo em comunidade colombiana assediada por narcotraficantes, a
lógica tradicional e a luta pela manutenção de um modo de vida camponês podem
constituir obstáculo considerável à penetração, nessas comunidades, de padrões
de consumo e de acumulação típicos do narcotráfico.11
O prosseguimento da reunião em Bomborazama foi interrompido pela chegada de
dois jovens vestidos com batas brancas, que cumprimentaram os camponeses em
quéchua. As mulheres ficaram um pouco inquietas com o que eles diziam. Logo
compreendi que eram agentes de saúde vacinando contra a febre amarela. O
dirigente autorizou a vacinação, que iniciou por ele próprio.
Após a partida dos agentes de saúde, todos começaram a pagar sua contribuição
mensal, cobrada por unidade doméstica. A quantia devida mensalmente seria o
suficiente para comprar quatro refeições nos restaurantes populares de Villa
Tunari. O valor da multa por cada falta à reunião também corresponde à mesma
quantia; seu pagamento, entretanto, não desobriga o ausente da contribuição
mensal, criteriosamente anotada no livro de contas do sindicato. Todos tinham
acesso a ele, sendo possível saber o valor do débito dos ausentes, assim como
orgulhar-se por estar "em dia".
Estando os presentes quites com o sindicato, a reunião prosseguiu com um
informe cultural. O padre de Villa Tunari abriria uma pequena biblioteca em
Eterazama; os livros poderiam ser emprestados ao custo de 2,00 bolivianos por
exemplar. Já que o tema era a igreja, o dirigente enveredou por assuntos
religiosos, uma de suas predileções em conversas pessoais. Ele transmitiu um
recado do padre sobre a freqüência às missas e discorreu sobre o concubinato.
Esse dado não era sem relevância naquele momento, pois semanas atrás fora o
motivo de uma reunião extraordinária em Chipiriri, um povoado próximo. Naquela
ocasião, os comunarios decidiram arbitrar um caso de possível adultério de uma
mulher cujo marido se encontrava ausente por vários meses, por razão de
trabalho. O problema envolvia também um funcionário da escola local, recém-
chegado. Decidiu-se que a moradora deveria seguir uma vida de esposa virtuosa
ou deixar a comunidade. Tanto ela como o funcionário em questão foram
convocados e estavam presentes na reunião em Chipiriri. Vê-se que a vida
privada está subsumida à coletiva nas comunidades indígenas. Considera-se que
situações como essas podem interferir negativamente nas relações produtivas.
Outro tópico da pauta fora iniciado. Retomava uma discussão da reunião
anterior. Tratava-se de um processo que tramitava na justiça, contra alguns
dirigentes sindicais do Chapare. Ele não entrou em detalhes, e nunca insisti
por informações sobre o assunto. Uma das providências que a Federação do
Trópico de Cochabamba tomou quanto à questão em juízo foi organizar um
"seminário de capacitação jurídica", a fim de evitar futuros processos contra
os dirigentes cocaleros. Enquanto discorria sobre o tema, acrescentou que as
prisões desses sindicalistas eram ilegais e que o Estado desrespeitava sua
própria Constituição Política. O assunto suscitou, visivelmente, a indignação
dos camponeses, o que indica que a estrutura sindical do Chapare é muito mais
que uma forma de gerenciar assuntos paroquiais. É uma rede de relações
políticas, divididas em células relativamente autônomas para resolver algumas
questões, mas interdependente no que tange a questões de interesse geral para
os cocaleros. Quanto à organização do sindicato como estrutura política
representativa dos interesses dos cocaleros, cada um funciona como difusor de
informações a seus membros. Essa cadeia de transmissão é responsável pela
rápida mobilização coletiva. Ela também conecta a comunidade com o mundo
exterior. A indignação dos membros do sindicato ensejou temas correlatos. Entre
eles, o das torturas executadas pelo "exército boliviano, comandado pelos
gringos". Houve comparação dessa situação com a da impunidade dos senhores
espanhóis, durante o período colonial.
Ainda sobre seminários, conclamou-se a mais uma arrecadação de fundos para
enviar uma representante do sindicato a uma oficina de capacitação de
lideranças femininas, em Cochabamba. Conforme determinação do partido dos
cocaleros(MAS - Movimiento Al Socialismo), todo sindicato devia enviar sua
representante à oficina. A multa estipulada por maioria no ampliado dos
dirigentes das centrais foi de 50 bolivianos a serem pagos pelo sindicato
absenteísta. Esse valor seria suficiente para custear uma estada de dois dias
em Cochabamba, desde que a alimentação e a hospedagem estivessem a cargo da
Federação, o que ocorreria no caso daquela oficina de capacitação. Depois de
dois meses decorridos, a camponesa selecionada entregaria ao sindicato alguns
documentos aprovados pela Federação e, em cerca de quarenta minutos, leria
anotações sobre os seminários a que assistira. Apesar de sua apresentação ter
sido improvisada e pouco esclarecedora, todos dedicaram atenção a ela. As
resoluções adotadas nesse seminário incluíam: "defender a cultura e idioma
originários"; "lutar contra a injustiça social, contra os partidos políticos
neoliberais e a favor da verdadeira democracia".
A reunião em Bomborazama avançava e já passava do meio dia. A folha de coca
estava sendo consumida desde o início da reunião. Uma mulher espargiu alguns
punhados de folhas sobre a mesa do líder sindical, na qual restavam apenas os
talos centrais das folhas já consumidas, que eram retirados cuidadosamente
antes de inseridas na boca. Havia também recortes de jornais que no momento
apropriado seriam trazidos para o pequeno público. O dirigente podia tratar de
assuntos que considerava auxiliares na formação da "consciência política" da
comunidade. Dessa maneira, ele iniciou uma discussão sobre a Alca (Associação
de Livre Comércio para as Américas). Explicou as tentativas norte-americanas
para ampliar sua influência comercial e qualificou como negativo o impacto de
novas tecnologias de produção de alimentos: "os Estados Unidos estão enfermos,
pois não consomem alimentos naturais como os bolivianos". Alimentos
transgênicos foram duramente criticados. Em seguida, o dirigente anunciou o
assunto mais esperado em todas as reuniões dos camponeses chapareños: "o tema
coca".
O primeiro comunicado foi o fato, sabido informalmente por todos, de que "os
mercados [de coca das cidades] de Eterazama e Sacaba continuam funcionando (com
autorização governamental), mas segue-se a erradicação". Esse paradoxo fora
explorado semanas antes, na reunião da Alcaldia(prefeitura) de Villa Tunari,
por Evo Morales. A erradicação forçosa dos arbustos de coca é o motor da
indignação cocalera, por isso provoca a exacerbação dos sentimentos. Nos
discursos do líder máximo dos cocaleros, durante aquele período, havia a
tentativa de relacionar a erradicação de coca aos outros "temas estruturais" do
país, principalmente a exportação de hidrocarbonetos. As mensagens de Evo
Morales durante as reuniões das lideranças do partido são transmitidas pelos
dirigentes sindicais às bases, em suas reuniões ordinárias, como aquela de
Bomborazama.
Talvez devido à minha presença, a discussão tenha mudado para as tradições
ancestrais relacionadas com o hábito do acullico.12 Esse é um discurso que
qualquer cocaleromaneja com destreza. Passaram cerca de 45 minutos discutindo a
utilidade da folha de coca e suas propriedades benéficas: auxilia a
concentração durante tarefas diárias, afasta a sonolência, a fome e o cansaço;
ajuda a manter os dentes limpos e saudáveis; é fonte de cálcio e proteínas. Por
fim, falaram da clássica distinção entre coca e cocaína, eximindo os bolivianos
da culpa pelo "vício dos gringos". Segundo as intervenções acaloradas dos
presentes, a droga na Bolívia poderia ser comparada aos inexistentes armamentos
químicos do Iraque. "Não passa de uma desculpa dos ianques para se apossarem
dos recursos naturais da Bolívia". "É só uma justificativa para interferir nos
assuntos internos do país". Não negaram, todavia, a existência de fabricação de
cocaína no país, mas enfatizaram que a organização sindical não apóia
camponeses envolvidos diretamente em negócios ilegais. Sobre isso, afirmaram
que "a cocaína não faz parte da nossa cultura ancestral".13
Após vários membros expressarem suas opiniões, o dirigente recorreu a uma
matéria de jornal onde se lia que, conforme decisão do Congresso Nacional
boliviano, as violações dos direitos humanos, cometidas pelas forças norte-
americanos na Bolívia, não poderiam ser julgadas no país. "Isso significa que
os gringos massacram nosso povo e ficam impunes!", indignou-se uma mulher.
Todos então concordaram que deveriam acionar imediatamente os camponeses do
país para uma manifestação contra essa disposição legal. "Todos devemos unir-
nos para protestar contra essa decisão do governo".
No entanto, os protestos contra o governo, nesse período, estavam sendo
contidos pela cúpula do partido cocalero. Havia uma trégua estratégica para
preservar a tranqüilidade no cenário político, às vésperas da realização de um
plebiscito para decidir sobre os termos da exportação do gás natural. Durante o
ano de 2004, pude presenciar a impaciência dos cocaleros para retomar os
bloqueios de estradas no Chapare, enquanto o líder, Evo Morales, procurava
persuadi-los da inocuidade desse protesto. Ele argumentava que uma das pontes
dessa estrada havia cedido em razão das fortes chuvas: "a estrada já estava
bloqueada naturalmente". Tais fatos demonstram como, em razão dos acordos
políticos, a liderança do partido precisa conter e canalizar os sentimentos
coletivos para alcançar objetivos que não estão ligados diretamente à sua
subsistência cotidiana. Para as bases, o tema da coca tem proeminência sobre
qualquer outro, pois das decisões a esse respeito depende a reprodução das
unidades domésticas. Como notou Wolf (1984, p. 12), em seu estudo a respeito
das rebeliões camponesas, a mobilização da sua "vanguarda" depende mais de
fatores específicos da vida local do que de grandes questões nacionais.
Entretanto, os presentes na reunião em Bomborazama constataram que, para
solucionar suas questões locais mais urgentes, teriam de se envolver com
problemas que transcendem os limites de sua aldeia: "devemos tomar o governo do
país". Isso conduziu ao tema das eleições presidenciais. Naquele momento, foi
solicitada ajuda financeira para a campanha presidencial "do nosso companheiro
Evo". Estimou-se que, se cada camponês doasse 1,00 boliviano, seriam
arrecadados o equivalente a 18 mil dólares. A proposta foi prontamente acolhida
com esperança e otimismo. Tanto as bases como a liderança do Movimiento al
Socialismo orgulham-se da sua auto-suficiência econômica. Talvez por essa razão
as inúmeras contribuições exigidas não sejam vistas como um ônus que subtrai os
parcos recursos econômicos da unidade doméstica, mas como investimento no
"nosso instrumento político".
Quando o debate sobre o "tema coca" dava sinais de esgotar-se, o relógio
marcava três da tarde. Nenhuma refeição fora servida, a não ser para os
lactentes. Para as crianças de mais idade, ofereceram pães. Várias bolsas de
coca, com cerca de 15 gramas cada, haviam sido consumidas. A tese de que a coca
ameniza a fome foi constatada mais uma vez, pelo menos teoricamente para mim.
Para terminar, o dirigente lembrou que já havia adquirido a torneira a ser
instalada, na mesma tarde, em um ponto próximo ao campo de futebol da
comunidade. Ele a retirou de sua mochila e a exibiu; três dos presentes
acertaram os detalhes do encontro para executar a tarefa, após o almoço. Por
fim, perguntou se ainda havia mais algum assunto a ser tratado. Um dos
participantes, percebendo que a reunião chegara ao final, acrescentou
encorajando aos demais: "hay que seguir plantando coca!". Todos concordaram,
despediram-se e seguiram para seus chacos.
Considerações finais
A organização sindical, calcada nos ayllus, reflete a forte influência de
valores tradicionais andinos na organização política dos cocaleros. A ideologia
igualitária (simetria) e a predominância da coletividade sobre indivíduo são
elementos importantes para compreendermos os princípios da cooperação política
dos cocaleros.
A entrada na vida política institucional, com a criação do partido MAS, tornou
o entrelaçamento entre política e organização social cocalera mais evidente. A
interdependência entre as unidades domésticas, baseadas na ajuda mútua durante
as atividades de trabalho (ayni) e nos mutirões (mink'a), assim com a estrutura
sindical, foram eficazes para organizar a colonização do trópico chapareño. O
partido político também se valeu da preexistente estrutura sociopolítica,
moldando-se a ela.
A descrição etnográfica de uma reunião sindical aqui empreendida exemplificou
essa conjunção de fatores, o que também pode ser plenamente observável nas
reuniões mensais da Federação dos Colonizadores do Chapare Tropical, da
Federação dos Colonizadores do Chimoré, ou de qualquer outra Federação ou
Alcaldia(prefeitura) que esteja sob controle dos cocaleros.14 Em Villa Tunari,
por exemplo, até mesmo a sede do sindicato está em desuso; as reuniões foram
transferidas para o salão principal do prédio da Alcaldia, desde então
administrada pelo partido cocalero.
O substrato cultural favorável a uma noção particular de atuação política
talvez seja a chave para compreender a prática de chamada "democracia direta"
(Mayorga, 2003; Gutiérrez et al., 2002; Ramírez, 2004; Escobar, 1987; Lazarte,
1987), a qual supõe uma participação ativa e constante da população nas
decisões políticas mais importantes. A necessidade do consenso que orienta a
prática política nas reuniões sindicais restringe o espaço para a manipulação
das bases sindicais por parte de segmentos partidários mais voltados para
questões nacionais. O crescimento do partido no cenário nacional é o reflexo da
capacidade de mobilização das bases e de seu auto-entendimento enquanto
sujeitos políticos centrais no país. Quando desenhei para um cocalero, em forma
piramidal, a hierarquia entre as várias instâncias de sua organização sindical-
partidária, ele só concordou com a representação gráfica depois de tê-la virado
de ponta-cabeça: o topo, segundo ele, representava os sindicatos rurais; os
líderes do partido estariam na parte inferior. Embora não devamos tomar essa
indicação como um dado objetivo, não podemos ignorar a ideologia igualitária
como um valor presente na auto-representação dos cocaleros como atores
políticos.
A divisão entre os segmentos do partido voltados para a nação e aqueles
voltados para os interesses comunitários promete ser uma das causas mais
freqüentes de tensões no partido. O fato de o partido cocaleroter chegado ao
governo do país, amplificou essa contradição. Os interesses dos sindicatos de
base exigem decisões altamente complexas sobre o livre comércio e produção da
folha de coca, por exemplo. O governo vê-se forçado a radicalizar suas posições
perante a representação diplomática estadunidense em La Paz. A superação ou não
dessa tensão depende, principalmente, de como o governo de Evo Morales lidará
com sua principal bandeira de luta, pela qual se tornou conhecido e
representativo de amplos setores da população indígena rural e urbana. Os
desdobramentos das políticas relacionadas com a folha de coca e seus efeitos na
relação bilateral com os Estados Unidos, e multilateral, são capítulos da
história boliviana que ainda estão sendo escritos.
Um quadro elucidativo sobre a vida política boliviana atual deve levar em
consideração tanto a história profunda daquela região andina, como a história
recente, incluindo o drama gerado pelas políticas internacionais antidrogas.
Nesta etnografia, levei em consideração esses dois fatores apenas na medida em
que foram úteis para elucidar os anseios e a forma de expressão política da
base camponesa-indígena, a principal responsável pelas mobilizações populares
características da Bolívia.
Notas
1 Utilizo a noção de longa duração, oriunda da Escola dos Annales, para
enfatizar as estruturas profundas cuja lógica pode conflitar com lógicas
econômicas e políticas modernas. Um exemplo do impacto de formas pré-modernas
de ação política conformando noções peculiares de democracia pode ser
encontrado no estudo de Putnam, Leonardi e Nanetti (1993) sobre a democracia na
Itália.
2 A "ley 1.008", que regula o cultivo de coca na Bolívia, dividiu as áreas de
cultivo como de cultivo legal, excedente e ilícito. A região em que realizei
essa pesquisa, Chapare, enquadrada como área de cultivo excedente, foi o
principal alvo da política de erradicação de cultivo de coca nas últimas duas
décadas.
3 A Revolução de 1952 é considerada um fato da maior importância na história
política boliviana no século XX. Ela marca o fim do monopólio de poder da
oligarquia mineira e latifundiária e a ampliação de direitos políticos a uma
grande parcela indígena até então marginalizada.
4 Ayllus são grupos de parentela extensa e configuram comunidades corporadas.
5 Situada na parte norte-central da Bolívia, o Chapare possui bosques
subtropicais entre os departamentos (estados) de Santa Cruz e Cochabamba,
totalizando sua extensão em 24.500 quilômetros quadrados. Para a região do
Chapare estima-se uma população de 327.616 habitantes (INE apud Lessmann,
2003).
6 O desmantelamento das empresas de mineração estatais deveu-se principalmente
às reformas estruturais de Paz Estenssoro, em meados da década de 1980. A queda
do preço do estanho no mercado internacional, seguida da demissão de milhares
de operários das minas, enfraqueceu a maior força organizada da sociedade civil
até então: a Central Obrera Boliviana (COB), cujo protagonismo foi assumido
atualmente pelos cocaleros.
7 Cidade distante cerca de nove horas de ônibus desde o povoado de Eterazama,
nas proximidades da comunidade em questão.
8 Sobre a utilização da cultura nos movimentos políticos na América Latina, ver
Alvarez, Dagnino e Escobar (2000).
9 Assembléias que congregam vários sindicatos rurais.
10 Povoado sede da administração municipal e que concentra os serviços do
Estado disponível para os comunarios de Bomborazama.
11 Em artigos sobre a penetração do crime organizado nas favelas do Rio de
Janeiro (Sousa, 2004; 2006a) também assinalei que as estruturas de poder
preexistentes são importantes para a compreensão da forma que o narcotráfico
assume em cada contexto particular. As relações sociais e políticas podem ser
contrárias ao estabelecimento das estruturas de poder necessárias ao
funcionamento do comércio ilícito, ou favorecê-las.
12 Nome dado ao consumo tradicional de coca.
13 Para mais detalhes sobre as relações entre produção de coca e a fabricação
de pasta-base, ver Sousa (2006).
14 As prefeituras do Chapare são dirigidas pelos próprios cocaleros desde
meados da década de 1990, quando concorreram pela primeira vez aos postos.