A produção da imparcialidade: a construção do discurso universal a partir da
perspectiva jornalística
Introdução
Imparcialidade, neutralidade, objetividade: o valor-guia do jornalismo ainda é
a pretensa capacidade de expor o mundo "tal qual ele é" a seus leitores,
ouvintes ou espectadores. No entanto, os ideais de imparcialidade e
objetividade permanecem em posição central na auto-imagem dos jornalistas, na
constituição dos esquemas práticos de atribuição de valor a seu trabalho, na
defesa desse trabalho diante das pressões internas e externas ao campo
jornalístico e na construção de um referencial ético compartilhado pelos
próprios jornalistas.
No caso do Brasil, pelo menos desde as reformas "modernizantes" da imprensa, em
meados do século XX, este valor aparece, de forma recorrente. Ainda que um
certo tipo de crítica à noção de objetividade tenha se banalizado nas escolas
de jornalismo e mesmo dentro das redações, o recurso a ela permanece central no
entendimento que homens e mulheres de imprensa têm sobre seu próprio fazer,
seja no Brasil (Hohlfeldt, 2001; Ribeiro, 2002; Sponholz, 2008), nos Estados
Unidos (Johnstone, Slwaski e Bowman, 1972; Mindich, 1998; Lane, 2001) ou na
Europa (Donsbach e Klett, 1993; Sponholz, 2004).
Há, ainda, outra esfera em que a noção de imparcialidade se afirma como um
ideal, condenando os interesses de indivíduos e grupos privados - e a ação
parcial que resulta desses interesses - como culpados pela deterioração da
esfera pública e rebaixamento da atividade política. Para o predomínio dos
ideais republicanos, seriam necessários processos de decisão e deliberação
pautados pelo "bem comum". Faz-se presente neste discurso a defesa, de um modo
genérico, de um ideal de justiça que regularia as interações entre indivíduos
libertos de redes de interesses, afetos e paixões. Essas noções, por sua vez,
vinculam-se a entendimentos específicos do ideal de pluralidade nos meios de
comunicação de massa e dos instrumentos políticos para o enfrentamento da
concentração de poder nesses meios.
Neste artigo, procuramos indicar abordagens teóricas e hipóteses alternativas
para a crítica à noção de imparcialidade no jornalismo. Em primeiro lugar,
propomos uma abordagem crítica a perspectivas teóricas que legitimam o
jornalismo como fiador do pluralismo político. Nelas, o jornalismo configura-se
como esfera de competência que, uma vez livre de restrições impostas pelo
Estado e regulada segundo os princípios de sua ética, seria capaz de garantir e
promover o debate entre diferentes perspectivas e interesses, estabelecendo os
limites razoáveis para esse debate.
Em um segundo momento, nossa proposta tem como objetivo estabelecer um
deslocamento em relação à crítica liberal pluralista à imparcialidade (ou à
ausência dela). Entendemos que a abordagem liberal pluralista mantém a
imparcialidade como um valor-guia. O problema estaria na realização imperfeita
desse ideal e não em suas implicações políticas. Por isso, nessa abordagem,
fica mantida a oposição entre parcialidade e objetividade para a avaliação do
trabalho jornalístico e de seu grau de pluralismo - a saber, de sua competência
para reproduzir, fielmente e de maneira equilibrada, as vozes e os interesses
que fariam parte, per se, dos debates e contendas considerados relevantes o
suficiente para compor o noticiário.
Neste ponto, adotamos uma abordagem crítica às formas atuais da convivência
entre princípios e instituições democráticas liberais e os mecanismos de
opressão que constituem o cotidiano das sociedades contemporâneas, permeando as
condições (de fala, visibilidade e participação política) dos diferentes grupos
sociais. Em outras palavras, procuramos enfrentar, no âmbito da mídia, o
problema com o qual a teoria crítica, tal como enunciada por Fraser (1994, p.
121), se confronta: o das desigualdades que afetam esferas públicas formalmente
inclusivas, constituindo as interações discursivas que nelas se dão. Para
tanto, focamos, em especial, nos problemas relativos às rotinas produtivas no
jornalismo e nas variáveis que compõem as posições sociais e o habitus dos
jornalistas.
O artigo está dividido em três seções. Na primeira, fazemos uma breve revisão
das perspectivas pluralistas liberais na política e em estudos mais
especificamente voltados para a mídia. São discutidas as posições de autores
como Robert Dahl, Giovani Sartori, Anthony Downs e Daniel Hallin, com ênfase
para as relações entre mídia, informação e democracia que se elaboram, de
maneiras distintas, em seus escritos.
A segunda seção apresenta, também brevemente, a crítica às noções de
universalidade e imparcialidade a partir das obras de Iris Marion Young e Nancy
Fraser, com destaque para argumentos que fundam a defesa da inclusão de grupos
subalternos em conceitos alternativos de objetividade. Os conceitos de
perspectiva e conhecimento situado são centrais à discussão.
A terceira e última seção apresenta três hipóteses de trabalho desenvolvidas a
partir da confrontação entre os posicionamentos teóricos discutidos nas seções
anteriores. Procuramos considerar, simultaneamente, as variáveis que compõem
obstáculos para a integração de diferentes perspectivas sociais ao discurso
jornalístico, especificamente, e os problemas referentes à promoção da presença
efetiva da diferença e dos conflitos socialmente estabelecidos nas esferas de
representação, entre elas a mídia. As hipóteses são entendidas como um
balizamento para futuras pesquisas que avancem na compreensão da relação entre
os meios de comunicação e o campo político. Uma breve conclusão, por fim,
sugere que a noção de imparcialidade sustentada no jornalismo é, em si mesma,
um obstáculo para a ampliação da pluralidade.
Pluralismo na mídia e na política
A afirmação do pluralismo como valor político central é uma resposta à
implantação de regimes que se apresentam como democráticos em condições de
brutal divergência de interesses. A partir da metade do século XX, o pluralismo
torna-se uma espécie de "índice" de democracia, o que se explica menos por
alguma démarche teórica do que por circunstâncias políticas. No contexto da
Guerra Fria, após a derrota do nazismo, a democracia tornou-se um valor
político universalmente disputado. Se era fácil descartar como contrafacção o
rótulo de "democracias populares" aplicado às ditaduras comunistas do Leste
europeu, por outro lado os regimes concorrenciais do Ocidente também pouco se
ajustavam à idéia de "governo do povo". O pluralismo ajudou a redefinir a
compreensão da democracia, aproximando-a da realidade dos países ocidentais.
A contribuição mais importante à teoria pluralista da democracia vem da obra do
cientista político Robert Dahl. Rotulando de "poliarquia" o modelo pluralista,
ele o classifica como a melhor aproximação possível à democracia propriamente
dita, que permaneceria como um ideal inatingível e como o horizonte normativo
da organização política. Seu aporte para a construção do modelo está
condensado, sobretudo, em duas obras teóricas (Idem, 1989, [1956] 1971), à qual
se acrescenta um estudo empírico que objetivou mostrar a validade do pluralismo
para a compreensão do sistema político dos Estados Unidos (Idem, 1961). Com o
passar do tempo, Dahl tornou-se crítico das limitações da democracia eleitoral,
chegando a afirmar a incompatibilidade entre o capitalismo e a soberania
popular (Idem, [1985] 1990), propondo arranjos institucionais inovadores, como
a adoção de sorteios (Idem, 1989), e denunciando o caráter antidemocrático da
Constituição estadunidense (Idem, 2002). Esta fase de sua obra, porém, obteve
menos repercussão na ciência política.
De forma esquemática, é possível identificar três abordagens na formulação do
conceito de poliarquia por Robert Dahl: normativa, processual e descritiva. A
abordagem normativa é marcada pela determinação de um conjunto de requisitos
para a efetivação da democracia. Embora a formulação varie - podem ser oito
requisitos (Idem, [1956] 1989), podem ser vinte (Idem, 1971), podem ser quatro
(Idem, 1989) -, o sentido geral permanece. A democracia exige que os cidadãos
sejam livres para participar da discussão política e tenham peso igual no
processo de tomada de decisões. Para tanto, impõem-se o acesso universal à
franquia eleitoral, a liberdade de informação, o direito de oposição. Quanto
mais plenamente tais requisitos se efetivam, mais aperfeiçoada é a poliarquia.
A abordagem processual indica duas dimensões da democratização: a inclusão
política e o direito de contestação (Idem, 1971). Regimes "fechados"
democratizam-se na medida em que permitem tanto a expressão da oposição ao
governo (contestação) como a participação de mais cidadãos na política
(inclusão). Cumpre observar que são dimensões da democratização e não da
democracia em si: o processo de inclusão e de abertura à contestação leva à
realização dos requisitos apresentados na abordagem normativa. Graças à sua
aparente simplicidade, o modelo bidimensional ganhou amplo curso, mas também
recebe críticas freqüentes, entre elas a ausência de uma terceira dimensão,
social, que propicie o real usufruto dos direitos de participação e de
contestação pelos cidadãos (por exemplo, Weffort, 1992). Na formulação de Dahl,
a inclusividade é formal, limitando-se de fato ao direito de voto, sendo
compatível com a exclusão política efetiva de grupos subalternos que não
dispõem de recursos materiais e simbólicos para atuar na arena política.
A compreensão corrente da democracia pluralista, porém, corresponde àquilo que
chamamos de abordagem descritiva - e que está presente no próprio nome da
poliarquia, de polys (muito) e archés (comando, poder). A poliarquia não seria
o governo da maioria, um ideal inatingível por muitos motivos, entre os quais a
diversidade de interesses e a apatia política generalizada, mas o governo de
muitas minorias. Em vez de haver um "bem comum" que a maioria determina, há uma
agregação de vários interesses localizados, resultante do fato de que múltiplos
grupos, dentro da sociedade, são capazes de influenciar no processo de tomada
de decisões, o que é, em grande medida, conseqüência da competição eleitoral:
Eleições e competição política não significam governo de maiorias em
qualquer maneira significativa, mas aumentam imensamente o tamanho,
número e variedade das minorias cujas preferências têm que ser
levadas em conta pelos líderes quando fazem opções de política.
Sinto-me inclinado a pensar que é nesta característica das eleições -
não o governo de uma minoria, mas de minorias - que temos que
procurar algumas das diferenças fundamentais entre ditaduras e
democracias (Dahl, [1956] 1989, p. 131).
Assim, Dahl incorpora parcialmente a visão de uma massa apática e desinformada,
central para a redefinição da democracia realizada no início dos anos de 1940
por Joseph Schumpeter. Mas a apatia não é completa, nem irreversível - os
cidadãos são capazes de se mobilizar e pressionar quando algumas questões
sensíveis para eles estão em jogo. E o processo eleitoral é dotado de um
sentido mais substantivo do que para o teórico austríaco, que via nele apenas
um método para a seleção da elite governante.
Portanto, na poliarquia haveria uma pluralidade de centros de poder, isto é,
inúmeras minorias pressionando (e tendo que ser levadas em conta pelos
líderes). Para que isso aconteça, os recursos de poder devem estar distribuídos
entre diferentes grupos. Essa teoria busca contestar tanto a visão marxista de
que há uma classe dominante como a percepção crítica, emblematizada na obra de
Wright Mills, da existência de uma "elite do poder". Não há uma classe
dominante, tampouco uma elite governante. Os capitalistas formam apenas uma
minoria, entre outras, competindo pela influência sobre as decisões. Foi este o
ponto que mereceu de Dahl uma revisão mais profunda, no momento em que ele
reconheceu que o controle sobre os meios de produção gerava um desequilíbrio
profundo na capacidade de determinar as decisões públicas (Dahl, [1985] 1990).
A existência de uma pluralidade de grupos de interesse, e mesmo a possibilidade
de que tais grupos se manifestem e exerçam pressão, não elimina a desigualdade
de recursos materiais e simbólicos que cada um deles é capaz de mobilizar.
O acesso à informação é um desses recursos. Numa de suas formulações dos
requisitos da democracia, Dahl estabelece que "todos os indivíduos devem
possuir informações idênticas sobre as alternativas [políticas]", admitindo, em
sua glosa, o "caráter utópico" da exigência e apresentando, como aproximação
razoável, a idéia de que a escolha dos cidadãos não deve ser "manipulada por
controles sobre as informações por qualquer indivíduo isolado ou grupo" (Idem,
[1956] 1989, p. 73). Daí deriva a compreensão, desenvolvida não pelo próprio
Dahl, mas por outros, de que o pluralismo no fornecimento de informações - o
pluralismo da mídia, para colocar de forma sintética - é um componente
necessário do pluralismo político.
A compreensão do sentido deste pluralismo, no entanto, é polêmica. Uma posição
é emblematizada por Giovanni Sartori, autor liberal que não é propriamente um
adepto da vertente pluralista.1 No curto trecho que dedica aos meios de
comunicação em seu A teoria da democracia revisitada, Sartori expõe a tese de
que a competição mercantil gera o pluralismo necessário ao provimento de
informações. Uma vez que, como ele diz, "um sistema de informação semelhante ao
sistema de mercado é um sistema de autocontrole, um sistema de controle
recíproco, pois todo canal de informação está exposto à vigilância dos outros"
(Sartori, [1987] 1994, vol. 1, p. 140), a concorrência mercantil garantiria a
qualidade da informação fornecida ao público. Omissões ou falseamentos da
verdade serão denunciados pelos competidores, isto é, a ação de cada
concorrente em busca de seu próprio proveito acaba por beneficiar o público. No
mercado da informação, como em qualquer outro, sob a ótica liberal, a
competição age em favor do consumidor.
Subjaz a essa perspectiva a crença de que o problema do pluralismo na mídia é,
no fundo, um problema relativo ao provimento de informação veraz e objetiva. O
pluralismo é, assim, um valor instrumental. A existência de múltiplas fontes de
informação, com o desperdício de recursos sociais que isto representa, é
importante apenas para evitar que os jornalistas (ou as empresas jornalísticas)
se vejam tentados a abandonar aquela que é, no final das contas, a garantia
real da boa informação: a "ética do respeito pela verdade" (Idem, p. 144). O
ponto débil, na formulação de Sartori, é a compreensão de que o que está em
jogo é a "verdade". Além da correção factual, a disseminação da informação
envolve valores, interesses, prioridades, visões de mundo, enquadramentos. Se a
comunicação se processa segundo mecanismos de mercado, seus provedores serão
empresas que, justamente por esta condição, tenderão a assumir posições
similares.
Décadas antes, Downs (1957) apresentara uma variante da concepção liberal,
segundo a qual a competição que garante a informação pública adequada não
ocorre no mercado da mídia, mas no próprio campo político. Os diferentes grupos
em disputa possuiriam interesse em divulgar informações favoráveis a si ou
desfavoráveis a seus adversários. Como resultado, os cidadãos passam a dispor
de informações relevantes, em especial as advindas do contraditório político.
Ele reconhece que há disparidade nos recursos informacionais detidos por
diferentes cidadãos, mas julga que isso é um efeito da natureza humana (nem
todas as pessoas teriam a mesma capacidade intelectual) e não um problema
vinculado à oferta de informações. Downs, portanto, reconhece - ao contrário de
Sartori - que as informações se vinculam a posições e interesses, mas conclui
que o pluralismo político resolve o problema do pluralismo comunicativo.
Downs ignora a existência de desequilíbrios no seio do próprio pluralismo
político, que em seu modelo se limita à competição bipartidária estadunidense.
Ainda mais importante, do ponto de vista desta discussão, ele equivale
informação política a propaganda partidária e não leva em conta o papel dos
meios de comunicação de massa como agentes na difusão destes conteúdos. As
representações do mundo social difundidas pela mídia, que possuem um estatuto
diferenciado diante do público (pois são lidas como "imparciais", ao contrário
do discurso político, que é interessado), formam o ambiente no qual ocorre a
luta política, que é também uma luta por dotar de sentido esse mundo. O
pluralismo da mídia pode ser visto, assim, como uma condição para o pluralismo
político.
Os três autores discutidos sintetizam as posições mais influentes da concepção
liberal da democracia. Para todos eles, ainda que não se aproxime do ideal de
soberania popular, a democracia vai além do mero método competitivo para
produzir um governo legítimo, tal como apresentado por Joseph Schumpeter (
[1942] 1975). Mas eles divergem no entendimento do pluralismo. Dahl, já em suas
formulações dos anos de 1950, tem na abertura para uma pluralidade de grupos de
interesse o elemento crucial de sua visão poliárquica e avança na direção do
reconhecimento da importância do fluxo de informações - embora não chegue a
vincular de maneira efetiva os interesses em conflito, de um lado, e as
informações disponibilizadas, de outro. O fraco entendimento do peso das
desigualdades sociais nas práticas políticas é outro limite desta fase inicial
de sua obra.
Na mesma época, Anthony Downs, apoiando-se mais extensamente na concepção
schumpeteriana da democracia, reduz o pluralismo à concorrência eleitoral, que
seria a condição necessária e suficiente para garantir que as preferências
difusas dos cidadãos fossem implementadas pelo governo. A diversidade no
fornecimento de informações é, no seu modelo, um reflexo desta concorrência.
Sartori, por fim, escrevendo o que pretendia ser um sumário da concepção
hegemônica da democracia no final do século XX, julga que a concorrência
mercantil resolve o problema. Como sua concepção preza não a manifestação de
interesses divergentes, mas a seleção de uma elite, o estímulo à produção de
informação veraz é o que se deve garantir.
Os limites do pluralismo midiático, nas democracias liberais, são bem
evidentes. Daniel Hallin observou que o (bom) jornalismo se move dentro do que
chamou de "espaço da controvérsia legítima". As diferentes vozes devem estar
presentes, mas vozes dissidentes ou desviantes de um consenso básico não
precisam ser consideradas: a Fairness Doctrine (regra de imparcialidade do
jornalismo estadunidense, adotada como diretriz oficial entre 1949 e 1997) não
fora criada para dar espaço às posições comunistas (Hallin, 1986, pp. 116-117).
No noticiário político em sentido estrito, o pluralismo na mídia acaba
refletindo o sistema partidário, isto é, as vozes relevantes são as dos
principais partidos. No caso dos Estados Unidos, onde, de acordo com a blague
de Gore Vidal, existe um partido único com duas alas de direita, o "espaço da
controvérsia legítima" pode por vezes ser bem reduzido. À medida que as opções
políticas se estreitaram no resto do mundo, com o colapso dos modelos da
esquerda, esta situação se generalizou.
O pluralismo na mídia é comumente referido como "externo" ou "interno" - "isto
é, imprensa que representa orientações políticas distintas ou imprensa que
procura reportar as notícias de forma equilibrada" (Hallin e Mancini, 2004, p.
14). Mais uma vez, o critério subjacente liga-se à reprodução do pluralismo no
campo político. Trata-se de uma percepção redutora. Se o discurso da mídia é um
espaço privilegiado de disseminação das diferentes perspectivas e projetos dos
grupos em conflito na sociedade, isso significa, sim, que ele deve apresentar a
voz dos vários agrupamentos políticos, permitindo que o cidadão, em sua
condição de consumidor de informação, tenha acesso a valores, argumentos e
fatos que instruem as correntes políticas em competição e possa, assim, formar
sua própria opinião política. Mas significa também dar espaço à disseminação
das visões de mundo associadas às diferentes posições na estrutura social, que
são a matéria-prima na construção das identidades coletivas - que, por sua vez,
fundam as opções políticas. É o que se pode chamar de "pluralismo social", que
transcende os limites do pluralismo político (Miguel, 2003).
A crítica à noção de imparcialidade
A noção de imparcialidade, apresentada em geral de maneira bastante chã pelos
estudiosos da mídia, ganha uma roupagem mais complexa na obra de John Rawls.
Objetivando delinear os princípios gerais de uma organização social eqüitativa,
o filósofo estadunidense postula que uma compreensão universalmente
compartilhada sobre o que é a justiça só pode advir do banimento dos interesses
vinculados às situações sociais distintas. Ele apresenta, então, o célebre
artifício da "posição original", na qual os indivíduos não saberiam quais as
suas próprias condições e características (sexo, geração, raça, orientação
sexual, grau de inteligência, preferências políticas ou estéticas etc.) e,
assim, despidos de qualquer interesse particular, poderiam buscar uma ordem que
não privilegiasse ou prejudicasse ninguém (Rawls, [1971] 1997). Fica claro que
a imparcialidade, entendida como ausência de posição social, é um requisito
para a construção de um entendimento válido da justiça.
A obra de Rawls vai suscitar uma série de debates no campo da filosofia
política. Parte importante deles ataca, por diferentes flancos, a noção de
indivíduo abstrato, separado de suas características distintivas - pura
encarnação da Razão -, que subjaz ao desenho da "posição original". Este
conjunto de críticos inclui os chamados "teóricos da diferença", que questionam
o ideal de imparcialidade rawlsiano.2 Entre eles estão pensadoras feministas
como Iris Marion Young e Nancy Fraser. Ainda que sua contribuição se dê no seio
das controvérsias despertadas, a princípio, pelo tratado de Rawls, ela ajuda a
iluminar os problemas desse ideal também no discurso normativo sobre o
jornalismo.
Embora guardem diferenças entre si, as obras de Iris Marion Young e Nancy
Fraser situam-se em um mesmo campo teórico e político3. Em ambas, é central a
discussão sobre as formas de exclusão e de opressão que são reproduzidas no
cotidiano das sociedades capitalistas contemporâneas. A ênfase recai sobre o
papel do liberalismo que formaliza, normativamente, a convivência entre
igualdade formal e desigualdades efetivas, tornando-a não apenas aceitável, mas
também legítima.
O sistema jurídico e político garante direitos igualmente estabelecidos para os
diferentes indivíduos, sem levar em conta seu pertencimento de grupo, assim
como garante ausência de coerção, veto ou discriminação (nas diferentes
acepções dos termos) impostos pelo Estado ou por um grupo social a outro. No
entanto, como as autoras procuram mostrar, mecanismos cotidianos produzem
restrições e mantêm ativas as hierarquias mesmo nestas condições formais.
No caso específico do tema aqui tratado, permanecem restrições à pluralização
do discurso midiático mesmo quando não há censura, controle estatal ou
impedimentos à livre concorrência. Trata-se, assim, de enfrentar a complexidade
da produção dos silêncios e dos modos de construção dos discursos, pensando-os
como parte dos mecanismos de manutenção, ou de enfrentamento, das formas de
opressão existentes nas democracias liberais contemporâneas. O questionamento
desloca-se do problema do acesso a informações relevantes para o lugar social
de construção da relevância e do caráter público de determinados eventos e
experiências; do problema da incorporação das diversas vozes que fariam, por
elas mesmas, parte dos debates relevantes para o lugar social de produção dos
discursos e para os critérios mobilizados na colocação das diferentes
perspectivas em convivência (e em equilíbrio) no discurso jornalístico. Nos
dois casos, estão em questão os critérios tecnicamente orientados, apresentados
como não situados, que podem constituir obstáculos à visibilidade das
perspectivas sociais de grupos que detêm pouca ou nenhuma condição de acesso
aos espaços de representação, entre eles a mídia.
A crítica à autonomização da política é parte importante dessa abordagem e pode
ser mobilizada para uma análise dos limites das representações do campo
político presentes na mídia e dos obstáculos, que lhes são correlatos, a uma
ampliação das temáticas e das vozes que comporiam o debate político. Nas
palavras de Nancy Fraser,
[...] o liberalismo presume a autonomia da política de maneira
contundente. A teoria política liberal presume que é possível
organizar uma forma democrática de vida política tendo como base
estruturas socioeconômicas e sociossexuais que geram desigualdades
sistêmicas. Para os liberais, portanto, o problema da democracia
passa a ser o problema de como isolar os processos políticos daqueles
processos que são considerados não-políticos ou pré-políticos,
aqueles que são característicos, por exemplo, da economia, da família
e da vida cotidiana informal (Fraser, 1997, p. 121, tradução dos
autores).
Nesse ponto, vale ressaltar a filiação de Young e Fraser ao debate feminista,
que coloca em pauta a relação entre as formas existentes de dominação e a
apresentação de determinadas perspectivas, categorias e julgamentos como
universais. A noção de que seriam desejáveis a busca e a promoção do "bem
comum" é confrontada por abordagens que explicitam os mecanismos históricos por
meio dos quais a exclusão de determinados segmentos sociais - e das
experiências a eles correlatas - foi legitimada por critérios supostamente
neutros de divisão, hierarquização e distinção. Está em pauta, por exemplo, a
diferença entre uma abordagem que considera o acesso à cidadania (e à
informação) como um processo de universalização de direitos abstratos e
indiferenciados e uma abordagem que coloca em xeque os pressupostos que
constituem as noções de cidadania e universalidade e, acima de tudo, as
divisões sobre as quais se assentam - e que seriam reproduzidas na mesma medida
em que são silenciadas.4
Destacam-se, na crítica feminista, dois eixos centrais: a exclusão das mulheres
de esferas formalmente inclusivas (considerando-se a inclusão formal como um
objeto importante das disputas, sem, porém, limitar-se a ela) e a contraposição
entre público e privado, vinculada a compreensões específicas do que é público
e do que é relevante o suficiente para tornar-se público. São entendimentos
distintos da noção de publicidade, aos quais retornaremos mais adiante.
Vale ressaltar que a solução para os problemas destacados nessas abordagens não
está na integração de mais vozes a um discurso supostamente universal, que, na
realidade, atualizaria as divisões mencionadas. A solução não está, ainda, na
promoção da presença equilibrada entre diferentes vozes que são colocadas em
convivência (elevadas ao patamar de sujeitos de discurso) a partir de critérios
de publicidade, de relevância e de grau de interesse público que se apresentam
como neutros ou tecnicamente definidos. Nesse caso, as divisões socialmente
existentes e que dão legitimidade a posições sociais hierarquicamente distintas
seriam reiteradas: sua materialização e, em certo sentido, sua existência
pública seriam possíveis na medida em que atualizam as categorias que
constituem essas distinções. Um exemplo, relacionado com pesquisas anteriores
por nós realizadas, diz respeito às fronteiras tênues entre a exclusão das
mulheres do noticiário político, o silenciamento de suas perspectivas e a
promoção de sua inclusão por meio de estereótipos que justificariam os termos
dessa exclusão e desse silenciamento.5
O conceito de perspectiva em Young permite caracterizar adequadamente as formas
de exclusão que teriam impacto sobre um público ou uma esfera de representação
constituída, restringindo sua pluralidade e seu potencial democrático. Em
primeiro lugar, os sujeitos analisados - que são objetos de exclusão ou
favorecimento - não são indivíduos, mas grupos. Em segundo lugar, esses grupos
não têm uma identidade permanente ou essencial, mas existem justamente como
função das relações e interações entre os diferentes grupos em uma dada
sociedade. Trata-se, assim, de discutir processos que revelam "uma rede de
relações de reforço e restrição" que estabelecem diferentes condições de acesso
às variadas esferas sociais, atuando "conjuntamente para produzir
possibilidades específicas e excluir outras" e operando em um "círculo de
reforço" às condições, posições e relações existentes (Young, 2000, p. 93,
tradução dos autores).
Esses processos fazem com que as divisões e as formas de exclusão ativadas
cotidianamente sejam percebidas como naturais. A visibilidade diferenciada nos
meios de comunicação é entendida como parte desse "círculo de reforço"
justamente por ser um mecanismo importante de ativação (ou neutralização) das
relações de opressão existentes. O silenciamento de determinadas perspectivas e
a reprodução de estereótipos ligados a alguns grupos e posições sociais são
considerados aspectos importantes dessa dinâmica. Naturalizam-se juízos
relativos às diferentes competências e habilidades de homens e mulheres, às
diferentes disposições morais de ricos e pobres, à capacidade que os diferentes
indivíduos teriam para emitir opinião sobre assuntos públicos, para citar
alguns exemplos.
Um ponto que deve ser ressaltado é que, nesse quadro, como indica Young, a
imparcialidade não é considerada apenas um ideal inatingível, mas um valor que
serve a funções ideológicas precisas. Ela dá suporte à idéia de Estado neutro e
legitima a autoridade burocrática e os processos decisórios hierárquicos, que
são as manifestações desta neutralidade. Além disso - e este é o ponto crucial
para a discussão aqui traçada -, a imparcialidade reforça a opressão ao
transformar o ponto de vista de grupos privilegiados em uma posição universal.
As diferenças são reduzidas a uma unidade que não apenas é artificialmente
forjada como também é socialmente situada. A pluralidade é negada, já que se
postula uma moral transcendente capaz de totalizar as perspectivas. Quem
permanece fora desta unidade transcendente é transformado em um "outro
absoluto", o que significa eliminar a alteridade como integrante efetiva do
espaço público. Por fim, a imparcialidade legitima hierarquias baseadas na
divisão entre público e privado, assegurando a opressão de alguns grupos e a
despolitização de questões de poder relevantes.
O deslocamento aqui proposto implica, assim, em uma compreensão de que a
imparcialidade não é apenas inatingível. Ao ser ativada como um valor de
referência para a avaliação do grau de democracia, justiça e pluralidade
presente nos meios de comunicação, ou como um parâmetro para a avaliação do
trabalho jornalístico pelos próprios jornalistas e pelos críticos credenciados,
não permite considerar uma parte relevante das dinâmicas de opressão. A
imparcialidade, como valor-guia, colabora para a ocultação dos lugares de
enunciação dos discursos e das redes de diferenciação que os caracterizam e
fazem com que circulem por determinados espaços e sejam aceitos como
verdadeiros.
O conceito de perspectiva é proposto, aqui, como contraponto adequado à noção
de imparcialidade justamente por explicitar que qualquer discurso, inclusive o
midiático, é um discurso situado e marcado por uma rede complexa de relações.
Aos lugares de enunciação desses discursos correspondem, pelo menos, dois
conjuntos complexos de problemas: (1) as formas de distinção que constituem a
relação entre competências legitimadas (as dos jornalistas, dos políticos, dos
intelectuais) e discursos legítimos e (2) as redes de restrição que condenam
determinados sujeitos ao silêncio, a uma presença estereotipada ou a um
simulacro de vozes socialmente aceitas e valorizadas. Nos dois casos, há
tensões que merecem ser destacadas: no primeiro, as competências socialmente
legitimadas conferem relevância e credibilidade aos discursos ao mesmo tempo em
que permitem que eles sejam apresentados como não situados - tecnicamente
orientados, construídos segundo os parâmetros do aceitável e do justo; no
segundo caso, a marginalidade social é reforçada pela percepção de que as
experiências de determinados sujeitos têm pouco valor porque oscilam entre uma
explicitação de seu lugar de fala(desvalorizado) e um esforço de adequação aos
discursos aceitos (que reforça justamente os valores e os critérios sociais
vigentes).
As perspectivas dos diferentes indivíduos e grupos são entendidas como
conhecimentos situados (noção trabalhada por Young a partir de Donna Haraway),
resultado de relações que posicionam os indivíduos de maneira diferenciada. As
perspectivas dos grupos subalternos seriam, assim, marcadas "negativamente"
pelas formas de opressão vigentes e pelos limites impostos à sua atuação, ao
mesmo tempo em que são, "positivamente", a matéria de que se nutrem ações e
discursos que seriam potencialmente capazes de deslocar as posições existentes
e os discursos hegemônicos a elas vinculados.
O conhecimento situado e perspectivo não é entendido, apenas, como o único
possível, epistemologicamente falando - como o que resta, uma vez que se
entende a imparcialidade como inatingível -, mas o que é desejável para a
promoção de justiça social em uma democracia inclusiva. Essa posição é
acompanhada pelo entendimento de que os conflitos devem ser explicitados e de
que o conhecimento mais abrangente das relações sociais se funda justamente na
interação entre as diferentes perspectivas - uma interação entre "outros
multiplamente situados" (Young, 2000, 117).
Nas palavras da autora:
A inclusão não deve significar simplesmente a igualdade formal e
abstrata entre todos os membros de um público de cidadãos. Ela
significa considerar explicitamente as divisões e as diferenciações
sociais e encorajar grupos diversamente situados a dar voz a suas
necessidades, interesses e perspectivas sobre a sociedade, de maneira
que correspondam a condições de publicidade e razoabilidade (Idem, p.
119, tradução dos autores).
Sendo redundante, o que resulta dessa interação não é um equilíbrio entre as
diferentes posições sociais, produzido segundo critérios supostamente neutros e
objetivos de justiça. A noção que permeia a prática jornalística e, em certa
medida, as perspectivas teóricas consideradas na primeira seção deste artigo,
de que a consideração dos "dois lados" permite que o pluralismo social seja
produzido ou reproduzido de forma razoável pelos meios de comunicação e a
objetividade seja atingida, ignora o caráter conflitivo das relações sociais e
da política e, especialmente, silencia sobre os critérios que definem quais as
vozes relevantes. Afinal, os "dois lados" não são considerados a partir de um
"não lado", mas de uma posição que é perspectiva porque está inserida em redes
sociais de diferenciação e atribuição de competências que devem ser analisadas.
Na abordagem das autoras aqui discutidas, a noção de objetividade ganha um
significado diferente desse que acabamos de mencionar. Para Young, de um lado
estão perspectiva e objetividade e, de outro, imparcialidade e ponto de vista
universal. No primeiro campo, justiça envolve a consideração e a negociação
entre perspectivas variadas - incorporando a diversidade e o conflito social e,
por isso, promovendo uma visão objetiva das relações sociais. No segundo,
justiça envolve a promoção do bem-comum, superadas as particularidades -
apresentando como neutras e universais as posições dos grupos hegemônicos e,
por isso, no limite, impondo o silêncio às perspectivas sociais de outros
grupos. A objetividade é entendida, portanto, como uma conquista da comunicação
democrática que "inclui todas as posições sociais diferenciadas", mas não é
"simplesmente algum tipo de soma de seus pontos de vista diferenciados" (Idem,
p. 114, tradução dos autores).
Essa interação não permitiria a superação dos conflitos estruturais, mas
levaria a um alargamento do pensamento, a um melhor entendimento das demandas
por justiça e a uma compreensão mais objetiva de cada posição e das relações
entre elas. Ensinaria sobre as perspectivas de outros e explicitaria, a cada
um, o quanto sua própria experiência é perspectiva (Idem, p. 117).
As noções de públicos e contrapúblicos, em Nancy Fraser, podem ser aqui
atualizadas nesse mesmo registro. Ela parte da percepção de que existem grupos
socialmente desfavorecidos e grupos socialmente privilegiados, o que implica
numa situação diversa quanto à possibilidade de conferir publicidade a suas
experiências e aos valores que orientam suas interações. De maneira sucinta,
podemos considerar que, para a autora, os contrapúblicos resultam da interação
com os mecanismos que produzem discursos e identidades hegemônicas, ao mesmo
tempo em que são a matéria que permite a reconfiguração das relações
interpúblicos e intrapúblicos.
Os contrapúblicos são, nesse sentido, "arenas discursivas paralelas onde os
membros de grupos sociais subordinados inventam e fazem circular
contradiscursos para formular interpretações opostas de suas identidades,
interesses e necessidades". A afirmação e a multiplicação desses
"contrapúblicos subalternos" levaria a uma ampliação da contestação discursiva
(Fraser, 1997, pp. 123-124, tradução dos autores).
Um dos aspectos relevantes dessa ampliação e do alargamento do pensamento, no
sentido trabalhado por Young, diz respeito às ambigüidades na compreensão do
que é público, mencionadas anteriormente. A noção de que público é aquilo que
"diz respeito a todos" envolveria pelo menos dois entendimentos. É aquilo que
afeta ou tem impacto sobre todos, segundo a avaliação de uma perspectiva
externa - justamente a abordagem criticada nesta seção -, mas também "o que é
reconhecido como uma questão de preocupação pública pelos participantes" (Idem,
p. 129, tradução dos autores). A ampliação da contestação discursiva está
relacionada com a ampliação e a pluralização dos termos da disputa sobre o que
se estabelece como uma questão de preocupação pública. E os meios de
comunicação são, atualmente, o espaço privilegiado em que se dá essa disputa.
Hipóteses de trabalho
A partir dessa discussão, elaboramos três hipóteses de trabalho, estritamente
vinculadas entre si, sobre a relação entre o ideal de imparcialidade, a
legitimidade do discurso jornalístico e seu impacto no campo político. Elas
procuram explicitar a conexão entre a pluralidade de vozes presentes na mídia e
o leque de temas e experiências que constitui o debate público.
Hipótese 1:O ocultamento da posição de enunciação do jornalismo, que ocorre
graças a seu discurso universal/imparcial, funda a legitimidade e a
credibilidade de sua intervenção no espaço público.
Ainda que uma leitura crítica da objetividade e da imparcialidade se tenha
disseminado nas últimas décadas, o discurso jornalístico continua a se
apresentar como partindo de um ponto de vista "universal". A adesão a esta
forma de discurso é alimentada pelas rotinas produtivas da profissão e é
indispensável tanto para a consagração no campo jornalístico como para a
legitimidade social do campo. A pretendida universalidade de ponto de vista
permitiria a identificação de posições parciais em conflito e sua
reconstituição justa num espaço público unificado, do qual a imprensa seria o
espelho e o agente regulador, uma vez que o campo político, em seu
funcionamento, seria regido pelo embate entre interesses e por uma consideração
pouco rigorosa das fronteiras entre o público e o privado.
A literatura sobre newsmaking, a partir, sobretudo, dos trabalhos de Gaye
Tuchman (1972, 1973), mostra como a "objetividade" é um produto de estratégias
discursivas do jornalismo. O treinamento do jornalista profissional consiste,
em grande medida, em obter o domínio dessas estratégias. Elas exigem que o
profissional se coloque em posição de distância ostensiva em relação aos grupos
em conflito. A produção do equilíbrio entre as diferentes vozes às quais se
concede espaço em situações que, reconhecidamente, envolveriam partes e
interesses distintos é correlata à produção de uma unidade forjada a partir de
um conhecimento situado que se apresenta como imparcial.
O discurso jornalístico assume, assim, uma perspectiva olimpiana.6 Ele é
imparcial porque reconstrói o todo incorporando as diferentes partes. Mas é
também capaz de falar em nome de valores universais - o progresso, a ética, a
democracia. É a imparcialidade que diferencia o discurso jornalístico do
discurso de outros agentes, que podem tentar (e freqüentemente tentam)
mobilizar tais valores, mas sempre o fazem a partir de uma posição interessada
(porque parcial).
O que ganha curso na sociedade como sendo a verdade jornalística é o discurso
produzido de acordo com as estratégias de isenção descritas pela literatura
sobre newsmaking. No entanto, este discurso é socialmente situado, como
qualquer outro. Em primeiro lugar, pela origem social similar dos
profissionais. Jornalistas podem diferir quanto a posições ideológicas ou
valores, mas ocupam posições similares no espaço social, fruto de trajetórias
semelhantes e de padrões comuns de socialização, nas universidades e nas
redações. Por isso, tendem a se acercar do mundo social de forma similar. De
maneira muito simplificada, é possível dizer que, como os jornalistas estão na
posição de "classe média", é natural que na imprensa haja também o predomínio
de uma perspectiva de "classe média" (ver Bourdieu, 1996; Fallows, [1996]
1997). As preocupações das classes médias ganham maior visibilidade, ao mesmo
tempo em que a representação de outros ambientes sociais é tingida de exotismo.
Os critérios que definem o que é importante e o que é interessante - ou seja, o
que é notícia - refletem esta perspectiva social.
Vale ressaltar que entendemos, como foi discutido na segunda seção, que essas
perspectivas são correlatas a identidades sociais geradas em uma teia de
relações com outros grupos sociais. Correspondem, portanto, a formas de
valorização e tematização das experiências como menos ou mais relevantes do que
outras, a formas de diferenciação e hierarquização dessas mesmas experiências.
A noção de imparcialidade, mobilizada como ideal que permite distinguir entre o
bom e o mau jornalismo, não permite lidar adequadamente com essa condição
(perspectiva) da produção do discurso jornalístico e com os silêncios que ela
produz.
Além da origem social dos jornalistas e de seu pertencimento a diferentes
grupos sociais, considerados anteriormente, outros aspectos merecem ser
destacados. Trata-se, ainda aqui, de considerar a multiplicidade de variáveis
que compõem as perspectivas dos jornalistas.
Com foco nas relações internas ao campo, é preciso considerar as normas e os
valores que constituem as hierarquias dentro do campo profissional do
jornalismo. Aspectos relevantes das perspectivas sociais dos jornalistas são
forjados na interação com os pares no cotidiano das redações e nas tensões
envolvidas na reprodução ou na contestação das posições hierárquicas no
interior desse campo. Também no cotidiano dessas relações, como em outros
campos sociais, há uma rede de estímulos e restrições que impõe determinadas
práticas e "visões de mundo" como aceitáveis.
Com foco nas relações externas ao campo, é preciso considerar o vínculo entre o
campo jornalístico e outros campos sociais, com destaque para o campo político.
As rotinas de produção e a socialização dos jornalistas definem, em grande
parte, sua relação com outros campos de produção de discursos. Pode-se
considerar que as perspectivas dos jornalistas são concebidas no interior de
tramas sociais que constituem as relações entre diferentes campos ou
perspectivas sociais estruturadas, legando temas e experiências (assim como os
potenciais discursos que lhes seriam correlatos) à relevância, à marginalidade
e/ou à inexistência. A tensão entre os diferentes campos, competências e
discursos faz com que essas relações sejam marcadas ora pela acomodação e
complementaridade, ora por disputas e contradições.
Hipótese 2: Ao buscar uma representação objetiva das diferentes vozes, mas
fazendo-o a partir de uma perspectiva situada, o jornalismo produz um simulacro
da pluralidade.
Em disputa com o campo político e as ciências sociais, o campo jornalístico
busca "impor a visão legítima do mundo social" (Bourdieu, apud Fritsch, 2000,
p. 22). Cada um a seu modo, as três áreas reivindicam um ponto de vista
universal, seja na forma do Estado que transcende os interesses particulares e
zela pelo bem comum, da ciência que produz conhecimento objetivo sobre o mundo
empírico ou da imprensa que espelha a realidade para seu público.
Na segunda metade do século XX, nos Estados Unidos e, por efeito mimético, em
muitos outros países também, o jornalismo minou a imagem do Estado como
promotor do bem comum. O escândalo de Watergate e, mais ainda, a cobertura da
Guerra do Vietnam indicam uma virada em que a imprensa mostra o que seria seu
dever para com o público - o provimento de informações verazes e objetivas -
acima de seu compromisso com o Estado. Se há aí o reconhecimento de que os
interesses em conflito na sociedade não permitem que se estabeleça um "bem
comum" unívoco, ao mesmo tempo se vende a idéia de que aquilo que serve a todos
é a "verdade", o produto que (apenas) os jornalistas podem fornecer. É por
apresentar a verdade que o jornalismo é imparcial; é por apresentar a verdade
que ele serve à sociedade em geral, para além dos interesses específicos.
A "verdade" a ser apresentada não consiste apenas na aderência a uma realidade
objetiva que é narrada. Consiste, sobretudo, na determinação de quais aspectos
desta realidade merecem ganhar a atenção do público. Dentro do próprio
jornalismo, há o reconhecimento de que esta decisão não é simples. Questiona-se
o predomínio do fait divers em detrimento do noticiário de interesse público
(ver, por exemplo, Ramonet, 1999; Arbex, 2001) ou ainda os critérios de seleção
do noticiário político (cf., entre outros, Fallows, [1996] 1997; Cappela e
Jamieson, 1997; Halimi, [1997] 1998; Sartori, [1997] 1998). Mas, como regra,
permanece intocada a crença de que cabe aos jornalistas esta tarefa, caso façam
de maneira correta o seu trabalho.
A afirmação de critérios profissionais, tecnicamente orientados, combina-se com
a crença de que o jornalismo reflete a realidade que o circunda. A
justificativa para a visibilidade maior (e diferenciada) de indivíduos e grupos
que detêm posições sociais de prestígio ou características socialmente
valorizadas é, nesse caso, a de que corresponde à realidade social - se há
poucas mulheres em cargos importantes, haverá poucas mulheres no noticiário
político, por exemplo. Para além da questão relativa à existência, de fato, de
correspondência entre valorização no noticiário e distinção social, é
interessante observar a oscilação entre um argumento que destaca a autoria e a
escolha dos profissionais e outro que consagra a idéia de que o bom jornalista,
o jornalista disciplinado, capta e reproduz a realidade tal como ela lhe é
apresentada.7 De um lado, ressaltam-se critérios profissionais; de outro,
destaca-se uma realidade que existiria de maneira independente em relação aos
critérios de valorização e publicização que constituem a prática jornalística.
As duas posições se complementam porque estão ancoradas na idéia de que é
possível, ao bom jornalista, colocar-se em uma posição não perspectiva e
mobilizar, na produção do noticiário, critérios não situados socialmente - e
também na ignorância deliberada da reflexividade do trabalho jornalístico, isto
é, dos efeitos que exerce sobre o mundo social que é seu objeto.8
Para a manutenção do jornalismo como espaço diferenciado e legítimo de difusão
dessa verdade, é mobilizada a noção de que a objetividade possível, ainda que
reconhecidamente limitada, consistiria na reprodução das diferentes opiniões
sobre temas cuja relevância é pressuposta a partir de critérios profissionais
"neutros". As vozes tornadas públicas são justamente aquelas que se inserem em
uma configuração prévia dos discursos, que permite a expressão dentro dos
limites daquilo que os jornalistas consideram publicamente relevante e
politicamente razoável. O "equilíbrio" constituído é, portanto, a reiteração
das perspectivas sociais dos jornalistas, a partir de um conjunto específico de
vozes chamadas a compor uma ordem discursiva fundada nos valores sociais
compartilhados pelos integrantes do campo jornalístico em um dado momento.9
Assim, a diversidade social é mal representada no jornalismo, que universaliza
a perspectiva social de seus agentes, apresentando-a como neutra. Mas há outro
aspecto, vinculado à representação dos diferentes discursos políticos. A
imposição de um padrão expressivo como condição para participação no debate é
uma das formas fundamentais de negação do acesso do campo político aos
integrantes dos grupos dominados (Bourdieu, 1979; Bickford, 1996). O jornalismo
reforça decisivamente esse fenômeno. Afinal, o domínio da linguagem é, ao lado
do acesso a indivíduos em cargos de decisão, um dos principais capitais de que
os jornalistas dispõem. Ao reforçar a importância deste capital, a imprensa
contribui para rejeitar as tentativas de ingresso, no debate público, daqueles
que escapam das normas dominantes de produção do discurso.
Os agentes sociais interessados em participar da discussão pública ganham,
assim, fortes incentivos para a adaptação às expectativas do jornalismo, quer
na forma lingüística, quer na agenda, quer no enquadramento. A quem está
desprovido de condições de adotar o discurso dominante restam três opções. Se
insistir na sua dicção própria, tende a ser marginalizado, isto é, ignorado ou
apresentado como "folclórico".
Buscar a adaptação ao modelo esperado - a segunda das três opções - significa
trair a vivência e os interesses que se desejava expressar. Ao mimetizar o
padrão discursivo dominante, recaindo naquilo que Bourdieu chamou de "fala
enguiçada", os porta-vozes dos grupos subalternos tornam-se incapazes de
transmitir sua experiência vivida. Ao curvarem-se à imposição de um certo
registro, reconhecem implicitamente que não possuem legitimidade para estar
ali, que são estranhos ao debate público.
A terceira opção é aceitar o silêncio. Os grupos em situação de maior
subalternidade vão, com freqüência, "ser falados" por outros. Seus interesses
presumidos são vocalizados na esfera pública por outros agentes, como
lideranças políticas, organizações não-governamentais ou ainda especialistas
universitários (advogados, assistentes sociais, sociólogos, psicólogos,
médicos).
Por outro lado, o padrão discursivo dominante na imprensa deslegitima outras
formas de produção de informação. Formas alternativas, que se assumem como
socialmente situadas, podem possuir público e mesmo alguma influência, mas seu
estatuto é diferenciado e tendem a ocupar uma posição complementar em relação à
mídia convencional. Há um forte incentivo, para qualquer grupo que se disponha
a fornecer informações, a mimetizar as estratégias dominantes no jornalismo. A
multiplicação, especialmente com o advento da internet, de espaços em que o
jornalismo não-profissional é proposto como uma espécie de antídoto ou
contraditório da mídia comercial acaba, por vezes, colaborando para a
legitimidade social do jornalismo profissional ao assumir seus critérios e
valores. Sem deixar de lado a importância desses espaços de produção e difusão
de informação, é importante ressaltar que a mídia convencional continua a ser o
ambiente privilegiado de conformação do debate público, daí a importância de
torná-la mais plural.
O problema destacado aqui é, portanto, o de que o equilíbrio entre as
diferentes tendências, construído no noticiário, é a reiteração das
perspectivas dos jornalistas - constituídas por sua posição na pirâmide social,
pela ideologia profissional compartilhada, pelas pressões e imposições das
empresas, pelas relações com os agentes do campo político. A adaptação aos
critérios de relevância aceitos por eles como auto-evidentes (e portanto
inquestionáveis), bem como a utilização do padrão discursivo imposto como
adequado, é condição para o ingresso no debate. O pluralismo de vozes
resultante parte de uma posição não plural, que o limita e condiciona: por isso
se fala de um "simulacro de pluralidade" no noticiário jornalístico.
Hipótese 3: O jornalismo assume a posição de fiador do pluralismo político,
estabelecendo, a partir de sua própria prática, os limites deste pluralismo.
A legitimidade do campo jornalístico é fundada no reconhecimento disseminado da
competência específica de seus profissionais, que se manifesta no discurso
imparcial e universal. Com isso, o jornalismo assume a posição de fiador do
pluralismo político, estabelecendo, a partir de sua própria prática, os limites
deste pluralismo. O papel de gatekeeper da discussão pública implica em avocar
a competência para julgar a relevância e a adequação das diferentes
contribuições ao debate.
Os critérios para a definição de quemestará presente no noticiário nascem das
rotinas e das perspectivas dos jornalistas. Isso não significa que outros
campos, como o da política, não exerçam influência sobre as escolhas que são
feitas e que os interesses empresariais, em circunstâncias específicas, não
determinem essas escolhas. Não significa, também, negar que "permutas" - em que
a visibilidade é moeda corrente - fazem parte dos mecanismos de distinção dos
profissionais do jornalismo e da política em seus respectivos campos. No
cotidiano do trabalho nas redações, a escolha das personagens que compõem o
noticiário é, no entanto, entendida como uma prerrogativa dos jornalistas,
destacada quando há tensões e impasses com outros campos (especialmente o
político) e com os imperativos econômicos das empresas que os empregam.
Tal prerrogativa se estabelece graças a um duplo movimento. O jornalismo
apresenta-se como portador de um discurso tecnicamente diferenciado, algo que
ele possui em comum com outros discursos de competência - considerando-se que a
distinção entre profissionais e não-profissionais está na base da divisão do
trabalho e das formas de concentração do poder de produção do discurso legítimo
em diversos campos sociais. O jornalismo apresenta-se também como portador de
uma posição de exterioridade em relação aos conflitos sociais - diferentemente
de certos discursos que também têm sua competência legitimada socialmente (os
discursos dos políticos profissionais ou dos representantes e advogados de
interesses sociais específicos, por exemplo) e de maneira correlata ao que se
dá em outros campos, como o científico.10
Estes mecanismos de diferenciação - distinção entre profissionais e não-
profissionais e sustentação de uma posição supostamente universal e de
exterioridade - não são específicos do jornalismo. O Estado apresenta-se assim
e a ciência também, para citar apenas dois exemplos. A questão que se coloca,
portanto, diz respeito às razões pelas quais o jornalismo, em sua relação com a
política, é capaz de manter a imparcialidade como o valor que respalda sua
competência específica, como o valor que provê os recursos que o caracterizam
como fiador do pluralismo político.
Como já foi dito neste artigo, a democracia se estabelece como valor hegemônico
dentro dos limites de uma compreensão restrita da igualdade. Nela, a igualdade
formal convive com a exclusão dos grupos subalternos das esferas de decisão e
com a exclusão de suas perspectivas da agenda pública. O jornalismo, por sua
vez, constitui-se como campo em que se configura a crítica legítima às
distorções do ideal democrático. Isso se dá porque ele se apresenta como
detentor de uma "verdade" não parcial - diferentemente dos agentes entendidos
como propriamente políticos e dos representantes dos grupos sociais em conflito
-, mas também porque as práticas jornalísticas tendem a se acomodar em
representações da política, da democracia e dos conflitos sociais que
correspondem à manutenção da política dita democrática dentro dos limites antes
mencionados. O jornalismo apresenta-se como fiscal de uma ordem que ele não
contesta.
Aquela que pode ser considerada sua prática política por excelência, a de
estabelecer os termos do debate público e os limites do pluralismo político, é
apresentada como exterior à própria política. É dessa posição de suposta
exterioridade que o jornalismo poderia avaliar os desvios da política
democrática liberal - em especial, a colonização de recursos e espaços públicos
por interesses privados e, de modo inverso, mas não contraditório, a restrição
à liberdade e à inventividade dos agentes privados pelo Estado. Mas essa
posição pode ser apresentada como não situada, justamente porque ela incorpora
e ativa os pressupostos que naturalizam a ordem social e política estabelecida.
Em especial, participa da neutralização dos conflitos por meio da
marginalização de perspectivas sociais que colocam em relevo uma sociedade
dividida.
Ao definir os limites do pluralismo político, o jornalismo delimita também o
espaço de contestação discursiva. A ampliação do "espaço da controvérsia
legítima" (Hallin, 1986) depende da possibilidade de que contradiscursos
circulem em condições de disputa e diálogo com os discursos hegemônicos. Nos
padrões convencionais do jornalismo, os discursos hegemônicos são reproduzidos
como portadores de valores "universais". Os contradiscursos, por sua vez, são
silenciados ou não se tornam públicos a não ser como estereótipos verbais,
oscilando entre a mimese dos padrões dominantes de expressão e sua apresentação
como "outros" absolutos.
Considerações finais
A pluralidade necessária, portanto, não é apenas a pluralidade de controladores
da mídia - a fórmula liberal da concorrência. Tampouco se reduz à pluralidade
de formas de financiamento - quando se assume que um jornalismo não-mercantil,
liberto das pressões econômicas, seria capaz de empunhar, sem contaminações, os
valores redentores da ética profissional.
A promoção da interação entre "outros multiplamente situados" (Young, 2000) não
se dará dentro dos limites das representações da política como consenso ou
gestão neutra dos interesses comuns. É preciso que os diferentes grupos sociais
tenham possibilidade de produzir informações a partir de suas próprias
perspectivas, o que implica no descentramento do padrão de profissionalismo
jornalístico e dos padrões de hierarquização da expressão - sobretudo, dos
discursos políticos. Não se trata, no entanto, de acenar com uma solução que se
daria pela substituição de uma perspectiva dominante por outra, dominada, que
lhe seria ética ou cognitivamente superior. As perspectivas dos grupos
subalternos não podem ser consideradas a fonte de onde emanariam posições
políticas "não contaminadas", exteriores às disputas, aos constrangimentos
impostos pelos campos e, em especial, aos padrões legitimados historicamente
para a verbalização das opiniões políticas e a representação dos interesses em
disputa.
As representações da política que imperam no campo jornalístico não são
restritas a esse campo ou compartilhadas apenas por aqueles que estão em
posições socialmente privilegiadas. As categorias que dão legitimidade às
hierarquias e às formas de distinção e de marginalização existentes podem
estar, também, na base da compreensão que os grupos subalternos têm de sua
própria experiência. Isso significa que "dar voz" - ou conquistar posições -
não implica, necessariamente, na afirmação de perspectivas que contestem as
formas atuais de hierarquização social, inclusive as que estão na base do
monopólio da política democrática por determinados grupos e indivíduos.
Por outro lado, a incorporação de perspectivas reconhecidamente diversas pode
consistir na acomodação das diferentes trajetórias e posições sociais por elas
representadas à lógica predominante nos campos político e jornalístico. O fato
de que essa incorporação envolva conflitos não elimina a tendência à
concentração de recursos e à reprodução ou recomposição das hierarquias.
Entendidos conforme a definição de Bourdieu, os campos sociais - tanto o
político como o jornalístico - exercem um efeito homogeneizante, impondo uma
matriz de comportamentos e formas de apreender o mundo (o habitus) que é
condição para o ingresso em si e exclui maneiras alternativas de agir e pensar.
Por mais que, como o próprio Bourdieu indica, os integrantes do campo ajam de
forma estratégica para reconfigurá-lo, buscando torná-lo mais favorável à sua
própria posição e trajetória, uma eventual pluralidade de perspectivas de
origem sempre esbarrará na exigência uniformizadora da posse de um habitus
adequado para a permanência naquele espaço. A concentração do capital político,
própria dos regimes representativos, e a capacidade técnica de produzir
informação, exigida pelo jornalismo, são geradoras de desigualdade.
É possível, aqui, trazer à baila uma diferenciação que, em outro contexto,
Nancy Fraser faz entre estratégias "afirmativas" e estratégias
"transformadoras" (Fraser, 2003, p. 75). As primeiras visam incorporar mais
grupos aos espaços sociais de poder e status, questionando as hierarquias
vigentes, mas não pondo em xeque a existência de hierarquias. As segundas, mais
ambiciosas e utópicas, buscariam "desconstruir" tanto as oposições binárias que
fundam as identidades de grupo como as próprias estruturas da desigualdade
social. Sob este prima, a pluralização das perspectivas no jornalismo é uma
proposta de natureza afirmativa. Ela obrigaria o campo a se redefinir de
maneira potencialmente mais democrática, mas manteria a separação entre
produtores e consumidores de informação.
Porém, cumpre observar que, quanto mais distante o grupo está do campo - e
quanto menos os integrantes do grupo dominam os códigos discursivos
considerados legítimos -, mais a exigência de incorporação encontra
resistências e mais mudanças na estrutura do campo requer para ser atendida. A
reivindicação da pluralidade de perspectivas, assim, tensiona as formas
estabelecidas de exclusão e dominação. Se não há um "ponto de chegada", uma
situação ideal em que todas as perspectivas sociais estejam igualmente
presentes, uma vez que o campo reinventa seus princípios de hierarquização, a
consciência da exclusão pode forçar permanentemente a redefinição dos seus
limites.
Em suma, a incorporação de perspectivas diferenciadas convive com a reprodução
de concentração de poder que caracteriza esses campos, mas impõe novos desafios
às formas como essa reprodução se dá. A afirmação da pluralidade social ou a
defesa da ampliação das perspectivas sociais presentes não encerra, portanto,
nenhuma panacéia, mas expõe os limites da crítica pluralista e das
representações da pluralidade presentes no discurso jornalístico. O percurso
teórico assumido neste artigo contribui, assim, para a análise das conexões
existentes entre as formas de reprodução das estruturas sociais (no caso,
especificamente das estruturas dos campos político e jornalístico) e os
conflitos que se impõem e participam de potenciais reconfigurações dessas
mesmas estruturas.
A noção de imparcialidade, que legitima a compreensão de que práticas
jornalísticas tecnicamente orientadas são capazes de produzir um espaço
discursivo plural, não permite lidar adequadamente com as formas de inclusão
restrita da diversidade e do contraditório que se apresentam nos noticiários.
Essas práticas produzem, na realidade, um equilíbrio que consiste em simulação
controlada dos conflitos sociais.
Apresentando-se como fiadores do pluralismo político, os meios de comunicação
delimitam o debate público e confirmam os critérios ativos para a diferenciação
entre opiniões razoáveis e não-razoáveis e para a avaliação dos níveis
aceitáveis de conflito em sociedades democráticas. A unidade que daí resulta é
forjada a partir de critérios que se acomodam às representações hegemônicas da
democracia - a convivência legítima entre direitos formais igualitários e
práticas que restringem a participação política de determinados grupos sociais.
Ao apresentar-se como um discurso fundado em categorias universais, o discurso
jornalístico contribui para tornar invisíveis as discordâncias e as diferenças
que constituem um público efetivamente plural. Ao apresentar sua posição como
não situada socialmente, os jornalistas ocultam o fato de que sua perspectiva
incorpora e ativa os pressupostos que naturalizam a ordem social e a política
estabelecida.
O resultado é que a política democrática é apresentada sob dois prismas. É
incompleta e insuficiente diante de um ideal normativo que projeta o público
como interação equilibrada entre os diferentes interesses, com vistas a um bem
comum. É, ao mesmo tempo, a celebração dos limites que permitiriam uma
convivência razoável entre as diferenças, afirmando as vantagens de um
pluralismo restrito que não fere a "governabilidade" e os pressupostos da ordem
social vigente. Em seu funcionamento convencional, o jornalismo colabora para a
afirmação de que a boa política permite o livre curso do debate público e
garante sua razoabilidade ao neutralizar as vozes que explicitam fraturas e
conflitos sociais. Incorporá-las significaria situar os conflitos no cerne da
política.
Notas
1 Enfático na defesa do caráter "seletivo" da democracia eleitoral, cujo
objetivo é escolher uma minoria qualitativamente superior ao demos para exercer
as funções de governo, Sartori é antes um elitista do que um pluralista.
2 O próprio Rawls vai repensar seu modelo à luz de algumas destas críticas,
embora não o suficiente para distanciá-lo do ideal de uma "razão pública"
essencialmente imparcial (cf. Rawls, [1993] 2000).
3 Ver o debate sobre suas categorias de análise centrais (Young, 1997; Fraser,
1997), bem como as posições que sustentam em relação à obra de Habermas e às
questões relativas à identidade dos grupos sociais na política.
4 Para abordagens representativas, cf. Pateman ([1988] 1993) e Okin (1998).
5 A esse respeito, cf. Miguel e Biroli (2008) e Biroli (2008).
6 Essa é a posição "natural" do jornalismo, o que é ilustrado pelo fato de que
experiências alternativas, como o new journalism, têm seu caráter desviante
assinalado exatamente por se assumirem como perspectivas localizadas.
7 O ideário da isenção é parte dos mecanismos de disciplinamento do trabalho
jornalístico ao longo do século XX, como atestam os manuais de redação que se
multiplicaram a partir dos anos de 1940. O disciplinamento do olhar e da
escrita do jornalista garantiu um maior controle das empresas sobre as rotinas
produtivas, ao delimitar a autonomia do jornalista como autor. Ao mesmo tempo,
está na base de uma defesa da ética no jornalismo diante das pressões exercidas
pelas próprias empresas e por agentes pertencentes a outros campos sociais. Não
se trata de uma contradição, uma vez que a imparcialidade é o valor que guia as
duas orientações (cf. Biroli, 2007).
8 Boorstin (1961) já observava como a mera existência da imprensa, com seus
critérios de noticiabilidade, suas rotinas produtivas e seu impacto na
constituição do espaço público, altera o comportamento dos agentes sociais.
Curiosamente, a reflexividade de sua prática é negada pelo mesmo jornalismo que
exalta seu papel moralizador (por exemplo, denunciando e cobrando a punição de
maus governantes).
9 Sem que se neguem as pressões e as influências de outros campos sociais (cf.
Miguel, 2002).
10 Essas mesmas características podem ser atribuídas ao discurso dos
"especialistas" que são chamados a confirmar as representações da política e da
sociedade presentes nos noticiários - politólogos, sociólogos, economistas,
médicos, psicólogos, entre outros.