Coenosia attenuata (Dptera: Muscidae), um predador em estudo para utilização em
culturas protegidas
INTRODUÇÃO
Actualmente os consumidores pretendem, cada vez mais, produtos agrícolas com
elevada qualidade e, principalmente, produtos seguros. Neste sentido, têm sido
tomadas medidas legislativas sobre aplicação de pesticidas e ocorrência dos
seus resíduos de modo a garantir a segurança do consumidor final.
A partir de 1 de Janeiro de 2014, de acordo com a Directiva 2009/128/CE, todos
os agricultores são obrigados a produzir em Protecção Integrada. Em muitas
situações, o produtor será obrigado a reduzir as aplicações de pesticidas, o
que beneficiará o ambiente, o consumidor (aumentando a segurança dos produtos
agrícolas) e o produtor (pela diminuição de exposição e, por vezes, pela
diminuição dos custos de produção).
Uma das formas de reduzir o risco de ocorrência de resíduos e os inconvenientes
associados à presença de determinadas substâncias activas é promover a
limitação natural de pragas e de agentes patogénicos, com recurso a outros
organismos.
Coenosia attenuataStein (Diptera: Muscidae), vulgarmente conhecida como mosca
tigre foi detectada em Portugal, pela primeira vez, em 2001, na região Oeste, a
predar adultos de mosca branca e de larvas mineiras (Prieto, 2002; Prieto et
al., 2005). Facilmente se reconhece a importância potencial de C. attenuatano
combate a pragas de culturas protegidas, uma vez que apresenta características
únicas, tais como: ser o único predador conhecido do estado adulto de
importantes pragas de estufa (Kühne, 1998); ser polífago; ser predador tanto no
estado larvar como adulto (Kühne, 2000; Moreschi e Colombo, 1999; Sensenbach,
2004); apresentar resistência a temperaturas elevadas (Gilioli et al., 2005); e
o facto do seu instinto predador a levar, por vezes, a capturar e matar mais
presas do que as que efectivamente consome (Martinez e Cocquempot, 2000).
Sendo originária da Europa mediterrânica (Couri e Salas, 2010), C.
attenuataencontra-se actualmente distribuída a nível mundial. Está presente no
Norte de África, Espanha, Israel, Itália, Alemanha, Holanda, Malta, França,
Chipre, Turquia e Grécia (região Paleártica), Equador, Peru, Colômbia, Costa
Rica e Chile (região Neotropical), Canadá e EUA (região Neártica), para além de
Portugal (Blind, 1999; Couri e Salas, 2010; Gilioli et al., 2005; Kühne, 1998;
Martinez e Cocquempot, 2000; Pohl et al. 2003, 2012; Pont, 1986; Prieto, 2002;
Sutherland, 2005; Téllez e Tapia, 2006).
A optimização da criação em massa de C. attenuata e a avaliação da sua eficácia
na limitação de pragas está em curso, no âmbito do projecto PTDC/AGR-AAM/
099723/2008 FLYPRED - Que papel para a mosca tigre na luta biológica em
culturas protegidas?, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Descrevem-se os principais resultados da adaptação e optimização de
metodologias de criação em massa de C. attenuata, a partir de métodos descritos
na bibliografia, assim como resultados do estudo, em laboratório, do seu
comportamento e capacidade de predação sobre várias espécies, incluindo
parasitóides e predadores importantes no ecossistema agrário culturas
protegidas.
CRIAÇÃO DE Coenosia attenuata EM LABORATÓRIO
Pretendeu-se optimizar a postura e o desenvolvimento das larvas deste predador,
através da maximização do número de indivíduos emergidos em dado espaço de
tempo e da garantia da sobrevivência dos adultos. Esta optimização teve como
objectivo principal quer a criação em laboratório, para uso em ensaios
laboratoriais, quer o desenvolvimento de metodologia para eventual instalação
de unidades de criação em estufas, num sistema de open rearing, permitindo o
aumento de populações de mosca tigre nessas infra-estruturas. Outros aspectos
importantes a ter em conta na criação prendem-se com a simplificação do método
e redução dos custos envolvidos, que a poderiam tornar inviável.
Com o objectivo de optimizar a criação em massa de C. attenuata, foram
adaptadas metodologias de criação disponíveis na bibliografia e em relação às
quais persistem ainda alguns problemas de estabilização de emergências, quer em
número quer no tempo (Valentini, 2009; Daniela Lupi, com. pess.).
A criação foi realizada no Edifício de Entomologia do L-INIA/ INRB, em Oeiras
(ex- EAN), com temperatura média entre 23ºC e 26ºC, humidade relativa média de
cerca de 65%, e fotoperíodo de 12h D: 12h N, em gaiolas de étamine com
35x35x58 cm3.
O método de criação desenvolvido foi dividido em três etapas (Figura_1): (i)
inoculação de aveia com o fungo Pleurotus ostreatus (Jacq:Fr.) Kummer; (ii)
criação de larvas de esciarídeos (Bradysia difformisFrey) (Diptera: Sciaridae)
nesse substrato misturado com terra, que serviram de alimento a larvas e
adultos de C. attenuata; e (iii) criação de drosófilas (Drosophila (Sophophora)
melanogaster Meigen) (Diptera: Drosophilidae), que serviram de alimento aos
adultos de C. attenuata
Inicialmente, fez-se uma avaliação preliminar de metodologias de criação, tendo
em conta, em cada gaiola de criação, a disponibilidade de presas para adultos e
larvas de C. attenuata, o número de casais progenitores (1, 5 e 10), a origem
dos progenitores (campo ou laboratório) e o volume de substrato por gaiola.
Verificou-se que o maior número de emergências ocorreu em substratos com maior
número de larvas de esciarídeos, e em gaiolas com mais de cinco casais de
progenitores. Embora o número de adultos obtidos por casal de progenitores
tenha decrescido de um para 10 casais colocados nas gaiolas, os insucessos de
criação, isto é, gaiolas sem emergências, deixaram de ocorrer com o aumento do
número de casais progenitores. Os progenitores com origem no campo
proporcionaram uma taxa de sucesso de emergências maior do que os com origem na
criação em laboratório. Em substratos com o maior número de larvas de
esciarídeos, as emergências prolongaram-se por maior período de tempo.
Para identificar o melhor substrato de criação, fizeram-se três combinações de
componentes, terra e fibra de coco: (1) terra extreme; (2) terra e fibra de
coco misturados (1:1); e (3) terra e fibra de coco intercalados em três zonas
(duas de fibra de coco, nas extremidades, e uma de terra, no centro), e
utilizaram-se cinco casais progenitores. A terra de todos os substratos
testados continha elevado teor de matéria orgânica e estava misturada com aveia
inoculada com P. ostreatus. O substrato que apresentou maior número de
emergências foi o de terra misturada com fibra de coco.
Verificou-se que o aumento da temperatura mínima, máxima ou média da câmara de
criação se reflectia na diminuição dos períodos de pré-cópula, pós-cópula, pré-
postura, postura e/ou desenvolvimento dos estados imaturos de C. attenuata.
Conclui-se haver aspectos muito importantes na criação, que não devem ser
descurados:
1. garantir elevado teor de matéria orgânica na terra que constitui o substrato
de criação dos esciarídeos/ C. attenuata;
2. humidificar abundante e regularmente o substrato, para que se mantenha à
capacidade de campo (húmido ao toque, mas sem estar encharcado em água),
durante o período de postura do predador (20 dias); após este período, não
humidificar para providenciar às pupas um substrato menos húmido;
3. garantir um volume de terra nas caixas de postura que permita o bom
desenvolvimento das larvas (altura superior a 5 cm).
4. colocar mais do que um casal de progenitores na gaiola de criação; com 10
casais obtém-se bom rendimento na criação, sem ocorrência de canibalismo, caso
se disponibilizem presas em abundância.
COMPORTAMENTO E CAPACIDADE DE PREDAÇÃO DE Coenosia attenuata
A grande actividade predadora de C. attenuata levanta a questão sobre se, na
ausência de pragas como presas, este predador poderá atacar organismos
benéficos às culturas, nomeadamente agentes de luta biológica contra pragas. De
facto, alguns autores, para além de mencionarem a polifagia deste predador,
referem também o ataque a auxiliares (Prieto, 2002; Téllez e Tapia, 2006).
Em laboratório: (1) avaliou-se actividade predadora de adultos de C. attenuata
sobre vários insectos ainda não referidos na bibliografia como sendo suas
presas, nomeadamente os auxiliares Eretmocerus mundusRose & Zolnerowich
(Hymenoptera: Aphelinidae), Nesidiocoris tenuis (Reuter) (Hemiptera:
Miridae),Orius laevigatus(Fieber) (Hemiptera: Anthocoridae), Dacnusa
sibiricaTelenga (Hymenoptera: Braconidae), as pragas Pseudococcus viburni
(Signoret) (machos) (Hemiptera: Pseudococcidae), Tuta absoluta(Meyrick)
(Lepidoptera: Gelechiidae) e insectos da família Psycodidae (Diptera); (2)
estudou-se o comportamento de predação da mosca tigre em laboratório, avaliando
tempos de predação e zonas de ataque no corpo da presa; (3) estudaram-se as
preferências alimentares, através da realização de dois tipos de ensaios em
condições laboratoriais controladas: (i) ensaios com duração de 24 horas, com
duas populações - presa, disponíveis em igual número (Diglyphus isaea(Walker) '
diglifos, Trialeurodes vaporariorum(Westwood) ' mosca branca, Liriomyza
huidobrensis(Blanchard) ' larva mineira e Drosophila melanogaster ' drosófila);
(ii) ensaios com duração até à primeira captura, com somente dois indivíduos -
presa disponíveis, um de cada uma das duas espécies testadas (diglifos, mosca
branca e/ou larva mineira).
Os ensaios de predação foram realizados no Insectário do Instituto Superior de
Agronomia/ UTL.
A ocorrência de predação identificou-se através da existência de um orifício no
corpo do insecto - presa, correspondente à inserção da probóscide do predador.
Verificou-se actividade predatória sobre todas as presas testadas (Fig._2).
Apenas um indivíduo de Tuta absoluta(N = 20) foi predado, sendo o comprimento
deste de 3,5 mm, bastante menor do que a dimensão média da espécie (os machos
são menores do que as fêmeas e medem em média 4,9 ± 0,69 mm de comprimento). O
tamanho dos indivíduos predados quer de traça do tomateiro (T. absoluta) quer
de Psycodidae sugere que a dimensão máxima das presas de C. attenuata será de
aproximadamente de 5 mm.
No Quadro_1 é apresentada a localização mais frequente do orifício de predação
realizado por C. attenuata sobre diferentes espécies-presa, sendo que o
orifício foi mais frequente na parte dorsal do occipúcio, em direcção ao tórax,
em todas as presas testadas, excepto em N. tenuis.
Relativamente às preferências alimentares, registaram-se indícios de
preferência das fêmeas de C. attenuata por moscas brancas e larvas mineiras, em
detrimento de diglifos, nos ensaios de 24 horas e de primeira captura, e
verificaram-se, também, diferenças no comportamento de predação sobre moscas
brancas quando também estavam presentes larvas mineiras ou drosófilas, sendo
menos moscas brancas predadas na presença de larvas mineiras.
CONCLUSÕES
A mosca tigre é um promissor agente de luta biológica em culturas protegidas,
complementar aos predadores e parasitóides que atacam estados imaturos das
pragas deste sistema agrário. O facto de preferir como presas espécies praga
presentes habitualmente em culturas protegidas, em relação ao parasitóide
estudado, é bastante favorável, embora seja necessário prosseguir estes estudos
para perceber o impacto real deste predador. A metodologia para criação em
massa, agora disponível, permitirá o incremento das suas populações em estufas
comerciais, em open rearing system, a partir de materiais de uso normal
nestas explorações e de inóculo de fungo de fácil aquisição.