Avaliação de protótipos de incubadoras sobre os parâmetros embrionários de ovos
férteis caipiras
Introdução
A incubação de ovos férteis alicerça a cadeia produtiva de aves, pois gera o
produto a ser explorado em campo, e seus resultados podem comprometer toda a
rentabilidade do segmento. Por sua vez, o manejo empregado desde a postura dos
ovos no matrizeiro até o momento da eclosão no incubatório pode interferir nos
resultados de eclodibilidade e qualidade do pintainho produzido.
Na avicultura industrial existem incubadoras capazes de incubar 50.000 ovos,
com tecnologia suficiente para controlar os requisitos físicos automaticamente,
como temperatura, umidade relativa do ar (UR), posição e viragem dos ovos e
ventilação. Entretanto, máquinas de incubação de ovos com menor capacidade,
produzidas por materiais de baixo custo, podem atingir bons valores de
eclodibilidade quando manuseadas corretamente. Esses equipamentos necessitam
de um manejo constante durante o período de desenvolvimento embrionário, pois
não são dotadas de tecnologia que permite o controlo automático dos parâmetros
físicos de incubação.
A temperatura e a umidade relativa do ar são os principais fatores que podem
comprometer a viabilidade embrionária de uma incubação. Umidades relativas
inferiores a 63% podem reduzir o peso dos pintainhos, aumentar o período de
incubação e aumentar a mortalidade embrionária tardia (Muraroli e Mendes,
2003). Durante a incubação, a água atravessa os poros da casca do ovo movendo-
se sempre do ponto mais úmido, geralmente o interior do ovo, para o ponto mais
seco, o ambiente. Por esse motivo, a umidade do ar ao redor dos ovos férteis
deve ser controlada para garantir um desenvolvimento adequado dos embriões
(Decuypere et al., 2001). Já a temperatura ideal para ovos de galinhas deve ser
mantida em torno de 37,8ºC. Incrementos de 0,2ºC durante a incubação podem
diminuir o período de incubação e afetar o desenvolvimento pleno do embrião
(Christensen et al., 2001). A tolerância para as variações de temperatura a
partir da temperatura ideal de incubação está estritamente relacionada com a
duração da exposição a esses fatores. Os embriões têm maior tolerância para
temperaturas abaixo de 37,8ºC do que para temperaturas acima dessa média
(Decuypere et al., 2003).
A posição e a viragem dos ovos são fatores mecânicos que, quando mal
controlados, afetam a viabilidade embrionária. Em condições naturais, a posição
normal para um ovo durante o período de incubação é horizontal. A viragem ou a
mudança na posição do ovo durante o desenvolvimento embrionário tem uma grande
influência sobre a taxa de mortalidade do embrião (Decuypere et al., 2003). O
período crítico da viragem ocorre entre o terceiro e o sétimo dia e a ausência
da viragem dos ovos provoca o retardamento da formação do fluido do alantóide e
do âmnion, alterando a utilização do albúmen e afetando, assim, o crescimento
do embrião, podendo ocorrer aderência do mesmo à casca do ovo e morte (Deeming,
1989; Gonzales e Cesario, 2003).
Outro fator importante no processo de incubação de ovos férteis é a ventilação
no interior da incubadora. Os embriões utilizam O2 no seu metabolismo e liberam
CO2, tornando-os dependentes da qualidade do ar que está ao seu redor. Quando
os níveis de O2 e CO2 presentes no ambiente estiverem normais, nenhuma
providência especial deve ser tomada, a menos que se esteja em altas altitudes
(Decuypere et al., 2003).
Assim, nesse estudo objetiva-se avaliar a viabilidade de dois protótipos de
incubadoras alternativas utilizando-se ovos de linhagem caipira.
Material e Métodos
O estudo foi conduzido no Laboratório de Fisiologia Animal do Departamento de
Zootecnia do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba,
Campus II, no município de Areia - PB. Foram utilizados três tipos de
chocadeiras, sendo uma modelo (comercial) e duas domésticas. A chocadeira
modelo IP 130 (Premium Ecológica Ltda) mede 26cm X 26cm X 90cm e tem capacidade
para 130 ovos. O controlo automático permite a manutenção da temperatura e
umidade em valores constantes (37,7°C e 60% respectivamente) e a viragem dos
ovos a cada duas horas, sendo realizada, ainda, a ventilação interna para
renovação dos gases. Os modelos domésticos foram padronizados com medidas
semelhantes (30cm X 54cm X 65,5cm) a partir de estruturas de madeira armada.
Foram produzidas três estruturas de madeira que foram recobertas com embalagem
laminada e outras três com isopor (20mm), sendo ainda adicionada uma outra
camada de isopor de 5mm no exterior nas últimas, evitando a troca de calor e
umidade entre os ambientes externo e interno das chocadeiras (Figura_1 e 2). As
incubadoras domésticas apresentaram um custo aproximado de US$ 80.00, enquanto
a incubadora comercial apresenta um valor de US$ 500.00.
A regulação da temperatura foi feita por meio do uso de duas lâmpadas de 40W,
cuja intensidade foi regulada através de um dimer. A umidade foi mantida
através de água colocada em canaletas laterais. Os dois parâmetros foram
monitorados através de um termômetro digital, e ajustes de intensidade das
lâmpadas e quantidade de água eram realizados para atingir 37,7°C e 60,0%. A
ventilação foi feita através de aberturas laterais em cada uma das incubadoras.
A viragem dos ovos foi realizada manualmente, a cada 6 horas, quando também
eram anotados os valores de umidade e temperatura de cada incubadora. A
ilustração abaixo demonstra o interior das incubadoras alternativas, em
destaque, as lâmpadas para o aquecimento, canaletas para controlo de umidade e
aberturas laterais para o controlo da ventilação (Figura_3).
Setecentos e vinte ovos da linhagem Pescoço Pelado Label Rouge, cedidos pela
empresa Globoaves (sediada em Feira de Santana-BA), foram distribuídos nas
nove incubadoras, com 80 ovos em cada.Os ovos foram provenientes de matrizes
com 44 semanas de idade e ficaram estocados no incubatório por 9 dias em
ambiente climatizado com temperatura e umidade de 20°C e 73%, respectivamente.
Ao chegarem ao local do experimento, os ovos permaneceram em descanso por 2
horas e foram individualmente pesados antes de serem colocados nas incubadoras.
Aos 10 dias de incubação foi realizada uma ovoscopia para a detecção de ovos
claros e embriões mortos durante a primeira semana de incubação. No 19º dia de
incubação foi realizada uma segunda ovoscopia, para a avaliação da mortalidade
final. Em seguida, todos os ovos foram pesados, para a determinação da perda de
peso do ovo no período. As incubadoras comerciais foram ajustadas para a
eclosão dos ovos.
A partir de 21 dias de incubação, cada pintinho eclodido e já seco presente no
interior das incubadoras era retirado e pesado para a avaliação do peso do
pinto ao nascer. Posteriormente, os pintinhos foram alojados em círculos de
proteção equipados com bebedouros, comedouros e lâmpadas incandescentes para
aquecimento. Foi adotada uma tolerância de dois dias a mais para o nascimento
dos pintainhos atrasados.
Ao final da incubação, foram avaliados a eclodibilidade total e fértil, perda
de peso do ovo durante o período, mortalidade embrionária inicial, final e
total e peso dos pintainhos ao nascer.
Utilizou-se um delineamento inteiramente casualizado (DIC), com três
tratamentos (incubadoras) e três repetições, totalizando nove incubadoras (três
comerciais e seis alternativas). Os valores encontrados foram submetidos à
análise de variância utilizando o programa SAS (Statistical Analyses System)
versão 8.12 (SAS, 1998). Para as características em que os valores de F se
mostraram significativos foi aplicado o Teste de Tukey a 5% de probabilidade.
Resultados e Discussão
Durante o período de incubação, a temperatura e a umidade relativa do ar no
interior das chocadeiras alternativas foram determinadas. A temperatura e
umidade relativa mínima e máxima registrados em cada tipo de incubadora
encontram-se no Quadro_1.
Esses dados demonstram a amplitude média de temperatura e umidade relativa do
ar (UR) nas incubadoras alternativas. As incubadoras de isopor tiveram uma
oscilação média de temperatura de 2,26ºC e de 10,48% de UR. Os protótipos
elaborados com papel laminado obtiveram oscilação média de temperatura de
2,37ºC e de 10,15% de UR, aproximando-se dos valores programados para a
incubadora automáticapara temperatura e UR.
Em relação aos parâmetros de incubação avaliados, não houve diferença
significativa (P>0,05) para nenhuma das variáveis estudadas.Os dados
referentes à mortalidade e à eclodibilidade em ovos de linhagem caipira
encontram-se na Quadro_2.
Os resultados referentes à mortalidade embrionária obtidos neste estudo são
semelhantes aos encontrados por Pedroso et al.(2006), que verificaram que este
parâmetro não foi influenciado (P>0,05) pela interação período de armazenamento
x temperatura x umidade relativa da incubadora em ovos de codornas japonesas.
Esses autores submeteram durante a incubação temperaturas de 36,5 ou 37,5º C e
umidade relativa da incubadora de 55 ou 65%, que são semelhantes às médias de
temperatura e umidade obtidas nas chocadeiras alternativas no presente estudo.
O estresse gerado por variáveis ambientais durante a incubação pode contribuir
para uma progressiva degeneração somática e instabilidade homeostática (Martin
et al., 1996), afetando a chance de sobrevivência do organismo (Calow e Forbes,
1998). Esse estresse pode ser letal ou sub-letal. No primeiro caso, ele inibe o
desenvolvimento, levando o embrião à morte. O estresse sub-letal, por outro
lado, desencadeia respostas fisiológicas sem causar a morte do indivíduo, porém
pode resultar em diminuição do desenvolvimento ou causar desenvolvimento
anormal (Boleli, 2003). No presente estudo, as oscilações de temperatura e
umidade relativa na incubadora não foram suficientes para causar um estresse
significativo que levassem os embriões a uma mortalidade embrionária elevada.
Os dados referentes à eclosão total e fértil das incubadoras alternativas foram
satisfatórios, quando comparados com as incubadoras automáticas (Quadro_2). As
incubadoras de isopor apresentaram eclodibilidade total e fértil de 73% e 77%,
respectivamente. Já os protótipos construídos com embalagem laminada obtiveram
valores médios de 70 e 75% de eclodibilidade total e fértil, respectivamente.
Fiúza et al. (2006) obtiveram valores médios entre 83 e 86% de eclodibilidade
total e resultados entre 85 e 89% de eclodibilidade fértil, para ovos incubados
em equipamentos automáticos que tinham sido armazenados em diferentes condições
ambientais.
Diversos fatores influenciam a eclosão durante o processo de incubação. Entre
esses pontos, a temperatura e a umidade relativa do ar são as principais
variáveis que podem interferir na eclodibilidade de ovos férteis. Os protótipos
avaliados nesta pesquisa mostraram oscilações para esses fatores que
aparentemente não interferiram no desempenho dos parâmetros de incubação
estudados.
Não houve efeito significativo (P>0,05) sobre o peso inicial e a perda de peso
dos ovos, assim como o peso do pinto ao nascer (Quadro_3).
As incubadoras alternativas não influenciaram a perda de peso dos ovos durante
o processo de incubação. Segundo Boleli (2003), essa variável constitui um dos
fatores mais importantes durante a incubação porque afeta diretamente o peso do
pinto ao nascer e essa perda de peso do ovo também está diretamente relacionada
com o teor de umidade relativa da incubadora e com a condutância da casca do
ovo. Há ainda forte influência da idade da matriz e da umidade relativa em
relação à perda de peso do ovo.
Barbosa et al.(2008) avaliaram os efeitos da umidade relativa na incubadora e
da idade da matriz sobre a perda de peso dos ovos, e concluíram que há maior
perda de peso dos ovos à medida que a umidade relativa do ar diminui. Tullet
(1990) e Decuypere et al.(2003) justificaram que a água atravessa do ponto mais
úmido para o ponto mais seco. Assim, quanto mais úmido o ar ao redor do ovo,
menor será a evaporação.
Verificou-se que o peso do pintainho ao nascer não foi influenciado pelo tipo
de incubadora utilizada. Esta variável pode ser influenciada ou correlacionada
por diversos fatores, como o peso e a perda de peso do ovo durante a incubação,
a idade e o estado nutricional da matriz e ainda a umidade relativa na
incubadora. Em pesquisa realizada com ovos oriundos de matrizes de diferentes
idades e incubados em umidades distintas, Barbosa et al.(2008) concluíram que
pintos descendentes de matrizes jovens possuem, ao nascer, peso menor quando
comparados com descendentes de matrizes com idades mais elevadas. Os autores
também relataram que a umidade relativa do ar inferior a 50% provoca queda no
peso do pintainho ao nascer.
Os ovos férteis utilizados nesta pesquisa foram oriundos de matrizes com 44
semanas de idade e a umidade relativa do ar no interior das incubadoras
alternativas não atingiu valores muito baixos. Esses fatores podem explicar o
bom rendimento dos modelos domésticos avaliados em relação à perda de peso do
ovo e o peso do pinto ao nascer no período de incubação.
Conclusão
Devido aos resultados obtidos, recomenda-se a utilização das chocadeiras
alternativas, em função do baixo custo de produção e da alta eficiência, para
pequenos empresários.