Genes, crianças e pediatras
QUAL O SEU DIAGNÓSTICO? / WHAT IS YOUR DIAGNOSIS?
Genes, crianças e pediatras
Esmeralda Martins, Joaquim Cunha, Anabela Bandeira
A RMN óssea mostrou uma necrose asséptica da cabeça do fémur esquerdo (Fig_2).
Qual o seu diagnóstico?
Perante um quadro de anemia, trombocitopenia e hepatoesplenomegalia associadas
a queixas de dor óssea, tem que se equacionar como hipótese de diagnóstico a
doença de Gaucher. A doença de Gaucher é causada pelo défice da enzima
lisossomal glucocerebrosidase. É uma doença hereditária e tem transmissão
autossomica recessiva estando o gene codificante (GBA) localizado no cromossoma
1q21.
A clínica observada deve-se à infiltração de macrófagos carregados de
glicocerebrosideos em vários orgãos nomeadamente nas visceras, levando ao
aparecimento de esplenomegalia (95% dos casos), hepatomegalia (70 a 80%) e na
medula óssea que se traduz pelo aparecimento de citopenias, sobretudo anemia e
trombocitopenia, osteopenia com dor óssea e risco de fractura, necrose
avascular e crises ósseas. A infiltração pulmonar e cardíaca também pode
ocorrer mas com menor frequência.
Perante uma clínica suspeita, o doseamento da beta-D-quitotriosidase, que está
elevada na grande maioria dos doentes, pode permitir uma orientação
diagnosticada. Nesta doente o doseamento sérico da quitotriosidase revelou uma
elevação marcada, 24713 nmol/h/ml de plasma (normal 10 a 85).
O doseamento da glucocerebrosidase em leucócitos apresentava uma actividade
diminuída de 0.8 nmol/h/mg de proteina (normal 2,8 a 19) permitindo o
diagnóstico de Doença de Gaucher. O estudo do gene GBArevelou uma heterozigotia
composta para as mutações N370S e L444P.
Nesta doente foi colocada a hipotese doença maligna da medula óssea, que é um
dos diagnósticos diferenciais numa criança com esta clínica, e por este motivo
foi efectuado o mielograma que viria a mostrar a presença de células de
Gaucher. No entanto, embora o aspecto histológico dos macrófagos seja
característico desta doença e possa ser um alerta de diagnóstico, a presença
destas celulas não é um marcador especifico imprescindível ao diagnóstico.
A forma de apresentação nesta criança permite a classificação em doença de
Gaucher tipo I. Estão descritos outros 2 tipos de doença de Gaucher, o tipo II
e o tipo III estes com doença neurológica concomitante.
O tratamento enzimático de substituição, que consiste no fornecimento por via
endovenosa da enzima deficitária, é o indicado para a forma tipo I em idade
pediatrica.
Após o diagnóstico é sempre importante fazer aconselhamento genético à família
e informar sobre a possibilidade de um diagnóstico prenatal.