Newborn Individualized Developmental Care and Assessment Program (NIDCAP)
EDITORIALPara nos situarmos nesta filosofia de cuidados gostava que me acompanhassem
numa rápida viagem através dos tempos desde que o prematuro começa a ser
cuidado. E estou a reportar-me a meados do século XIX, início do século XX,
quando surgiram as primeiras incubadoras. Nessa época os recém-nascidos eram
colocados nas incubadoras, separados dos pais e famílias e em dias especiais
faziam-se exposições para o público, como é do conhecimento dos profissionais
da perinatologia.
Provavelmente alguns de nós recordam esta época em que os bebés deixaram de
nascer em casa, rodeados de todo o carinho da família, para nascerem nos
hospitais e, se necessário, serem tratados em unidades de neonatologia, em que
os pais unicamente visitavam os seus filho. Foi o início da separação do recém-
nascido da família.
Eram unidades bem diferentes das actuais. Hoje apesar da alta sofisticação dos
cuidados intensivos neonatais, estas unidades permitem a presença,
acompanhamento e parceria dos pais nos cuidados diários ao bebé, assistindo-se
a um maior envolvimentodos da família, com crescente participação dos pais nos
cuidados aos seus filhos, a partir da segunda metade do século XX.
E assim chegamos aos cuidados centrados no desenvolvimento e na família
representado neste diagrama, que coloca o bebé e a família no centro dos
cuidados.
Neste Sistema de Cuidar o Bebé estão incluídos os profissionais e a comunidade,
com especial relevo para as associações de pais. Temos em Portugal duas
associações de pais prematuros (XXS e a Pais Prematuros) que têm feito um
excelente trabalho em Portugal, e que fazem parte da EFCNI (European Foundation
for the Care of the Newborn), associação que congrega todas as associações de
pais dos vários países e que em colaboração com as sociedades científicas
internacionais têm, igualmente como objetivo melhorar a qualidade da
assistência perinatal nos paises europeus, e actualmente mesmo para além da
Europa. Integram-na também peritos profissionais de Neonatologia. A sua
presidente é Silke Mader uma mãe de um bebé prematuro e também membro do
conselho de administração da Federação Internacional de NIDCAP.
E então em que consiste este programa, esta nova filosofia de cuidados?
O NIDCAP é uma forma integrada e holística dos cuidados de desenvolvimento
centrados no doente e na família. São também chamados cuidados individualizados
para o desenvolvimento, e por isso não obedecem a um protocolo, mas sim a
linhas de orientação para cada recém-nascido. Sabemos que o que funciona bem
para um bebé pode não funcionar para outro, e o que hoje se adequa a um bebé,
pode no dia seguinte não se adequar.
Os profissionais devem a cada momento saber interpretar os sinais dos recém-
nascidos para orientar os cuidados, sendo fundamental a formação dos mesmos
nesta área do conhecimento, dado que a observação cuidada é a chave para
entender o comportamento do bebé, conduzindo à correcta adequação dos cuidados
aos sinais que ele apresenta.
No útero o feto espera e recebe estímulos cutâneos e químicos do líquido
amniótico, o útero ajuda o feto a manter a sua postura fetal, o saco e líquidos
amnióticos facilitam o desenvolvimento motor e o feto tem movimentos mais
suaves e mais modulados. Também o ritmo circadiano e o estado emocional da mãe
influenciam o comportamento do feto.
Após o nascimento, os prematuros, principalmente os grandes prematuros, estão
sujeitos a desafios inesperados para o seu cérebro imaturo durante este período
extremamente vulnerável do desenvolvimento cerebral. As experiência sensoriais
nas unidades de cuidados intensivos são muito negativas para o desenvolvimento
cerebral, nomeadamente no que se refere ao ambiente (exposição à luz, ao ruído)
e às intervenções, que frequentemente são dolorosas, factos que se associam à
diminuíção das experiências positivas, que perderam com o nascimento prematuro.
Todos estes conhecimentos devem ser tidos em conta diariamente pelos
profissionais de saúde que cuidam estes recém-nascidos nas unidades.
O papel do NIDCAP é minimizar o impacto no cérebro imaturo de todas estas
influêcias negativas, e, ao mesmo tempo, promovendo ou facilitando os aspectos
que o influenciam favoravelmente, poder melhorar o desenvolvimento do cérebro e
consequentemente os resultados a médio e longo prazo.
O respeito pelo recém-nascido e família, na sua diversidade, salientando os
pontos fortes, ser honesto nas informações, colaborar com a família em todos os
aspectos que ela necessitar, favorecer o aleitamento materno, o contacto pele
com pele e a parceria de cuidados, promover seminários de educação para pais e
família, facilitar as atividades de apoio de pais para pais, a presença
ilimitada dos pais nas unidades, a participação dos pais nos cuidados e na
tomada de decisão, a participação nas visitas médicas, a transição para a alta
e os cuidados no domicílio, o apoio de populações específicas, nomeadamente
famílias rurais, estrangeiros e mães adolescentes, os cuidados paliativos e,
por fim, o acompanhamento no luto, são aspectos que integram a filosofia
NIDCAP.
Com a adopção de estratégias baseadas em NIDCAP que reduzem o stress é possivel
minimizar a dor de forma não farmacológica.
Estudos recentes mostram diminuição no tempo de internamento dos recém-nascidos
cuidados com esta metodologia, bem como uma melhoria do prognóstico neurológico
dos prematuros aos 18 meses e na idade escolar, que receberam precocemente
cuidados individualizados e de suporte ao seu desenvolvimento.
A diminuição da natalidade e o aumento da prematuridade são uma realidade à
qual não podemos fugir, pelo que sendo assim, a formação dos profissionais de
neonatologia nesta filosofia de cuidar parece-nos cada vez mais oportuna e
necessária.
Hoje em dia acreditamos que esta forma de cuidar deve ser optimizada nas
unidades de cuidados intensivos neonatais, reconhecendo que cada recém-nascido
é um ser humano integrado numa família. O papel da equipa médica torna-se assim
mais complexo e desafiador, mas muito mais gratificante.
Atualmente esta filosofia de cuidados constitui uma forma de marketing para as
instituições hospitalares, que a adotam.
O sucesso desta filosofia, com uma abordagem multidisciplinar, no cuidado de re
cém-nascidos internados em cuidados intensivos é essencial para o
desenvolvimento dessas crianças, motivo pelo qual o Serviço de Neonatologia do
Centro Hospitalar São João iniciou a sua implementação em 2003, e em 1 de Abril
de 2015 abriu o 1º Centro de formação de NIDCAP em Portugal, o São João NIDCAP
Training Center.
Com a abertura deste centro, o 11º Centro de Formação de NIDCAP na Europa, o
serviço pretende garantir a formação interna a todos os profissionais, para que
todos os recém-nascidos admitidos no serviço possam beneficiar deste programa,
bem como dar formação aos profissionais de outros serviços de neonatologia que
o pretendam, quer em Portugal quer no estrangeiro, nomeadamente nos países de
língua portuguesa.