Hepatoscopia
Hepatoscopia
Hepatoscopy
Paula Veiga1
1Mestre em História e Cultura Pré-Clássica por Lisboa, e Ciências Biomédicas e
Forenses para Egiptologia por Manchester
Fig. 1. Fígado de argila com secções dedicadas aos deuses, onde se colocavam
marcas correspondentes às zonas observadas no fígado do animal, notando-se
marcas divinatórias de relevância a serem interpretadas. ©The Trusteesof the
British Museum.
Os antigos Egípcios conservavam o fígado, os intestinos, os pulmões e o
estômago em vasos, depois de os tratarem com unguentos próprios que se
destinavam a conservá-los para a vida no além, acompanhando o defunto
mumificado.
Quem fazia a adivinhação? Na Roma Antiga um haruspex, do Latim auspex
(auspício), era um homem treinado para a adivinhação, haruspício, hepatoscopia
ou hepatomancia. O haruspício 1 seria o acto de inspeccionar as entranhas de
animais sacrificados para o efeito: cordeiros, ovelhas, cabras ou carneiros
(bois e cabras na Grécia). O animal tinha que ter a melhor aparência possível;
só os melhores exemplares serviam para o sacrifício ritual. Os haruspex
(adivinho) tinham que estar impecavelmente limpos para proceder à adivinhação,
tal como estavam no antigo Egipto os sacerdotes praticantes de rituais.
Lavagem, depilação, fumigações com incenso e orações faziam parte do ritual de
purificação antes do acto.
Esta consulta teria como objectivo saber quais as intenções dos deuses, as
quais seriam reflectidas na alma. Para os Babilónios, o fígado era o assento'
da vida e, portanto, a sede da alma humana2. Os deuses tutelares doharuspício
eram Shamash, deus-sol, e Adad, deus do oráculo3. O acto ritual era praticado
no exterior para que os deuses pudessem participar activamente, de dia e com
sol; se realizado de noite, as oferendas eram feitas a Sin, deus da lua,
requisitando a sua assistência, conjuntamente com as estrelas. A prática
começou na antiga Babilónia (diferentes autores apontam para 5000 a.C., 3500
a.C. e o reinado de Sargão I da Babilónia ' 2280 - 2215 a.C.), mas esta
continuou a ser praticada pelos povos da Palestina, Fenícios, Gregos, Etruscos
e Romanos. Desde aproximadamente 652 a.C., Assurbanipal, 685 - 627 a.C., último
rei do Império Neo-Assírio, ordenava que se registassem estes extispícios, o
que nos dá a possibilidade de comparar teoria e prática4. Os reis assírios até
levavam adivinhos consigo nas campanhas militares...5. Já os antigos Egípcios
também davam extrema importância ao fígado, como reporta o papiroEbers de cerca
de 1550 a.C.
A facilidade do exame poderá ter começado ao abrir uma ovelha; o fígado está
muito próximo da superfície abdominal, na zona centro-direito, e é de fácil
manipulação. A suavidade natural do órgão faz com que qualquer anomalia seja
facilmente detectável, e sendo umorgão muito irrigado de sangue, a sua escolha
como órgão divinatório era óbvia. Na época dos monoteísmos, as referências ao
fígado continuaram, talvez por herança cultural e proximidade das culturas. Nos
ensinamentos do profeta Mohammed, o termo fígado húmido refere-se à alma e o
Livro dos Salmos, Salmo 30, refere o fígado como sede das emoções; o fígado
canta'; nas traduções ocidentais esta palavra foi substituída pela palavra
coração.
Modelos em argila e bronze de fígados de carneiros foram encontrados em
diversas escavações arqueológicas das antigas Assíria e Babilónia. Mais de 30
espécimes foram também encontrados onde antes se situava a antiga cidade de
Mari (exemplares no Louvre). A maior parte das tábuas de argila com textos de
adivinhação ainda se encontram por estudar, pois os académicos não têm grande
admiração por estas práticas, considerando-as ainda meras superstições.
Existem vários volumes da extensa colecção de publicações sobre a colecção
doBritish Museum em Londres que referem os textos de extispicium6, o exame
daexta, a víscera, a prática de consultar as entranhas de animais para prever
ou adivinhar eventos futuros. Um projecto importante nesta área está a ser
desenvolvido pelo Prof. Irving Finkel7.
Os modelos encontrados mostram como os fígados de argila eram divididos em
secções com orifícios no centro, mostrando marcações cuneiformes, e em cada uma
delas representado o nome de uma divindade. À medida que observavam o fígado do
animal, os adivinhos marcavam os quadrantes correspondentes, formando um mapa
no modelo de argila. A hepatoscopia analisava os lobos superiores e inferiores
do fígado, seus apêndices, a vesícula biliar, os canais cístico e hepático e as
veias. Os sinais no lado direito do fígado eram favoráveis, e os da esquerda
desfavoráveis. Pedaços de madeira ou marcas eram então colocados nos orifícios
do modelo.
O sacerdote qualificado para esta adivinhação era o barû8, o animal escolhido
era o amutu, por ser considerado mattalat ame, o "espelho do Céu." O
animal e o deus a consultar tornavam-se então num só. O barû não se limitava a
observar o fígado e os intestinos, como até há algum tempo se pensava; estudava
também os pulmões, os rins e todas as vísceras que lhe pareciam importantes
para o diagnóstico.
Como eram interpretadas então as vísceras? O exame começava pelo fígado e
vesícula biliar, na direcção contrária aos ponteiros do relógio, depois
inspeccionavam-se os pulmões, e os outros órgãos eram vistos genericamente; os
anéis do cólon eram contados e qualquer tipo de marca em forma geométrica era
analisada. As zonas do fígado que chamavam primeiro a atenção seriam os lobos
inferiores esquerdo e direito, o lobo superior com os seus dois apêndices, o
processus pyramidalis e o processus papillaris, a vesícula biliar, o canal
cístico, o canal hepático, o canal biliar comum, a veia hepática e a veia
porta9. O número de marcas ou tiranu eram depois analisadas10. Alguns exemplos
de resultados desta adivinhação: uma inversão da proporção habitual do lobo
significava uma inversão da ordem natural das coisas, portanto, um escravo
podia dominar o seu senhor ou um filho revoltar-se contra o seu pai. Uma veia
hepática defeituosa à esquerda podia significar a derrota em breve dos seus
inimigos. Uma vesícula biliar inchada era interpretada como um possível aumento
de poder. Um canal cístico longo seria equivalente a um reinado longo, uma
depressão na porta do fígado, uma perda de sucessos...11.
Não se registando alterações na forma ou cor, não havia nada de preocupante a
assinalar. Uma vez que não existem dois fígados exactamente iguais do ponto de
vista anatómico, a variedade de previsões que o barû podia fazer era imensa. No
caso de persistirem os sinais desfavoráveis, um segundo animal era sacrificado
para nova consulta, e um terceiro... O ritual era relatado por escrito, e, como
tal, um escriba fazia o papel de secretário, apontando notas no barûtu, o
manual de apontamentos12. Não se sabe o que faziam depois, se aproveitavam o
animal para consumo, quais os procedimentos de limpeza empregues, uma vez que o
local deveria ficar semelhante a uma mesa de autópsias...
Diagnósticos e prognósticos clínicos, assim como tratamentos, eram confirmados
por rotina com o extispício, conforme relata o médico-chefe Urad-Nanaya, ao
serviço do rei Esarhaddon ou Esar-Hadom (681 - 669 a.C.), pai de Assurbanípal.
Autores contemporâneos que estudam esta prática comparam as descrições feitas
em textos gregos com as práticas contemporâneas de hepatoscopia e análise de
outras vísceras em África, para tentar perceber como estas seriam feitas na
antiguidade13.
Existem espécimes de argila de origem babilónica e assíria no Museum of Science
de Londres, no British Museum de Londres e no Louvre em Paris 32 , bem como no
museu de Chiusi e no de Piacenza, sendo estes italianos de origem etrusca.
Existem também exemplares, algunshititas, em museus na Síria, Turquia e outros
em Israel.