Permeabilidade Intestinal e Endotoxemia na Cirrose Hepática
Permeabilidade Intestinal e Endotoxemia na Cirrose Hepática
Intestinal Permeability and Endotoxemia in Liver Cirrhosis
Helder Cardoso1
1Gastrenterologista; Local de trabalho: Serviço de gastrenterologia da
Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Hospital de São João, Porto
' Portugal
Em Hepatologia, a permeabilidade intestinal, translocação
bacteriana,endotoxemia e correspondente resposta imunológica são actualmente
temas interessantes de investigação. Este interesse está directamente
relacionado com as suas propostas implicações em áreas como afisiopatologia da
hipertensão portal, esteatohepatite e ocorrência de infecções, entre outras. As
infecções bacterianas constituem uma causa significativa de morbilidade e
mortalidade em doentes com cirrose hepática, sendo que a hemorragia
gastrointestinal e a gravidade da doença hepática são factores preditivos
independentes da sua incidência. Atranslocação bacteriana e atenuação da
resposta imunológica foram considerados como mecanismos implicados,
particularmente naperitonite bacteriana espontânea (PBE)1.
A endotoxemia na cirrose hepática com hemorragia digestiva foi primeiro
descrita em 19772. No entanto ainda não há consenso na literatura sobre o papel
das alterações da permeabilidade intestinal nos doentes com cirrose3. Alguns
resultados discordantes poderão estar relacionados com diferenças
metodológicas, nomeadamente a dimensão das amostras e utilização de testes
diferentes para avaliar a permeabilidade intestinal3,4.Um teste utilizado é o
de lactulose/manitol que se demonstrou estar elevado na cirrose hepática,
particularmente na doença avançada5. Também com a utilização de 51Cr-EDTA
verificou-se que o aumento da permeabilidade intestinal foi um achado comum em
52 doentes com cirrose, especialmente com doença mais avançada3. Outro teste
interessante analisa a permeabilidade do polietilenoglicol, que tem
características e propriedades químicas semelhantes à estrutura dasendotoxinas,
e que também permitiu determinar um aumento da permeabilidade intestinal na
cirrose com ascite6.
Num estudo recente de 113 doentes com cirrose hepática internados por
hemorragia digestiva o índice de permeabilidade intestinal, no dia seguinte à
admissão, correlacionou-se de forma significativa com a endotoxinemia e a
ocorrência de infecções7.
Na investigação publicada no artigo Permeabilidade intestinal em doentes com
cirrose hepática: correlação com endotoxemia e níveis de TNFa, IL - 1 e IL -
68, que lemos com muito interesse, os autores propuseram-se a esclarecer
melhor a interacção entre os diferentes eventos relacionados com a endotoxemia/
translocação bacteriana e também a correlação com a evolução clínica dos
doentes. Os resultados em parte inconclusivos poderão estar relacionados com a
selecção de controlos com potencial patologia gastrointestinal. A este respeito
os autores acabam por salientar a possível interferência da utilização de
inibidores da bomba de protões (IBP) na permeabilidade intestinal.
Relativamente ao risco da utilização de IBP, tem sido descrita uma maior
prevalência de infecções/PBE devida a provável hiperproliferação bacteriana e
aumento consequente da sua translocação, mas em estudosrectrospectivos e com
diferentes critérios,9 pelo que parecem ainda necessários estudos prospectivos
para estabelecer a causalidade.
Outros autores têm investigado particularmente as repercussões imunológicas e
circulatórias da translocação bacteriana. O nosso serviço participou num estudo
sobre a imunidade inata na cirrose hepática compensada de etiologia etílica, em
que se demonstrou aumento dos níveisséricos de sCD14, lipopolissacarídeo (LPS)
e proteina de ligação a LPS, bem como atenuação da resposta imune inata mediada
por toll-like receptor 2 em monócitos do sangue periférico, que apresentaram
menor produção constitucional de factor de necrose tumorala10. Relativamente a
alterações circulatórias na cirrose hepática, é de realçar um estudo em que se
verificou associação da presença de ADN bacteriano a disfunção endotelial
intrahepática, traduzida por maior elevação pós-prandial do gradiente de
pressão venoso hepático, bem como diminuição da tensão arterial e da
resistência vascular sistémica11.