Permeabilidade intestinal em doentes com cirrose hepática: correlação com
endotoxinémia e níveis circulantes de TNF a, IL-1, E IL-6
Permeabilidade intestinal em doentes com cirrose hepática: correlação com
endotoxinémia e níveis circulantes de TNF a, IL-1, E IL-6
Intestinal Permeability in Patients with liver Cirrhosis: Correlation With
Endotoxemia and Circulating Levels of TNFa, IL-1, E IL-6
Susana Mão de Ferro1; Maria Salazar3; Mariana Machado2; Fernando Ramalho2;
Helena Cortez Pinto2
Serviços de Gastrenterologia; 1IPOLFG, EPE; 2Hospital de Santa Maria; 3Hospital
da Força Aérea
Em resposta às cartas aos editores publicadas pelos Sr. Dr. Helder Cardoso e do
Dr. Arsénio Santos:
Os autores agradecem as reflexões e comentários ao artigo efectuados por
Cardoso H. e Santos A.
O aumento da permeabilidade intestinal e translocação bacteriana têm sido
implicados na etiopatogénese e nas complicações da cirrose hepática, com
resultados por vezes conflituosos1. O objectivo do nosso trabalho foi avaliar,
com um estudo caso-controlo, a permeabilidade intestinal, endotoxemia e
resposta imunológica em indivíduos com cirrose hepática compensada. O principal
resultado do estudo foi a confirmação de permeabilidade intestinal aumentada
nos indivíduos cirróticos e aumento significativo dascitoquinas circulantes.
Tal como foi dito por Cardoso H. e Santos A. a maior questão do trabalho é o
achado inesperado de um aumento da permeabilidade no grupo dos controlos, que
colocam dúvidas em relação ao teste escolhido para a avaliação da
permeabilidade intestinal ou em relação aos critérios de selecção deste grupo.
A opção pelo teste da lactulose/manitol (Lac/Man) deve-se ao facto de este ser
um teste bem estabelecido e utilizado na avaliação de várias patologias com
resultados reprodutíveis e fiáveis, com a vantagem de ser um teste não
invasivo, simples e seguro e de já ter sido previamente utilizado na avaliação
de doentes com cirrose hepática2,3.
Em relação à escolha do grupo controlo esta foi influenciada pelo desenho
inicial do estudo que incluía a análise histológica e ultra-estrutural da
mucosa duodenal4. Por problemas metodológicos de avaliação e valorização das
alterações encontradas, esta análise não foi efectuada mas o grupo controlo foi
constituído, tal como planeado, por indivíduos que necessitassem de ser
submetidos a endoscopia digestiva alta e que preenchessem os critérios
estabelecidos.
A razão para este aumento na permeabilidade no grupo controlo não é clara e não
poderá ser explicada pela heterogeneidade do grupo controlo uma vez que, nos
vários trabalhos em que este teste foi utilizado, o grupo controlo tem valores
de permeabilidade muito baixos, sendo utilizado como cut-of um ratio Lac-Man<
0,035.
O consumo de inibidores da bomba de protões foi associado ahiperproliferação
bacteriana6 e a aumento do risco de peritonite bacteriana
espontânea7emcirróticos mas a sua acção na permeabilidade intestinal em
indivíduos não cirróticos ainda não foi avaliada.
A hipótese colocada por Santos A. de que o aumento da permeabilidade intestinal
nos controlos possa ser explicada pela não exclusão do consumo de álcool
parece-nos menos provável dado que foi critério de exclusão para os controles
um consumo superior a 20 g/dia, quantidade que não tem sido associada a aumento
da permeabilidade intestinal.
Concordamos com o Dr. Pimentel-Nunes quando no seu editorial refere que a
infecção é cada vez mais uma causa de mortalidade nos doentes cirróticos e de
serem necessários estudos nesta área que procurem perceber a fisiopatologia
dos fenómenos de permeabilidade/ endotoxémia/ inflamação/infecção no doente
cirrótico de maneira a ser possível a estratificação do risco e eventuais
intervenções terapêuticas8. O nosso trabalho, financiado por bolsa de
investigação da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia pretendeu contribuir
para o esclarecimento desta questão tão pertinente e actual.