Úlcera do recto aguda hemorrágica (URAH): Causa rara de hemorragia digestiva
baixa severa
Úlcera do recto aguda hemorrágica (URAH): Causa rara de hemorragia digestiva
baixa severa
Acute hemorrhagic rectal ulcer: A rare cause of severe lower gastrointestinal
bleeding
Nuno Ladeira*, Rosa Silva, Mónica Velosa, Luís Jasmins, Carla Andrade, Ricardo
Teixeira
Serviço de Gastrenterologia, Hospital Dr. Nélio Mendonça, Funchal
*Autor para correspondência
Mulher de 79 anos de idade, acamada por sequelas de AVC, internada por infecção
urinária a Pseudomonas aeruginosa, iniciou, ao 6º dia de internamento, quadro
súbito de hematoquézia severa, indolor, com rebate hemodinâmico e evolução para
choque. Não havia história de consumo de AINEs, estando a doente medicada com
Lisinopril 10 mg/Hidroclotiazida 12,5 mg id, Amlodipina 5 mg id e AAS 100 mg
id.
Analiticamente apresentava anemia normocítica (Hb 6,9 g/dL) e leucocitose
discreta (12000/mm³), sem outras alterações. Após estabilização hemodinâmica
foi efectuada endoscopia digestiva alta que não revelou lesões e
pansigmoidoscopia que revelou sangue vivo e coágulos na ampola rectal, tendo-se
identificado, após cuidadosa lavagem e aspiração, uma úlcera a cerca de 2 cm da
margem anal, com coágulo fresco aderente e vaso visível com hemorragia em
toalha (Figura 1). Procedeu-se a hemostase endoscópica através da aplicação de
2 clips com eficácia (Figura 2).
Figura 1Úlcera do recto distal com hemorragia activa.
Figura 2Aspecto final após hemostase.
A doente permaneceu internada cerca de 7 dias, sendo transfundida com um total
de 4 unidades de glóbulos vermelhos, não se verificando recidiva hemorrágica.
A primeira descrição na literatura em que foi utilizada a designação de URAH
remonta a 1981 por Soeno et al1. Desde então a maioria das casuísticas
relativas a esta entidade provêm essencialmente do Japão e Taiwan e só um
escasso número de casos se encontram reportados no Ocidente. A justificação, em
parte, para esta discrepância reside na falta de consenso no Ocidente em
reconhecer a URAH como entidade nosológica própria, distinta de outras, em
particular, da Úlcera Solitária do Recto (USR).
Os principais aspectos que diferenciam esta patologia, segundo os autores
Japoneses, assentam em características clínicas e endoscópicas próprias e
exclusão de outras etiologias.
Do ponto de vista clínico e endoscópico caracteriza-se por: 1) aparecimento
súbito de hematoquézia indolor e severa em doentes idosos, maioritariamente
acamados e com doença grave; 2) presença de ulceração no recto distal com
hemorragia activa ou estigmas de hemorragia recente; 3) ausência de impactação
fecal no recto; 4) inexistência de história de consumo de AINEs; 5) exclusão de
história prévia de patologia inflamatória rectal, nomeadamente doença
inflamatória intestinal, proctite rádica ou infecciosa, entre outras2.
Relativamente à histopatologia, apesar dos estudos com dados histológicos serem
limitados, a evidência aponta para um conjunto de características distintas das
da USR, nomeadamente a existência de necrose com desnudação epitelial,
hemorragia e presença de múltiplos trombos nos vasos epiteliais e do estroma3,
ao passo que a USR cursa com obliteração fibromuscular da lâmina própria,
hipertrofia da muscularis mucosa e presença de glândulas e quistos na
submucosa4.
Os achados histopatológicos da URAH assemelham-se muito aos presentes nas
úlceras de stress do tracto gastrointestinal alto, pelo que alguns autores
advogam que a patogénese da URAH tem origem em distúrbios da circulação dos
pequenos vasos intra-murais induzidos pelo stress fisiológico3.
Apesar da sua raridade e da controvérsia existente no Ocidente em relação ao
estabelecimento desta entidade nosológica, os autores concluem que o
reconhecimento das características clínicas e endoscópicas da URAH poderá
conduzir a uma melhor orientação diagnóstica e terapêutica dos doentes com
hemorragia digestiva baixa severa.