Lipomatose gastroduodenal
Lipomatose gastroduodenal
Gastroduodenal lipomatosis
Ana Catarina Lagos∗, Inês Marques e Beatriz Neves
Serviço de Gastrenterologia II, Hospital Pulido Valente (CHLN), Lisboa,
Portugal
*Autor para correspondência
Caso clínico
Os autores apresentam o caso de um doente de 59 anos com antecedentes de
obesidade, dislipidémia e diabetes mellitus não insulino-tratada que foi
referenciado à Consulta de Gastrenterologia por apresentar na endoscopia
digestiva alta, realizada no contexto de investigação de dispepsia, várias
formações polipóides sésseis do corpo gástrico e bulbo duodenal com dimensões
entre os 5 a 12mm, revestidas por mucosa normal, de cor amarelada e com o
«cushion sign» positivo (figs. 1 e 2). Foram realizadas várias biopsias destas
lesões que demonstraram mucosa gástrica sem particularidades histológicas.
Analiticamente não se registavam alterações. Realizou ecoendoscopia, que
revelou que as formações polipóides sésseis correspondiam a lesões arredondadas
da submucosa hiperecogénicas, confinadas à parede, sem adenopatias adjacentes,
aspeto ecoendoscópico compatível com lipomas (fig. 3). Completou o estudo com
tomografia computorizada torácica e abdominal que identificou várias lesões
arredondadas da parede gástrica e bulbo duodenal com densidade de gordura,
compatíveis com o diagnóstico de lipomas, já estabelecido pela ecoendoscopia
(fig. 4). A endoscopia alta de revisão ao fim de um ano demonstrava as lesões
descritas anteriormente, sem expressão evolutiva.
Figura 1Várias formações polipóides sésseis do corpo gástrico com dimensões
entre os 5 a 10mm revestidas por mucosa normal.
Figura 2Formações polipóides sésseis do bulbo duodenal com dimensões entre os 5
e 12mm revestidas por mucosa normal.
Figura 3Lesão arredondada da submucosa hiperecogénica, confinadas à parede,
sugestiva de lipoma.
Figura 4Várias lesões arredondadas da parede gástrica e bulbo duodenal com
densidade de gordura.
Os lipomas gástricos/intestinais são tumores benignos da submucosa pouco
frequentes, correspondendo a menos de 2% das lesões submucosas e raramente têm
manifestações clínicas1. A sua apresentação na forma de lipomatose difusa, com
mais de 10 lipomas e eventual envolvimento do intestino delgado e cólon é
extremamente rara. A endoscopia digestiva alta pode sugerir o diagnóstico, pois
os lipomas apresentam-se como lesões polipoides revestidas de mucosa normal, de
consistência mole e de cor amarelada, podendo também estar presente o «tenting
sign» e o «cushion sign»2. O primeiro consiste em tracionar a mucosa que
recobre o lipoma, verificando que esta se destaca facilmente, tal como se
verifica nas outras lesões submucosas. O segundo sinal consiste em tocar com
uma pinça de biopsia no lipoma, verificando que este se deprime facilmente e
retoma rapidamente à sua forma inicial. As biopsias geralmente são
inconclusivas, dado localização submucosa dos lipomas. No entanto, é a
ecoendoscopia ou tomografia computorizada que permitem alcançar o diagnóstico
definitivo. Os lipomas na ecoendoscopia apresentam-se como lesões intensamente
hiperecogénica confinadas à 3.a camada. Na tomografia computorizada, os lipomas
surgem como lesões com densidade negativa.
Devido à sua natureza benigna e ausência de manifestações clínicas (70% dos
casos), não têm habitualmente indicação terapêutica nem obrigam a seguimento ou
vigilância3. Os casos sintomáticos geralmente apresentam-se com dor abdominal
e, menos frequentemente, hemorragia. Nestes casos, a terapêutica endoscópica
poderá ter lugar, nomeadamente a hemóstase e a polipectomia. A polipectomia
endoscópica, apesar das suas possíveis complicações, nomeadamente perfuração e
hemorragia4, tem sido uma alternativa cada vez mais segura, como se constata em
vários estudos publicados na literatura4,5. Um relato recente demonstra o papel
da enteroscopia de duplo balão na resolução endoscópica de um caso de
intussusceção intestinal por lipomatose do jejuno6.