Doença hepática autoimune na criança e no adolescente: dificuldades no
diagnóstico
Introdução
A doença hepática autoimune (DHAI) é responsável por 2 a 5% dos casos de
hepatopatia crónica na criança1,2. Resulta de intolerância imunológica contra
as células hepáticas, com evolução para inflamação crónica e destruição
progressiva3. Este processo pode envolver predominantemente os hepatócitos ou o
epitélio dos ductos biliares intra e/ou extra-hepáticos, denominando-se
respetivamente hepatite autoimune (HAI) e colangite esclerosante primária
(CEP)3-5; a cirrose biliar primária (CBP) nunca foi diagnosticada em idade
pediátrica. Aspetos sugestivos de ambas as doenças (HAI e CEP) podem estar
presentes no mesmo doente, simultaneamente na altura do diagnóstico, ou em
alturas diferentes ao longo da evolução da sua doença, designando-se nesse caso
«síndrome de overlap» (SO)5-8. Na idade pediátrica é particularmente frequente
o overlapHAI-CEP.
Existem scoresde diagnóstico de HAI validados para adultos e que são aplicados
na população pediátrica1,9-11, mas não existem critérios de diagnóstico bem
definidos de CEP1,4,6,7. Para além das dificuldades por vezes notadas em
afirmar o diagnóstico, a distinção entre HAI, CEP e SO pode ser muito difícil.
Na idade pediátrica há alguns estudos sobre HAI1,2,4,8,12-29, mas são mais
raras as publicações sobre CEP e SO8,28-33.
O objetivo deste trabalho é conhecer as dificuldades de diagnóstico de DHAI
numa população pediátrica.
Material e métodos
Estudo retrospetivo baseado na consulta dos processos clínicos das crianças e
adolescentes com DHAI seguidos nas consultas de Hepatologia e de
Gastrenterologia de um hospital pediátrico, no período de janeiro de 1992 a 31
de dezembro de 2010.
Parâmetros analisados: sexo, idade, aspetos clínicos, estudos laboratoriais,
imagiológicos e histológicos e resposta ao tratamento.
O diagnóstico de HAI foi estabelecido segundo os critérios do Grupo
Internacional para Estudo da HAI (IAIHG), publicados em 19939 e revistos em
199910 e em 200811.
Em todos os doentes foi efetuado o seguinte estudo analítico: hemograma,
bilirrubinas e enzimas hepáticas, proteinograma, imunoglobulinas e auto-
anticorpos (auto-
Acs), estudo da coagulação, serologias víricas (anti-HAV, AgHbs, anti-HCV, EBV,
CMV), _-1-antitripsina e ceruloplasmina séricas e doseamento do cobre urinário.
Foi efetuada biópsia hepática em todos, sendo o exame histológico realizado
pelo mesmo anatomopatologista, à exceção dos casos 11 e 20 (biópsia realizada
noutra instituição hospitalar). Após o diagnóstico, todos os doentes com HAI e
SO efetuaram tratamento com imunossupressores (prednisolona 2 mg/kg/dia, máximo
60 mg/dia, e/ou azatioprina 0,5-2,5 mg/kg/dia) e todos com CEP e SO foram
medicados com ácido ursodesoxicólico (AUDC) 15- 20 mg/kg/dia, em 2 tomas.
Resultados
Durante este período foram diagnosticados 20 casos de DHAI: 10 - HAI, 7 - CEP e
3 - SO. Cinco destes casos foram previamente publicados (casos 2, 6, 7, 8 e
18)13,31.
Sexo, idade e aspetos clínicos
Dez crianças/adolescentes eram do sexo feminino (50%).
A mediana de idades à data de aparecimento dos sintomas foi de 9,0 anos (mínimo
4,0 e máximo 16,0) e à data do diagnóstico de 11,5 anos (mínimo 6,0 e máximo
17,0), ou seja, cerca de 2,5 anos depois do início da sintomatologia - figura
1. Verificou-se que no grupo de doentes com HAI, a mediana de idades à data de
aparecimento dos sintomas foi inferior (7,5 anos) em relação aos doentes com
CEP (10,0 anos) e que o diagnóstico foi efetuado mais tarde (mediana de idades:
HAI - 11,5 anos e CEP - 11,0 anos) - figura_1.
A forma de apresentação clínica foi variável - figura_2. No grupo de crianças/
adolescentes com HAI, a doença manifestou-se sob a forma de hepatite aguda em
5, e teve início insidioso em 2 (tempo de evolução pré-diagnóstico de 3 anos no
caso 2, e de 15 meses no caso 5). Em 2 doentes o diagnóstico foi efetuado após
deteção acidental de elevação das transaminases em análises efetuadas por
outros motivos: hematúria microscópica (caso 3) e pielonefrite aguda (caso 7).
No grupo de crianças/adolescentes com CEP, o diagnóstico foi efetuado
simultaneamente com o diagnóstico de colite ulcerosa (CU) em 3 doentes (casos
11, 13, 15) e, em outros 3, a doença teve início insidioso: dor abdominal
intermitente e anorexia num doente com CU já conhecida (caso 12); dor abdominal
esporádica e, 4 anos depois, aparecimento de icterícia, prurido e colúria (caso
14); icterícia, prurido, astenia e anorexia com um ano de evolução (caso 17).
Num doente deste grupo o diagnóstico foi efetuado após deteção de elevação das
transaminases em análises realizadas para estudo de obesidade (caso 16). No
grupo de doentes com SO, em todos a doença teve início insidioso: no primeiro
caso manifestou-se inicialmente por amenorreia secundária, no segundo caso por
prurido e no terceiro caso por icterícia.
Os sinais/sintomas mais frequentes foram hepatomegalia, dor abdominal,
icterícia e astenia/mialgias não havendo diferenças entre os 3 subgrupos de
doenças, à exceção do prurido que só se verificou nos casos de CEP e/ou SO -
figura_3.
Hepatite autoimune (Casos 1 a 10 - tabela_1)
No grupo de 10 crianças/adolescentes com HAI, registaram-se 3 doentes do sexo
masculino, não cumprindo o primeiro critério do scorede diagnóstico10.
Em 2 crianças/adolescentes foi detetado outro tipo de doença de etiologia
autoimune (AI): diagnóstico simultâneo de CU (caso 1) e diagnóstico prévio de
trombocitopenia AI (caso 10).
Em 2 doentes, a relação fosfatase alcalina (FA)/transaminases foi superior a 3.
Em 2 casos, não se verificou hipergamaglobulinemia. Em todos os doentes com HAI
detetou-se, pelo menos, um dos auto-Acs habitualmente associados a esta
patologia: ac anti-nuclear (ANA) - 8 (80%); ac anti-músculo liso (SMA) - 7
(70%), ac anti-microssoma hepático e renal (anti-LKM1) - 1 (10%). Os títulos
variaram entre 1/40 e 1/1280. O caso 9 apresentava inicialmente títulos
negativos que entretanto positivaram numa segunda amostra. Uma doente tinha ac
antimitocondrial (AMA) positivo (caso 2), o que correspondeu a uma pontuação
negativa no scorede diagnóstico de HAI10. Uma doente com ANA's positivos,
apresentava também dsDNA e SSA positivos (caso 5). Foram detetados outros tipos
de auto-acs: ac anti-citoplasma dos neutrófilos (ANCA) em 2 doentes (20%),
anti-citosol hepático tipo 1 (anti-LC1) em um doente (10%) e anti-proteinase 3
num doente (10%).
Em todas as crianças/adolescentes foram excluídas outras causas de doença
hepática crónica.
Verificou-se que todos os doentes apresentavam, pelo menos, uma das
características histológicas típicas da HAI: hepatite de interface em 7 e
infiltrado linfoplasmocitário em 9 - figura_4. Um doente (caso 5) apresentava
também lesão dos ductos biliares.
Observou-se uma boa resposta ao tratamento imunossupressor em todos os doentes,
tendo-se verificado recaída após a sua redução ou suspensão em 6 casos.
O somatório da pontuação de cada critério de diagnóstico correspondeu a um
scorede diagnóstico definitivo em 7 doentes e provável em 3. Após avaliação da
resposta terapêutica aos imunossupressores o scorede diagnóstico tornou-se
definitivo em todos os doentes.
Colangiopatia esclerosante primária (Casos 11 a 17 - tabela_2)
Em relação aos 7 doentes com CEP, verificou-se que um era do sexo feminino.
Quatro das 7 crianças/adolescentes tinham CU associada (em 3 diagnosticada
simultaneamente e numa diagnosticada 3 anos antes). Uma criança apresentava
ainda fenómenos de vasculite.
Em todos, detetou-se aumento da GGT e/ou FA, pelo menos 3 vezes superior ao
limite superior do normal. A IgG estava aumentada em 3 doentes. No grupo de
doentes com CEP detetaram-se os seguintes auto-Acs: ANA - 3 (43%), SMA - 5
(71%), ANCA - 2 (29%) e anti-proteinase 3 - 1 (14%). Os valores das titulações
variaram entre 1/40 e 1/320. Também neste grupo, num doente os ANA foram
negativos no primeiro estudo analítico e só posteriormente positivaram (caso
15).
Em relação aos aspetos imagiológicos, observou-se ectasia da via biliar
principal ou das vias biliares intra-hepáticas em 2 doentes. Foi realizada
colangiografia em pelo menos 4 doentes (CPRE - 2, colangioRM - 2): num doente
em que foi tentada a CPRE, não foi conseguida a canulação biliar, tendose
complicado de pancreatite aguda (caso 14); dos restantes 3, apenas se
verificaram sinais de colangite esclerosante num doente.
Relativamente aos aspetos histológicos, verificou-se alteração dos ductos
biliares em 4 doentes (inflamação periductular nos 4 e proliferação ductular em
1) - figuras_5_e_6. Em 3 observou-se também inflamação dos espaços-porta e/ou
hepatite de interface - figura_6. O relatório anatomopatológico de um dos
doentes não estava disponível (caso 15).
Em todos os doentes com CEP verificou-se melhoria clínica e analítica após
iniciarem tratamento com AUDC; em 4 foi associada prednisolona, com ausência de
resposta em um.
Síndrome de overlap HAI-CEP (Casos 18 a 20 - tabela_3)
Caso 18 -Nesta doente do sexo feminino, previamente publicada30, a doença
manifestou-se aos 13 anos por amenorreia secundária, e, 4 meses depois, por
astenia, mialgias, perda ponderal, colúria e hepatoesplenomegalia. Os estudos
complementares revelaram transaminases aumentadas, relação FA/transaminases <
1,5, hipergamaglobulinemia, ANA 1/2560 e, 2 anos depois, ANCA 1/1280 e
evidência histológica de hepatite de interface e de proliferação de neoductos.
Verificou-se resposta parcial à terapêutica imunossupressora e ao AUDC. O
scorepré e pós-tratamento foi concordante com diagnóstico definitivo de HAI.
Porém, destacava-se elevação significativa da GGT, ausência de melhoria, após
otimização da terapêutica imunossupressora e evidência ecográfica de ectasia
das vias biliares intrahepáticas. Seis meses depois, efetuou CPRE que mostrou
imagens sugestivas de colangite esclerosante, confirmando o diagnóstico
concomitante de CEP e, por isso, de overlapHAICEP. Esta CPRE complicou-se de
pancreatite e de colangites de repetição. Anos mais tarde e, já após ter sido
submetida a transplante hepático, foi-lhe diagnosticada CU.
Caso 19 -Doente do sexo masculino, com uma avó paterna com CBP, que apresentava
prurido desde o 1.◦ ano de vida (mais intenso a partir dos 4 anos), atribuído
inicialmente a «alergias alimentares». Foi admitido na consulta de Hepatologia
aos 11 anos de idade, e dos exames complementares efetuados nesta altura,
destacava-se: bilirrubinas normais, elevação das enzimas hepáticas com
predomínio da GGT e FA (AST 96 UI/L, ALT 165 UI/L, FA 577 UI/L, GGT 219 UI/L);
ANA e SMA positivos; ecografia abdominal sem alterações; histologia hepática
com evidência de fibrose nos espaços-porta, septos interportais, infiltrado
portal misto com linfócitos e eosinófilos, esboço de fibrose periductal e
neoformação ductular. Cumpriu terapêutica imunossupressora (prednisolona +
azatioprina) durante 6 meses, sem melhoria significativa dos parâmetros
analíticos, pelo que foi suspensa. Pela hipótese de se tratar de CEP, manteve-
se apenas tratamento com AUDC. Aos 15 anos de idade verificou-se uma maior
elevação das enzimas hepáticas e, um ano mais tarde, aparecimento de icterícia
e agravamento do prurido, com o seguinte estudo analítico: BT 3,34 mg/dL, BD
2,96 mg/dL, AST 194 UI/L, ALT 543 UI/L, GGT 310 UI/L, hipergamaglobulinemia,
ANA e SMA positivos e ANCA negativo. Nesta altura, a histologia hepática
mostrava atividade necroinflamatória de interface e intralobular focal - figura
7. Por cumprir critérios de diagnóstico definitivo de HAI (scorepré-tratamento
16) iniciou tratamento imunossupressor, desta vez com resposta francamente
favorável. Este caso foi classificado como overlapHAI-CEP de apresentação
sequencial (CEP seguida de HAI).
Caso 20 -Doente do sexo feminino que teve um primeiro episódio de icterícia
colestática, sem prurido, aos 12 anos de idade (BT 10,2 mg/dL, BD 4,0 mg/dL,
AST 117 UI/L, ALT 119 UI/L, GGT 185 UI/L). Nesta altura, foi confirmado o
diagnóstico de síndrome de Gilbert por estudo molecular. A icterícia diminuiu,
passando a ser apenas de bilirrubina livre (BT < 5 mg/dL) e as enzimas
hepáticas normalizaram. Dois anos mais tarde teve novo episódio de icterícia
colestática, com enzimas hepáticas elevadas e foi notada esplenomegalia,
confirmada por ecografia abdominal, que mostrou também um fígado heterogéneo.
Destacava-se a presença de trombocitopenia e ANA, SMA e Acs antitiroideus
positivos, com IgG normal. O doseamento de _-1-antitripsina e a ceruloplasmina
séricas foram normais, tal como o doseamento enzimático para as doenças de
Gaucher e de Niemann-Pick tipo C. A histologia hepática revelou fibrose dos
espaçosporta, hepatite de interface, atividade necroinflamatória lobular e
intensa colestase hepatocanalicular. Foi tratada com prednisolona, sem melhoria
significativa, pelo que foi suspensa. A CPRE mostrou vias biliares intra e
extrahepáticas com morfologia normal, mas com alguma pobreza dos canais intra-
hepáticos de 2.a e 3.a ordem. Iniciou tratamento com AUDC, registando-se
normalização das enzimas hepáticas e da bilirrubina conjugada. Esta doente
cumpria critérios de diagnóstico de HAI, mas não respondeu favoravelmente à
prednisolona. Por outro lado, havia algumas alterações sugestivas de CEP
(elevação da GGT, pobreza de canais intra-hepáticos de 2.a e 3.a ordem na CPRE)
e houve resposta ao tratamento colerético. Apesar de atualmente ter enzimas
hepáticas normais, foi associada azatioprina, por cumprir critérios de
diagnóstico definitivo de HAI (score 17).
Discussão
Sexo, idade e aspetos clínicos
Embora a ocorrência de patologia AI predomine no sexo feminino, nesta série 10
(50%) das crianças/adolescentes eram do sexo masculino, a maior parte com CEP
(6) e 1 com SO. O envolvimento das vias biliares ocorre sobretudo no sexo
masculino5,6,34(86% nesta amostra), ao contrário da HAI que é mais frequente no
sexo feminino1,4,14(70% nesta amostra).
Apesar de, na maior parte dos casos, a doença se manifestar na adolescência, os
primeiros sintomas ocorreram em idade escolar em 7 doentes e, em idade pré-
escolar, em 2.
Verificou-se que houve um intervalo relativamente grande (2,5 anos) entre a
mediana de idades à data do início da sintomatologia e à data do diagnóstico.
Esta diferença foi particularmente evidente em 4 doentes (casos 2, 9, 14 e 19)
- figura_1. Nestes doentes (um deles residente em S. Tomé e Príncipe) houve um
atraso na referenciação para centros terciários, pelo que se salienta a
importância do conhecimento desta patologia e da orientação destes doentes para
centros com experiência.
Os casos de HAI manifestaram-se como hepatite aguda em metade dos doentes, tal
como noutros estudos1,2,4,8,14, sendo um aspeto facilitador do diagnóstico.
Salienta-se o caráter indolente e insidioso de alguns casos de DHAI (8 no total
da amostra), também verificado em outras séries1,13,19,27,28, sobretudo no
grupo de doentes com CEP e SO (CEP-3, SO-3), o que pode atrasar a valorização
dos sinais e sintomas e, consequentemente, o diagnóstico. Destacamse os 3
casos, cujo diagnóstico foi efetuado de forma acidental, e os 4 casos em que o
diagnóstico foi efetuado na sequência do estudo de sintomas sugestivos de DII,
patologia associada a este tipo de doença hepática, particularmente a CEP, como
observado em 4 dos 7 casos de CEP (57%) e descrito em 80% dos casos na
literatura6. É fundamental valorizar os antecedentes pessoais e familiares do
doente, sobretudo no que diz respeito à ocorrência de outras doenças AIs, tais
como DII, tiroidite AI, trombocitopenia AI e doença celíaca1,3,4,6,17,34. A
percentagem relativamente baixa de outras doenças AI verificada na amostra
estudada (8/20, 40%) deveu-se provavelmente ao facto de não ter sido efetuado
doseamento de Acs antitiroideus e rastreio de doença celíaca em todos os
doentes.
Estudo laboratorial
A anomalia bioquímica mais vezes associada a HAI é a elevação das transaminases
(3 a 50 vezes superior ao normal)1,4,6,13, como observado em todos os casos. Em
alguns doentes, pode ocorrer também elevação ligeira da FA4-6,29, como se
observou nos casos 3 e 7. A relação entre o valor da FA e a AST ou ALT inferior
a 1,5 é um dos critérios de diagnóstico de HAI10, mas que não se verificou
nestes 2 doentes.
A elevação da FA e GGT é a anomalia mais consistente com o diagnóstico de CEP4-
6,14,35, como se verificou em todos os casos de CEP. Numa fase precoce da
doença, e sobretudo em idade pediátrica, o valor destas enzimas pode, contudo,
estar normal30,34. As transaminases estão ligeiramente aumentadas na maioria
dos casos (em 3 dos 7 casos de CEP desta amostra), mas podem atingir valores
tão altos como 50 vezes superior ao normal6,30.
A IgG está aumentada em 60-80% dos casos de DHAI2,4,6. Apesar de esta alteração
ser característica, os valores normais não excluem o diagnóstico1,2,4,6,14,
como se observou em, pelo menos, 30% (6/20) da amostra estudada.
Uma outra característica da DHAI é a deteção de auto-Acs circulantes que reagem
contra certas proteínas nucleares, citoplasmáticas e membranares1,4,6,14. Os
mais importantes são os ANA, SMA e anti-LKM1. Há outro tipo de auto-Acs
identificados mais recentemente, também importantes: anti-citosol hepático tipo
1 (anti-LC1), mais comum em doentes mais jovens e o único que parece
relacionar-se com a atividade da doença; anti-citoplasma dos neutrófilos
(ANCA); antigénio solúvel do fígado (SLA); anti-fígado e pâncreas (anti-LP)4. A
titulação destes últimos Acs não foi efetuada nos doentes mais antigos da
amostra estudada. A presença de AMA é típica da CBP1,4,5,35, mas pode ocorrer
em até 5% dos casos de HAI1,36, como se observou no caso 2, correspondendo a
10% dos casos de HAI nesta série.
É raro haver crianças saudáveis com auto-Acs positivos. Qualquer valor/
titulação superior a 1/20 para ANA e SMA e 1/10 para anti-LKM-1 neste grupo
etário é clinicamente relevante.1,3,4,14. Na amostra estudada foram observados
apenas valores superiores a 1/40.
Após pesquisa de todos os auto-Acs referidos, continua a haver cerca de 20-30%
de doentes com DHAI sem auto-Acs detetáveis1,3,5,34(1/20 - 5% nesta série -
caso 17). A prevalência e características de DHAI seronegativa ainda não estão
bem definidas3,4.
Embora a identificação destes auto-Acs seja um dado de extrema importância para
o diagnóstico de DHAI, não são específicos da doença, não se relacionam com o
grau de atividade da mesma (à exceção do anti-LC1) e os níveis podem variar ao
longo da sua evolução1,2,13,36-38, como se verificou em 2 casos em que o
doseamento de ANA era negativo num primeiro estudo, tendo sido positivo
posteriormente.
Imagiologia
A ecografia abdominal pode revelar sinais sugestivos de cirrose e/ou de
hipertensão portal, e dilatação dos ductos biliares intra ou extra-hepáticos
nos casos de CEP4,35. Em até 50% dos casos não são detetadas quaisquer
anomalias, o que acontece sobretudo numa fase precoce da doença4. No grupo
estudado, verificou-se ectasia das vias biliares em apenas 3 doentes (2 com CEP
e um com SO) - tabela_4.
O melhor exame para identificação de CEP é a colangiografia3,14,34,35. A
colangioRM é a técnica que deve ser utilizada, por se tratar de um método não
invasivo que permite a visualização e caracterização dos ductos biliares
intrahepáticos de 3.a e 4.a ordem. A CPRE está atualmente em desuso pelo risco
de complicações como pancreatite aguda e colangite4,35, observadas em 2
doentes. A imagem típica da CEP inclui irregularidade dos ductos intra e/ou
extra-hepáticos, dilatações saculares focais, aumento do diâmetro do canal
biliar comum4,35. Na amostra estudada, foi efetuada colangiografia em 6 doentes
(4 com CEP e em 2 com SO). Foram efetuadas 4 CPRE e 2 ColangioRM (exames mais
recentes), tendo-se detetado sinais sugestivos de colangite esclerosante em
apenas 3 casos. Dos 3 doentes com colangiografia normal, apenas um apresentava
lesão ductular no exame histológico. Estes 3 casos correspondem provavelmente a
CEP de pequenos ductos.
Histologia hepática
O diagnóstico de HAI implica sempre realização de biópsia hepática4,6. Apesar
de haver características histológicas típicas desta patologia (como hepatite de
interface e inflamação portal - figura_4), estas não são específicas da doença,
podendo ocorrer noutro tipo de hepatopatia6. Outros aspectos histológicos, como
o envolvimento dos ductos biliares (ductopenia, colangite), podem ocorrer em
24-31% das crianças com HAI6,30, como observado em um doente.
Embora o exame histológico seja dispensável para o diagnóstico de CEP de
grandes ductos quando há evidência de alterações colangiográficas, nos casos de
CEP de pequenos ductos é necessária realização de biópsia6,34,35. Os aspetos
histológicos mais típicos de CEP incluem inflamação dos espaços porta com
infiltrado de linfócitos nos ductos biliares, proliferação e/ou fibrose
ductular5,6,8,34,35- figuras_5_e_6. Em 2 doentes (29%) com CEP e em 1 com SO
não se detetaram alterações ductulares no exame histológico, o que pode
acontecer sobretudo numa fase inicial da doença4-6,30. Além disso, nos doentes
com CEP podem ser observadas caraterísticas histológicas mais sugestivas de
HAI, como hepatite de interface6,34,35- figura_6.
Resposta terapêutica
A evidência de melhoria clínica e laboratorial, após tratamento com
corticóides, é um dos critérios de diagnóstico de HAI10,39 e permitiu afirmar o
diagnóstico definitivo de HAI nos 3 doentes cujo diagnóstico pré-tratamento era
apenas provável.
Nos casos de CEP, verifica-se uma melhor resposta ao tratamento com AUDC8,
embora em alguns casos também ocorra melhoria com tratamento imunossupressor5-
7. Dos 7 casos de CEP, foi efetuado tratamento imunossupressor em 4, não tendo
havido resposta em um, e todos efetuaram depois tratamento com AUDC, com boa
resposta.
Nos casos de SO o tipo de resposta à terapêutica (imunossupressão ou AUDC), ou
uma alteração dessa resposta ao longo da evolução da doença (caso 19)
contribuiu para a suspeita de overlap.
Diagnóstico diferencial com outras patologias
É necessária a exclusão de outras causas de hepatopatia crónica, tais como
esteatohepatite não-alcoólica, défice de _-1-antitripsina, doença de Wilson,
infeções víricas, álcool e outros tóxicos10. Em todos os doentes a exclusão
destas patologias foi possível e de fácil execução.
No caso 5, a presença de ANA, anti-dsDNA e SSA positivos obrigou ao diagnóstico
diferencial com lúpus eritematoso sistémico (LES), ilustrando as dificuldades
por vezes encontradas na diferenciação entre HAI como entidade independente e o
LES com envolvimento hepático40-42. Apesar de a disfunção hepática não estar
incluída nos critérios de diagnóstico do LES43, ela pode surgir em cerca de 25-
50% dos doentes42,44-46. A patogénese é variável, podendo estar envolvidos
diversos mecanismos, entre os quais HAI como uma forma de resposta AI
sistémica40,41,44-47. Um estudo inglês evidenciou que a prevalência de HAI nos
doentes com LES juvenil era de 9,8%48. Tanto a HAI como o LES estão associados
a sinais de autoimunidade como poliartralgia, hipergamaglobulinemia e ANA e
dsDNA positivos e ambos respondem favoravelmente aos corticóides40,44,45.
Contudo, existem algumas diferenças entre as duas entidades. Em termos
histológicos, a HAI caracteriza-se por hepatite de interface, com ou sem
envolvimento lobular, e infiltrado linfóide, enquanto no LES a inflamação
localiza-se predominantemente a nível lobular e ocasionalmente periportal, com
paucidade de infiltração linfóide44,45. Os SMA estão presentes em 60-80% dos
doentes com HAI, e em apenas 30% dos doentes com LES, para além de ser possível
detetar outros Acs específicos de fígado na HAI45-48. Além disso, a ocorrência
de CU pode associar-se a HAI, sendo muito rara a associação com LES45. No caso
5, as características histológicas, a evidência de SMA positivos e a ausência
de outras manifestações sugestivas de LES foram aspetos a favor do diagnóstico
de HAI. De qualquer forma, a HAI pode surgir anos antes do diagnóstico de
LES17,45,48, pelo que deverá ser mantida vigilância nesta doente e efetuada
investigação complementar à mínima suspeita de LES.
Diagnóstico diferencial entre HAI, CEP ou SO
A partilha de características clínicas e laboratoriais semelhantes tornam a
distinção entre HAI e CEP por vezes difícil - tabela_4. Existem, no entanto,
alguns aspetos mais sugestivos de CEP que podem facilitar esta diferenciação:
sexo masculino, antecedentes de DII, presença de prurido, curso da doença mais
indolente, elevação preferencial da GGT e FA, alterações dos ductos biliares na
colangioRM e no exame histológico e melhoria clínica e laboratorial após
tratamento com AUCD ' tabela_4. Cerca de 45% das crianças com CEP têm DII
associada, comparativamente com cerca de 20% das que têm HAI clássica4. Na
amostra estudada, esta diferença foi ligeiramente maior (CEP - 57%, HAI - 10%).
O tipo de auto-Acs detetados nos 2 tipos de DHAI é semelhante. A exceção parece
ser feita no que diz respeito aos ANCA que predominam nos casos de CEP (74 para
56%)4,7,30,35. Na amostra estudada, esta diferença foi inferior (29 para 20%).
As alterações ductulares no exame histológico são mais características da CEP,
mas podem ocorrer também nas formas de HAI e podem estar ausentes em alguns
casos de CEP35, como observado na amostra estudada.
A síndrome de overlapHAI/CEP na criança parece ter uma prevalência semelhante à
da HAI4,6. Um estudo de 55 crianças com HAI clássica que realizaram
colangiografia, na altura do início da sintomatologia, mostrou que 49% tinham
alterações dos ductos biliares característicos de colangite esclerosante, tendo
assim sido classificados como SO5,6,30. Na série apresentada não foi efetuada
colangiografia em todos os doentes, pelo que o diagnóstico de CEP, e
consequentemente de SO, pode ter sido subestimado. Da mesma forma, doentes com
CEP podem apresentar, simultaneamente ou posteriormente ao longo da evolução da
doença, características de HAI5,30. Num estudo prospetivo de crianças com CEP,
verificou-se que 35% vieram a cumprir critérios de HAI6. Na série apresentada,
o caso n.◦ 19 exemplifica esta situação. O IAIHG sugere que os doentes com DHAI
devem ser classificados em HAI ou CEP, de acordo com o tipo de características
que predominam, e que a SO não deve ser considerada como uma entidade
independente6.
Conclusões
As maiores dificuldades de diagnóstico foram encontradas nos doentes portadores
de CEP com doença em estadio inicial, pela ausência de alterações imagiológicas
no colangiograma e pela evidência de anomalias histológicas inespecíficas.
Destacam-se as dificuldades colocadas pelos casos de SO, sobretudo aqueles com
apresentação sequencial. Salientam-se ainda as dificuldades em efetuar o
diagnóstico diferencial entre HAI como entidade independente e outras doenças
AI multissistémicas com atingimento hepático, como o LES.