Aumento alarmante da incidência da diarreia associada ao clostridium difficile
em Portugal
Aumento alarmante da incidência da diarreia associada ao clostridium
difficileem Portugal
Alarming increasing rates of clostridium difficileassociated diarrhea in
Portugal
Miguel Bispo
Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental - Hospital
de Egas Moniz, Lisboa, Portugal
Correio eletrónico: gastrohem@chlo.min-saude.pt
Artigo relacionado com: http://dx.doi.org/10.1016/j.jpg.2012.07.011
Na última década, vários estudos epidemiológicos documentaram um aumento
preocupante da incidência, da gravidade e das taxas de recorrência da diarreia
associada ao Clostridium difficile(DACD), em várias áreas do globo1-3. Mais
recentemente, tem vindo a aumentar a atenção sobre a proporção significativa de
infeções por C. difficileadquiridas na comunidade, salientando-se que a análise
da DACD em doentes hospitalizados subestima o espectro de manifestações e a
verdadeira incidência da doença4,5.
Este aumento da incidência da DACD tem sido explicado não apenas pela melhoria
significativa dos métodos de deteção do C. difficile(nomeadamente, pela
disponibilização de ensaios imunoenzimáticos simples de executar, mais
sensíveis e específicos), mas também por fatores atribuíveis ao agente
(salientando-se a emergência da estirpe virulenta BI/NAP1/027) e pelo aumento
de outros fatores de risco associados à infeção (em particular, a crescente
utilização de antibióticos, de inibidores da bomba de protões e de
imunossupressores)1-3,6.
Em Portugal, os dados epidemiológicos relativos à infeção por C. difficilesão
limitados. Vieira AM et al.7, na análise dos casos de DACD internados num
hospital central entre janeiro de 2000 e dezembro de 2007 (n = 93),
documentaram uma incidência anual média de 3,71/10 000 internamentos. Nesse
estudo português, salienta-se o aumento exponencial da incidência de DACD no
ano 2007: incidência anual de 15,4/10 000 internamentos em 2007, um aumento
superior a 7 vezes comparativamente ao ano 2000. Resultados epidemiológicos
semelhantes relativos à incidência anual da DACD em doentes hospitalizados
foram apresentados em Espanha, com um aumento da incidência anual de 3,9 para
12,2 casos por 10 000 internamentos, entre 1999 e 20078. Neste último estudo, o
aumento da incidência anual da DACD correlacionou-se com o aumento da proporção
de doentes internados a quem foram prescritos antibióticos8.
No presente número do GE, no artigo intitulado «Diarreia associada ao
Clostridium difficile- casuística de 9 anos», Dinis Silva J et al. apresentam
uma análise retrospetiva de 37 casos de DACD num hospital distrital,
diagnosticados entre 2000 e 2008. Este estudo obriga a refletir sobre as
potenciais causas subjacentes ao aumento da incidência desta infeção
documentada nos últimos anos. Salienta-se a grande variabilidade da incidência
anual da DACD no período estudado: 2/10 000 internamentos em 2000 versus 16/10
000 internamentos em 2008. Este aumento exponencial da incidência no último ano
incluído no estudo é equiparável ao aumento da incidência apresentado por
Vieira AM et al. num hospital central português7. Na análise dos fatores de
risco conhecidos de DACD entre diferentes períodos do estudo, os autores
salientam 2 dados interessantes: 1 - os antibióticos carbapenemes estiveram
mais vezes implicados nos casos de DACD no ano 2008 comparativamente a 2000-
2007 (6/16 versus 1/21, respetivamente, p = 0,01); e 2 - a utilização de
inibidores da bomba de protões foi proporcionalmente superior nos casos de DACD
no ano 2008, comparativamente a 2000-2007 (11/16 versus 6/21, respetivamente, p
= 0,02). Estes dados levam a refletir sobre a potencial influência dos padrões
de prescrição de antibióticos e de inibidores da bomba de protões no aumento da
incidência da DACD. Ao mesmo tempo que assistimos a uma crescente e preocupante
utilização de carbapenemes na rotina hospitalar, em particular nas instituições
com elevadas taxas de resistência entre as bactérias Gram negativas9, surgem
relatos de que os carbapenemes poderão associar-se a um maior risco de DACD
comparativamente aos antibióticos que mais se têm associado à infeção por C.
difficilenos estudos prévios (penicilinas, cefalosporinas, clindamicina e
fluoroquinolonas)10,11. Num estudo retrospetivo recente de grande dimensão, que
procurou identificar fatores de risco de DACD após terapêutica antibiótica de
infeções pós-operatórias, apenas a utilização de carbapenemes teve influência
na incidência de DACD, correspondendo a um aumento do risco de 1,7-vezes
comparativamente ao uso de outros antibióticos10. Relativamente aos inibidores
da bomba de protões, cuja associação com a DACD tem sido objeto de
controvérsia, uma metaanálise recente indica um aumento de 65% da incidência de
DACD nos doentes medicados com inibidores da bomba de protões, recomendando-se
a sua utilização criteriosa na profilaxia da doença ulcerosa em doentes
internados12.
No estudo de Dinis Silva et al., relativamente à análise dos potenciais fatores
de risco de DACD entre coortes temporais (período de maior incidência - 2008,
versus o restante período - 2000 a 2007), deve-se considerar o seguinte: 1- O
aumento da incidência pode dever-se, em grande parte, ao aumento de casos
diagnosticados, pela maior utilização de ensaios imunoenzimáticos (que detetam
as toxinas A e B nas fezes) no ano 2008, conforme referido pelos autores; 2 -
Não foram analisadas as estirpes de C. difficile implicadas, sabendo-se que a
ocorrência de surtos da doença está frequentemente associada à emergência de
estirpes particularmente virulentas1-3; 3 - Não foram avaliados os índices de
gravidade dos doentes internados, que são determinantes na suscetibilidade à
DACD, e a maior proporção de casos graves («casos complicados») de DACD
verificada no ano 2008 permaneceu não esclarecida. Por último, sendo um estudo
retrospetivo não controlado, não é possível definir uma relação de causalidade
entre as variáveis analisadas e a ocorrência de ACD nos diferentes períodos do
estudo.
Resumindo, o estudo de Dinis Silva et al. aborda um tema de grande relevância
na atualidade, cujos dados epidemiológicos em Portugal são limitados. Os
resultados apresentados são consistentes com outro estudo português,
metodologicamente semelhante, realizado num hospital central7. É reforçada a
necessidade do uso criterioso de antibióticos de largo espectro (em particular,
de carbapenemes) e de inibidores da bomba de protões em meio hospitalar, que
estiveram implicados numa maior proporção de casos de DACD no ano de maior
incidência da doença. Importa realizar estudos prospetivos controlados,
utilizando testes padronizados, de forma a definir o real aumento da incidência
da DACD em Portugal (na comunidade e no meio hospitalar) e os potenciais
fatores com maior repercussão na epidemiologia da doença, com especial atenção
para a emergência de estirpes virulentas.