Pseudolipomatose do tubo digestivo: uma entidade pouco reconhecida
Pseudolipomatose do tubo digestivo - uma entidade pouco reconhecida
Pseudolipomatosis of the digestive tract - a seldom recognized entity
Ricardo Veloso∗, Teresa Pinto-Pais, Carlos Fernandes, Sónia Fernandes, Ana
Paula Silva, Ivone Amaral e José Fraga
Serviço de Gastrenterologia e Hepatologia, Centro Hospitalar de Vila Nova de
Gaia E.P.E., Vila Nova De Gaia, Portugal
*Autor para correspondência
A pseudolipomatose do tubo digestivo é uma entidade benigna, raramente
descrita, diagnosticada durante a realização de endoscopia e cuja etiologia
permanece por esclarecer. É mais frequentemente descrita no cólon com uma
prevalência estimada entre 0,02 e 1,7% dos exames endoscópicos1, havendo pouco
mais de 60 casos publicados2. A sua ocorrência no tubo digestivo superior é
extremamente rara, existindo apenas um relato de pseudolipomatose gástrica e
outro de pseudolipomatose duodenal, apesar de histologicamente não ser um
achado tão raro. Esta entidade foi inicialmente descrita por Snover et al. em
19853 e caracteriza-se histologicamente pela presença de vacúolos oticamente
vazios no córion, medindo entre 50 a 600 micrómetros, por vezes associado a um
infiltrado inflamatório mononuclear. O aspeto endoscópico é característico, mas
poucas vezes reconhecido, observando-se placas aderentes à mucosa, brancas ou
amareladas, ligeiramente elevadas, por vezes múltiplas e confluentes, medindo
entre alguns milímetros até 4 cm2.
Apresentam-se em seguida 3 casos:
Caso 1:mulher de 55 anos de idade, sem antecedentes patológicos de relevo,
assintomática. Foi admitida ao nosso serviço para realização de colonoscopia
esquerda para rastreio de cancro coloretal. À introdução do colonoscópio, no
cólon sigmóide, observaram-se várias placas brancas, algumas das quais
confluentes, intercaladas por mucosa endoscopicamente normal (fig._1a). As
biopsias das lesões revelaram mucosa cólica com vacúolos oticamente vazios no
córion, observadas em Hematoxilina+Eosina (fig._1b).
Caso 2:mulher de 47 anos de idade, sem antecedentes patológicos de relevo,
efetuou colonoscopia para polipectomia de pólipo séssil com cerca de 10mm no
cólon transverso. À retirada do endoscópio, após polipectomia com ansa
diatérmica, observaram-se no cólon descendente, várias placas brancas dispersas
de limites mal definidos, não sendo aparentes outras lesões da mucosa (fig.
2a). Essas lesões foram biopsadas observando-se espaços oticamente vazios no
córion, com criptas estruturalmente normais (fig._2b).
Caso 3: mulher de 66 anos de idade, com antecedentes de fibrilação auricular,
hipocoagulada com varfarina. Foi admitida para realização de endoscopia
digestiva alta para exérese de pólipo gástrico. No antro gástrico observou-se
pólipo séssil com cerca de 8mm. Procedeu-se a injeção submucosa de adrenalina
diluída em soro fisiológico (diluição 1/100.000) tendo-se observado uma reação
local imediata no local da punção, com alteração da cor da mucosa, assumindo
tonalidade esbranquiçada (fig._3a). Essa alteração endoscópica foi biopsada,
observando-se mucosa gástrica com vacúolos oticamente vazios no córion,
confirmando pseudolipomatose gástrica (fig._3a). Assumiu-se pseudolipomatose
iatrogénica em provável relação com ar na agulha de injeção. (fig._3b).
A pseudolipomatose do tubo digestivo é um achado endoscópico raramente descrito
e que habitualmente resolve espontaneamente4. Surge predominantemente pessoas
na sexta ou sétima década de vida e é assintomática. A sua etiopatogenia é
ainda desconhecida, mas trata-se provavelmente de uma entidade iatrogénica
resultante do barotrauma provocado pela penetração de gás na mucosa intestinal
durante a realização de exames endoscópicos5. O diagnóstico diferencial faz-se
com a pneumatose cística intestinal e o linfangioma cólico. O tratamento é
conservador uma vez que na maioria dos casos resolve espontaneamente em 2-
3 semanas, sem complicações.