Os gastrenterologistas portugueses e a Europa
EDITORIAL
Os gastrenterologistas portugueses e a Europa
Portuguese gastroenterologist and Europe
Marie Isabelle Cremers
Serviço de Gastrenterologia, Hospital de São Bernardo, Setúbal, Portugal
Correio eletrónico: cremers_tavares@hotmail.com
No início de 2010 o GE-Jornal Português de Gastrenterologia publicou um
editorial no qual se apresentava o trabalho desenvolvido e os objetivos da
secção e do Board Europeu de Gastrenterologia e Hepatologia (designados em
conjunto por EBGH)1. Pretende-se agora oferecer uma atualização sobre as
atividades do EBGH.
Em 2012, foi concluída a atualização do Blue Book do EBGH, que pode ser
consultado no site do EBGH www.eubog.org2. O Blue Book inclui os objetivos de
trabalho do EBGH, o curriculum europeu de formação pós-graduada em
gastrenterologia e hepatologia proposto pelo EBGH, programas para a formação
sub (ou super) especializada em hepatologia, nutrição, oncologia e endoscopia
de intervenção, para além de aspetos relacionados com a organização e locais
apropriados para a formação de especialistas. Há cerca de 20 anos, quando o
Blue Book foi elaborado pela primeira vez, constatou-se que os programas de
internato complementar de gastrenterologia dos vários países europeus eram
muito divergentes e diferentes do Blue Book. No decorrer dos anos tem-se
verificado uma convergência desses programas de internato complementar.
Qual é a importância desta convergência e do Blue Book? A União Europeia (EU),
na sua Diretriz 2005/36/EC, consagra a livre circulação de médicos na UE,
segundo o conceito de «mercado livre». De facto, os colégios das várias
especialidades de cada país são obrigados a inscrever colegas oriundos do
estrangeiro e que pretendam estabelecer-se e trabalhar nesse país. Na
realidade, cada vez mais se constata que o treino é diferente de país para país
e muitos países atrasam o processo de reconhecimento em vários meses e até anos
(caso da França, por exemplo) ou impõem um complemento formativo para poderem
exercer no seu país (caso da Dinamarca, por exemplo). Portanto, na prática, o
reconhecimento mútuo não é automático.
A UE, ao consciencializar a diferença nos programas de formação e a dificuldade
de reconhecimento mútuo, com a evidente preocupação no que concerne à qualidade
de cuidados médicos prestados aos doentes, está a rever a Diretriz 2005/36/EC.
O papel do EBGH é aconselhar neste processo e propor um curriculum europeu de
gastrenterologia uniformizado, ou seja, o Blue Book.
Nesta altura, a UE está a ir mais longe, não apenas procurando uniformizar
programas de internato complementar, a fim de haver uma real equivalência entre
especialistas de vários países, mas também através de processos de certificação
transversais europeus, baseados numa plataforma on-line de registo de
conhecimentos, obtenção de créditos de reuniões ou cursos frequentados, etc. O
culminar deste processo será a concretização de um exame europeu da
especialidade. Encontra-se em desenvolvimento este projeto, designado por On
Line Improvement of Medical Performance in Europe (OLIMPE), que pode ser
consultado no site da UEMS. A execução do projeto OLIMPE prevê um processo com
duração de 3 anos e a proposta de um exame europeu em 2015. O EBGH está, nesta
altura, envolvido numa parceria com o Royal College of Physicians para a adoção
e recomendação à UE do exame final de especialidade de gastrenterologia que o
Royal College of Physicians desenvolveu e tornou obrigatório este ano na
Inglaterra.
Os gastrenterologistas portugueses não estão de todo alheados da perspetiva
europeia. No início de 2010, altura em que foi publicado o editorial, já
referido1, havia 4 especialistas portugueses com o título de Fellow of the
European Board of Gastroenterology and Hepatology. Atualmente são umas dezenas
a poderem incluir este título nos seus curriculum e outros documentos. No final
de 2009 existia um centro português creditado pelo EBGH para formação de
gastrenterologistas, o Hospital de Santa Maria. Em outubro de 2012, um segundo
centro, o Centro Hospitalar do Alto Ave, obteve também esta creditação. Os
internos formados nestes serviços, no final do internato, se o solicitarem,
obtêm automaticamente o título de Fellow.
Pelo facto de ainda só existirem 64 centros creditados em toda a Europa, o EBGH
decidiu prolongar até ao final de 2014 a possibilidade de obter, de forma
retrospetiva, o título de Fellow. Convido, assim, todos os colegas a
consultarem o site www.eubog.org2 e a submeterem a sua candidatura. Da mesma
forma sugiro a todos os serviços com capacidade formativa que procurem obter a
creditação pelo EBGH (podem fazê-lo de forma isolada ou em grupos regionais,
por exemplo). Esta creditação poderá constituir um trunfo numa altura que é
importante demonstrar a qualidade dos nossos hospitais na formação de
especialistas e, logo, na qualidade dos cuidados médicos prestados aos doentes.