Supervisão colaborativa e desenvolvimento profissional em Enfermagem
Introdução
O desenvolvimento profissional contínuo passou a constituir uma meta
inquestionável na sociedade atual. Este conceito engloba processos de reflexão,
de interação com o meio envolvente e de colaboração, com vista a percursos
formativos pertinentes e à permanente renovação pessoal e profissional. Nesta
linha de pensamento, a supervisão colaborativa tem por base a interação, a
mediação entre supervisor e supervisionado e a partilha de saberes,
experiências e objetivos fundamentais no atual contexto da formação contínua em
Enfermagem. Todavia, de acordo com a experiência profissional em contexto da
prática de cuidados, percebe-se que o trabalho colaborativo desenvolvido pelos
enfermeiros encontra barreiras e constrangimentos capazes de pôr em causa a
prática de supervisão dentro de uma perspetiva desenvolvi-mentista. Neste
sentido, existem motivos pelos quais se opta por investigar esta temática. Por
um lado, a escassez de estudos neste domínio, por outro lado, a possibilidade
de compreensão do alcance da supervisão colaborativa no desenvolvimento
profissional dos enfermeiros. E, por último, o designado Modelo de
Desenvolvimento Profissional, que reconhece a importância da criação de pontes
de colaboração entre os enfermeiros, de modo a estimular a (des/re)construção
das práticas e o desenvolvimento profissional contínuo (Conselho de Enfermagem,
2010). Neste sentido, para compreender o objeto do estudo em toda a sua
complexidade, foi formulado um conjunto de questões, que nortearam o processo
investigativo: 1) Quais as conceções dos enfermeiros sobre a relação entre a
colaboração e a supervisão na prática de cuidados?; 2) Quais os fatores que, no
entender dos enfermeiros, podem facilitar ou dificultar a implementação do
trabalho colaborativo na prática de cuidados?; e 3) Quais as conceções dos
enfermeiros sobre os contributos das práticas de colaboração no contexto
profissional?.
Por conseguinte, o estudo está focalizado nas conceções dos enfermeiros sobre a
supervisão colaborativa na prática de cuidados e a sua relação com o
desenvolvimento profissional.
Enquadramento
No contexto profissional atual é fundamental que se abandone o individualismo e
se valorize a partilha, o confronto de ideias e a reflexão conjunta. Neste
âmbito, referindo-se ao trabalho colaborativo no âmbito da formação contínua,
Roldão (2007) menciona que se organiza essencialmente como um processo de
trabalho articulado e pensado em conjunto, que permite alcançar melhor os
resultados visados, com base no enriquecimento trazido pela interacção dinâmica
de vários saberes específicos e de vários processos cognitivos (p. 27).
Assim, o desenvolvimento profissional é perspetivado de modo contínuo, ancorado
na reflexão coletiva sobre a ação, visando a reconceptualização permanente das
práticas profissionais.
No âmbito do desenvolvimento profissional em Enfermagem pode-se salientar o
contributo de Benner (2001), especificamente em como se processa o
desenvolvimento das competências em Enfermagem. Esta autora, tendo por base o
modelo de Dreyfus e Dreyfus, de 1980, elucida que o desenvolvimento
profissional do enfermeiro se processa progressivamente de iniciado a perito,
através da aquisição de novos conhecimentos e competências.
Sendo a Enfermagem uma disciplina que age num meio em constante mutação, a
formação contínua é perspetivada como um processo de permanente inacabamento,
tendo como objetivo o desenvolvimento pessoal, profissional e do contexto de
trabalho (Rocha & Sá-Chaves, 2012). A formação contínua constitui uma
estratégia que fomenta a atualização e expansão dos conhecimentos em Enfermagem
e a permanente renovação das práticas profissionais, mediante a análise
crítico-reflexiva das situações vivenciadas (Abreu, 2007; Serrano, Costa, &
Costa, 2011). Neste contexto, a reflexão constitui um meio que permite aos
enfermeiros (des/re)construir a ação, possibilitando adquirir novos
significados e modos renovados de agir. Assim, a experiência em contexto da
prática emerge como uma relevante fonte de aprendizagem, na qual ocorrem
momentos formativos de eleição. Destes, salientam-se as passagens de turno, as
reuniões e a formação em serviço que, apesar de serem momentos formativos que
não estão livres de conflitos ou divergências, em virtude da abertura ao
diálogo e à reflexão e debate colegiais, constituem espaços privilegiados de
formação em contexto de trabalho (Macedo, 2012). Estes espaços de reflexão e
partilha consistem em singulares momentos colaborativos que possibilitam
colocar dúvidas, partilhar saberes e experiências e encarar os problemas da
prática sob diversas perspetivas.
O desenvolvimento profissional atual engloba a abertura ao diálogo
participativo, ao confronto de ideias, pois é na intersubjetividade que se
consegue encontrar a solução considerada mais adequada para um determinado
problema. Deste modo, a colaboração proporciona um espaço de reflexão coletiva,
onde o diálogo colegial e construtivo permite a renovação das práticas e o
desenvolvimento profissional dos enfermeiros. Segundo Hargreaves (1998) a
colaboração constitui uma estratégia particularmente frutuosa de fomento do
desenvolvimento profissional (p. 209).
Neste âmbito, este autor expõe que o ambiente relacional no trabalho
colaborativo engloba várias dimensões, designadamente: a confiança entre os
diferentes sujeitos, o empenho mútuo, o empreendimento conjunto e o repertório
partilhado. Para além disso, Hanson e Spross (2009), tendo por base a análise
de Steele, em 1986, consideram que a colaboração entre os profissionais de
saúde encerra algumas caraterísticas, designadamente: confiança e respeito
mútuo, compreensão recíproca, maturidade profissional, reconhecimento da mais-
valia dos parceiros e disposição para negociar. Para estas autoras, a
colaboração em Enfermagem exige que se transformem situações potencialmente
competitivas em oportunidades para trabalhar coletivamente que possam conduzir
a benefícios mútuos.
Referindo-se aos contributos da colaboração, Hargreaves (1998) menciona que
possibilita realçar a satisfação pessoal e profissional, a autonomia, a
reflexão contextualizada, a eficiência e a eficácia acrescidas e o
desenvolvimento profissional contínuo. Neste âmbito, Boavida e Ponte (2002)
expõem que, mediante a aprendizagem e a reflexão conjuntas, criam-se as
condições para enfrentar, com êxito, as incertezas e obstáculos que surgem (p.
3) nas práticas profissionais. Nesta linha de pensamento, Day (2001) refere que
a colaboração diminui o sentimento de impotência dos profissionais e aumenta a
auto-eficácia individual e coletiva.
Apesar dos contributos inerentes à colaboração no contexto profissional,
colocam-se alguns constrangimentos à sua implementação (Hargreaves, 1998).
Boavida e Ponte (2002) mencionam, igualmente, certos obstáculos,
designadamente: a marcada imprevisibilidade, a dificuldade em saber gerir a
diferença, a necessidade de saber gerir os custos e os benefícios e a
tendência para a auto-satisfação confortável e complacente e o
conformismo (pp. 11-12). Estes obstáculos encerram, eventualmente, o que
Hargreaves (1998) denomina de colaboração confortável e complacente,
conformista, artificial e co-optativa (pp. 279-280). Hanson e Spross
(2009), no âmbito da Enfermagem, identificam também valores, crenças e
comportamentos que perpetuam o trabalho individualizado, dificultando o
trabalho colaborativo. Entre as várias dificuldades à implementação da
colaboração, a falta de tempo e o trabalho acrescido encontram-se entre as mais
referenciadas (Heargreaves, 1998; Day, 2001; Hanson & Spross, 2009; Alarcão
& Roldão, 2010). Apesar das diversas dificuldades à operacionalização da
colaboração, a literatura recomenda que mediante o diálogo, a negociação
colegial e a resolução conjunta dos problemas, estas poderão ser minimizadas.
Assim, a colaboração a longo prazo pode ser tanto gratificante como
desafiadora.
Abreu (2007) e Macedo (2012), em conformidade com o referido pelo Conselho de
Enfermagem (2010), reconhecem a importância da supervisão ao longo de todo o
desenvolvimento profissional do enfermeiro. Nesta linha de pensamento, a ação,
a reflexão e a colaboração emergem como alicerces essenciais, pretendendo-se
que o supervisor e o supervisionado reflitam conjuntamente sobre os problemas
da prática, com vista à compreensão partilhada dos fenómenos (Conselho de
Enfermagem, 2010, p. 7). Alarcão e Roldão (2010) advogam que a supervisão em
contexto profissional necessita passar de uma visão vertical para uma
supervisão interpares, colaborativa, horizontal (p. 19). Com isto, as
referidas autoras expõem que a supervisão ganhou uma dimensão colaborativa,
auto-reflexiva e autoformativa , à medida que os profissionais adquiriram
confiança na relevância do seu conhecimento profissional e na capacidade de
fazerem ouvir a sua voz como investigadores da sua própria prática e
construtores do saber específico inerente à sua função social (Alarcão &
Roldão, 2010, p. 15). Neste sentido, despontam como essencial a autosupervisão
e a heterosupervisão colaborativas, que ao serem vividas num clima de
colegialidade democrática possibilitam uma verdadeira (des/re)construção do
conhecimento profissional (Alarcão & Roldão, 2010; Alarcão & Canha,
2013). De acordo com Sullivan e Glanz (2005), é neste contexto que emerge uma
supervisão colaborativa e horizontal apoiada em dois princípios fundamentais,
nomeadamente: a democraticidade e a liderança com visão. Neste âmbito, o
processo supervisivo adquire um caráter dinâmico, onde os diferentes sujeitos
podem permutar os papéis que desempenham e o tempo de manutenção, não existindo
um supervisor permanente. Segundo esta perspetiva, supervisor e supervisionado
assumem uma postura igualitária e democrática, que mediante o feedback
bidirecional, a reflexão e a aprendizagem colegiais e compartilhadas,
impulsionam a (des/re)construção das práticas, com vista à autonomia
profissional. No âmbito da Enfermagem, Silva, Pires, e Vilela (2011) referem
que a supervisão em contexto da prática compreende processos de supervisão
interpares, emaranhando-se com os processos de certificação, qualidade,
segurança dos cuidados e formação em enfermagem (p. 114).
A supervisão colaborativa na prática de cuidados aproxima-se, deste modo, do
processo supervisivo dialógico, igualitário e democrático preconizado por
Sullivan e Glanz (2005). É mediante a indagação reflexiva e colegial das
práticas, numa interação bidirecional, de co-implicação e de interdependência,
que se impulsiona o contínuo desenvolvimento profissional da equipa de
Enfermagem e de toda a instituição de saúde.
Metodologia
O modo como se interpreta a realidade envolvente influencia as opções
metodológicas. Neste sentido, o estudo empírico realizado enquadra-se num
paradigma interpretativo e numa abordagem qualitativa, pois foca-se
essencialmente nos significados que os participantes atribuem às situações
vivenciadas. Nas palavras de Yin (2010) o presente estudo enquadra-se num
projecto de caso único integrado com unidades múltiplas de análise (p. 70),
porque embora se esteja perante um fenómeno com múltiplas unidades de análise,
a colheita de dados, que resulta do estudo empírico, refere-se a um único caso.
Para o desenvolvimento deste artigo, foram utilizadas informações recolhidas
durante a realização de um estudo mais alargado (Pinheiro, 2012), desenvolvido
em contexto hospitalar, no período de setembro a novembro de 2011, no qual se
estudou uma equipa de Enfermagem constituída por 29 enfermeiros de um serviço
de Medicina Interna de um Centro Hospitalar da região Norte de Portugal.
Qualquer investigação realizada com seres humanos pressupõe questões éticas
essenciais. Neste sentido, para além da autorização formal da organização
hospitalar, foi protegida a identidade de todos os participantes, obtido o seu
consentimento informado de modo livre e esclarecido, bem como garantida a
confidencialidade e autenticidade de todas as informações recolhidas.
Numa primeira fase, foram analisados os documentos referentes à formação em
serviço e seis atas das reuniões. Numa fase posterior, foram efetuadas sete
observações de passagens de turno, distribuídas pelos turnos da manhã e da
tarde, e uma observação direta de uma sessão de formação em serviço, inserida
numa reunião. Esporadicamente, ocorreram observações ocasionais ou conversas
informais, consideradas fontes de informação adicional. Durante o período das
observações foi utilizada uma grelha de observação, constituída por dois
comportamentos/discursos observáveis, designadamente: 1) dinâmica do grupo; e
2) práticas colaborativas entre os enfermeiros. Para uma compreensão mais
abrangente do objeto de estudo, para além da análise documental e da observação
direta, recorreu-se, igualmente, à entrevista semiestruturada. Na
impossibilidade de entrevistar todos os elementos do caso, especificamente os
29 participantes, a escolha das unidades de análise baseou-se numa seleção
intencional, que possibilitou a compreensão holística da temática em estudo.
Deste modo, os participantes foram selecionados com base na sua voluntariedade
e de modo a garantir a diversidade nas descrições e interpretações recolhidas.
Para assegurar a variedade das conceções sobre o objeto do estudo, os
enfermeiros entrevistados foram escolhidos atendendo ao tempo de experiência
profissional, ao tempo de serviço, às funções desempenhadas no serviço e à
experiência pessoal em supervisão. Neste seguimento, foram realizadas oito
entrevistas semiestruturadas, durante as quais se utilizou um guião de
entrevista composto por: 1) caraterização dos entrevistados; 2) conceções dos
enfermeiros quanto à formação contínua e ao desenvolvimento profissional; 3)
conceções dos enfermeiros quanto à supervisão; e 4) conceções dos enfermeiros
quanto às práticas colaborativas em contexto profissional.
Após a leitura geral dos documentos consultados, das anotações recolhidas e das
transcrições das entrevistas, que constituíram o corpus de análise,
implementou-se a técnica de análise de conteúdo, de modo a aceder ao
significado da informação recolhida. Foi construído um sistema categorial de
modo progressivo (Vala, 1986), durante o qual se recorreu ao software de
análise qualitativa WebQDA (Web Qualitative Data Analysis). Seguidamente à
análise de conteúdo, as informações recolhidas foram cruzadas, de forma a
construir um sentido global sobre as conceções dos enfermeiros quanto à
supervisão colaborativa e sua relação com o desenvolvimento profissional.
Resultados e Discussão
Tendo por base as conceções dos enfermeiros participantes emergiram várias
dimensões de análise, que se relacionam com as questões de investigação e os
objetivos do estudo, nomeadamente: 1) conceções sobre a colaboração; 2)
conceções sobre a supervisão; 3) fatores propiciadores ao trabalho colaborativo
na prática de cuidados; 4) fatores constrangedores ao trabalho colaborativo na
prática de cuidados; e 5) colaboração e desenvolvimento profissional contínuo
(Pinheiro, 2012).
No que se refere à primeira questão de investigação, os testemunhos dos
participantes revelam que as conceções de colaborar se aproximam de partilhar,
trabalhar em equipa ou ajudar o outro, emergindo no discurso dos enfermeiros um
repertório partilhado em torno de colegas ou equipa, quando se referem aos
outros ou ao grupo.
Na prática de cuidados foram observados momentos colaborativos de eleição,
especificamente as passagens de turno, as reuniões e a formação em serviço,
enquanto espaços promotores de partilha de saberes e experiências, bem como do
debate e reflexão colegiais. Nestes espaços colaborativos, o nível de interação
existente é elevado, o que na opinião de Serrano et al. (2011) apela à
reflexão, à transformação e por consequência a um saber agir com pertinência
(p. 22). Deste modo, estas interações grupais possuem efeitos
desenvolvimentistas fundamentais para a implementação de uma cultura
coformativa. Nesses momentos colaborativos o clima relacional foi,
essencialmente, positivo e de abertura ao outro, potenciando a (des/
re)construção permanente das práticas. Este clima relacional se aproxima de um
ambiente relacional positivo, interativo, suscetível de criar uma dinâmica
espiralada de aprendizagem e de desenvolvimento (Alarcão & Canha, 2013,
p. 30). Todavia, averiguou-se que esses momentos colaborativos vocacionam-se,
fundamentalmente, para a resolução de problemas emergenciais, pelo que tendem a
escassear as ocasiões de diálogo crítico-reflexivo ou de confronto de ideias.
Assim, estas práticas de colaboração remetem para os conceitos de colegialidade
artificial e congenialidade (Hargreaves, 1998), tornando-se limitativas e
perdendo o caráter dialógico e reflexivo, fundamental ao crescimento
profissional contínuo. Para além disto, ao se restringirem à equipa de
Enfermagem, remetem para a conceção de cultura balcanizada preconizada por
Hargreaves (1998), pois os enfermeiros tendem a fechar-se a contributos
externos ao grupo. Neste seguimento, seria fundamental que os momentos
colaborativos se tornassem espaços de reflexão interdisciplinar, de modo a dar-
se a transição para a colegialidade e a colaboração interpessoal (Day, 2001).
Assim, este trabalho colaborativo tende a afastar-se do processo de trabalho
articulado e pensado em conjunto, que permite alcançar melhor os resultados
visados (Roldão, 2007, p. 27). No entanto, ao ser vivenciado de modo
espontâneo e informal na prática de cuidados, proporciona oportunidades
naturais de aprendizagem ao longo da vida, potencialmente desenvolvimentistas.
Das conclusões extraídas referentes à primeira questão do estudo ressalta,
ainda, a problemática da supervisão das práticas de cuidados. Apesar de a
supervisão merecer um interesse cada vez mais efetivo por parte das
organizações de saúde (Abreu, 2007) continua a transparecer como prática
distanciada dos contextos profissionais. Considera-se que para tal contribui
não só as conceções dos participantes sobre supervisionar, que se aproximam de
inspecionar ou controlar, o que remete para uma visão verticalizada do processo
supervisivo, como a ausência da figura do supervisor em contexto da prática de
cuidados. No entanto, alguns enfermeiros reconhecem a orientação no processo
supervisivo e associam o supervisor clínico à enfermeira-chefe e aos pares.
Para que o processo de supervisão promova a reflexão, a investigação e a
experimentação sobre a prática de cuidados, torna-se necessário que se utilize
uma diversidade de estratégias supervisivas adaptáveis à finalidade pretendida.
Neste contexto, os enfermeiros salientam a formulação de questões, a
observação, a reflexão, o feedback e a adequação ao nível de desenvolvimento do
supervisionado, que possibilitam equacionar modos alternativos de agir,
orientar as práticas e garantir a interação coconstrutiva, que respeite a
singularidade de cada indivíduo no processo supervisivo.
Quando inquiridos sobre um bom supervisor, os participantes referiram que não
é só observar, é também questionar. (...) Porque se assim não for, nós nunca
vamos ( ) aperceber da nossa falta de informação (enfermeiro A). Assim, o bom
supervisor deverá ser aquele que tenha vontade, dinâmica (enfermeiro E) e que
promove a autonomia (enfermeiro G). Neste contexto, um dos enfermeiros refere
que um bom supervisor é um referencial. Porque os enfermeiros trabalham muito
de acordo com os seus conhecimentos (...) e falta este referencial à
Enfermagem (enfermeiro E). Todavia, uma das características mais
referen-ciadas refere-se às competências relacionais. Neste sentido, os
participantes mencionam que um bom supervisor é um parceiro (enfermeiro E),
ou seja, deverá ter atributos em termos de relação interpessoal (enfermeiro
D). Deste modo, observa-se um paralelismo entre a imagem que os entrevistados
possuem de um bom enfermeiro supervisor e as características destacadas por
Alarcão e Canha (2013). O que se aproxima de uma visão democrática,
colaborativa, transformadora e desenvolvimentista da supervisão (Sullivan &
Glanz, 2005; Alarcão & Roldão, 2010; Macedo, 2012; Alarcão & Canha,
2013).
Ao longo do percurso investigativo verificou-se que um elevado número de
participantes possuem formação em supervisão. No entanto, constatou-se que a
formação em supervisão adquiriu caráter de obrigatoriedade para a formação de
enfermeiros tutores no âmbito dos ensinos clínicos, pelo que os enfermeiros
participantes tendem a atribuir-lhe um valor secundário.
No que se refere ao impacto da supervisão emergem apenas contributos positivos,
nomeadamente: gestão de sentimentos, qualidade dos cuidados e desenvolvimento
contínuo do supervisor e do supervisionado. Deste modo, a supervisão adquire
uma dimensão coformativa e desenvolvimentista (Alarcão & Roldão, 2010;
Macedo, 2012).
Os enfermeiros parecem percecionar a supervisão colaborativa como um ... ideal
a ser atingido (enfermeiro D). Esta perspetiva pode dever-se, não só às
dificuldades em construírem uma verdadeira cultura colaborativa, como também à
desvalorização da informalidade e da espontaneidade do trabalho colaborativo na
prática de cuidados. Contudo, alguns participantes consideram que a supervisão
colaborativa é viável e que, quanto aos papéis a assumir, poderiam ser
supervisores ou supervisionados. Neste contexto, é de salientar que alguns
enfermeiros consideram possível, dependendo do momento e da problemática em
reflexão, a rotatividade de papéis entre supervisor e supervisionado, o que
constitui uma das condições essenciais à implementação da supervisão
colaborativa na prática de cuidados.
Relativamente à segunda questão de investigação, os discursos dos enfermeiros
evocam alguns fatores pessoais, interpessoais, organizacionais e de contexto
que podem influenciar a implementação de uma verdadeira colaboração entre os
enfermeiros. Neste âmbito, emergiram como fatores propiciadores à colaboração:
1) abertura ao outro; 2) confiança mútua; 3) comunicação grupal eficaz; 4)
negociação; 5) feedback coconstrutivo; 6) empenho mútuo; e 7) liderança
democrática. Alguns destes fatores são referenciados por diversos autores, como
condições essenciais ao trabalho colaborativo, nomeadamente: a confiança nas
pessoas e processos ou a existência de um empreendimento conjunto entre os
profissionais (Hargreaves, 1998); a comunicação eficaz que emerge num clima
relacional positivo e interativo (Alarcão & Canha, 2013, p. 30); a
negociação (Hanson & Spross, 2009); ou o apoio e encorajamento efetivos de
todo o contexto organizacional.
Todavia, como menciona Hargreaves (1998), a colaboração pode encerrar grandes
perigos (p. 279). Neste contexto, como fatores constrangedores à colaboração,
os enfermeiros salientam: 1) cultura do individualismo; 2) características
pessoais limitativas; 3) comunicação grupal ineficaz; 4) avaliação dos pares;
5) marcada imprevisibilidade; 6) hierarquização das relações; 7) colegialidade
artificial; 8) limitado tempo disponível; 9) instabilidade profissional; e 10)
marasmo profissional. Alguns destes fatores constrangedores ao trabalho
colaborativo são evidenciados em vários estudos, designadamente: o isolamento
que conduz a pouco feedback (Hargreaves, 1998); as situações potencialmente
competitivas, que necessitam ser convertidas em momentos colaborativos (Hanson
& Spross, 2009); as relações assimétricas, que potenciam ambientes onde uns
elementos dão muito e recebem pouco, o que dificulta a implementação de espaços
colaborativos (Boavida & Ponte, 2002); a colegialidade artificial
(Hargreaves, 1998); a tendência para a auto-satisfação confortável e
complacente e o conformismo (Boavida & Ponte, 2002); o reduzido tempo
disponível e a sobrecarga de trabalho (Heargreaves, 1998; Day, 2001; Hanson
& Spross, 2009; Alarcão & Roldão, 2010). A este propósito, Boavida e
Ponte (2002) referem que, por vezes, as equipas são compostas por diferentes
elementos que possuem objectivos próprios, prioridades diferentes e
entendimentos distintos e, por vezes, contraditórios acerca de muitas coisas
(p. 11). Neste sentido, é muito provável que o processo colaborativo possa
culminar em atritos, conflitos ou tensões interpessoais. Porém, evitar
confrontos com o outro pode ser contraproducente, pois como expõe Vieira
(2010), a diversidade é factor de fragmentação e de coesão no seio das
comunidades (p. 289).
Relativamente à última questão de investigação, verificou-se que o denominado
Modelo de Desenvolvimento Profissional (Conselho de Enfermagem, 2010)
transparece ainda como uma realidade distante do contexto profissional e que os
enfermeiros tendem a não possuir uma conceção construída sobre este modelo.
Quanto às conceções de formação contínua, estas aproximam-se da atualização
contínua, de abertura dos horizontes pessoais e resposta às necessidades
individuais. Estas conceções de formação contínua assemelham-se ao repertório
linguístico mencionado por diversos autores (Benner, 2001; Day, 2001; Alarcão
& Roldão, 2010; Rocha & Sá-Chaves, 2012), enquanto processo de
aprendizagem ao longo da vida. Apesar dos participantes considerarem que, por
vezes, a formação contínua não se adequa às suas reais necessidades, continuam
a formar-se enquanto processo de permanente inacabamento.
Neste processo de aprendizagem ao longo da vida, os participantes salientam
aspetos que congregam-se num processo tripolar, que engloba processos
autoformação, ecoformação e heteroformação (Pineau, 2002). Na relação consigo
próprio, os enfermeiros consideram que as características pessoais, as
vivências significativas, o percurso profissional efetuado e a reflexão sobre
as práticas, contribuem para que a pessoa se desenvolva permanentemente. Na
autoformação, Rocha e Sá-Chaves (2012) evidenciam os princípios da auto-
implicação e da aprendizagem ao longo da vida e a profissionalidade crítico-
reflexiva, enquanto motores que impulsionam a inovação contínua. Nesta relação
consigo próprio, os interdiscursos declaram, ainda, que o desempenho de certos
cargos específicos ou o contacto com determinados colegas mais curiosos
constituem desafios pessoais, que produzem efeitos positivos do ponto de vista
desenvolvimentista.
Na relação com o meio, os enfermeiros expõem que um ambiente em constante
mutação oferece uma panóplia de experiências que fomentam a formação
experiencial continuada. Este conhecimento tácito resulta da experimentação na
prática de cuidados, no sentido da resolução dos problemas in loco,
perspetivando uma ação futura com maior performance (Benner, 2001; Abreu, 2007;
Serrano et al., 2011).
Neste processo tripolar, há ainda a considerar a heteroformação, na qual os
enfermeiros citam que a abertura ao outro permite a descoberta de novos saberes
e modos alternativos de cuidar. Nesta relação com os outros, desponta,
igualmente, a partilha de saberes e experiências, que permite transcender as
dúvidas pessoais e a reflexão, e debate colegiais, que facilitam uma ação
futura mais refletida, contextualizada e problematizada sobre as práticas.
Deste modo, é realçada a mais-valia do efeito multiplicador do diverso no
processo formativo (Rocha & Sá-Chaves, 2012) e evidenciada a importância da
reflexão coletiva, que proporciona a abertura dos horizontes individuais
limitativos (Hargreaves, 1998; Day, 2001).
No processo de desenvolvimento profissional, foram também congregadas as
potencialidades da colaboração. Neste contexto, os enfermeiros evidenciam: 1) o
reforço do espírito de equipa, uma vez que favorece uma visão compartilhada dos
problemas e estimula o envolvimento da equipa; 2) a expansão dos conhecimentos,
pois o encontro com o outro permite o alargamento dos horizontes pessoais
limitativos; 3) a reformulação das práticas, porque o trabalho colaborativo
facilita a abertura às contribuições e críticas do outro, fundamentais à (des/
re)construção permanente das práticas; e 4) a melhoria dos cuidados prestados,
na medida em que a renovação do conhecimento profissional conduz à melhoria da
prática de cuidados. Vários estudos revelaram resultados semelhantes, pois
concluíram que os ambientes colaborativos consistem em espaços partilhados de
construção de conhecimento (Hargreaves, 1998; Day, 2001; Alarcão & Roldão,
2010; Alarcão & Canha, 2013). A partilha com o outro parece promover a
segurança dos cuidados e a tomada de decisão mais situada, facilitando a
reformulação constante das práticas profissionais. Assim, e de acordo com
Alarcão e Canha (2013), a ... supervisão integradora de princípios
colaborativos (p. 63) promove o desenvolvimento profissional de toda a
organização.
Conclusão
Concluiu-se que as conceções de colaboração aproximam-se de partilhar,
trabalhar em equipa ou ajudar o outro, emergindo momentos colaborativos
privilegiados, especificamente as passagens de turno, as reuniões e a formação
em serviço.
Relativamente à supervisão em contexto da prática, os enfermeiros mencionam que
é inexistente o papel do enfermeiro supervisor e tendem a possuir uma visão
verticalizada do processo supervisivo. Quanto ao impacto da supervisão, emergem
apenas contributos positivos, designadamente a gestão de sentimentos, a
qualidade dos cuidados e o desenvolvimento contínuo do supervisor e do
supervisionado. No entanto, a supervisão colaborativa continua a ser
percecionada como um ideal, dada a dificuldade em se estabelecer uma verdadeira
cultura de colaboração.
Assim, a colaboração e a supervisão constituem práticas intimamente
relacionadas com o desenvol-vimento profissional em Enfermagem. Apesar de
tenderem a emergir de modo espontâneo e informal na prática de cuidados, o que
poderá comprometer o seu caráter formativo e desenvolvimentista, considera-se
que fomentam processos de auto e heteroformação, com vista ao desenvolvimento
profissional mútuo e contínuo.
Dos interdiscursos emergiram um conjunto de fatores propiciadores e
constrangedores ao trabalho colaborativo, importante a ter em consideração na
promoção de culturas colaborativas.
Na problemática do desenvolvimento profissional despontam as potencialidades da
colaboração, nomeadamente o reforço do espírito de equipa, a expansão dos
conhecimentos, a reformulação das práticas e a melhoria dos cuidados prestados.
No processo de desenvolvimento profissional verifica-se que se entrecruzam três
dimensões, designadamente a pessoa, o meio e os outros. Para além disso, emerge
a questão da formação contínua, enquanto processo de permanente inacabamento.
Este estudo contribuiu para aprofundar os conhe-cimentos relativos às
conceções dos enfermeiros sobre a supervisão colaborativa e a sua relação com o
desenvolvimento profissional. Algumas implicações para a prática, como para
futuras investigações, surgem realçadas: 1) o atual sistema de avaliação de
desempenho valoriza essencialmente o mérito individual, o que poderá potenciar
a competitividade entre os enfermeiros, comprometendo o trabalho colaborativo;
2) a questão da formação disponibilizada pelos centros de formação, que ao não
atenderem às reais necessidades dos enfermeiros, negligenciam um exercício
profissional de qualidade; e 3) a falta de comunicação existente dentro das
organizações de saúde. Em analogia com as palavras de Alarcão e Roldão (2010),
verifica-se que cada equipa de Enfer-magem constitui uma ilha, pelo que se
considera essencial que se estabeleçam mais pontes de comunicação entre os
diferentes profissionais, potenciadoras de contextos mais colaborativos e
pedagógicos.
Perante a instabilidade profissional atual e as contingências economicistas no
setor da saúde, o contexto contemporâneo é especialmente constrangedor, pelo
que são necessários esforços conjugados para que a supervisão colaborativa
possa constituir uma realidade na prática de cuidados. Neste âmbito, para além
do apoio efetivo da organização de saúde, torna-se fundamental a emergência de
enfermeiros supervisores, que constituam líderes de equipas em aprendizagem e
de organizações qualificantes. Finalmente, sugere-se o desenvolvimento de
projetos colaborativos na prática de cuidados, que congreguem as perspetivas e
os objetivos de diferentes enfermeiros, com vista ao desenvolvimento
profissional coletivo. Também de interesse é a concretização de estudos nas
comunidades de enfermeiros existentes em ambientes virtuais, tendo em vista
analisar o seu contributo para o desenvolvimento profissional em Enfermagem, e
de estudos relacionados com práticas reconhecidas pelo trabalho colaborativo,
de modo a compreender como se afigura a coformação em contextos coletivos.