Adaptação à parentalidade: o nascimento do primeiro filho
Introdução
O nascimento de um filho, em especial do primogénito, é um acontecimento que
altera, transforma e reestrutura definitivamente a vida dos progenitores. Neste
sentido, o internamento pós- -parto é um período intenso nesta adaptação
parental aos novos papéis.
O internamento pós-parto eutócico sem fatores de risco é habitualmente curto,
muitas vezes não ultrapassando as 48 horas e o objectivo dos cuidados de
Enfermagem no pós-parto imediato é ajudar a mulher e a sua família no período
inicial da parentalidade (Lowdermilk & Perry, 2008, p. 491).
Assim, definiu-se como objeto de estudo a vivência da parentalidade, no
internamento, após o nascimento do primeiro filho saudável, nas primeiras 48
horas pós-parto eutócico.
Frei e Mander (2011), através da revisão da literatura mais recente acerca dos
cuidados pós-natais afirmam que é urgente conduzir mais estudos que demonstrem
as experiências, as expetativas e as perceções decorrentes do impacto da
prestação de cuidados de saúde durante o período pós-natal.
Na tentativa de compreender de que forma é vivenciado este período de tempo de
transição para a parentalidade, pretende-se contribuir para ampliar o
conhecimento, adquirir competências nesta área e produzir ganhos em saúde,
adequando e otimizando os cuidados prestados.
Este estudo enquadra-se no paradigma qualitativo, fornecendo o entendimento e a
interpretação de um fenómeno dentro de um determinado contexto.
A colheita de dados foi realizada através do recurso à entrevista
semiestruturada. Esta foi aplicada a casais denominados de informantes
privilegiados, após o contacto prévio com os mesmos, ainda em ambiente
hospitalar.
Para a análise dos dados optou-se pela análise de conteúdo, agrupando as
unidades de registo segundo categorias, efetuando operações de desmembramento
do texto em unidades, segundo reagrupamentos analógicos (Bardin, 2009).
Enquadramento
A teoria orientadora da conceção deste trabalho é a Teoria das Transições,
proposta por Meleis, como um modelo profissional que traduz o modelo exposto
para o modelo em uso, centrada no conceito de Transição, que segundo a autora
denotes a change in health status, or in role relationships, expectations, or
abilities. It denotes change in needs of all human systems. Transition requires
the person to incorporate new knowledge, to alter behaviour, and therefore to
change the definition of self in social context (Meleis, 2007, p. 470).
Este modelo encara a prestação de cuidados de saúde num âmbito
multidisciplinar, isto é, a Enfermagem, para além de profissão, é também uma
disciplina do saber, cujo foco da atenção se relaciona com o estudo da resposta
humana face às transições de vida, que correspondem a períodos de maior
vulnerabilidade e de risco para a saúde. Por outro lado, a forma como cada
pessoa vivencia a transição, as suas representações e significados acerca dos
fatores inerentes à mudança subjacente sofrem grandes influências do contexto
em que se insere, porque nursing does not deal with the transition of an
individual, a family, or a community in isolation from an environment. How
human beings cope with transition and how the environment affects that coping
are fundamental questions for nursing ( ) (Meleis, 2007, p. 471).
Neste referencial teórico, a atenção deve estar assente nas representações que
a própria pessoa tem de determinada transição, isto é, é necessário que sejamos
capazes de descodificar os significados que a pessoa atribui à transição que
necessita de viver. Entende-se, assim, que este modelo teórico vem enfatizar a
importância dos cuidados de Enfermagem nas mudanças condicionadas por
Transições de Vida, tal como sucede na aquisição de competências associadas ao
desempenho do papel parental.
A parentalidade (do latim parentâle) é um processo maturativo que leva a uma
reestruturação psicoafectiva permitindo a dois adultos tornarem-se pais, isto é
serem capazes de responder às necessidades físicas, afectivas e psíquicas do(s)
seu(s) filho(s) (Leal, 2005, p. 322).
A parentalidade poderá, também, ser entendida como um modelo cultural, fruto
dos modelos familiares que, por sua vez, se transforma em prol das exigências
sociais, económicas, políticas e religiosas, com impacto no decorrer da
gravidez, nascimento e pós-parto.
Segundo Lowdermilk e Perry (2008), à medida que a figura materna se adapta ao
seu papel parental, podem ser observadas três fases caracterizadas por
comportamentos dependentes, seguindo-se de dependentes-independentes e
posteriormente comportamentos interdependentes. Durante as primeiras 24 a 48
horas após o parto, predominam as necessidades de dependência, isto porque,
mulheres adultas e aparentemente saudáveis parecem suspender a sua
participação nas actividades e responsabilidades diárias, contando com os
outros para satisfazer as suas necessidades (Lowdermilk & Perry, 2008, p.
530). Na perspetiva destas autoras, nesta fase, o verbalizar e aceitar as
experiências de gravidez e nascimento ajuda os pais a passarem à fase seguinte,
acrescentando ainda que se a mãe teve o apoio e os cuidados necessários nas
primeiras horas ou dias, pelo segundo ou terceiro dia deseja tornar-se
independente nas suas acções (Lowdermilk & Perry, 2008, p. 531).
A Organização Mundial de Saúde (1998), estabeleceu que os cuidados pós-natais
têm que ser centrados nas famílias, individualizados, multidisciplinares,
holísticos e culturalmente contextualizados. Tendo em conta que o período pós-
parto é particularmente significativo para a mãe, pai e bebé, e reconhecido
como necessário à adaptação física e psicológica da mulher, é premente estar
atento à tendência que ao longo dos anos tem vindo a ser a precocidade da alta
hospitalar após o parto, resultando numa quantidade mínima temporal para
prestar cuidados especializados.
A revisão da literatura demonstrou que os cuidados puerperais são,
habitualmente, perspetivados pelas figuras parentais como de qualidade inferior
comparativamente com aqueles que são recebidos no período pré-natal e no parto.
Assim, segundo diferentes perspetivas, alguns autores sentiram que esta era uma
situação emergente que instigava a investigação, de forma a perceber o impacto
sobre a vida diária da mulher e dos seus relacionamentos com a família e
amigos, bem como sobre as suas habilidades parentais, o que permite inferir que
é fulcral uma intervenção atenta do enfermeiro no sentido de compreender esta
transição.
A literatura existente demonstra que a equipa de Enfermagem tem tendência para
atender às prioridades institucionais ao invés de satisfazer as prioridades das
mulheres. Por vezes, as mudanças são difíceis de instalar e a habilidade de ser
capaz de ouvir as mulheres de uma forma sensível precisa de ser melhor
investigada, no contexto hospitalar pós-natal (Schmied, Cooke, Gutwein,
Steinlein, & Homer, 2009).
Embora os enfermeiros concordem que a qualidade dos cuidados pós-natais deva
ser baseada, essencialmente, na construção de relações de confiança, nas quais
a flexibilidade e as necessidades percebidas pelas mulheres sejam prioritárias,
os profissionais acreditam que a maior barreira para providenciar cuidados pós-
natais da forma como desejam é o trabalho burocrático associado às admissões e
altas. Para além disso, o tempo de espera pelos médicos para providenciarem as
altas e o facto de não serem tidas em conta as avaliações de Enfermagem, no que
concerne ao nível da preparação para o regresso ao domicílio, é também motivo
de insatisfação profissional (Schmied, Cooke, Gutwein, Steinlein, & Homer,
2008).
O atendimento individualizado e estratégias que aumentem a possibilidade de
descanso das utentes têm impacto positivo na perceção da qualidade dos cuidados
recebidos. Contudo, as rotinas estabelecidas e as prioridades institucionais
mantêm-se difíceis de mudar (Schmied et al., 2009).
Por outro lado, as mulheres mencionam falta de auto-confiança, embora a
qualidade da relação com os enfermeiros pareça ajudá-las a sentirem controlo da
sua própria situação aquando da alta hospitalar, contudo, o mais importante é o
suporte familiar (Frei & Mander, 2011).
Receber cuidados de saúde especializados é considerada uma fonte de segurança,
mas participar nas decisões relativas ao recém-nascido e sentirem-se unidos
como família são fatores determinantes (Oommen, Rantanen, Kaunonen, Tarkka,
& Salonen, 2011). Contudo, the close emotional attachment between the
parents was not always supported by staff. The father was treated as an
outsider and the care was described as a woman's world'. The asymmetric
encounter between parents and staff was pronounced with respect to decision-
making, and some designated this as paternalism' (Ellberg, Hogberg, &
Lindh, 2010, p. 465).
Relativamente ao contexto português, foram encontrados dois estudos que abordam
as necessidades dos pais no âmbito dos cuidados de Enfermagem durante a
hospitalização no pós-parto, um dos quais num paradigma de investigação
fenomenológico, subordinado à compreensão do processo de construção do
ajustamento materno e paterno no período pós-parto, a partir da perspetiva das
experiências vivenciadas por ambos os pais (Mendes, 2007). Já Soares (2008),
por sua vez, visou obter uma compreensão acerca das vivências daqueles que eram
pais pela primeira vez, durante a adaptação para a parentalidade, delimitando
qual o contributo específico proporcionado pelo enfermeiro durante este
processo, ainda que, sem dar especial ênfase à fase de internamento pós-parto,
se refira a este período como sendo de importância indubitável na satisfação
com o papel parental e com a promoção do sentimento de auto-eficácia,
determinantes no processo de parentalidade.
Mendes (2007) concluiu que a relação de ajuda na prestação de cuidados à mãe e
ao bebé é um fator positivo para o ajustamento materno pós-parto, mas que a
rapidez na demonstração dos cuidados prestados ao bebé, o défice de orientações
para o autocuidado e a falta de disponibilidade dos profissionais de saúde são
considerados como constituintes chave da estrutura essencial das experiências
negativas. O ajustamento paterno no pós-parto, no que se refere aos
profissionais de saúde, apenas apresentava aspetos negativos: rapidez na
demonstração dos cuidados prestados ao bebé, informações divergentes sobre o
cuidar do bebé e orientações pouco esclarecedoras no momento da alta.
Concluindo, foi possível compreender através da análise do estado da arte que,
de um modo geral, as figuras parentais apresentam menor satisfação com os
cuidados recebidos no período pós-natal comparativamente aos restantes cuidados
de que foram alvo nas maternidades. Para além disso, apesar de ambas as partes
envolvidas (pais e enfermeiros) terem a perceção de que a qualidade destes
serviços de saúde materno-obstétricos não ser a desejável, as mudanças a nível
institucional são difíceis de implementar nas rotinas pré-estabelecidas.
Acrescenta-se, ainda, que, independentemente do género e dos contextos
sociodemográficos, os pais querem ser tratados numa base individual, de acordo
com as suas necessidades. Para tal, é necessário flexibilizar a aliança
enfermagem-pais, para satisfação de ambos.
Tendo em conta as considerações supracitadas, foi delimitada a seguinte questão
orientadora do estudo: como é vivenciado o processo de transição parental, no
internamento, após o nascimento do primeiro filho saudável, nas primeiras 48
horas pós-parto eutócico? Neste sentido, pretende-se contribuir para ampliar o
conhecimento, adquirir competências nesta área e produzir ganhos em saúde,
adequando e optimizando os cuidados prestados.
Metodologia
O paradigma subjacente à investigação que sustenta este trabalho classifica-se,
quanto à abordagem, como qualitativo. A sua natureza qualitativa provém não só
do tipo de técnica de recolha de dados mas também e essencialmente, dos
objetivos que o regem, os quais se direcionam para a compreensão e
interpretação das significações atribuídas pelos participantes.
Os participantes desta investigação, denominados de informantes privilegiados,
foram pais e mães que receberam cuidados de Enfermagem durante o internamento
pós-parto eutócico no serviço de obstetrícia num hospital central do Porto,
após o nascimento do primeiro filho, sem problemas de saúde nem fatores de
risco associados quer à mãe, quer ao recém-nascido.
Aquando da alta hospitalar, foi pedida a esses pais a concessão da entrevista,
no domicílio dos mesmos, até aos primeiros quinze dias de vida do recém-
nascido. Durante este pedido foram considerados os princípios éticos legais,
nomeadamente, comunicados os objetivos e finalidade do estudo, bem como a
garantia do anonimato, do consentimento informado, esclarecido e livre, da
confidencialidade e proteção dos dados, em todas as fases do estudo,
assegurando todos os pressupostos exigidos pelo departamento de ensino,
formação e investigação do hospital, cuja Comissão de Ética avaliou e aprovou o
projeto, com o número de referência 027/11(015-DEFI/027-CES).
Realizaram-se treze entrevistas, com vinte e seis participantes, isto é, cada
uma das entrevistas foi efetuada a duas pessoas: às puérperas e aos respetivos
companheiros, pais do recém-nascido, o que perfaz um total de 26 participantes.
Cada uma das entrevistas teve, aproximadamente, a duração de duas horas e foram
validadas pelos informantes após visualizarem a transcrição das mesmas.
Nesta investigação, o instrumento de recolha de dados mais adequado, face ao
objeto de estudo, foi a entrevista semiestruturada, pois, embora houvesse uma
lista de temáticas a abordar, as questões contemplaram respostas livres, sem
escolhas predeterminadas. Assim, depreendeu-se que o casal se exprimiu pelas
suas próprias palavras, utilizando as expressões que desejou, segundo a
ordenação que mais lhe conveio.
Foram realizadas duas entrevistas exploratórias com o intuito de verificar se
as perguntas inscritas na entrevista eram capazes de responder às inquietações
subjacentes à realização do trabalho de investigação.
Concomitantemente ao processo de recolha de dados, existiu a confrontação com a
necessidade de explanar o seu processo de análise. A opção incidiu sobre a
análise de conteúdo, que envolveu a organização, a síntese e a transformação
dos dados em unidades manipuláveis, resultantes da procura de padrões, cujo
principal objetivo foi fornecer, por condensação, uma representação
simplificada dos dados em bruto (Bardin, 2009, p.147).
Durante este processo de codificação, as transcrições das entrevistas foram
numeradas, usando a seguinte simbologia ' E, seguido do número de identificação
da entrevista, E1; E2, E3
Este estudo foi realizado de setembro de 2010 a abril de 2012.
Resultados e Discussão
Da análise das informações recolhidas acerca da vivência da parentalidade nas
primeiras 48 horas pós-parto emergiram categorias maternas e paternas. Destas
categorias obtiveram-se subcategorias resultantes da forma como cada uma das
figuras parentais, por género, descreveu o processo que vivenciou e quais os
significados que elas próprias atribuíram a esta experiência de vida.
Importa compreender precocemente o sentido que os progenitores atribuem a esta
transição e a Teoria das Transições proposta por Meleis sugere que se recorra
aos padrões de resposta, através dos quais é possível avaliar a forma como é
encarado o momento crítico.
Características do processo de transição maternal
À medida que a mulher se adapta ao seu papel materno podem ser observadas três
fases evidentes, representadas por: comportamentos dependentes, comportamentos
dependentes-independentes e comportamentos interdependentes (Lowdermilk &
Perry, 2008).
A análise dos depoimentos permitiu que da categoria Caraterísticas do processo
de transição maternal emergissem as seguintes subcategorias: fatigante e
ambivalente.
Fatigante
A gravidez, parto e puerpério compõem uma das fases críticas de transição do
ciclo de vida humano e representam verdadeiros períodos de desenvolvimento da
personalidade e crescimento emocional (Torre, 2001). Mas, para além disso,
parece ser consensual que a fadiga acompanha os primeiros tempos de adaptação
às exigências deste novo estatuto que é a maternidade.
As mulheres entrevistadas referiram sentir que a fadiga, entendida como cansaço
físico, foi atributo dos dias em que estiveram internadas.
Torre (2001), denomina o intervalo de tempo, entre o primeiro e o segundo dia,
como um período de introspeção ou fase de adaptação, caracterizando a mulher
como passiva, dependente e muito necessitada de proteção e apoio. Para este
autor, é durante estes dias que a mulher, mais frequentemente, revê a sua
experiência do trabalho de parto e parto. Acrescenta ainda que o sono
ininterrupto é importante neste espaço de tempo, uma vez que muitas puérperas
apresentam efeitos de privação do sono, fadiga, irritabilidade, tal como
referem nos seguintes testemunhos: ( ) fisicamente é extenuante ( ) (E1);
( ) parecia que havia momentos que estava noutro planeta, talvez fosse do
cansaço ( ) (E2); ( ) tem-se cansaço físico pela falta de horas de descanso
( ) (E6); ( ) não é fácil ser-se mãe pela primeira vez, os dias iniciais são
muito trabalhosos, com muito cansaço à mistura, é preciso ter muita paciência
( ) (E7); ( ) nós também precisamos de descanso ( ) (E9); ( ) não sei se
foi por estar a dormir pouco que me sentia tão fatigada ( ) (E11); ( ) depois
de ter o bebé há uma série de dificuldades que temos que ultrapassar pela
primeira vez e muitas vezes sem dormir quase nada, é muito cansativo. (E12).
As primeiras 24 a 48 horas após o nascimento são caracterizadas por
necessidades de dependência, satisfeitas por outros. Durante 24 horas após o
parto, mulheres adultas e aparentemente saudáveis parecem suspender a sua
participação nas actividades e responsabilidades diárias, contando com os
outros para satisfazer as suas necessidades de conforto, repouso, alimentação e
de proximidade com as famílias e com o recém-nascido (Lowdermilk & Perry,
2008, p. 530).
Para Santiago (2009), esta primeira etapa, que tem lugar durante o internamento
pós-parto e se denomina de incorporação, sucede entre o primeiro e o segundo
dia após o nascimento. Este autor caracteriza-a por uma maior dependência
física da mãe, que necessita do apoio dos profissionais de saúde no que
concerne à satisfação das suas próprias necessidades, o que é concordante com
as perspetivas de Lowdermilk & Perry (2008), Torre (2001).
Portanto, pela análise do conteúdo exposto é possível entender-se que as
necessidades físicas, carência alimentar e o bem-estar da nova mãe, terão de
ser entendidas pela equipa de saúde e depois, sim, a nova mãe será capaz de
atender às necessidades do recém-nascido (Torre, 2001, p. 24).
Ambivalente
A forma como a mulher se sente em relação a si própria e ao seu corpo durante o
puerpério pode afetar o seu comportamento e adaptação ao processo de
maternidade. É ainda neste período que todo o processo de identificação com o
bebé real e de separação psicológica do bebé imaginário deve ocorrer
paralelamente, para além do ajustamento psicológico da autoimagem e da
construção das novas relações familiares. Estas súbitas alterações podem
provocar um estado de confusão, letargia, ansiedade que, sendo frequentemente
auto limitadas, podem noutras situações evoluir desfavoravelmente (Alves,
2008).
Várias mulheres foram perentórias ao afirmarem que a vivência destes dois
primeiros dias pós-parto foi ambivalente, isto é, se por um lado os sentimentos
de alegria e felicidade eram bem patentes, por outro e inexplicavelmente,
surgiam sentimentos antagónicos, como por exemplo, o choro, a sensibilidade
emocional e a estranheza, tal como é possível conferir: ( )naqueles primeiros
dias, eu estava feliz, mas às vezes só queria chorar ( ) estava muito sensível,
esquisita, diferente ( ) (E2); ( ) os filhos não vêm com livros de instruções
e uma pessoa tem que se adaptar, porque é tudo novo, ainda é tudo estranho, tem
um lado muito bom e outro, digamos que, menos bom ( ) (E3); ( ) eu sentia-me
bem e sabia que estava tudo a correr bem connosco, mas por outro lado estava um
bocadinho mais sensível, qualquer coisita, às vezes, chorava logo e sem motivo
nenhum. (E5); ( ) senti-me um bocadinho nas nuvens, mas apesar dessa
felicidade, às vezes, dava-me para ficar triste sem saber o porquê e depois
parecia regressar à consciência. Era uma moeda de dupla face. É mais um estado
de alma do que físico, é um estado de alma ( ) nem sei bem, é tudo estranho.
(E6); ( ) precisava de um bocadinho de atenção, nem sei muito bem para quê,
mas precisava ( ) sentia-me muito diferente, esquisita, nem sei explicar bem o
que era, mas estava bem. (E11).
O nascimento do primeiro filho é, portanto, um acontecimento que exige recurso
a ajudas externas, nas quais se incluem os profissionais da saúde. Torna-se
essencial que os enfermeiros estejam despertos para esta fase da transição
maternal e que saibam que analisar e aceitar as experiências vividas permite
aos pais passarem para a fase seguinte (Torre, 2001). Por outras palavras, a
fase dependente é uma altura de grande entusiasmo, durante a qual os pais
necessitam de verbalizar a sua experiência de gravidez e nascimento
(Lowdermilk & Perry, 2008, p. 530). Para além disso, nesta fase a
ansiedade e preocupação com o novo papel limita muitas vezes a mãe à retenção
de informação (Torre, 2001, p. 24).
Esta etapa é considerada uma adaptação à realidade do nascimento do filho, isto
é, existe uma ambiguidade no que concerne à perceção real que o bebé nasceu e à
consciencialização desse fato. Embora saibam que o filho já nasceu, ainda se
encontram a integrar essa mesma informação, tal como se verifica nestes
excertos: ( ) sentia, do género, que não existia mais ninguém no mundo sem ser
eu e o meu filho, eu acho que quando cheguei, estive imenso tempo só a olhar
para ele ali muito concentrada ( ) naquelas primeiras horas a pessoa fica tipo
noutro mundo, noutra realidade, meia aluada, no ar até assentar, até dizer ok,
eu já tive o meu filho agora é preciso fazer isto, fazer aquilo e é um mundo de
sensações novas ( ) (E9); Não percebi logo que ele tinha nascido, demorei
algumas horas a perceber que o bebé já não estava dentro de mim, parecia estar
meio atordoada, tipo: ele já nasceu, é mesmo realidade, já não o tenho na
barriga. É um bocado esquisito ao início. (E10).
A puérpera primípara espera da Enfermagem atenção, paciência, estar junto, dar
apoio e orientação nesta fase de adaptação, que ela considera uma experiência
única na sua vida. Todas estas etapas de desenvolvimento vividas pela mulher no
percurso da maternidade ir-se-ão manifestar em novas competências
psico-lógicas e sociais, entre as quais, a construção de uma identidade
materna própria, contextualizada às diferentes dimensões envolventes como:
( ) a relação conjugal, a dinâmica familiar, as características do bebé, a
profissão, as condições socioeconómicas existentes, a cultura e a sua própria
personalidade e estado de saúde (Santiago, 2009, p. 26).
Características do processo de transição paternal
A família é, habitualmente, a primeira referência para o indivíduo se
desenvolver enquanto ser social. Contudo, no ocidente, a família tem vindo a
organizar-se de formas diversas. A pressão económica e a revolução feminina
podem ser encaradas como fatores predisponentes para a alteração dos papéis.
Assim sendo, as circunstâncias sociais têm um papel preponderante na mudança.
Curiosamente, para Leal (2005), as novas formas de família e as técnicas de
reprodução medicamente assistida são outros fatores que importa salientar numa
perspetiva de aumento da participação masculina na partilha dos cuidados aos
filhos. A possibilidade de transferir o papel paternal de cariz obrigatório
para um de âmbito intencional resulta num maior envolvimento dos pais em todos
os aspetos da educação das crianças.
No contexto português são garantidos direitos especiais à mãe, relacionados com
o ciclo biológico da maternidade. Contudo, observa-se uma crescente valorização
do papel do pai. O Estado Português considera a maternidade e a paternidade
como valores sociais eminentes, constitucionalmente tutelados, cuja proteção
compete à sociedade e ao Estado.
Apesar desta evolução socio cultural do papel do homem neste período de vida da
família, ainda existe um longo caminho a percorrer, para alcançar a igualdade e
a equiparação entre pais e mães no desempenho do papel parental.
A análise dos depoimentos permitiu que da categoria Características do processo
de transição paternal emergissem as seguintes subcategorias: observante e
secundário.
Observante
O período logo após o nascimento é um dos momentos mais importantes para a
tríade. No entanto, este tempo de encontro muitas vezes não é possibilitado aos
pais por razões inerentes à orgânica dos serviços hospitalares, o que poderá
não ser facilitador do desenvolvimento do mesmo tipo de habilidades e
competências que a mãe adquire.
Os pais desenvolvem o processo de vinculação que se mantém pela proximidade e
interação com o bebé. Estes familiarizam-se e identificam o filho como um
indivíduo e reconhecem-no como o novo membro da família. Durante este
reconhecimento, examinam cuidadosamente o seu bebé, destacando as
características externas que a criança partilha com os outros membros da
família (Lowdermilk & Perry, 2008).
O processo de vinculação é facilitado pelo reforço positivo, ou seja, pelas
reações sociais, verbais e não verbais, que explicitam a aceitação de um
parceiro pelo outro. Contudo, não parece este o comportamento assumido pela
equipa de Enfermagem aquando da prestação de cuidados, uma vez que os pais
referem que: o meu papel foi observar, tentar aprender por observação, naquele
contexto também não tinha oportunidade para muito mais ( ) (E2);
( )enfermeira, bebé e a mãe, portanto eles os três interagiam e eu só observava
( ) (E9); ( ) quando prestavam os cuidados eu ficava ali só a ver ( )
(E11).
A chegada do filho transforma o casal, com o aparecimento de novas
responsabilidades. A participação, como cuidador do recém-nascido, permite
desenvolver um sentimento de interveniente ativo, o que promove, entre outras
coisas, o apoio, o incentivo e a promoção do aleitamento materno (Piazzalunga
& Lamounier, 2011).
Secundário
No passado, pensava-se que apenas as mulheres nasciam com aptidões inatas para
desempenharem o papel maternal como uma necessidade biológica, muitas vezes,
denominada de instinto maternal. No entanto, não existe evidência científica
que tal premissa seja verdadeira. Aliás, no início do século XX, as mulheres
eram consideradas incapazes e inferiores, dominadas por seus maridos. Estes
eram deixados à margem dos acontecimentos ligados à reprodução e criação dos
filhos (Caires & Vargens, 2012, p. 159). Contudo, nos anos oitenta do
século passado, começaram a surgir pesquisas científicas em torno da figura
paterna, nomeadamente a sua importância na educação dos filhos (Nogueira &
Ferreira, 2012, p. 58).
No entanto, a mulher foi desde sempre atriz principal neste processo de
parentalidade, tendo-se relegado o papel do pai para um âmbito mais secundário.
Concordantemente, os entrevistados afirmam que: o papel do pai na sociedade
atual ainda é visto como uma ajuda e não como um papel principal ( ) nós não
podemos ficar lá, e este é um dos handicaps ( )essa seria a parte mais
fundamental para nós, que também me tivesse sido facultada a possibilidade lá
ficar. (E3); ( ) a mãe e o bebé são os atores principais daqueles momentos,
eu era uma figura secundária ( ) não me recordo de nenhuma enfermeira ter ido
lá explicar determinado passo e me ter chamado ' pai venha ver ' não me
recordo. (E9).
Porém, tem surgido interesse na comunidade científica em perceber como o
exercício do papel paternal influencia o desenvolvimento da criança, o
envolvimento materno e o próprio pai enquanto pessoa, encarando este processo
de forma independente do género sexual dos progenitores.
Para Leal (2005), embora existam estudos que indicam determinantes de género
que influenciam as diferenças no exercício da parentalidade, este tipo de
pensamento guiado pelo determinismo biológico sofreu diversas críticas e é
pouco aceite pela comunidade científica. Contudo, ainda se mantém enraizado nas
práticas de cuidados, tal como foi possível constatar: não fui abordado por
nenhum profissional de saúde ( ) não tive nenhum tipo de abordagem
profissional. Parecia que eu não era essencial ali. (E4); Não me excluíram
quando iam prestar cuidados, mas também não me integraram. (E11); ( ) nem
sempre existe o esforço para chamar o pai a integrar os cuidados. O pai é
alguém, que parece aparecer ali de vez em quando e o cumprimentam ( ) realmente
é tudo muito centrado na mãe e no bebé. (E13).
Ser pai é um processo que tem início com a interiorização do desejo de ter um
filho (Leal, 2005). As crenças e os sentimentos do homem acerca do pai e da mãe
ideais, assim como a expetativa cultural sobre o comportamento mais adequado
condicionam as suas atitudes face às necessidades da companheira, sendo a
relação conjugal uma das dimensões mais desafiantes nesta transição (Graça,
Figueiredo, & Carreira, 2011).
Ao casal está inerente um processo de desenvolvi-mento de novos papéis, uma
transição do que até então era uma díade para uma tríade. O casal irá reajustar
a sua relação ao nível afetivo, das atividades quotidianas e do relacionamento
sexual. De acordo com Leal (2005, p. 242), há uma necessidade de
( )flexibilizar a aliança conjugal para formar a aliança parental ( ). Esta
aliança deve proporcionar apoio emocional, partilha de tarefas domésticas,
cuidados ao filho e à mulher (se esta necessitar), tomada de decisão acerca de
aspetos financeiros, profissionais e educação do filho, sendo que o apoio do
marido parece estar retratado como um papel de suporte, Torre (2001) e quanto
mais elevado for o nível de envolvimento paterno maior será a satisfação do
casal (Leal, 2005).
Consequentemente, o plano de cuidados desenvol-vido, para além de
individualizado, deve identificar qual o nível de envolvimento que o pai deseja
adotar e reforçar que cabe ao casal escolher a melhor forma de apoio mútuo e
decidir o modo como quer vivenciar a parentalidade. O contexto sociocultural no
qual são estabelecidas as relações mãe/pai e recém-nascido deve também ser
considerado, visto que, atualmente, vão sendo cada vez mais raros os modelos de
parentalidade observados com proximidade, o que, por sua vez, contribui para
que este projeto seja algo experienciado como totalmente novo e sem padrões de
referência.
A adaptação ao papel parental, em ambos os sexos, e apesar das diferenças
individuais de cada um dos progenitores, é um processo que exige capacidades de
ajustamento e adaptação ao acontecimento de crise desencadeado pelo nascimento
de um filho.
Neste sentido, a nossa investigação vem sustentar o corpo de conhecimentos
sobre as experiências maternas e paternas vivenciadas nas primeiras 48 horas
pós'parto eutócico em contexto hospitalar, contribuindo para enriquecer os
estudos que têm sido desenvolvidos acerca desta problemática (Lowdermilk &
Perry, 2008). Procura-se, deste modo, ajudar o enfermeiro a promover melhores
cuidados no âmbito da transição para a parentalidade.
Discutidas as diferentes categorias e as respetivas subcategorias, infere-se
que pais e mães querem ser ouvidos, conversar com alguém que tenha paciência e
lhes explique as suas dúvidas, necessitam de sentir confiança em quem cuida e
de encontrar respostas para as suas inquietações. Os enfermeiros são detentores
de competências técnicas, científicas, comunicacionais e relacionais para
interpretar as mensagens do casal, evitando dificuldades e acompanhando-os de
forma sensível e empática, de forma a permitir um apoio emocional e psicológico
em todo o processo de adaptação. Os profissionais envolvidos no cuidar não
podem perder de vista a compreensão dessas necessidades, dando oportunidade de
sistematizar o cuidado numa perspetiva integral, humanizada e com qualidade, de
modo que, na prática clínica, estratégias inovadoras possam e devam ser
desenvolvidas (Vasconcelos, Leite, & Scochi, 2006). A posição dos
enfermeiros na equipa de saúde pode e deve passar, também, pela identificação
de situações que possam prejudicar a adaptação a uma parentalidade positiva.
Contudo, a investigação nacional, realizada no âmbito deste objeto de estudo é
escassa, o que representou uma limitação, uma vez que não foi possível ter a
perceção do estado da arte no contexto do nosso país e posteriormente,
confrontar os dados obtidos. Quanto ao processo de recolha dos dados, o facto
de as entrevistas terem sido realizadas aos pais e às mães, na presença de
ambos os progenitores, pode ter dificultado a recolha de informação a um nível
mais aprofundado.
Para a realização de futuros estudos nesta área, poderá ser interessante
abranger mais instituições de saúde a nível nacional, de forma a obter
resultados mais representativos da realidade portuguesa.
Conclusão
A realização deste estudo permitiu compreender de que forma alguns progenitores
vivenciam a transição para a parentalidade durante o internamento após o
nascimento do primeiro filho, num determinado serviço de obstetrícia, testando
os resultados apresentados em bibliografia sobre esta problemática.
A análise dos dados permitiu diferenciar a vivência da parentalidade nas
primeiras 48 horas após o nascimento do primeiro filho saudável, conforme o
género dos progenitores - feminino versus masculino. A forma como pais e mães
vivenciam este período de tempo e o significado que atribuem aos acontecimentos
são expressos, relatados e sentidos de forma diferente.
Relativamente às características do processo de transição maternal, as
subcategorias identificadas foram: fatigante e ambivalente. Quanto ao processo
de transição paternal as características que estiveram na origem das
subcategorias foram: observante e secundário.
As figuras maternas destacam o cansaço físico e um estado psicológico que varia
entre a alegria e uma certa tristeza, que não conseguem especificar claramente.
Por outro lado, as figuras paternas vislumbram o seu papel como acessório, num
cenário em que mães e recém-nascido interpretam os papéis centrais.
Portanto, depreende-se que existe uma série de condicionantes à experiência da
transição para a parentalidade no pós-parto e que os enfermeiros são um
importante recurso na mobilização, otimização e antecipação dos mesmos, pois o
conhecimento do que é expectável é um dos factores facilitadores da transição
para a parentalidade, segundo o referencial teórico adoptado ' Teoria das
Transições. Após a alta hospitalar, pais e mães devem sentir confiança e
capacidade para assumir este novo papel de vida.
Assim, à medida que a hospitalização decorre, os pais devem participar e
assumir de forma crescente o controlo dos cuidados, sendo o papel da equipa de
Enfermagem fulcral neste âmbito, através de competências técnicas e
científicas, mas também no desenvolvimento de estratégias que possibilitem
identificar claramente as necessidades dos proge-nitores, para que os
cuidados de Enfermagem sejam promotores da transição para a parentalidade.