Cultura organizacional da família como preditor das atitudes e comportamentos
sexuais em adolescentes
Introdução
A adolescência é conhecida como um período marcado por profundas mudanças
internas e externas, que ocorrem a nível biológico, psicológico e social, num
processo de desenvolvimento da sua identidade, em que o adolescente se prepara
“para um longo processo de emancipação da tutela parental” (Fleming, 2005, p.
61). Neste período, a cultura familiar e os estilos educativos adotados pelos
pais poderão conduzir o adolescente para atitudes e comportamentos de risco,
designadamente na esfera sexual. Deste modo, a educação sexual deve ser uma
área prioritária e a sua abordagem deve ser pensada e planeada para ir ao
encontro das suas necessidades. Neste sentido, o enfermeiro possui um papel
relevante como educador, na promoção de uma sexualidade saudável e responsável.
O enfermeiro deve participar na elaboração e operacionalização destes programas
de educação sexual que, tal como refere a United Nations Educational,
Scientific and Cultural Organization (UNESCO, 2009), devem ter como objetivos
aumentar o conhecimento e compreensão no âmbito da sexualidade; explicar e
esclarecer sentimentos, valores e atitudes; desenvolver ou reforçar
competências nesta área e promover e apoiar o comportamento saudável,
minimizando o risco. Nestes programas devem também ser incluídos os pais, uma
vez que programas de educação sexual abrangentes que incluem os pais podem ser
mais eficazes no retardar do início das relações sexuais para adolescentes, uma
vez que as atividades familiares podem encorajar os pais a conversar com os
seus filhos mais cedo e com mais frequência (Grossman, Tracy, Charmaraman,
Ceder, & Erkut, 2014).
Os enfermeiros necessitam assim de compreender como determinadas variáveis,
entre as quais, estilos educativos e cultura familiar se relacionam com os
comportamentos e atitudes sexuais dos adolescentes, para que se possam desenhar
intervenções educativas e preventivas mais eficazes na prevenção dos
comportamentos de risco. Deste modo, estabeleceu-se como objetivo para este
estudo analisar o efeito preditor da cultura organizacional da família nas
atitudes e comportamentos sexuais dos adolescentes do 9º ano.
Enquadramento
A cultura familiar poderá dizer-nos muito sobre a forma como determinada
família funciona, como os seus elementos se relacionam e se influenciam. Nave
(2006), estudando os padrões da cultura organizacional da família concluiu que
os tipos de cultura organizacional adotados pelas famílias são preditores de
satisfação familiar e de perceção positiva de funcionalidade familiar na
perspetiva dos filhos.
Noutro estudo, Ferreira et al. (2013), tendo por base os quatro tipos de
cultura familiar identificados por Nave (2006), designadamente, Cultura das
Relações Interpessoais, Culturas Heurística, Cultura Hierárquica e Cultura dos
Objetivos Socias, avaliaram o tipo de cultura adotada por cada família e
compararam os resultados com as atitudes dos adolescentes em relação à
sexualidade. Estes autores verificaram que os adolescentes que têm uma atitude
má em relação à sexualidade, na sua maioria, apresentam fraca perceção da
Cultura das Relações Interpessoais. Já a Cultura Familiar Hierárquica e a
Cultura Familiar dos Objetivos Sociais apresentaram-se como moderadas.
Num estudo multinacional, realizado por Madkour et al. (2014), em que foram
inquiridos jovens entre os 15 e os 20 anos e pais com idades dos 31 aos 65 anos
de 17 países europeus, os resultados confirmaram a influência de normas
culturais sobre o comportamento sexual dos adolescentes, nomeadamente sobre o
momento da iniciação sexual.
Também Dias, Matos, e Gonçalves (2007), no seu estudo sobre a perceção dos
adolescentes acerca da influência dos pais e pares nos seus comportamentos
sexuais, afirmaram a importância do estilo parental, concordando com vários
outros autores que defendem que o estilo parental deve promover a autonomia e a
autodescoberta, uma vez que são aspetos que “estão associados com a competência
social e psicológica e diminuem a probabilidade do envolvimento em
comportamentos sexuais de risco” (p.631). No estudo conduzido por estes mesmos
autores (Dias et al., 2007), os jovens consideraram que o estilo parental
autoritário pode ter um efeito adverso, uma vez que que lhes é dada pouca
autonomia ou segurança. No que respeita ao estilo parental democrático, os
jovens consideraram que a adoção deste estilo pode evitar comportamentos de
risco uma vez que “os pais não proíbem, mas estão vigilantes e alertam para os
perigos, promove a responsabilização, proporciona um sentimento de confiança,
uma maior vontade de respeitar os pais” (p.628). Ainda neste estudo, os autores
descobriram que a adoção dos estilos autoritário ou permissivo são
considerados, pelos jovens, como fatores que podem conduzir a comportamentos
sexuais de risco, tendo sido observada uma associação entre uma menor
supervisão parental e a participação dos adolescentes em mais comportamentos de
risco, designadamente o início precoce da atividade sexual e as relações
sexuais desprotegidas. Ainda no âmbito da influência dos pais sobre os
comportamentos de risco, Huang, Murphy, e Hser (2011) realizaram um estudo
sobre a monitorização dos pais durante a adolescência, definindo quatro níveis
de monitorização parental: alta, crescente, decrescente e baixa. Os seus
resultados evidenciaram uma maior probabilidade de o sexo masculino ter um
baixo acompanhamento parental e terem maior probabilidade em iniciar relações
sexuais antes dos 14 anos. Constataram ainda que um acompanhamento parental
alto, em oposição a um baixo, resultaria num adiamento da iniciação sexual de
um adolescente cerca de 1,5 anos. Estes autores consideraram importante
promover uma comunicação e relações de confiança mútua entre pais e filhos,
sugerindo que nunca é tarde demais para os pais aumentarem o acompanhamento do
adolescente. Hutchinson et al. (2012) procuraram identificar as formas como as
mães influenciavam as crenças e comportamentos sexuais das suas filhas
adolescentes e identificaram influências maternas em quatro áreas: a qualidade
do relacionamento; a comunicação sexual; a monitorização ou supervisão e
modelagem do papel sexual materno. Dentro de cada categoria, mães e filhas
identificaram influências maternas positivas e promotoras de saúde e outras
negativas e promotoras de uma atividade sexual de risco, o que permitiu
melhorar o projeto de intervenção sexual junto das adolescentes e suas mães.
Segundo Costa, Pereira, e Leal (2012), os pais portugueses parecem estar a usar
mais frequentemente comportamentos de reforço positivo, estabelecimento de
regras e limites e reforço da autonomia em vez de castigos físicos ou ignorarem
os pedidos dos filhos, o que pode ser um sinal positivo na prevenção de
comportamentos de risco.
Para Santos (2010; 2011), a teoria sistémica permite compreender a família,
considerando-a como um todo integrado e complexo, que possui características
próprias e que não é redutível às suas partes. A família carateriza-se por
constantes interações, onde cada membro influencia e é influenciado. O mesmo
autor considera que é a repetição constante de alguns fatores ao longo do
tempo, como a comunicação estabelecida, a interdependência, as ações e reações
e os padrões transacionais que permitem regular os comportamentos dos diversos
elementos que constituem a família.
Na formação do individuo, a relação familiar que se estabelece é muito
importante, sendo uma das principais fases deste desenvolvimento a adolescência
(Santos, Rodrigues, & Almeida, 2010). No estudo de Dias et al. (2007) os
adolescentes, na sua maioria, consideraram que são os pais que não se sentem à
vontade para falar com os filhos. Estes referem também que “muitas vezes, os
pais não detêm conhecimentos ou as informações mais correctas” (p. 627). Por
outro lado, podem ser os próprios jovens, a evitar o diálogo com os pais por
não se sentirem à vontade (Dias et al., 2007). Também Castro e Rodrigues (2009)
constataram que apenas 17,1% dos adolescentes afirmaram falar com pais sobre
estes assuntos. As razões apontadas pelos adolescentes neste estudo, foram: não
ser um assunto para falar com os pais (33,81%) e a vergonha ou receio (32,05%).
Segundo Vilar e Ferreira (2009), as raparigas optam claramente pela mãe para a
abordagem de todos os assuntos, enquanto nos rapazes não existe uma preferência
evidente por qualquer dos progenitores. Os adolescentes deste estudo
consideraram que a qualidade da relação que estabelecem com os pais é muito
importante para que haja uma comunicação efetiva. Quando esta comunicação no
âmbito da sexualidade se mostra positiva, pode ajudar na resolução de
problemas, funcionando como uma fonte de suporte e apoio mais importante até do
que os amigos. Os adolescentes referem também que esta comunicação por si só,
não tem resultados positivos, mas quando a relação com os pais se mostra
distante, “assiste-se, normalmente, a um aumento da influência dos pares nas
questões sexuais” (Dias et al., 2007, p. 631). Outros autores defendem que a
frequência e a qualidade da comunicação entre pais e adolescentes podem não ser
suficientes para diminuir os comportamentos sexuais de risco, uma vez que não
será o único fator. Contudo pode ser um passo importante para existir uma
conversa aberta e confortável entre pais e adolescentes no âmbito da
sexualidade (Schouten, Putte, Pasmans, & Meeuwesen, 2007). Desta forma, as
influências que os pais possuem sobre os filhos, devem-se em grande parte à
qualidade da relação que estes estabelecem com eles.
Embora a investigação aborde frequentemente a influência da comunicação na
família sobre os comportamentos e atitudes sexuais dos adolescentes, a cultura
familiar é uma variável ainda pouco abordada.
Questão de investigação
Decorrente do objetivo da investigação e com base na revisão teórica efetuada
em torno da problemática em estudo, colocou-se como questão de investigação:
Existe relação entre a cultura da família e as atitudes e comportamentos
sexuais dos adolescentes do 9º ano? Como hipótese de investigação equacionou-
se: A cultura da família tem um efeito preditor nos comportamentos e atitudes
sexuais dos adolescentes.
Metodologia
O presente estudo define-se como um estudo de natureza quantitativa, de tipo
descritivo-correlacional e transversal. Nesta investigação participaram 364
adolescentes do 9º ano do ensino regular, a frequentar a escola no ano letivo
2011/2012, correspondentes a 76,31% da população de três agrupamentos de
escolas localizados no interior norte de Portugal. A idade dos participantes
foi, em termos médios, de 14 anos e 6 meses, variando entre os 14 e os 18 anos,
144 (39,6%) dos quais do sexo masculino e 220 (60,4%) do sexo feminino. A
seleção dos elementos da amostra foi realizada com base no método não
probabilístico, intencional e por conveniência. Foram considerados como
critérios de inclusão: estar matriculado no 9º ano do ensino regular e
frequentar uma instituição de ensino, estar presente na aula aquando da
colheita de dados, ter autorização dos pais/encarregados de educação para o
preenchimento dos questionários e não se opor pessoalmente a isso.
O presente estudo integra-se no projeto de investigação: Monitorização de
Indicadores de Saúde Infanto-Juvenil: Impacto na Educação para a Saúde,
aprovado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, da equipa de
investigadores do Instituto Politécnico de Viseu (Escola Superior de Saúde de
Viseu), da Universidade de Évora e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro, coordenado pelo Professor Doutor Carlos Albuquerque. O projeto foi
registado em 5 de setembro de 2011 (com o número de registo 0071200008) e
aprovado pela Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular como
Projeto, PTDC/CPE-CED/103313/2008 em 22 de setembro do mesmo ano. Foram tidos
em consideração todos os requisitos éticos, como a aprovação do estudo pela
Direção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular e autorização escrita
dos pais. Também a participação dos adolescentes no estudo foi voluntária, com
a possibilidade de desistência e garantia de anonimato e confidencialidade dos
dados.
A recolha dos dados foi realizada entre março e maio de 2012, através de
questionários, que foram entregues em mão em cada agrupamento de escolas. Os
questionários foram acompanhados de uma carta explicativa, onde constavam o
projeto em que o estudo se inseria e o seu objetivo, a duração média de
preenchimento, os contactos telefónicos e correio eletrónico, para
esclarecimento de dúvidas. Antes da recolha de dados foi realizada uma reunião
com os coordenadores de diretores de turma para explicar os objetivos e a forma
de colheita de dados.
O Instrumento de colheita de dados utilizado foi o questionário construído no
âmbito do estudo supramencionado. Deste questionário foi utilizada a primeira
parte, que inclui questões relativas a aspetos sociodemográficos (sexo, idade)
e comportamentos e atitudes sexuais, designadamente: ter namorado, ter com quem
falar sobre sexualidade, ter relações sexuais, fazer contraceção, contraceção
de emergência, importância do uso de preservativo nas relações sexuais e a
experiência de relacionamento íntimo e sexual. Da segunda parte foram
utilizados o Inventário da Cultura Organizacional da Família (ICOF), que
permite avaliar a funcionalidade familiar (Nave, 2006) e a escala de Atitudes
Face à Sexualidade em Adolescentes (AFSA), que procura analisar as atitudes dos
adolescentes face à sexualidade (Nelas, Fernandes, Ferreira, Duarte, &
Chaves, 2010).
O ICOF, construído e validado para a população portuguesa por Nave (2006) é, na
versão apresentada, constituído por 25 itens distribuídos por quatro escalas de
resposta tipo Likert variando desde Nunca (1) até Sempre (6). A cotação do
inventário tem o mínimo de 25 pontos e um máximo de 150. O ICOF permite avaliar
a funcionalidade das famílias através dos diferentes padrões culturais da
organização familiar. As quatro dimensões ou escalas que compõem o ICOF são: a
escala da Cultura das Relações Interpessoais (CRI), com nove itens (1, 5, 7,
11, 12, 14, 15, 16 e 25); a escala da Cultura Heurística (CHE), com cinco itens
(4, 18, 20, 21 e 22); a escala da Cultura da Hierarquia (CHI), com cinco itens
(2, 6, 9, 13 e 19) e a escala da Cultura dos Objetivos Sociais (COS), com seis
itens (3, 8, 10, 17, 23 e 24), sendo invertidos os itens 11 e 14, que são
cotados em sentido contrário, para que o total de cada escala corresponda a um
único sentido de resposta. O estudo das qualidades psicométricas do ICOF
revelou valores do alfa de Cronbach superiores a 0,70, com um valor de alfa de
Cronbach de 0,93 para o inventário total. A consistência interna das quatro
escalas aponta para valores considerados satisfatórios: a escala da Cultura das
Relações Interpessoais (CRI) apresenta um α = 0,81, a escala da Cultura
Heurística (CHE) apresenta um α = 0,87, a escala da Cultura da Hierarquia (CHI)
apresenta um α = 0,73 e a escala da Cultura dos Objetivos Sociais (COS)
apresenta um α = 0,76. Na (Tabela_1) podemos comparar a consistência interna
obtida neste estudo comparativamente aos valores da consistência interna
obtidos no estudo realizado por Nave (2006).
De acordo com Nave (2006), a Cultura das Relações Interpessoais no seio da
família considera aspetos como as competências gregárias através das quais se
avalia o que a família gosta de fazer em conjunto, as competências
comunicacionais e as competências de sentimento de proximidade e coesão. Na
avaliação da capacidade heurística da família, o autor considera como elementos
fundamentais as competências de co-evolução, onde se avalia a capacidade da
família para ultrapassar as crises, a competência de criatividade onde se
encontram as soluções para os problemas e as competências de inovação. No que
respeita a Cultura Hierárquica, o autor considera como fundamental avaliar a
competência de estabelecer e respeitar os limites, as regras e o espaço
hierárquico no seio da família, bem como a competência de estabelecer e cumprir
papeis. Na dimensão Cultura dos Objetivos Sociais avaliam-se as competências de
construir e manter determinada imagem social, de estabelecer relações sociais,
a integração social e a competência de adotar comportamentos sociais aceites.
Conclui-se, tal como Nave (2006) que as quatro escalas, constituintes do
Inventário da Cultura Organizacional da Família (ICOF), apresentam uma
estabilidade temporal perante diferentes tamanhos de amostras uma vez que
mantêm as suas qualidades psicométricas.
A Escala de Atitudes Face à Sexualidade em Adolescentes (AFSA) é uma escala de
avaliação das atitudes dos adolescentes face à sexualidade. Esta escala foi
construída e validada por Nelas et al. (2010) e é constituída por 26 itens
elaborados em escala ordinal tipo Likert, possuindo cada item cinco
alternativas de resposta variando desde Discordo totalmente (1) e Concordo
totalmente (5). Os itens 1, 2, 4, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 18, 19, 20, 22, 23
e 24 são cotados inversamente. Tal como Nelas et al. (2010) optou-se por
utilizar esta escala como escala unifatorial pela sua relevância conceptual e
pela importância que possui enquanto constructo.
A pontuação global da escala na avaliação das atitudes varia de 28 a 140 e
quanto mais elevado o valor, mais favoráveis são as atitudes dos adolescentes
face à sexualidade. São exemplos dos itens, em que o adolescente tem de
assinalar o seu grau de concordância relativamente às afirmações apresentadas:
afirmação (5) - A primeira relação sexual deveria ser sempre com alguém que eu
amo; afirmação (14) – Seria incapaz de falar de assuntos sobre a sexualidade
com os meus pais.
Relativamente à avaliação das qualidades psicométricas da escala AFSA, no que
se refere à consistência interna, apresentou um alpha de Cronbach de 0,81. Este
valor é igual ao valor obtido no estudo realizado por Nelas et al. (2010), no
qual participaram 840 sujeitos.
Resultados
Para analisar o efeito preditor da cultura organizacional da família sobre os
comportamentos e atitudes sexuais dos adolescentes, foi realizada uma análise
de regressão por etapas. Os resultados evidenciaram que apenas as variáveis
Cultura das Relações Interpessoais, a Cultura Hierárquica e a Cultura
Heurística predizem significativamente as atitudes e comportamentos sexuais,
com um coeficiente de determinação ajustado [r2=.127 e F (360,3) = 18,599, p ≤
.001], tendo sido excluída do modelo a variável Cultura dos Objetivos Sociais.
A análise dos valores absolutos dos coeficientes de regressão estandardizados
permite-nos concluir que existe uma associação positiva das atitudes sexuais
com a Cultura das Relações Interpessoais, (β=.236, p=.005), e a Cultura
Heurística, (β=.312, p ≤ .001), e uma associação negativa com a Cultura
Hierárquica, (β= -.247, p ≤ .001), sendo a variável Cultura Heurística, a que
apresenta a maior contribuição relativa para explicar as atitudes sexuais
(β=.312).
(Tabela_2)
Discussão
Ao analisar o efeito preditor da cultura da família nos comportamentos e
atitudes sexuais dos adolescentes, os resultados permitem evidenciar uma
associação positiva das atitudes sexuais com a Cultura das Relações
Interpessoais e Cultura Heurística e uma associação negativa com a Cultura
Hierárquica, sendo a variável Cultura Heurística a que apresenta a maior
contribuição relativa para explicar as atitudes sexuais (β=.312). Segundo Nave
(2006), que estudou os padrões da cultura organizacional da família, na
avaliação da cultura das relações interpessoais no seio da família são
considerados como aspetos importantes as competências gregárias através das
quais se avalia o que a família gosta de fazer em conjunto, nas competências
comunicacionais e nas competências de sentimento de proximidade e coesão. No
que respeita à avaliação da capacidade heurística da família, o mesmo autor
considera como elementos fundamentais as competências de co-evolução, onde se
avalia a capacidade da família para ultrapassar as crises, a competência de
criatividade, pela qual se encontram as soluções para os problemas, e as
competências de inovação. Deste modo, a relação positiva entre as atitudes
sexuais com a Cultura das Relações Interpessoais e a Cultura Heurística pode
ser explicada tendo em conta que numa ótima relação pais-filhos, onde exista
uma comunicação eficaz centrada no respeito entre os membros e na resolução de
problemas, o adolescente vê a família como uma fonte de apoio e suporte,
estabelecendo-se uma relação positiva entre ambos (Dias et al., 2007). No que
respeita à Cultura Hierárquica, recorre-se mais uma vez a Nave (2006), de forma
a compreendermos quais os aspetos fundamentais a avaliar neste tipo de cultura.
Aqui o autor considera fundamental a competência de estabelecer e respeitar os
limites, as regras e o espaço hierárquico no seio da família, bem como a
competência de estabelecer e cumprir papeis. Neste estudo foi observada uma
associação negativa dos comportamentos e atitudes sexuais com a Cultura
Hierárquica. Tal como referem Dias et al. (2007), existem fatores familiares
que podem funcionar como fatores de risco ou proteção para o adolescente, como
o ambiente familiar e as relações familiares, a comunicação sobre sexualidade
entre pais e filhos, o estilo parental e a supervisão/monitorização parental. A
Cultura Hierárquica poderá comparar-se ao estilo educativo autoritário descrito
por Baumrind (1966), o qual carateriza os pais que exercem um enorme controlo
através de ordens, que não podem ser questionadas e do recurso a medidas
punitivas. Este tipo de comportamento parental centra-se num elevado nível de
controlo, centrado no poder dos pais (hierárquico), no uso constante de
práticas disciplinadoras e de pouco afeto positivo. Deste modo, tal como
referem Dias et al. (2007), este estilo parental autoritário ou cultura
hierárquica da família, pode ter um efeito adverso, na medida em que a
proibição e a imposição de regras muito rígidas podem incentivar comportamentos
de risco. Segundo Nave (2006), a Cultura Hierárquica (regras, normas, papeis e
limites) contrasta com a Cultura Heurística (autonomia, inovação,
criatividade). Este autor defende que é necessário existir um determinado
equilíbrio entre ambas para que haja uma funcionalidade familiar, considerando
que para “as regras e os papeis se constituam como elemento fundamental é
necessário que a autonomia e a criatividade surjam como moderadoras e
complementares” (Nave, 2006, p. 107). No presente estudo, a variável que
apresenta a maior contribuição para explicar as atitudes e comportamentos
sexuais é a Cultura Heurística. Estes resultados podem ser explicados pelo
facto de uma maior satisfação familiar poder corresponder, em parte, a um forte
investimento da família nas capacidades heurísticas, capacidades estas que
facilitam a mudança e a resiliência (Nave, 2006). Estas capacidades apresentam-
se deste modo como imprescindíveis para lidar com um filho adolescente, uma vez
que a adolescência é um período conturbado, marcado por transformações que
ocorrem a nível biológico, psicológico e social, exigindo da família
criatividade e adaptação de forma a lidar com as diversas situações. As
capacidades heurísticas da família justificam assim que as atitudes sexuais dos
adolescentes possam ser mais positivas e equilibradas.
Quando analisado o efeito preditor da família nos comportamentos e atitudes
sexuais dos adolescentes, constatamos que os resultados deste estudo vão ao
encontro de resultados de estudos realizados anteriormente. Cardoso, Rodrigues,
Nelas, e Duarte (2010), num estudo com adolescentes do 9º ano, descobriram que
a satisfação com a família era um dos preditores da afetividade, crenças a
atitudes face à sexualidade. Noutro estudo, Dias e Rodrigues (2009) concluíram
que os preditores da relação entre pais e filhos, na sua globalidade,
contribuíam de modo significativo para a atitude sexual do adolescente. Outros
autores também reforçam esta ideia quando referem que na formação do indivíduo,
a qualidade da relação que a família estabelece, bem como os valores e as
atitudes que transmitem, influenciam as atitudes e comportamentos sexuais (Dias
et al., 2007; Ferreira et al., 2013; Grossman et al., 2014; Hutchinson et al.,
2012; Santos et al., 2010; Schouten et al., 2007; UNESCO, 2009;). Estes
resultados podem ser explicados tendo por base o modelo contextual de estilo
parental de Darling e Steinberg (1993), segundo os quais, quer o estilo
parental quer as práticas parentais possuem um efeito sobre os resultados
específicos de desenvolvimento da criança. Consideram-se também as conclusões
de Dias et al. (2007), os quais referem que uma relação positiva e uma
supervisão parental são fatores importantes que podem contribuir para
influenciar de forma positiva, atitudes e comportamentos sexuais dos
adolescentes, devendo promover a sua autonomia e autodescoberta.
Conclusão
Relativamente ao efeito preditor da Cultura da Família nos comportamentos e
atitudes sexuais, verificou-se que as variáveis Cultura das Relações
Interpessoais, Cultura Hierárquica e Cultura Heurística predizem
significativamente as atitudes e comportamentos sexuais dos adolescentes. Os
resultados desta investigação permitem afirmar que existe uma associação
positiva das atitudes sexuais com a Cultura das Relações Interpessoais e a
Cultura Heurística e a uma associação negativa com a Cultura Hierárquica, sendo
a Cultura Heurística a que apresenta a maior contribuição relativa para
explicar as atitudes sexuais. A associação positiva existente entre as atitudes
sexuais e a Cultura das Relações Interpessoais e a Cultura Heurística corrobora
resultados de anteriores estudos em que a família é vista como uma fonte de
apoio e suporte, tendo por base uma ótima relação pais-filhos, uma comunicação
eficaz e ajuda na resolução de problemas (Baumrind, 1966; Cardoso et al., 2010;
Darling & Steinberg, 1993; Dias et al., 2007; Dias & Rodrigues, 2009;
Ferreira et al., 2013; Grossman et al., 2014; Hutchinson et al., 2012; Santos
et al., 2010; Schouten et al., 2007; UNESCO, 2009). Outros autores ajudam-nos a
compreender este efeito preditor explicando a forma como vários fatores
familiares influenciam os comportamentos e atitudes sexuais dos adolescentes.
A realização deste estudo permite consciencializar para a importância da
implementação de programas e projetos em meio escolar no âmbito da sexualidade,
que tem sido da responsabilidade dos enfermeiros, envolvendo não só os
adolescentes, mas também os pais e a restante comunidade educativa. O
comportamento parental deve ser considerado como um dos fatores essenciais na
relação que se estabelece entre pais e filhos, uma vez que os estilos e as
práticas parentais adotadas podem determinar as atitudes e os comportamentos
dos adolescentes face ao envolvimento em comportamentos de risco. Assim, estes
resultados vão permitir que os enfermeiros possam construir e implementar
programas de educação sexual em meio escolar mais estruturados, correspondendo
às reais necessidades dos adolescentes na escola. Em estudos futuros seria
importante averiguar qual a dimensão da cultura familiar que mais se relaciona
com práticas saudáveis, sugerindo-se deste modo recorrer a adolescentes mais
velhos que têm uma vida sexual mais ativa. Igualmente importante seria
averiguar a cultura organizacional da família recorrendo aos pais, uma vez que
apenas se considerou neste estudo a perceção dos adolescentes. Deste modo,
estudos futuros com outras variáveis e outros intervenientes poderão permitir
obter outras informações necessárias para a compreensão das atitudes e
comportamentos sexuais dos adolescentes, no sentido de uma planificação mais
adequada do trabalho do enfermeiro em contexto escolar.